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Poder Comunicacional e Inclusão Digital

O capítulo discute a inclusão digital e suas implicações no poder comunicacional, destacando a ambiguidade das tecnologias na promoção da autonomia e diversidade cultural. A análise aborda a evolução das políticas de inclusão digital no Brasil, enfatizando a importância da conectividade e a necessidade de uma infraestrutura robusta para reduzir as assimetrias sociais. Além disso, explora como a comunicação em rede pode transformar a dinâmica do poder e a participação cidadã na sociedade contemporânea.
Direitos autorais
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Poder Comunicacional e Inclusão Digital

O capítulo discute a inclusão digital e suas implicações no poder comunicacional, destacando a ambiguidade das tecnologias na promoção da autonomia e diversidade cultural. A análise aborda a evolução das políticas de inclusão digital no Brasil, enfatizando a importância da conectividade e a necessidade de uma infraestrutura robusta para reduzir as assimetrias sociais. Além disso, explora como a comunicação em rede pode transformar a dinâmica do poder e a participação cidadã na sociedade contemporânea.
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Para além da inclusão digital

poder comunicacional e novas assimetrias

Sérgio Amadeu da Silveira

SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros

SILVEIRA, SA. Para além da inclusão digital: poder comunicacional e novas assimetrias. In:
BONILLA, MHS., and PRETTO, NDL., orgs. Inclusão digital: polêmica contemporânea [online].
Salvador: EDUFBA, 2011, pp. 49-59. ISBN 978-85-232-1206-3. Available from SciELO Books
<[Link]

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Sérgio Amadeu da Silveira

PARA ALÉM DA INCLUSÃO DIGITAL:


PODER COMUNICACIONAL E NOVAS ASSIMETRIAS

A emergência da sociedade da informação recolocou o debate sobre o poten-


cial das tecnologias para ampliar o desenvolvimento, reduzir os níveis de pobreza,
aumentar a liberdade dos indivíduos e aprimorar a democracia. Tecnofóbicos,
logo, buscaram mostrar o outro lado do processo, argumentando que as redes
poderiam isolar as pessoas, esvaziar ações coletivas e radicalizar os grupos políti-
cos. Realistas, buscando aparentar maiores cuidados, retomaram o debate sobre
o papel das tecnologias na sociedade, indicando que em si elas são ambíguas e
incapazes de mudar as mentalidades. Tecnoutópicos viram nos computadores
conectados a possibilidade de distribuir o poder da informação entre as pessoas,
acreditando que os usos das tecnologias poderiam ampliar a autonomia dos indi-
víduos e das sociedades.
Em paralelo aos debates acadêmicos e entre ativistas políticos, as grandes
corporações perceberam a chance de crescer seu mercado consumidor potencial,
lançando aos governos o discurso da necessidade de combate à brecha digital (di-
gital divide), que separava as sociedades ricas e conectadas das pobres e distantes
dos benefícios da Era da Informação. No Brasil, a expressão “exclusão digital”
passou a caracterizar o fenômeno das barreiras socioeconômicas, colocadas diante
da maioria da população, para uso das tecnologias da informação, desde o final
dos anos 1990. Foi também no Brasil que se denunciou a ideia de inclusão di-
gital apenas como consumo de tecnologias. Por isso, o debate brasileiro sobre a
inclusão digital trazia a discussão sobre a autonomia da sociedade, da apropriação
das tecnologias e da ampliação da diversidade cultural, e assim a maioria dos pro-

