Capítulo II
Os meses que se seguiram à explosão foram um mergulho profundo no abismo.
Beirei a loucura absoluta, assombrado pelos flashes daquela batalha. Os raios violetas,
agora cravados em minha carne, ainda explodem em luz contra minhas retinas sempre
que fecho os olhos.
Dormir... eis algo que me foi roubado. O silêncio era algo raro de se ter; sempre um
aspecto, um espírito, que seja, sussurravam suas histórias. No entanto, desenvolvi uma
mente forte, capaz de distinguir, na maioria das vezes, em qual plano eu transito agora.
Apesar do conforto material de minha
casa e da assistência de renomados
curandeiros vindos até dos vilarejos mais
distantes, nada foi capaz de silenciar por
completo a tormenta. Para a minha
família, o verdadeiro horror nem era o
meu colapso mental ou a tortura de ouvir
os mortos; era a vergonha. A desonra de
apresentar à alta sociedade um jovem
prodígio agora maculado, "contaminado"
pela maldição da magia selvagem.
Nunca revelei a verdade sobre a caverna. Aos meus parentes, inventei uma mentira
conveniente: disse que entrei em conflito com um Warlock, cujo mestre me rogou uma
praga final. Foi essa a fábula que me transformou num ser asqueroso aos olhos do clã
onde nasci.
A única real ajuda veio da floresta ao norte.
Uma velha druida, a quem encontro com
frequência, oferece-me breves rituais de
purificação e uma poção translúcida,
destilada de cereais e especiarias botânicas.
Ela chama o líquido de Gin. Tenho bebido
muito dessa mistura; ela atua como um
filtro necessário, um borrão que abafa a voz
dos espíritos. Sempre a recompenso com
moedas, embora precise, muitas vezes,
insistir para que ela aceite as pratas.
Se há algo que nunca desejei foi essa mediunidade, especialmente quando sou obrigado
a ser o ouvinte de histórias de fracassados de caráter duvidoso. Esses dias mesmo,
durante o café da manhã, fui forçado a ouvir um ladrão se gabar de como sua trupe
assaltava aldeias de Orcs menores. Criaturas que só desejam seguir suas vidas
miseráveis na plenitude que seus deuses lhes permitiram, longe do sangue das batalhas.
Meio que sinto uma estranha empatia por esses seres desprezíveis que sonham apenas
com uma vida medíocre, e uma repulsa profunda pelos vermes humanos que desejam
aniquilar essa dádiva. Lembrei-me então do que a velha druida costuma dizer: "Se serei
morto apenas por viver, então espero que a morte seja mais gentil do que os homens."
Levou anos até que eu
conseguisse domar a
intromissão desses
aspectos. Hoje, consigo
escolher as interações que
parecem ser mais
frutíferas. Há um tempo
atrás, por exemplo, o
aspecto de um mago,
outrora muito sábio e
estranhamente familiar,
ensinou-me alguns truques
arcanos em poucos dias.
Ele me ensinou a canalizar
o ar, e fui capaz de varrer
algumas folhas secas no
chão da floresta com uma
rajada tímida de ar.
Entretanto, minha busca permanece: tentando
acessar a deusa dos olhos violetas, para quem
guardo centenas de perguntas. O que hoje poderia
parecer um delírio febril, sei que não foi. A prova
repousa fria contra meu pulso, o bracelete de prata
que mantenho escondido. É o meu espólio, o único
pedaço de realidade que não me permite acreditar
na história fantasiosa que conto aos meus pais, e
que muitas vezes, desejava que fosse a verdade.
Sob a noite da lua crescente, as constelações se destacavam como em um oceano
negro. Algo estava diferente no céu; as estrelas pareciam mais brilhantes do que nunca.
Acho que pela primeira vez consegui ver a conjunção de Tiamat tão nitidamente, com
suas cinco estrelas de cores diferentes
brilhando ao lado do resto da galáxia.
Era como se as próprias cabeças
estivessem soprando a destruição final
do universo. Eu tive uma leve sensação
de que algo épico aconteceria, assim
como anos atrás quando um gato preto
de olhos violeta me chamou para um
passeio.
Voltei para casa, e estava certo.
Do meu quarto, uma aurora vermelha
fraca começou a dançar no céu noturno
apontando para o sul. Entendi o
chamado e de um salto, decidi
abandonar o conforto da
mansão, peguei a bolsa de couro
levando apenas o essencial e o "Gin" da
Druida, caso necessário, para silenciar
os protestos da minha mente.
Andei e andei mais um pouco, seguido
por um único fio serpenteando o céu
acima de mim. Pude notar movimentos
de animais pequenos ao meu redor,
como se estivessem me escoltando para que chegasse seguro. Tive alguns vislumbres
de dois olhos roxos aparecendo por entre as árvores, mas assumi que era coisa da minha
cabeça, talvez efeito do Gin da Druida do Norte. Cheguei a um ponto onde as folhagens
começavam a ficar com pontos avermelhados, como se o fio da aurora se desmanchasse
em uma fina neve caindo sobre a folhagem. Ao adentrar a orla da floresta, a paisagem
se transformou: as árvores pareciam cobertas por escamas de ferrugem e o chão
estalava com metal corroído.
Fui atraído por um som rítmico, energético e hipnótico que vinha de longe, onde se abria
em uma clareira com o calor de uma fogueira, e o cheiro ferroso dava lugar à fumaça de
madeira.
Eu vi então, um elfo bardo dedilhando um alaúde com dedos ligeiros; perto dele, uma
ranger de olhar afiado com um arco, acariciava seus dois gatos, um laranja e um frajola,
que dormitavam aos seus pés.
Continuação em breve