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Proust

O texto de Marcel Proust explora a profundidade e o prazer da leitura, destacando como momentos de imersão em livros favoritos podem ser mais vívidos do que experiências reais. Ele reflete sobre as distrações da vida cotidiana que interrompem a leitura, mas que, paradoxalmente, também enriquecem a memória e a experiência literária. Proust utiliza uma linguagem rica e poética para descrever a conexão emocional com a leitura e a importância das lembranças associadas a ela.
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O texto de Marcel Proust explora a profundidade e o prazer da leitura, destacando como momentos de imersão em livros favoritos podem ser mais vívidos do que experiências reais. Ele reflete sobre as distrações da vida cotidiana que interrompem a leitura, mas que, paradoxalmente, também enriquecem a memória e a experiência literária. Proust utiliza uma linguagem rica e poética para descrever a conexão emocional com a leitura e a importância das lembranças associadas a ela.
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MARCEL PROUST O Prazer da Leitura Tradugio de Magda Bigotte de Figueiredo t teorema “one Sounds de Ler “ati ite Dagestan” 17007 Tao din et cao mend oe ocak rouse Nio hé talver dias da nossa infin que tenh- mos tio intensamente vivide como aqueles que julgimos passar sem té-los vivido, queles que pas ‘mos com um livro preferido'. Tudo quanto, 20 ‘que pareca, os enchia para os outros, € que afas- tivamos como um obstéculo vulgar @ um prazer divino: a brineadeira para a qual um amigo nos vvinha buscar na pastagem mais interessante, a abelha ou 0 raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da pagina ou a mu- dar de lugar, as provisdes para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixivamos a0 nosso lado no banco, sem Ihes tocar, enquanto, sobre a nossa _timcut noust gy cabega, 0 sol diminuia de intensidade no céu azul ‘o jantar que motivara o regresso 2 casa e durante (© qual s6 pensivamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, 0 capi tulo interrompido, tudo ist, que a leitura nos de via ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contririo sgravava em nés uma recordagio de tal modo dace (de tal modo mais preciosa no nosso entendimen: to actual do que o que liamos entio com amor) ue, se ainda hoje nos acontece folhear esses Ii v10s de outrora, & apenas como sendo os Gnicos calendirios que guardimos dos dias passados, ¢ com a esperanga de ver rflecidas nas suas pig as. as casas € 05 lagos que ja ni existem. Quem nio se lembra como ou dessas Icisuras feitas em tempo de férias, que iamos esconder atris umas das outras em todas as horas do dia ‘que fossem suficientemente calmas ¢ suficiente ‘mente invioliveis para poderem darhes asilo. De ‘manha, 20 voltar do parque, quando toda a gente tinha ido dar um passeo, introduziame na casa de jantar, onde, ate hora ainda distante do almo- 0, ninguém 2 nlo sera velha Félicie relativamen- tesilenciosa entrata, eonde eu ters apenas como companheiros, muito respeitadores da leitura, os pratos pintados pendurados nas paredes,o calen- dirio caja folha da véspera fora recentemente a rancada, 0 reldgio de péndulo eo Ime que falam sem pedir que se Ihes responda e cuja suave lin. sguagem vazia de sentido no vem, como as pala vras dos homens, entrar em conflito com a das pa lavras que uma pessoa est a ler. Instalavame numa eadeita, junto de lume fraco do qual, du rante 0 almoso, 6 tio matinal e jardineiro diria: "Nio faz mal a ninguém! Toda a gente aguenta muito bem um lume baixo: s6 vos digo que as seis da mani estava ct um destes frios na horta. E pensar que 2 Piscoa &j4 daqui a oito dias!" Antes do slmogo que, desgracadamente, poria fim a lei- tsa, havia ainda duas longas horas, De vez em quando, ouvia-e o ruido da bombs de onde 2 Agua ia brotar e que me fizia erguer os olhos na sua ditecgfo e othar para ela através da janela fe chada, ali, pertinho, na nica alameda do jardin- zinho que bordejava de tjolos e de faiancas em forma de meiaslus os canteiros de amoresperfe tox: amores-perfeitos colhidos, 20 que parecia, nesses céus demasiado belos, nesses céus versico- lores © como que reflectidos dos vitesis da igeeia a suances PRoust gy que viamos is vezes entre os telhados da aldeia, tus trstes que surgiam antes das trovoadas, ou depois, muito tarde, quando o dis ia findar. Infe Jizmente, cozinheirs vinha com muite antece éncia pir a mess; se 20 menos ela a pusesse sem falar! Mas achava-se na obrigegio de dizer: "O me nino no esté bem assim; seeu The trouxesse uma mesa?” E para responder apenat:"Nso, obrigado”, era preciso uma pessoa parar e recuperar a vor Tongingua que, no interior dos libios,repetia sem ruido, a corte, todas as palavras que os olhos t- ‘sham lido; era necessirio deséla, fazéla sar, «, para pronunciar convenientements: "Ni, muito cbrigado’, darthe um ar de vida normal, uma en= toacio de resposta, que ela havia perdido. A hora ‘passava; muitas vezes, muito antes do almoso, co: rmecavam a chegar 4 casa de jantar as pessoas que, ppor estarem cansadas, tinham encurtado © pas Selo, tinham "metido por Méréglise", ou aquelas que nio tinkam saido nessa manki, por que ti- sham "que escrever". Eas de facto diziam: "Nio te quero incomodar", mas comesavam imediata- mente a abeirarse do lume, ver as horas, a de clarar que o almoco seria bem recebido, Rodeava= -se de uma particular deferéncia aquele ou aquela sce pnoust que tinha "ficado a escrever" e diziase- Ihe: "Fez 4 sua correspondenciazinhs’ com um sorriso ‘onde havia respeito, mistrio, uma certs lubrici dade e atengSes vitias, como se esta "cortes por ddenciazinha’ fosse ao mesmo tempo um segredo de Estado, uma prerrogativa, uma sina ¢ uma in- disposigdo. Alguns, sem esperar, sentavam-seante: cipadamente 4 mesa, nos seus lugares, Isso, ert a esgraca complete, porque ia ser um mau exem: plo para os que chegassem depois, ia fazer cret que jd era meiodia,e pronunciar demasiado cedo 4 meus pais a frase fatal: "Vamos, fecha a liveo, ve mos almocar."Estava tudo pronto, os lugares pe feitamente postos sobre a toalha onde faltava ape- nas 0 que 56 seria trazido no fim da refeigho, + miguina de vidro em que 0 tio horticultor © co- Zinheito fazia ele proprio o café A mesa, tubular complicada como um instrumento de fisica que cheirasse bem e onde era muito agradivel ver su bir para a