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gramas e projetos de inclusão trouxeram a perspectiva do software livre. O foco
na cidadania e não somente na profissionalização ou na modernização gerencial
esteve muito presente no cenário do denominado “combate à exclusão digital”
brasileira.
Com a chegada de Lula ao governo federal, os programas de inclusão digital
se multiplicaram na esfera federal, principalmente projetos de abertura e manu-
tenção de telecentros, locais de acesso gratuito à internet. Dois fenômenos im-
portantes ocorreram a partir de 2003. O primeiro foi o projeto de política digital
no Ministério da Cultura e a proposta de digitalização dos Pontos de Cultura, que
eram constituídos por movimentos e grupos de artistas e produtores culturais
que passaram a receber recursos do governo como apoio às suas atividades. Isso
trouxe novos atores populares e ativistas para o debate do uso das tecnologias de
informação pelas comunidades. O segundo teve na dificuldade de organização
e implementação consistente de uma política pública de inclusão digital pelas
esferas estatais o principal incentivo para a explosão das lan houses, centros de
acesso pago à internet, mantidos por micro e pequenos empresários nas áreas
periféricas. Em 2006, as lan houses tornaram-se o principal local de acesso do
brasileiro das classes D/E, ou seja, 33,97 % deste segmento social usavam as lan
houses para navegar na rede, sendo a escola o seu segundo local de acesso, com
30,02% dos seus integrantes.
No final da primeira década do século XXI, devido à política distributiva
desenvolvida pelo governo Lula, o país viveu o crescimento da classe média bai-
xa, a redução da pobreza e das desigualdades sociais, embora em níveis ainda
distantes do padrão europeu. Nesse cenário, o impacto da redução de impostos
para os computadores e o incentivo a sua compra parcelada levou o computador
à condição de aparelho eletroeletrônico mais vendido no país. Aproveitando a
popularização da internet, algumas cidades passaram a oferecer o sinal de inter-
net por rádio, gratuitamente, para seus munícipes, o que passou a compor um
novo cenário de ampliação do acesso à internet, passando a ser denominadas de
cidades digitais.
Os agentes mais relevantes da chamada política de inclusão digital podiam
ser relatados como: os telecentros públicos, estatais e comunitários, os pontos
de cultura digital, as escolas conectadas, o reconhecimento das lan houses como
atividades de microempreendedorismo que gerava inclusão, cidades digitais com

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nuvens wireless conectando seus moradores, os programas de financiamento de
computadores para as camadas médias e pauperizadas da sociedade. Todos eles
se concentravam na garantia de conexão para as pessoas em seus territórios. E o
crescimento da conectividade alertou a sociedade para o gargalo da infraestrutura
de telecomunicações, a ausência da banda larga em enormes áreas do território
nacional.
Percebendo o fracasso do mercado em assegurar a infraestrutura básica de
banda larga onde não havia renda suficiente para remunerar o modelo de negó-
cios nascido do programa brasileiro de privatizações, o presidente Lula lança, em
2009, o seu Plano Nacional de Banda Larga. Imediatamente as operadoras de
telefonia passaram a atuar para bloquear qualquer tentativa do Estado de atuar
diretamente na oferta de conexão, ou até mesmo de implementação de controles
mais rígidos de preço e qualidade. Acusadas de ineptas na construção desta in-
fraestutura, as operadoras voltaram sua carga para reverter o plano iniciado por
Lula em um plano de ampliação dos benefícios econômicos para sua atividade.
Entre 2000 e 2010, as políticas e iniciativas de inclusão digital no país foram
diversas, algumas eficazes e outras pouco impactantes, mas durante toda essa dé-
cada, apesar de inúmeros esforços, o Estado não conseguiu organizar uma política
pública coerente e minimamente articulada que possa ser comparável ao Sistema
Único de Saúde ou à Política Educacional. É perceptível que os líderes políticos e
gestores públicos têm grande dificuldade de entender a importância da inserção
do conjunto das camadas sociais na comunicação em rede para romper o pro-
cesso de reprodução da miséria. Todavia, aqui não serão avaliadas as políticas da
chamada inclusão digital. Neste texto, será trabalhado menos a revisão do con-
ceito de inclusão digital e mais a descrição do debate teórico sobre os processos
comunicacionais em rede para a cidadania, com destaque para os temas do poder
comunicacional e da liberdade de expressão e ação em rede.

CASTELLS E O PODER COMUNICACIONAL

Manuel Castells (2009) sustenta que os meios de comunicação tornaram-se


o espaço social onde o poder é decidido. Todavia, antes das redes informacionais,
essa afirmação só poderia ser considerada verdadeira em países democráticos,
ou seja, em locais onde a opinião pública poderia se formar a partir das disputas

