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Racismo Institucional e suas Consequências

O trabalho analisa o impacto do racismo institucional na sociedade brasileira, destacando a urgência de compreender e combater essa questão em um contexto de retrocesso democrático e avanço de discursos conservadores. O estudo visa contribuir para a formação de práticas profissionais no Serviço Social que incorporem a questão racial, promovendo uma atuação antirracista e transformadora. Além disso, discute os desafios enfrentados pelas populações negras e a necessidade de reconhecer as estruturas de exclusão que perpetuam desigualdades.

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Juli Lucas
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Racismo Institucional e suas Consequências

O trabalho analisa o impacto do racismo institucional na sociedade brasileira, destacando a urgência de compreender e combater essa questão em um contexto de retrocesso democrático e avanço de discursos conservadores. O estudo visa contribuir para a formação de práticas profissionais no Serviço Social que incorporem a questão racial, promovendo uma atuação antirracista e transformadora. Além disso, discute os desafios enfrentados pelas populações negras e a necessidade de reconhecer as estruturas de exclusão que perpetuam desigualdades.

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__________________________________________________________________________________

SISTEMA DE ENSINO PRESENCIAL CONECTADO


CURSO: BACHARELADO EM SERVIÇO SOCIAL

RYAN DA SILVA LIMA

RELAÇÕES RACIAIS: O IMPACTO DO RACISMO INSTITUCIONAL

___________________________________________________________________

Catanduva-SP
2025
RYAN DA SILVA LIMA

RELAÇÕES RACIAIS: O IMPACTO DO RACISMO INSTITUCIONAL

Trabalho apresentado ao Curso de Serviço


social 8°Semestre da UNIVERSIDADE
PITÁGORAS–UNOPAR para a disciplina de
Trabalho de Conclusão de Curso II.

Prof.ª Tania Maria Pereira Correia

Catanduva/SP
2025
Lima, Ryan da Silva. Relações raciais: O impacto do racismo institucional. 2025.
Número total de folhas. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Serviço
Social) – Universidade Pitágoras Unopar, Catanduva, 2025

RESUMO

A escolha deste tema se justifica pela urgência de se compreender e combater o


racismo institucional na sociedade brasileira. Em um contexto de fragilidade do regime
democrático e de avanço de discursos conservadores e extremistas de direita na
sociedade, observa-se um retrocesso nas políticas sociais e nos direitos
historicamente conquistados pelas populações negras. Tais fenômenos impactam
diretamente a efetivação da justiça social, da igualdade racial e do acesso igualitário
a direitos fundamentais. Nesse sentido, este trabalho tem como finalidade analisar
criticamente os desafios contemporâneos enfrentados pelas populações negras no
Brasil e como o racismo institucional opera nas estruturas sociais, políticas e
institucionais, perpetuando desigualdades. Além disso, visa discutir alguns conceitos
das relações raciais, que são indispensáveis à formação crítica. O estudo é voltado
para estudantes e profissionais do Serviço Social, bem como para os demais
interessados nos estudos das relações raciais. Pretende contribuir com a formação
de uma prática profissional comprometida com os princípios ético-políticos da
profissão, ressaltando a importância de incorporar a questão racial como eixo
transversal na intervenção social. Dessa forma, busca-se fortalecer uma atuação
antirracista e transformadora, alinhada ao projeto ético-político do Serviço Social.

Palavras-chave: Serviço social. Racismo institucional. Direitos Sociais. Lugar de fala.


Democracia Racial.
Lima, Ryan da Silva. Race relations: The impact of institutional racism. 2025. Número
total de folhas. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação in Social Work) –
Universidade Pitágoras Unopar, Catanduva, 2025.

ABSTRACT

The choice of this topic is justified by the urgent need to understand and combat
institutional racism in Brazilian society. In a context of fragile democratic regime and
the rise of conservative and right-wing extremist discourses in society, there is a
regression in social policies and in the rights historically achieved by Black populations.
These phenomena directly impact the implementation of social justice, racial equality,
and equal access to fundamental rights. Therefore, this work aims to critically analyze
the contemporary challenges faced by Black populations in Brazil and how institutional
racism operates within social, political, and institutional structures, perpetuating
inequalities. Furthermore, it aims to discuss some concepts of race relations, which
are essential for critical education. The study is aimed at students and professionals in
Social Work, as well as others interested in the study of race relations. It aims to
contribute to the development of professional practice committed to the ethical and
political principles of the profession, highlighting the importance of incorporating the
racial issue as a cross-cutting axis in social intervention. In this way, we seek to
strengthen anti-racist and transformative action, aligned with the ethical-political
project of Social Service.

