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Conferência de Beijing e Fundamentalismos

O documento discute a IV Conferência Mundial sobre a Mulher realizada em Beijing, destacando o contexto de fundamentalismos que afetam os direitos das mulheres globalmente. A conferência, que reuniu uma grande mobilização de participantes, visava abordar e promover a igualdade de gênero, apesar dos desafios impostos por governos de orientação fundamentalista. O texto também reflete sobre a intersecção entre os avanços dos direitos femininos e as reações de fundamentalismos religiosos e neoliberais contemporâneos.

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Conferência de Beijing e Fundamentalismos

O documento discute a IV Conferência Mundial sobre a Mulher realizada em Beijing, destacando o contexto de fundamentalismos que afetam os direitos das mulheres globalmente. A conferência, que reuniu uma grande mobilização de participantes, visava abordar e promover a igualdade de gênero, apesar dos desafios impostos por governos de orientação fundamentalista. O texto também reflete sobre a intersecção entre os avanços dos direitos femininos e as reações de fundamentalismos religiosos e neoliberais contemporâneos.

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17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais

A CONFERÊNCIA DE BEIJING E OS
FUNDAMENTALISMOS*

A CONFERÊNCIA DE BEIJING E OS FUNDAMENTALISMOS*


Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. 15 | p. 104 | Jul / 1996
Doutrinas Essenciais de Direito Penal | vol. 6 | p. 837 | Out / 2010
Doutrinas Essenciais de Direitos Humanos | vol. 6 | p. 787 | Ago / 2011DTR\1996\240
José Augusto Lindgren Alves

Área do Direito: Geral

Sumário:

1.O contexto da Conferência - [Link] documentos de Beijing - 4.A plataforma de ação de Beijing -
5.A Declaração de Beijing - 6.A preparação e a participação do Brasil - [Link]ão

1. O contexto da Conferência
Das fogueiras medievais expiatórias da "bruxaria" aos estupros coletivos como instrumento de
faxina étnica na Bósnia de nossos dias, a mulher tem sido, numérica, concreta e simbolicamente, o
alvo preferencial de todos os fundamentalismos que sempre infestaram o mundo.
Como que para confirmar essa trágica verdade em nosso próprio território, a imagem vilipendiada
por determinado "bispo" brasileiro, em 12.10.1995, com chutes e pancadas destinadas a
comprovar sua ineficácia milagreira, não foi a de Jesus, histórico ou divino. Nem a de um São
Benedito de devoção especial entre os negros, muito menos a de um São Jorge guerreiro, viril
vencedor do dragão, ambos igualmente reverenciados pela população do Brasil. Foi, sim, debaixo
do manto místico de Nossa Senhora, a de Maria, mulher, mãe e pobre no registro dos evangelhos,
e, incidentalmente, no caso, negra, na concreção da matéria oxidada com que se tornou
Aparecida.
Ainda que, ao agredir a imagem da santa no programa televisionado do Dia da Padroeira, Von
Helde desejasse apenas justificar a rejeição protestante à "idolatria" católica por estatuetas,
femininas ou masculinas, o episódio - cuja grosseria banal, reiterada pelas retransmissões
insistentes da cena, reacendeu no Brasil chamas da intolerância religiosa tão inflamada alhures - é
significativo das circunstâncias planetárias em que se realizou a IV Conferência Mundial sobre a
Mulher. Com simbologia clara e interligações evidentes, ele conota o turbilhão de fenômenos e
tendências que caracterizam a contemporaneidade pós-Guerra Fria: a revalorização do sagrado
em detrimento da razão secular; o fanatismo messiânico sempre intolerante e brutal; a televisão
como principal meio de comunicação e veículo cultural da globalização; a violência difusa; o
comunitarismo religioso como alternativa à atomização individual moderna; o racismo agressivo -
nesse caso meramente acidental - tão exacerbado na maior parte do mundo; a supervalorização
do sucesso individual e do dinheiro na ideologia do neoliberalismo, habilmente utilizada nas práticas
da Igreja Universal do Reino de Deus; os fundamentalismos em geral como substitutivos para as
utopias perdidas da modernidade.
Quinto grande conclave da Agenda Social das Nações Unidas da década de 90, na seqüência da
Rio-92, sobre o meio ambiente e o desenvolvimento, da Conferência de Viena de 1993 sobre os
direitos humanos, da Conferência do Cairo de 1994 sobre população e desenvolvimento e da
Cúpula de Copenhague de março de 1995 sobre o desenvolvimento social, a Conferência de Beijing
refletiu, no processo preparatório e no próprio momento de sua realização, tanto as conquistas
conceituais gradativamente obtidas pelas mulheres nos encontros internacionais que a precederam
imediatamente, quanto a crescente desrazão da época contemporânea.
No ativo das conquistas acumuladas nas conferências da década poder-se-iam listar, conforme
documento preparado pelo Women's Caucus durante a Cúpula de Copenhague,1 simplificadamente:
a. a abertura global propiciada pela Rio-92 ao reconhecer a perspectiva de gênero nas questões
de meio ambiente, assim como o papel importante das ONGs de mulheres no processo
internacional;
b. o avanço representado pela atenção atribuída na Conferência de Viena sobre Direitos Humanos
de 1993 aos direitos da mulher - cujo impulso incentivou, no mesmo ano, a proclamação pela
Assembléia Geral da ONU da Declaração sobre a Violência contra a Mulher e o estabelecimento, em
1994, pela Comissão dos Direitos Humanos de um relatora especial para monitorar esse tipo de
violência em todo o mundo;
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c. O reconhecimento pela Conferência do Cairo de 94 de que o fortalecimento dos direitos - que


desde então incluem os direitos reprodutivos - e a capacitação (empowerment)2 das mulheres em
todas as esferas, inclusive e particularmente no controle de sua própria fecundidade, são cruciais
para o êxito de qualquer política populacional.
Se até a Conferência do Cairo os avanços obtidos para a causa da mulher na Agenda Social da
ONU foram nítidos e linearmente ascendentes, a Cúpula de Copenhague sobre Desenvolvimento
Social representou uma espécie de freio. Retrocessos não chegaram a haver. Mas as dificuldades
para evitá-los em Copenhague foram sensíveis, evidenciando que, para muitos governos,
particularmente os de orientação religiosa fundamentalista, os documentos das conferências
anteriores, arduamente negociados, permaneciam e tendiam a continuar letras-mortas. Até
porque, verdade se diga, tais governos haviam registrado reservas ao Programa de Ação do Cairo,
não se sentindo obrigados, portanto, a aceitar referências aos trechos contenciosos.
Apesar dos percalços, concentrados essencialmente na repetição das posições fundamentalistas
islâmicas e católicas com relação à esfera da saúde reprodutiva, já apresentadas no Cairo, e na
ênfase particularista dos países muçulmanos e outros do Grupo dos 77 para a implementação do
Programa de Ação,3 a Cúpula de Copenhague foi positiva para a luta das mulheres. Ela
estabeleceu, entre os dez compromissos assumidos pelos Chefes de Estado e de governo, o de
"promover o pleno respeito pela dignidade humana e alcançar a igualdade e a eqüidade entre
homens e mulheres através do aumento da participação e das liderança da mulher na vida política,
civil, econômica, social, cultural e no desenvolvimento".4
Com base nesses resultados, não haveria razão para se temer o insucesso da IV Conferência
Mundial sobre a Mulher. Entretanto, as dificuldades enfrentadas nas sessões do Comitê
Preparatório, particularmente a segunda e última, realizada em Nova York em março/abril de 95 -
logo após a Cúpula de Copenhague sobre o Desenvolvimento Social - e a profusão de colchetes,
significando falta de consenso, a envolver a maior parte dos parágrafos do projeto de Plataforma
de Ação dela resultante, para aprovação em Beijing, justificavam amplamente o receio de
retrocessos face às conquistas de Viena e do Cairo.
A razão pela qual a Cúpula de Copenhague e a última sessão do Comitê Preparatório da IV
Conferência Mundial sobre a Mulher se apresentaram tão ameaçadoras não pode ser buscada
apenas naqueles foros de negociação multilateral, mas sim na aceleração de tendências negativas
da realidade contemporânea.
Se até a Conferência do Cairo, em setembro de 1994, o fundamentalismo religioso, em suas
manifestações mais agressivas, era circunscrito à situação interna de alguns poucos países
muçulmanos, ele se tornou muito mais ativo e geograficamente amplificado desde então. Foi em
dezembro de 1994 que os fanáticos argelinos seqüestraram um Airbus da Air France, prenunciando
a onda de atentados terroristas que se acentuou ao longo de 1995 em território francês. E foi
durante a Cúpula de Copenhague, enquanto as ONGs de mulheres lançavam campanha de
mobilização permanente para a IV Conferência Mundial com o título de "180 dias para Beijing", que,
na Argélia, os integrantes do braço armado do FIS (Front Islamique du Salut), em "resposta" às
celebrações do Dia Internacional da Mulher (8 de março) decidiram incrementar suas ações contra
as argelinas, orientando-as preferencialmente para os símbolos da liberação feminina.
Assassinaram, pois, somente nas primeiras investidas, entre 8 e 20 de março de 95, doze vítimas
não-portadoras de véu - deliberadamente uma por dia - começando por apresentadora de
televisão famosa e incluindo uma estudante arrancada da sala de aula para ser subseqüentemente
degolada.5
Seriam incontáveis os episódios que demonstram a ampliação do movimento fundamentalista
muçulmano desde a Conferência do Cairo de 1994. À guisa de ilustração adicional, basta lembrar o
atentado perpetrado na Etiópia por integrantes da Irmandade Muçulmana contra a vida do
Presidente Hosni Moubarak, do Egito, em junho de 95, ao desembarcar em Adis-Abeba para
participar de reunião da Organização da Unidade Africana. Ou as ações sanguinárias do Jihad
Islâmico palestino, contrário a Yasser Arafat e às negociações de paz com Israel, ações estas
igualadas em brutalidade pelas dos fundamentalistas judaicos contra o Governo de Yitzhak Rabin,
que culminaram com seu assassinato em novembro de 95.
Nessas condições, e tendo em conta que todos os países muçulmanos, ainda que de governos
não-fundamentalistas, usam o Islã como referência para o ordenamento societário - já que esta
religião não admite a separação entre o civil e o sagrado -, era de esperar que todos eles,
inclusive os moderados, se apresentassem mais "integristas" nos foros internacionais, como forma
de preempção e esvaziamento das bandeiras dos opositores fanáticos.
No Ocidente, por sua vez, o cristianismo, em suas diversas denominações, também acentuou o

