Neurofisiologia da Deglutição Clínica
Neurofisiologia da Deglutição Clínica
NEUROFISIOLOGIA DA DEGLUTIÇÃO
Camila Fussi
Lica Arakawa-Sugueno
Introdução
Fisiologia da deglutição
Os eventos orofaríngeos que ocorrem no processo da deglutição são intima-
mente correlacionados e a separação em fases com base em características
anatômicas e funcionais é didática, e, por facilitar a compreensão,
lizada com essa finalidade. Foi considerada a classificação será uti-
com divisão em
fases antecipatória, oral, faríngea e esofágica.
Fase antecipatoria
A fase antecipatória caracteriza-se por um preparo para o início da deglu-
tição, incluindo o estímulo sensorial (visual e olfativo) para a vontade de
alimentar-se e a salivação.
Participam dessa fase nervos puramente sensitivos (olfatório - I e óptico
- Il), puramente motores (oculomotor - III; troclear - IV e abducente - VI) e
nervos mistos (facial - VII e glossofaringeo - IX).
A saliva é uma solução aquosa, levemente alcalina, de consistência vis-
cosa, que umedece a boca, amolece a comida e contribui para a digestão. As
glândulas salivares são estimuladas pelo sistema nervoso autônomo e pelos
hormônios vasopressina e aldosterona. As glândulas responsáveis por produ-
zir e secretar saliva são encontradas aos pares e são denominadas: parótidas,
sublinguais e submandibulares. As glândulas mais ativas são as submandi-
bulares (responsáveis por 70% da saliva secretada pelo homem) e as menos
ativas as sublinguais.
• Sublinguais e submandibulares: inervadas pelo nervo facial (VII): pro-
duzem a saliva mista (serosa +mucosa).
• Parótidas: inervadas pelo nervo glossofaríngeo (IX): produzem a saliva
aquosa.
NEUROFISIOLOGIA D
A DEGLUTIÇÃO
Fase preparatória
A fase preparatória é voluntária
e sub
meio da interação entre os receptor consciente. O controle dessa fase da-se por
es orais que percebem, qualificam e influem
na determinação das ações, sem que
haja a necessidade de interferir consci
mente na ordenação e potência das est ente-
ruturas envolvidas nessa fase.
Essa fase compreende a preparação do alim
estruturas anatômicas de lábios, língua, ma ento, envolvendo ações das
tre outras. A aferência é oferecida pelos segndíbula, palato e bochechas, den-
uintes pares cranianos: trigêmeo,
facial, glossofaríngeo e vago, e a eferência, pelo trigêmeo, facial, glosso
ríngeo, vago e hipoglosso, descritos de modo detalhad fa-
o nos quadros a seguir.
Na fase preparatória ocorrem as seguintes
subfases:
• captação
• preparo
• qualificação
• organização
A captação consiste na preensão do alimento, na retirada
do alimento
do utensílio, sendo que diferentes utensílios promovem diferentes
musculares, por exemplo, captar um líquido do canudo difere com
ajustes
relação
à captação de líquido no copo. Aescolha do tipo de alim
ento (com relaç
tamanho, volume, consistência) também promove uma resposta difer ão a
ente da
musculatura, por exemplo, captar um pastoso grosso da colher exige maior
força do que a captação de líquido na mesma colher. A abertura de boca
deve
ser maior para a captação de alimento com a colher cheia, se comparado
com
a colher rasa. Quanto maior o utensílio, menor a precisão do ajuste musc
ular
requerido para a função (Quadro 1.2).
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. Músculos, inervação e ações que ocorrem durante a função de
Quadro
preparo®.
O
FASE PREPARATÓRIA - PREPAR
Inervação Função
Grupo muscular Músculo
m
. pterigóideo Trigêmeo (V) Abaixa, protrui e lateraliza a
mm. mastigação mandíbula
lateral r a m o motor
Eleva o osso hioide; abaixa a
mm. s u p r a - m. milo-hióideo Trigêmeo (V)
r a m o motor mandíbula; eleva a língua
hióideos
Trigêmeo (V) Abaixa a mandíbula quan do o
mm. s u p r a - m
. digástrico oss o hioide é esta bili zad o
hióideos (ventre anterior) r a m o motor
o
Abaixa a man díb ula q u a n d o
mm. supra- . gênio-hióideo
m Hipoglosso (XII)
plexo cervical C1 oss o hioide é estabilizado
hióideos
e C2
mm. mímica facial m. platisma Facial (VII) Traciona inferiormente o ângulo
r a m o motor d a boca
Eleva a mandíbula quando se
mm. mastigação m. masseter Trigêmeo (V) fech a a boca
r a m o motor
Fas e ora l
Essa fase também é voluntária e subconsciente e compreende o transporte
do bolo para a faringe. Para que a ejeção oral aconteça ed forma funcional,
espera-se que haja o ajuste da cavidade bucal para mantê-la pressurizada.