Keywords: Social Work. Institutional racism. Social rights. Place of speech. Racial
democracy.
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 6
2. DESENVOLVIMENTO ............................................................................................ 7
2.1 FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA E A QUESTÃO RACIAL: ENTRE
PROGRESSOS E RETROCESSOS....................................................................... 7
2.2 RACISMO INSTITUCIONAL: BRANQUITUDE, CONSERVADORISMO E
PACTO DE SILENCIAMENTO................................................................................ 7
3. REFLEXÕES E DILEMAS SOBRE AS QUESTÕES RACIAIS NA CENA
CONTEMPORÂNEA .................................................................................................... 12
3.1 O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL.................................................................... 12
3.2 LUGAR DE FALA ................................................................................................... 17
4. O PROJETO ÉTICO POLÍTICO E A ATUAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL
DO ASSISTENTE SOCIAL FRENTE AS DEMANDAS DA POPULAÇÃO NEGRA .. 22
4.1 DIRETRIZES CURRICULARES E ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE
SOCIAL: NOVAS PROPOSTAS FRENTE ÀS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS NA
CENA CONTEMPORÂNEA ......................................................................................... 22
5. CONCLUSÃO........................................................................................................ 27
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ............................................................................ 29
5

1. INTRODUÇÃO

Vivemos hoje no Brasil um cenário contraditório apesar da visível força que


as pautas em relação a população negra vêm ganhando nas esferas sociais, políticas,
acadêmicas, entre outros..., o país segue sendo marcado por altos índices de
violência, discriminação e morte contra negros no Brasil.
O debate em relação ao enfrentamento a este tipo de violência é
frequentemente pautado pelo CFESS (Conselho Federal de Serviço Social) e CRESS
(Conselho Regional de Serviço Social) na perspectiva de viabilização dos direitos
humanos para essa população. Por um lado, apesar de ser um assunto bastante
pautado pelo conjunto CFESS-CRESS notamos uma certa resistência de profissionais
e estudantes em debater e trabalhar essa temática do que se refere a essa população
no âmbito acadêmico e profissional, por outro lado a significativos avanços teóricos e
práticos dos assistentes sociais no que se refere a defesa de direitos da população
negra.
6

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA E A QUESTÃO RACIAL: ENTRE


PROGRESSOS E RETROCESSOS

2.2 RACISMO INSTITUCIONAL: BRANQUITUDE, CONSERVADORISMO


E PACTO DE SILENCIAMENTO

O Brasil carrega, em sua história, mais de 300 anos de escravidão. Embora a


abolição legal tenha ocorrido em 1888, seus efeitos continuam presentes no
imaginário coletivo da sociedade brasileira, sustentando práticas, discursos e
pensamentos que promovem direta ou indiretamente a exclusão e a discriminação
racial. Este processo afeta cotidianamente a população negra, manifestando-se nas
estruturas institucionais públicas e privadas.
Segundo Silvio Almeida (2019), o racismo estrutural deve ser compreendido
como parte integrante das instituições sociais, de modo que não é possível separar o
racismo das estruturas políticas e econômicas do país. O autor afirma que “o racismo
não é uma anomalia, um desvio do funcionamento da sociedade, mas sim um
elemento constitutivo de sua formação”. Esse entendimento permite analisar o
racismo como um sistema que se reproduz por meio das instituições sejam elas
públicas ou privadas, dificultando o acesso e a ascensão de pessoas negras a
espaços de poder e decisão.
Como observa Cida Bento (2022), esse processo está vinculado ao conceito
de branquitude, sustentado por um pacto de cumplicidade não verbalizado entre
pessoas brancas, que visa à manutenção de seus privilégios. Segundo a autora, “as
formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de
instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas. Esse pacto da
branquitude possui um componente narcísico de autopreservação, como se o
‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’, o ‘universal’” (Bento, 2022, p. 45).
7

O conceito de racismo institucional representa um avanço significativo nos


estudos das relações raciais no Brasil. Apesar disso, muitas vezes é erroneamente
reduzido à questão da representatividade. A presença de pessoas negras em espaços
de poder não garante, por si só, a superação do racismo. Como aponta Bento (2022),
“em um ambiente em que todas as pessoas são brancas, elas se identificam uma com
as outras e se veem como iguais. Quando isso é rompido pela presença de uma
pessoa negra, o grupo se sente ameaçado pelo ‘diferente’, que, por ser a única pessoa
negra num país majoritariamente negro, expõe os pés de barro do sistema
meritocrático”.

Assim, os poucos que conseguem romper a barreira institucional enfrentam


desafios contínuos. São frequentemente questionados em sua capacidade,
honestidade e competência, sendo obrigados a provar diariamente seu mérito.
Ambientes historicamente dominados por pessoas brancas se tornam, portanto,
espaços hostis à presença negra.

Historicamente, os estudos sobre relações raciais tiveram certa presença nas


instituições, ainda que insuficiente. Diversos direitos foram conquistados por meio da
luta de populações negras, indígenas e LGBTQIA+. No entanto, o avanço de políticos
de extrema-direita e conservadores, sobretudo com a eleição de Jair Bolsonaro em
2018, promoveu um retrocesso significativo nas pautas relativas a esses grupos. A
vitória desses setores no Congresso Nacional fortaleceu discursos e práticas que
afastam os direitos humanos e a equidade racial do centro do debate político.
8

Mesmo com a derrota de Bolsonaro nas eleições em 2022 e sua elegibilidade


em 2023, seus apoiadores se mostram dedicados e articulados para que suas ideias
não saiam do debate político e dos espaços de poder. Um exemplo emblemático foi o
ataque de 8 de janeiro contra os prédios públicos em Brasília depois da vitória de Lula,
que causaram milhões em perdas, segundo o jornal brasil de fato o cálculo do prejuízo
é de cerca de R$ 20 milhões. Somente no Supremo, os danos já custaram mais de
R$ 12 milhões. No Planalto e no Congresso Nacional, os gastos estão acima de R$ 4
milhões.

