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Transformações de Lorentz e Relatividade

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Marcelo Costa de Lima

Nota 1

A translação-xx′ de Lorentz.
Sejam O e O′ dois observadores inerciais em movimento relativo, cuja velocidade tem magnitude v
(v < c). O movimento relativo define um eixo comum a ambos, o qual pode ser tomado como x, por O, e
x′ por O′ , por convenção. Sendo o plano transversal ao eixo de movimento relativo um lugar bem definido,
por ambos, e sendo o espaço isotrópico em torno deste eixo, podem O e O′ , também por convenção,
escolherem as direções y e y ′ como coincidentes. O mesmo para z e z ′ . Assim, um ponto que O
identifica como pertencente ao plano xy é um ponto que O′ identifica como pertencente ao plano x′ y ′ , e
assim por diante. Também por convenção O e O′ podem admitir que o instante inicial de seus relógios
correspondem ao momento em que as origens de seus sistemas de referência coincidem. Isto significa que
um evento identificado por O como t = x = y = z = 0 é, igualmente, identificado por O′ como
t′ = x′ = y ′ = z ′ = 0, e vice-versa. Ilustramos a situação na Figura (1).

01_boost_x.jpg

Figura 1: Deslocamento de O′ relativamente à O, sobre o eixo comum xx′ .

A invariância da velocidade da luz nos impõe a relatividade da simultaneidade e portanto um evento


simultâneo àquele ocorrido em t = 0 para O, porém em outra posição (x ̸= 0), já não mais será identificado
como ocorrendo em t′ = 0 para O. Devemos então considerar que as transformações de Galileu,




t′ = t,

 x′


= x− vt ,
(1)


 y′ = y,


 z′

= z,
correspondentes a esta situação de movimento relativo, não mais representam o “dicionário” por meio do
qual fazemos corresponder as medidas de O′ às de O, para o mesmo evento. Uma generalização mı́nima,
que incorpora a possibilidade da relatividade da simultaneidade, poderia ser
t′


 = at + bx
 x′

= αt + γ x
(2)

 y′ = y
 ′

z = z,
sendo {a, b, α, γ} parâmetros a determinar. As primeiras restrições que vamos impor visam garantir a
reciprocidade do movimento relativo entre O e O′ , a saber:

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ˆ O ponto x′ = 0, para O′ , corresponde ao ponto x = vt, para O, o que implica em α = −v γ.

ˆ Reciprocamente, ao ponto x = 0, para O, corresponde x′ = −vt′ , para O′ , o que implica em a = γ.

Limitamo-nos assim à forma,


t′


 = γ t + bx
 x′

= γ (−vt + x)
(3)

 y′ = y
 ′

z = z,
restando os coeficientes {b, γ} a determinar.
Vamos agora impor a invariância da velocidade da luz. Para O, a frente de onda esférica da luz,
propagando-se através do espaço poderá ser descrita como o lugar geométrico no qual,

c2 ∆t2 = ∆x2 + ∆y 2 + ∆z 2 . (4)

No sistema de referencia de O′ , esta mesma frente de onda é caracterizada pela equação

c2 ∆t′2 = ∆x′2 + ∆y ′2 + ∆z ′2 . (5)

Substituindo então as relações (3) na equação acima teremos,

c2 (γ∆t + b∆x)2 = γ 2 (∆x − v∆t)2 + ∆y 2 + ∆z 2 .

Colecionado os termos em ∆t2 , ∆x2 e ∆t∆x, virá,


!
2 2 v2    
c γ 1− 2 ∆t2 = γ 2 − c2 b2 ∆x2 − 2γ bc2 + v γ ∆t∆x + ∆y 2 + ∆z 2 .
c

Comparando a equação acima com (4) vemos que o termo cruzado não pode existir, o que nos leva a fixar
v
b = − γ,
c2
restando, ! !
2 2 v2 2 2 v2
c γ 1− 2 ∆t = γ 1− 2 ∆x2 + ∆y 2 + ∆z 2 .
c c
Por fim, fixamos que
!−1/2
v2
γ = γ(v) = 1− 2 , (6)
c
no que resultará (4) como deve ser. A transformação procurada será então,

t′ γ(v) t − v/c2 x ,




=

 ′


x = γ(v) ( x − v t) ,
(7)


 y′ = y,


 z′

= z.