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movimento de reversão aos dogmas, seja nas vertentes carismáticas do catolicismo e


pentecostais do protestantismo, seja no âmbito da própria ortodoxia romana. É sintomático, nesse
sentido, que a Encíclica Evangelium Vitae, com radical condenação doutrinária à contracepção e
ao aborto em qualquer circunstância ("crime que nenhuma lei humana pode pretender legitimar"),
tenha sido divulgada em 30 de março, durante a realização, em Nova York, da última sessão do
Comitê Preparatório da Conferência de Beijing.
Uma vez que o feminismo, assim como os direitos humanos, teve seu nascedouro no Ocidente, e
este ainda se caracteriza pelo secularismo dos respectivos Estados, o crescente integrismo de
suas religiões principais não tem chegado a impor-se nas posições dos respectivos governos. As
exceções, que sempre existem, ficam por conta de alguns países católicos da América Latina, em
que a separação entre Igreja e Estado não está clara no ordenamento constitucional, e poucos
outros, que já no Cairo se haviam alinhado estreitamente com as posições da Santa Sé.
Os países ocidentais desenvolvidos mantêm, contudo, e vêm aprofundando um outro tipo de
"fundamentalismo" cujos efeitos não têm sido menos prejudiciais a grandes parcelas da população
mundial, particularmente a segmentos femininos: o radicalismo neoliberal, excludente e insensível à
pobreza. Esse tipo de postura "integrista", já evidenciado na Cúpula de Copenhague, onde os
belos compromissos de lutar pela eliminação da pobreza e de promover a integração social não se
fizeram acompanhar de qualquer gesto ou medida de caráter redistributivo, só pode gerar, entre
os países em desenvolvimento de culturas não-ocidentais, reações de rejeição a tudo que o
Ocidente postula universalmente em nome da ética, geralmente de forma arrogante. Reforçam, por
isso, tais países, de maneira ainda mais veemente, suas posições particularistas na defesa das
culturas próprias, inclusive no que elas possam ter de mais retrógrado.
A inconsistência da atitude ocidental, que prolonga num mundo economicamente globalizado o
egocentrismo das antigas metrópoles coloniais, num momento em que tanto se luta por direitos,
acaba fatalmente por ser encarada como uma nova forma de imperialismo cultural. E as principais
vítimas disso tudo, direta e indiretamente, acabam sendo, como sempre, as mulheres.
Diretamente, porque o culto exagerado do mercado tem produzido em toda parte o fenômeno da
feminização da pobreza: 70% dos 1,25 bilhão de pobres e miseráveis de todo o mundo hoje são
mulheres. Indiretamente, porque os aspectos mais repressivos das culturas tradicionais sempre
incidem nos direitos da população feminina. É de um francês, em livro não propriamente "de
esquerda", a interpretação de que aqueles que se abrigam atrás do mercado para legitimar seus
privilégios "assemelham-se aos barbudos fundamentalistas que brandem o Corão para encobrir a
opressão de suas mulheres. A intégrisme, intégrisme et demi".6
Foi, portanto, num misto de euforia e ansiedade que se iniciou a maior conferência jamais realizada
sob os auspícios das Nações Unidas: a IV Conferência Mundial sobre a Mulher.
2. A Conferência Intergovernamental de Beijing
Segundo dados anunciados dois dias antes do encerramento da Conferência pela porta-voz
Thérèse Gastaut,7 até aquela data o número de pessoas inscritas no evento intergovernamental -
realizado de 4 a 15 de setembro - ascendia a 16.829, sendo 4.969 delegadas e delegados
governamentais de 189 Estados-membros e observadores da ONU, 4.020 integrantes de ONGs e
3.235 jornalistas (media people). Se a esse total forem acrescentadas as cerca de 35.000
participantes do fórum não-governamental de Huairou, a Conferência de Beijing terá tido, no
conjunto, uma afluência mais de duas vezes e meia maior do que a Cúpula de Copenhague ou a
Conferência do Cairo e mais de cinco vezes superior à Conferência de Viena sobre direitos
humanos.
Não obstante, para quem procurou acompanhar a Conferência de Beijing apenas pela imprensa, o
evento, com toda essa mobilização, não terá passado de uma grande quermesse.
Salvo raríssimas exceções, algumas das quais brasileiras, os media parecem ter sido atraídos
apenas pelo colorido alegre, nem por isso despiciendo, do Fórum de ONGs, em Huairou, com
interessante cobertura das festas e manifestações, bem como amplas descrições e interpretações
das disputas EUA versus China sobre matérias pouco atinentes à Conferência,8 mas nenhuma
informação sobre as deliberações. E se isso ocorreu com relação a Huairou, menos ainda se soube
do que se passou em Beijing, no Centro de Convenções: da seriedade das discussões, do calor
das disputas, das dificuldades das negociações do extraordinário interesse das mulheres e homens
presentes à conferência intergovernamental, em sessões que se prolongavam noite adentro, na
obtenção de documentos normativos efetivamente úteis à luta da mulher pela afirmação do papel
que lhe é devido em cada sociedade.
Eximo-me de falar de Huariou porque lá não estive. E porque outros(as) o podem fazer com efetivo
conhecimento de causa. Limito-me, pois, à conferência intergovernamental, cuja multiplicidade de

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comitês, grupos e subgrupos de trabalho, além do Plenário, já torna temerária qualquer tentativa
de avaliação adequada e justa.
Para elaborar a Declaração de Beijing - a partir de um pequeno esboço da autoria do Grupo dos 77
e algumas idéias a ele contraditórias dos EUA e Canadá - e para encontrar linguagem consensual
para os densos trechos entre colchetes do longo projeto de Plataforma de Ação - 370 colchetes
num conjunto total de 362 parágrafos - foram constituídos um Comitê Principal, dois Grupos de
Trabalho, dois Grupos de Contacto e um Grupo de Amigos da Presidente do Comitê Principal. Para
conseguirem funcionar, os Grupos de Contacto foram muitas vezes subdivididos em grupos
informais de negociação. Apenas para o tema da saúde chegaram a funcionar simultaneamente
seis desses grupos informais. E tudo isso se reunia e deliberava em paralelo às sessões do
Plenário, no qual se proferiam, como em todas as conferências, os discursos políticos mais formais
- quase totalmente ignorados pelas instâncias de negociação.
Em vista da multiplicidade de foros de discussão simultâneos, das conseqüentes dificuldades
práticas para se acompanhar o desenvolvimento de cada questão, da exaustão das equipes
negociadoras de todas as delegações nos últimos momentos9 e, sobretudo, da intransigência de
certos países e grupos de países em alguns dos temas mais delicados, chega a ser surpreendente
que a Conferência tenha logrado adotar documentos tão significativos. Afinal, qualquer que venha
a ser o seu efeito concreto no mundo real, a Declaração de Beijing e a Plataforma de Ação da IV
Conferência Mundial sobre a Mulher são hoje os marcos fundamentais em que se baseará, nos
próximos anos, a luta das mulheres pela concretização de seus direitos.
3. Os documentos de Beijing
O principal documento oriundo da IV Conferência Mundial sobre a Mulher é a Plataforma de Ação,
cujo escopo cobre virtualmente todos os campos de interesse para a situação da mulher no
mundo e nas respectivas sociedades. Por sua abrangência e volume, constitui o mais completo
diagnóstico internacional sobre a matéria e o mais pormenorizado guia para as ações a serem
tomadas por Estados, organizações governamentais e não-governamentais, meios de
comunicação, famílias e indivíduos, para a superação das discriminações de gênero.
Mais concisa, de mais fácil leitura, mas nem por isso menos importante, a Declaração de Beijing é
o documento de caráter político pelo qual os Governos se comprometem a implementar a
Plataforma de Ação. E precisamente por sua natureza política, no formato de compromissos
estatais, sua negociação foi particularmente difícil.
4. A plataforma de ação de Beijing

