Dramione: Amor e Contraceptivos Troca
Dramione: Amor e Contraceptivos Troca
Rating: Mature
Archive Warning: Creator Chose Not To Use Archive Warnings
Category: F/M
Fandom: Harry Potter - J. K. Rowling
Relationships: Hermione Granger/Draco Malfoy, Harry Potter/Ginny Weasley
Characters: Hermione Granger, Draco Malfoy, Harry Potter, Ginny Weasley, Ron
Weasley, Narcissa Black Malfoy, Molly Weasley, Rita Skeeter
Additional Tags: Unplanned Pregnancy, Don't fuck with people's contraceptives, Slow
Build, But starts with a bang, LITERALLY, Ron is... Ron, Harry is a
champ, Ginny is clearly related to the Twins, Draco just doing his thing,
Hermione is Done, minor ron/hermione, Dramione endgame, Drunken
hookup, Ron Weasley Bashing, just keeps getting fluffier the more I
write, Tooth-Rotting Fluff, Discussion of sexual assault, Past Hermione
Granger/Ron Weasley, completely shameless fluff, Because the world is
a trashfire, And i want to think happy thoughts, Hermione is
overwhelmed, Draco is just trying to be a good man, Harry is a Good
Friend, Ginny is just here for the chaos, The smut is in another castle
Language: Português brasileiro
Stats: Published: 2025-12-01 Completed: 2025-12-02 Words: 141,097
Chapters: 38/38
A Vast Difference in Taste | Tradução
by ficsbystar
Summary
Ronald Bilius Weasley era duas coisas, de acordo com a mulher que ele chamava de amor da
sua vida pelo menos duas vezes por dia: um gênio tático e um completo idiota.
Olhando com cara feia para o pequeno frasco quase vazio à sua frente, na pia do banheiro do
seu pequeno e aconchegante apartamento, Hermione Granger acrescentou mais um item à
lista.
Ex.
-
A monumental cagada de Ron deixa Hermione irritada, furiosa e aceitando uma bebida de
Draco Malfoy.
Acontece que ela aceitou muito mais do que isso.
Notes
❗ Aviso Importante ❗
Essa fanfic não é de minha autoria. Todos os créditos vão para o(a) autor(a) original:
Ghastly_lemons.
Eu apenas traduzo com muito carinho e dedicação, porque adoro Dramione e quero que mais
pessoas tenham acesso a essa história incrível.
🚫 Não autorizo a cópia, repostagem ou reprodução dessa tradução em nenhum outro lugar.
Esse trabalho é feito de fã para fã, com respeito e amor pelo conteúdo original.
💬
Adoro saber o que vocês estão achando — isso me motiva a continuar. ✨
Fique à vontade para comentar, curtir e compartilhar suas impressões por aqui!
Ronald Bilius Weasley era duas coisas, de acordo com a mulher que ele chamava de amor da
vida dele pelo menos duas vezes por dia: um gênio tático e um completo maldito idiota.
Fazendo uma careta para o pequeno frasco que estava quase vazio à sua frente, na pia do
banheiro do seu apartamentozinho aconchegante, Hermione Granger acrescentou mais um
item àquela lista.
Ex.
Quando Ron surgiu pela lareira do Floo todo animado por ter sido chamado de novo para
consultar seu time de Quadribol favorito sobre táticas, com lama pingando displicentemente
da barra das calças e um largo sorriso no rosto, ele nem sequer notou a postura rígida da
namorada e a ausência de uma saudação de volta. Hermione ficou sentada em silêncio pétreo
enquanto ele tagarelava sobre como os Cannons tinham uma chance de verdade naquela
temporada, amor. Talvez até tirar uns dias de folga da Wheezes para ajudar a treiná-los de
novo na semana que vem. O George não vai se importar. Eventualmente, o silêncio absoluto
dela e a falta de qualquer movimento penetraram na cabeça de Ron, e ele espiou para fora do
quarto deles, com o cabelo ruivo em desalinho por ter puxado a camisa por cima da cabeça.
— Hã, tá tudo bem aí, Mione? — ele perguntou, as sobrancelhas erguidas como se não
fizesse ideia do que poderia possivelmente tê-la irritado.
Hermione se levantou rigidamente da cadeira à mesa da cozinha, caminhou até onde Ron
estava parado e então estendeu a mão para revelar o pequeno frasco de vidro que segurava.
— Me diga, Ronald, você sabe por que o meu contraceptivo de repente tem gosto de menta
em vez de laranja?
Ron empalideceu, e Hermione tirou um certo prazer vingativo do jeito como ele claramente
engoliu o próprio medo.
— Hã, talvez o boticário tenha mudado a receita? — ele sugeriu, tentando forçar o sorriso
fácil de sempre, que ficava péssimo naquele rosto esbranquiçado. O suor que pontilhava sua
testa não tinha nada a ver com o treino de Quadribol, e tudo a ver com o frasco na mão dela.
— Teoria interessante. — Ela balançou o frasco entre dois dedos e inspecionou o conteúdo,
que tinha o tom apropriado de amarelo de raio de sol, exceto por um brilho pêssego quase
imperceptível que não deveria estar ali. — Exceto que você perdeu um pequeno detalhe.
— A-Ah, é?
Hermione sorriu como uma espada desembainhada, só arestas afiadas e letalidade.
— Eu preparo a minha própria poção. — Hermione estreitou os olhos para o homem à sua
frente. — Agora, curiosamente, também acontece de eu conhecer outra poção que parece
exatamente com a minha poção contraceptiva de sempre. E, veja só, tem gosto de menta.
Você conhece uma poção assim, Ronald? — Umbridge teria sentido orgulho do quanto o tom
de Hermione conseguia ser meloso e ameaçador ao mesmo tempo.
— E-eu… eu nunca fui ótimo em Poções, Mione. Você sabe disso — disse ele com uma
risadinha nervosa, finalmente avistando a varinha largada inutilmente sobre a mesa.
Hermione estava entre ele e ela, e as palmas de suas mãos começaram a suar.
— Razorano Pole, Ronald. A poção Campo Arado. Que está… — Ela inclinou o frasco entre
os dois, examinando a viscosidade da poção contida ali. — Quatro vezes mais concentrada do
que deveria estar, pelo que parece. Você realmente achou que eu não ia perceber que você
tinha trocado o meu contraceptivo por uma maldita poção de fertilidade?
Sem conseguir mais negar nada, Ron desabou sentado na cama deles e baixou a cabeça.
— Eu sei, eu sou um idiota, ’Mione… eu só… eu fiquei tão chateado com o outro dia, sabe.
— Você quer dizer semana passada, quando você sequestrou a minha festa de vinte e um anos
para declarar que a gente ia se casar em breve e esqueceu de me perguntar a minha opinião
sobre o assunto? Ou o dia seguinte, quando você me disse que não era grande coisa porque a
gente ia precisar casar logo para poder ter filhos antes que eu ficasse investida demais na
minha carreira e tivesse que largar tudo para ficar em casa e criá-los? — ela sibilou,
indignada, o cabelo ficando mais crespo a cada instante à medida que a fúria aumentava.
Ron não tinha nada a dizer a isso, e apenas ficou olhando para ela, impotente.
Hermione mordeu os dois lábios e fitou a parede, piscando com força para segurar as
lágrimas furiosas que ameaçavam transbordar.
Ron saltou de pé e se lançou desesperado em direção a ela, quase segurando-a pelos ombros
antes que ela escorregasse por baixo de seus braços e recuasse para a sala principal do
apartamento, se afastando ainda mais dele.
— Não! Eu cometi um erro, eu não devia ter feito isso, eu sei! Eu prometo que nunca mais
vou fazer uma coisa dessas. Eu só pensei que, se a gente tivesse um filho, você ia ver que era
algo bom e que a gente podia construir uma vida juntos!
Hermione enxugou a única lágrima que escapara de seu controle de ferro e virou o rosto para
longe dele.
— A gente estava construindo uma vida juntos, Ronald. Mas você foi egoísta demais para
enxergar desse jeito, a não ser que fosse do jeito que você queria. Você nunca se importou o
suficiente comigo para me deixar ser o que eu queria ser antes de a gente sossegar para fazer
o que você queria e, agora, não existe futuro. — Hermione apontou para o sofá, onde uma
pequena bolsa de couro marrom estava pousada de forma ameaçadora bem no meio das
almofadas. — Ali tem todas as suas coisas. Eu não quero ver você de novo por um bom
tempo, Ronald. Se é que algum dia.
Ron olhou dos ombros tensos da namorada para a bolsa e, pela primeira vez, escolheu não ser
teimoso quanto àquilo. Ele pegou a mochila em silêncio e olhou para dentro, vendo que de
fato continha tudo o que possuía em seu interior ampliado magicamente. Com as lágrimas
embaçando a visão, ele tateou o pote de pó de Floo.
A voz baixa de Hermione o deteve antes que ele pudesse jogar o pó na lareira, e ele se virou
de volta, cheio de esperança.
Percebendo que a decisão idiota provavelmente lhe custara, de uma vez só, a mulher que
amava e o melhor amigo, Ron sentiu um soluço subir rasgando sua garganta.
O rosto de Hermione estava completamente inexpressivo enquanto ela encarava a janela que
dava para o parque movimentado sobre o qual moravam.
Derrotado e de coração partido, Ron chamou pela Toca e desapareceu nas chamas esmeralda.
Hermione já estava, de fato, a caminho de ficar completamente bêbada quando seus feitiços
de privacidade falharam e alguém se deslizou na cadeira em frente à dela no Hogs Head.
— Nunca achei que ia ver você ficando bêbada numa noite de terça-feira, Granger. — O
timbre familiar trouxe a atenção de Hermione de seu copo quase vazio de firewhisky para o
homem vestindo um moletom cinza-escuro e depositando outro copo ao lado do que ela
segurava. — Você não devia estar por aí consertando os males e pecados do mundo? Ou
talvez comemorando o seu noivado com o Weasel? Parabéns por isso, aliás. — O sarcasmo
dele era algo quase tangível enquanto se largava na cadeira e tomava um gole do próprio
copo.
Hermione franziu o cenho para Malfoy, mas aceitou o copo mesmo assim. Estava bêbada e
miserável, podia muito bem ficar mais das duas coisas.
— Ah, é?
— Merlin, que idiota. Sem ofensa a você, Granger, mas isso me faz questionar seriamente o
seu gosto para homens, o fato de você ainda estar com o Ruivo Idiota. — Draco deu uma
risadinha e fez sinal para Aberforth pedindo mais dois firewhiskies, terminando a própria
bebida enquanto fazia isso. Hermione semicerrrou os olhos para ele e percebeu que, pelo
olhar vidrado em seus olhos cinzentos e pelo rubor rosado espalhado pela ponte do nariz
afiado, ele provavelmente estava quase tão bêbado quanto ela.
— Não tô mais com ele. Daí a bebedeira solitária às… — Ela conferiu o relógio de pulso, o
que levou um tempo agradavelmente longo para conseguir focar. — Sete da noite de uma
terça-feira. Eu botei ele para fora hoje à tarde.
— Bom. — Malfoy aceitou os novos copos que flutuaram até ele trazidos por um Aberforth
carrancudo sem nem se virar para olhar, antes de pressionar um deles nas mãos dela. —
Então um brinde, a seguir em frente a partir de idiotas que nunca poderiam sequer sonhar em
ser bons o bastante para você. — Ele deu um sorrisinho para ela ao erguer o copo na direção
dela, um desafio nos olhos.
— É claro que o Weasley nunca poderia estar no seu nível, Granger. — Ele deu um meio
sorriso para ela, e ela notou que o jeito como os olhos se enrugavam um pouco nos cantos
suavizava a expressão, afastando-a da careta maldosa à qual estava mais acostumada, fazendo
com que a trouxesse para dentro da piada em vez de transformá-la no alvo. — Dito isso, seria
bem difícil qualquer homem estar no seu nível.
Hermione deu uma risadinha e tomou um gole da bebida, sentindo um calor agradável e se
deixando divertir pela conversa de Malfoy.
— Ah, e quem estaria? Você? — Ela arqueou uma sobrancelha para ele e torceu para não
parecer muito abobalhada ao fazer isso.
— Claro que não. Eu estou praticamente no fundo desse barril hoje em dia, Granger. Eu
tenho dinheiro, mas, fora isso, sou só um Comensal da Morte fracassado com uma casa muito
grande.
Malfoy sorriu o primeiro sorriso genuíno que ela já tinha visto em seu rosto.
