Educação e Moralidade em Rousseau
Educação e Moralidade em Rousseau
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Filosofia e Educação no Em/fio de
Rousseau: o papel do educador como
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Introdução
apenas uma virtude social, mas a virtude da qual decorrem todas as necessidades aumentam que o sentimento de ligação com os outros seres
virtudes sociais (Rousseau, 1989, p. 75).
2 desperta e provoca O sentimento dos deveres e das preferências. Entra em
Deixemos, porém, o conceito de piedade de lado, por ora, para cena, então, também O amour-propre. Isso ocorre na adolescência e, se
tratar dois outros conceitos centrais e interligados a ele, a saber: amour-
de não for bem-conduzido, tal sentimento poderá levá a tomar-se ciumenta,
-de-soi e amo11r-propre. Rousseau observa que o homem não existe para astuta e revoltada; se, ao contrário, for bem-orientado, abre a per.;pectiva
permanecer sempre na infãncia e que deve sair desta no tempo ordenado da inclusão do outro em seu ponto de vista.
pela natureza. Essa saída é considerada como um segundo nascimento. É Rousseau entende que, se o amor de si se satisfaz à medida que
por meio dela que o homem nasce verdadeiramente para a vida e a partir as necessidades são satisfeitas, o amor próprio nunca está nem poderia
de então nada do que é humano pode se lhe apresentar como estranho. As estar satisfeito ( 1968, IV, p. 237). A seu juízo, é por essa diferença
especificidades dessa etapa demandam prestar atenção ao papel das paixões, existente entre ambos que as paixões temas e afetuosas nascem do
uma vez que elas agora desabrocham e são os principais instrumentos de primeiro e as paixões odientas e irascíveis brotam do segundo. Porém, o
conservação, não podendo ser negligenciadas ou destruídas. É aqui que fato de Rousseau afirmar que tais paixões nasçam do amour-propre não
ganha ênfase o papel do amour-de-soi, a principal das paixões humanas e , deve levar à conclusão apressada de que este último não desempenhe
origem de todas as demais, e sua tensão com o amour-propre.l nenhum papel importante no contexto da formação moral. Ao contrário,
Para Rousseau, o amor de si é a única paixão que nasce com , ele ajuda a criar condições imprescindíveis para tal. O amour-propre
o homem, não o deixa nunca durante sua vida, possui uma conotação aparece e desenvolve-se com a socialização do individuo e traz consigo o
positiva e lev~ o sujeito a buscar o seu bem e o bem dos outros. O autor desenvolvimento de necessidades artificiais. Porém, mesmo tendo como
observa que esse sentimento se manifesta de modo duplo na criança, de características principais o egoísmo e a comparação com os outros, ele
maneira que o primeiro sentimento dela é o de amar a si mesma e o • pode e deve ser transformado por referência à inclusão do outro. Uma
segundo, que deriva do primeiro, é o de amar aos que dela se aproximam. vez que se apresenta desse modo, possibilita ser entendido como um
A criança volta-se naturalmente para o bem por entender que tudo o que sentimento constitutivo da esfera social. Dessa maneira, o amour-propre
se aproxima dela é para assisti-la. Isso gera nela um sentimento favorável vai além do omour-de-soi - e da sensibilidade limitada ao indivíduo
à sua própria espécie. É somente quando suas relações se ampliam e suas -, pois traz consigo uma sociabilidade expandida aos demais seres e
constitui-se como necessário ao desenvolvimento da moralidade.
2. No Segundo Discurso, o conceito de piedade aparece associado ao de amor Esse papel do omour-propre, associado ao processo de socialização e da
de si e possui um sentido natural, próximo à autoconscrvação, não assumindo
ainda conteúdo moral. No Emllió, há uma importante mudança de tal aspccto. moralidade que vem com ela, explicita seu caráter ao mesmo tempo aporético
Nessa obra. o sentimento de piedade despertado cm si mesmo tem origem e fundante para a moralidade, sobretudo ao incluir a perspectiva do outro.