Com 123 páginas e 361 parágrafos, a Plataforma de Ação de Beijing divide-se em seis capítulos.1 0
O primeiro, intitulado "Declaração de Objetivos", define o documento como uma agenda para o
empowerment das mulheres, destinada a acelerar a implementação das Estratégias de Nairóbi,
oriundas da III Conferência Mundial, de 1985, e a remover os obstáculos à participação da mulher
na vida pública e privada, mediante a observância do princípio da repartição de poder e
responsabilidades com o homem. Para esse fim, a Plataforma reafirma a asserção da Conferência
de Viena de 1993 de que "os direitos humanos da mulher e da menina são parte inalienável,
integral e indivisível dos direitos humanos universais".1 1
O segundo capítulo, denominado "Contexto Mundial", adianta que a Plataforma visa a "estabelecer
um grupo básico de ações prioritárias" a serem desenvolvidas nos próximos cinco anos.
Antes de fazê-lo, porém, a Plataforma dá no Capítulo II várias orientações sobre os mais diversos
campos por ela cobertos, reiterando alguns conceitos e princípios definidos em outros
instrumentos internacionais, às vezes modificando-os, e estabelecendo sua forma de aplicação.
Nele se reafirma, por exemplo, com linguagem da Declaração de Viena, que a natureza universal
dos direitos humanos e liberdades fundamentais "não admite dúvidas".1 2 Mencionam-se, pela ótica
da mulher, as graves violações de direitos humanos observadas, especialmente em tempos de
conflito armado, relacionando entre estas "o estupro sistemático, a gravidez e o aborto forçados,
em particular dentro de políticas de faxina étnica". Assinala-se que mais de 1 bilhão de pessoas, a
maioria das quais mulheres, estão vivendo em pobreza abjeta. Descreve-se o fenômeno da
feminização da pobreza como decorrência das políticas e programas de ajuste estrutural, tanto
pelo crescente desemprego, quanto pela transferência para a mulher das responsabilidades pelos
serviços sociais básicos abandonados pelo Estado. Recorda-se, ainda, que 1/4 de todos os lares
do mundo são mantidos por mulheres.
O Capítulo II aborda muitos outros aspectos da realidade internacional contemporânea, entre os
quais as comunicações globalizadas e sua responsabilidade pela disseminação de imagens
estereotipadas e inferiorizantes da mulher. Assinala o importante papel da religião nas vidas de
milhões de mulheres e homens, sublinha o direito universal à liberdade de pensamento, consciência
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e religião, mas reconhece que "qualquer forma de extremismo pode ter impacto negativo sobre as
mulheres e levar à violência e à discriminação".
Seu parágrafo de negociação mais difícil foi, de longe, o de número 9, por tratar das soberanias e,
sobretudo, do papel das diferentes culturas na implementação da Plataforma de Ação.
Embora a questão do respeito aos valores culturais ante a universialidade dos direitos humanos já
tivesse sido equacionada - não sem dificuldades - na Conferência de Viena, o assunto se tornou
mais passional em Beijing porque, desde a Conferência do Cairo, o rol dos direitos fundamentais
reconhecidos internacionalmente havia passado a incluir os direitos reprodutivos.1 3 Mais ainda,
porque o projeto da Plataforma recebido do Comitê Preparatório procurava assegurar o
reconhecimento de outros direitos, na esfera da sexualidade. Se para o fundamentalismo religioso
os direitos reprodutivos já eram problemáticos, "direitos sexuais" pareciam anátema.
A solução finalmente encontrada, um tanto ambígua como não poderia deixar de ser, consistiu
numa colagem de textos previamente acordados nas conferências de Viena e do Cairo,
encabeçados pela ressalva de que tudo, na Plataforma de Ação, está conforme com os propósitos
e princípios (leia-se o princípio da não-intervenção em assuntos internos dos Estados) da Carta
das Nações Unidas. Com redação canhestra e de leitura difícil, o § 9.° da Plataforma de Ação de
Beijing diz:
"o objetivo da Plataforma de Ação, em plena conformidade com os propósitos e princípios da Carta
das Nações Unidas e o direito internacional, é o empowerment de todas as mulheres. A plena
realização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais de todas as mulheres é
essencial para o empowerment das mulheres. Ao mesmo tempo em que a importância das
particularidades nacionais e regionais e os diversos contextos históricos, culturais e religiosos
devem ser levados em consideração, é dever dos Estados, independentemente de seus sistemas
políticos, econômicos e culturais, promover e proteger todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais. A implementação desta Plataforma, inclusive através das legislações nacionais e da
formulação de estratégias, políticas, programas e prioridades, é de responsabilidade soberana de
cada Estado, em conformidade com todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, e a
importância e o pleno respeito pelos diversos valores éticos, contextos culturais e convicções
filosóficas dos indivíduos e suas comunidades devem contribuir para o pleno gozo pelas mulheres
de seus direitos humanos, com vistas a alcançarem igualdade, desenvolvimento e paz".
Por mais pesado e desajeitado que se apresente, o § 9.º é exemplo de resultado bem-sucedido de
negociação diplomática na busca de convergência entre posições conflitantes. Ele é positivo para
todos: para os governos de orientação particularista, porque protege as soberanias e valoriza o
papel das culturas específicas; para os governos e militantes universalistas, porque as culturas
não podem violar os direitos humanos universais, devendo, ao contrário, contribuir para o
empowerment e a não-discriminação das mulheres.
O Capitulo III da Plataforma de Ação define suas "áreas críticas de preocupação", a saber:
• a carga persistente e crescente da pobreza sobre a mulher;
• as desigualdades e inadequações no acesso à educação e ao treinamento;
• as desigualdades e inadequações no acesso aos serviços de saúde e conexos;
• a violência contra a mulher;
• os efeitos de conflitos armados e de outros tipos sobre as mulheres, inclusive aquelas que vivem
sob ocupação estrangeira;
• a desigualdade nas estruturas e políticas econômicas, em todas as formas de atividades
produtivas e no acesso a recursos;
• a desigualdade entre homens e mulheres no exercício do poder e na tomada de decisões em
todos os níveis;
• a insuficiência de mecanismos em todos os níveis para promover o avanço da mulher;
• a falta de respeito e de promoção e proteção adequada aos direitos humanos da mulher;
• os estereótipos sobre a mulher e a desigualdade no acesso e na participação da mulher em
todos os sistemas de comunicação, especialmente nos media;
• as desigualdades de gênero na gestão dos recursos naturais e na proteção ambiental;
• a persistência da discriminação contra a menina e a violação de seus direitos.
A partir dessas áreas críticas, a Plataforma, no Capítulo IV, o mais longo de todos, faz para cada