campinula de video a ebuligio stbita que deixavs imediatamente nas paredes embacia- das uma cinza odorifica e castanha; e também as patas © 0s morangos que o mesmo tio misturava, ‘em proporgdes sempre idémticas, paranda precisa mente no comderosa exacto com a experiéncia de tum aguarelista ea subtileza de wm guloso. Como © almogo me parecia comprido! Minha tiaav6 io fazia sendo provar 0s pratosa fim de dara sua opinigo com uma suavidade que suportava, mas io admitia a contradiglo. Sobre um romance, 4 sobre poesia, coisas de que percebia bastante, aceitava sempre, com uma humildade de mulber, 2 opinido de pessoas mais abalizadas, Considera va que se ettava no dominio flutwante do capri: cho onde o gosto de uma tinica pessoa no pode fixar a verdade. Mas sobre as coisas cujas eegras © principios the haviam sido ensinados por sua mie, sobre a mancira de confeccionar alguns pra 1s, de tocar algumas das sonatas de Beethoven € de receber com amabilidade, tinha a certeza de ter uma ideia exacta da perfeiglo e de discernir se 0s outros extavam mais ou menos proximos desta Relativamente is trés coisas, als, a perfeio era praticamente a mesma: era uma espécie de simpli cidade nos meios, de sobriedade e de encanto. Re- ccusava horrorizads que se utilizastem especiaras nos peatos que delas nlo necesstavam, que se t0- casse com afectacio ¢ abuso dos pedais, que 20 "receber" se suisse de uma perfeita naturalidade e se falasse de si proprio com exagero. Desde a pri moira garfada, das primeiras notas, num simples ‘artdo,tinha a pretensio de saber se estava peran- te uma boa cozinheita, um verdsdeiro misico, ‘uma mulher bem edueada. "Els pode ter muito mais talento do que eu, mas tem falta de gosto quando tocs com tants Enfise este andante tio simples” "Pode ser uma mulher muito brilhante echeis de qualidades, mas é uma falts de tact fa- Jar dela nestas cicunstincias” "Pode ser uma eo Zinheira muito competente, mas nlo sabe fazer tum bife com batatas." O bife com batatas! um exercicio de concurso ideal, dificil pela sua pro- pria simplicidade, espécie de "Sonata patéica’ da cozinha, equivalente gastronémico do que na ‘ida social €a visita da senhora que nas vem pede informagbes sobre uma criada ¢ que, num acto tio simples, pode a certa altura dar mostras, ou ter falta de tacco e de educagdo, Meu 2v6 tinh tanto amorproprio, que teria querido que todos (0s pratos fossem um éxito percebia tHo pouco de to. Nio & que uma ver If conduzidos nfo seiam capazes de ai descobrir ¢ de explorar verdadeiras riquezis, mas, sem ests intervencio externa, vi ‘vem & superficie num perpétuo esquecimento de si proprios, numa espécie de passividade que os tora presa de todos os prazeres, os reduz a di- ‘mensio dos que os rodeiam e os agitam, ¢, idén- ticos dquele fidalgo que, partilhando desde a in fncia a vida dos salteadores de estrada, ji ndo se lembrava do nome por ter cessado ha muito de ustlo, aabassem por boli neles todo e qualquer da sua nobrees espiri- censimento ou recordacd ‘wal, se um impulso exterior nlo viesse reintrodu- ios de certo modo a forca na vida do expiito, onde encontram subitamente 2 capacidade de pensar por si praprios e de crar. Ora, este impul- s0 que o espirito preguicoso no consegue encor- war dentro de si e que tem que the advir de ov- tuém, dbvio que tem de recebélo no stio da so- lid fors ds qual, coma ja vimos, pode ocor. rer essa actividade criadora que se tata precise mente de ressuscitar nele. Da pura solidio o expt Fito preguicoso nio consegue tirat coisa alguma, visto que é incapaz de por si préptio pér em mo. vimento a sua actividade criadora, Mas a conversa mais clevada, os conselhos mais prementes nio Ine iriam igualmente serve de nada, uma vez que ssa tal actvidade original eles nio a podem pro- uzir directamente. O que é preciso pois, & uma intervendo que, a0 mesmo tempo que vem de ou tra pessoa, actue no funde de nds préprios, & de facto a impulsio de outro espirito, mas recebida rng meio da soliddo. Ora, vimos que era precisse mente esa a definigdo de leitura,e quesé a letura convinha. A dnica disciplina que pode exercer ‘uma influéncia favorivel nesesexpiritos, é pois a leitura: 0 que era preciso demonstrar, como dic a) sacs rouse zem os gedmetras. Mas, uma vez mais, a leicura age apenas como uma incitagio que nfo pode de ‘modo algum substituirse & nossa actividade pes soal; contenta-se em devolver-nos o seu uso, tal como, nas perturbagSes nervosas a que aludimos acima, 0 psicoterapeuta apenas resttui ao doente 4 vontade de se servirem do essémago, das pernas, do cerebro, que permaneceram intactos, Ou seja porque todos os espirites tomem mais ou menos parte nesta preguica, nesta estgnacia a baixos ni- ‘eis, ou porque, sem Ihe ser necessiia, a exaltagdo {que ocorre depois de determinacas leituras tena uma influéncia propicia no trabalho pessoal, cita- -se mais do que um escritor que gostava de ler tama boa pigina antes de comesar a trabalhar. Emerson comecava raramente aescrever sem reler algumas piginas de Platio. E Dante nlo &o nico poeta que Virgilio conduziu até &s portas do pa Enquanto a leitura for para n6s a iniciadora ‘ujas chaves magicas nos abrem no fundo de nds proprios a porta das habitagdes onde nio teria ‘mos conseguido penetrar, 0 papel dela na nossa vida sevi salutar.E perigoso a0 invés quando, em vex de nos despertar para a vida pessoal do espii nascer rRoust_@ toa leitura tende a substituita, quando a verdade deixa de nos suegir como um ideal que s8 pode- mos realizar através do progresso intimo do noe 50 pensamento e do esforeo do nosso coracio, mas como uma coisa material, epositads entre as folhas dos livros como om mel preparedo pelos outros e que s6 temos de nos dar a0 trabalho de alcancar nas prateleras das estantes ¢ de saborear em seguida passivamente num perfeito repouso e corpo e de espirito. Por vezes mesmo, em eer {05 casos um pouco excepcionais, eaids, como ve ramos, menos perigosos, 9 verdade, concebide como exterior ainda, esti distante, escondida ‘num lugar de dificil aceeo. B entio um documen: to secreto, uma correspondéncia inédita, umas ‘memérias que podem lancar sobre certos caracte- res uma luz inesperada, e sobre os quais é dificil ter comunicasié. Que felicidade, que descanso para um espirito fatigado procurar a verdade den- tro de si mesmo dizer para consigo que esta se s- tus fora dele, nas piginas de um /nfoliociosamen- te conservado num convento da