— Não é muito provável que eu saiba, Granger. Agora, na minha casa grande e vazia eu
tenho uma adega grande e cheia. Que tal eu te presentear com uma garrafa de alguma coisa
para comemorar a sua recém-descoberta liberdade?
— Ah, porra! — Ele franziu o cenho para o pé da mesa como se ela o tivesse ofendido
pessoalmente e então começou a se arrastar na direção do balcão. — Me dá um minuto para
acertar a conta e aí a gente pode ir de Floo para lá.
Enquanto Hermione esperava Malfoy acertar a conta, foi andando até a lareira e sorriu
fracamente para o retrato de Ariana.
— Oi, Ariana, espero que o seu dia tenha sido melhor que o meu. — O retrato só sorriu para
ela e apontou um dedo pintado para o pote de pó de Floo e para a bolsinha em que se deixava
um nuque se você pegasse um pouco. Hermione deixou cair um nuque ali por ela e por
Malfoy, então pegou um punhado grosseiro de pó de Floo justamente quando ele voltou
andando até ela.
— Certo, vamos ver que tipo de bebida estupidamente cara eu tenho largada por aí, vamos?
— Malfoy pegou o próprio punhado de pó brilhante e o jogou na lareira. — Mansão Malfoy,
Ala Leste. — Ele lhe lançou um sorrisinho de lado ao entrar no fogo verde. — Te vejo já já.
Hermione nem se deu ao trabalho de pensar em quão ruim era a decisão que estava tomando,
seguir seu algoz de infância até o lugar onde tinha sido torturada na frente dele baseada em
nada além da promessa nebulosa de um pouco de bebida cara. Simplesmente jogou o
punhado no fogo e o seguiu.
Hermione gemeu e tentou cobrir os olhos para protegê-los do sol, que devia estar se sentindo
particularmente vingativo naquele dia, porque brilhava direto no rosto dela de ressaca.
Cutucando o corpo quente ao lado, ela se enfiou ainda mais debaixo do travesseiro.
— Ron, fecha essas malditas cortinas. — Resmungou, tentando lembrar se ainda tinham
alguma poção para ressaca depois da última grande noitada de Ron com os amigos.
O rosto risonho de Malfoy apareceu por cima da beirada da cama enquanto ela jazia no chão.
— Bom dia, Granger. Tirando a ressaca, é um jeito bem agradável de acordar. — Ele mexeu
as sobrancelhas para ela e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar, fazendo uma careta
quando o movimento sacudiu a própria cabeça. — Ah, Merlin, eu estou me sentindo como se
tivesse sido atropelado por uma maldita manada inteira de Abraxans. Espera um pouco, eu
tenho umas poções de ressaca no banheiro, deixa eu pegar.
Hermione agarrou o cobertor contra o peito assim que Malfoy a ajudou a subir de volta para a
cama. Quando ele se espreguiçou e se levantou, ela percebeu que os dois estavam tão nus
quanto no dia em que nasceram. Ela só conseguia ver as costas de Malfoy — e,
honestamente, uma bunda bem espetacular —, mas a visão enquanto ele atravessava o quarto
até a porta foi o bastante para fazer o rosto inteiro dela corar e obrigá-la a desviar o olhar. Ela
mal chegou a notar a mancha cinza-escura que tinha sido a Marca Negra dele, porque estava
ocupada demais tentando não assistir aos músculos das costas dele se movendo a cada passo.
Malfoy tinha encorpado desde a última vez que ela o vira, embora ela supusesse que isso não
devia ter sido difícil, já que a última vez em que o tinha visto fora no julgamento dele, menos
de um mês depois do fim da guerra. Ele escolhera não voltar à escola depois que os
depoimentos dela e de Harry o deixaram praticamente totalmente absolvido, fazendo os
N.O.M.s por correspondência, em vez disso. Depois, basicamente tinha desaparecido dentro
da Mansão, e ela não tinha visto nem sinal dele por mais de um ano.
— Aqui. — Malfoy balançou o pequeno frasco de vidro com uma poção vermelha na frente
do rosto dela, e algo naquele gesto acendeu sua memória.
A cabeça de Hermione girou de repente, e nem mesmo a ressaca latejante conseguiu impedir
o horror crescente.
— Malfoy… a gente transou ontem à noite? — Ela sabia a resposta, mas ainda se agarrava à
esperança de que fosse algum tipo de sonho extremamente realista.
— Bom, os detalhes estão um pouco embaçados, mas tenho quase certeza de que, depois de a
gente virar metade de uma garrafa do rum favorito do meu pai, você disse, e cito: “Quer
realmente deixar o Ron puto comigo?” E então subiu no meu colo e começou a me beijar.
— Não é tão grave assim, Granger. A gente teve uma noite só, nada para você torcer as
calcinhas.
Hermione tomou a poção na mão às cegas; precisava da cabeça limpa para aquilo.
— Não, você não está entendendo. Eu te contei por que terminei com o Ron ontem?
Malfoy franziu a testa para ela e descruzou os braços com uma expressão cautelosa.
Hermione sentiu a poção clarear a cabeça e fechou os olhos com força. Ela não conseguia
olhar para Malfoy para dizer aquilo.
— Não. Eu terminei com ele porque ele trocou a minha poção contraceptiva por Razorano
Pole. Eu bebi o equivalente a três doses de uma vez ontem, antes de perceber.
Chapter 2: Semana Zero a Semana Dois
Hermione manteve os olhos resolutamente fechados até não aguentar mais o silêncio pesado
e espiou Malfoy. Ele estava encostado no armário, com uma expressão profundamente
desaprovadora no rosto anguloso e os braços de novo cruzados com força sobre o peito.
— É claro que eu não dormi, porra, com você de propósito! Além de ter sido você quem se
aproximou de mim, eu estava bêbada demais para lembrar de toda a confusão com a maldita
poção ontem à noite.
— Certo. Justo. Agora temos um pequeno problema aqui, porque eu não consigo pensar em
uma única poção ou feitiço contraceptivo que vá neutralizar Razorano, quanto mais três doses
dele em um dia só — ele apontou.
Hermione apertou a ponte do nariz entre os dedos e puxou os lençóis mais para cima,
cobrindo o peito nu.
— Eu sei. Eu fiz minha pesquisa ontem. — E tinha feito mesmo. Parte do motivo de
Razorano ser considerado tão eficaz era o fato de durar um ciclo menstrual inteiro e ser bem
difícil de neutralizar. O que significava que bruxas ainda podiam tomar quaisquer poções que
normalmente tomariam e ainda assim ter ajuda para conceber. Se seus corpos fossem de
alguma forma capazes de conceber, depois de uma dose de Razorano Pole, iriam. O que,
considerando tudo, era uma notícia bem terrível para Hermione, uma mulher saudável em
idade fértil.
Desencostando-se do armário em que estava largado, Malfoy se abaixou para pegar a camisa
dela da noite anterior e atirou na direção dela.
Hermione ficou olhando para a porta por um momento antes de juntar as roupas e arrastar os
pés até o banheiro. Decidiu pular o banho, optando em vez disso por jogar um pouco de água
no rosto e dar a si mesma uma palestra de incentivo muito necessária diante do espelho.
— Certo, Malfoy. Você dormiu com o Malfoy, com o objetivo de deixar o seu ex-recente
extremamente irritado porque quantidades copiosas de álcool convenceram você de que isso
era, de alguma forma, uma ideia brilhante. E é claro que essa tal noite única aconteceu sob a
influência de uma versão altamente concentrada de uma das poções de fertilidade mais
poderosas que existem, porque a primeira vez em toda a sua vida em que você esquece uma
coisa dessas tem que acontecer no pior momento possível. — Hermione encarou o olhar da
bruxa desgrenhada e ainda muito nua no espelho e ergueu a mão para tentar abaixar o cabelo,
que honestamente tinha um aspecto inconfundivelmente “bem-satisfeito na cama”. — Vai
ficar tudo bem. Nenhuma maldita poção poderia ser garantida em algo assim. Nem é o ponto
certo do meu ciclo. Eu vou fazer um teste em algumas semanas e pronto. Não há motivo para
ficar chateada por causa de uma possibilidade vaga. — Ela assentiu de forma decidida para o
próprio reflexo e puxou a velha camiseta folgada por cima da cabeça, olhando em volta à
procura do sutiã antes de lembrar que não tinha usado um na noite anterior. — Bom, pelo
menos ele foi educado o bastante para não deixar nenhuma marca de chupão.
Malfoy estava esperando por ela em uma salinha de jantar e, quando virou a cabeça para
cumprimentá-la, ela percebeu que não tinha sido tão educada assim. Um lado da pálida
coluna do pescoço dele estava manchado por várias marcas roxo-escuras. Hermione se
perguntou se ficar bêbada a transformava em algum tipo de vampira. Ou lampreia.
— Se sentindo um pouco melhor? — ele perguntou educadamente, ainda que um pouco frio,
indicando que ela podia sentar na cadeira em frente à dele, onde um bule de chá e uma xícara
de café a aguardavam. — Eu não tinha certeza se você preferia chá ou café. — Malfoy
provavelmente também tinha feito uma autoanálise, porque parecia bem menos irritado do
que quando a deixara no quarto.
— Obrigada, Malfoy. Com poção para ressaca ou não, acho que vou precisar dos dois.
— Suponho que sim. Eu sinto muito mesmo por isso, eu normalmente não bebo mais do que
uma taça de vinho em ocasiões especiais.
— Enfim, quanto ao problema com o Razorano, com sorte vai acabar não sendo um
problema. Nenhuma ajuda à fertilidade é cem por cento eficaz, então potencialmente a gente
estaria livre.
— E se não estivermos? — Os olhos de Malfoy estavam duros como pedra enquanto ele a
encarava sem piscar; não parecia achar graça da tentativa dela de minimizar o assunto.
Hermione brincou com a colherinha de chá e mordeu o lábio com força o bastante para arder.
Malfoy a estudou por um momento antes de dar de ombros, pegar um pequeno sino de prata
no meio da mesa e tocá-lo.
— Quer saber, justo. Só podemos torcer para que você esteja certa e nada saia disso. — Um
pequeno elfo-doméstico em uma fronha impecavelmente limpa apareceu num canto da sala
com um estalo que fez Hermione derramar um pouco de café na camisa. — Bizzy, se não se
importar de ir até as cozinhas, a senhorita Granger e eu já queremos o café da manhã.
— Sim, Mestre Malfoy. Bizzy traz já já — respondeu o elfo-doméstico com uma voz fininha
e desapareceu com um estalar de dedos.
Hermione ficou olhando, atônita, para o canto onde o elfo estivera, mas antes que pudesse
dizer qualquer coisa Malfoy interrompeu sua linha de raciocínio.
— Antes que você diga qualquer coisa, eu trato bem os meus elfos. Eu até ofereci pagar
salários a eles no ano passado, depois que você publicou aquele artigo, mas todos reagiram
tão mal à ideia que deixei quieto. Eles choraram uma semana inteira sem parar, arruína
completamente o apetite de uma pessoa quando toda refeição vem temperada com lágrimas.
— Ah. — Hermione se virou de volta para ele com um sorriso culpado no rosto. — Eu não ia
dizer nada — falou num tom nada convincente.
Malfoy bufou quando o elfo reapareceu e colocou travessas carregadas com tudo o que se
precisava para um café da manhã inglês completo sobre a mesa à frente deles, antes de sumir
outra vez.
— Claro que não ia. Agora come, Granger. Eu conferi o Profeta e, felizmente, não tem nada
lá sobre você ter sido sequestrada por um ex-Comensal da Morte, mas suponho que o Potty já
deve ter uma equipe de busca atrás de você a essa altura.
Revirando os olhos, Hermione se serviu de um ovo cozido e algumas fatias de chouriço preto
frito.
— São nove da manhã, Malfoy. Eu tenho até pelo menos as dez antes de ele começar a
procurar.
Ron tinha voltado a morar na Toca sem muita resistência, deixando para ela o apartamento
que os dois dividiram, e Hermione aproveitou cada momento livre para reorganizar o lugar
inteiro até que parecesse dela em vez de deles. Ela tinha realmente passado a amar o
apartamentozinho, e quando levitou o sofá para uma nova posição pela décima vez
finalmente sentiu paz. Harry a levara aos bazares beneficentes para procurar móveis no
domingo, e ela encontrara duas estantes velhas e robustas que acabaram sendo a última coisa
de que precisava. Ron a fizera deixar a maioria dos livros na bolsa expandida porque achava
que eles deixavam o lugar com cara de entulhado, então tê-los todos à mostra agora que ele
tinha ido embora parecia certo. E, quando todos os móveis estavam enfim assentados em seus
novos lugares, Hermione se sentiu incrivelmente contente e realizada.
