Desenvolvimento Docente na Pandemia
Desenvolvimento Docente na Pandemia
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ARTIGO
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Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA). Euclides da Cunha (BA), Brasil.
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Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Feira de Santana (BA), Brasil.
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo investigar a atuação e desenvolvimento profissional de
professores brasileiros durante o ensino remoto emergencial na pandemia de covid-19, considerando
aspectos como condições de trabalho, de aprendizagem da docência e da saúde mental. Uma amostra de
364 professores da Educação Básica no Brasil foi avaliada a partir de instrumentos de autorrelato
considerando dados sociodemográficos, condições de trabalho, aspectos relativos à atuação docente e
aprendizado da docência (atividades, saberes e formação docentes), saúde mental e sentido da vida. Os
resultados apontaram que as mudanças no trabalho docente ocorrem em meio à ausência ou pouca
experiência da maioria dos professores com ensino on-line e/ou com uso de tecnologia digital, além da
falta de apoio e condições de trabalho adequados. As principais tarefas foram mediadas por tecnologia e
os saberes didáticos tiveram um papel fundamental neste contexto. A formação oferecida aos professores
pelas instituições educativas foi insuficiente em grande parte, provocando a necessidade de
(auto)formações complementares. Os saberes experienciais demonstraram ser fundamentais na
aprendizagem da docência. Finalmente, a saúde mental demonstrou ter um papel crucial nesse processo
de desenvolvimento profissional, além de demonstrar uma correlação positiva com a presença de sentido
na vida. Implicações para o desenvolvimento profissional docente são discutidas.
Palavras-chave: desenvolvimento profissional; covid-19; Brasil; professores da Educação Básica.
ABSTRACT: This work aims to investigate the work and professional development of Brazilian teachers
during emergency remote teaching in the COVID-19 pandemic, considering aspects such as working
conditions, teaching-learning, and mental health. A sample of 364 basic education teachers in Brazil was
assessed using self-report instruments considering sociodemographic data, working conditions, aspects
related to teaching work and teaching learning (activities, knowledge and teacher education), mental
health, and meaning in life. The results showed that changes in teaching work occur amid the absence or
limited experience of most teachers with online teaching and/or the use of digital technology, in addition
to the lack of adequate support and working conditions. The main tasks were mediated by technology,
and didactic knowledge played a fundamental role in this context. The education offered to teachers by
the institutions was largely insufficient, causing the need for complementary (self)education. Experiential
RESUMEN: Este trabajo tiene como objetivo investigar la actuación y desarrollo profesional de
profesores brasileños durante la enseñanza remota de emergencia en la pandemia COVID 19,
considerando aspectos como las condiciones de trabajo, aprendizajes de los docentes y su salud mental.
Una muestra de 364 profesores de educación básica en Brasil fue evaluada a partir de instrumentos de
autodescripción considerando datos socio demográficos, condiciones de trabajo, aspectos relativos a la
actuación del docente y el aprendizaje de la docencia (actividades, saberes y formación profesional), salud
mental y sentido de la vida. Los resultados indican que los cambios en el trabajo docente se dan en medio
de la ausencia o poca experiencia de la mayoría de los profesores con la enseñanza online y/o uso de
tecnología digital, además de la falta de apoyo y condiciones laborales adecuadas. Las principales tareas
estuvieron conciliadas por la tecnología y los saberes didácticos jugó un papel fundamental en este
contexto. La formación ofrecida a los profesores por parte de las instituciones educativas fue en la
mayoría de los casos insuficiente, provocando la necesidad de una autocapacitación complementaria. Los
saberes experienciales demostraron ser fundamentales en la enseñanza docente. Finalmente, Se ha
demostrado que la salud mental juega un papel crucial un papel crucial en este proceso de desarrollo
profesional, además de demostrar una correlación positiva con la presencia de sentido en la vida.
Implicaciones para el desarrollo profesional docente son discutidas.
INTRODUÇÃO
caráter de urgência em que foi implementado. Consultas realizadas junto aos professores brasileiros pela
Fundação Carlos Chagas (2020), pelo Gestrado (2020) e pelo Instituto Península (2020) mostram um
retrato da profissão docente no contexto pandêmico. Os dados revelam a sobrecarga de trabalho, a
ausência de formação docente para trabalhar com as tecnologias, pouca, ou nenhuma, experiência dos
professores com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) e, também, o efeito desse período
na saúde mental do professor. O panorama apresentado por esses estudos sinaliza a necessidade de
aprofundar as investigações a respeito da atuação do professor durante o período da pandemia da covid-
19. As pesquisas nessa área ainda são poucas e/ou incipientes para responder tantas questões impostas a
partir da disseminação do novo coronavírus.
Diante disso, este trabalho se propõe a investigar o desenvolvimento profissional docente
no ensino remoto emergencial durante a pandemia de covid-19, incluindo condições de trabalho,
aprendizagem da docência e saúde mental. Considerando o professor brasileiro na pandemia de covid-
19, esse objetivo se desdobra nas seguintes questões de pesquisa: Quais foram as condições de trabalho?
Quais foram as atividades e saberes docentes necessários no ensino remoto para promover a
aprendizagem dos estudantes? Quais fatores colaborou para os professores aprenderem a ensinar nesse
contexto? Qual foi a influência da saúde mental nesse processo de desenvolvimento profissional?