Esta é a transformação de Lorentz para uma translação uniforme, com velocidade v, ao longo do eixo

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comum xx′ . Um dicionário pelo qual dadas as medidas de posição e tempo, conforme atribuı́dos por O
aos eventos, calculamos as correspondentes medidas de O′ relativas aos mesmos eventos. A transformação
inversa é aquela que aplicada sobre a primeira produz a transformação identidade. Deixamos ao leitor a
tarefa de mostrar que a inversa de (7) é:

γ(v) t′ + v/c2 x′ ,




t =

γ(v) ( x′ + v t′ ) ,


 x =
(8)


 y = y′ ,


z′ .

 z =

Note que a transformação inversa nada mais é do que o resultado de fazermos v → −v, permutando as
variáveis “com linha”e “sem linha” em (7). Isto é de se esperar?
As transformações (7) juntamente com sua inversa (8) atendem aos dois requisitos desejados:

ˆ Tem como limite as trasformações de Galileu correspondentes, (1), sempre que v << c.

ˆ Asseguram a invariância da velocidade da luz, sob mudança de referenciais.

Exploremos então algumas caracterı́sticas notáveis associadas à translação-xx′ de Lorentz.

A relatividade da simultaneidade
Como primeira ilustração de (7) vamos encontrar a expressão quantitativa da relatividade da simulta-
neidade. Consideremos dois eventos A e B, que tenham ocorrido nas posições xA e xB com

xB > xA ,

conforme medidas feitas no sistema de referência de O, e simultâneos neste referencial, isto é,

tB = tA ,

de acordo com os relógios deste referencial. Para O′ os mesmos dois eventos ocorreram em momentos
diferentes, sendo,
v v
   
′ ′
tB = γ tB − 2 xB , tA = γ t A − 2 xA ,
c c
em conformidade com (7). O intervalo de tempo transcorrido entre os eventos A e B para O′ será, então,
v
∆t′BA = t′B − t′A = γ (tB − tA ) − γ (xB − xA ) ,
c2
ou, posto que tB = tA ,
v
∆t′BA = − γ (xB − xA ) . (9)
c2
em que γ está definido por (6). Como admitiu-se que xB > xA , vemos que para o observador O′ evento
B precedeu o evento A. É uma situação similar aquela ilustrada qualitativamente na Figura (??).
Note que se xB = xA então também serão simultâneos para O′ , mas veja: neste caso B e A são, na
verdade, o mesmo evento.

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Contração dos comprimentos


Outro resultado notável é a contração dos comprimentos, uma relação surgida mesmo antes da for-
mulação da relatividade especial, a chamada contração de Lorentz-FitzGerald. A contração consiste na
diminuição do comprimento de uma haste rı́gida ideal, quando esta se desloca com velocidade v na direção
definida pelo seu comprimento. Se L0 é o comprimento da haste quando medido com ela em repouso e L
o comprimento medido com a mesma em movimento, então
s
v2
L = L0 1− . (10)
c2
A distinção dos tamanhos tem origem puramente cinemática e, como mostraremos a seguir, decorre nova-
mente da relatividade da simultaneidade. Vamos à demonstração.

Prova: Consideremos a haste está em repouso no referêncial O′ e colocada sobre eixo x′ , de modo que
suas extremidades estejam em x′B e x′A , indiferentemente ao valor de t′ posto que está aı́ em repouso.
Para O′ então
x′B − x′A = L0 .
A mesma haste então passa por O com velocidade v. Para encontrar seu comprimento, O deve medir
as posições das extremidades da barra, xB e xA , em tB = tA , isto é, simultaneamente (ilustramos a
situação na Figura (2)). Para O temos então,

xB − xA = L , t B = tA .

01_contract.jpg

Figura 2: O e O′ medem o comprimento de uma mesma barra rı́gida ideal.

Os dois eventos em questão, A e B, são a medida de xA feita por O em tA , e a medida de xB ,


também feita por ele, em tB = tA . Tomando (8), virá então que

x′B = γ (xB − v tB ) , x′A = γ (xA − v tA ) .

E assim então,
L0 = x′B − x′A = γ (xB − xA ) − v γ (tB − tA ) = γ L
em que usamos tB = tA . Disso provém então (10), c.q.d..