Esses grupos se autodeclaram defensores de “Deus, da pátria e da família”,


mas, na prática, utilizam essa retórica para mobilizar a base conservadora e religiosa
da sociedade brasileira. Essa narrativa tem sido constantemente instrumentalizada
por políticos de direita, não com o objetivo de debater políticas públicas efetivas, mas
para promover agendas de exclusão e criminalização dos corpos negros, LGBTQIA+,
indígenas, femininos e em situação de vulnerabilidade.

Esse tipo de discurso já se tornou corriqueiro pelos políticos de direita para que
eles consigam conquistar cargos de poder e ganhem cada vez mais apoio por parte
da população. Esses mesmos políticos se apoiam no direito constitucional da
liberdade de expressão e da bíblia, para causar pânico moral, que é segundo o
sociólogo Stanley Cohen um sentimento de medo que é quase sempre exagerado e
que é usado para justificar o ódio em determinado grupo social. Nas eleições de 2018
esse sentimento foi instrumentalizado por políticos de direita, que se dedicou
exclusivamente a populações negras, indígenas, LGBT+, mulheres etc. que foram
colocados como sujeitos que seriam os inimigos da “família tradicional brasileira”
justificando assim o seu extermínio para assegurar a ordem e a segurança.
9

Nesse processo, um dos principais instrumentos utilizados é a disseminação


de fake news. A propagação de notícias falsas se mostrou destrutiva especialmente
durante a pandemia da Covid-19, mas continua sendo utilizada como ferramenta de
manipulação e polarização política. A subestimação do poder das fake news é um
erro; ainda que possam funcionar como "cortinas de fumaça", elas também operam
como mecanismos eficazes de desinformação, alimentando o preconceito e a
estigmatização de grupos historicamente marginalizados.

Outra questão importante para discutirmos o racismo institucional é o sistema


de justiça e a agressiva policial em cima da juventude negra. O Observatório Nacional
dos Direitos Humanos (ObservaDH) publicou em 2023 uma série de dados sobre
direitos humanos e segurança pública, e de acordo com a publicação: “A cada sete
mortes violentas no Brasil, uma foi ocasionada por intervenção policial em 2023. Cerca
de 17 pessoas foram mortas por dia em ações de agentes de segurança pública,
sendo que oito em cada dez vítimas eram negras, e ao menos sete em cada dez eram
adolescentes ou jovens. Apenas no ano de 2023, o número de mortes por intervenção
policial foi dez vezes maior que o de lesões corporais seguidas de morte, seis vezes
maior que o de latrocínios e quatro vezes maior que o de feminicídios. Entre as
Unidades da Federação, o maior número absoluto de mortes por intervenção policial
foi na Bahia, que ultrapassou o Rio de Janeiro em 2022, e registrou 1.701 mortes em
2023. A cada dez mortes por ações policiais em 2022, cerca de oito eram vítimas
negras, e ao menos sete eram adolescentes ou jovens entre 12 e 29 anos. A maioria
das mortes em intervenções policiais aconteceram com agentes em serviço (93%), e
quase todas utilizando arma de fogo (98,5%). Do total, 63,6% das mortes aconteceram
em vias públicas e 19,5% das vítimas foram mortas dentro da casa.”

Esse cenário evidencia a seletividade racial das ações policiais e revela como
o racismo institucional opera de maneira concreta, negando a esses jovens o direito à
vida e perpetuando uma lógica de extermínio da população negra.
10

E soma-se a análise de Achille Mbembe (2018), que em sua obra Necropolítica


afirma que o poder moderno se exerce pelo direito de decidir quem deve viver e quem
deve morrer. No caso do Brasil, isso se materializa na política de segurança pública
voltada ao extermínio da juventude negra. Mbembe aponta que os Estados
contemporâneos, especialmente os marcados pelo colonialismo, elegem certos
corpos como descartáveis, legitimando sua eliminação como forma de manutenção
da ordem.

Embora existam diversas dimensões do racismo institucional que mereçam


atenção, como o racismo na educação, no mercado de trabalho, na saúde e na
representação política, os aspectos aqui abordados não se trata apenas de identificar
práticas discriminatórias, mas de compreender como o racismo organiza a vida social,
legitima desigualdades e produz morte, os aspectos aqui abordados revelam as
formas mais explícitas e urgentes com que esse sistema opera na sociedade
brasileira.

A articulação entre o conservadorismo religioso, a branquitude, a


desinformação e a violência policial evidenciam como o Estado e suas instituições
mantêm estruturas de exclusão e de silenciamento da população negra. Reconhecer
e enfrentar essas estruturas é um passo fundamental para a construção de uma
sociedade verdadeiramente democrática e antirracista.
11

3. REFLEXÕES E DILEMAS SOBRE AS QUESTÕES RACIAIS NA CENA


CONTEMPORÂNEA

3.1 O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL

O conceito de democracia racial no Brasil foi amplamente disseminado ao longo


do século XX, especialmente a partir das interpretações de Gilberto Freyre, que via a
miscigenação como elemento formador da identidade nacional e como suposta prova
de harmonia racial. No entanto, autores como Abdias Nascimento demonstraram que
essa visão não passa de uma construção ideológica destinada a mascarar o racismo
estrutural brasileiro.