O Desenvolvimento Profissional Docente (DPD) aqui é compreendido a partir dos estudos
de Marcelo García (2009) o qual afirma que o DPD é um processo individual, ou coletivo, que deve se
contextualizar no local de trabalho do professor e que contribui para o desenvolvimento de competências
profissionais através das diversas experiências. Imbernón (2011) advoga que o docente se desenvolve por
meio de vários fatores como salário, clima de trabalho, demandas do mercado de trabalho, plano de
carreira, formação permanente realizada ao longo da vida profissional, entre outros. Esses elementos
foram fortemente impactados durante a pandemia (Flores et al., 2020; Fundação Carlos Chagas, 2020;
GESTRADO, 2020; Instituto Penísula, 2020), e o professor necessitou desenvolver competências,
habilidades e conhecimentos para atuar nessa nova conjuntura educacional, desse modo, essa postura
pode favorecer o desenvolvimento profissional docente e o fortalecimento da aprendizagem do professor
(Darling-Hammond & Hyler, 2020).
METODOLOGIA
Participantes
Instrumentos
Procedimentos
Análise
Os dados gerados pelo Google Forms foram importados e analisados no Excel e SPSS 20.0,
usando estatística descritiva. Também foi usada a estatística inferencial para verificar a correlação entre
os fatores presentes no Questionário de Saúde Mental Positiva Abreviado e de Sentido de vida, por meio
do teste de correlação de Pearson. Para verificar se havia diferenças entre os três grupos de estado de
saúde mental (flourishing, moderado, languishing), foram executados o teste de Kruskal-Wallis para
comparar itens de temas da aprendizagem da docência presentes no questionário (papel do professor,
saberes didáticos-pedagógicos, autoformação, fontes sociais dos saberes docentes, percepção do uso de
tecnologias digitais e da preparação para atuação no ensino remoto). Consideraram-se apenas as questões
que eram possíveis converter as respostas em uma escala numérica ordinal. Também se executou o tema
de Chi-quadrado para analisar a presença de diferenças nos três grupos mencionados em relação aos
dados sociodemográficos.
RESULTADOS
A Tabela 1 mostra a caracterização da amostra da pesquisa. Destacam-se os professores da
rede federal de ensino, que atuam no Ensino Médio (profissionalizante) e são servidores públicos. Esses
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professores também são compostos, em sua grande maioria, por mestres e doutores. Quanto à rede de
ensino, apenas 5,5% atuam em mais de uma rede.
Escolaridade
Ensino Médio 0,3%
Graduação 8,2%
Especialização 27,5%
Mestrado 33,5%
Doutorado 30,5%
Rede de ensino
Rede Privada 11,8%
Rede Municipal 17,3%
Rede Estadual 17,1%
Rede Federal 59,3%
Vínculo empregatício
Servidor público 84,3%
Contrato temporário 10,5%
CLT 8,3%
Outros 0,3%
Mais de um vínculo 3,4%
A seguir, cada subseção aborda uma questão de pesquisa de maneira que a apresentação dos
dados resultantes esteja melhor organizada.
Nesse eixo de análise, sobressaem dados relativos à carga de trabalho docente, de condições
físicas (espaço e equipamentos) e de conectividade para a realização do trabalho remoto. No que tange à
carga de trabalho, para 83,2% dos respondentes, houve aumento na quantidade de horas dedicadas à
preparação de aulas remotas em comparação às aulas presenciais. Em relação ao espaço para a realização
do trabalho remoto, o mais utilizados foram quarto e sala. Observou-se que 32,1% usavam um quarto
diferente do que dormem, 19,8%, o mesmo quarto de dormir e 29,5% utilizavam a sala para fins de
trabalho. No que se refere aos equipamentos utilizados para a realização do trabalho, 71,4% dispunham
de laptops e 35,3%, de computador de mesa. Vale destacar que 64,6% dos professores usavam mais de
um dispositivo, sendo que 62,5 % atrelavam o uso do celular com outro equipamento, 23,6% dividiam
os equipamentos de trabalho com outras pessoas da família. No que toca à qualidade da conexão de
Internet, 60,4% dos professores classificavam como razoavelmente boa.
Quando questionados sobre a disponibilização de suporte estrutural/material, constatou-se
que 89,6% dos professores não receberam nenhum suporte das escolas e/ou Secretarias de Educação,
como dispositivos e Internet. A proporção de professores(as) das redes municipais de ensino que não
Educação em Revista|Belo Horizonte|v.39|e38326|2023
dispunham de nenhum tipo de suporte para a realização de atividades não presenciais era a maior, 95,3%,
se comparado a outras redes de ensino. O maior percentual de docentes que receberam esse apoio foram
os que trabalhavam nas redes particular e federal, com 18,6% e 14,1%, respectivamente.
Gráfico 1: Principais atividades realizadas diariamente no ensino remoto avaliadas como relevantes ou
muito relevantes pelos docentes (em %)
Gráfico 2: Saberes didático-pedagógicos avaliados como relevantes ou muito relevantes para a atuação
no contexto de ensino remoto (em %)
Quais fatores têm colaborado para os professores aprenderem a ensinar nesse contexto?