Congelando no lugar como se tivesse sido petrificada de novo, Hermione ficou encarando a
varinha estendida, que ainda apontava para o sofá, e engoliu em seco. As palavras de Malfoy
enquanto a conduzia à sala de visitas depois do café da manhã desajeitado ricochetearam no
cérebro dela, lembrando-a do que vinha adiando.
De repente sentindo como se o coração estivesse sendo espremido num torno, a respiração de
Hermione passou a vir em pequenos arfar enquanto ela virava a varinha para apontar para a
própria barriga e tentava suprimir o tremor da mão ao traçar o desenho em laços do feitiço.
— Infans Manufestia.
Hermione teve que lançar o feitiço mais três vezes antes de finalmente registrar o que ele
estava mostrando. Quando afinal registrou, deixou a varinha cair.
— Bem, porra.
Hermione não foi contar a Malfoy imediatamente, percebendo que precisava de um tempo
para religar o cérebro e voltar a funcionar como uma bruxa normal antes de dizer qualquer
coisa a ele. Em vez disso, pegou a varinha de onde a tinha derrubado e aparatou direto para a
sala de estar de Harry em Grimmauld Place, aproveitando-se, num raro momento, de ser uma
das apenas quatro pessoas autorizadas a fazer isso.
— Harry! Você está em casa? — ela chamou enquanto começava a enfiar a cabeça em todos
os cômodos, tentando encontrar o melhor amigo.
— Hermione? O que você está fazendo aqui? — A cabeça desgrenhada de Harry apareceu
por cima do corrimão, seguida pelo cabelo ruivo bem mais liso de Gina. — Está tudo bem?
Hermione sempre se orgulhara da própria capacidade de pensar rápido, mas, mais uma vez, o
cérebro decidiu abandoná-la no pior momento possível.
— Eu estou grávida de um filho do Malfoy — ela disparou, então levou a mão à boca e ficou
encarando os amigos com olhos arregalados.
— O quê? — Harry parecia atônito. — Você acabou de dizer que o Malfoy de alguma forma
fez você ficar… — Harry praguejou entre dentes e passou as mãos pelo cabelo. — A maldita
poção. Sobe, vai, a gente estava jogando cartas.
Hermione evitou olhar para Gina enquanto subia as escadas e os seguia até a salinha de estar
do andar de cima, ligada ao quarto deles. Gina parecera bem enojada com o que Ron tinha
feito, mas ele ainda era o irmão dela e Hermione não tinha certeza de que lado Gina tinha
realmente caído na separação. Então tinha tomado a rota bem pouco grifinória de evitá-la o
máximo possível.
Quando Harry já os tinha acomodado a todos no sofá confortável que comprara na mesma
ocasião em que Hermione encontrara as estantes, ele pegou a mão pequena dela entre as suas,
calejadas, e apertou de leve até que ela o olhasse nos olhos.
— Você precisa que eu almadiçoe alguém? — ela perguntou, com a franqueza de sempre.
Hermione tentou sorrir para Gina, mas descobriu que os cantos dos lábios insistiam em se
curvar para baixo enquanto os olhos se enchiam de lágrimas.
— Lembram como eu não fui trabalhar até depois do almoço e perdi aquela reunião do
departamento no dia seguinte ao que terminei com o Ron? — Quando os dois assentiram, ela
continuou. — Eu cheguei tarde porque saí e fiquei incrivelmente bêbada assim que o Ron foi
embora. Fui para o Hogs Head e lancei um feitiço de privacidade para poder afogar as
mágoas sem ninguém me incomodando, mas em algum momento eu já estava tão bêbada que
acho que cancelei o feitiço sem querer, e o Malfoy apareceu. Acho que a intenção dele era
zombar de mim por estar bebendo numa noite de dia útil, mas acabei contando que tinha
acabado de terminar com o Ron e ele me comprou uns drinques em vez disso.
— Hã, eu não achava que ele saía da Mansão nesses tempos — disse Gina.
— Não, o Aberforth me disse que ele aparece algumas vezes por mês. Nada demais, só
alguns drinques sozinho e aí vai embora. — Ele voltou a focar em Hermione. — Então ele te
comprou um drinque?
Hermione assentiu.
— É, ele até foi bem legal quanto a isso. Nós dois já estávamos bem bêbados a essa altura, e
ele se ofereceu para me deixar escolher uma garrafa na adega dele para comemorar a minha
liberdade, como ele pôs. Quando chegamos à Mansão, acabamos conversando, não acho que
tenha sido nada profundo. Só bobagem sobre livros e coisas assim… E aí… — Hermione
deixou a frase morrer, sem saber como contar o que viera depois, embora eles obviamente
soubessem que algo tinha acontecido.
O braço musculoso de Gina se enroscou em volta dos ombros dela e a puxou para um abraço
solidário.
— Hermione, você não precisa dizer mais nada. Mas… ele… se aproveitou de você?
Hermione enrijeceu e se afastou da amiga.
— Não! Não, ele não fez nada disso. Ele… eu… — Ela enfiou o rosto nas mãos para
esconder o rubor em chamas nas bochechas. — Fui eu que subi no colo dele e beijei ele como
se não houvesse amanhã. Eu estava tão bêbada que esqueci que tinha tomado Razorano e
pulei em cima dele num plano de vingança muito mal concebido.
— Ah, Hermione, tudo bem. Todo mundo faz besteira quando está machucado — Harry a
puxou para os próprios braços, os olhos verdes encontrando os de Gina por cima da cabeça
dela, enquanto os dois tentavam descobrir o que fazer para confortar a amiga. — O que você
acha que vai fazer?
— Eu não sei. O Malfoy pediu que eu contasse para ele o que acontecesse, de qualquer jeito.
Então acho que vou falar para ele em algum momento, provavelmente assim que eu criar
coragem de encarar ele de novo. Eu provavelmente devia pelo menos fazer isso
pessoalmente. Quanto ao resto… — Ela baixou os olhos para a própria barriga, tentando
entender como um pequeno aglomerado de células podia causar tanta confusão. — Eu não sei
direito. Eu sei que posso… eu sei que posso interromper, especialmente tão no começo. Mas
eu só descobri faz, tipo, um minuto antes de vir para cá, então não tive tempo nenhum para
pensar nisso.
— O que você decidir, a gente vai estar aqui por você. Eu prometo.
— Você pode, por favor, se me ama nem que seja um pouco, garantir que eu esteja lá quando
o Ron ficar sabendo?
Chapter 3: Semana Dois
Como prova da coragem e imprudência da Grifinória, bastaram duas horas e uma xícara de
chá quente na casa do Harry para Hermione se ver do lado de fora dos portões da Mansão
Malfoy, enquanto a escuridão caía e tornava toda a situação umas dez vezes mais
aterrorizante do que já era. Malfoy aparecer silenciosamente saindo da escuridão ao lado do
portão também não ajudou em nada os nervos em frangalhos dela, e ela se sobressaltou tão
forte que tropeçou nos próprios pés e caiu sentada direto de bunda no chão.
— Você está bem? — Malfoy parecia dividido entre a diversão e a preocupação enquanto lhe
estendia a mão para ajudá-la a se levantar.
Aceitando o gesto de má vontade, Hermione deixou que ele a puxasse de volta para ficar de
pé.
Malfoy ergueu uma das sobrancelhas esculpidas e pôs a mão no portão, desfazendo-o em
névoa para que pudessem passar.
— Gostaria de entrar?
Hermione encarou o longo caminho com apreensão. Da última vez em que estivera ali (e
sóbria o suficiente para se importar), ela tinha visto o quarto, o banheiro, a sala de jantar e a
sala de visitas dele, enquanto saía pela lareira. Na vez anterior a essa, tinha visto exatamente
esse caminho, a sala de estar e o lado funcional do sadismo de Bellatrix. Então ver o caminho
escuro se estendendo entre ela e a elegante Mansão fez seu coração bater contra as costelas
como um coelho assustado.
Malfoy se aproximou dela de lado, aparentemente percebendo que ela estava a meio segundo
de um ataque de pânico catastrófico.
— Quer que eu nos aparatemos direto lá para dentro? Ou seria mais fácil irmos para outro
lugar? — Ele perguntou suavemente, como se falasse com um animal ferido que podia
disparar a qualquer momento antes que ele pudesse curá-lo.
O rosto pálido e suado, Hermione xingou a si mesma por dentro por achar que aquilo era uma
boa ideia com tão pouco tempo de preparo.
— Hã… A gente pode ficar. Eu só… — Ela interrompeu a frase e olhou, impotente, pelo
lindo caminho à frente, pesadelos acordados de mãos ásperas arrastando-a por ali fazendo sua
pele se arrepiar.
Malfoy ergueu a mão na linha de visão dela, a palma virada para cima e os dedos abertos em
um convite claro.
— Por favor? — ela pediu, dando-lhe permissão para pularem o caminho que aparecia em
tantos de seus pesadelos.
— Vou te levar para a minha salinha de estar, tudo bem? — O tom de Malfoy era suave, e ele
esperou que ela assentisse antes de girar os dois para longe dali. Quando aterrissaram no
cômodo, ele a acomodou com cuidado em um sofá e caminhou rapidamente até a porta, onde
falou com alguém logo do lado de fora antes de voltar e se agachar diante dela. — Você está
segura aqui, eu prometo que nada de ruim vai acontecer com você. Pedi para trazerem um
pouco de chá e aí a gente pode conversar quando você se sentir pronta. — O tom de Malfoy
se manteve cuidadoso enquanto ela levava o tempo que precisava para acalmar os
pensamentos e o coração disparados, mantendo os olhos firmemente fechados até se sentir
um pouco mais estável.
Quando finalmente se sentiu pronta para abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi Malfoy
estendendo para ela uma xícara delicada de porcelana, decorada com pardais e folhas de
carvalho que balançavam como se um vento soprasse sobre a superfície. Aceitando a xícara,
ela a aproximou do rosto e tomou um gole do chá de camomila.
Malfoy se acomodou em uma poltrona de encosto alto do outro lado dela e pegou sua própria
xícara do serviço de chá disposto sobre a pequena mesa entre os dois.
— Não pense nisso, Granger. Você não precisava se arrastar até aqui, sabia. Eu teria
entendido se você só tivesse mandado uma coruja.
Hermione tamborilou as unhas contra a xícara e ficou olhando para o fogo alegre que ardia na
lareira.
— Ah. — Malfoy tomou um gole cuidadoso do chá e esperou que ela elaborasse.
— Nem um pouco. Eu só descobri hoje à tarde. Eu sei que posso interromper bem fácil, a
essa altura, mas não quero tomar nenhuma decisão às pressas. — Hermione suspirou fundo
dentro da xícara e tomou outro gole longo do chá. — Mas é claro que isso não significa que
eu esteja pronta para ser mãe aos vinte e um.
— Hmm. Se eu puder oferecer outra opção? — A voz de Malfoy estava cautelosa o bastante
para fazer Hermione erguer os olhos para ele, observando o rosto em busca de alguma pista
do que ele poderia estar pensando. — Se você decidir que não quer ser mãe tão jovem, eu
ficaria feliz em assumir nosso filho como meu herdeiro. Ele poderia viver aqui e você poderia
ter tanto, ou tão pouco, envolvimento quanto quisesse.
— Você quer o bebê? Mas… eu sou nascida Trouxa? — Ela estava genuinamente confusa.
Ele vinha sendo gentil o suficiente com ela, mesmo fora da indiscrição deles, mas certamente
um bebê meio-sangue com a garota que ele passara a maior parte da adolescência
atormentando era um assunto completamente diferente. Ela estava preparada para que ele
imediatamente lhe entregasse uma poção de interrupção, não para que oferecesse ser o
principal responsável por uma criança que nenhum dos dois tinha planejado.
— Você acha que eu teria dormido com você se ainda me importasse com isso? — ele disse,
cheio de desdém.
— Ah, suponho que não. — Ela lhe sorriu de forma um pouco constrangida. — Desculpa.
— Obviamente eu sei que a decisão final é sua e que você pode levar o tempo que quiser para
pensar, mas eu gostaria que você considerasse essa opção. — Ele se esforçava para parecer
relaxado, mas Hermione conseguia ver o quanto o maxilar estava tenso. Ela apreciou o
esforço que ele fazia para parecer calmo.