Holanda, ¢ que se, para chegar até ela, & preciso sacrificio, esse st- cificio seri totalmente material, ser para 0 pen: samento apenas um entretenimento cheio de en- canto, Sem dSvida, seria necesivio efectuar uma longa viagem, atravessar de barco as planices ulu ances de ventania, enquanto nas margens 0$ ca- naviais ore se curvam ora se endireitam numa on- Aulacio sem fim; seria necessério parar em Dor- dreque, que reflecte a igreja coberta de hera no ‘emaranhado dos canais adormecidos e no Meuse trepidante e dourada onde of navios a0 desliza- rem perturbam, a0 anoitecer, of reflexos alinha- dos dos tethados vermelhos e do eéu azul; « final ‘mente, chegados ao termo da viagem, i ainda seguro de receber comunicagio da verda- de. Para tal serd necessirio mover influéncias po- dlerosas, aliarse a0 venerando arcebispo de Utre- ‘que, bela figura entroncada de antigo jansenista, a0 piedoso guardiio dos arquivos de Amersfort. A conquista da verdade & concebida nests casos ito de uma espécie de miss3o diploma. tica onde nao tenham faltado nem as dificuldades dda viggem, nem os acasos da negociacio, Mas, que importincia tem isso? Todos os membros da ve Ika igrela de Utreque, ds boa vontade de quem de pende entrarmos na posse da verdade, sio pessoas encantadoras cujos rostos do stcule XVII sia di- ferentes das figuras habituais que nos rodeiam € com quem seria divertide mancer relagbes, pelo menos por correspondéncia. A sua estima cujo testemunho nos continvario a enviar de longe em longe elevar-nos a nossos préprias olhos © suardaremos as eartas deles como uma certdio © como uma curiosidade. E nfo deixaremos um dia de thes dedicar um dos nossos livros, o que é de facto 0 menos que se pode fazer a pessoas que nos fizeram dom... da verdade. E quanto is poucas in- vestigagdes, 208 curtos trabalhos que seremos obrigados a efectuar nas bibliotecas do convento «© que constituirao os preliminares indispensiveis o acto de entrada na posse da verdade — da ver dade de que por maior prudéncia © para que ela io corre o rsco de nos escapar tomemos nota — seria de mau gosto da noisa parte queixarmo-nos do trabalho que nos possam dar: a tranguilidade #2 frescura do velho convento sia de tal modo maravilhosas com as fieiras a usarem ainda 0 ci- becio branco e abas brancas que se véem no Ro- sez Van der Weyden do parlatério: ¢, enquanto trabalhamos, os carsilhies do skeulo XVII fazer cestremecer suavemente 4 Agua do canal que um pouco de sol fraco basta para fazer brilhar entre 2 dupla fla de drvores desfolhadas desde o final eo casas de frontio alto das duas margens.* Esea concepcio de uma verdade surda aos ape- los da reflexdo edécil aos jogos de influéncias, de uma verdade que se obtém através de cartas de re- comendagio, que nos & entregue nas préprias ios por aquele que detinks materialmente 10 que aflorsm of espelhor pendurados nas sem talver sequer a conhecer, de wma verdade que se deixa copiar para um bloco-notas, esta concep: glo da verdade esti contudo longe de ser a mais perigosa de todas. Pois muitas vezes para o histo- Fiador, att mesmo para o erudito, esta verdade ‘que vBo buscar Ié Jonge num liv é menos, fain= do com propriedade, 2 propria verdade do que o seu indicio ou a sua prova, dando por consequén- cia lugar a uma outra verdade que ela anuncia ou {que confirma ¢ que, ela, pelo menos uma crise ‘io individual do espirito deles. Nao se passa 0 mesmo com 0 letrado. Este I por le, para fixar ‘que leu. Para ele, um livro no € 0 anjo que le vvanta voo logo que ele abriu as portas do jardim celeste, mas um idolo imével, que adora por ele proprio, que, em vez de receber uma dignidade verdadeira dos pensamentos que desperta, com nica uma dignidade ficticia a tudo quanto 0 10- arcu oust gy deia, O jetado invoca sortindo a meméria de um dado nome que se encontra em Villehardouin ou ‘em Bocaccio?, a preferéncia por um determinado uso descrito em Virgilio. O sew espirito sem act vidade original nio sabe isolar nos liveos a subs tincia que poderia torné-lo mais forte; enchese da sua forma intacta, que, em lugar de ser para cle tum elemento assimilavel, um principio de vida, ¢ apenas um corpo estranko, um principio de mor te, Ser necessrio referir que se cansidero doen- ‘io este gosto esta espécie de respeitofetichista pe tos livros, &relativamente a0 que seriam os habi- tos ideais de um espirito sem defeitos que nio existe, ¢ como fazem os psicologistas que descre- vem um funcionamento normal de érgios que nio existe em parte alguma nos seres vivos. Na realidade, pelo contririo, onde nia existem nem cspiitos perfeitos nem corpos inteiremente sios, aqueles a que chamamos espiritos grandes estio afectados como os outros por essa “doencs literi tia’, Mais do que 0s outros, poder-seia dizer. Pir tece que 0 gosto pelos livros aumenta a0 mesmo tempo que a inteligéncia, um pouco absixo dela, ‘mat no mesmo exo, tl como a paixio é acompa- hada por uma predileccio por tudo quanto ro- oye Aeia o seu objecto, em uma relaglo com este, na auséncia continua a falar com ele. Por isso, os maiores escritores, as horas em que ni estdo em comunicagio directa com 0 pensamenta, entre témse na companhia dos livros. E nlo teré sido sobretudo para eles, alii, que foram escrtos; nio thes desvendam cles inumeréveisbelezas, que per- rmanecem escondidas aos olhos do homem vul- gar? Bem vistas as coisas, o facto de os espiritossu- Periores serem aquilo a que chamamos livzescos rio prova de modo zlgum que isso nie seia um defeito do ser. Do facto de os homens mediocres Serem muitas vezes trabalhadores e de os inteli- _gentes muitas vezes preguigosos, alo se pode con- cluir que © trabalho no seja para 6 esprito uma disciplina melhor do que a preguisa, Porém, en- contrar num grande homem um dos nossos defei- (os levarnos sempre a interrogarnos se no funda pio seria uma qualidade desconhecida, e & com Prazer que ficamos a saber que Victor Hugo sabia, de cor Quinto-Circio, Ticito e justino, que era capaz, se alguém contestase 4 sua frente a legiti- ‘midade de um termo", de estabelecer 3 sua fiia- lo, até 4 origem, através de citagSes que prova vam uma verdadeira erudigio. (Demonstrei now: Ore aa tshae {to texto como essa erudicio tinha alimentado rele o génio em vez de asfixi-lo, como um feixe de lena que apaga um pequeno incéndio e inten: sifica um grande) Maeterlink, que para nés & 0 contririo do letrtdo, cujo expirita esti perpetua ‘mente aberto ds