no reconhecimento da precariedade do ser humano. Tal sentimento só pode
Como destaca Dalbosco (2005), em razão da necessidade que o amour-propre
receber conteúdo moral se entendido como decorrente do processo de
socialização humana. Desse modo, a piedade assume valor moral somente possui de sair fora de si mesmo, ele tem de incluir, em sua própria perspcctiva,
quando passa a compreender um conteúdo racional. o amour-de-soi-même. Para tomar-se social, o amour-de-soi-même tem, em
3. Optamos por ler a relação entre esses dois conceitos como uma relação tensa,
como o propõe Dalbosco (200S), e não como relação linear cm que o amour- certo sentido, de transformar-se em amo11r-propre, já que a moralidade se
-áe-soi reuniria qualidades positivas para a formação do caráter e o amour- coloca somente no âmbito deste último. Assim, ao passo que o sujeito é capaz
•propre somente qualidades negativas. de incluir seu semelhante (o outro) em sua perspectiva, o amour-propre tem
152 Á11gelo Vitória Crnc/ A FonnoflJO Moral e o Popel tio [Link] 110 livro IV do Emllio 153
condições de superar o egoísmo e a vaidade que eslilo latentes em seu interior. de seres semelhantes n ele e que sofrem as mesmas dores que é capaz
Se, por um lado, ele se constitui como núcleo originãrio das paixões irascíveis de sentir; ninguém se toma sensível, seNO quando sua Imaginação se anima o
e odientas, por outro, apresenta-se como indispensável para o desenvolvimento começa a transportá-lo para fora de si (1968, rv p. 249). Tomar-se sensível e
da sociabilidade humnna. Enquanto tal, ele expressa piedoso demanda o desabrochar das paixões e da ra7.ão.
a capacidade do indivíduo de sair fora de si mesmo por melo da O exerclcio e o fomento da piedade, como forma de sensibilidade
reflexão e, ao ser permanentemente conrrontado com o amour- nascente, deve ocorrer de forma que proporcione no educando a possibilidade
-de-soi-même, amplia-se, desenvolvendo também a capacidade de expandir-se, de estender-se aos outros seres. Trata-se de socializar-se e de
de transformar o sentimento egoísta de deresa individualista de
Interesses num sentimento universal de deresa da humanidade desenvolver o ponto de vista moral, o aprender a colocar-se no lugar do outro.
(Dalbosco, 2005, p. 74). Com n piedade, são despertados, no educando, os sentimentos de bondade,
humanidade, comiseração, benevolência e todas as paixões que agradam
O amour-propre possibilita, pois, ao educando, enfrentar a situação
naturalmente aos homens e, no mesmo tempo, procura-se impedir que brote
de ter de sair do seu isolamento pelo processo de socialização, mediante
a inveja, a cobiça, o ódio e todas as paixões que tomem a sensibilidade
o qual descobre a maldade e a perversão de sua condição, mas também o
nula ou negativa. A piedade ocupa um lugar central no desenvolvimento
amor à justiça. As paixões são estimuladas pelo desenvolvimento do amor-
da moralidade do educando e Rousseau vai resumir sua esséncia cm três
-próprio, o que leva a enfraquecer cada vez m.µs a piedade natural. Por ,
máximos.4 A primeira é a da solidariedade: há que aprender a colocar-se no
conseguinte, a piedade é um s~nt~IT!~nto que·depende da racionalidade. Ela ••
lugar não dos pessoas mais felizes, mas daquelas dignas de compaixão. A
só possui valor moral quando conrrontada com a capacidade racioNI contida
segunda é a da reciprocidade: o educando deve compreender que a situação
no amour-propre, isto é, com sua maldade e seu egoísmo, mas também com ~
de infortúnio ou sofrimento observada em seus semelhantes hoje pode
capacidade de sair fora de si mesmo (Dalbosco, 2005, p. 87).
facilmente vir a afetá-lo amanhã. A terceira é a do respeito à dignidade
O sentimento de piedade assume feição moral quando o amour- •
humana. A consideração pelo sofrimento do semelhante é o critério para
-propre e seu sentido de comparação com os outros se desenvolve. A
avaliar-se o respeito que se tem por ele. Rousseau insiste, nesse sentido, que
retomada desse conceito no Livro IV do Emílio mostra como o educando
o educador deve ensinar seu educando a amar todos os homens, sem jamais
deve adquirir, em sua adolescência, condições interiores e disposições em
desprezá-los: homem, não desonres o homem (1968, IY. p. 253).