— Vou considerar, obrigada por estar tão tranquilo com isso. Eu não estava tão… sanguínea
assim quando descobri hoje à tarde. De algum jeito eu tinha conseguido evitar pensar nisso
completamente pelas últimas duas semanas e isso meio que me pegou de surpresa.
— Compreensível. Eu não fiz nada além de pensar nisso pelas últimas duas semanas. —
Malfoy sorriu de forma irônica para ela, e Hermione achou que ele teria sido muito mais
simpático na escola se tivesse se parecido mais com o que era agora. Ele usava um suéter
verde-sálvia e calças casuais que pareciam até ser de origem trouxa, e o cabelo branco estava
sem gel, caindo em ondas soltas sobre a testa. O conjunto todo, somado ao sorriso, dava a ele
uma impressão calorosa, mas levemente meticulosa, como se fosse dono de uma pequena
livraria em que conhecia todos os melhores livros para cada pessoa que entrasse pela porta,
mas os entregasse enquanto julgava discretamente as preferências de leitura de cada um.
— Ah! Hã, você primeiro — disse Hermione, fazendo um gesto para que ele continuasse.
— Bem, eu ia perguntar se você queria ficar para o jantar? — A postura de Malfoy estava
educadamente rígida, mas Hermione achou perceber um toque de algo mais por baixo da
rigidez que a deixou curiosa.
— Ah, talvez eu… — Ela cortou a própria frase por um instante quando aquele toque de algo
no rosto dele se transformou no mais breve lampejo de desalento e se lembrou da conversa
com Harry e Gina. Parecia que Malfoy devia levar uma vida bem solitária, o que a fez mudar
de rumo. — Na verdade, se eu não estiver atrapalhando, seria ótimo.
Malfoy não sorriu, nem demonstrou nenhuma reação abertamente satisfeita. Mas, ainda
assim, quando estavam sentados um diante do outro na sala de jantar íntima discutindo
educadamente um artigo que ambos haviam lido sobre possíveis núcleos de varinhas teóricos,
Hermione teve a nítida impressão de que ele estava contente por ela ter ficado.
Hermione passou os seis dias seguintes pesquisando o máximo que pôde sobre o impacto da
gravidez no corpo dela e conversando com Harry e Gina a respeito das opções. Ela chegou
até a tirar a sexta-feira de folga do trabalho para ter três dias ininterruptos para ler uma
quantidade imensa de livros trouxas e mágicos sobre o assunto, que mandara Gina adquirir.
Depois passou duas longas noites fazendo listas de possíveis opções e os prós e contras de
cada uma. Só então contou a Harry e Gina sobre a oferta de Malfoy. Harry ficara espantado
ao ouvir que Malfoy não só parecia estar bem com a ideia de ela ter um filho dele, como
oferecera a opção de deixar a criança com ele enquanto ela escolhia o próprio nível de
envolvimento e estava imensamente desconfiado quanto às motivações dele.
— Ah, qual é, Harry, ele provavelmente só está contente de conseguir um herdeiro. Malfoy
não é exatamente um bom partido no mercado de casamentos hoje em dia — Gina apontou,
distribuindo tigelas de sopa substanciosa para os três.
— Não sei. Sem ofensa, Hermione, mas a criança vai ser meio-sangue. Você tem certeza de
que o Malfoy ficaria bem com isso? — Harry rasgou um pãozinho e começou a jogar
pedaços dentro da sopa para eles amolecerem, hábito que sempre deixava Hermione
levemente enjoada. Harry vinha tendo muito cuidado para não julgar Hermione por ter
dormido com Malfoy, o que significava que estava sendo exageradamente superprotetor com
ela.
— Pela última vez, Harry, tenho certeza. Você sabe como a guerra mudou ele, nenhum de nós
teria falado a favor dele no julgamento se não achássemos que tinha mudado. Eu cheguei até
a ver livros trouxas no quarto dele quando estive lá; então duvido muito que ele se importe.
— Hermione viu que Harry estava prestes a retrucar de novo e o interrompeu. — E além do
mais, ele teria me comido se se importasse?
Gina engasgou com a colherada de sopa e começou a rir descontroladamente, enquanto Harry
ficava vermelho vivo.
— De qualquer forma, não acho que ele tenha nenhum plano nefando. Eu sei que só
conversei com ele algumas vezes…
— Obrigada, Gina. Como eu estava dizendo, eu não falava com ele nada até menos de um
mês atrás, mas não tenho a impressão de que a oferta dele tenha sido fingida. — Hermione
franziu o cenho para a sopa. — E… quanto mais eu penso, mais acho que não quero
interromper. Então a oferta do Malfoy talvez seja a melhor opção de qualquer forma. Ele
disse que eu poderia ser tão envolvida quanto quisesse. Parece meio como comer o bolo e
continuar com ele ao mesmo tempo.
— Como é que você sabe que ele realmente vai manter essa palavra, porém? Malfoy é um
cara bem escorregadio — Harry estava como cachorro com osso, e Hermione suspirou.
— Odeio dizer isso, mas concordo com o Harry nesse ponto. Não há garantia nenhuma de
que o Malfoy não voltaria atrás assim que tivesse a criança — Gina disse, um pouco
apologética.
— É por isso que eu não pularia de cabeça nisso. Sério, gente, vocês acham que eu confiaria
cegamente no Malfoy só porque a gente teve uma noite bêbada juntos e ele não me
almadiçoou na hora? — Hermione desejou poder tomar uma taça de vinho para aquela
conversa, mas, infelizmente, mulheres grávidas não podiam suavizar conversas difíceis desse
jeito. — Não, se eu for por esse caminho, primeiro vou pedir que ele prove ser digno de
confiança e depois vou garantir que tenhamos documentos legais redigidos. Eu talvez não
queira pôr minha carreira em suspenso, mas, se tiver esse bebê, também não quero abrir mão
dele por completo. E acho que vocês podem confiar em mim, entre todas as pessoas, para
pensar nisso até o fim, Harry.
— Você tem razão. Acho que devo confiar em você, você geralmente está certa.
— E quem sabe, talvez você acabe tendo um romance tórrido. Rivais na escola, equiparados
em inteligência, mas levados à competição. Divididos pela guerra, reunidos pelo amor. —
Gina suspirou de forma dramática, levando o dorso de uma mão à testa e cobrindo o coração
com a outra. — Agora, não seria uma história e tanto para contar para a criança?
Hermione lançou um olhar fulminante para a amiga, que continuava sorrindo sem a menor
sombra de arrependimento, enquanto Gina dava tapinhas nas costas de Harry para desobstruir
as vias respiratórias da sopa que ele acabara de inalar.
Chapter 4: Semana Quatro
Hermione tinha tendência a analisar demais cada pequeno aspecto da própria vida. Mas, em
ocasiões raras, também podia ser igualmente propensa a simplesmente avançar e que se
danassem as consequências. Harry lhe dissera que essa era uma dessas últimas ocasiões, mas,
grávida de quatro semanas e uns quebrados, ela tinha tomado a decisão. Dessa vez, em vez de
induzir um ataque de pânico tentando aparatar até os portões da Mansão Malfoy, tinha
mandado uma coruja para Malfoy perguntando se ele tinha tempo para se encontrar com ela e
se havia algum lugar de preferência para isso.
Quando Hermione chegou cinco minutos adiantada, Malfoy já estava sentado a uma mesa,
esperando por ela com um livro de bolso na mão, aparentemente à vontade na cadeira
ligeiramente bamboleante do café, a coluna tão ereta quanto estivera na sala de jantar
luxuosamente decorada dele.
— Olá, Malfoy. Como vai? — Hermione tentou avaliar se ele estava desconfortável com os
arredores, mas, vestido com uma camiseta Henley de mangas compridas azul-neblina e jeans
pretos, ele poderia ser qualquer jovem trouxa esperando pacientemente que um amigo
chegasse. Até as botas de couro de dragão só pareciam botas normais, ainda que pesadas e
bem feitas. Em contraste, ela se sentia meio desajeitada com a blusa básica de algodão e a
saia preta simples. Até os sapatos eram sapatilhas simples que já tinham visto dias melhores.
— Ah, tudo bem. Obrigada mesmo assim. — Fez um pequeno teatrinho de espiar o cardápio
plastificado antes de erguer o olhar e encontrar Malfoy encarando-a com uma sobrancelha
erguida. — Hã, o que você gostaria? Eu vou ali fazer o pedido.
Pela expressão educadamente teimosa que ele lhe dava, Hermione concluiu que
provavelmente não o convenceria a deixá-la pagar, e se resignou a simplesmente dar o
próprio pedido para evitar qualquer tensão; Merlin sabia que aquele encontro já era
constrangedor o bastante.
Malfoy inclinou a cabeça num meio arco e se levantou para pedir no balcão.
— Não há de quê.
Enquanto esperava Malfoy fazer o pedido, Hermione olhou ao redor do café e puxou a
varinha por baixo da mesa para lançar alguns feitiços discretos de privacidade — muffliato e
notice-me-not entre os principais —, junto com a própria modificação desse último feitiço
que permitiria que Malfoy e a única garçonete vissem a mesa enquanto excluía todo o resto.
Considerando que, dessa vez, não beberia nada alcoólico, ela tinha confiança de que os
feitiços resistiriam caso alguém do mundo bruxo aparecesse por ali. A última coisa de que
precisava era alguém passar por acaso e ver Hermione Granger tomando chá e comendo torta
com Draco Malfoy.
Até então tinham conseguido manter o término com Ron longe dos jornais, mas ela tinha a
sensação de que isso mudaria em breve. Gina lhe contara que Ron começava a sair mais
depois de passar o último mês amuado na Toca, só saindo para ir trabalhar na loja de logros.
Isso preocupava Hermione, já que ele mal era sutil em dias normais. Ela se perguntou se não
deveria mandar um potinho para Rita Skeeter em breve. Provavelmente deveria, pensando
bem. Melhor se adiantar a qualquer fofoca caluniosa que a bruxa repugnante inventasse se
descobrisse o rompimento e ficasse empolgada o bastante para esquecer as ameaças de
Hermione.
Quando Malfoy voltou, lançou um olhar significativo para o guardanapo que ela andava
ocupada em despedaçar e então olhou em volta, claramente sentindo os feitiços.
— Belo trabalho. Tem certeza de que vão aguentar desta vez? — ele perguntou com um
sorriso de lado.
— Ha. Ha. Quero ver você manter feitiços de privacidade em pé estando tão bêbado daquele
jeito, Malfoy — ela retrucou.
— Touché. — Ele não disse mais nada, permitindo que o silêncio se esticasse tempo
suficiente para que Hermione começasse a xingá-lo mentalmente por lidar tão bem com o
leve desconforto.
Finalmente, os chás e as comidas chegaram. Hermione notou que Malfoy tinha pedido a
mesma coisa que ela, e fez um pequeno gesto com a mão para excluir a garçonete de seus
feitiços enquanto ela se afastava.
Hermione corou e focou a atenção em cortar a própria torta com o garfinho ridiculamente
pequeno que tinha vindo junto.
Quatro mordidas depois na pequena torta, ela ainda se sentia segura do que tinha decidido e
pousou o garfo.
— Pensei. Passei muito tempo pensando nela, na verdade. E… eu tenho uma espécie de
contraproposta. — Os dedos nervosos de Hermione voltaram a transformar o guardanapo em
confete, mas ela se recusou a desviar os olhos de Malfoy.
— Ah, é?
— Sim. Crianças definitivamente não estavam nos meus planos, pelo menos não pelos
próximos anos. Era principalmente pelo fato de eu não querer sacrificar minha carreira justo
quando ela está começando. Eu teria preferido esperar alguns anos, até estar mais
estabelecida e conseguir equilibrar com mais facilidade a vida pessoal e profissional antes de
tentar formar uma família. Mas não é assim que está acontecendo. A maternidade talvez não
fosse o que eu tinha planejado, mas ela está aqui agora, então vou ter que ajustar a minha
vida para isso.
— Entendi. Então você quer ficar com a criança com você. Bem, obrigada por me avisar. —
Ele começou a se erguer da cadeira, mas Hermione o deteve, agarrando-lhe a mão.
— Não. Quer dizer, meio que. Só… me escuta, por favor. — Hermione esperou até que
Malfoy, cauteloso, retomasse o lugar antes de continuar. — Você pareceu confiante de que
conseguiria cuidar de uma criança sozinho, mas eu queria saber o que você acha de a gente
compartilhar a criança.