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simbólicas entre as diversas forças políticas na imprensa, nas rádios e na TV. Na
Coreia do Norte e na China, as redes centralizadas de comunicação de massa não
permitiam o debate livre sobre os rumos do poder. Com o advento da comuni-
cação distribuída em redes digitais, mesmo em países ditatoriais, se conformam
espaços de diálogos horizontais entre grupos e indivíduos conectados. Indepen-
dente da comunicação em rede estar sob os olhares dos ditadores e submetida ao
rastreamento promovido pelas polícias políticas e antiterror, o bloqueio das arti-
culações e dos movimentos de opinião é muito mais difícil do que em um cenário
pré-internet. Essa afirmação foi confirmada nos protestos iniciados nos países
árabes no final de 2010 e início de 2011. A denominada Revolução de Lótus, no
Egito, teve seu início articulado pela rede, culminando com um conjunto de pro-
testos e atos de desobediência civil. A primeira manifestação convocada pela rede
aconteceu em 25 de janeiro de 2011 e desencadeou uma onda de atos públicos
que culminou com a queda do ditador Hosni Mubarak.
Se de fato os meios de comunicação são essenciais para a manutenção ou
mudança nas estratégias do poder, a inclusão dos segmentos mais pauperizados
no uso das redes digitais tenderá a tornar as disputas políticas mais complexas
e diversificadas. A hipótese de Castells baseia-se na importância derradeira da
interação entre comunicação e relações de poder no contexto tecnológico que
caracteriza a sociedade em rede. Dela podemos extrair a perspectiva de que a in-
teratividade em redes distribuídas muda as exigências, as ferramentas e o cenário
das disputas, uma vez que o espaço social dos conflitos é cada vez mais aberto e
visível a todos os indivíduos conectados. Nesse sentido, pode-se dizer que a in-
clusão digital autônoma do conjunto das localidades de um país é uma exigência
atual da democracia política, bem como do ideal deliberacionista.
O poder comunicacional hoje é, cada vez mais, realizado pelo acesso e uso
pleno das tecnologias da informação. A expressão “poder comunicacional” pode
ser empregada para definir o grau de autonomia que um indivíduo ou coletivo
possui para obter informações e para disseminar conteúdos independentemente
da vontade de outros indivíduos e coletivos. É preciso realçar que o poder co-
municacional sempre é relacional, e deve ser entendido como posições historica-
mente adquiridas que permitem uma maior ou menor capacidade de empregar
estratégias de poder a partir dos arranjos comunicativos. Castells (2009) procu-
rou demonstrar a ligação direta entre a política, a política de mídia, a política

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do escândalo e da crise de legitimidade política em uma perspectiva global. Tais
fenômenos só podem ser razoavelmente interpretados se a análise incorporar sua
relação com as redes horizontais de interação que têm induzido o surgimento de
novas formas de comunicação e reforçado a auto-comunicação e auto-organiza-
ção de massa.
A abordagem de Manuel Castells sobre a comunicação em uma socieda-
de em rede globalizada permite "diferenciar quatro formas de poder distintas:
poder de conectar em rede (networking power); poder da rede (network power);
poder em rede (networked power); e poder para criar redes (network-making
power)." (CASTELLS, 2009, p. 72) Entre todas estas formas de poder, a mais
importante e crucial é a capacidade para criar redes (network-making power),
de descobrir novas lógicas envolventes e que atraiam indivíduos e coletivos
em suas teias. Para Castells (2009), nas sociedades em rede, o exercício do
controle sobre os outros se realiza por meio de dois mecanismos básicos: a
capacidade de constituir e de reprogramar as redes segundo os seus interesses
e finalidades; e a capacidade para conectar diferentes redes e assegurar sua
cooperação estratégica.
Aqui é preciso continuar a reflexão em dois sentidos: o da relação do poder
comunicacional com a conectividade, de um lado, e do poder comunicacional
com o grau de autonomia tecnológica, de outro. O poder de conectar em rede ou
de bloquear e impedir que grupos sociais tenham acesso à rede requalifica a ideia
de inclusão digital, que passa a ganhar uma dimensão principalmente democrá-
tica. Ao deixar extensas regiões sem conexão ou sem assegurar o direito dos seg-
mentos pauperizados ao uso da comunicação em redes digitais, o Estado e seus
grupos hegemônicos deixam milhares e até milhões de pessoas sem a possibilida-
de de obter mais poder a partir do desenvolvimento da capacidade de criar redes,
articulações e interações com vistas à defesa ou à ampliação de seus interesses.
Para que os movimentos sociais sejam capazes de intervir mais decisivamen-
te no espaço de comunicação, precisam aumentar sua capacidade de criar redes,
portanto, precisam também elevar seu grau de autonomia tecnológica, de usar,
recriar novos usos, recombinar tecnologias e criar soluções informacionais para
atender suas necessidades. Isso por que há uma grande assimetria na capacidade
de usar as redes digitais, entendida aqui como meio e fonte de poder, como base
para a articulação das outras redes culturais, sociais e políticas. Aqui é possível