relação a seus semelhantes para viver como homem. A piedade, que no
Discurso sobre a origem e [Link] da desigualdade entre os homens
era ativa até nos animais {1989, p. 74), aparece no Emílio como inativa ou
em estado de latência durante as primeiras etapas de desenvolvimento do A educação moral e as etapas da educação na infância
educando, de modo que é somente agora, com o 'segundo nascimento'
Assim como ocorre com a concepção educativa em sentido amplo,
- caracterizado como a passagem da intãncia para a adolescência - que
delineada no Emílio, a educação moral também está baseada na idade
Rousseau a faz nascer como sentimento com teor moral. Ela é natural à
e no desenvolvimento das faculdades do educando. Isso significa que,
espécie humana, mas inativa na criança. Só na adolescência se atualiza.
A piedade é o prim~iro sentimento que loca o coração humano e, para
tomar-se piedoso e sensível, o educando tem de dar-se conta da existência 4. A formulação de tais máximas 510 encontradas cm (1968, IV, p. 249-51).
Vide a esse respeito também Freitag ( 1992).
154 Ângelo Vitória Ctnci A Fom1açiJo Moral to Papel do Ed11codor no Livro IV do Emílio 155
antes que os sentimentos de amor de si e piedade assumam um sentido disso, pode-se estimulá-la a experimentar a liberdade e a sentir unicamente
moral e que a consciência ecoe suas primeiras vozes, a criança passará a dependência das coisas (Soria, 1998). Faz-se necessário evitar que se
por diferentes fases de seu desenvolvimento educativo. Da pcrspcctiva tome dominadora e tirânica, uma vez que, ao crescer e tomar parte da vida
de Rousseau, há que se levar devidamente cm conta as condições que social, se deparará com as resistências advindas desta. Rousseau destaca
cercam o educando e isso começa pela adequada compree são das que a natureza fez as crianças para serem amadas e cuidadas, não para
especificidades da infãncia cm cada um de seus momentos.
serem obedecidas e temidas ( 1968, li, p. 72).
As fases do desenvolvimento infantil coincidem com a denominada
As crianças não devem ser levadas a fazer as coisas por simples
educação negativa, a qual não consiste em ensinar a virtude ou a verdade, obediência, mas por necessidade. É preciso, pois, distinguir necessidade
mas em preservar o coração do vicio e o espírito do erro (1968, li, p. 80). Ao
de capricho. Não se deve impor à criança uma obrigação que não
voltar-se à primeira infãncia, seu projeto de educação natural toma como compreenda. Essa postura dá origem aos vícios, uma vez que a criança
base, por um lado, as necessidades da criança e, por outro, os cuidados do
é levada a agir não pela razão, mas pela utilidade. Ela irrita-se contra
adulto para com ela. Nessa fase, a moralidade não está desenvolvida, mas
o autoritarismo da simples obediência, método que estimula para que
em preparação. Na primeira etapa da infãncia, as ações da criança não dissimule, minta e esconda seu verdadeiro caráter. Persuadir o educando
apresentam moralidade, uma vez que não dispõe de razão desenvolvida e a obedecer por dever implica associar a essa atitude a coação e as
a consciência está potenciada, mas não atualizada. Desse modo, a criança ameaças. O resultado dessa postura é que, ao impor à criança um dever
não possui condições de distinguir o bem do mal. Porém, mesmo que ela que não sente, o educador a indispõe contra seu próprio autoritarism o.
não assimile nem reconheça a moralidade como tal, ao educador é possível O educando necessita ser tratado de acordo com sua idade e com seu
recorrer a critérios e promover atitudes que incidam sobre a dimensão temperamento particular. A criança deve sentir e perceber desde muito
moral e sua conduta moral posterior. Faz-se necessário, entre outras coisas, cedo o peso das necessidades oriundas da natureza como imposição
evitar mimar a criança, possibilitar algum sofrimento quanto esta sente a desta, não dos caprichos das pessoas. Além disso, os limites colocados
dependência das coisas e evitar a sujeição às suas vontades. Trata-se, em pelo educador não podem ser impostos a ela de modo arbitrário, sem que
suma, de mantê-la no caminho da natureza ( 1968, 1, p. 49).'