Inicialmente, destaca-se que 51,6% dos respondentes não possuíam experiência anterior
ministrando atividades de ensino não presenciais e que 25,3% possuíam pouca experiência. Em termos
de formação para uso de tecnologias digitais, 74,2% dos professores consultados participaram de alguma
atividade formativa da sua instituição de ensino e/ou Secretaria de Educação, porém 70% desse público
avaliou que a formação atendeu parcialmente às necessidades da prática pedagógica no ensino remoto e
outros 15,1% avaliaram que a formação não atendeu a tais necessidades. Para 15,9% não foi oferecido
nenhum tipo de formação e 9.9% não responderam este item. Destaca-se ainda que 53,4% dos
respondentes informaram que realizaram estudo por conta própria, através de recursos on-line como lives,
vídeos ou páginas da Internet. Outros 43,6% buscaram, por iniciativa própria, formação oferecida por
outra instituição.
Quando questionados a respeito do que/quem procuraram com mais frequência, como
complemento da formação em caso de dúvidas a respeito da prática educativa em ensino remoto, os
resultados apontaram uma postura pesquisadora dos professores, os quais buscaram, por meio das
possibilidades da Internet, melhorar a formação para a sua atuação. A experiência adquirida ao longo da
carreira e a socialização desta entre os pares também se mostraram como importantes subsídios para a
aprendizagem da docência no modelo de ensino não presencial. Outras estratégias formativas
complementares também estão listadas no Gráfico 4, mas procuradas pelos professores com menor
frequência.
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Sobre trabalhar com tecnologias digitais, um saber didático considerado relevante ou muito
relevante pela maioria, 43,9% dos participantes da pesquisa consideravam algo fácil ou muito fácil, 15,7%
consideravam difícil e/ou muito difícil e 40,4% classificavam como neutro. Analisando os respondentes,
segundo as redes de ensino, constata-se que é da rede estadual o maior número, 27,4%, de professores
que julgam ser difícil ou muito difícil trabalhar com tecnologias, e o maior percentual, 53,5%, de
professores que consideram fácil ou muita fácil desempenham suas funções na rede particular.
Quando interrogados como se sentiam em termos de amadurecimento profissional para lidar
com o ensino remoto no início da pandemia logo após a suspensão das aulas presenciais, em março de
2020, 56,6% se avaliaram como despreparados. Mensurando como se sentiam após alguns meses de
atuação, quando da resposta ao questionário, a percepção desses docentes foi alterada e o número caiu
para 6,3%. Dentre os que se sentiam preparados, ou razoavelmente preparados, no início da pandemia
estavam 33,1% dos participantes, mas esse número subiu para 75,8% após alguns meses de ensino
remoto.
As fontes sociais de aquisição de saberes elencadas por Maurice Tardif (2014, p. 63) foram
avaliadas pelos docentes como relevantes ou muito relevantes para o contexto pandêmico de acordo o
Gráfico 5. Destaca-se que 89,2% dos respondentes consideravam relevante, ou muito relevante, a
experiência enquanto professor na escola, a prática na sala de aula, a socialização de conhecimentos já
adquiridos entre colegas de profissão, o relacionamento com estudante, dentre outras. Traçando um
paralelo desses dados com o Gráfico 4, relacionado à formação complementar, a experiência se mostra
como um mecanismo importante para subsidiar e orientar a prática docente no ensino remoto.
Tabela 2: Estado de saúde mental antes e depois da pandemia. Os valores indicam a porcentagem de
professores que se sentiam preparados ou muito preparados para trabalhar no ensino remoto.
Flourishing Moderado Languishing
No início da pandemia 15,3% 11,5% 2,9%
Depois de alguns meses de pandemia 52,6% 37,0% 17,1%
Fonte: Autores
A Tabela 3 mostra a relação dos estados de saúde mental com a percepção dos professores
acerca da experiência do ensino remoto. A maioria dos professores no estado flourishing classificou a
experiência do ensino remoto como desafiadora ou como oportunidade de novas aprendizagens. Já
aqueles com languishing perceberam mais como desafiadora ou desconfortável. No campo “outras
opções”, um professor em estado de languishing relatou que é “Extremamente estressante e sem sentido.
Estou preso dentro de uma tela. Perdi meus alunos, minha sala de aula, minha profissão”.
Também foi observado, de modo geral, uma tendência dos professores com estado de saúde
mental flourishing marcarem “pontuações mais altas” em itens relacionados à sua atuação durante a
pandemia do que aqueles com estado moderados e estes, por sua vez, registrarem “pontuações mais altas”
do que aqueles com languishing. Mais especificamente, professores com melhor (pior) estado de saúde
mental durante o ensino remoto estavam associados a uma atitude de registrar como mais (menos)
relevantes os diferentes saberes didáticos-pedagógicos e as fontes de onde provém esses saberes, a
recorrer a mais (menos) recursos e/ou pessoas para complementar sua formação, a perceber como mais
(menos) relevante o seu papel diante dos estudantes e a ter menos dificuldade com o uso de tecnologias
digitais. Para ilustrar, o Gráfico 6 exemplifica essa constatação no que toca às cinco fontes dos saberes
docentes categorizadas por Tardif (2014), indicando a porcentagem de professores em cada estado de
saúde mental que julgaram relevantes ou muito relevantes cada uma dessas fontes. Aqueles com melhor
(pior) saúde mental tiveram uma maior (menor) percepção de relevância das fontes.