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retornar Castells e lembrar que, em sua visão, a mídia corporativa e as institui-
ções políticas convencionais também têm investido nesse espaço de comunicação.
Como resultado desses processos, os meios de comunicação de massa e as redes
de comunicação horizontais se tornam convergentes. A consequência disso é uma
mudança histórica na esfera pública que passa a alargar enormemente o seu es-
paço de comunicação.

POR QUE O DEBATE SOBRE A INFRAESTRUTURA É ESTRATÉGICO

Dromocracia é o poder da velocidade, uma temática tratada de modo exaus-


tivo pelo pensador Paul Virilio (1996a, 1996b). Ele considera que as tecnologias
transformam o espaço geográfico em todas as escalas e alteram as relações entre
indivíduos e natureza. A tecnização do território foi produzida pela inovação
constante operada por motores a vapor, a explosão, o elétrico, o foguete e a infor-
mática. Em cada inovação, a velocidade foi sendo alterada e com ela a forma de
perceber e até de conceber o mundo. O poder não pode existir em ritmo lento, a
velocidade é o seu componente.
Se observarmos as relações econômicas, sociais e políticas podemos notar a
crescente exigência da velocidade em seu contexto. Pode-se afirmar que a socie-
dade em rede é uma sociedade que exige a dromoaptidão, ou seja, a capacidade
dos indivíduos atuarem em velocidades crescentes. As redes digitais são pensadas
para suportarem aplicações e plataformas que exigem o processamento e a trans-
ferência de dados em velocidades sempre maiores. A velocidade de conexão, de
processamento, de acesso aos dados armazenados constitui fontes de poder nas
redes, econômico, político e até mesmo de influência cultural.
Redes mais velozes são preferidas às redes lentas. Não há nenhum sentido
em buscar o contrário. Por isso, a velocidade da conexão é um elemento crucial
nos processos de inclusão digital. Conectar uma localidade à internet é um passo
importante, mas se o acesso for em banda estreita, dificilmente aquela comunida-
de poderá acessar recursos tecnológicos que dependem de uma alta transferência
de dados por segundo. As distintas taxas de velocidade de conexão são um dos
principais componentes das assimetrias entre os chamados incluídos digitais.
Um download de um DVD com 4GB leva em banda estreita de 56 kbps,
aproximadamente, 1 semana. O mesmo DVD demora em média 4 horas e 30

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minutos para ser completamente baixado com um conexão de 2 Megabits. Com
uma conexão de 100 Megabits, implantada hoje na Coreia e Finlândia, entre
outros países, pode ocorrer em apenas 5 minutos. As diferenças de usos da rede
com conexão lenta das de conexão veloz são muito grandes. Na primeira, o uso
de multimídia fica demasiadamente comprometido.
A infraestrutura de conectividade pode gerar desigualdades de oportunida-
de no uso da rede. É perceptível que atualmente não basta conectar os cidadãos,
sendo necessário conectá-los em velocidades compatíveis com o desenvolvimento
das aplicações, sistemas e soluções na rede. Desconsiderar tal proposição pode
gerar políticas de inclusão assimétricas, que consolidam o poder na rede e o po-
der de criar redes daqueles que são mais velozes, que possuem mais capital ou
mais poder político. Em um certo sentido, essa inclusão assimétrica cria cidadãos
conectados de categorias distintas no uso da rede.