O comprimento L depende crucialmente da medida das duas extremidades da barra em movimento no


mesmo instante, isto é, simultaneamente. Já afirmamos, porém, que a simultaneidade é relativa e, portanto,
é natural esperar que observadores com noções distintas de simultaneidade atribuam comprimentos distintos
ao mesmo objeto, um para cada o grau de movimento relativo. Não devemos chamar L de “aparente”
pois é o resultado de medidas precisas e objetivas proveniente das réguas e relógios de um dado observador
inercial. E a fı́sica é, afinal, uma ciência da medida. Preferimos chamá-lo de impróprio, enquanto que
L0 será chamado próprio. Mas veja, não é apenas um jogo de palavras. O espaço que uma mesma régua
padrão ocupa quando em movimento é menor do que aquele que ela ocupa parada, de fato.

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Dilatação temporal
Outro resultado notável é a chamada dilatação temporal. De acordo com as transformações de
Lorentz, a marcha dos relógios é afetada pelo movimento. E esta marcha é máxima para o relógio em
repouso. Se ∆ T0 é o tempo transcorrido entre dois eventos, medido no relógio que se encontra em repouso,
relativamente ao observador, ∆ T o tempo entre os mesmos dois eventos, medido em um relógio em
movimento, relativamente ao observador, mostra-se que,
∆ T0
∆T = p . (11)
1 − v 2 /c2

O efeito é puramente cinemático. É o tempo que deixou de ter um significado absoluto, independente de
observador, conforme (7) e (8). Vamos à prova.

Prova: O observador O mede os tempos tA e tB , correspondentes às coincidências de posição de um


mesmo relógio de O′ ao passar por dois relógios seus, localizados respectivamente em xA e xB . O tempo
entre os dois eventos será, por definição, o tempo transcorrido em um relógio que se move. Temos
∆T := tB − tA , xB > xA .
Segundo O′ , estes mesmos dois eventos ocorreram nos tempos t′A e t′B , no mesmo relógio em seu referencial,
na mesma posição, pois o seu relógio está em posição fixa segundo suas próprias réguas. O tempo entre os
dois eventos será, da mesma forma, o tempo transcorrido em um relógio parado:
∆T0 := t′B − t′A , x′B = x′A . (12)
De acordo com (8), temos então que,
v ′ v ′
   
tB = γ t′B + x , tA = γ t′A + x ,
c2 B c2 A
donde virá
∆T = tB − tA = γ t′B − t′A + (v/c2 ) γ x′B − x′A = γ ∆T0 ,
 

em que usamos (12). Por (6) decorre então (11) c.q.d.

01_dilat_N.jpg

Figura 3: O e O′ medem o intervalo de tempo entre as coincidências sucessivas das posições de seus relógios, em A e em
B. Discordam quanto ao tempo transcorrido

Na Figura (3) ilustramos a situação tomando-se como primeira coincidência o instante em que relógios
de O e O′ na origem de ambos os sistemas coincidem. Neste caso temos então t′A = tA = 0 (como
ilustrado em (3)-(I)). Na Figura (3)-(II) temos a segunda coincidência, quando então são atribuı́dos os
tempos t′B = ∆T0 , tB = ∆T .
Embora contraintuitivo, a lição que podemos tirar deste resultado é que O deve medir o tempo nos
relógios de seu próprio sistema de referência. O tempo medido em relógios alheios é um tempo impróprio.
Se ainda assim insiste em fazê-lo, terá que corrigı́-lo de acordo com a relação (11). Por “impróprio” po-
derı́amos pretender dizer “aparente”? Não, pois ∆T0 é tão real e objetivo para O′ quanto ∆T é para
O. Cada sistema de referência carrega consigo seu próprio tempo e isto foi estabelecido desde (7) e (8).