Em O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado,


Abdias descreve que:

“(…) erigiu-se no Brasil o conceito de democracia racial; segundo esta, pretos


e brancos convivem harmoniosamente, desfrutando iguais oportunidades de
existência. (…) A existência dessa pretendida igualdade racial constitui o ‘maior
motivo de orgulho nacional’ (…)”.

No entanto, “devemos compreender democracia racial como significando a


metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro: não tão óbvio como o
racismo dos Estados Unidos e nem legalizado qual o apartheid da África do Sul, mas
eficazmente institucionalizado nos níveis oficiais de governo assim como difuso no
tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país.”

Para Abdias, a consolidação dessa ideologia esteve intimamente ligada ao


processo de branqueamento, política não oficial, mas amplamente praticada e
legitimada, que visava reduzir a população negra no país, valorizando esteticamente
e socialmente os “produtos de sangue misto” — mulatos, pardos, morenos — como
resultado de uma mestiçagem marcada pela violência sexual contra mulheres negras.
Essa prática, longe de ser um encontro cultural espontâneo, foi, segundo o autor, uma
forma de genocídio lento e silencioso, que naturalizou o apagamento da identidade
negra.
12

A mestiçagem, celebrada como símbolo da identidade brasileira, sustenta a


narrativa de que o Brasil é “receptivo” e “acolhedor” à diversidade. Essa percepção,
contudo, funciona como cortina ideológica, dificultando o reconhecimento do racismo
como elemento estruturante das relações sociais. A crença na inexistência de racismo
serve, assim, para neutralizar debates e impedir a formulação de políticas públicas
reparatórias.

Esse reconhecimento de receptivo e acolhedor é apenas uma construção que


mascara as desigualdades raciais. A ideia de que o Brasil é um país sem racismo
serve como instrumento ideológico para neutralizar o debate racial. Cida Bento, em
seu livro O Pacto da Branquitude, aborda de forma contundente como as elites
brancas sustentam privilégios ao mesmo tempo que silenciam ou naturalizam a
exclusão racial:

“A branquitude não se apresenta como uma identidade, mas como norma; seus
privilégios são muitas vezes invisíveis até mesmo para aqueles que os detêm. Trata-
se de um pacto tácito de manutenção de poder, de acesso privilegiado às
oportunidades, à educação, ao emprego e ao prestígio social.” (BENTO, Cida. O Pacto
da Branquitude)

Essa naturalização dos privilégios se conecta diretamente ao mito da


democracia racial: se as vantagens da branquitude não são reconhecidas, o racismo
é visto como algo pontual ou inexistente, e não como parte de uma estrutura social
que se reproduz ao longo de gerações

Outro ponto fundamental nessa discussão é a meritocracia. Embora o mérito


individual seja um princípio legítimo em teoria, sua aplicação em uma sociedade com
profundas desigualdades históricas tende a perpetuar privilégios. Em contextos como
no Brasil, a meritocracia é frequentemente usada como argumento contra políticas de
ação afirmativa, ignorando que os pontos de partida são radicalmente diferentes para
grupos racialmente distintos.

O filosofo e professor Michel Sandel em seu livro a tirania do mérito alerta o


porquê da meritocracia ao mesmo tempo que é uma ideia sedutora também pode ser
uma ideia tirana:
13

“Uma sociedade meritocrática, portanto, é duplamente inspiradora: ela afirma


uma noção potente de liberdade e dá às pessoas o que elas conquistaram por conta
própria e, logo, merecem. Apesar de inspiradora, o princípio do mérito pode tomar
caminhos tiranos, não somente quando as sociedades não conseguem ser fiéis a ele,
mas também – na verdade, sobretudo – quando conseguem. O lado negativo do ideal
meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a de domínio e a de
vencer pelo próprio esforço. Essa promessa vem com um fardo difícil de carregar. (...)
Mas uma coisa é responsabilizá-las por agirem de acordo com a moral; outra coisa é
pressupor que somos, cada um de nós, totalmente responsáveis por nossa sina.”
(Sandel, Michael. A Tirania do Mérito)

Daniel Markovits, em A Cilada da Meritocracia, também critica a crença de que


o esforço individual é suficiente para o sucesso, mostrando como o sistema
meritocrático reforça desigualdades estruturais:

“A meritocracia não apenas falha em oferecer igualdade de oportunidades; ela


cria formas de aristocracia. O mérito se torna uma nova linhagem – não mais baseada
em sangue, mas no acesso desigual à educação de qualidade e redes de influência.”
(Markovits, Daniel. A Cilada da Meritocracia)

Para aprofundarmos a discussão sobre meritocracia, devemos olhar para o


debate sobre as cotas raciais no brasil, cotas raciais são:

“Uma espécie no gênero ações afirmativas. Estas, por sua vez, são políticas
dirigidas à correção das desigualdades estruturais, por meio de medidas tem dentes
a promover a contagem de oportunidades para membros de grupos sociais
vulnerabilizados.” (Vaz, Livia Sant’Anna. Cotas raciais)

Muitas pessoas são contrárias às políticas de cotas, pois argumentam que as


políticas de ações afirmativas que consideram raça e etnia fatores para ingresso
correspondem à traição do sistema meritocrático, isso se explica pelo fato de que as
universidades não é apenas um local de formação técnica e científica, mas um espaço
de privilégio e destaque social, um lugar que por lei pessoas negras não podiam
frequentar, porém, historicamente, universidades e outros espaços de prestígio social
foram reservados, formal e informalmente, a pessoas brancas.