Para uma melhor precisão, o teste de Kruskal-Wallis foi realizado para determinar se havia
diferenças estatisticamente significativas nas pontuações dos itens supracitados entre os grupos que
diferiam em seu nível de saúde mental: flourishing, saúde mental moderado e languishing. Foram analisadas
questões relativas aos saberes didáticos-pedagógicos mobilizados, fontes sociais de aquisição dos saberes
docentes, autoformação, percepção do papel professor, grau de dificuldade para trabalhar com
tecnologias digitais após alguns meses de ensino remoto e preparação para o ensino remoto no início da
pandemia e após alguns meses, quando da resposta ao questionário. Os resultados estão no Quadro 1,
onde, para cada item, estão anotados o valor H e o nível de significância. Aqueles com níveis de
significância menor que 0,05 foram destacados com “*”, o que significa que a hipótese nula – as
classificações médias dos grupos são iguais – foi rejeitada. Em outras palavras, isso significa que as
classificações médias apresentaram diferenças significativas estatisticamente entre os três grupos. É
notável que para quase todos os itens listados no Quadro 1 essa hipótese nula foi rejeitada, mostrando
indícios, portanto, da importância da saúde mental para as atividades laborais desenvolvidas pelo
professor, para o seu processo de aprendizagem da docência ou, de um modo mais amplo, para o seu
desenvolvimento profissional.
Quadro 1: Resultados do teste de Kruskal-Wallis para os diferentes grupos de estado de saúde mental
(flourishing, moderado e languishing)
χ2 p-value
Para você, quais os saberes didático-pedagógicos mais utilizados para a
atuação do professor no contexto do ensino remoto?
Legislação educacional 5,810 0,055
Teorias da aprendizagem 2,958 0,228
Teorias pedagógicas 4,638 0,098
Ética (postura profissional) 9,035 0,011*
Conteúdo da disciplina 11,049 0,004*
Mediação da classe 9,671 0,008*
Relações interpessoais 6,678 0,035*
Administração do tempo de aula 6,986 0,030*
Criação de ambiente favorável de aprendizagem 12,340 0,002*
Criação de ambiente inclusivo 6,482 0,039*
Tecnologias digitais 8,369 0,015*
Planejamento 10,392 0,006*
Considerando o contexto de pandemia da covid-19, e os impactos no ensino
presencial, para você, quais fontes sociais de aquisição de saberes docentes
mais utilizados para a atuação com o ensino remoto?
Experiências pessoais, familiares e/ou culturais vivenciadas ao longo da minha vida. 8,720 0,013*
A minha formação não especializada na educação, como na Educação Básica 9,185 0,010*
(Ensinos Fundamental e Médio) e nos cursos profissionalizantes/preparatórios (não
relacionados à docência).
A minha formação especializada na educação, realização em instituição de formação 16,063 0,000*
de professores (curso de magistério e/ou licenciatura), estágios de graduação, cursos
de formação continuada, cursos de pós-graduação (lato e stricto sensu).
Utilização de recursos presentes no meu trabalho: programas, livros didáticos, 22,572 0,000*
cadernos e exercícios, fichas, dentre outros materiais.
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A minha experiência enquanto professor na escola, a prática na sala de aula, a 13,216 0,001*
socialização de conhecimentos já adquiridos entre colegas de profissão, o
relacionamento com estudante, dentre outras
Em caso de dúvidas a respeito da prática educativa em ensino remoto, o
que/quem tem procurado como complemento da formação?
Diálogos e/ou trocas de experiências com colegas de profissão 5,020 0,081
Acesso a conteúdos disponíveis na Internet sobre o assunto sobre o qual tem dúvidas 4,581 0,101
Cursos on-line gratuitos 12,684 0,002*
Cursos on-line pagos 2,539 0,281
Lives 10,104 0,006*
Leituras de livros que dispõe em casa 9,440 0,009*
Aquisição de livros 10,269 0,006*
Apoio da coordenação escolar 14,086 0,001*
Apoio na experiência acumulada ao longo da carreira docente 22,768 0,000*
Considerando o momento atual, para você, qual o papel dos professores(a)
nesse contexto?
Incentivar o engajamento dos estudantes nas discussões a respeito do contexto social 6,487 0,039*
do país.
Potencializar a criação de vínculo com os(as) alunos(as). 14,503 0,001*
Disseminar informações seguras a respeito da pandemia da covid-19. 3,245 0,197
Interagir remotamente com seus alunos. 20,682 0,000*
Levantar discussões de interesse para o público escolar. 13,954 0,001*
Facilitar o acompanhamento das famílias no processo de aprendizagem. 16,311 0,000*
Possibilitar a continuidade aos conteúdos que precisam ser trabalhados. 18,910 0,000*
Estimular nos estudantes autonomia para acompanhar os conteúdos e atividades. 15,124 0,001*
Apoiar psicologicamente os alunos. 17,639 0,000*
Apoiar os estudantes a encontrar um sentido na vida, no momento que vivemos. 12,703 0,002
Você se sentiu preparado, no início da pandemia do covid-19, em março do 1,921 0,383
ano 2020, para a atuação no ensino remoto?
Você tem se sentido preparado nesse momento, após alguns meses de 13,155 0,001*
experiência, para a atuação no ensino remoto?
Na sua opinião, após esse período de ensino remoto, como considera 10,071 0,007*
trabalhar com tecnologias digitais?