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uma o diagnóstico dos problemas e propõe as ações concretas a serem seguidas pelos mais
diversos atores influentes nas sociedades nacionais e na esfera internacional, a fim de alcançar as
metas, todas elas interdependentes, das Estratégias de Nairóbi, através da igualdade, do
desenvolvimento e da paz.
Estendendo-se por 100 páginas, densas e minuciosas, às vezes repetitivas e confusas, o Capítulo
IV é o mais substantivo de toda a Plataforma, dele ressaltando, do início ao fim, a perspectiva de
gênero - conceito de conteúdo sociológico - sobre a diferenciação por sexo - de conotação
meramente biológica -, conforme era desejo do movimento de mulheres em todo o mundo.
A própria supremacia da noção de gênero sobre a de sexo no documento foi objeto de
dificuldades, desde as discussões do Comitê Preparatório, pois, para algumas delegações, a idéia
era vista com desconfiança, como algo que pudesse avultar permissividade ou "legitimação" do
homossexualismo.
A questão da discriminação contra homossexuais era, sim, matéria de preocupação para muitos
governos participantes da Conferência e referida, ostensivamente, no projeto da Plataforma de
Ação, pela expressão "orientação sexual", que aparecia entre colchetes em quatro diferentes
parágrafos, na relação de fatores que constituem "barreiras à plena igualdade e ao progresso das
mulheres" - assim como o são a raça, a idade, a língua, a etnicidade, a cultura, a religião ou a
deficiência. A expressão terminou suprimida, do § 46 e dos demais, na madrugada do dia 14 -
última sessão, muito tensa, do Comitê Principal e, portanto, último momento para a resolução dos
assuntos pendentes -, com a justificativa, formulada pela Presidente do Comitê, de que, sendo a
listagem meramente exemplificativa, introduzida pelo locução "tais como", o conceito estaria
implicitamente contemplado.
De todas as áreas críticas, tratadas no Capítulo IV, aquela referente à saúde e ao acesso aos
serviços correlatos era a que gerava maiores temores de retrocesso com relação às conquistas do
Cairo, pois nela se inseriam as referências aos direitos reprodutivos, à contracepção, ao aborto, à
proteção contra o vírus HIV, assim como a noção de "direitos sexuais". Quase que
surpreendentemente, as negociações realizadas no Grupo de Contexto dedicado ao tema foram
mais construtivas do que se esperava, tendo sido possível não somente evitar retrocessos, mas
também avançar na consideração da matéria. Os resultados dessas negociações encerradas já no
dia 11 - muito antes da conclusão de outros grupos -, influíra significativamente no andamento de
toda a Conferência, incutindo um otimismo que se fazia cada dia mais necessário às delegações
estafadas.
Coberta pelos 89 a 111 da Plataforma de Ação, a área crítica da saúde é também,
compreensivelmente, a mais comentada, favorável ou desfavoravelmente, conforme os
respectivos pontos de vista, ao se abordarem os resultados da Conferência de Beijing. Sobre ela
incidiu a maior parte das reservas formuladas por países muçulmanos e católicos, tendo a Santa
Sé registrado reserva a toda a seção.
Ao diagnosticar os problemas enfrentados nessa esfera, o § 92 já aponta a direção de todas as
recomendações, ao observar que:
"(...) o controle limitado que muitas mulheres exercem sobre sua vida sexual e reprodutiva e sua
falta de influência na adoção de decisões são realidades sociais que têm efeitos prejudiciais a sua
saúde. A falta de alimento para meninas e mulheres e a distribuição desigual dos alimentos no lar,
o acesso insuficiente à água potável, ao saneamento e ao combustível, sobretudo em zonas rurais
e em zonas urbanas pobres, assim como as condições deficientes de moradia pesam
excessivamente sobre a mulher e sua família, repercutindo negativamente sobre sua saúde. A boa
saúde é indispensável para viver de forma produtiva e satisfatória, e o direito de todas as
mulheres de controlar todos os aspectos de sua saúde, em particular sua própria fecundidade, é
fundamental para sua emancipação".
O parágrafo é ilustrativo da multiplicidade de preocupações relacionadas com a saúde da mulher e
reflete as prioridades distintas dos mais diversos países como decorrência não apenas de tradições
e comportamentos nocivos às mulheres, mas também do grau de desenvolvimento de cada um. Ele
é importante até para descartar percepções errôneas de que a Conferência de Beijing tenha
seguido pauta ditada pelo Ocidente rico, de interesse apenas para mulheres de zonas urbanas ou
de sociedades economicamente desenvolvidas. A IV Conferência sobre a Mulher, como as demais
conferências da ONU, foi inegavelmente mundial, em termos de participação, e pluridimensional,
em termos de abordagem. De qualquer forma, para as apreensões quanto a possíveis retrocessos
com relação ao Cairo, o § 92, ao mencionar a necessidade de as mulheres controlarem "todos os
aspectos de sua saúde, em particular sua própria fecundidade", como elementos indispensáveis à
boa saúde e para a emancipação feminina, já adianta que não ocorrerão tais retrocessos.
De fato, o § 93 vai reiterar várias das preocupações expressas nos Programas de Ação do Cairo
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com referência a práticas - como a da mutilação genital feminina - e hábitos tradicionais - como a
preferência por filhos varões, os casamentos prematuros por decisão de terceiros, a prioridade
para os filhos homens na distribuição de comida em situações de escassez - mais incidentes em
sociedades específicas, sobretudo africanas e asiáticas. Reafirma, igualmente, preocupações com
a desinformação dos jovens, e em particular das meninas, sobre problemas de saúde relacionados
à vida sexual, inclusive sobre gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, entre as quais a
infecção pelo HIV, para abrir caminho às recomendações pertinentes, na espera da educação e
dos serviços de saúde, indicadas a partir do § 106, nas "medidas que devem ser adotadas". E os
§§ 94 e 95 reproduzem, ipsis litteris, as definições da saúde reprodutiva e dos direitos
reprodutivos adotadas na Conferência do Cairo.
As grandes novidades introduzidas nessas questões pela Conferência de Beijing dizem respeito a
dois tópicos bem definidos: os direitos sexuais e o tratamento das mulheres que tenham recorrido
ao aborto.
Ainda que não tenha sido possível manter no texto da Plataforma de Ação a expressão "direitos
sexuais", já rejeitada pelos países muçulmanos e outros asiáticos no Cairo, eles se acham
claramente definidos no § 96 da Plataforma de Ação, que afirma:
"Os direitos humanos da mulher incluem seu direito a ter controle e decidir de forma livre e
responsável sobre as questões atinentes a sua sexualidade, inclusive sua saúde sexual, sem
coerção, discriminação e violência. Relações igualitárias entre a mulher e o homem em matéria de
relações sexuais e reprodução, incluído o pleno respeito pela integridade da pessoa, requerem
respeito mútuo, consentimento e responsabilidade compartilhada pelo comportamento sexual e
suas conseqüências".
Levando-se em conta que todo o parágrafo respectivo do projeto de documento em discussão
encontrava-se entre colchetes, sua aprovação, com reservas de muitas delegações, constitui, de
qualquer forma, avanço considerável na luta pela igualdade nesse campo tão sensível. Até porque
as palavras originais "os direitos sexuais incluem" aparecem substituídas por "os direitos humanos
da mulher incluem", o que torna o conceito mais cogente.
Quanto ao segundo tópico assinalado, conseguiu-se em Beijing, de forma satisfatória, aquilo que
se tentara no Cairo, com êxito apenas relativo: tratar o aborto não como um método de
planejamento familiar, mas sim como um problema real e amplamente recorrente de saúde pública,
a ser encarado de frente.1 4
Conforme explicita o § 97, no contexto dos riscos a que são expostas as mulheres em função da
inadequação ou da falta de serviços para atender às necessidades relacionadas à sexualidade e à
reprodução:
"(...) O aborto inseguro ameaça a vida de um grande número de mulheres, representando um
grave problema de saúde pública, na medida em que são em primeiro lugar as mais pobres e as
mais jovens que correm o mais alto risco".
Com base nesse diagnóstico, dentro do objetivo estratégico de "aumentar o acesso da mulher
durante todo seu ciclo de vida a serviços adequados da saúde, informação e conexos, a baixo
custo e de qualidade", o § 106 recomenda aos governos:
• Na alínea (j) - "Reconhecer e enfrentar as conseqüências que têm para a saúde os abortos
perigosos, por se tratar de questão de grande importância para a saúde pública, tal como
acordado no § 8.25 do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e
Desenvolvimento".
• Na alínea (k), após nova referência ao § 8.25 do Programa de Ação do Cairo, e sua reprodução
integral - "considerar a possibilidade de rever as leis que prevêem medidas punitivas contra as
mulheres que se tenham submetido a abortos ilegais".
A notícia da aprovação, em Grupo de Contacto, desta última recomendação circulou rapidamente
entre as delegações, provocando surpresas e influenciando as demais negociações. Naquelas
concernentes à Declaração de Beijing - a serem abordadas mais adiante - logo se compreendeu
que o acordo sobre a matéria era ilusório: a recomendação fora aceita por seus opositores apenas
porque passível de reservas em Plenário.
Muitos outros pontos atinentes à saúde da mulher e a outras áreas críticas do Capítulo IV, com
graus de disputa e consenso variados, receberam tratamento atento e recomendações
importantes. Uma das mais surpreendentes, dentro da área crítica da pobreza, foi a inclusão do
direito à herança entre os assuntos a serem objeto de reformas legislativas, com vistas a
assegurar às mulheres acesso pleno e igualitário aos recursos econômicos e à propriedade da terra
e de outros tipos (§ 61, alínea b). Surpreendente porque, de acordo com a legislação islâmica,