Ao longo do século XIX, leis e regulamentos explicitamente proibiram o acesso


de pessoas negras — escravizadas, libertas ou mesmo livres — às escolas públicas.
Entre os exemplos:
14

• Constituição de 1824, art. 179, inciso XXXII: garantia ensino primário


gratuito a “todos os cidadãos” — termo que não incluía a população escravizada.

• Lei provincial nº 13, de 28 de março de 1835 (BA): “Somente as pessoas


livres podem frequentar as escolas públicas.”

• Regulamento de 5 de novembro de 1836 (RN): proibia matrícula de


pessoas escravizadas, permitindo às mulheres escravizadas apenas o ensino de
“prendas domésticas”.

• Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837 (RJ): proibia escravizados e “pretos


africanos” (mesmo livres) de frequentarem escolas públicas.

Essas restrições criaram uma exclusão educacional institucionalizada que, mesmo


após a abolição, continuou se reproduzindo de forma estrutural.

Apesar desse histórico excludente, houve conquistas importantes:

• Lei nº 10.639/2003: torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-


brasileira e africana em todas as escolas do país.

• Lei nº 12.990/2014: reserva 20% das vagas em concursos públicos


federais para candidatos negros.

• Lei nº 12.711/2012 (Lei de Cotas): garante reserva de vagas nas


universidades federais para estudantes de escolas públicas, com recorte racial.

Diante disso, a educação se mostra “parte fundamental do movimento de


resistência/urgência das pessoas escravizadas, aprendendo o caminho para a
conquista/reivindicação da Liberdade. Foi também na condição de sujeitos de ações
educativas que negros elaboraram estrategicamente modo de acesso ao mundo das
letras como forma de ocupação de espaços sociais de reversão de sua condição de
subalternização” Vaz, Livia Sant’Anna. Cotas raciais)
15

É importante compreender o impacto de histórias e heranças distintas na vida


de um determinado grupo ou comunidade. Foram mais de três séculos de escravidão
que, mesmo após sua abolição, não resultaram na implementação de políticas
públicas mínimas de sobrevivência e inclusão; pelo contrário, o Estado instituiu leis
que continuaram a restringir a autonomia dessa população, perpetuando
desigualdades que permanecem até hoje

O mito da democracia racial é, portanto, uma estratégia ideológica que mascara


a persistência do racismo estrutural no Brasil, sustentando a ilusão de igualdade
enquanto privilegia um grupo racial específico. Desconstruir esse mito exige
reconhecer que o racismo não é apenas um comportamento individual, mas uma
estrutura histórica e institucional que molda oportunidades, acessos e direitos. As
ações afirmativas, nesse contexto, não representam “vantagens” indevidas, mas um
passo necessário rumo à justiça social.
16

3.2 LUGAR DE FALA

O conceito de lugar de fala tem ganhado destaque nos debates acadêmicos e


sociais, especialmente em contextos que envolvem diversidade, desigualdade e
representatividade. O termo refere-se ao fato de que aquilo que comunicamos está
atravessado pela posição social a partir da qual falamos. Não se trata, portanto, de
um lugar geográfico, mas sim da localização social que ocupamos em função de
marcadores como gênero, raça, classe e sexualidade. Esses elementos não apenas
atravessam nosso discurso, mas também compõem nossa subjetividade e
determinam quais vozes são ouvidas e quais permanecem silenciadas. Assim, lugar
de fala não significa restringir o diálogo, mas garantir que as vozes historicamente
marginalizadas possam ser ouvidas a partir de suas próprias vivências (RIBEIRO,
2017).

Como aponta Foucault (1978), o poder não se concentra apenas nas


instituições, mas se manifesta nas relações cotidianas de saber e discurso,
configurando quem pode falar, o que pode ser dito e quem é escutado.

Todos os sujeitos produzem discursos que partem de um lugar social


específico. No entanto, esses lugares não são os mesmos para todos. Há falas que,
em função da estrutura social, não encontram legitimidade ou não conseguem
produzir determinados efeitos. Nesse sentido, compreender o lugar de fala exige
reconhecer que a sociedade opera por meio de hierarquias de poder e de acesso à
escuta.
17

Segundo Djamila Ribeiro (2017), não há sujeitos neutros: todos falam de algum
lugar. Entretanto, o problema surge quando determinadas vozes — especialmente as
de sujeitos brancos, masculinos e heterossexuais — são consideradas universais,
enquanto as falas de grupos subalternizados são vistas como parciais ou restritas à
sua experiência. Como afirma a autora:

“Todas as pessoas possuem lugares de fala, pois estamos falando de


localização social. E, partir disso, é possível debater e refletir criticamente sobre os
mais variados temas presentes na sociedade. O fundamental é que indivíduos
pertencentes ao grupo social privilegiado em termos de locus social consigam
enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar, e como esse lugar impacta
diretamente a constituição dos lugares de grupos subalternizados.” (RIBEIRO, 2017,
p. 56).