iniimeras emocées andnimas co- ‘municadas pela colmeia,o canteiro ou a verdura, ‘ranquilizanos imenso acerca dos perigos ds eru- isao, quase bibliofilia, quando nos descreve en- quanto amador as gravuras que ilustram uma ve tha edigdo de Jacob Cats ou do Abade Sandrus Estes perigos, aliés, quando existem, ameagam muito menos a inteligéncia do que a sensbilida de, a capacidade de leiturs proveitasa, por assion dizer, & muito maior nos pensadores da que nos cescritores de imaginagio. Schopenhauer, por cexemplo, d-nos a imagem de um espititocuja vie talidade transporca sem dificuldade a leicura mais escomunal, sendo cada um dos novos conheci ‘mentos imediatamente reduzido 4 dimensio de realidade, 4 porcio viva que cada um deles con- Schopenhauer nunca emite uma opinizo sem 2 corroborar imedistemente com vitias citagdes, mas sente-se que os textos citadas nZo sio para ele mais do que exemplos, alusBes inconscientes ean- ticipadas onde ele gosta de encontrar certostragos do seu proprio pensamento, mas que de modo al- gum o inspiraram, Estou a lembrarme de uma pigina do Mundo com o Repreensacioe com o Vor- sade onde hi talvez umas vince citagbes seguidas. E a propésito do pessimismo (abrevio natural: mente as citagBes):"Voltsite, no Candide, combate © optimismo de uma maneira divertida, Byron também o fez, no seu modo trigico, em Cam, He- édoto conta que os Triciosssudavam um recém- snascido com gemidos ¢ se alegravam com cada pessoa que morta Eo que est expresto nos belos verses de que Plutareo nos dé conts: "Lugere ge- nitum, canta qui intravie mala, ete." Es exte facto que deve seratribuide o hibito dos mexicanos de saudarem, etc, ¢ Swift obedecia so mesmo costu: me desde a juventude (a sereditar na biografia dele por Walter Scott) de celebrar 0 dia do nasci- ‘mento como um dia de afliclo. Toda a gente co- anhece aquela passagem da Apolagia de Sbrats em que Platio diz que a morte & um bem admiei Uma mixima de Heracito era coneebida do met mo modo:"Vitse nomen quidem est vita, opus av tem mors’. Quanto aos belissimos versos de Tebg- nis, estes sfo famosos: "Optima tors homini non ‘focles, no Edipo em Colona (1224), abrevia da seguinte maneira: "Natum non esse sortesvincit alias omnes, et." Buripedes diz: Om- xis hominum vita est plena dolore’ (Hipéit, 189), ef Homero o havia dito: ‘Non enim quid quam alicubi est calamitosius homine omnium, quotquet super terzam spirant, et." Aliés Plinio também o disse: "Nullum melius esse tempestiva morte” Shakespeare pbe estas palavras na boca do velho rei Henrigue IV:"O, this were seen ~ The hnsppiest youth, ~ Would shut the book and sit hhim down and die." Byron finalmente: "Tis some thing better not to be.” Balthazar Gracién pinta -nos a existincia sob as mais negeas cores de que 9 rition, etc" Se io me tiveste jd deixado arr tar para tio longe com Schopenhauer, teria muito prazer em completar esta pequena demonstragio, com a ajuda dos Aforinmorrbre a Sensater na Vide, que étalvex de todas as abras que conheso a que pressupde num autor, com maior quantidade de leivura, maior originalidade, de modo que no ini- cio do livro, do qual cada uma das piginas encerra virias citagdes, Schopenhauer pde escrever 0 ais seriamente possivel: "Compilar nio & comigo.” Acamizade, a amizade que dit tespeito aos in- dividuos, & sem divida uma coisa frvola, ea le tora é ume amizade. Mas pelo menos é ume am zade sincera, €0 facto de ela se dirgir a um mor to, a uma pessoa ausemte, conferees de de- sinteressad, de quase tocante. Balém disso uma amizad libera de tudo quanto constitu a feald- de dos outros. Coma mio patsamos todos, nbs 0s vos, de mortos que sinds no entraram em fun Bes, todas esas delicadezas, todos esses cumpri mentos no vestibule a que chamamos deferéncia, stati, dedicagio e 3 que misturamos tantas mentiras, so estéres e cansativas, Além disso, — desde as primeira relagbes de simpatia, de admi- ragio, de reconhecimento, as primeizas palavras que escrevemos, tecem 4 nossa volta os primeiros fios de uma teia de habitos, de uma verdadeira maneira de ser, da qual jf nfo conseguimos de- sembaragar-nos nas amizades seguintes em con- tar que durante esse tempo as palavras excessvas {que pronuncidmos ficam como letras de cimbio ‘que vemos que pagar, ou que pagaremos mais caro ainda toda a nossa vida com os remorsos de a ter ‘mos deixado protetar. Na leitura, a amizade &su- Ditamente redurida i sua primeira pureza. Com 5 livros, nio hi amabilidade, Estes amigos, se passarmos 0 serio com eles, & porque realmente temos vontade disso. A eles, pelo menos, muitas vezes s6 os deixamos 2 contragosto, E quando os deixamos, no temos nenhum esse pensamentos {que estragam s amizade:— Que terdo eles pensado de n6s? = Nao tivemos falta de tacto? — Teremos agradado? ~ nem 0 medo de sermos esquecidos or um deles. Todas estas agitagbes da amizade ex- piram no limiar dessa amizade pura e calma que €. Ieitura, Tambim ndo hé deferéncia; 68 rimos com o que diz Moliére na exacta medida em que the achamos graca; quando ele nos aborrece, nio temos medo de mostrar um ar abortecido, e qusn~ do estamos decididamente faros de estar com ele, pémo-lo no seu lugar tio bruscamente como se cle nfo tivesse nem gtnio nem celebridade. A atmosfera desta pura amizade é o siléncio, mais do que a palavra. Porque nés falamos para 0s ou- ‘ros, mas calamo-nos para connosco mesmos. £ Por isso que o silencio nfo trz consigo, como a pix lara, a marca dos nossos defeitos, das nossas care tas, Ele puro, &verdadeiramente uma atmosfera, Entre 0 pensamento do autor e 9 nosso nio inte pe elementos irredutiveisreftactirios 20 pensa ances reoUsT gy mento, os nostos egoismor diferentes, A propria Linguagem do liveo & purs (se 0 livro for digno desta palavra), tomnada eransparente pelo pensa- mento do autor que dele retirou tudo quanto néo fosse ele proprio att o transformar na sua imagem fie; cada uma das frases, no fundo, semelhante as ‘outras, dado que todas sio ditas através da infle ‘xio nica de uma personalidede; dai uma expécie de continuidade, que as relacdes de vida e 0 que ‘estas associam a0 pensamento como elementos {que Ihe sio estranhos excluem e que permite mui- to rapidamente seguir o préprio fo do pensamen- to do autor, os tragos da sua fisionomia que se re- Aectem neste expelho tranquila, Sabemos apreciar fs tracos de cada um deles sem termos necessids- de de que sejam admiriveis, pois um grande pro zer para o espitito