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baseada no Corão e na doutrina da sharia, os direitos sucessórios da mulher, em todos os países


muçulmanos, correspondem apenas a uma fração daqueles correspondentes ao homem. Por esse
motivo, no Cairo havia sido necessário substituir a expressão "direitos sucessórios igualitários", nas
medidas contra a discriminação contra as meninas, por "direitos sucessórios eqüitativos".1 5 E em
Beijing as negociações iniciais sobre a questão não ofereciam qualquer vislumbre de consenso.
Menos contenciosa e igualmente significativa foi a seção dedicada à violência contra a mulher,
foco de atenção particular e crescente na área dos direitos humanos - até porque foi esse tema
que introduziu um enfoque novo na abordagem daqueles direitos, nas esferas nacional e
internacional; o da responsabilidade dos Estados para coibir a violência privada, muitas vezes no
recesso do lar.
Interpretada no § 118 como "uma manifestação das relações de poder historicamente desiguais
entre homens e mulheres, que levaram à dominação do homem sobre a mulher, à discriminação
contra as mulheres e à prevenção do avanço pleno da mulher", esse tipo específico de violência é
encarado como resultado de padrões culturais, cabendo às imagens divulgadas pelos meios de
comunicação, particularmente àquelas que retratam estupros, escravidão sexual e o uso de
meninas e mulheres como objetos sexuais, responsabilidade especial na perpetuação de tais
padrões. Na luta pela eliminação desse fenômeno, conforme as palavras do § 120, "os grupos de
homens que se mobilizam contra a violência de gênero são aliados necessários".
Entre as diversas medidas recomendadas aos governos nessa esfera, pelo § 124, a primeira
adquire relevância particular num período de fundamentalismos em expansão:
"(a) Condenar a violência contra a mulher e abster-se de invocar qualquer costume, tradição ou
consideração religiosa para eludir as obrigações com respeito a sua eliminação que figuram na
Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher".
Outras, igualmente importantes, dizem respeito à adoção e ao reforço de leis que punam a
violência contra a mulher, seja ela perpetrada pelo Estado ou por pessoas privadas, em casa, no
local de trabalho, na comunidade ou na sociedade. A alínea (g) fala da necessidade de estratégias
para evitar a revitimação das mulheres vítimas de violência como decorrência de leis, práticas
policiais ou procedimentos judiciais insensíveis às questões de gênero.
Encerradas as recomendações substantivas do Capítulo IV, dentro dos diversos objetivos
estratégicos - o último dos quais é o de eliminar todas as formas de discriminação contra a menina
-, o Capítulo V, denominado "Disposições Institucionais", faz grande número de recomendações
aos Governos, à ONU, seus órgãos, suas comissões regionais e suas agências especializadas, para
que implementem, promovam a disseminem a Plataforma de Ação. No nível nacional, em que se
ressalta o papel primordial dos Governos na coordenação de ações e no próprio monitoramento do
progresso alcançado, sublinha-se a necessidade de participação das mais variadas instituições,
organizações governamentais e não-governamentais, das associações de base (grass-roots
organizations) do setor privado e das próprias mulheres. Em todos os níveis, o que se propugna é,
resumidamente, "uma política ativa e visível de incorporação da perspectiva de gênero, inte alia no
monitoramento e na avaliação de todos os programas e políticas" (§ 292).
Se essas recomendações se justificam plenamente pelas disposições precedentes da Plataforma e
pelo fato de todas as conferências da década haverem promovido o compromisso com o
empowerment das mulheres, outras demonstram forte dose de irrealismo. É o caso, por exemplo,
de recomendação ao Secretário Geral da ONU de alocação de fundos suficientes, dentro dos
recursos do orçamento regular, a todas as áreas relevantes do Secretariado - num momento em
que, sabidamente, a ONU como um todo está em regime quase falimentar. E a própria atribuição à
Assembléia Geral, como instância política máxima da Organização, da tarefa de incluir a
perspectiva de gênero "em todos os seus trabalhos", além de praticamente impossível do ponto de
vista de muitas das matérias tratadas - como o desarmamento, o controle do narcotráfico, as
disputas de soberanias, a regulamentação do espaço exterior e o direito do mar -, ela imagina que
o órgão disponha de uma infra-estrutura técnico-administrativa e uma capacidade de articulação
política e meticulosidade muito além da realidade.1 6
O Capítulo VI, último do documento, trata das disposições financeiras necessárias os objetivos da
Plataforma. É, de longe, o capítulo menos criativo de todo o documento, o que evidencia, a
exemplo do que já se vira na Cúpula de Copenhague, a pouca disposição dos mais abastados, seja
em nível internacional, seja no âmbito interno dos Estados, para traduzir em medidas
redistributivas capazes de viabilizá-los os compromissos assumidos em documentos multilaterais de
conteúdo ético.1 7
Assinalando, mais uma vez, que a responsabilidade principal para a implementação dos objetivos
estratégicos é dos Governos, o Capítulo VI recomenda que estes aloquem '"recursos suficientes,

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inclusive recursos para a realização de análises sobre os impactos de gênero", à concretização da


Plataforma de Ação na esfera nacional. Para a obtenção desses recursos, o máximo que se
recomenda é a redução, "quando, apropriada, das despesas militares excessivas e dos
investimentos para a produção e aquisição de armas, em consistência com as exigências da
segurança nacional" (§ 349). No mais, é proposta "a criação de um ambiente favorável à
mobilização de recursos pelas organizações não-governamentais, particularmente as organizações
de mulheres, redes e grupos feministas, o setor privado e outros atores da sociedade civil" (§
350). Na esfera internacional, tal como ocorrido em Copenhague, 1 8 o máximo que se recomenda
de concreto são esforços para a aplicação de meta - há muito acordada e pouco seguida - de
contribuição, pelos países desenvolvidos, de 0,7% de seu produto nacional bruto à assistência
internacional para o desenvolvimento, nesse caso "incrementando a parcela de financiamento a
atividades destinadas a implementar a Plataforma de Ação" (§ 353). E uma adaptação da já muito
conhecida e amplamente desconsiderada "fórmula 20/20" - pela qual 20% da ajuda externa oficial
ao desenvolvimento e 20% do orçamento nacional dos países recipientes deveriam ser destinados
a programas sociais básicos -, recomendado aos parceiros interessados, desenvolvidos e em
desenvolvimento, quando observarem tal fórmula, que levem em consideração a perspectiva de
gênero (§ 357).
5. A Declaração de Beijing
Enquanto a Plataforma de Ação é analítica e pormenorizada, a Declaração de Beijing, desde
quando originalmente contemplada, propunha-se sintética e breve, para ser facilmente divulgável
pelos meios de comunicação. E politicamente expressiva, de modo a simbolizar a determinação de
uma comunidade internacional unida em torno da causa da mulher. Para assegurar a ela tal
simbologia, a Declaração não poderia ser adotada com reservas, e sim por consenso efetivo. Esta
foi a razão pela qual sua negociação revelou-se tão problemática, não tendo sido possível fazê-la
refletir apropriadamente alguns dos avanços alcançados nas partes mais delicadas da Plataforma
de Ação.
A Declaração é um texto de 4 páginas e 38 artigos, quase todos curtos e incisivos. Dizem os
primeiros artigos:
"1. Nós, os Governos participantes da IV Conferência Mundial sobre a Mulher,
2. Reunidos em Beijing em setembro de 1995, ano do 50.º aniversário da fundação das Nações
Unidas, (...).
5. Reconhecemos que a situação da mulher avançou em alguns importantes aspectos ao longo da
década passada, mas o progresso não tem sido homogêneo, persistem as desigualdades entre
mulheres e homens e continua a haver grandes obstáculos, com graves conseqüências para o
bem-estar de todos (...)".
A partir daí são reafirmados os compromissos dos Governos com os "direitos iguais e a dignidade
de mulheres e homens"; com a implementação dos "direitos humanos da mulher e da menina, que
constituem parte inalienável, integral e indivisível de todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais"; com o "consenso e o progresso obtidos nas conferências e cúpulas anteriores das
Nações Unidas";1 9 com as Estratégias de Nairóbi; com o "empowerment e o avanço da mulher". Em
seguida os Governos se afirmam convictos de que o empowerment da mulher é fundamental para
alcançar a igualdade, o desenvolvimento e a paz; de que "os direitos da mulher são direitos
humanos" (art. 14); e, entre muitos outros conceitos já fixados na Plataforma de Ação, de que: "o
reconhecimento explícito e a reafirmação do direito de todas as mulheres de controlar todos os
aspectos de sua saúde, em particular sua própria fertilidade, é essencial a seu empowerment"
(art. 17).
Tanto a inclusão desse artigo, que reflete corretamente os acordos do Cairo e o § 92 da
Plataforma de Ação, como a do art. 14, que reconhece os direitos da mulher como direitos
humanos, foram objeto de acirrados debates. Sobre o art. 14, para cuja adoção a atuação da
delegação do Brasil foi decisiva,2 0 fizeram reservas no Grupo de Contacto pertinente - já que a
Declaração não poderia sofrer reservas em Plenário - as delegações da Santa Sé, do Benin e da
Argentina. As indecisões e reservas se prendiam, obviamente, ao fato de os direitos da mulher
incluírem, desde a Conferência do Cairo, os direitos reprodutivos e, agora, conforme o art. 96 da
Plataforma de Ação de Beijing, os direitos sexuais.
O artigo de mais difícil negociação foi o 23, concernente a garantias de plena observância dos
direitos da mulher e da menina, objeto de várias versões, todas rejeitadas, que mencionavam os
direitos sexuais, fosse citando-os expressamente, fosse repetindo a linguagem conceitual do § 96,
já então aprovado no respectivo grupo negociador. Menção a esses direitos era reputada
imprescindível pela União Européia e outros países ocidentais, que ameaçavam rejeitar o conjunto