NEUTRALIDADE DA REDE E CONTROLE DA CRIATIVIDADE

A internet é uma rede cibernética, ou seja, de comunicação e controle. Ela


pode ser definida também como uma rede de redes, formada por um arranjo
comunicacional baseado em protocolos abertos que permitem a distribuição de
informações digitalizadas. Tais protocolos são agrupados em camadas, sendo cada
uma delas responsável por um grupo de tarefas. As camadas de enlace, rede,
transporte e aplicação podem ser chamadas de camadas lógicas, pois elas orga-
nizam os protocolos sobre o fluxo de informações, sobre os elementos imateriais
da rede. Já a camada física da internet é aquela que trata de como os bits são
transformados em sinais eletromagnéticos e transportados por conectores, cabos
e fibras.
A camada física é administrada no mundo por poucas grandes corporações
de telecomunicações que constituem um dos mais lucrativos segmentos econô-
micos oligopolizados da atualidade. O crescente uso das redes digitais implicou
no maior fluxo de informações passando pelas redes físicas desses oligopólios.
Recentemente, tais corporações perceberam que possuem um poder descomunal
sobre a internet, pois a rede das redes depende de sua infraestrutura. Simultane-
amente, diversos setores da sociedade passaram a enxergar o poder descomunal

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que este segmento adquiriu sobre o conjunto da comunicação digital. Quem
controla a infraestrutura física da rede pode controlar o fluxo digital da rede.
A internet se alastrou pelo planeta embalada pelo princípio da neutralidade
da rede. O que esse princípio de operação da rede significa? Que uma camada
deve ser neutra em relação ao funcionamento da outra. Isso quer dizer que quem
controla a camada física não pode controlar o que é feito nas camadas lógicas da
rede. Na internet, as informações são transformadas em pacotes de dados con-
forme os protocolos de comunicação. Assim, um e-mail, um vídeo, uma página
da web, e todos os demais objetos virtuais transferidos pela internet são trans-
formadas em pacotes de dados que possuem um cabeçalho contendo a origem,
o destino e o tipo de aplicação, permitindo que sejam enviados para o seu desti-
no e remontados nos computadores das pessoas. O princípio da neutralidade da
rede assegurou até então que nenhum pacote pudesse ser bloqueado por uma
operadora de telefonia devido ao seu IP de destino ou por causa de seu tipo de
aplicação.
Em 2007, Free Press denunciou a Comcast Corporation, maior operadora de
televisão a cabo e segundo maior fornecedor de infraestrutura de banda larga dos
EUA, por interromper ou dificultar o acesso ao BitTorrent (P2P), uma das aplica-
ções mais utilizadas na internet. Em 2008, a Federal Communications Commis-
sion (FCC) avaliou que a Comcast deveria ser punida por, secretamente, intervir
no funcionamento de aplicativos da internet em sua rede ao interromper ou di-
ficultar o acesso dos usuários ao BitTorrent. Em 2010, a Justiça norte-americana
dá ganho de causa a Comcast afirmando que a FCC não tem autoridade para im-
pedir que a corporação regule o tráfego peer-to-peer em nome do gerenciamento
de rede. Tal decisão quebrou o princípio da neutralidade da rede ao permitir que
a operadora pudesse fazer com que alguns pacotes de dados tivessem sua velo-
cidade reduzida e até pudessem ser paralisados e destruídos em sua rede física.
A violação da neutralidade da rede coloca em risco a inovação e a grande
criatividade na rede. Seria praticamente impossível criar um YouTube ou mesmo
o protocolo BitTorrent, caso, no início da internet, as operadoras de telecom pu-
dessem filtrar o tráfego ou decidir bloquear pacotes de dados de protocolos ou
aplicações desconhecidas ou não autorizadas por sua política comercial. A abertu-
ra para a inovação, sem a necessidade de autorização de governos ou corporações,

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é destruída quando o controlador da infraestrutura tem o poder de dizer o que
pode ou não pode passar por sua rede.
Outro ponto essencial é que a quebra da neutralidade da rede pode interferir
na inclusão digital autônoma de localidades e países. As corporações de telecom
passam a ter o poder comunicacional de impedir que tais regiões criem novos
conteúdos, formatos e tecnologias sem a sua autorização, sem um acordo prévio,
uma vez que possuem o poder de conexão acima dos interesses das populações e
Estados nacionais. O fim da neutralidade implica na ampliação das assimetrias
na sociedade informacional.