distinguir estas pinturas pro- fundas e amar com uma amizade sem egoismo, sem frases, como dentro de nés mesmos. Um Gautier, simples bom rapaz cheio de gosto (diver- tenos pensar que pudemos considerélo o repre- sentante da perfeicio na arte), agrads-nos deste modo. Nao exageramos o seu poder expirtual, ¢ 1a sua Voyage en Espagne, onde cada fase, sem que le disso se aperceba, acentua e continua 0 trago _ aKcet rxoust gy cheio de graga e de alegria da sua personalidade (as palavras arramam-se por si propriss para a de senharem, porque foi ela quem as escolheu e dis és na ordem em que se encontram), néo pode mos deinar de considerar muito distanciads da arte verdadeira esta obrigagio a que ele er dever restringirse de no deixar uma dinies forma sem a descrever inteiramente, acompanhando-a com ‘wma comparasdo que, n30 tendo nascido de qual- (quer impressio agradével e forte, em nada 20s ‘canta, Nio podemos senio acusar a lamentivel aridez da sua imaginagio quando compara ocam- (po com as suas variadas cult fiqueles cartes os alfaiates onde estdo coladas as amostras de calgas¢ de coletes"¢ quando diz que de Paris aré ‘Angouléme nio hi nada para ver. E sorrimos des te gotico fervoroso que nem sequer se deu ao tra balho de ir a Chartres vsitar a catedcal.”? Mas que bom humor, que gosto! como vamos autis dele nas suas aventuras, atris desse compa- nheiro cheio de vitalidade; é to simpitico que tudo & sua volta se nos toma também simpatico, EE depois dos poucos dias que passou com 0 co smandante Lebardier de Tinan,retido pela tempes- tade a bordo do seu belo navi "Brilhante como © our’, fcames tristes por ele nio nos dizer nem sais uma palavra sobre esse amivel marinheiro € nos obrigue a deixi-lo para sempre sem nos fazer ssber 0 que fi feito dele.” Sentimos perfeitamen- te que 3 alegria palradora e as melancolias sio rele hbitos um pouco desenfieados de jornalista, ‘Mas perdoamorihe isto tudo, fizemos 6 que ele quer, divertimornos quando ele regressa encharca do até 20s osios, a morrer de fome ¢ de sono, ¢ fi ‘camos trstes quando ele recapitula com uma tris teza de folhetinista os nomes dos homens da ge ragio dele mortos antes de tempo. Diziamos a propésito dele que as frases Ihe desenham a fisio- ‘nomia, mas sem que ele se dé conta; porque seas palavras sio escolhidas, nio pelo nosso pensar mento consoante as afinidade da sua esséncia, mas pelo nosso descio de nos pintarmos, ele re- presenta esse desejo e ndo nos representa. Fromen tin, Musset, apesar de todos os seus dotes, dado ‘que quiseram deixar o seu retrato para a poster dade, pinraram-no de modo bastante mediocre; ‘mesmo assim interessam-nos infinitamente por iso mesmo, pois 0 seu fracaso & instrutivo, De modo que quando um livro no 0 espelho de Juma individualidade poderosa, & ainda o espelho e defeitos curiosos do expirito, Debrugados so- bre um livro de Fromentin ou sobre um livro de ‘Musset, vemos no fondo do primeiro o que nele bi de curto ¢ de néscio, numa certa“disting no fundo do segundo, o que nele existe de vazio na eloguéncia Seo gosto pelos livros aumenta com a intel -incia, 0s perigos, como vimos, diminuem com «la. Um espirito original sabe subordinar a leitue 18 i actividade pessoal. Ela € para ele apenas a mais nobre das distracdes, sobretudo a mais eno- Drecedora, pois, 6 a leiturs eo saber conferem 8 boas manciras” do espirita. O poder da nossa sensibilidade e da nossa inteligéncia, s6 0 pode- ‘mos desenvolver dentro de nés préprios, nas profundezas da nossa vida espiritual. Mas é nex se contacto com os outros espititos que a letuea & que se faz a educacio das “manciras’ do expt Fito, Os letrados permanccem, apesar de tudo, como as pessoas notiveis da inteligéncia, ejgno. ar um determinado livio, uma determinada par ticularidade da ciéncia literiria, serd sempre, ‘mesmo num homem de génio, uma marca de ‘srosseria intelectual. A distincio ea nobreza consistem na ordem do pensamento também, e numa espécie de franco-magonaria de costumes, ¢ numa heranca de tradigées."* Muito rapidamence, no gosto e no divertimen- to de ler, a preferéncia dos grandes escritores vai para os livros dos clissicos. Mesmo aqueles que pareceram 20s seus contemporineos mais 'ro- minticos" versas de Vietor Hugo, quando ele fila das suas leituras,sio os nomes de Moliére, de Horécio, de Ovidio, de Regnard, que surgem mais vezes, Al- phonse Daudet, o menos livesco dos escritores, cui obra toda feta de modernidade e de vida po liam sendo os elissicos, Nas con- rece ter rejeitado qualquer herangaclissica, li, ¢- tava, comentava incessantemente Pascal, Mon- tsigne, Diderot, Técito." Poderseia quase ir 0 onto de dizer, enovando talver, com esta inter pretagdo aids perfeitamente parcial, velha dis tingio entre clisscos e rominticos, que sio os pi- blicos (os pablicos inteligentes, evidentemente) que sio rominticos,enquanto os mestres (mesmo ‘0s mestesditos romnticos, os mesres preferidos dos piblicos roménticos) so clésscos.(Observae slo que se podia estender a rodas a8 artes. O pir blico vai ouvir a misiea do St. Vincent d'Indy, 0 Sr. Vincent dIndy ela de Monsigny.!* © pai agcet raovst gy co val is exposigées do Sr. Vuillard edo Sr. Mau: rice Denis enquanto estes vio a0 Louvre) Isso devese provavelmente 20 facto desse pensamento contemporineo que os excritores ¢ os artistas of ginais tornam acessivel e desejivel 20 piblico, fo 2er em certa medida de tal modo parte deles pr pos que um pensamento diferente os diverce me Thor. Pede-thes, para que cheguem até ele, mais es forco, e dishes também mais prazer; & sempre agradivel sair um pouco de nds praprios, visar, quando lemos ‘Mas hi uma outra razio 4 qual prefiro, para terminar, atribuir essa predileccio dos grandes e¢ pirits pelas obras clésscas.” E que estas nfo tém para nés, como as obras contemporineas, a belezs aque nelassoube incuti oespicito que as criou, Re cxbem outra ainda mais comovente pelo facto ds propria matéria,refireme & lingua em que foram escrtas, ser como que um espelho da vida, Um pouco da felicidade que sentimos a0 darmos um passeio por uma cidade come Beaune que guards intacto © seu hospital do século XV, com o seu ovo, 0 lavadouro, a abbboda de madeira reves da de lambris e pintada,o relhado de empena alta tuespassado de clarabéizs coroadas por eves exp sc mousr 125 de chumbo martelado (todas as coisas que uma époce ao deszparecer como que deixow ai es ‘quecidas, todas essas coisas que s6 a ela