Nesse sentido, o lugar de fala não tem como objetivo calar determinados
grupos, mas sim criar condições para que as vozes historicamente marginalizadas
possam ser ouvidas e legitimadas. Ao contrário do que muitas vezes se interpreta,
lugar de fala trata-se de um conceito que possibilita o diálogo crítico e o
reconhecimento de hierarquias sociais que impactam diretamente a produção de
saberes e a participação social.

É comum que o conceito seja confundido com representatividade. Muitas vezes


acredita-se que apenas pessoas diretamente atravessadas por determinadas
experiências sociais poderiam falar sobre elas. Entretanto, como esclarece Ribeiro
(2017), o fato de uma pessoa ser negra não significa que ela saberá refletir crítica e
filosoficamente sobre as consequências do racismo; o lugar social não determina uma
consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente
nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas. Como disse Joice Berth para
a matéria “O que é lugar de fala e como ele é aplicado no debate público", o lugar de
fala é “ O limite que mostra que, por mais que eu tenha consciência das opressões
que não são minhas , as minhas experiencias não são
18

suficientes para falar dos outros; Se você não dá espaço para as pessoas contarem
como é sua vida a partir da experiencia de vida delas, a experiência vai ser a do
homem branco, que é o privilegiado da sociedade.”

Ainda na matéria, Rosane Borges diz: “As pessoas brancas tendem a crer que
uma pessoa branca não pode falar sobre a questão racial negra por não ser negra”,
isso, completa Rosane Borges “é um equívoco pois lugar de fala pressupõe uma
postura ética. Portanto, você sendo homem ou hétero e não-negro, pode, do seu lugar
de fala, falar sobre negros, mulheres, população trans, ou seja, todas as outras
minorias”

Lugar de fala não tem como objetivo autorizar ou desautorizar sujeitos a


falarem, mas sim problematizar os regimes de legitimação que definem quem pode
ou não ser ouvido.

Nesse mesmo sentido, Jota Mombaça (2016), em seu artigo Notas estratégicas
quanto aos usos políticos do conceito de lugar de fala, aponta que:

“Não são os ativismos do lugar de fala que instituem o regime de autorização,


pelo contrário. Os regimes de autorização discursiva estão instituídos contra esses
ativismos, de modo que o gesto político de convidar um homem cis eurobranco a calar-
se para pensar melhor antes de falar introduz, na realidade, uma ruptura no regime
de autorizações vigente. Se o conceito de lugar de fala se converte numa ferramenta
de interrupção de vozes hegemônicas, é porque ele está sendo operado em favor da
possibilidade de emergências de vozes historicamente interrompidas. Assim, quando
os ativismos do lugar de fala desautorizam, eles estão, em última instância,
desautorizando a matriz de autoridade que construiu o mundo como evento
epistemicida; e estão também desautorizando a ficção segundo a qual partimos todas
de uma posição comum de acesso à fala e à escuta”
19

Além da discussão conceitual, Djamila Ribeiro (2019), em Pequeno manual


antirracista, amplia o debate ao propor práticas cotidianas de enfrentamento ao
racismo estrutural. A filósofa defende que o reconhecimento do lugar de fala deve vir
acompanhado de uma postura ativa de combate às desigualdades. Como explica:

“Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Isso significa rever
privilégios, valorizar produções intelectuais negras e atuar contra a exclusão
naturalizada” (RIBEIRO, 2019, p. 15).

Essa perspectiva conecta o conceito de lugar de fala a uma dimensão ética e


política, em que reconhecer desigualdades não é suficiente: é preciso atuar de forma
concreta para transformá-las. Assim, compreender de onde falamos implica também
assumir responsabilidades frente às hierarquias que sustentam a exclusão.

A partir dessas reflexões, entende-se que todas as pessoas possuem lugar de


fala, pois todas estão situadas em uma determinada localização social. O ponto
central é reconhecer como essas localizações são atravessadas por relações de
poder e como impactam diretamente a constituição dos grupos subalternizados.

Por fim, o importante segundo Helena Vieira é que cada trajetória produz
sentidos diferentes, e por isso ninguém pode falar em nome de outra pessoa. No
entanto, é possível construir formas coletivas de enunciação que respeitem e
potencializem experiências comuns. Isso exige um esforço ético e crítico sobre as
formas de discurso e sobre as desigualdades históricas que estruturam a sociedade.
Assim, o conceito de lugar de fala torna-se essencial para o debate das relações
raciais e de gênero, devendo ser tratado com a complexidade que merece.

O conceito de lugar de fala é uma ferramenta essencial na prática cotidiana,


pois reconhece que diferentes sujeitos ocupam posições sociais diversas e, portanto,
possuem experiências e vivências distintas que devem ser ouvidas e consideradas.
20

A valorização do lugar de fala está alinhada com os princípios código de ética


do assistente social, pois implica escutar o outro a partir de sua realidade, sem
silenciá-lo ou interpretá-lo a partir de uma visão hierárquica ou preconceituosa. Assim,
reconhecer o lugar de fala é mais do que dar voz: é reconhecer que determinadas
experiências só podem ser plenamente compreendidas por quem as viveu. Para o
assistente social, isso significa atuar com empatia, escuta qualificada e
responsabilidade ética, sem se sobrepor às narrativas dos sujeitos acompanhados.
21