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da Declaração caso fossem omitidos, e radicalmente objetada pelos países islâmicos e católicos de
orientação fundamentalista, que assim tornaram claro só haverem aceito a conceituação de tais
direitos na Plataforma porque sobre ela poderiam registrar reservas. A intransigência de ambos os
lados foi grave e ameaçadora para a Declaração e para o conjunto dos esforços da Conferência.
As negociações sobre esse ponto, longe de levarem a um esboço de convergência, tornavam
crescentemente passionais as delegações mais atuantes. Venceram, nesse caso, no final, os
fundamentalistas, uma vez que o parágrafo adotado na Declaração fala apenas da determinação
de:
"23. Assegurar o pleno gozo pelas mulheres e meninas de todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais e adotar medidas efetivas contra as violações desses direitos e liberdades".2 1
A ele se segue parágrafo sobre a adoção de todas as medidas necessárias à eliminação das
discriminações contra a mulher e a menina e à remoção de obstáculos à igualdade de gênero e ao
empowerment da mulher. Já o § 25 fala da determinação de:
"25. Encorajar os homens a participarem de forma plena em todas as ações em direção à
igualdade".2 2
Outra área de conflito nas negociações da Declaração era a concernente ao acesso aos recursos
econômicos, objeto do art. 35. O Grupo dos 77 pretendia salientar, nessa esfera, a necessidade
da cooperação internacional e a importância do apoio aos Estados para poderem promover o
avanço da mulher. Os paises desenvolvidos ocidentais, por seu lado, privilegiavam o avanço da
mulher como meio para fortalecer as sociedades. A fórmula finalmente encontrada é de nítido
compromisso:
"35. Assegurar o acesso igualitário das mulheres aos recursos econômicos, entre os quais a terra,
crédito, ciência e tecnologia, treinamento vocacional, informação, comunicação e mercados, como
meio para desenvolver o avanço e o empowerment da mulher e da menina, inclusive através do
aprimoramento de suas capacidades para usufruir dos benefícios do acesso igualitário a esses
recursos, inter alia, por meio da cooperação internacional".
Foi problemático, por outras razões, o art. 28, concernente à paz para o progresso da mulher e ao
papel da mulher no movimento pacifista, por apelar para o desarmamento, em particular para a
negociação e conclusão urgente de um tratado de proscrição aos testes nucleares. Sugerido pelo
Chile, e de interesse mais próximo para delegações como as da Nova Zelândia e Austrália, em
função da retomada dos testes nucleares franceses no Pacifico, o artigo da Declaração não
chegou a ser objetado pela França. Esta fez, contudo, reserva em Plenário, não a ele, mas a seu
correspondente dentro da Plataforma de Ação: o § 247, dentro da área critica "mulher e meio
ambiente".
Também teve problemas o longo § 36, relativo à mobilização de recursos e às interligações entre
direitos igualitários, desenvolvimento sustentável e justiça social. A solução encontrada foi a
reprodução de textos previamente aprovados na Cúpula sobre o Desenvolvimento Social.
O art. 32, que, a exemplo do § 46 da Plataforma, relaciona exemplificadamente as barreiras
enfrentadas pelas mulheres, também foi objeto de alguma controvérsia. Delegações africanas,
particularmente de Ruanda, país onde a exacerbação da "etnicidade" acabara de provocar
verdadeiro genocídio - passível de repetição e extravasão para o Burundi -, desejavam excluir a
palavra da lista,2 3 enquanto outras delegações, de países com conflitos de ordem diversa,
ameaçavam incluir na listagem conceitos como "ocupação estrangeira" e outros temas polêmicos.
O Canadá, por sua vez, insistia em menção aos indígenas. O texto finalmente adotado acomodou,
como no § 46, a preocupação canadense - com o acréscimo, ao final da relação, de "(...) e
porque são indígenas" -, ficando as demais postulações abandonadas ou esquecidas na evolução
dos trabalhos.
Embora com essas dificuldades e omissões, a Declaração de Beijing atende largamente aos
interesses e preocupações do movimento de mulheres de todo o mundo. E sua brevidade e
expressividade têm, efetivamente, facilitado sua divulgação e utilização.
6. A preparação e a participação do Brasil
Todo o processo preparatório e a própria participação do Brasil na Conferência de Beijing deram-se
em estreito diálogo entre o Governo e a sociedade civil - mais particularmente entre o Executivo
federal e o movimento de mulheres, deputadas, senadoras e Conselhos estaduais e municipais da
condição feminina, ouvidos também segmentos mais específicos da sociedade, como o movimento
de mulheres negras, representantes de mulheres rurais e associações femininas de diversas
categorias. Para isso beneficiou-se o Governo federal das experiências similares que já vinha
realizando, na década de 90, na preparação de outras conferências, particularmente a do Cairo,

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de 1994. A diferença do caso de Beijing com relação aos demais terá sido na imensidade desse
diálogo, dada a extraordinária mobilização das mulheres brasileiras para o evento - extraordinária
mas não surpreendente, à luz de sua já decisiva atuação por ocasião da elaboração da
Constituição federal de 1988.
Coordenadas por uma eficaz Articulação, que congregava grande número de organizações
femininas e feministas, ou em outras formas de atividades participativas, as mulheres brasileiras,
além de atuarem incisivamente no processo preparatório oficial, promoveram vários eventos
paralelos não-governamentais, estabeleceram as bases das posições do Governo, compareceram
em número expressivo ao fórum de Huairou e asseguraram ao Brasil uma das presenças mais
numerosas e ativas no Centro de Convenções de Beijing. Puderam, assim, nas reuniões diárias
mantidas pela delegação à Conferência oficial, opinar, legítima e substantivamente, sobre o
processo negociador do Programa de Ação e da Declaração adotados.
Tal como ocorrera com relação à Conferência de População, o processo preparatório oficial ficou a
cargo de um Comitê Nacional constituído por decreto presidencial.2 4 O Comitê, sempre por meio de
decisões consensuais, muitas vezes tomadas após longos e acalorados debates, escolheu
relatoras e consultoras para suas tarefas e definiu um programa de seminários abertos à
participação de todos os interessados.2 5 Tais seminários iriam fornecer os insumos para o relatório
nacional previsto para encaminhamento às Nações Unidas, conforme as resoluções internacionais
pertinentes, uma vez que o Programa de Ação a ser discutido em Beijing deveria refletir os
problemas, as conquistas e as aspirações de todos os Estados participantes da conferência.

O Relatório Geral sobre a Mulher na Sociedade Brasileira,2 6 examinado parágrafo por parágrafo no
âmbito do Comitê Nacional e por ele adotado também consensualmente, ao refletir de maneira
franca e realista as conquistas e problemas da mulher em nossa sociedade, além de oferecer
importante diagnóstico da situação brasileira, é documento de características inéditas. Tanto por
ser fruto de um diálogo amplo e democrático, quanto por haver logrado conciliar as posições
variadas e muitas vezes divergentes - como é natural em qualquer grande movimento social -
existentes no seio do movimento de mulheres do Brasil. Culminação de um processo delicado, às
vezes controvertido, mas finalmente bem-sucedido, de harmonização de posições, o relatório foi
louvado por quase todos(as) que dele tiveram vista, a começar pela agência competente da
Nações Unidas - o UNIFEM2 7 - por sua qualidade e abrangência. Mais do que isso, porém, ele
simboliza uma interação cooperativa entre autoridades governamentais e representantes do
movimento de mulheres sem precedentes no Brasil, pelo menos nesse tipo de atividade. Se tal
interação, que prosseguiu durante as negociações em Beijing, foi possível para a IV Conferência
Mundial sobre a Mulher, nada deve impedir que ela prossiga para a implementação de suas
recomendações.
A partir do diagnóstico do relatório oficial, levando em conta as aspirações maciçamente
majoritárias de sua população feminina, com o respaldo firme do movimento de mulheres, mas sem
negligenciar qualquer aspecto da legislação nacional, pôde a delegação do Brasil atuar positiva,
consistente e, algumas vezes, decisivamente em Beijing, sem arrogância ou qualquer tipo de
"fundamentalismo".2 8
Em seus discurso em Plenário, no início da Conferência, assinalava a Doutora Ruth Cardoso:
"Os progressos alcançados até aqui (...) e consolidados nas Conferências do Rio de Janeiro, de
Viena, do Cairo e de Copenhague - e que aqui devemos reiterar, sem recuos e hesitações -
proporcionam, neste momento, as bases para a constituição de uma nova agenda na luta pela
emancipação das mulheres".2 9
A preocupação com o respeito às decisões das conferências anteriores foi, portanto, uma
constante para a delegação do Brasil, mas não foi a única fonte de inspiração nas negociações. A
necessidade de progresso através da cooperação, do entendimento e da tolerância também o foi,
como o foram, em especial, a universalidade dos direitos humanos, em suas diversas categorias -
civis, políticas, econômicas, sociais e culturais -, inclusive, e naturalmente com ainda maior
atenção, os direitos humanos específicos das mulheres.
7. Conclusão
Em sua célebre resposta à indagação do pároco berlinense Zölner sobre o que era a Ilustração,
Kant a definia como "a saída do homem de sua auto-culpável minoridade". Esta significaria "a
incapacidade de servir-se de seu próprio entendimento sem ser guiado por outro". Cada um seria
culpado de sua própria minoridade quando a causa desta não decorresse de carência de
entendimento, mas sim da falta de decisão e coragem para dele servir-se sem guia alheio. "Sapere
aude! Ousa servir-te de tua própria razão! Eis aqui o lema da Ilustração".3 0