ela seja capaz de entend!-los . Porém, tais limites, uma vez estabelecid os,
Na segunda infãncia, o princípio é o de uma educação voltada ao
devem ser cumpridos de maneira irrevogável (1968, li, p. 77).
fortalecimento do corpo e ao refinamento dos sentidos. Nessa fase, a criança
Rousseau destaca, criticando os educadores de sua época, que
adquire consciência de existir. O papel da formação moral é auxiliá-la a
o único meio eficiente para a educação é a liberdade bem-regrad a.'
manter o equilíbrio entre as faculdades e os desejos. Trata-se de ajudá-la
a controlar sua pequena imaginação e a reconhecer sua fraqueza. Além
6. A liberdade bem-regrada distingue-se da liberdade desregrada, cm que hã
ausência de regras e por meio da qual não é possível fundar moral alguma.
S. Rousseau vai fornecer algumas regras para tal: a) permitir-lhe o uso de todas as
Como destaca Dalbosco, esta última "impede ou dificulta, em última
forças que a natureza lhe dá, uma vez que n!o dispõe de forças suficientes para
instância, a sociabilidade humana, uma vez que o agente dá-se o direito de
dar conta de tudo o que a natureza dela solicita; b) ajudá-la a suprir suas carências
fazer o que bem entender. A liberdade moral, por sua vez, consiste na lei
de inteligência, forças e necessidades tisicas; c) limitar-se, no auxílio a ela, ao
que o sujeito agente dá a si mesmo. A passagem da liberdade natural para a
útil, sem excitar a fantasia ou o desejo desprovido de razão; d) distinguir cm seus
liberdade moral exige, portanto, a capacidade auto-legisladora do sujeito( ...)
desejos - mediante um estudo cuidadoso da sua linguagem - os aspectos que
A liberdade bem regrada (liberdade moral) significa, pois, o autodominio de
vêm da natureza daqueles que vêm da opinião (1968, 1, p. 49-S0).
si mesmo" (2008, p. 13S-6).
Ângelo Vitórlo C~nc/ A FormaçtJo Mnra/ e o Papel dn Educador no Livro IV do Em/1/o JS7
156
A condução da criança nessa fase merece atenção especial, jã que esta é negativa. Em razão de prevenir os vícios, sem inculcar virtudes, e de
entendida por ele como o "intervalo mais perigoso da vida humana" por preservar a criança do erro em vez de lhe ensinar a verdade, tal educação
ser o periodo em que germinam os erros e os vícios, sem que se tenha, ainda, visa preparar as faculdades humanas para que se desenvolvam no
algum instnJmento para destrui-los ( 1968, li. p. 79). O método da educação seu devido tempo e pretende auxiliar a superar os obstáculos que se
natural prima por deixar a infãncia amadurecer por intermédio de suas fases. apresentam ao seu processo de amadurecimento pessoal. O risco que pode
Há a necessidade de se respeitar o desenvolvimento biológico e mental da correr - e que a educação negativa procura evitar - é o de que, em razão
criança, mas tendo o cuidado de compreendê-lo com base nas peculiaridades da plasticidade da criança, esta se tome facilmente dependente e objeto
de cada um de seus momentos. O êxito educativo depende da sensibilidade de imposições dos adultos. O educador possui um papel importante nessa
em considerar e conduzir cada criança tendo como apoio tais peculiaridades. fase, qual seja, o de preparar as condições para que, posteriormente, seu
No terceiro periodo da infãncia, a educação moral insere-se ainda educando tenha condições de socializar-se adequadamente e expandir-se
no contexto da educação negativa. Nessa fase, as forças desenvolvem-se de em direção aos seus semelhantes de modo a ter condições de assumir o
modo muito mais rápido que as necessidades e a criança "pode mais do que ponto de vista moral, ou seja, de colocar-se no lugar do outro. Educar não
deseja". É também o tempo dos trabalhos, das insU\Jções e dos estudos (1968. Ili, consiste em instruir ou em repassar preceitos, mas em orientar o processo
p. 173-4). A criança orienta-se em tennos de utilidade, não ainda de moralidade. interno e externo do educando, conduzir seu exercício. Não se trata, pois,
Os aspectos que dizem respeito diretamente à ordem moral e à vida social de deixar que a criança simplesmente aja espontaneamente. Esse é um
não devem ser-lhes ainda apresentados diretamente, wna vez que ela não se princípio válido também para a educação moral.