4. O PROJETO ÉTICO POLÍTICO E A ATUAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL


DO ASSISTENTE SOCIAL FRENTE AS DEMANDAS DA POPULAÇÃO
NEGRA

4.1 DIRETRIZES CURRICULARES E ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO


ASSISTENTE SOCIAL: NOVAS PROPOSTAS FRENTE ÀS TRANSFORMAÇÕES
SOCIAIS NA CENA CONTEMPORÂNEA

As Diretrizes Curriculares da ABEPSS (1996) constituem um marco


fundamental na consolidação do Projeto Ético-Político do Serviço Social. Elas
expressam a ruptura com o conservadorismo e com a prática assistencialista e
reafirmam que a formação profissional do assistente social deve estar orientada pelo
Projeto Ético-Político do Serviço Social, fundamentado em princípios como a defesa
intransigente dos direitos humanos, a justiça social, a equidade e o reconhecimento
da diversidade.

Contudo, as transformações sociais contemporâneas — marcadas pela


reestruturação produtiva do capital, pelo avanço da extrema direita, pela precarização
do trabalho e pelo agravamento das desigualdades étnico-raciais — desafiam o
assistente social a reformular estratégias de intervenção e de formação.

Conforme José Paulo Netto (1999), o projeto ético-político tem em seu núcleo
a liberdade como valor ético central, compreendida como possibilidade histórica e
concreta de emancipação. Essa concepção de liberdade ultrapassa o individualismo
e se insere na luta por uma sociedade sem dominação de classe, gênero ou etnia, o
que vincula o exercício profissional do assistente social a um projeto societário
emancipador.
22
Marilda Iamamoto (2010), reforça que a profissão não é neutra, e “a
neutralidade diante da opressão significa conivência com ela”. Assim, o silêncio diante
do racismo configura como uma forma de violência, que o assistente social deve
combater em sua prática cotidiana. Essa compreensão reforça o compromisso ético e
político do profissional.

Ainda segundo Iamamoto (2009), o assistente social deve compreender a


totalidade social e intervir criticamente, superando práticas fragmentadas e
assistencialistas. Essa compreensão da totalidade permite reconhecer o racismo
como uma expressão da questão social e atuar de forma integrada com outras lutas
emancipatórias — de classe, gênero e etnia — fortalecendo a perspectiva de
transformação social.
No contexto contemporâneo, marcado por profundas desigualdades
estruturais, precarização das relações de trabalho, avanço do racismo estrutural e
novas expressões da questão social, as diretrizes curriculares exigem do profissional
uma postura crítica, reflexiva e comprometida com a transformação social. Assim, a
atuação do assistente social deve considerar as demandas específicas da população
negra, reconhecendo que o racismo é um fator estruturante das desigualdades no
Brasil.
Para Yolanda Guerra (2000), é imprescindível que o assistente social articule
teoria e prática de modo dialético, de forma a compreender criticamente as demandas
emergentes da sociedade contemporânea. Essa articulação é essencial para que o
profissional responda de maneira crítica e propositiva às necessidades da população
negra, enfrentando o racismo institucional e as desigualdades raciais presentes nas
políticas públicas
Nilma Lino Gomes (2017) ressalta que a luta antirracista deve ser
compreendida como um compromisso ético e político coletivo, que ultrapassa o
discurso e se concretiza nas práticas institucionais. Assim, o assistente social precisa
questionar as formas naturalizadas de discriminação racial e atuar em favor da
construção de novos paradigmas de cidadania e justiça social.
23

Dessa forma, a formação profissional deve ir além da aquisição de


competências técnicas. Ela deve formar sujeitos preparados para atuar em
contextos adversos e desafiadores

A universidade, enquanto espaço de produção e reprodução de saberes, também


precisa romper com práticas curriculares eurocentradas e silenciadoras das
epistemologias negras. A inserção de conteúdos relacionados à história da
população negra, às lutas antirracistas e às contribuições dos intelectuais negros
deve fazer parte da formação profissional em Serviço Social. Essa
perspectiva é defendida por autores como Kabengele Munanga (2004), que critica a
neutralidade do saber acadêmico e propõe uma educação voltada para a valorização
da diversidade étnico-racial.

Ademais, o enfrentamento ao racismo institucional requer que o assistente


social desenvolva habilidades para identificar e denunciar práticas discriminatórias
nos espaços institucionais, contribuindo para a criação de ambientes mais equitativos.
A escuta qualificada, o acolhimento respeitoso e a construção de vínculos pautados
no reconhecimento da dignidade humana são estratégias essenciais na construção
de uma prática antirracista no cotidiano profissional.

Nesse cenário, torna-se urgente que as unidades de formação acadêmica e os


espaços de estágio supervisionado articulem ações pedagógicas que problematizem
o racismo como uma questão estrutural e transversal. Isso implica repensar os planos
de ensino, os conteúdos curriculares, as referências bibliográficas e as práticas
pedagógicas, garantindo uma formação que prepare o assistente social para atuar
com sensibilidade e competência frente às demandas da população negra.
24

Como aponta Sueli Carneiro (2003), a luta contra o racismo deve ser
compreendida como uma luta contra um sistema de poder que subalterniza corpos,
culturas e saberes. Portanto, a atuação do assistente social deve ser parte de um
projeto de sociedade que valorize a diversidade e promova a equidade racial. O
compromisso com os direitos humanos, central no Projeto Ético-Político, deve ser
ampliado para incluir a luta pela reparação histórica e pela afirmação da identidade
negra.