Quando questionados se contam com algum suporte profissional para lidar com a saúde
mental, 50% dos professores expressaram que não. Outros 22% indicaram que a escola e/ou Secretaria
de Educação criou canais de escuta e acolhimento, 13% indicaram que a instituição de ensino e/ou
Secretaria de Educação ofertaram tratamento psicológico, a 4% foi disponibilizado tratamento
psiquiátrico e psicológico e, finalmente, 11% emitiram opiniões diversas como menções a lives e palestras
sobre saúde mental.
Os subfatores do MHC-SF apresentaram uma correlação positiva forte entre si: bem-estar
emocional e bem-estar psicológico (r = 0,53), bem-estar emocional e bem-estar sociológico (r = 0,64), e,
por fim, bem-estar psicológico e bem-estar social (r = 0,62). Essa correlação demonstra uma
interdependência entre os subfatores. Já no MLQ foi encontrada uma correlação negativa fraca entre os
subfatores busca de sentido e presença de sentido (r = -0,14).
Finalmente, foi constatada uma correlação positiva forte entre a presença de sentido e as três
subescalas do MHC-SF: bem-estar emocional (r = 0,52), bem-estar social (r = 0,51), e bem-psicológico
(r = 0,56). Também foi encontrada uma correlação negativa fraca entre busca de sentido e a subescala de
bem-estar emocional (r = -0,14).
DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Condições de trabalho
(2020), em que professores, estudantes e familiares demostraram em suas narrativas a importância desse
elemento no processo de ensino mediado pelas tecnologias.
Nesse contexto, é importante destacar que a interação pressupõe uma interatividade, um
modo de comunicação através da Internet entre emissor e receptor, marcada por: “a) participação-
intervenção: participar não é apenas responder «sim» ou «não» ou escolher uma opção dada, supõe
interferir no conteúdo da informação ou modificar a mensagem; b) bidirecionalidade-hibridação: a
comunicação é produção conjunta da emissão e da recepção, é co-criação, os dois polos codificam e
decodificam; c) permutabilidade-potencialidade: a comunicação supõe múltiplas redes articulatórias de
conexões e liberdade de trocas, associações e significações” (Santos & Silva, 2009, p. 271). Se perder esse
caráter fundamental na comunicação on-line, corre-se o risco de se ter uma comunicação unidirecional,
pautada na lógica da transmissão, característica dos meios de massa e da pedagógica bancária (Freire,
1987). Educação não é uma indústria de entrega de conteúdo, mas um processo de formação e
desenvolvimento com — e por meio de — conhecimento e consciência. Santos (2020) pontua que o
ensino remoto, mesmo com inúmeras dificuldades e limitações, possibilitou encontros afetuosos e a
criação de espaços e rotinas de estudos em um contexto tão desafiador. Porém, é fundamental deixar
claro que a interação no ensino remoto se tratou de uma estratégia paliativa que não substitui ou exclui o
valor e a potência do encontro presencial, sobretudo no contexto escolar.
Além da interação, sobressaiu como um dos principais papeis do docente no ensino remoto,
segundo os professores participantes da pesquisa, a promoção da autonomia do estudante. Paulo Freire
(2019) já assegurava o respeito à autonomia do estudante como um saber indispensável à prática docente,
contudo, no ensino remoto, foi preciso promover ainda mais essa autonomia. As mudanças abruptas na
rotina do estudante requiseram destes o desenvolvimento de novas habilidades como estabelecimento de
rotina de estudos, disciplina e organização, competências estas que se desenvolvem quando o estudante
tem uma postura autônoma frente à construção do conhecimento. A autonomia também está ligada à
constituição de um indivíduo ativo e crítico, atitude muito relevante e necessária, principalmente, no
contexto pandêmico marcado pela disposição de inúmeras notícias muitas vezes falsas e distorcidas, que
o aluno precisou ter autonomia para tecer seus próprios pontos de vista e buscar informações sérias e
alicerçadas na Ciência.
Ainda sobre o papel do professor, chamou atenção que a continuidade dos conteúdos
curriculares aparece em quinto lugar em meio a outras tarefas emergentes do ofício de ser professor na
pandemia. Ou seja, na percepção dos professores consultados, o conteúdo curricular não teve um
destaque central nesse cenário, de maneira que o aprendizado pareceu ganhar contornos mais amplos,
envolvendo e/ou intensificando aspectos afetivos, psicológicos, sociais e existenciais também necessários
para o enfrentamento conjunto da pandemia. Não é apenas aprender conteúdos técnico-curriculares ou
estratégias para sobreviver, mas aprender criticamente conteúdos vinculados à realidade e à estratégias
para viver bem, viver com saúde, viver uma vida significativa.
Outro dado que se pôde ressaltar na investigação é a pertinência dos saberes docentes para
a prática do professor no ensino remoto. O domínio dos saberes didático-pedagógicos, conforme D’Àvila
e Ferreira (2019), é um elemento fundante para a consolidação da competência profissional docente, mas
não podem ser considerados sinônimos, pois o saber pedagógico é mais amplo e oriundo da formação
docente, das correntes teóricas da educação, dos programas escolares, da concepção de ensino, das
experiências ao longo da carreira docente, enquanto o saber didático é orientado para o ensino,
relacionados à organização do processo de ensino-aprendizagem de modo mais prático e advém das
experiências na sala de aula e da relação professor-aluno. Dentre os saberes mais relevantes para os
docentes, no contexto de ensino remoto, sobressaiu-se os didáticos. Tais saberes são responsáveis pela
organização e execução do fazer docente, instrumentalizado por habilidades próprias na mediação da
disciplina e da classe. A partir dessa informação pode-se conjecturar que para os professores foram mais
pertinentes, nesse momento, os saberes que subsidiaram o ensino, como mobilização de tecnologias
digitais, administração do tempo da aula, planejamento de ensino e criação de ambientes inclusivos e
favoráveis à aprendizagem.