Draco piscou para ela, os olhos suavizando de volta ao cinza chuvoso normal diante da
surpresa.
— Não! — Hermione explodiu, e então percebeu o quão grosseiro aquilo soara. — Sem
ofensa, Malfoy. Eu só não acho que casamento funcionaria. A gente provavelmente se
mataria na primeira semana. — Malfoy bufou uma risadinha, e os dois trocaram um olhar de
quem sabia exatamente do que estava falando; Hermione ficou contente por concordarem
nisso. — Não, eu estou falando de guarda compartilhada. É bem comum entre casais trouxas
quando eles têm filhos mas a relação não dá certo. Ou em casos como o nosso, em que não
existia relação, mas, bem…
— E como isso funcionaria? Não conheço muito o conceito; divórcio é incomum no mundo
bruxo, salvo nas circunstâncias mais extremas. Normalmente, se um casal bruxo tem uma
criança e depois se separa, um ou outro fica com a criança por completo.
— Bem, a gente decidiria quanto cada um de nós poderia cuidar da criança e então redigiria
documentos legais estabelecendo pelo que cada um de nós seria responsável. Seja decisões
médicas, ou apoio financeiro, ou simplesmente quanto tempo cada um ficaria com a criança.
Alterações poderiam ser feitas com o acordo dos dois, é claro. — Hermione observou Malfoy
absorver a informação, mordendo o lábio com força o bastante para romper um pouco a pele.
— Isso é… na verdade, uma ideia bem boa — Malfoy reconheceu, encarando o nada à frente
enquanto considerava as implicações.
— Tem só uma condição que eu teria, se a gente seguisse por esse caminho — acrescentou
Hermione, hesitante.
— Sim. Eu ia querer ter uma relação amigável com você se a gente fosse dividir a guarda de
uma criança. Eu estou disposta a trabalhar nisso, se você estiver. — Hermione tamborilou
nervosa os dedos sobre a mesa. Nada no relacionamento deles antes da noite em que caíram
bêbados na cama poderia ser chamado de “amigável”; mas as interações desde então lhe
davam esperança de que, pelo menos, poderiam ser cordiais.
O rosto de Malfoy se abriu em um sorriso aliviado, e a tensão que carregava nos ombros
desde que ela chegara pareceu se dissolver.
— Acho que posso fazer isso. Que tipo de coisas você tinha em mente?
— Está me entendendo errado. Eu só tinha presumido que você não me deixaria chegar a
menos de três metros de distância durante isso. Se é que concordaria em me deixar ficar com
o meu filho de qualquer forma — ele a repreendeu com suavidade.
— Ah, desculpa. — Suspirou. — Isso é esquisito. Eu estou tão acostumada a pensar em você
como o garoto que fazia de tudo para me deixar miserável. É difícil me ajustar a você sendo
tão… decente. — Ela falou com uma careta apologética.
— Acho que mereço isso — Malfoy mexeu no garfo, arrastando os restos da torta em
padrões no prato. — Sabe… eu não estava mentindo, nem sendo leviano, quando disse que
não acredito mais em nada daquilo. Eu realmente sinto muito pelo jeito como te tratei na
escola. Muitas vezes gostaria de poder voltar no tempo e ao mesmo tempo dar um tapa e
abraçar a versão mais nova de mim mesmo — admitiu com cuidado.
— Obrigada, Malfoy, e, nesse caso, sinto muito que a gente tenha acidentalmente quebrado
todos os vira-tempo do Ministério.
— Bem, tem coisas que não dá para evitar, imagino. — E, em resposta à pergunta dela,
continuou: — E, para responder à sua pergunta, vou me envolver tanto quanto você me
deixar. Eu ficaria feliz em te acompanhar às consultas com os curandeiros e… — Ele pareceu
travar por um momento, debatendo consigo mesmo se dizia a parte seguinte. — E, por favor,
não entenda isso da forma errada, mas eu também estaria disposto a pagar por todos os custos
ligados à sua gravidez e ao nosso filho. Não conheço a sua situação financeira, e não vou
presumir nada, mas, mesmo depois das muitas multas aplicadas a mim e aos meus pais, ainda
sou perfeitamente capaz de prover para o nosso filho e para quaisquer custos que venham
com ele.
— Vou pensar com certeza. Obrigada pela oferta, é gentil da sua parte. — Um dos pontos do
discurso dele saltou para agarrar a atenção dela. — Ah, Jesus. Os seus pais. Como é que eles
vão reagir?
Fazendo uma careta, Malfoy tomou um gole do chá já morno e o girou na boca.
— Meu pai não reage a muita coisa hoje em dia. Então ele não vai ser um problema. Minha
mãe… — Ele fez uma pausa. — Ela vai ficar furiosa ou começar a planejar o nosso
casamento, talvez as duas coisas. Ela anda meio imprevisível desde a guerra.
— Eu tenho que me preocupar com a minha segurança? — Hermione sabia que a família
Black era formidável, e a ideia de ter que cuidar das próprias costas contra uma Narcisa
Malfoy furiosa, atrás dela por ter maculado a linhagem de sangue, não a encantava nem um
pouco.
— Duvido. Mamãe nunca foi tão linha-dura quanto meu pai. Mas quase certamente vai fazer
alguns… comentários. Mesmo que não esteja brava, provavelmente vai acabar dizendo algo
tremendamente insensível em algum momento. Então, desculpa de antemão por qualquer
bobagem que Mamãe inventar. — Ele fez uma pausa e respirou fundo, encontrando os olhos
dela com expressão séria. — Mas eu te prometo uma coisa: se ela passar do ponto, eu dou um
jeito de não deixar que chegue perto de você ou do nosso bebê.
Hermione se inclinou por sobre a mesa para apertar a mão dele antes de voltar a mexer na
metade de torta que ainda restava no prato.
— Obrigada, Malfoy, eu agradeço. Eu sei o quanto sua mãe significa para você.
— Não tem de quê, Granger. Eu protejo a minha família, mesmo dela própria — A sombra
que passou pelo rosto de Malfoy disse a Hermione que ele não estava sendo figurado, mas
falando a partir de experiência duramente conquistada. — E os seus pais?
— Ah, isso não vai ser um problema — ela respondeu, com um sorriso trêmulo. — É do
Harry que você precisa tomar cuidado.
Hermione teve a sensação de que Malfoy tinha arquivado a evasiva dela para referência
futura, mas ele acompanhou a deixa com um gemido teatral.
— Ele vai voltar a me seguir por aí com aquela maldita capa dele? Eu vou ter que evitar
banheiros no futuro próximo? Não estou procurando aumentar minha coleção de cicatrizes
nesse momento.
— Vai saber? Eu fiz ele prometer que não vai lançar maldições desconhecidas em ninguém,
ele precisa pesquisar direito antes. — A guerra deixara a maior parte da geração deles com
um senso de humor bem sombrio. Algumas das piadas contadas quando se reuniam no
Caldeirão Furado fariam o cabelo de qualquer um que não tivesse passado pelo que eles
passaram se arrepiar.
— Bem, contanto que isso me deixe vivo o suficiente para conhecer meu filho, acho que ele
pode ficar me espreitando à vontade com esse coraçõezinho estranho dele — Malfoy voltou a
focar no assunto, os dedos longos acariciando distraidamente a alça da xícara. — Você já viu
algum curandeiro?
— Ainda não, eu queria esperar até decidir o que faria. Na verdade, vou passar em Mungus
para marcar uma consulta depois daqui. — Ela ergueu o pulso e puxou o punho da blusa para
ver as horas. — E eu provavelmente devia ir agora. Tenho trabalho em casa que preciso
terminar antes de amanhã. Obrigada por ter se encontrado comigo, Malfoy.
Malfoy se levantou junto com ela, enquanto ela desfazia os feitiços, uma mão espalmada
sobre o estômago de um jeito que fez Hermione pensar nos cavalheiros dos dramas de época
que a mãe sempre adorara.
— O prazer foi meu. Você… você quer que eu vá com você quando marcar a consulta?
Hermione percebeu o esforço dele para não parecer ansioso e pesou isso contra a tempestade
instantânea na imprensa que essa atitude criaria.
— Obrigada, mas não. — Suspirou. — Por mais que eu deteste, provavelmente devo garantir
primeiro que os jornais saibam que estou separada do Ron há um tempo. Caso contrário, vai
saber que escândalo inventariam. Vou pedir emprestada a coruja da Gina esta tarde para te
avisar quando vai ser, porém.
Malfoy escondeu bem a decepção, apenas pegando o livro surrado e segurando-o um pouco
apertado demais com as duas mãos.
— Compreensível, eu notei que você e o Potter ainda são perseguidos por eles sempre que
fazem algo fora da rotina. — Ele inclinou o peso do corpo um pouco para frente e, em
seguida, recuou sobre os calcanhares. — Por que você não vai primeiro, então? Acho que vou
levar uma dessas tortas para casa para os meus elfos. Eles adorariam tentar fazer uma, se
você voltar aqui algum dia.
Refletindo sobre o significado daquilo, Hermione lançou um disfarce sobre o cabelo e o rosto
para esconder a própria identidade das pessoas na sala de espera e se colocou diante dos
manequins, pronta para tornar tudo aquilo real ao marcar uma consulta.
Chapter 5: Semana Quatro, parte 2
Hermione largou o jornal sobre a mesa de trabalho entulhada com um suspiro e massageou as
têmporas com dois dedos, tentando forçar a dor a desaparecer. A dor de cabeça e o cansaço
que vinha sentindo nas últimas duas semanas tinham disparado assim que ela viu o jornal
naquela manhã, enquanto atravessava o Átrio. Tentara manter a mensagem que tinha enviado
no dia anterior ao Profeta seca e concisa, mas eles sempre tiveram uma queda pelo
sensacionalismo desenfreado em detrimento dos fatos.
Dizia a manchete estampada na primeira página, sobre fotos separadas dela e de Ron com
semblantes tristes, com pontos de exclamação demais para o conforto de Hermione. O resto
do artigo não era muito melhor, embora felizmente fosse leve em detalhes e as especulações
se mantivessem quase respeitosas pelos padrões do Profeta. Se Hermione tivesse algo a dizer
sobre o assunto, os detalhes do término com Ron jamais veriam a luz do dia. Não para
proteger Ron ou a própria dignidade, mas porque a fofoca que isso causaria a deixaria mais
louca do que Bellatrix.
Lendo com expressão sombria frases como A separação foi mantida em segredo por bem
mais de um mês para proteger seus corações partidos e Só podemos ter esperanças de que
uma amizade tão verdadeira não será manchada por esse romance tragicamente fracassado,
Hermione ficou excepcionalmente contente de ter enviado o comunicado diretamente para a
mesa de Skeeter; dentro de um pote de geleia inquebrável. Só Merlin sabia o que aquela
mulher repugnante teria se sentido tentada a escrever se não tivesse sido lembrada de que
Hermione conhecia o segredinho insetoide dela.
Do jeito que estava, Hermione esperava um show de horrores de proporções épicas nas
páginas do dia seguinte, porque hoje era a primeira consulta de pré-natal com o curandeiro.
Ela tinha mandado uma coruja para Malfoy com horário e local assim que voltara de Mungus
no dia anterior, com um bilhete curto deixando a decisão de aparecer ou não a cargo dele.
Embora, dado que ele parecia mais apegado à ideia daquele bebê do que ela mesma,
honestamente a deixaria mais surpresa entrar na sala de espera do curandeiro e não encontrá-
lo lá já instalado.
Jogando o maldito tabloide de fofocas no cesto de lixo antes que se sentisse tentada a tocá-lo
fogo, Hermione se endireitou para terminar a segunda versão de um relatório que, com sorte,
seria o começo de uma legislação para garantir proteção da qualidade da água ao redor de
colônias conhecidas de sereianos. Assim que pegou a pena, porém, alguém pigarreou na
porta, fazendo-a sobressaltar e espirrar tinta por todo o pergaminho.
Harry ergueu as mãos no gesto universal de rendição e entrou na minúscula sala, hesitando
antes de fechar a porta.
— Não vim. Eu trouxe uma visita. — Ele parecia bastante contrariado, o que significava que,
muito provavelmente, era uma de duas pessoas. E, se a tal visita tivesse cabelo ruivo,
Hermione jurava que ia enfeitiçar os dois até ficarem irreconhecíveis.