Para a manutenção dessa pressão oral, quatro válvulas entram em ação:
• válvula anterior: m. orbicular da boca;
• válvulas laterais: mm. bucinadores;
• válvula posterior: aposição língua-palato mole.
Com as paredes bucais ajustadas, o escape anterior bloqueado pela ação
dos lábios e o escape posterior bloqueado pela ação da língua e do palato
mole, a língua irá gerar pressão propulsiva, direcionando o bolo em direção
à faringe e pressurizando-a. O movimento de ejeção oral (retropropulsão da
língua) vai dar início à fase faríngea da deglutição. Quanto maior a força
de ejeção, maior o número de unidades motoras despolarizadas na faringe
(Quadro 1.4).
Fase faríngea
Há muitas controvérsias relacionadas à fase faríngea, desde a discussão da
existência do reflexo da deglutição até adefinição do momento em que essa
fase se inicia. Adeglutição normal é pesquisada há décadas e as dúvidas per-
sistem devido à ampla variabilidade das manifestações mesmo na deglutição
considerada normal, segura ou funcional.
Em geral, a fase faríngea compreende o fechamento velofaríngeo para
prevenir refluxo de alimento para a região posterior das coanas; ação esfinc-
térica laríngea para prevenir aspiração laringotraqueal; contração dos mús-
culos faríngeos direcionados da região superior para inferior; elevação da
laringe e osso hioide em direção à base da língua'; e aberturada transição
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NEUROFISIOLOGIA D
A Ã
O
ÇIU
T
G
L
D
E
nte a função de
Quadro 14. Músculos, inervação e ações que ocorrem dura
ejeção®.
FASE ORAL - EJEÇÃO
Músculo Inervação Função
Grupo muscular
mm. mimica facial m. orbicular da Facial (VII) Fech a a boca e comp rime os lábios
boca ramo motor qua ndo se contrai firmemente
mm. mimica facial m. bucinador Facial (VII) Puxa lateral e posteriormente o ângulo
ramo motor da boca; encurta a parede lateral datra
ha con
boca, comprimindo a boc hec
os dentes
Quadro 15. Músculos, inervação e ações que ocorrem durante a fase farín-
gea®,17,18,
FASE FARÍNGEA
Grupo muscular Músculo Inervação Função
mm. palato m. tensor do palato Trigêmeo (V) Enrijece e abaixa ligeiramente o
r a m o motor palato mole
m. levantador do Vago (X) Eleva o palato mole e auxilia o
véu palatino s e u contato com p a r e d e posterior
da faringe, fechando a rinofaringe
durante a deglutição
m. da úvula Vago (X) Encurta e alarga a úvula
permitindo adaptação do
palato mole à parede posterior
da faringe, o que auxilia no
fechamento da rinofaringe durante
a deglutição
mm. palato e m. palatofaríngeo Vago (X) Traciona o palato posterior e
da musculatura inferiormente; traciona a
intrínseca da parede posterior da faringe
faringe superior e anteriormente;
auxilia no fechamento d a
rinofaringe
mm. intrínsecos da m. estilofaringeo Glossofaríngeo (IX) Apresenta ação simultânea de
faringe elevar e aumentar o diâmetro da
faringe
m. salpingofaringeo Plexo faríngeo Levanta a nasofaringe e traciona
(reunião das fibras as paredes laterais da faringe
do X e X) para cima
mm. extrínsecos da m. constritor Plexo faringeo Estreita e encurta o órgão
faringe superior da faringe (reunião das fibras
I e X)
do X
m. constritor médio Plexo faríngeo Estreita e eleva a faringe
da faringe (reunião das fibras
do X e X)
m. constritor inferior Plexo faringeo Contrai a região anterior da
da faringe (reunião das fibras faringe
do X
I e X)
mm. extrínsecos m. digástrico Ventre anterior: A ação da parte posterior é
da laringe supra- trigêmeo (V) inclinar lateralmente a cabeça;
hióideo s r a m o motor a ação da parte anterior é abaixar
Ventre posterior: a mandíbula. A contração da parte
facial (VII) anterior e a da parte posterior
r a m o motor juntas elevam o osso hioide
m. estilo-hióideo Facial (VII) Elevar o o s s o h i o i d e e a s
ramo motor e s t r u t u r a s fixas a ele
Quadro 1.5 Músculos, inervação e ações que ocorrem durante a fase farín-
gea$.1718. (Continuação).