É importante destacar também a relevância dos movimentos sociais negros na


construção de alternativas de resistência e de propostas para a superação do racismo.
O assistente social deve estabelecer diálogo com esses movimentos, reconhecendo
sua legitimidade e incorporando suas demandas na construção de estratégias de
intervenção. A articulação entre o Serviço Social e os movimentos sociais fortalece a
dimensão coletiva da luta antirracista e amplia as possibilidades de transformação
social.

Por fim, a defesa intransigente dos direitos humanos, da liberdade e da justiça


social exige do assistente social uma postura ética firme, capaz de romper com
práticas naturalizadas de discriminação e exclusão. A construção de uma prática
profissional verdadeiramente comprometida com a emancipação humana passa,
necessariamente, pelo reconhecimento do racismo como uma expressão da questão
social e pelo enfrentamento de suas múltiplas manifestações. Assim, o Serviço Social
reafirma seu papel na construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática.
Isso implica desenvolver estratégias de intervenção antirracistas, promover o
acesso igualitário às políticas públicas e atuar na formulação e controle social de
políticas que garantam a equidade racial. Além disso, requer uma formação
acadêmica que inclua conteúdos sobre relações étnico-raciais, história e cultura afro-
brasileira e africana, conforme previsto nas diretrizes educacionais nacionais (Lei
10.639/2003) e que vá em frente as demandas da população negra na cena
contemporanea.
25

Portanto, as novas propostas de formação e atuação não significam romper


com as diretrizes curriculares, mas reafirmá-las e atualizá-las à luz das lutas
contemporâneas. Assim, o desafio é construir uma prática profissional antirracista,
crítica e emancipatória, que reconheça o racismo como uma dimensão estruturante
da questão social e, portanto, indissociável do compromisso ético-político do Serviço
Social. Espera-se que este trabalho contribua para o aprofundamento da
compreensão sobre o racismo institucional no Brasil, especialmente em contextos de
fragilidade democrática e crescimento de forças conservadoras e extremistas.
Pretende-se evidenciar como esses fatores impactam diretamente as políticas
públicas voltadas à população negra, dificultando o avanço de suas demandas por
equidade e justiça social.

Além disso, o estudo busca fortalecer a formação crítica do assistente social,


ressaltando a importância de incorporar as discussões sobre relações raciais na
prática profissional. Espera-se, ainda, destacar a urgência da consolidação de um
projeto ético-político antirracista, contribuindo para uma atuação mais comprometida
com os direitos humanos e a superação das desigualdades sociais.
26

5. CONCLUSÃO

O presente estudo permitiu compreender o impacto do racismo institucional no


cenário político contemporâneo brasileiro e sua relação direta com a formação e
atuação profissional do assistente social. Observou-se que o racismo, longe de se
restringir a atitudes individuais, constitui-se como um sistema estrutural e
institucionalizado, atravessando as esferas políticas, econômicas e sociais, e
produzindo desigualdades que afetam de forma profunda a população negra.

Em relação ao primeiro objetivo específico, foi possível evidenciar o racismo


presente no interior das instituições públicas e privadas, expressando-se nas práticas
cotidianas, nas políticas de segurança pública e nas estruturas do Estado. Os dados
e análises apresentados demonstraram como a seletividade racial orienta ações e
decisões, resultando em exclusões, silenciamentos e violações de direitos, sobretudo
contra a juventude negra.

Quanto ao segundo objetivo, que buscou elucidar conceitos contemporâneos


sobre as relações raciais, observou-se que categorias como racismo estrutural,
institucional e o mito da democracia racial são fundamentais para compreender a
permanência das desigualdades no Brasil. Além disso, conceitos como branquitude e
lugar de fala revelaram-se essenciais para desnaturalizar privilégios e ampliar o
debate sobre representatividade e poder nas diferentes esferas sociais.

No que se refere ao terceiro objetivo específico, verificou-se a importância do


Projeto Ético-Político do Serviço Social como instrumento de orientação da formação
e da prática profissional comprometida com a equidade racial e a defesa intransigente
dos direitos humanos. As Diretrizes Curriculares da ABEPSS (1996) se mostraram
centrais para consolidar uma formação crítica e emancipatória, pautada na justiça
social e no enfrentamento das diversas formas de opressão, inclusive o racismo.

Constatou-se que o assistente social, ao reconhecer o racismo como expressão


da questão social, amplia sua capacidade de intervenção crítica e contribui para a
construção de práticas institucionais mais justas e inclusivas. A atuação antirracista
do profissional, articulada a movimentos sociais e à luta por políticas públicas
equitativas, reafirma o compromisso ético-político da profissão com a emancipação
humana e a transformação social.
27

Assim, os resultados deste estudo evidenciam que enfrentar o racismo


institucional não é apenas uma demanda ética, mas uma necessidade política e social
urgente. O fortalecimento de uma formação profissional crítica, o diálogo com as
epistemologias negras e a incorporação das lutas antirracistas ao cotidiano do Serviço
Social são caminhos indispensáveis para consolidar uma prática comprometida com
a democracia, a igualdade e a justiça racial.
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