Recostando-se na cadeira e cruzando os braços com força sobre o peito, Hermione fuzilou o
melhor amigo rabugento com o olhar.
— Quem?
Malfoy se acomodou em uma das cadeiras dela, espiando brevemente os papéis espalhados
pela mesa com interesse.
— Nada nefando. Eu pensei em dar uma escapadinha até aqui para ver como você queria
lidar com a minha presença na consulta com o Curandeiro, e o Potter me encontrou rondando
o Átrio. Teve pena da minha alma perdida. — Malfoy virou a cabeça para erguer uma
sobrancelha altiva na direção de onde Harry se apoiava na estante abarrotada de livros de
Hermione, guardando a Capa da Invisibilidade em um dos bolsos internos das vestes
carmesim de Aurora, com um olhar pétreo para Malfoy. — Depois de me avisar
detalhadamente sobre as consequências se eu não me comportasse, claro. Agora e no futuro.
— Por favor, eu tenho muito mais medo da Granger do que de você, Potter — Malfoy
cantarolou na voz tenor macia, catando fiapos imaginários do suéter azul-marinho.
Hermione notou que era outro suéter trouxa e se deu conta de que, desde a noite no bar, não
tinha visto Malfoy usar nenhuma roupa bruxa tradicional. Na verdade, as últimas vestes que
tinha visto nele tinham sido no julgamento, logo após o fim da guerra. Ele usara um terno
escuro que ficava exatamente na fronteira entre o corte bruxo e o trouxa para se apresentar ao
tribunal; Harry achara que poderia ter sido um truque para fingir que Malfoy era mais
receptivo a coisas de tendência trouxa, numa tentativa de angariar simpatia junto ao juiz do
Wizengamot que presidia o caso, quando ela chamou a atenção dele para isso.
— Vocês dois vão se comportar? A gente não é mais criança. — Ela apontou para a porta. —
Ou param de brigar, ou saem, por favor. — Não era um pedido, era uma ordem, e ambos
sabiam disso.
Malfoy virou a cabeça por completo em direção a Harry, com um esgar de nojo no rosto.
— Ela tem muito mais voz nisso do que você, Potter. Vai nos deixar conversar, por gentileza?
Hermione sentiu uma estranha sensação de alívio na maneira como Malfoy pronunciou o
sobrenome de Harry, cheio de P’s e T’s duros e R’s engolidos. Aquilo era familiar de um jeito
curiosamente reconfortante. Malfoy não parecia mais o babaca preconceituoso que fora um
dia, mas saber que algumas coisas nunca mudavam enquanto ela passava por um tremendo
tumulto pessoal era um pensamento agradável. Mesmo que tivesse acabado de avisar que era
melhor os dois pararem de brigar.
— Meninos — ela advertiu, satisfeita quando os dois se voltaram para ela com cautela. —
Harry, se você não tem nada a acrescentar, eu te vejo hoje à noite lá em casa para o jantar.
Malfoy, para que você veio aqui? Eu te mandei os detalhes da consulta ontem à noite.
— Recebi a sua coruja. Bem pouco detalhada, Granger. Duas linhas com horário e lugar são
ótimas e tal, mas você não disse nada sobre se queria que eu fosse. Ou se queria que eu fosse,
mas com algum disfarce extravagante para impedir os urubus do Profeta de presumirem
coisas sobre nós. — Malfoy inclinou o queixo e ergueu uma sobrancelha para ela, com uma
expressão feita sob medida para fazê-la se sentir tola.
— Honestamente, Malfoy, eu te mandei horário e lugar justamente para você decidir por
conta própria. — Hermione ergueu as mãos, exasperada, e estalou a língua.
Malfoy olhou de soslaio para Harry, mordendo a própria língua por um instante antes de
suspirar e voltar a atenção para ela.
— Eu aprecio isso, Granger. Mas, por favor, seja mais comunicativa no futuro, eu não quero
ultrapassar os limites que você estabelecer.
Hermione viu a expressão de choque de Harry diante da repreensão polida de Malfoy e tentou
não rir do quanto ele parecia ridículo, para que Malfoy não achasse que era dele que ela
estava rindo.
— Eu vou tentar. Desculpa, Malfoy, você tem sido muito compreensivo até agora, e eu devia
ser mais aberta se queremos construir uma boa relação de coparentalidade. — Hermione
passou a língua pelos lábios e tamborilou os dedos sobre a mesa, pensativa. — Eu nem pensei
em sugerir um disfarce, para ser honesta. Eu mudei cabelo e rosto para ir marcar a consulta,
mas sei que isso está fadado a vazar depois de hoje mesmo que eu faça o mesmo. Acho que
só presumi que ia lidar com as coisas conforme fossem acontecendo.
— Tão Grifinória da sua parte. Você sabe que as pessoas vão presumir que você traiu o
Weasley comigo, certo? — Malfoy observou, sem deixar de ser razoável.
Hermione apertou os lábios em uma linha dura.
— Eu sei. Por mais que eu preferisse adiar para as pessoas descobrirem, especialmente
considerando que a notícia do término entre mim e o Ron está só hoje no jornal, se você
quiser estar lá hoje eu não vou te impedir.
— Claro que eu quero estar lá, mas, francamente, já que você está carregando meu filho, não
quero fazer isso às custas de colocar ainda mais pressão em você. Tenho certeza de que,
assim que descobrirem quem é o pai do seu bebê, as pessoas vão fazer as contas e chegar à
conclusão errada de qualquer jeito, mas, se pudermos evitar jogar esse peso em cima de você
quando estiver no maior risco, devemos fazê-lo. — A voz cortante de Malfoy apontando com
naturalidade o risco real fez tudo aquilo parecer ainda mais concreto. — O primeiro trimestre
é complicado, Granger. Eu não quero pôr o nosso bebê nem você em risco sem necessidade.
Então estou meio encurralado, porque eu realmente quero estar lá.
— Eu… posso ter uma solução. Na verdade, a Gina é que tem uma solução. — Ele levantou
os olhos para o teto, como se rezasse por forças. — Eu estava justamente indo falar com a
Hermione quando vi o Malfoy.
— Não. Porque eu não tinha certeza de até que ponto podia confiar em você, para ser honesto
— declarou Harry sem rodeios, os olhos verdes brilhantes e implacáveis por trás dos óculos.
— Enfim, a Gin me barrou antes de eu sair de casa hoje de manhã com o plano genial dela
pra evitar publicidade extra, mas ainda assim deixar o Malfoy ir na consulta. Porque
aparentemente ela tá completamente a bordo do trem Malfoy agora. — Acrescentou, com
uma boa dose de amargor.
Hermione olhou para o amigo de olhos bem abertos, adivinhando o que ele queria dizer.
Harry fez uma careta para ela e, em seguida, franziu o cenho para Malfoy.
— Só se ele prometer não se aproveitar e fazer nenhuma idiotice enquanto tiver a minha cara.
Malfoy estava olhando para o chão enquanto eles falavam, o queixo afiado enfiado no peito e
as sobrancelhas puxadas para o meio. Quando Harry pediu a promessa, ele se levantou de
repente e foi ficar bem na frente de Harry, cujo treinamento de Auror entrou em ação e pôs a
varinha na mão antes que qualquer um pudesse piscar.
Malfoy ignorou a varinha apontada para o próprio peito e estendeu a mão à frente, para Harry
apertar.
— Obrigado. Digo isso sério. E eu absolutamente prometo que não vou fazer nada para
manchar o seu bom nome enquanto estiver usando o seu rosto. Pelo que você tá fazendo por
mim, eu juraria isso até sobre a minha magia, se fosse preciso.
Harry encarou a mão de Malfoy por um longo momento antes de voltar a olhar para o rosto
dele.
— Sabe de uma coisa, eu acredito em você. — Pegou a mão de Malfoy com um aperto
brusco e a sacudiu uma vez, antes de enfiar a mão nas vestes carmesim de Auror, de onde
tirou dois frasquinhos pequenos, entregando-os a Malfoy. Depois ergueu a outra mão e
arrancou dois fios de cabelo da própria cabeça, estendendo-os. — Duas doses, duas horas,
pro caso de vocês precisarem. A Ginny vai encontrar vocês dois no Átrio quinze para uma;
vocês vão os três pela lareira até Mungus, e então a Ginny vai sair pra tomar um chá
enquanto vocês dois veem o curandeiro. Tudo que você precisa fazer lá dentro é deixar a
Hermione falar e dizer ao Curandeiro que vocês vão deixar a identidade do pai de fora por
enquanto. Talvez fazer umas ameaças sutis se não quiser que ele espalhe isso por aí. Eu vou
ficar escondido no meu gabinete fazendo papelada até a consulta de vocês acabar, então a
Ginny vai trazer o Malfoy de volta pro meu gabinete e depois sair com ele por baixo da
minha capa quando for embora, assim ninguém desconfia que não fui eu quem estava com
você. Que tal?
Hermione sorriu ao ouvir Harry escorregar para aquilo que chamava de “Modo Briefing” e se
levantou para abraçá-lo, enquanto Malfoy conjurava outro frasquinho minúsculo para guardar
os cabelos de Harry até que fossem necessários.
— Obrigada, Harry. Isso tira um peso enorme das minhas costas — murmurou no ombro
dele.
Harry deu uns tapinhas nas costas dela com a mão quente e apoiou a bochecha no topo da
cabeça de Hermione.
— Agradece a Gin, não a mim. Ela teve que prometer que ia aprender a fazer o pudim de
melado da Molly pra eu topar.
Harry riu.
— É, justo. A Walburga era uma megera de primeira. Mas eu diria que, nesse ponto, você
puxa mais à sua mãe. — Ele afastou Hermione de si e apertou os ombros dela. — Certo, eu
vou indo. Por favor, garante que ele não faça aquela cara metida enquanto tiver a minha, tudo
bem? — Harry pediu, já girando a Capa sobre os ombros. Hermione não tinha certeza de
quão sério ele estava sendo.
— Ah, sim, vou me esforçar para parecer o mais pateta possível, então — retrucou Malfoy.
Hermione suspirou e empurrou Harry em direção à porta. Se eles parassem de brigar, ela
ainda conseguiria revisar os primeiros dois pés do relatório antes de ter que encontrar a
Ginny.
Perceber o jeito nada discreto com que a bruxa do balcão do consultório de pré-natal
arregalava os olhos para Hermione e “Harry” fez Hermione ficar extremamente grata a Ginny
e Harry pelo plano. Se Malfoy estivesse ali como ele mesmo, ela tinha certeza de que a loira
boba atrás da mesa já estaria mandando uma coruja para o Profeta com o máximo de detalhes
sórdidos que conseguisse enfiar em um pergaminho, só para ver se conseguia enfiar a história
na edição da noite. Do jeito que estava, Hermione achava que talvez tivessem até a edição da
manhã antes de a notícia estourar. Ela teria que avisar a Ginny para estar na Toca quando o
jornal chegasse; afinal, prometera que a Ginny estaria lá quando o Ron descobrisse.
Malfoy pousou uma mão sobre o joelho dela para impedir que ele continuasse pulando e se
inclinou para murmurar, numa imitação perturbadoramente boa da voz do Harry, em seu
ouvido:
— Se você olhar com mais força pra essa secretária, ela vai pegar fogo. — Comentou em voz
baixa.
— Eu só sei que ela vai estar com a carta pro Profeta pronta assim que a gente sair. Ela tá
praticamente salivando em cima da fofoca — sibilou, no mesmo volume dele.
Malfoy escondeu um sorriso que ficava completamente errado no rosto aberto do Harry e
ergueu uma sobrancelha para ela.
— Duvido que ela espere tanto. Aposto que vai disparar pro corujal assim que a gente entrar
com o Curandeiro.
— Hmm, que tal jantar na sexta? Se ela esperar, você escolhe o lugar; se ela sair correndo
assim que chamarem a gente, eu escolho o lugar. — Malfoy reajustou os óculos do Harry
quando eles escorregaram mais uma vez pelo nariz. Hermione acrescentou “óculos novos” à
lista de compras que ia montando mentalmente para o Harry.
Malfoy apertou a dela, depois lançou um olhar na direção do barulho de uma porta se
abrindo.
— Srta. Granger, por que não vem entrar? — disse, com um sorriso e as sobrancelhas
erguidas de surpresa por trás dos óculos grossos de casco de tartaruga.
— Desculpa, Hilary, você se importa se eu for pegar alguma coisa pra comer agora? —
perguntou em tom melosamente doce.