perten- ‘iam, visto que nenhums das épocas que se Ihe se _guiram viu nascer outras parecidss),sentimos ain- dda. um pouco dessa felicidade 20 deambularmos pelos meandros de uma tragédia de Racine ou de uum volume de Saint-Simon. Porque eles contém todas as belas formas de Tinguagem abolidas que guardam as recordagbes de usos, ou de maneiras de sentir que jf no existem, marcas persistentes do passado com que coisa alguma do presente se parece ¢ de que o tempo, 20 passar por elas foi o ‘nico 4 avivarthes mais 2 coe, Uma tragédia de Racine, um volume das Afé moire de Sainte Beave asemelham-se 3 coisas lin- das que jf ndo se fabricam. A linguagem em que foram esculpidas por grandes artistas com uma lic berdade que thes faz brilhar a suavidade e sobres- sair a forga inata, emociona-nos como a visio de certos marmores, hoje inusitades, que os oper rios de outrora utilizavam. E provivel que num desses velhos edificios 2 pedra tena fielmente guardado © pensamento do escaltor, mas tam bbém, gragas 20 escultor, a pedra, de uma espécie MaRceL Proust _@ sctualmente desconhetid, folnos conservads, re vestida de todas as cores que ele dela soube ex: stair, fazer aparecer, harmonizar. E de fto a sin- taxe vigente em Franca no sécule XVII — e nela costumes ¢ uma forma de pensamento desapare- ‘idos ~ que gostamos de encontrar nos versos de Racine. Sé0 as prdprias formas dessa sintaxe, pos- tas 2 descoberto, respeitadas, embelezadas pelo seu cinzel tio franco e tio delicado, que nos eme- cionam naqueles jogos de linguagem familiares até 4 singuleridede e até 4 ousadia™ e de que ve passar como um trazo rapido ou voltar atris em bela linhas quebrades, 0 brusco desenho, Sio ex tas formas desaparecidas excraidas da propria vida do passado que vamos visitar na obra de Racine como numa cidade antiga que tivesse permaneci do intacta, Sentimos diante delas a mesma emo- sfo que diante dessas formas abolidas, também las, da arquicectura, que j 16 podemos admirar nos raros € magnificos exemplares que nos legou © passado que as meldou: como as muralhas das idades, corredes e torres, baptisérios das igreas; como junto do elaustro, ou debaixo da pedra do ‘ossirio do Adro, 0 pequeno cemitério que esque ce a0 sol, sob as borboletas eas flores, a Fonte fu neriria e a Lanterna dos Moztos Mais, nlo sio s6 as frases que desenham sos nnosses olhios as formas de alma antiga. Entre as frases ~ ¢ estou a pensar em livros muito antigos que foram inicialmente rectedos, — no intervalo {que as separa permanece ainda hoje como num hhipogeu inviolado, enchendo os intersticios, um siléncio muitas vezes secular. Virias vezes no Evangelho de Sto Lucas, 0 encontrar os dois por ‘as que interrompem antes de cada uma das par- tes quase em forma de cinticos de gue estésemea- do,” ouvi osiléncio do crente, que acabava de pa- rar a leitura em vor alt a fim de entoar os versi- culos seguintes como um salmo que Ihe fizesse lembrar 0: salmos mais ancigos da Biblis, Est si lincio enchia ainda a pausa da frase que, x0 terse cindido para englobar, guardara forma dele ¢ mais de uma vez, enguanto eu la, ele me trouxe © perfume de uma rosa que a brisa entrando pela janclaaberca espathara pea sala de tecto alto onde cestava reunida 4 Assembleia e que se no evapors: ra desde hi quase dois mil anos. A Divina Comé dia, as pesas de Shakespear, dio também 3 impres- sio de contemplarem, inserido na hora actual, tum pouco do passado; esta impressio to exaltan- te que faz com que certos "Dias de leitura"™ se as semelhem 2 certos dias de deambulacio por Vene- 2a, pela Piazetts por exemplo, quando se tem iante de nés, na sua cor semivireal de coisas si- suadas a poucos pasios ex muitos séeulos as duss colunas de granito cinzentoe rosa que tém nos ex pittis, uma o leio de Sto Marcos, a outra Santo ‘Teodoro eimagando 0 crocodile; estas duas belas « esbeltas estrangeiras vieram outrora do Oriente trazidas pelo mar que as seus pés se quebra; sem compreenderem as conversas tidas 4 sua volta, continuam a alongar os seus dias do século XII na smultidio de hoje, naquela praca piblica onde bri Tha ainda disteaidamente, ali pero, 0 seu sor rieo distance. NOTAS 1.0 Ieitor encontraré aqui a maior parte das piginas escritas para uma tradusio de Same et lt Lyre reimpressas gracas & geneross autorizagio do Sr. Alfred Vallette. Foram dedicadas & princesa Alexandra de Caraman-Chimay como prova de toma amizede que vinte anos nfo enfraqueceram, 2 Confesso que um certo emprego do imperfe- odo indicativo — deste empo cruel que nos apre- senta a vida como qualquer coisa simlteneamen- te efémera e passiva, que, no proprio momento ‘em que define as nosias acp6es, as impregna de iDusio, as dilui no passado sem nos deixar como ‘© perfeito, oconsolo da actividade ~ permaneceu para mim uma fonte inesgotivel de misteriosas tiistezas. Ainda hoje posso ter pensado durante horas na morte com teanguilidade; basta que abra ‘um volume dos Lundis de SaintBeuve e que dé ppor exemplo com esta frase de Lamartine (a res ppeito de Mme. ¢’Albany): "Nada fazia lembrar rela nessa €poca...ra uma mulher baixa cua cin- tara um pouco deformada pelo peso tinha perdi do, et" para gue eu me sinta imediatamente in. vadido pela mais profunda melancolia.— Nos ro- ances, a intengio de susctar tristeza por parte do autor & to vsivel que uma pessoa scabs por s¢ desconteair um pouco mais, 3B pottivltentido, através de uma espécie de desvio, em livros que nio sio totalmente de im sinagfo pura €em que existe um substrato hit rico. Balnac, por exemplo, cua obra de certo modo impura associa exprto« realidade muito oueo tansformads, prestase So vere estan mente & te tipo de leiturs. Ou pelo menos en- controu o mais admirivel desses“kitores histori os no Sr, Albert Sorel que esreveu sobre Une Te nébreuse Affaire e sobre L'Envers de l'Histoire Com Lemporaine ensaios incomparivei, Como a eit 1 de resto, esse prazersimultancamenteardente é serena, parece conve peretamente a0 St. Sorel 2 ese eiirtoinvestigador, 2 ese corpo alma © oe scene poderoso, a leitura, durante a qual as iniimeras sensagbes de poesis ¢ de bem-estar confuso que ela se desprendem alegremente do fundo da boa sate vem compor em tomo do devaneio do lei- tor um prazer suave e dourado como o mel. — Alids, esta arte de encerrat tanta originals e pro- fundes meditagies nama leitura, nfo foi apens & propésito de obras meio-histricas que o Sr. Sorel 2 guindou 4 perfeicdo. Lembrarmeei