FASE FARÍNGEA
opuG
r muscular oluM
csú Inervação Função
mm. extrinsecos m. estero-hidideo Hipoglosso (XII) Abaixa o o s s o hioide
da laringe infra- (C2, C3, C4)
hidideos Abaixa e retrai o osso hio
m. omo-hióideo Hipoglosso (XII) ide
(C2, C3, C4)
m. esterno-tireóideo Hipoglosso (XII) Abaixa a cartilagem tire
oide e a
(C2, C3, C4) laringe e, de maneira indireta, o
osso hioide
m. tíreo-hióideo Hipoglosso (XII) Abaixa o oss o hioide; eleva
a
(C2, C3, C4) cartilagem tireoide e a laringe
mm. intrínsecos da m. cricoaritenóideo Vago (X) Aduz a glote; abaixa, alonga e
laringe lateral ramo recorrente afila as pregas vocais
m. aritenóideo Vago (X) Aduz a glote posterior
transverso ramo recorrente
Fase esofágica
O esôfago conecta a faringe ao estômago. Mede de 18 a 22cm e é divid
em três partes: superior, média e inferior. A zona superior inicia-se
ido
na tran-
sição faringoesofágica, estende-se por 6 a 8cm até a zona média que,
sua vez, apresenta apro por
ximadamente 4cm até o esfíncter esofágico inferior.
Afase esofágica é involuntária. Tem início na passagem do bolo alimentar
pela TFE e termina quando o conteúdo passa pelo esfincter esofágic
o inferior
com duração de 8 a 20 segundos. O s movimentos peristálticos do esôfago são
lentos em relação ao faríngeo (3 a 4cm por segundo) e em condições normais
têm velocidade constante?,19.
Acoordenação da atividade muscular dessa fase
é realizada por um plexo
mioneural inte grado envolvendo o nervo vago.
O esôfago tende a responder a cada deglutição, mas
, durante a ingestão
rápida de líquidos, a atividade esofágica é inibida e som
ente a última deglu-
tição é seguida de cont
ração peristáltica esofágica. Tal fenômeno inibitório é
fundamental na passagem do bolo através
do esôfago?.
xima e retorno para posição inicial, lentidão das ondas peristálticas, aumento
para o tempo de abertura da TFE2, início da fase faríngea com cabeça do bolo
alimentar cruzando em região inferior ao ângulo da mandíbula, aumento de
estase em recessos piriforme", perdas dentárias, sensação de boca seca, mu-
danças neuromusculares e comorbidades associadas26
Quanto à duração da fase faríngea da deglutição, há relatos da literatura
de variação de 0,3 a l1segundo para deglutição de líquidos e pastosos, sem
influência de impacto das mudanças de volume21,27,28. H
á controvérsia entre
a relação desse parâmetro com a idade do indivíduo. Kendall et al. afirmam
não haver diferença entre jovens e idosos, enquando Yoshikawa et al.?9,9 Da-
niels et al °3 e Vale-Prodomo" consideram maior em idosos.
Afase esofágica dura cerca de oito a 10 segundos e a duração da onda de
pressão oscila entre dois a sete segundos. Há uma variedade de fatores que
podem modificar a amplitude, a duração e a velocidade de propagação dessa
onda como consistência, temperatura, aumento de pressão intra-abdominal,
entre outros, mas, no mesmo indivíduo, tende a permanecer constante e sem
influência do avanço da idade2
Considerações finais
za do raciocínio utili-
Aconduta terapêutica para disfagia depende da clare
zado para definição do diagnóstico funcional. A compreensão da neurofisio-
logia da deglutição com a manifestação clínica da deglutição, assim como a
fisiopatologia da disfagia, é essencial para determinar esse diagnóstico.