Malfoy lançou a Hermione um sorriso triunfante quando a Curandeira lhe deu permissão e
eles entraram na sala. Infantilmente, Hermione mostrou a língua para ele pelas costas da
Curandeira antes de voltar a sorrir com inocência enquanto a outra bruxa se sentava à
escrivaninha encostada à parede e fazia sinal para que ocupassem as duas cadeiras ali ao lado.
— Devo admitir que, quando vi o seu prontuário esta manhã, achei que fosse trote. Não seria
a primeira vez que alguém usa o nome de uma pessoa famosa em vez do próprio,
infelizmente — disse a Curandeira Agg num tom ágil, abrindo uma pasta sobre a mesa e
tocando com a varinha curta na pena, que se ergueu e passou a pairar sobre o arquivo. — Sou
a Curandeira Agg, é um prazer conhecer vocês dois. O que traz vocês aqui hoje?
Hermione respirou fundo e lançou um olhar rápido para Malfoy antes de baixar os olhos para
a própria barriga ainda lisa.
— Bom, veja bem… — Hermione foi murchando a voz, de repente sem saber como dizer.
— Hã, um pouco menos de cinco semanas? Eu sei quando a… concepção deve ter
acontecido.
— Que precisão! E este é o pai? — A pena branca voou até pairar sobre um ponto específico
do prontuário, e Hermione teve a impressão de que ela ouvia tão atentamente quanto a
Curandeira.
— O Harry não é o pai. Eu preferia deixar a parte do pai fora da papelada por enquanto. Se
tudo bem?
— Claro, mas se você puder me dar qualquer histórico médico dele, isso obviamente
ajudaria.
Hermione viu Malfoy fazer um pequeno aceno afirmativo com a cabeça pelo canto do olho.
— Sim, tenho certeza de que posso conseguir isso pra você. Ele quer participar, só que… eu
não tô querendo ser ofensiva, mas sei que isso provavelmente vai virar um pouco de
escândalo e me preocupo com a privacidade do Ma… dele.
— Claro, minha querida. Eu, é claro, tentarei manter seus assuntos particulares realmente
particulares, mas sei que aqueles malditos repórteres vão estar em cima de você nesse
momento. Quando você se sentir à vontade, pode me contar, mesmo que queira manter o
nome fora de qualquer papelada.
Hermione sentiu um pequeno peso sair de seus ombros diante da gentileza e compreensão da
Curandeira.
— Ah, hã. Vinte e seis de setembro. Eu não tinha… — Ela olhou de relance para Malfoy e
engoliu em seco. — É a única vez em que poderia ter acontecido nos últimos três meses. —
Ela viu as sobrancelhas, atualmente escuras, de Malfoy subirem por cima dos óculos do
Harry, mas ele, felizmente, não disse nada.
— Bem, isso já reduz bastante. Tem mais alguma coisa que você gostaria que eu soubesse
antes de começarmos o exame?
— Tem uma coisa. — Hermione se preparou e implorou a Merlin e a Deus que a Curandeira
Agg não causasse alarde. — Na noite em que isso aconteceu eu tinha consumido
acidentalmente uma versão concentrada da poção Razorano Pole. Veja bem, é da mesma cor
que o meu anticoncepcional e acho que eu não estava prestando atenção o suficiente. E aí,
bom, eu tive um dia bem ruim depois disso e acabei bebendo bastante álcool, não consegui
encontrar nada falando se isso podia afetar a poção. Aí eu encontrei alguém por acaso e… —
Hermione piscou e se interrompeu, percebendo que começara a divagar só quando Malfoy
pousou a mão sobre o joelho dela e apertou com firmeza antes de soltá-la e entrelaçar os
dedos sobre o próprio joelho cruzado.
Os lábios finos da Curandeira Agg se fecharam com tanta força que praticamente
desapareceram, e ela assentiu devagar quando Hermione parou.
— Entendo. Não vou fingir que conheço exatamente as suas circunstâncias, mas acho que
posso imaginar. Vou ser franca, Srta. Granger: Razorano é altamente eficaz, e você não é a
primeira moça que eu ajudo nessa situação. Você pode ser honesta comigo, não vou julgá-la.
Agora me diga, você está segura? — perguntou, com um olhar gentil, mas de quem sabe
muito bem.
Hermione prendeu o ar; de algum modo, a Curandeira Agg sabia que aquele “Harry” não era
o Harry. A mulher era perspicaz o bastante para que Hermione começasse a entrar em pânico,
temendo que ela descobrisse tudo.
— Não vou insistir mais nesse assunto, Srta. Granger, mas se você precisar de qualquer coisa,
por favor, sinta-se à vontade para usar a Lareira deste consultório. Você prefere continuar
com o exame agora ou precisa de um tempo?
Hermione apreciou o jeito direto da Curandeira; ela era gentil, mas obviamente sagaz o
bastante para adivinhar que Hermione quereria a distração.
A Curandeira Agg ergueu a varinha e uma maca confortável de exames deslizou para fora da
parede oposta; ela apontou para lá com um sorriso calmo, como se Hermione não estivesse a
um fio de cair no choro.
— Se puder se deitar ali, podemos começar. — Esperou Hermione se deitar, as mãos rígidas
ao lado do corpo, antes de se aproximar e pairar as mãos sobre o abdômen dela. — Se
importa se eu levantar um pouco a sua blusa?
Hermione assentiu, evitando olhar para onde Malfoy observava, curioso, da cadeira. Ele
havia se inclinado para frente quando ela se levantou, como se tivesse intenção de
acompanhá-la, mas recuara no último instante. Agora se inclinava de lado, tentando enxergar
em volta da Curandeira enquanto ela desabotoava os botões de baixo da blusa e empurrava o
cós da saia sensata alguns centímetros para baixo.
— Certo, vamos ver o que temos aqui. — As mãos da Curandeira Agg estavam frias, mas
não de forma desagradável, e ela apalpou o ventre de Hermione com delicadeza, sobre o
útero. — Hmm, já bem firme. Você está sentindo algum sintoma?
— Um pouco de náusea, principalmente quando estou com fome. Acho que dor de cabeça e
cansaço também. Ah, e meus seios estão meio doloridos hoje — Hermione corou e não
resistiu a lançar um olhar de esguelha para Malfoy, encontrando os olhos divertidos dele por
um instante antes de voltar a focar na Curandeira, que examinava o abdômen com toques
leves.
— Parece adequado. Bem, até agora tudo certo. Hora do diagnóstico, eu diria. — Ela pegou a
varinha de onde havia deixado, na ponta da maca, e a passou sobre o estômago de Hermione
em um padrão rápido demais para ela acompanhar.
Uma esfera de cores surgiu sobre a barriga de Hermione e subiu até a altura dos olhos da
Curandeira Agg, padrões de cores girando rapidamente antes de se fixarem em uma
configuração estática de roxo, dourado, branco, turquesa e um tom esverdeado-alaranjado
estranho.
— Foi o que eu imaginei — disse a Curandeira Agg, com um sorriso satisfeito. Depois girou
a varinha e enviou o orbe para o prontuário, onde ele mergulhou no pergaminho, surgindo
desenhado ao pé da página. — Certo, pode abotoar a blusa de novo e então conversamos.
Quando todos estavam acomodados de novo em suas respectivas cadeiras, Hermione segurou
a mão de Malfoy na dela, em busca de conforto. Mesmo sabendo que não era realmente o
melhor amigo por baixo do polissuco, e que ele se portava de um jeito completamente
diferente, a mão quente e familiar do Harry era exatamente o que ela precisava naquele
instante para afastar o pânico.
— Absolutamente, querida. Você está em perfeita saúde para uma futura mãe. — A
Curandeira Agg reclinou-se na cadeira e sorriu benignamente para os dois. — Assim como os
bebês.
— Eu disse. — A Curandeira Agg pousou a mão sobre as mãos entrelaçadas dos dois. —
Parabéns, Srta. Granger, você está esperando gêmeos.
Chapter 6: Semana Cinco
Hermione ia ter que invadir o Profeta Diário e roubar todos os pontos de exclamação do
departamento de impressão. Era verdadeiramente ridícula a forma como eles abusavam deles.
O artigo abaixo da manchete estava cheio das especulações e fofocas que ela esperava, mas
ainda assim era desanimador de ler. Pelo menos o fato de Ginny ter entrado na sala de espera
dos Curandeiros com eles antes de disparar para tomar chá tinha feito com que Harry fosse
listado como “amigo solidário” em vez de “pai em potencial”. Essa última lista parecia
incluir todos os bruxos elegíveis da Grã-Bretanha, exceto o verdadeiro pai, o que divertia
Hermione até não poder mais. Nem mesmo a notoriamente fantasiosa sessão de Fofocas do
Profeta cogitou a hipótese de Hermione Granger fazer sexo com Draco Malfoy.
Hermione tinha tirado o dia de folga assim que voltou ao trabalho no dia anterior, limitando-
se a dizer a Barnabus — seu chefe de departamento gentil, porém sobrecarregado — que não
apareceria até sexta-feira, quando teriam a reunião departamental. Abençoada fosse sua alma
cansada, o homem apenas a dispensara com uma palavra amável sobre ela estar com a
aparência abatida ultimamente e uma oferta de alguns potes da canja de galinha da esposa, se
ela quisesse. Hermione sentiu uma pontada de culpa com isso e acabou se sentando para
confessar o motivo da ausência, para que Barnabus não fosse pego de surpresa se repórteres
aparecessem farejando por ali no dia seguinte. Ela omitiu a maior parte dos detalhes, mas ele
disse que entendia e que nem contaria à própria esposa, se Hermione não quisesse que mais
ninguém soubesse ainda. Hermione quase chorou, de tão comovida com o apoio silencioso
dele.
No meio da sua xícara de chá matinal e de um plano para tomar as oficinas de impressão do
Profeta como reféns até que aprendessem gramática melhor, a pequena lareira de Hermione
rugeu à vida e cuspiu uma Ginny frenética na sua sala.
— Ainda bem que você tá bem! — exclamou Ginny, brandindo a varinha para proteger a
lareira com seus próprios feitiços.
Hermione pousou o chá com cuidado e a examinou com atenção. A outra bruxa ainda estava
de pijama, e o cabelo parecia que ela tinha cavalgado por um furacão ou, mais
provavelmente, simplesmente não o tinha penteado ainda.
Ginny se jogou no sofá ao lado de Hermione e deixou a cabeça cair para trás.
— Como? — Hermione estava genuinamente curiosa. Então se lembrou de que Ginny tinha
ficado na Toca na noite anterior para ver a reação de Ron à notícia no jornal da manhã.
Tecnicamente, Ginny ainda morava na Toca, mas passava tanto tempo em Grimmauld com
Harry que era como se morasse lá. — Ginny… o que você falou pro Ron?
— Ginny, por favor só me conta o que aconteceu. Eu gostaria de saber com o que vou ter que
lidar. — Hermione cerrou os dentes. A última coisa de que precisava era Ron tentando
derrubar os feitiços de proteção dela numa fúria ardente. Não que ele fosse conseguir, mas
era definitivamente um tipo de estresse com o qual ela não queria lidar se os vizinhos
ouvissem confusão.
— Certo, é. Então, eu fiquei em casa ontem à noite pra poder ficar de olho no Ron, caso ele
desse um chilique por você estar grávida quando visse o jornal. Eu não queria que ele fizesse
alguma burrice e te estressasse; até coloquei o despertador pras sete, pra acordar antes dele e
tudo. Só que, pelo visto, ele tinha alguma coisa pra fazer hoje e resolveu acordar cedo pela
primeira vez em sei lá quantos anos, então quando meu despertador tocou ele já tava sentado
no meu quarto segurando o jornal. — Ginny despejou as palavras, tão pálida que as sardas
pareciam saltar da pele.
Hermione gemeu.
Ginny passou os dedos pelos cabelos longos, fazendo careta quando trombava com nós.