encontra em condições de entendê-lo. A educação moral nessa etapa consiste, A concepção educativa de Rousseau no que se refere à infãncia
comoobscrvaSoria(l998,p.247),cmpreveniravaidadequepodeserdespertada pode ser vista como um contraponto à educação tradicional que objetivava
com esse maior desenvolvimento da [Link]. Rousseau julga que o esforço do formar o espírito antes da idade adequada para tal e inculcar deveres no lugar
7
educador eleve consistir em afastar do espúito do educando todas as nóções de possibilitar que eles sejam experienciados pelo próprio educando. A
das relações sociais que ainda não estejam a seu alcance. O exercício de sua educação moral na infãncia - que, conforme já foi salientado, possui caráter
própria razão ajudará para que não se deixe levar pela opinião alheia. indireto - não deve estar voltada à inculcação de virtudes, mas à prevenção
Quando o encadeamento dos conhecimentos forçar o educador a dos vícios. Essa noção de prevenção mostra que as virtudes necessárias para
mostrar ao educando a dependência mútua que existe entre os homens, isso a vida social não são adquiridas espontaneamente. Conduzir o educando e
não deve ocorrer pela dimensão moral, mas pelo desvio de sua atenção para prevenir os vícios demanda jã urna postura ativa de sua parte. É claro que
a indústria e as artes mecânicas. Esse aspecto supõe o desenvolvimento falta ainda o advento da sociabilidade e o despertar das paixões e da razão, ou
de algumas noções relacionadas ao direito de propriedade e às relações seja. as condições externas e internas para que seu papel se tome diretamente
humanas que têm origem nela. O trabalho desempenha um importante papel o de educador enquanto educador moral. Isso ocorrerá com o despontar da
como meio de conservação da própria vida. Ele permite a autossuficiência, adolescência
de modo que não se dependa das outras pessoas. O aprendizado de um
trabalho manual, enquanto oficio próximo à natureza, facilita a honradez.
O percurso feito até aqui indica que a educação moral deve ser 7. O conceito de experiência associado à educação moral será tratado na última
entendida na infãncia tendo como base o contexto de uma educação parte deste trabalho.
158 Ângelo l'itório Cenci ,4 Formaçtlo Moral e o Papel do Educador no Livro Ili do Em/lia 159
A educação moral na fase da sexo. Atrasar a consciência da sexualidade traria o ganho de aproveitar
adolescência e o papel do educador 0 sensibilidade nascente para cultivar nele as primeiras sementes da
humanidade. A sensibilidade deve ser alimentada para que esta seja
Depois de concluída a etapa da educação mediante o exercício do guiada em sua tendência natural, propiciando ao adolescente condições
corpo e do refinamento dos sentidos, resta agora aperfeiçoar a orientação para desenvolver a sua capacidade de expansão, de modo que a "força
para o espírito e seu julgamento (a razão). Essa fase é aquela em que se expansiva de seu coração" seja estendida às outras pessoas.
inserirá a educação moral no sentido específico do termo. Trata-se da O educador deverá empenhar-se em afastar tudo o que possa levar
adolescência, na qual ocorre uma espécie de segundo nascimento. Nela à soberba, à vaidade e à inveja. Deverá dedicar-se a voltar a atenção
o educando começa a sentir seu ser moral. Embora possua ainda uma do educando para perceber os seres dignos de compaixão, de modo
inocência primitiva, começa a familiarizar-se com tudo o que diz respeito que sinta medo de experimentar sofrimento similar. Deve propiciar
ao humano. Passa a reconhecer-se não apenas como membro da espécie, que cxperiencie a vaidade apenas para perceber seus efeitos negativos
mas também como pertencente a um sexo ( 1968, IV, p. 233). e aprenda a superá-la. O educador tem de aproveitar-se da dinâmica da
Nessa fase, a educação moral vai assumir um papel positivo. imaginação para suscitar as paixões necessárias no educando, de forma
Agora as modificações no corpo e no espírito despertam a paixão sexual. que a arte de educar se converta num jogo com as paixões (Soria, 1998, p. 249).