sempre—e com que reconhecimento — que 0 meu estudo so- bore La Bible d’Amien foi para ele matéria das mais vigorosss piginas que talver jamais cle tena e& 4 Beta obra foi posteriormente aumentada com 4 adigio 4s duas primeizas confertncias de uma terceira: "The Myscery of Life and its Arts." As edi- «8es populares continuaram a conter apenas "des ‘Trésors des Rois" e "des Jardins des Reines'. No presente volume, craduzimos somente estas duas conferéncias, e sem as anteceder de qualquer dos preficios que Ruskin escreveu para "Sésame et les Lys’ As dimensBes deste volume e a abundincia do nosso proprio Comentirio nfo nos permiti- sam fazer melhor. Excepto no que diz respeito 8 - ances mous gy quatso delas (Smith, Elder eC) as numerosesedi- ‘sees de “Sésame et les Lys" foram todas publicadas por Georges Allen, o ilustre editor da obra com- pleta de Ruskin, o proprietirio de Ruskin House, 5 Sésame et es 35, Des Trsars det Roi, 6 6 Na verdade, esta frase no se encontra, pelo menos sob esta forma, no Capitdo Fracase. Ei ver de “ainsi qu'il appert en ['Odyssée d’Homerus, potte grégeois, esta simplesmente “suivant Ho- meres", Mas como as expressbes “il appert d’Ho- appert de ’Odysste', que se encontram rnoutros pontos da mesma obra, me proporcion- vam um prazer do mesmo calibre, tomei a liber dade, para que o exemplo fosse mais notério para o eitor, de fundir todas esta belezae numa tniea, agora que jé no tenho por elas, por assim dizer, tum respeito religioso. Algures ainda no Capitéo Fracase, Homerus € qualificado como poeta “gr eos", € nfo tenho qualquer divida de que isso também me enchia as medidas. Todavia, & nio sou capaz de encontrar com exactiddo estas ale- sriasesquecidas de modo a tera certeza de no ter forgado 2 nots ¢ ultrapassado a jasta medida 20 acumular numa sé frase tantas maravilhas! Mas nao ereio tho feito. E penso com pena que aexal= tagdo com que eu repetiz a frase do Capitéo Fra- as 205 iris eis pervincas inclinadas& beira do rio, espezinhando os seixos da alameda, ainda te- 1a sido mais deliciosa se tivesse podide encontrar ‘puma tinica frase de Gautier todos os encantos que o meu proprio artifcio reine hoje, sem com- seguir, lamentavelmente! ter com isso qualquer prazer. 7 Sinto-a em embrido em Fontanes, de quem SsincBeuve disse: "Esse lado epicurista era muito forte nee... sem estes taishiitos um pouco ma- teriais, Fontanes com o seu talento ceria produzi- do muito mais...¢ obras mais duradouras." Fago notar que 0 impotente pretend sempre que o no & Fontanes diz Je pers mon temps sl fat les err Eee seals du sie ont Vbonsear ¢ afirma que trabalha muito, (0 caso de Coleridge &j8 mais patolégico, "Ne tnhum homem do seu tempo, nem provavelmente de tempo algum, diz Carpenter (citado por Ribot no seu belo livro sobre as Doengas da Vontade), conjugou mais do que Coleridge o poder do r= Ciocinio do flésofo, 2 imaginagio do poet, etc E contudo, ndo hé ninguém que, sendo dotado de tio notiveis talentos, tenha deles reticado tio ppouco: 0 grande defeito do seu caricter era a falta devontade para conseguir pér ot seus dotes der, de modo que tendo sempre & pairar no espl ito projectos gigantescos, nunca tentou serie ‘mente executar um dinico. Foi assim que, desde 0 inicio da sua carreire, encontrow um livreiro ge- reroso que the ofereceu trinta guinéus por uns poemas que ele haviarectado, et. Prefer vir to- as a8 semanas mendigar sem fornecer uma s6 l- sha desse poema que teria bastado que escrevesse ara fica livre 8 Nio preciso dizer que seria indtil procurar ‘este convento perto de Unreque e que toda esta passagem é para imaginacio. Ela foizme contudo sugerida pelas linhas seguintes do Sr. Léon Séché ‘a sua obra sobre Saint Beuve: "Ele Sainte-Beuve) ecidiu um dia, quando estava em Litge, contac: Proust _ gy @ marc rnouse sar com a pequena igreja de Usreque. Era um pou co tarde, mas Utreque era muito longe de Paris © no sei se Volypté teria chegado para Ihe abrie de par em par as portas dos arguivos de Amersfoot Tenbo algumas dividas, pois mesmo depois dos dois primeiros volumes de Port-Royal, o piedoso silbio que tinba entdo & sua guards aqueles arqui vos, etc. SainteBeuve obteve com dificuldade do bom Sr. Karsten a autorizagdo de entreabrir al ‘guns caixotes.. Abram a segunda edigdo de Port ‘Royale verio 0 reconhecimento que Sainte-Beuve testemunha ao Sr. Karsten" (Léon Séché, Sainte ‘Bexse, tomo I, paginas 229 ¢ seguintes). Quanto 20s pormenores da viagem, codos eles se baseiam em impressbes verdadeiras. No se se se pasta por Doréreque para ir para Usreque, mas foi exactt- mente come a vi que deserevi Dordreque. Nao foi 20 ir « Utreque, mas « Vollendio, que viaiei de barco, por entre os canaviais. O canal que colo- ‘quei em Utreque fica em Delft Foi ne hospital de Besuine que vi um Van der Weytéen, eas freiras de uma ordem vinds, creio eu, da Flandres, que vvsam ainda o mesmo cabecio nfo como em Ro- ger Van der Weyden, mas como noutros quadros vistos na Holand, 9.0 snobisme puro ¢ mais inocente. Gostar da ‘companhia de uma peisoa por que esta teve um antepassado nas cruzadas, &vaidade, a inteligén- cia nio tem nada a ver com isto. Mas gostat ds companhia de uma pessoa por que @ nome do avd dela se encontra amide em Alfred de Vigny ou em Chateaubriand, ou (sedugio verdadeirs ‘mente inresistivel para mim, confess) ter 0 bra slo da familia trat-se de uma senbora muito dig na de ser admirada sem isso) na grande Rosices de NotreDame d’Amiens, eis onde comeca 0 pe- cado intelectual. De resto jf analisei este aspecto ongamente noutro texto se bem que tenha ainda ‘muito para dizer, para ter que voltar a insistir mais uma vee aqui 10 Paul Stapfer: Sowvemire sur Victor Hage, px biicados na Reowe de Paris 11 Schopenhauer, Le Monde comme Reprvent tion et comme Velonté (capitulo sobre a Vaidade € (8 Sofrimentos da Vida). 