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Paradoxo dos gêmeos


O chamado “paradoxo” dos gêmeos consiste numa suposta inconsistência gerada pelo resultado (11).
Como O′ , na Figura (3), pode ser igualmente considerado em repouso, enquanto que O é quem está
em movimento uniforme com velocidade −v, então a mesma relação (11) também é válida quando O′
compara o tempo transcorrido no relógios de O aos seus. Dirá então que são os relógios de O que
sofrem dilatação, não os seus. Isso está correto, e é assegurado pela reciprocidade dos movimentos relativos:
para O são os relógios de O′ os que atrasam, enquanto que para O′ são os relógios de O os que
atrasam. Daı́ o “paradoxo”. Não há, porém, paradoxo pois não estão O e O′ comparando o intervalo de
tempo transcorrido entre os mesmos dois eventos. A medida de O pressupõe dois de seus relógios aferindo
sucessivamente o tempo em um único relógio de O′ . Já a medida de O′ toma dois relógios de O′ aferindo
sucessivamente o tempo em um único relógio de O. As duas dilatações são independentes pois se referem
a eventos distintos.
As dilatações seriam comparáveis se após transcorrido algum tempo em movimento relativo, desde t′ =
t = 0, O′ decidisse desacelerar e unir-se à O na mesma condição inercial deste. Mas então a situação de
movimento relativo já não é recı́proca. Ao desacelerar O′ pode atestar seu estado de movimento e sabe,
portanto, que é ele quem está a caminho de ir viver segundo o tempo de O. Não o contrário. Constatariam
ambos que o tempo de O′ era dilatado com relação ao tempo no qual agora ambos concordam (t). A
situação reversa seria O′ manter-se em seu estado inercial e O acelerar para alcançar O′ e, então,
permanecer no estado inercial deste último. Saberia então que ele próprio estaria em um estado não inercial
transitório, a caminho de ir viver segundo o tempo de O′ . Novamente o movimento relativo não é recı́proco.
Alcançando a condição inercial de O′ , constatariam que o tempo em que O vivera antes era dilatado
comparativamente ao seu novo tempo (t′ ).
Dado um movimento não inercial, as relações que conectam (t̃, x̃, ỹ, z̃), réguas e relógios adaptados ao
sistema de referência comóvel com o observador não inercial, aos (t, x, y, z) do referencial inercial podem
ser estabelecidas. Qualquer que seja ele, sempre poderá ser pensado cinematicamente como uma sucessão de
movimentos uniformes sucedendo-se um ao outro. Dito de outro modo, sempre existirá uma infinidade de
sistemas inerciais cujas velocidades coincidem em módulo direção e sentido com a velocidade instantânea do
observador não inercial, a cada instante. São os Referênciais inerciais Momentaneamente Comóveis
(R.M.C.) com o observador não inercial. As medidas em relógios e réguas inerciais dos observadores mo-
mentaneamente comóveis se confundem às das réguas e relógios do não inercial, a cada instante. Existirão
transformações de Lorentz entre o observador inercial (t, x, y, z) e cada um dos observadores momenta-
neamente comóveis. Apenas as relações diretas do sistema (t̃, x̃, ỹ, z̃) e (t, x, y, z) é que não será uma
transformação de Lorentz. Dependerá da natureza do movimento não inercial em questão.

Velocidades e aceleração sob translação-xx′


Vejamos agora são comparadas as velocidades, de acordo com as transformações de Lorentz (7). Digamos
que O descreve a cinemática de uma partı́cula p, atribuindo-lhe a velocidade,
dx dy dz
 
⃗u = (ux , uy , uz ) = , , ,
dt dt dt

de acordo com suas réguas e relógios próprios, enquanto que O′ atribui à mesma partı́cula a velocidade,

dx′ dy ′ dz ′
   
⃗u ′ = u′x , u′y , u′z = , , ,
dt′ dt′ dt′

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também com as réguas e relógios que lhe são próprios (a situação é ilustrada na figura (4)). Queremos então
saber qual é a relação, ⃗u ′ = ⃗u ′ (⃗u , v).

01_uu_linha.jpg

Figura 4: O e O′ atribuem velocidades à uma mesma partı́cula p.

Calculamos as correspondentes variações de posição e de tempo diferenciando (7). Daı́



dt′ γ dt − v/c2 dx




=




 dx = γ (dx − v dt)
(13)


 dy ′ = dy


 dz ′

= dz .
Assim,
dx′ dt (ux − v)
u′x = ′
== ,
dt dt (1 − ux v/c2 )
donde virá:
ux − v
u′x = .
1 − ux v/c2
Para u′y , teremos,
dy ′ dt dy dt
u′y =

= ′
= uy .
dt dt dt dt′
Da transformação de Lorentz para o tempo vemos que
v v
   

dt = γ dt − 2 ux dt = γ 1 − 2 ux dt ,
c c
donde,
dt 1

= . (14)
dt γ (1 − ux v/c2 )
Assim então
uy
u′y = .
γ (1 − ux v/c2 )
Analogamente, para u′z . Colecionando os resultados, temos que a lei de adição de velocidades relativı́stica é,
ux − v uy uz
u′x = , u′y = , u′z = , (15)
1 − ux v/c2 γ (1 − ux v/c2 ) γ (1 − ux v/c2 )

em que γ está definido em (6). O leitor pode mostrar que as relações inversas de (15) são dadas por,

u′x + v u′y u′z


ux = , uy = , uz = . (16)
1 + u′x v/c2 γ (1 + u′x v/c2 ) γ (1 + u′x v/c2 )

No limite pré-relativı́stico, v/c ≪ 1, as relações (15) se reduzem à,


u′x ≃ ux − v , u′y ≃ uy , u′z ≃ uz , (17)

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que são as expressões para adição de velocidades de Galileu-Newton.