O educando passa a dar-se conta das pessoas que estão a sua volta. Suas A educação positiva consiste em levar o educando a aprender a servir
relações não são mais apenas de utilidade, pois começa a germinar a noção aos demais, uma vez que é somente fazendo o bem que se toma bom
das relações humanas como relações sociais. Amplia-se o sentimento e isso ocorre quando se tem cm vista o interesse por seus semelhantes.
de benevolência e surge o afeto pelos outros. O primeiro afeto é o da É o momento também de desenvolver as virtudes cm prol da felicidade
humanidade e ele é dirigido primeiramente a si mesmo e aos mais próximos alheia (altrulsmo). Por outro lado, tem de aprender a conhecer as paixões
e depois a todo ser humano. Sente antes a necessidade da amizade que a humanas, a não deixar-se arrastar por elas nem pelas opiniões dos
atração sexual. Rousseau vai observar que o estudo que convém ao homem homens e a não reconhecer outra autoridade que o governe que não seja
nessa fase é o de suas relações. Se, na infãncia, ele se conhecia somente sua própria razão (1968, IV, p. 291).
pelo seu ser físico - em sua relação com as coisas - agora, ao sentir seu Como a entrada do ser humano na etapa da adolescência acon-
ser moral, deve estudar-se em suas relações com os homens (1968, IY. p. 237). lece com o desabrochar das paixões, as quais vão se desenvolvendo
Em razão da intensidade das paixões, é necessário levar-se em gradativamcntc, estas podem levar o educando a tomar-se resistente à
conta aspectos como controlar a imaginação e evitar maus exemplos. postura do educador.• Por outro lado, as paixões são algo natural, de
Nessa fase, tudo o que cerca o educando estimula sua imaginação. Boa maneira que não é possível impedi-las de nascer e crescer. Elas têm um
parte do êxito da tarefa educativa depende de as paixões serem bem- papel fundamental na conservação humana, são o principal instrumento
-conduzidas. Para regrar e ordenar as paixões nascentes, Rousseau para tal. O educador deve orientar seu disclpulo no que diz respeito a elas,
recomenda que se amplie o espaço em que elas se desenvolvem. Elas não buscar suprimi-las nem negligenciá-las. A questão que se coloca a
precisam de tempo p~ serem ordenadas. Como o primeiro sentimento ele é, pois, como orientar adequadamente as paixões, uma vez que, nessa
que surge no adolescente não é o amor, mas a amizade, deve-se
ensinar-lhe que tem semelhantes e, desse modo, a espécie o afeta antes do
8. A esse respeito vide Esplndola (2007, p. 80).
Ângelo Vitória Ctnci A Formoçào Moro/ r o Popt/ cio Educador no L/v,o IV cio Emlllo 161
160
fase, as relações humanas se ampliam e o educando busca comparar-se estendendo-se para fora dele próprio. Esse desenvolvimento permite que
com seus semelhantes. O modo pelo qual isso acontece é assim descrito adquira sentimentos, que suas ações assumam teor moral e que desenvolva
por Rousseau (1968, IV, p. 265): as noções de bem e mal, as quais farao dele verdadeiramente um homem
e parte de sua espécie. Deve-se aproveitar a sensibilidade nascente para
o primeiro olhar que deita em seus semelhantes leva-o a comparar-
se com eles; e o primeiro sentimento que essa comparação excita jogar no coração do adolescente as primeiras sementes da humanidade ( 1968, IY,
nele é o de deseíar o primeiro lugar. Eis o momento em que o p. 245-6). Rousseau conclui disso ser vantajoso para o educando que sua
amor se uansforma em amor-próprio e em que começam a inocência seja prolongada. O educador deve aproveitar essa sensibilidade
nascer todas as paixões que se prendem a esta.
nascente como aliada da formação moral e isso passa, pois, por retardar
Se o papel do educador é muito mais conduzir que instruir, como sua saída do estado de inocência.