O saber didático mais relevante, segundo os participantes da pesquisa, foi o planejamento de
ensino, que, segundo D’Àvila e Ferreira (2019), se desdobra em saberes específicos como organizar e
elaborar conteúdos, objetivos de ensino e aprendizagem, selecionar metodologias e recursos didáticos
Toda essa demanda profissional do ensino remoto exposta até aqui, naturalmente, requer
formação adequada dos professores. Nesse sentido, os dados apresentados por esta investigação
revelaram que quase a totalidade dos professores buscaram, por iniciativa própria, algum tipo de
formação que proporcionasse e/ou complementasse o desenvolvimento de competências para a
utilização das tecnologias no processo de ensino-aprendizagem. Resultados de uma consulta junto a
professores brasileiros, apresentados pelo Gestrado (2020), condizem com esse quadro, dado que 41,8%
dos participantes de tal estudo buscaram formação por conta própria já que as redes de ensino e/ou
escola não ofertaram nenhum tipo de formação e 21% tiveram acesso, apenas, a tutorial on-line com
informações sobre como utilizar as ferramentas virtuais. Uma pesquisa junto a professores de Portugal
mostra que, apesar da totalidade dos entrevistados terem recebido formação, 34,9% a consideraram
insuficiente e 29,4% não se posicionaram. A ausência de formação adequada também foi considerada
para 30,6% dos professores como a principal dificuldade nesse contexto pandêmico (Flores et al., 2020).
Ainda relacionado às questões formativas para o ensino remoto, é notório que nenhum curso
e/ou capacitação ofereceu arcabouço teórico e metodológico capaz de suprir todas as demandas e
dificuldades erguidas em um contexto de singularidades e imprevisibilidades como esse. Assim, diante
dessas dúvidas não sanadas pelas formações, uma das principais estratégias dos professores para atenuá-
las, dentre outras possibilidades, com base nos dados do estudo aqui apresentados, foi estabelecer
discussões e trocas de experiências com os colegas de profissão. Na investigação com docentes
portugueses também sobreleva-se que 71,8% dos participantes do estudo recorreram, primeiramente, aos
colegas professores para atenuar as dificuldades encontradas durante o ensino remoto (Flores et al., 2020).
Essa atitude favorece o trabalho coletivo e colaborativo entre os docentes, tornando-se pertinente nesse
quadro atual no qual os profissionais da educação estavam aprendendo, adaptando-se e criando novas
maneiras de promover a aprendizagem do estudante. Dessa maneira, o tirocínio e o desenvolvimento
docente acontecem, também na colaboração entre pares, pois o professor se constitui por meio das
interações entre colegas no dia a dia da profissão, das experiências adquiridas e compartilhadas nas
situações reais a de ensino, dentre outras maneiras.
É notável, portanto, que os docentes recorreram a diversos mecanismos com o objetivo de
desenvolver novas aprendizagens e melhorar a qualidade do ensino. Nesse sentido, Nóvoa (2020, p. 10)
declara que “as capacidades de iniciativa, de experimentação e de inovação manifestadas durante a
pandemia devem ser alargadas e aprofundadas no futuro, como parte de uma nova afirmação profissional
dos professores”. No entanto, essa busca por melhores condições de formação não deve ser apenas
iniciativa de professores, pois as escolas e as redes de ensino também têm a responsabilidade de ofertar
formações que atendam às peculiaridades da realidade na qual esses docentes estão inseridos, sobretudo
no processo de ensino mediado por tecnologias, uma vez que ensinar remotamente não é a mera
transposição do ensino presencial para uma plataforma digital, tais formações não podem estar pautadas
apenas na preparação para o manuseio de ferramentas tecnológicas.
A necessidade e realização de autoformação e de formação promovida pelas instituições
educativas de forma individual ou coletiva pode estar atrelada ao aumento da carga de trabalho apontada
pelos professores consultados. O tempo dedicado à (auto)formação, e ao estudo decorrente dessa,
certamente gerou mais horas de trabalho na rotina docente, dada a necessidade de suprir a falta de
conhecimento e experiência a respeito do uso das tecnologias digitais no processo de ensino, e, também,
de metodologias que contribuíssem ou facilitassem o desenvolvimento da aprendizagem do estudante no
ambiente remoto. É fundamental ressaltar aqui que a relevância das tecnologias digitais nesse cenário não
deve levar o professor a ser um mero consumidor de conteúdos, senão um produtor de conteúdos digitais
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situados e adaptados à sua realidade. Esse contexto traz à tona as discussões a respeito da necessidade de
repensar a formação de professores, pois as mudanças educacionais acarretadas pela pandemia
demandam e demandarão um perfil profissional, como já preconizava Libâneo (2011), capaz de aprender
a aprender e com domínio da linguagem informacional e habilidades para articular as mídias digitais com
o processo de ensino. É importante ressaltar que o ensino remoto teve um caráter emergencial e esse
repensar a formação de professores deve ser pautado no ensino presencial, mas que poderá trazer
heranças tecnológicas da pandemia.