A transformação exata, porém, já não é mais uma simples lei de adição, como o é a adição de vetores
do espaço tridimensional, mas uma lei de composição de velocidades.

Vamos agora supor que a partı́cula p em questão esteja acelerada. Deste modo, O lhe atribui a
aceleração:
dux duy duz
 
⃗a = (ax , ay , az ) = , , ,
dt dt dt
enquanto que O′ atribui,

du′x du′y du′z


!
 

⃗a = a′x , a′y , a′z = , , .
dt′ dt′ dt′

Queremos então encontrar a relação, ⃗a ′ = ⃗a ′ (⃗a , ⃗u, v). De (15), virá:

du′x d ux − v dt
 
a′x = ′
= ,
dt dt 1 − ux v/c2 dt′
ou,
ax (1 − v 2 /c2 ) dt ax dt
a′x = ′
= 2 .
2 2
(1 − ux v/c ) dt γ (1 − ux v/c ) dt′
2 2

Usando então (14) virá, finalmente,


ax
a′x = .
γ 3 (1 − ux v/c2 )3
Para a′y teremos,
du′y 1 d uy dt
 
a′y = ′
= ,
dt γ dt 1 − ux v/c2 dt′
e, novamente, usando (14),
" #
1 (v ax /c2 )
a′y = a y + uy ,
γ 2 (1 − ux v/c2 )2 (1 − ux v/c2 )

e analogamente, para a′z . Colecionando os resultados teremos,

ax
a′x = ,
γ 3 (1 − ux v/c2 )3
1 ax v uy
 
a′y = 2 ay + (1 − u v/c2 ) c2 , (18)
2 2
γ (1 − ux v/c ) x

1 ax v uz
 
a′z = 2 az + (1 − u v/c2 ) c2 ,
2 2
γ (1 − ux v/c ) x

em que γ, está definido em (6).


Destas relações vemos que se a partı́cula não está acelerada para O, não estará para O′ , como deve ser.
Isto é, ambos concordam que se trata de uma partı́cula livre, o que é expressão da lei da inércia. Caso

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contrário, porém, vemos surgir aqui uma potencial dificuldade para a segunda lei de Newton: a perda
da invariância da aceleração.
No limite pré-relativı́stico, v/c ≪ 1, u/c << 1 as relações (18) reduzem-se à

a′x ≃ ax , a′y ≃ ay , a′z ≃ az ,

o que explica o motivo de tais dificuldades não serem evidenciadas pelos fenômenos de nossa experiência
cotidiana.

A invariância do intervalo
Na dedução inicial de (7) admitimos tacitamente que as dimensões transversais ao movimento relativo
não são afetadas e, com esta premissa, obtivemos (7). Poderı́amos suspeitar que esta seja uma condição
demasiado forte. Se em lugar de (7), admitı́ssemos

t′ λ(v) γ t − v/c2 x




=

 ′


x = λ(v) γ ( x − v t)
(19)


 y′ = λ(v) y


 z′

= λ(v) z ,

em que λ(v) é um coeficiente indeterminado, é fácil perceber que, sob (19),


h i
c2 ∆t′2 − ∆x′2 − ∆y ′2 − ∆z ′2 = λ2 (v) c2 ∆t2 − ∆x2 − ∆y 2 − ∆z 2 , (20)

quaisquer que sejam (∆t, ∆x, ∆y, ∆z) e suas correspondentes variáveis “linha”.
Deste modo, se a quantidade entre colchetes à direita for nula (frente de onda da luz, para O), a corres-
pondente quantidade nas variáveis “linha” também o será (frente de onda da luz para O′ ). A invariância da
velocidade da luz estará assegurada, independentemente do valor de λ, isto é, sem a necessidade de impor
a coincidência das dimensões tranversais ao movimento. A única restrição sobre λ no momento, é de que
λ → 1 quando v << c. Mostremos, porém, que λ tem que ser a unidade.
Dados dois eventos (t, x, y, z) e (t + ∆t, x + ∆x, y + ∆y, z + ∆z) quaisquer, vamos associar a eles a
quantidade1
∆s2 := c2 ∆t2 − ∆x2 − ∆y 2 − ∆z 2 , (21)
a qual chamaremos de intervalo de espaço-tempo. Pois bem, a relação (20) pode ser escrita de modo
econômico como
∆s′2 = λ2 (v) ∆s2 .
Se realizamos nova transformação (19), sobre ∆s′2 , porém aquela correspondente a −v, virá

∆s′′2 = λ2 (−v) ∆s′2 = λ2 (−v) λ2 (v) ∆s2 .