é destacado já no início do Emílio, aqui ele terá a tarefa de orientar o O educador possui, nesse caso, responsabilidade em duplo sentido.
amor-próprio de seu educando. Isso deve ser feito de maneira que este O primeiro é de proteger a criança diante do mundo, sem transformá-la
dedique seus cuidados mais à felicidade dos outros que a de si próprio, cm escrava ou dependente. A educação para a autonomia precisa de uma
desenvolvendo em si os sentimentos de bondade e de humanidade. proteção inicial à criança. Ocorre que o mundo não pode ser mostrado ao
A condução do educador toma-se cada vez mais necessária em educando antes de este conhecer os homens. Se o educador o fizer, estará
razão das modificações que vão acontecendo na vida do agora adolescente. corrompendo o aluno e enganando-o, não o educando.' Rousseau leva
O fato de estabelecer novos relacionamentos e -desenvolver novas neces- cm conta a plasticidade da criança, por isso a necessidade de protegê-
sidades está na base dessas mudanças. Embora o educando se incline la do ambiente social quando este estiver corrompido. Sua educação
naturalmente para o bem, na medida em que suas relações se estendem moral quer superar, ao mesmo tempo, a pedagogia tradicional e uma
e suas necessidades são aumentadas, o sentimento de suas ligações com sociabilidade artificial. Acontece que a criança pode entrar na vida social
os outros desperta e provoca o sentimento dos deveres e das preferências. pelo caminho das virtudes ou dos erros e dos vícios. A educação (moral)
O educador tem, nesse momento, a tarefa de orientá-lo a escolher um é entendida como negativa por ter o papel de impedir o educando de
direcionamento que o afaste dos vícios. Rousseau destaca que podemos entrar em contato com os atos viciados do adulto. Trata-se, cm razão da
orientar todas as paixões das crianças e dos homens para o bem ou para plasticidade e das fragilidades da criança, da necessidade de protegê-
o mal. Como os homens não podem viver sempre sós, é dificil que vivam -la e, ao mesmo tempo, de permitir que suas condições naturais se
sempre bons. A dificuldade de viver assim aumenta com a ampliação das desenvolvam. O impedir é positivo no sentido de criar condições para
relações no mundo do adolescente, as quais fazem que a 3J1e e os cuidados chegar à sociabilidade e à moralidade.
sejam indispensáveis para prevenir a depravação que nasce com as novas O segundo sentido da responsabilidade do educador é o de levar o
necessidades surgidas desse contexto ( 1968, IV, p. 23 7). aluno a aprender a colocar-se no lugar dos outros, a imaginar o que sentem
A essa altura de sua formação o educando necessita uma com- seus semelhantes. Assim, quando o primeiro desenvolvimento dos sentidos
panheira. Porém, Rousseau vê a necessidade de prolongar seu estado acende nele o fogo da imaginação. ele começa a sentir-se em seus semelhantes,
natural, afim de regear as paixões nascentes para que estas tenham a comover-se com suas queixas, a sofrer com suas dores (1968, rv, p. 248).
tempo de se ordenarem e amadurecerem. Há também a necessidade
9. Algo similar será dito, posteriormente, por Hannah Arendt cm seu célebre
de dar atenção à sensibilidade do educando, que agora se desenvolve ensaio A crise na educação (2000).
A Formu(do Moro/ e o Papel da Ed11cador na livro IV do Emílio 163
162 Ângelo Vitória Crnc/
O aprender a colocar-se no lugar dos outros implica levar o educando a ele já havia destacado a necessidade de substituir as lições verbais pelas
não acostumar-se a olhar as desgraças alheias com desdém, a entender lições da experiência: não deis a vosso aluno nenhuma espécie de llção verbal;
que essa situação poderá vir a ser sua e que as vicissitudes da vida só da experiência ele as deve receber (1968, 11, p. 78). Ocorre que o educando
podem vir a alcançá-lo. Ele deve ver e sentir as fraquezas e calamidades só pode conhecer o mundo experimentado-o aos poucos, passo a passo,
humanas, sua imaginação deve ser impactada com os perigos que cercam e examinando-se, isto é, cxperienciando-se. Isso vale tanto para o campo
o homem. Rousseau ( 1968, IV, p. 2S 1) recomenda: que veja ao redor dele da experiência sensorial quanto para a experiência espiritual: este principio
todos esses abismos e que. vos ouvindo descrevê-los, se aproxime de vós com de examinar-se e encontrar-se a si mesmo adquire ainda mals lmponincia à
medo de neles cair. Como observa Espindola, por ter perdido a inocência, medida que se Ingressa na verdadeira esfera da consciência de si, no reino da
o educando pode deixar-se 'personalidade' (Cassirer, 1999, p. 113).