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Seja pelo desenvolvimento de sua situação em grande parte do mundo, seja nos documentos
oriundos de cada uma das quatro grandes conferências da ONU a ela dedicadas nas três últimas
décadas, o caminho percorrido pela mulher no Século XX, mais do que um processo bem-sucedido
de auto-ilustração no sentido Kantiano - da qual a mulher efetivamente equiparada ao homem
prescindiria e a mulher biológica per se não necessitaria -, evidencia uma capacidade de auto-
afirmação, luta e conquista de posições inigualáveis na História. O fato é o tão evidente que sua
reiteração soa lugar-comum. Mais interessante parece o exame dos fundamentos de tal evolução.
Na descrição de Miriam Abramovay, o desenvolvimento conceitual subjacente à praxis do
feminismo passou, nas últimas duas décadas, dos enfoques reducionistas que encaravam a mulher
como ente biológico, ao tratamento de sua situação como ser social, "ou seja, incorporou-se a
perspectiva de gênero para compreender a posição da mulher na sociedade". As conferências da
ONU, por sua vez, sempre tendo como temas "Igualdade, Desenvolvimento e Paz", foram
expandindo os campos prioritários de atuação. A partir dos subtemas do trabalho, da educação e
da saúde, na Conferência do México, em 1975, passaram a incluir a violência, conflitos armados,
ajustes econômicos, poder de decisão e direitos humanos em Nairóbi, em 1985, e, agora,
abrangem os novos temas globais do meio ambiente e dos meios de comunicação, além da
situação particular das meninas. As estratégia, que privilegiavam originalmente a integração da
mulher no processo de desenvolvimento, em Nairóbi já afirmavam que "o papel da mulher no
processo de desenvolvimento tem relação com o desenvolvimento de toda a sociedade". Faziam-
no, porém, sem um exame mais detido das relações históricas assimétricas homem-mulher, que
incorporam relações de poder.3 1 Em Beijing as relações de gênero, com seu substrato de poder,
passaram a constituir o cerne das preocupações e dos documentos adotados, tendo como
asserção fundamental a reafirmação dos direitos da mulher como direitos humanos. E nestes se
acham, hoje, naturalmente, incluídos seus direitos e necessidades específicos, particularmente os
reprodutivos, os sexuais e os referentes à violência de que são vítimas, por indivíduos e
sociedades, tradições, legislações e crenças.
Não cabe aqui falar em particularismo anti-iluminista por se tratar de direitos específicos. Sua
especificidade, inerente à natureza biológica e humana de mais de metade da humanidade, longe
de enfraquecer, fortalece o universalismo da Declaração dos Direitos Humanos de 1948. Conforme
assinalava a Chefe da delegação do Brasil imediatamente após o parágrafo supracitado:
"Nesta agenda, as mulheres hão de ser não somente beneficiárias, mas, sobretudo, promotoras do
desenvolvimento sustentado e com eqüidade. (...) Teremos como horizonte uma democracia que,
reconhecendo a existência de diferenças entre os sexos, seja capaz de garantir-lhes a igualdade
de direitos. Assim, entendida a luta das mulheres pela igualdade não é apenas uma luta em seu
próprio beneficio. E uma luta em beneficio de todos e se confunde, por isso mesmo, como o
fortalecimento da própria democracia. (...)
Um dos maiores desafios exigidos por esse momento reside na necessidade de nos unirmos para
mobilizarmos recursos, de modo que esta Plataforma de Ação aqui aprovada se transforme em
realidade, beneficiando não só as mulheres, mas toda a Humanidade".
Nesse sentido, nitidamente iluminista, a Conferência de Beijing poderia ser interpretada como o
veículo de uma verdadeira universalização dos direitos humanos da Ilustração, atualizando em dois
séculos os Droits de l'Homme et du Citoven de 1789, numa revanche póstuma de Olympe de
Gouges, guilhotinada em 1793, revanche esta consubstanciada na vindication ampliada dos
direitos defendidos por Mary Wallstone-craft no mesmo século XVIII. O problema novo para que os
ideais de ambas as precursoras se universalizem, a par das dificuldades já existentes desde
sempre para sua materialização, é que nestes tempos atuais, ditos "pos-modernos" - na verdade
apenas contra-iluministas - o universalismo voltou a ser questionado de maneira veemente no
próprio campo da epistemologia e das ciências sociais, enquanto os direitos humanos se vêem
ameaçados por todos os tipos de fundamentalismos.
Num período de equilíbrio de terror nuclear, ainda assim mais "otimista" do que o atual, quando a
campanha contra o opartheid e as discriminações amalgamava a maior parte dos Estados, a I
Conferência Mundial sobre a Mulher, de 1975, propiciou a adoção, em 1979, pela Assembléia Geral
da ONU, da Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher,
principal instrumento jurídico internacional para a Defesa dos direitos da parcela feminina das
populações nacionais, coletiva e individualmente.
Em 1980, em Copenhague, em meio a compromissos assumidos pelos Estados para a ratificação
dessa Convenção, o foco da II Conferência deslocou-se para o tema do desenvolvimento. Na III
Conferência em Nairóbi, enquanto os temas prioritários se expandiam consideravelmente, o número
de ratificações à Convenção ainda permanecia limitado. Hoje, embora o número de adesões tenha
crescido bastante - 140 signatários em 30 de junho de 19953 2 -, a Convenção para a Eliminação
da Discriminação contra a Mulher ainda é o documento jurídico internacional de proteção aos
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direitos humanos que conta com o maior número de reservas.


Reservas são, evidentemente, demonstrações de seletividade no nível de adesão de cada Estado
aos documentos internacionais de cuja adoção participam. É em função das reservas a ela
registradas que a universalidade da Plataforma de Ação de Beijing poderá ser contestada.
Em contraposição aos 18 Estados que haviam formulado reservas ao Programa de Ação do Cairo
um ano antes, os 28 que o fizeram à Plataforma de Beijing3 3 confirmam a tendência preocupante e
expansão e aprofundamento de fundamentalismos já apontada anteriormente.
A maioria das reservas incide, conforme esperado, sobre os textos atinentes a direitos específicos
da mulher. Algumas, por outro lado, de países ricos, reiteram posições sobre assistência
econômica internacional muito pouco cooperativas com os objetivos da Plataforma de Ação.
Ante as reservas deste segundo tipo e a falta de ânimo construtivo para uma melhor distribuição
nacional e internacional de recursos ostentada no Capítulo VI do documento, não deixa de soar
pertinente o seguinte trecho do discurso introdutório a suas reservas, feito em Plenário pela Chefe
da delegação da Santa Sé, ao criticar o "individualismo exclusivista" dos direitos específicos
consagrados na Plataforma de Ação:
"...Esta seletividade marca assim um passo a mais na colonização do amplo e rico discurso sobre
os direitos universais por um dialeto empobrecido de direitos libertários. Seguramente, este
encontro internacional poderia ter feito mais pelas mulheres e meninas do que deixá-las sozinhas
com seus direitos!".3 4
Às reservas do primeiro tipo se aplicam ainda, com dolorosa adequação, as palavras iluminadas de
Kant, na continuação do texto supracitado em que definia a Ilustração:
"...Aqueles tutores que tão bondosamente tomaram a si a tarefa da supervisão se encarregam de
que o passo para a maioridade, além de difícil, seja considerado perigoso pela grande maioria dos
homens (e entre estes todo o belo sexo)".
Na verdade o que está ultrapassado é tão-somente a generalização do trecho entre parênteses. A
maior parte da metade feminina da humanidade já demonstrou e segue demonstrando sobejamente
a determinação com que põe em prática o lema Sapere aude! da Ilustração. Muitas
individualidades do "belo sexo" continuam a ser "guilhotinadas", de formas diversas, por tal
determinação. Outras permanecem na "minoridade" a que se refere o filósofo, menos, sem dúvida,
por vontade própria do que pela ação de seus "bondosos tutores".
Quaisquer que sejam as reservas alheias aos documentos internacionais sobre os direitos da
mulher, para o Brasil, inspirado desde a Inconfidência Mineira nos ideais universalistas da
Ilustração (ainda que de maneira parcial e distorcida, como, de resto, todos os modernos Estados
do Ocidente), detentor da nona maior economia do mundo, parte integral da Convenção da Mulher
de 1979, sobre a qual já não mantém qualquer reserva,3 5 e aderente sem seletividades à
Plataforma e à Declaração de Beijing, o dado essencial a ser levado em conta é que os
documentos oriundos da IV Conferência Mundial sobre a Mulher são agora parte integrante do
conjunto de instrumentos internacionais de promoção e proteção aos direitos humanos. Como tal,
precisam ser observados.