Mas isto é o equivalente a fazermos a referida transformação e em seguida aplicarmos a sua inversa. Portanto,
a operação composta é a identidade e devemos ter ∆s′′2 = ∆s2 , ou, de modo equivalente

λ(−v) λ(v) = 1 . (22)


1
O “expoente” dois,em ∆s2 , é introduzido apenas para indicar que o intervalo é uma forma quadrática, não o quadrado de
algo.

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Marcelo Costa de Lima 10

Guardemos isto, por hora.


Consideremos agora que uma barra rı́gida, em repouso no sistema de referência de O, é por ele disposta
sobre o eixo y, com uma de suas extremidades na origem. Digamos que a barra tem um comprimento
unitário conforme as réguas de O, e portanto,

l0 = y = 1 .

Para O′ o comprimento desta barra será,

l′ = y ′ = λ(v) (situação A ) ,

conforme (19). Alternativamente levamos esta mesma barra ao referencial de O′ , e é ele quem agora a dispõe
sobre o eixo y ′ com uma de suas extremidades na origem de seu sistema. O observador O′ então mede
o comprimento da barra nesta nova condição. O princı́pio da relatividade assegura que O′ tem que medir
um comprimento unitário. Caso contrário o comprimento de uma barra em repouso num dado referencial
seria um critério para decidir o estado de movimento do próprio referencial. Assim, para O′ ,

l0′ = y ′ = 1 .

O observador O, por sua vez, é quem agora deverá medir o comprimento da barra ao passar por ele. Medirá
o comprimento,
l = y = λ(−v) (situação B) ,
conforme a transformação inversa de (19). As situações A e B são, contudo, recı́procas. Deste modo, a
quantidade λ(v) da situação A tem que ser numericamente igual a quantidade λ(−v), da situação B.
Assim concluı́mos que,
λ(v) = λ(−v) . (23)
Tomando conjuntamente (22) e (23) temos então que,

λ2 (v) = 1 =⇒ λ(v) = ±1 .

Visto que λ independe, afinal, de v, a escolha do sinal não tem relação alguma com a velocidade relativa.
Devemos entretanto escolher o sinal positivo já que para v = 0 queremos que os eixos e tempos todos
coincidam. Provamos enfim que,
λ(v) = 1 c.q.d. (24)
Nada foi perdido, portanto, ao considerarmos que as dimensões transversas ao movimento relativo não
são afetadas por ele, como em (7). Ressaltamos agora, também, que a referida transformação deixa invariante
não somente a frente de onda da luz, mas o intervalo,

∆s′2 = ∆s2 , (25)

independentemente de ser este um intervalo nulo ou não nulo. Este é, na verdade, um resultado fundamental
da teoria da relatividade especial, que resulta da conjunção dos dois postulados: toda transformação
linear que deixa invariante o intervalo de espaço-tempo é uma transformação de Lorentz.
Em nossas considerações O e O′ concordam quanto ao evento tomado por origem espacial no instante
inicial. Podemos então suprimir o ∆ na equação anterior e também escrever

s′2 = s2 , (26)

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em que,
s2 = c2 t2 − x2 − y 2 − z 2 , s′2 = c2 t′2 − x′2 − y ′2 − z ′2 ,
são os intervalos relativamente à origem (0, 0, 0, 0). Também dois eventos infinitesimalmente próximos no
espaço e no tempo definirão o intervalo de espaço-tempo infinitesimal

ds2 := c2 dt2 − dx2 − dy 2 − dz 2 , (27)

o qual é um invariante de Lorentz,


ds′2 = ds2 . (28)
Adiante vamos explorar de modo mais profundo o significado do intervalo. Por hora, apenas chamamos
atenção ao fato de que na construção da “nova fı́sica” relativı́stica, as quantidades invariantes serão os
alicerces.

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