Em tese, é possível conjecturar que o uso mais intenso das tecnologias no quadro
educacional, devido à suspensão das aulas presenciais poderá oportunizar, no cenário pós-pandemia, a
criação de novos modos mais efetivos, interativos e participativos de aprendizagem, capazes de
proporcionar maior autonomia do estudante frente à construção do seu conhecimento. No entanto, para
isso é preciso investir na formação docente, pois conforme o quadro apresentado nesta pesquisa, mesmo
após alguns meses de trabalho remoto, o manuseio e a utilização das tecnologias para fins educativos
ainda é um desafio para uma parcela dos professores, principalmente para aqueles que lecionam nas redes
públicas estaduais. Já para professores das redes particulares lidar com tais ferramentas foi menos
desafiador, pois, mesmo antes da pandemia, as tecnologias já estavam, de alguma forma, presentes em
seu cotidiano escolar. Como demostra a pesquisa TIC-Educação/2019 (CGI, 2020), as escolas
particulares utilizam mais recursos de comunicação como blogs, ambientes virtuais de aprendizagens e
páginas nas redes sociais, em comparação com as da rede pública. Todavia, vale ressaltar que a migração
do presencial para o remoto tem demonstrado ser uma tarefa complexa e muitas vezes sofrida, o que
implica necessidade de formação e apoio institucional independentemente da rede de ensino. Uma
pesquisa com professores da Alemanha sinalizou que a capacitação dos professores para o uso das
tecnologias, oferta de formação docente relativas ao ensino e aprendizagem digital e a construção de
conhecimentos pedagógicos concernentes ao mundo digital são fatores potenciais para o docente ter
condições de responder aos desafios que a situação educacional na pandemia impõe (König et al., 2020).
Ao analisar as fontes de saberes docentes, sobreleva-se ainda a experiência docente adquirida
na prática na sala de aula, além das experiências pessoais, familiares e/ou culturais praticadas ao longo da
vida como as mais significativas para os participantes da pesquisa (Tardif, 2014). Desse modo, pode-se
presumir que o saber experiencial, aquele construído e mobilizado nas interações entre os docentes e
outros agentes escolares, baseado no trabalho cotidiano e no conhecimento do meio foi basilar para a
atuação docente no ensino remoto. Corroborando essa discussão, os dados desta pesquisa também
mostram que a ausência de experiência prévia com a modalidade remota fez com que os professores se
sentissem menos preparados já que nunca tinham vivenciado tal realidade, e passaram a se sentir mais
preparados após alguns meses de trabalho remoto e uma maior familiaridade com o manuseio da
tecnologia. A prática exerce forte influência na aprendizagem docente, pois tornar-se professor é um
processo contínuo, que exige formação especializada, e é marcado pelas vivências pessoais, profissionais
e sociais, contextualizadas no local de trabalho, ou seja, a escola, mas que nesse momento assume
fisicamente os espaços improvisados dos lares de professores e estudantes. Por isso, a experiência
vivenciada pelos docentes no ambiente de ensino remoto possibilitou a constituição de novos
conhecimentos e habilidades profissionais.
Em vista disso, a experiência nessa modalidade de ensino pode ser considerada um elemento
de autoformação, mas para isso ela precisa estar embasada em uma reflexão crítica, de maneira a não se
tornar uma reiteração de achismos e crenças individuais (García, 2009). Nesse sentido, surge, em
concordância ao que já é defendido por Imbernón (2011), a necessidade de criar espaços de participação
e reflexão coletiva, pois, a partir daí, é possível desenvolver alternativas para o enfrentamento dos desafios
impostos à prática educativa, construir novos caminhos para a atuação docente, sobretudo no contexto
pandêmico. Nessa perspectiva, Darling-Hammond e Hyler (2020) indicam a criação de espaço/tempo
para o compartilhamento de práticas exitosas entre os docentes, como ação imprescindível para a
qualidade do ensino na pandemia e pós-pandemia. Ainda em conformidade com os autores, é possível
afirmar que um dos resultados inesperados da pandemia na profissão docente é a maior consideração
sobre fortalecer a aprendizagem do professor em todo o contínuo profissional, e não apenas na formação
inicial.
A saúde mental tem se apresentado como um grande desafio dessa pandemia. Inúmeras
pesquisas já têm apontado os efeitos na população em geral, como aumento nos índices de ansiedade,
depressão e estresse excessivo em diferentes países (Cooke et al., 2020; Vindegaard & Benros, 2020;
Xiong et al., 2020). Ainda são poucos os estudos especificamente com professores, mas os existentes têm
demonstrado a presença de problemas emocionais (Aperribai et al., 2020) e ansiedade, além de outros
fatores (Ozamiz-Etxebarria et al., 2021, Stachteas & Stachteas, 2020). Na presente pesquisa, os dados
sobre saúde mental revelaram o quanto esta impacta diretamente no desenvolvimento profissional do
professor, incluindo aí o processo de aprendizagem da docência durante o período pandêmico. Aqueles
com melhor (pior) saúde mental estavam associados a estar mais (menos) preparados para atuar no
período de ensino remoto emergencial, identificar tal período como oportunidade de novas
aprendizagens (desconfortável), buscar mais (menos) recursos e pessoas para incrementar a sua formação,
valorizar mais (menos) suas experiências profissionais, demonstrar mais (menos) facilidade no manejo de
tecnologias digitais, sentir-se mais (menos) preparado para atuação no ensino remoto e perceber como
mais (menos) relevante o seu papel, a sua atuação e os saberes didático-pedagógicos mobilizados. Isso
corrobora a afirmação de Corey Keyes (2007), autor da escala de MHC-SF utilizada nesse trabalho, de
que adultos saudáveis mentalmente (flourishing) apresentam um funcionamento psicossocial melhor do
que adultos com saúde mental moderada, que por sua vez funcionavam melhor do que adultos em estado
de languishing.