(1) Stepping Stones From Copenhagen to Beijing'95,texto datilografado, Copenhague, 08.03.95.

(2) A palavra empowerment,de denotação e conotação fortes, sem tradução para o português,
tem sido traduzida pela ONU para o espanhol seja por capacitación,seja por potenciación,ambas
insuficientes para veicular seu abrangente significado - que envolve tudo isso, mais a idéia de
participação no poder político,econômico etc. O movimento de mulheres vem utilizando o
neologismo simplificado empoderamento. Utilizarei no texto, daqui em diante, a palavra inglesa em
itálico.

(3) Sobre o assunto v. Alves, J. A. Lindgren, 1995: "Os Direitos Humanos em sursis", Lua Nova n.
35. Cedec, São Paulo, 1995, p. 160-161.

(4) Documento das Nações Unidas A/Conf. 166/9, p. 17.

(5) Alves, J. A. Lindgren, op. cit.,p. 158-160.

(6) Guillebaud, Jean-Claude, La Trahison des Lumières,Paris, Seuil, 1995, p. 64.


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17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais

(7) The Earth Times,Beijing, 14.09.1995, p. 4.

(8) Particularmente o episódio da prisão, julgamento e posterior expulsão do ex-chinês


naturalizado norte-americano Harry Wu e os exercícios bélicos da China nas proximidades de
Taiwan.

(9) Rendo aqui homenagem à Embaixadora Thereza Quintella, Subchefe e coordenadora da


Delegação do Brasil, que se encarregou de praticamente todas as sessões, muitas vezes sozinha,
em alta madrugada, do Comitê Principal.

(10) Todas as citações, paráfrases e resumos aqui feitos são extraídos do Relatório da Quarta
Conferência Mundial sobre a Mulher à 50.ª Sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas,
documento A/Conf. 177/20, versões em inglês e em espanhol.

(11) Art. 18 da parte declaratória da Declaração e Programa de Ação de Viena, documento da


Nações Unidas A/Conf. 157/23.

(12) Art. 1.º da Declaração de Viena.

(13) §§ 7.2 e 7.3 do Programa de Ação do Cairo, Doc. A/Conf. 171/13, p. 41.

(14) , Sobre o tratamento do assunto no Cairo, v. Alves, J. A. Lindgren, "A Conferência do Cairo
sobre População e Desenvolvimento e suas implicações para as relações internacionais", Política
Externa,v. 3, n. 3, [Link]. 1994-95, Paz e Terra, p. 138-9.

(15) § 4.17 do Programa de Ação do Cairo.

(16) A 50.ª Sessão da Assembléia Geral, iniciada imediatamente após o encerramento da


Conferência de Beijing, pouca atenção pôde dedicar às recomendações da Plataforma de Ação,
tanto pela massa avassaladora de assuntos constantes de sua agenda, como porque o próprio
relatório da Conferência, com os documentos dela emergentes, somente ficou pronto no momento
em que se iniciavam os debates, na III Comissão, sobre o tema do "avanço da mulher".

(17) Sobre o assunto v. Alves, J. A. Lindgren Alves, "A Cúpula de Copenhague sobre o
Desenvolvimento Social e a 'Pós-Modernidade''', Prefácio ao Relatório da ONU sobre a Cúpula
Mundial para o Desenvolvimento Social,série Traduções, n. 8, Fundação Konrad Adenauer, São
Paulo, 1995, p. 1-17.

(18) Ibid., p. 7 e 9.

(19) Note-se que o compromisso é com o "consenso e o progresso", não com a integral idade dos
documentos oriundos das conferências.

(20) Sobre o assunto v. Correa, Sonia, "Beijing - Histórias e Geografias - Um primeiro balanço", na
revista Fêmea Ano III, n. 32, setembro de 95, Brasília, CFEMEA, p. 4, e Jornal da Abong 13,
dezembro de 95, p. 3. Para ser mais preciso, o que eu disse, ao ouvir do porta-voz do Grupo dos
77 a declaração de que "o Grupo" ainda tinha problemas com o art. 14, foi que ele poderia estar
falando em nome de "alguns membros do Grupo", mas não em nome do Grupo dos 77, pois somente
se meu país tivesse enlouquecido teria problemas com a afirmação de que os direitos da mulher
são direitos humanos.

(21) Uma leitura atenta da Declaração mostra que a omissão desses direitos da mulher não chega
a causar qualquer problema, pois eles estão estabelecidos na Plataforma e a Declaração afirma a
que os direitos da mulher são direitos humanos. A insistência dos ocidentais, para marcar posição,
adquiriu muitas vezes feições arrogantes, que pouco auxiliariam a causa das mulheres. O Brasil
ofereceu diversas alternativas de linguagem conciliatória, mas, dada a passionalidade com que o
assunto passou a ser tratado no grupo de trabalho informal, presidido por dedicada delegada
canadense, elas não chegaram a ser consideradas.

(22) Embora o § 25 não tenha sido objeto de qualquer discórdia na Conferência de Beijing, cito-o
aqui em função de estereótipos ainda existentes no público em geral sobre o feminismo como um
movimento antimasculino, com o qual o homem não se pudesse solidarizar, ou nada tivesse a ver.

(23) Contrariando, com isso, as representantes do movimento de mulheres negras que integravam
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a delegação do Brasil.

(24) Conforme estabelecido pelo Decreto de 08.12.1993, o Comitê Nacional foi presidido pelo
Ministério das Relações Exteriores e integrado pelos seguintes órgãos: Conselho Nacional dos
Direitos da Mulher (representando o Ministério da Justiça), Ministério da Agricultura, do
Abastecimento e da Reforma Agrária, Ministério da Educação e do Desporto, Ministério do
Trabalho, Ministério da Previdência Social, Ministério da Saúde, Ministério do Bem-Estar Social,
Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, Secretaria de Planejamento, Orçamento e
Coordenação da Presidência da República, Procuradoria-Geral da República, a Coordenadora do
Fórum Nacional de Presidentas dos Conselhos Estaduais da Condição Feminina e uma
representante do Poder Judiciário. A Agência Brasileira de Cooperação funcionou como núcleo da
articulação técnica.

(25) Foram realizados cinco seminários, sobre as seguintes temáticas: 1) "Gênero e relações de
poder", em Salvador; 2) "Políticas econômicas, pobreza e trabalho", no Rio de Janeiro; 3)
"Violência contra a mulher", em São Paulo; 4) "Mulher: educação e cultura" e "Saúde da mulher",
em Porto Alegre; e 5) "Cooperação técnica internacional", em Brasília.

(26) Publicado pelo Ministério das Relações Exteriores em 1994 e amplamente divulgado. A
relatoria geral foi realizada pela Promotora de Justiça do Estado de São Paulo Luiza Nagib Eluf.

(27) O Fundo das Nações Unidas para a Mulher - UNIFEM - liderou o conjunto de agências das
Nações Unidas que, juntamente com a OEA, financiou e prestou assessoria consultiva ao
seminários, consultorias e relatorias.

(28) A delegação do Brasil, que contou com mais de 80 integrantes - governamentais, dos três
Poderes e dos três níveis da Federação, e não-governamentais -, foi chefiada pela Doutora Ruth
Cardoso, Presidente do programa Comunidade Solidária, tendo como Subchefes a Embaixadora
Thereza Quintella, Embaixadora do Brasil em Moscou, e a Doutora Rosiska Darcy de Oliveira,
Presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

(29) Texto datilografado, Pequim, 05.09.1995, p. 2 e 5.

(30) Kant, Immanuel, "Respuesta a la pregunta: Qué es la Ilustración?", in: Maestre, Agapito
(org.), Qué es Ilustración?,trad. espanhola Agapito Maestre e José Romagosa, Madri, Tecnos,
1993, p. 17-18.

(31) Abramovay, Miriam, "Uma conferência entre colchetes", Estudos Feministas,v. 3, n. 1/95,
IFCS/UFRJ-PPCIS/UERJ, p. 213-214.

(32) Nações Unidas, Human Rights - International Instruments - Chart of Ratifications as at 30 de


June 1995, p. 10. Dos 140 signatários, 6 não haviam ratificado a Convenção.

(33) É importante assinalar que o número de reservas efetivamente formuladas à Plataforma de


Ação, conforme registrado no relatório oficial da Conferência à Assembléia Geral da ONU (Doc. A/
Conf. 177/20), foi substancialmente menor do que parecia aos presentes à sessão de
encerramento em Beijing. Isto porque, quando da submissão do texto à aprovação do Plenário,
mais de 40 delegações solicitaram a palavra, muitas das quais, como agora se confirma, para
expressar mais claramente seu apoio à integralidade do documento. Este foi o caso, inclusive, do
Brasil.

(34) Doc. A/Conf. 177/20, p. 162 da versão inglesa.

(35) O Brasil ratificou, com reservas, a Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra a Mulher em 1984. As reservas foram retiradas pelo Governo
brasileiro em novembro de 1994, uma vez obtida necessária autorização do Congresso Nacional.
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