No Livro IV, Rousseau reivindica o primado da experiência sobre
levar pelo instinto cego de seus sentidos [e] ao interferir no
movimento da natureza, o governante produziu o ganho de o palavrório e sobre um saber meramente livresco: não me canso de repeti-
impedir que a Imaginação de Emílio gerasse frutos precoces, -lo: ponde todas as lições aos jovens em ações e não em discursos; que nada
acelerando seus avanços espiritu3is (2007, p. 87).
aprendam nos livros do que a experiência lhes pode ensinar ( 1968, IV. p. 287).
Educar moralmente implica orientar adequadamente as paixões. Esse aspecto vale também em relação ao modo de administrar os erros do
O ardor da idade tende a tomar o adolescente indisciplinado, mas tal educando. Deve-se adverti-lo de seus erros antes que neles cala: cm caindo,
ardor está longe de ser um obstáculo à educação. Rousseau entende que não lhos censureis; s6 serviria para inflamar e revoltar seu amor-próprio. Uma
ele tem um papel central no processo educativo. É sua base e das suas lição que revolta não é proveitosa(1968, IY. p. 281). No âmbito da ação moral,
primeiras afeições advêm os primeiros laços que o unem à sua espécie e a experiência demanda o envolvimento do educando, e é o que possibilita
a própria noção de humanidade: evitar o risco do moralismo. Ela impede que a educação moral resvale
pelo método da inculcação de verdades morais abstratas. A inculcação de
será somente depois de ter cultivado seu ser natural de mil
maneiras, depois de muiw reflexões sobre seus próprios tais verdades deve ser evitada mesmo que, como observa Cassirer (1999,
sentimentos e sobre os que observará nos outros, que poderá p. 118), sej.l feita sob uma forma supostamente apreenslvel pela criança, como,
chegar a generalizar suas noções individuais na ideia abstrata
de humanidade e unir as suas afeições particulares às que pode por exemplo, pela fábula.
identificar com sua espécie ( 1968, IY. p. 262). Toda fonna de conhecimento moral tem como fonte a experiência
própria ou dos outros; no caso, também a do educador. Quando as
experiências forem sem consequências, de modo que não exponham
Aspectos metodológicos relativos o educando a perigos, é bom que as vivencie diretamente. No caso de
à educação moral: o papel da experiência experiências que possam ser perigosas, deve-se tirá-las da história. Esse
método visa levar o educando a observar por ele próprio o que acontece
Rousseau estabelece como um dos princípios centrais de sua
aos homens. O educador vale-se aqui do exame de vidas particulares
concepção educativa o de ela ter de adaptar-se às fases de desenvolvimento
como meta para descobrir o que as paixões produzem seres humanos. O
do educando. Esse mesmo principio ganha destaque na esfera da educação
princípio é o de que só se pode conhecer os homens observando sua ação.
moral e tem como base o conceito de experiência. No Livro II do Emílio,
Na sociedade eles mostram seus discursos, mas ocultam suas ações;
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para sua idade. A atitude a ser esperada dos jovens é assim expressa: DALBOSCO, C. A. Teoria social, antropologia filos6fica e educação natural
cm Rousseau. ln: _ _ _.; FLICKJNGER, H.-G. Educação e maioridade:
devem desconfiar de si, ser circunspectos em sua conduta, dimensões da racionalidade pedagógica. São Paulo: Cortez; Passo Fundo UPF
respeitosos para com as pessoas mais Idosas, s6brios e discretos Editora, 2005.
ao falarem em assunto, modestos nas coisas indiíerentes, mas
ousados em fazerem o bem e corajosos em dizerem a verdade 10. É também da experiência que advé~ a autoridade do educador e~ por ela
( 1968, 1Y. p. 285). que o educando se forma. Sua autoridade precisa estar baseada na confiança
do educando e ela deve assenlar-se na "auloridade dn razão, na superioridade
Para Rousseau, o êxito dessa tarefa depende de seu princípio meto- dos conhecimenlos, nas vantagens que o jovem está em condições de
dológico fundamental: a experiência como mediação da aprendizagem compreender e cuja utilidade senle" ( 1968, IV, p. 280).