Ainda foi observada a correlação entre presença de sentido na vida e bem-estar emocional,
psicológico e sociológico. Com efeito, esse achado corrobora inúmeras pesquisas que têm associado a
presença de sentido na vida com atitudes mais saudáveis e maior bem-estar (Glaw, Kable, Hazelton, &
Inder, 2017; Steger, 2017; Steger, Fitch-Martin, Donnelly & Rickard, 2014). Esse sentido na vida pode
ser compreendido como uma tarefa pessoal e significativa a ser realizada no momento vivido no espaço-
tempo do aqui e agora. Para Viktor Frankl (2008, p. 129-130), pioneiro no estudo do sentido na vida, “a
saúde mental está baseada em certo grau de tensão, tensão entre aquilo que já se alcançou e aquilo que
ainda se deveria alcançar, ou o hiato entre o que se é e o que se deveria vir a ser. Essa tensão é inerente
ao ser humano e por isso indispensável ao bem-estar mental”. Portanto, ser saudável mentalmente é estar
tensionado por uma tarefa pessoal e significativa a ser cumprida, tarefa essa apreendida pela consciência.
Nesta esteira, a literatura sobre resiliência docente reconhece o quanto o trabalho docente é
motivado por valores morais profundos, reforçando a relevância do sentido da vida, do posicionamento
existencial do professor. Porém, ela também destaca a importância da responsabilidade de escolas e
governos a garantia de lideranças de alta qualidade, condições de trabalhos apropriadas, fornecimento de
infraestrutura e materiais físicos, além de outros recursos (Gu, 2018). Esses aspectos foram cruciais na
pandemia, como se pode notar a partir dos dados levantados e discutidos nesta pesquisa, mas eles
permanecem sendo fundamentais no trabalho docente em qualquer época. Ademais, é preciso investir
em outros fatores de proteção para a saúde e resiliência docentes como rede de suporte, pedido de ajuda,
habilidade de resolução de problemas, reflexão, estabelecimento de limites, entre tantos outros
(Mansfield, 2020; Wosnitza et al., 2018). A pesquisa sobre estratégias para promoção de saúde docente
na pandemia é escassa, mas pode-se encontrar, por exemplo, o efeito positivo de atividade física
(Aperribai et al., 2020) e mindfulness (Matiz et al., 2020) para mitigar alguns dos efeitos negativos desse
contexto. Sintetizando, é preciso um olhar integral para o ser humano, em suas diferentes dimensões,
como defendido pelo próprio Frankl (2008), de modo que possam ser propostas políticas e estratégias
para a promoção da saúde física, psíquica, social e existencial do professor.
Limitações
A pesquisa aqui sistematizada apresenta limitações no que se refere à amostragem. Por ser
uma abordagem não-probabilística pode-se afirmar que os resultados não são passíveis de generalizações,
embora muitos achados sejam compatíveis com resultados de outros estudos nacionais e internacionais.
Outra limitação se refere ao universo pequeno de participantes da rede privada. Apesar do conato com
professores e entidades dessa rede, a baixa adesão nos leva a considerar as hipóteses de receio da
exposição de detalhes do trabalho desse público perante a escola, apesar dos acordos de
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confidencialidade, e da sobrecarga de trabalho desses docentes, haja vista que as redes privadas, em sua
maioria, iniciaram o trabalho remoto logo em seguida à suspensão das aulas presenciais. O presente
trabalho também retrata apenas uma cena dentre várias presentes no enredo do cenário pandêmico
educacional brasileiro. Assim, é preciso continuar monitorando a atuação docente e tudo que a permeia
durante o ensino remoto e durante o retorno presencial das aulas, inclusive quando da modalidade
híbrida, mesclando atividades presenciais e não presenciais.
Contudo, tem-se aqui um delineamento, ainda que pontual, da atuação no ensino remoto,
revelando aspectos importantes das condições de trabalho, aprendizagem da docência e saúde mental do
professor nesse momento educacional atravessado por desafios e incertezas. Ante às reflexões aqui
apresentadas demonstra-se a necessidade de ampliar o olhar para o trabalho do professor no contexto
pandêmico e pós-pandêmico, com o objetivo de tornar mais claros os efeitos do ensino remoto
emergencial no desenvolvimento profissional docente. A realização de pesquisa com métodos
qualitativos ou mistos podem ser uma estratégia significativa para aprofundar as percepções docentes
acerca do seu desenvolvimento profissional.
Considerações finais
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Submetido: 11/02/2022
Aprovado: 09/01/2023