12 "Lamento ter passado por Chartres sem ter Podido ver a catedral." (Vonage en Eipagne, p.2). e 13 Veio a ser, dizem-me, 0 clebre almirante de ‘Tinan, pai de Mme Pochet de Tinan, evjo nome ficou famoso entre os artistas, eav8 do brilhante oficial de cavalaria. — Foi ele também, penso eu, que frente a Gaét, asegurou durante algum tem- p00 reabastecimenco e as comunicagdes de Fran ‘ico Il e da rainha de Napoles. (Ver Pierte de la Gorce, Histoire dr Serond Empire) 14 A distingio verdadeira, de resto, finge sem- re dirigirse apenas a pessoas distintas que co- becem os mesmos usos, ¢ nio "explica", Um li vro de Anatole France subentede uma quantidade tée conhecimentos eruditos, encerra repetidas alu- ses que a pessoa comum nfo wee que fazem dele, pata além das outras maravilhas, a sua incompa vel nobreza 15 & por isso provavelmente que mutes vezes, ‘quando um grande escrtor faz critica, fala muito das edigdes existentes de obras clisticas, ¢ muito pouco de livros contemporineos, Exemplo: as Landis de SaintBeuve e a Vie litéraire de Anatole France. Mas enquanta 0 Sr. Anatole France julga 48 mil maravithas os seus contemporineos, pode- acu 0ust_g mor dizer que SrinteBeave nio conhecew ne hum dos grandes escritores do seu tempo. Fnio ime venham dizer que estava cego por édios pes soais. Depois de ter incrivelmente rebaixado © ro- ‘mancistaem Stendhal, exalt a Iaia de compenss- Glo, a modéstia, os processos delicados do ho- mem, como se nio houvesse mais nada favorivel a dizer dele! Esta cegueira de Sainte-Beuve, no que respeita a sua époce, constrasta singularmente com as suas pretensbes de clarividéncia, de pres ciéncia, "Toda a gente ¢ forte, diz ele, em Chat Briand e som groupe linéaire a pronunciarse sobre Racine ¢ Bossuet... Mas a sagacidade do juiz, 2 perspicicia do critico, demonstra-se sobrerado com textos novos, nJo ainda experimentados pelo piblico. Julgar 4 primeira vista, adivinhar, anteciparse, eis 0 dom critica. Quio poucas 0 possuem.” 16 E,reciprocamente, os clissicos nfo tém me Thores comentadores de que os "romanticos”. S, de facto, 0s rominticos sabem ler as obras clissi- «as, porque as Ifem como foram escrtas, roman- ticamente, porque, para se ler bem um poeta ou prosador, é preciso serse io erudito, mas poets ido para as obras menos ominticas. Os belos versos de Boileas, ni fo- rath 0s professores de ret6rica que novlos assina- laram, foi Vietor Huge: ou prosador. Isto & ¥ Es dans guels mouchoirs de ut Beauté ais Enonie ax blamchiseur se ros es bs Foio Se. Anatole France: ignorance e Pore dst nascent pier Em habits de marquis on robes de conte © Glkimo niimero da Renatsance lasing (15 de ‘Maio de 1908) permiteme, no momento em que corrijo estas provas, alargar, com mais um exem- plo, esta observagio as belasartes. Ela mostra-nos, efectivamente, no St. Rodin (artigo do Sr. Mau- clais) 0 verdadeiro comentador da estatuiria gre- es 17 Predileccio que eles préprios consideram ageralmente fortuits: aereditem que os livos mais belos foram escritos por acaso pelos autores elise - ace, oust gy sicos;€€ claro que isso pode acontecer dado que (0s livros antigos que lemos si0 escolhidos na to talidade de passado, tio vasto comparado com a ‘paca contemporines. Mas uma rzzio de cero modo acidental nfo pode ser suficiente para ex- plicar uma atitude de espirito eo geral 18 Creio por exemplo que o encanto que toda 4 geote sente habitualmente nestes versos de An- deomaca: Pourquoi Fassasiner? Quail fit? A quel tree Opi tee die provem precisamente do facto de o elo habitual Ga sintaxe ter sido quebrado. "A quel ttre?” nio Giz respeito a "Qu's-il fale" que o precede ime- diatamente, mas "Pourquoi Vasassiner?" E"Qui tel di ssassiner™. (E possivel ver que, recordando um outro verso de teferese igualmente a ‘Andrémaca: "Qui vous Ia dit" esti em vez de "Qui te I'a dit, de Passassines?") Zigueragues da cexpressio (a linka recorrente ¢ quebrada de que cima falei) que alo deixam de obscurecer um ep sasceL ous pouco 0 sentido, a ponto de eu ter ouvido uma grande actriz mais preocupada com 2 clareza do discurso do que com a exactiddo da prosdia di 2er sem apelo nem agravo: "Pourquoi 'assassiner? ‘A quel sce? Qu’s ti fai?" Os mais ctlebres ver sos de Racine sio-no em realidade porque assim cncantam através de uma ousadia familias de line {guagem atirada como uma ponte audaciosa entre dduas margens de suavidade. "Je 'aimais incons- tant, gaenrairje fai ide.” E que prazer provoca fo belo enconteo destas expressbes cua simplicida- de quase comum dé ao sentido, como acontece ‘com certos rostos de Mantegna, uma plenitude to suave, uma cores tio lindas: Et dans sm fol amour ma jeunes embarguée Rewnisos trois covurs gu wont pu s'ccorder E & por esta razio que & conveniente ler 0s es critores cléssicos na integra, em vez de nos con- tentarmos com excertos escolhidos. As paginas ilustres dos esritoressio muitas vezes aquelas em que esta contextura intima da sus linguagem esti dissimulada pela beleza, com um caricter quase universal, do excerto. Nao creio que a esséncia ____syscen eroust gy particular da misies de Glick se fags sentir numa dererminada dria sublime do mesmo modo que numa determinada cadéncia dos reitativos onde a harmonia € como que o préprio som da vor do seu ginio quando recai sobre uma entossio invo- luntiria onde ered marcada toda a sua gravidade ingénua e a sua distingSo, sempre que a ouvimos ppor assim dizer tomar flego. Quem ji viu for0- agrafias da Praga de Sfo Marcos em Veneza pode julgar (es estou a falar do exterior do monumen- to) que tem uma ideia dessa igreia de cdpalas, quando é apenas so aproximarmo-nos, quase a odermos tocilas com a mio, do pano matizado das colunas sorridentes, ¢ apenas 20 vermos 0 po- der estranho e grave que enrola as folhas onde se cempoleiram 0s pissaros nesses capitis que s6 po- demos distinguir de pert, € apenas 20 termos so brea prépria praca a impressio desse monumen- 10 baixo, a todo o comprimento da fachads, com ‘os mastros loridas ea sus decoracio festiva, ose ar de "palicio de exposicio’, que sentimos brotar nesses trac0s significativos mas acessérios ¢ que nenluuma fotografia retem, a sua verdadeira © complexa individualidade, eo 19°E Maria disse: "A minha alma exalts 0 Se nnhor ¢ regazijese em Deus meu Salvador, ete” — ‘Zacatias eu pai foi penetrado pelo Espirito Santo « profetizou deste modo: "Bendito seja 0 Senhor, © Deus de Israel porter resgatado, etc." "Recebeu- -a nos bragos, abencoou Deus ¢ disse: "Agora, Se- sohor, deixa 0 teu servo partir em paz.” [Link] realidade, nenhum testemunho positivo ‘me permite afirmar que nesta leituras 0 rectante cantasse a espécie de salmos que Si0 Lucas intro- Guziu no seu evangelho. Mas parece-me que isso sobresstio suficiente da sbordagem de diferentes ppassagens de Renan e nomeadamente de Sio Pau To, p.257 e seguintes, dos Apéstolos,p. 99 ¢ 100. Marco Aurélio, p. 02503, ec 21 O titulo original deste texto & precisamente “Journées de Letar'. N.T.

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