CIDADANIA NAS REDES DIGITAIS E AS TRÊS LIBERDADES


BÁSICAS

David Ugarte (2008, p. 26), em seu texto O Poder das redes, considera que
as tentativas de controle no cenário informacional são ineficazes, uma vez que
em uma rede distribuída, "por definição, ninguém depende exclusivamente de
ninguém para poder levar a qualquer outro sua mensagem. Não há filtros úni-
cos". Para reforçar o argumento, utiliza a perspectiva de Alexander Bard e Jan
Söderqvist, que definem uma rede distribuída como aquela em que "todo ator in-
dividual decide sobre si mesmo, mas carece da capacidade e da oportunidade para
decidir sobre qualquer dos demais atores." (UGARTE, 2008, p. 26) Como vimos,
isso só poderá ser verdadeiro em duas situações: a da existência da neutralidade
da rede ou pela ação de “hackeamento” dos filtros no fluxo de dados praticado
pelas operadoras de telecom.
O objetivo das grandes operadoras de telecom e da indústria do copyright
é transformar a internet em uma “grande rede de TV a cabo”, ou seja, reduzir a
sua interatividade, filtrar os fluxos de informação, impedir o compartilhamento
livre de arquivos digitais. Com o discurso falacioso de melhorar o funcionamento
da rede, tal objetivo é também diminuir o aumento do poder comunicacional dos
indivíduos e coletivos que usam a rede para ampliar a articulação das pessoas em
torno de suas causas, sejam elas quais forem. Um bom exemplo veio da Espanha.
Milhares de jovens, convocados pela internet, dirigiram-se às praças espanholas
no dia 15 de maio de 2011. Nenhum partido ou grande instituição os convocou,
nenhum grande jornal, muito menos teve apoio do governo ou da igreja. Eles

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usavam nas redes sociais as hashtags #spanishrevolution e #DemocraciaRealYa
que, entre outras, incomodaram profundamente os segmentos reacionários de
todos os partidos conservadores, incluindo os velhos socialistas do PSOE. A pla-
taforma de reivindicações, as palavras de ordem, os slogans, eram discutidos nas
redes digitais e nas ruas.
Com a inclusão cada vez maior das regiões e dos segmentos sociais mais
pauperizados, os conservadores em geral e especificamente das indústrias do co-
pyright e de telecom querem reduzir o nível de liberdade conquistado com a
expansão da internet. Querem a inclusão digital sem autonomia, querem novos
internautas com menos poder comunicacional, querem interatividade controla-
da, querem a rede sem as suas três liberdades fundamentais que a fizeram ser
considerada direito humano básico pela ONU.
Quais as três liberdades essenciais da internet? A liberdade de criação de
novos conteúdos, de novas tecnologias e de navegação sem centros de passa-
gem obrigatórios. Tais liberdades é que tornam a internet uma obra aberta e
em expansão. A qualquer momento um jovem africano, sul-americano, asiático
ou de qualquer parte do planeta pode criar um novo formato, protocolo, pa-
drão ou aplicativo que poderá revolucionar a internet. Isso não é mais tolerado
pelas grandes corporações do copyright, que vivem o pesadelo do Napster, do
Gnutella, do BitTorrent, ou mesmo pelas operadoras de telefonia, que viram
sua lucratividade despencar com a popularização da Voz sobre IP. Esses senhores
querem restabelecer a ordem do mundo industrial na sociedade da informação.
Querem internalizar a criatividade em suas corporações para que ela não “caniba-
lize” seus produtos, muito menos inviabilize seus modelos de negócios.
Até este momento, qualquer um pode criar ou inventar algum novo for-
mato ou alguma nova tecnologia sem ter que pedir autorização para nenhum
governo ou grande grupo econômico. Esse poder “da garagem”, dos coletivos de
software livre, dos hackers, é que está sendo combatido e com ele a ideia de uma
rede plenamente aberta à criação e à inventividade. Se esses grupos do mundo
industrial vencerem os embates que hora se trava pelo futuro da internet, certa-
mente teremos uma rede com menor possibilidade para a ampliação da cidadania
e menor diversidade cultural e tecnológica. Entretanto, os ciberativistas e suas
conexões rebeldes são confiantes em seu poder de hipertrofiar as corporações da

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intermediação e continuar mantendo a rede das redes com sua arquitetura distri-
buída, aberta e baseada na neutralidade de suas camadas de protocolos.

Referências
CASTELLS, Manuel. Comunicación y poder. Madrid: Alianza Editorial, 2009.
UGARTE, David. O poder das redes. Porto Alegre: PUC-RS, 2008.
VIRILIO, Paul. A arte do motor. São Paulo: Estação Liberdade, 1996a.
_____. Velocidade e política. São Paulo: Estação Liberdade, 1996b.

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