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A Estação: Memórias e Silêncios

A estação de trem, isolada e esquecida, conecta lugares e histórias através de trilhos enferrujados e objetos abandonados. O ambiente evoca uma sensação de espera interminável, onde o tempo parece distorcido e os ecos de viagens passadas permanecem. Mesmo sem função clara, a estação existe em sua solidão, refletindo a continuidade de um espaço que não precisa ser lembrado para continuar.

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Rayanne Bernardo
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A Estação: Memórias e Silêncios

A estação de trem, isolada e esquecida, conecta lugares e histórias através de trilhos enferrujados e objetos abandonados. O ambiente evoca uma sensação de espera interminável, onde o tempo parece distorcido e os ecos de viagens passadas permanecem. Mesmo sem função clara, a estação existe em sua solidão, refletindo a continuidade de um espaço que não precisa ser lembrado para continuar.

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Estação

A estação de trem ficava no meio de lugar nenhum e, ao mesmo tempo, parecia ligada a
todos os lugares possíveis. Trilhos enferrujados seguiam em direções que ninguém mais
lembrava para onde levavam. Não havia mapas atualizados, apenas placas antigas
apontando cidades que talvez ainda existissem ou talvez só continuassem ali por hábito.

Um trem passou sem parar, mesmo não havendo ninguém esperando. As janelas refletiam
o céu de forma distorcida, como se o mundo estivesse um pouco desalinhado naquele dia.
O som das rodas ecoou por mais tempo do que deveria, criando a sensação de que algo
ainda estava chegando, mesmo depois de já ter ido embora.

No banco de madeira da plataforma, uma mochila esquecida repousava como se estivesse


guardando pensamentos alheios. O vento brincava com o zíper aberto, revelando papéis
amassados, um caderno sem capa e uma caneta que não escrevia mais. Ainda assim, tudo
permanecia ali, cumprindo seu papel silencioso.

O relógio da estação marcava horas diferentes dependendo do ângulo de quem olhava.


Alguns juravam que estava atrasado, outros diziam que nunca esteve tão certo. O fato é
que ninguém realmente precisava saber a hora exata, mas o relógio insistia em existir.

Pássaros pousavam nos fios elétricos e partiam sem aviso. Nenhum deles parecia
interessado na estação, mas todos passavam por ela, como se fosse uma regra invisível do
caminho. As sombras se moviam devagar, alongando-se sobre o chão rachado.

Uma mala antiga apareceu perto dos trilhos, coberta de adesivos desbotados. Cada adesivo
representava um lugar que já tinha sido importante por algum motivo esquecido. A mala não
se mexia, mas parecia carregada de histórias que não tinham pressa de ser contadas.

O cheiro de ferro misturado com poeira preenchia o ar. Era um cheiro constante, que não
incomodava, apenas lembrava que o tempo também deixa resíduos. Um pedaço de papel
rolou pelo chão, parou, depois continuou, como se estivesse indeciso sobre ir embora de
vez.

A luz da tarde começou a mudar sem pedir autorização. Tons dourados surgiram,
desapareceram e deram lugar a algo mais frio. A estação reagiu a isso ficando ainda mais
silenciosa, como se estivesse prestando atenção.

De repente, um apito distante soou, mas nenhum trem apareceu. O som ficou suspenso no
ar por alguns segundos antes de se dissolver. Ninguém comentou. Talvez nem houvesse
alguém ali para comentar.

As paredes da estação tinham inscrições antigas, palavras riscadas sobre palavras,


mensagens sem destinatário. Algumas datas estavam incompletas, como se alguém tivesse
desistido no meio da contagem. Nada parecia exigir correção.
Quando a noite chegou, as luzes da plataforma piscaram antes de acender. Iluminaram
exatamente o necessário e nada além disso. A estação continuou ali, conectando caminhos
invisíveis, esperando por algo que talvez nunca chegasse, e ainda assim completa em sua
espera interminável.

A estação não demonstrava cansaço por existir tanto tempo sem função clara. Ela
simplesmente permanecia. Os trilhos frios guardavam o eco de viagens antigas, e cada
parafuso parecia segurar não apenas metal, mas também momentos que ninguém mais
reivindicava como seus.

Em um canto, um poste de luz tremia levemente, mesmo sem vento. O som era quase
imperceptível, um zumbido baixo que se misturava com o silêncio geral. Quem passasse
por ali talvez nem notasse, mas o poste continuava tremendo, fiel ao seu pequeno
movimento inútil.

O chão da plataforma tinha marcas de passos sobrepostos, indo e vindo, cruzando-se sem
formar um caminho definido. Eram rastros de gente que chegou sem saber por quê e saiu
sem levar nada além do próprio peso. Ainda assim, os passos ficaram.

Uma porta lateral da estação rangia de vez em quando, abrindo alguns centímetros e
fechando sozinha. Atrás dela havia apenas um depósito vazio, com caixas quebradas e um
calendário antigo preso na parede, parado em um mês qualquer que ninguém se deu ao
trabalho de atualizar.

A lua apareceu por trás das nuvens com pouca convicção. Não iluminava muito, mas o
suficiente para refletir nos trilhos e criar linhas prateadas que pareciam apontar para
direções inventadas. A estação parecia maior à noite, como se o escuro expandisse o
espaço.

Um gato atravessou a plataforma lentamente, parou no meio, sentou e começou a se


limpar. Não parecia perdido, nem apressado. Apenas escolheu aquele lugar entre tantos
outros para existir por alguns minutos.

O vento voltou, trazendo um frio leve e o barulho distante de algo se movendo longe demais
para ser identificado. Nada chegou perto. Nada precisou chegar. A estação continuou sendo
o ponto final e o ponto inicial de coisas que nunca se encontraram.

Quando tudo ficou quieto outra vez, não houve encerramento, nem sensação de fim.
Apenas a continuidade silenciosa de um lugar que não precisava ser lembrado para
continuar ali.

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