— Ele tava estranhamente calmo; você conhece o Ron, ele nunca tá calmo. Mas ele tava só
sentado na ponta da cama, esperando eu levantar. Quando vi ele, eu não consegui pensar em
nada pra dizer, então só fiquei olhando feito uma idiota completa, e aí ele só falou: “Você
sabia, não sabia.” Nem esperou eu dizer qualquer outra coisa, disse que sabia que eu sabia de
qualquer jeito. Aí perguntou se o jornal tava dizendo a verdade e se você tinha traído ele. Ele
meio que respondeu sozinho logo em seguida e falou “claro que ela não traiu, isso é culpa
minha mesmo”. Aí começou a ficar com raiva, ficou todo vermelho e tudo. Jogou o jornal no
meu lixo e disse “eu tenho que ir acertar umas coisas” e aparatou direto do meu quarto. — As
palavras saíam num jorro tão aflito que Hermione ficou atônita ao ver que a amiga parecia
prestes a chorar. — Eu sinto muito, Hermione, eu não falei nada! Eu tava lá pra impedir ele
de fazer alguma estupidez e simplesmente deixei ele ir embora!
— Shhh, tá tudo bem. Como é que você ia saber que o Ronald ia acordar cedo pela primeira
vez na vida justamente hoje? — acalmou.
— Claro que tinha que ser hoje. Eu só tô tão arrependida de não ter parado ele, eu devia ter
agarrado ele ou sei lá, mas eu ainda tava meio dormindo. — Ela se endireitou e enxugou os
olhos com um fungado. — Desculpa, eu não devia ficar chorando em cima de você, você
provavelmente tá passando por um dia bem pior do que o meu.
— Nem tanto, pra ser honesta. Eu só tava planejando roubar todos os pontos de exclamação
do Profeta quando você entrou.
Ginny passou os olhos rapidamente pelo jornal, as íris castanhas correndo pelo artigo.
— Bom, isso aqui não tá tão ruim quanto a gente pensou. Como você tá se sentindo? —
perguntou, abrindo o jornal para vasculhar o resto do texto.
— Sinceramente? Tô bem. Eu tava muito ansiosa com o que eles iam escrever, mas acho que
fiquei dessensibilizada com a palhaçada deles, porque, quando o jornal chegou, tudo em que
eu conseguia pensar era em como é engraçado o Malfoy não estar listado como um dos
possíveis pais.
As sobrancelhas de Ginny dispararam para cima e ela fuçou o jornal até achar a lista.
— Tetas enrugadas de Morgana, até o Kingsley tá aqui! E todos os meus irmãos! Até o Bill e
o Percy, e os dois são casados! — Quando terminou a leitura acelerada da lista, Ginny já
estava rindo às gargalhadas. — Eles enfiaram até o Zabini aqui, e eu tenho quase certeza de
que ele não põe os pés na Inglaterra desde que a guerra acabou. Como diabos eles
conseguiram deixar de fora o Malfoy?
Hermione deu de ombros e pegou a xícara de chá, descobrindo que estava vazia.
— Quero, com leite e um de açúcar. O Profeta continua a surpreender. Como é que eles
conseguem insinuar ao mesmo tempo que você traiu o Ron e que ele te engravidou e caiu
fora? Eles nunca conseguem decidir se amam ou odeiam vocês três.
Hermione suspirou enquanto usava a varinha para ferver a água e despejá-la em duas xícaras.
— Eu sei. Pelo menos o Harry não tá sendo atacado. O pior que falam dele é se perguntar se
as lealdades dele vão ficar divididas entre nós dois, e isso eles já estavam dizendo no jornal
de ontem.
Ginny jogou o jornal de volta na mesa e aceitou a xícara que Hermione lhe entregou.
— Obrigada. Fico feliz que a gente tenha conseguido manter o Harry fora disso, mas queria
que eles te deixassem em paz.
Hermione assentiu.
— Sim. O Barnabus foi muito gentil com isso. Vou voltar na sexta, mas eu não tava com
cabeça hoje.
— Certo, então que tal a gente jogar umas cartas e eu faço almoço pra você depois?
Hermione se afundou ainda mais no sofá e enfiou os pés debaixo das coxas de Ginny.
Tanto Hermione quanto Ginny foram ficando progressivamente mais nervosas à medida que
o dia passava, esperando que Ron irrompesse pela porta a qualquer momento, berrando por
causa do jornal. Mas ele permaneceu estranhamente ausente. Quando Harry apareceu para o
almoço, elas perguntaram se ele tinha tido notícias de Ron, e ele disse que não tinha ouvido
nada desde o dia em que Hermione o expulsou. Hermione chegou até a mandar uma carta
para Malfoy, caso Ron de alguma forma tivesse descoberto que ele era o pai e tivesse ido
atrás dele, mas Malfoy também não tinha visto nem sombra do ex-namorado dela. No geral, a
expectativa era muito pior do que se Ron simplesmente tivesse explodido com ela e
encerrado o assunto.
Elas finalmente descobriram o que ele estava “acertando” quando Harry voltou para o jantar,
saindo da lareira com o indiano favorito de Hermione nas mãos e uma expressão carregada
no rosto.
— Harry? O que houve? — Hermione observou o melhor amigo largar o saco de comida e o
acompanhou até a cozinha.
— Descobri o que o Ron andou aprontando. Toma. — Ele entregou a Hermione um exemplar
do Profeta da Noite quando Ginny se juntou a eles.
— O que meu irmão idiota fez? — Ginny olhava para o jornal dobrado nas mãos de
Hermione com olhos arregalados e o rosto rapidamente avermelhando, marcas registradas do
famoso temperamento Weasley.
— Nada de terrível. Ou pelo menos, nada muito terrível. É melhor você ler.
Hermione abriu o jornal com as mãos trêmulas e o apoiou na mesa da cozinha, ao lado do
saco de curry, enquanto Harry se ocupava de pegar pratos e talheres.
Até agora nada havia sido ouvido de Ronald Weasley sobre o término, que aparentemente
aconteceu há mais de um mês, apesar de ter sido anunciado apenas ontem. Imaginem minha
surpresa hoje, quando o garboso Herói da Segunda Guerra entrou no meu escritório pedindo
uma entrevista exclusiva assim que abrimos para o expediente!
Hermione ergueu os olhos para Harry, sem esperança, justo quando ele começava a servir a
comida para todos.
— Continua lendo, Hermione — disse, colocando um prato com frango tikka e malai kofta
diante dela.
“Ah, é, igualmente. Olha, eu queria falar sobre o artigo desta manhã.” Ronald está muito
bonito hoje em seu adorável suéter de tricô caseiro, os olhos azuis brilhando de sinceridade.
“Claro! O que posso fazer por você, Ronald? Tudo bem se eu chamá-lo assim?”
“Claro, sem problema.” Ronald faz uma pausa e puxa do bolso uma cópia do artigo sobre a
gravidez da Srta. Granger, fitando com carinho o rosto da ex-namorada ali impresso. “Olha,
eu li o artigo e soube que precisava vir aqui esclarecer algumas coisas com a senhora. Para
começar, a Hermione é uma garota maravilhosa e nunca pensaria em trair.” Ele para,
erguendo os olhos para mim, as faces ruborizadas e o rosto cheio de pesar, mas resoluto.
O rosto de Ronald empalidece e ele desvia o olhar, os olhos cintilando com lágrimas não
derramadas. “Amo, sim. A gente pode não estar junto mais, mas ela é uma das minhas
melhores amigas e eu odeio a ideia de as pessoas pensarem que ela me traiu. Ela não traiu,
de jeito nenhum.” O maxilar afiado se contrai quando ele encontra meus olhos. “Não vou
deixar ninguém nem pensar isso.”
Ronald solta um suspiro pesado e me dirige um pequeno sorriso tão triste que parte o
coração. “Por mais que eu quisesse que fosse, se ela estiver mesmo grávida, deve ter
acontecido depois que a gente terminou.”
“Então talvez seja um bebê de vingança? Um jeito de ela se vingar de você pelo término?”
O rosto de Ronald fica vermelho de raiva e ele se levanta, inclinando-se sobre a minha mesa
para mostrar o quanto fala sério. “De jeito nenhum. A Hermione não faria uma coisa tão
mesquinha. Não, isso é outra coisa, e provavelmente culpa minha. Se aconteceu depois do
nosso término, é porque eu… porque eu parti o coração dela quando ela não merecia.” A
defesa sincera do ex-namorado é o bastante para pôr muitos corações jovens a palpitar. Esse é
um homem leal, meninas!
Ronald volta a se sentar, com a cabeça entre as mãos, a própria imagem da miséria.
“Não, foi ela que teve que me pedir pra sair. Mas a culpa é toda minha, com certeza. É isso
que eu quero que todo mundo saiba, que a Hermione não tem culpa de nada, e que tudo de
ruim nessa situação aconteceu por minha causa. Eu a tomei como garantida da pior forma
possível, até que ela finalmente precisou me pedir pra ir embora pra poder ser quem ela
devia ser.” Ele ergue os olhos para mim, as duras lições de amor aprendidas estampadas no
rosto.
“Oh, coitado. Que trágico perder o seu amor assim. Tenho certeza de que você não é o único
culpado, ninguém jamais é.”
Ronald solta uma risadinha descrente e balança a cabeça, o belo cabelo ruivo caindo
suavemente sobre a testa e nos penetrantes olhos azuis.
“Não, infelizmente eu tenho que assumir essa. A Hermione não é perfeita, mas isso aqui é
comigo. Tudo que eu posso dizer é que espero muito que as pessoas me ouçam e entendam
que a Hermione é inocente pelo fim do nosso relacionamento e deve ser deixada em paz, a
não ser que seja pra mandar votos de felicidades. Ela merece pelo menos isso depois do que
eu fiz.” Ronald se levanta, a figura alta carregada de determinação e amor pela mulher que já
não tem. “E eu desejo tudo de melhor pra ela também. Obrigado pelo seu tempo, Srta.
Skeeter; espero que tenha um bom dia.”
E aí está a triste verdade de que, às vezes, o romance que todos nós almejamos simplesmente
não foi feito para durar. Pobre e trágico Ronald, aprendendo tarde demais que tinha
afastado o seu amor. E pobre Srta. Granger, caminhando rumo à maternidade, possivelmente
sozinha. Nós, do Profeta, desejamos o melhor a ambos e esperamos que todos vocês se
juntem a nós nesses votos.”
— Ele sabia que eu não ia querer que ninguém soubesse que ele trocou as poções — disse,
ainda sem acreditar no que tinha lido. Ron tinha ido até Skeeter e a usado para tentar colocar
as coisas no lugar. A mulher horrível tinha tentado atiçá-lo para que a jogasse debaixo do
carro, e ele recusara a isca. Foi impulsivo e, em grande parte, ela preferia que ele não tivesse
feito isso, mas mostrava o quanto ele se arrependia do que tinham acontecido.
— Sabia. Ele também apareceu no meu gabinete hoje à tarde — disse Harry, sombrio.
— O quê? Mas ele não pisa lá desde que largou o treino no meio. Nem pra almoçar com a
gente.
Harry girava um pedaço de naan de alho entre os dedos, mantendo os olhos verdes fixos em
Hermione.
— Pois é, mas hoje ele apareceu. Hermione… ele perguntou se tinha alguma forma do que
ele fez dar problema legal pra ele. E não era pra tentar escapar, não.
— Queria. — Harry largou o pão achatado todo amassado em cima do frango tikka. — Ele tá
arrasado, diz que não tinha entendido o quão feio tinha pisado na bola até ver o jornal de
manhã. Ele quer, sei lá, pagar penitência ou alguma coisa assim. Só não sabe como fazer isso
sem te arrastar pro centro das atenções.
— Ah. — Hermione partiu um kofta com o garfo e levou um pedaço à boca, mastigando
pensativa. — Você pode… pode dizer pra ele que eu vou entrar em contato quando pensar em
algo?
— Não é sua responsabilidade resolver a vida dele agora, Hermione — disse com firmeza.
— Eu sei. Mas pelo menos, se eu estiver no comando, ele não vai dar mais entrevistas.
Chapter 7: Semana Cinco – parte 2
Hermione só se deu conta de que tinha concordado com algo que poderia, possivelmente, ser
considerado um encontro com Malfoy quando ele lhe mandou uma coruja na manhã de sexta-
feira avisando que passaria para buscá-la às sete e pedindo o endereço dela. Ela respondeu
com um bilhete de volta, dando o endereço do seu flat e perguntando como deveria se vestir,
preso na pata da águia-coruja dele. Foi só enquanto via a coruja voar para longe que caiu a
ficha de que isso provavelmente constituía um primeiro encontro. Com o homem que tinha
gerado os bebês que cresciam dentro dela.
— Ah. Bom. — Ela ficou olhando pela janela, mexendo distraidamente no cinto do robe, até
que uma súbita onda de náusea a fez disparar para o banheiro.
Ela não tinha certeza se tinha sido essa realização ou os bebês que a fizeram vomitar a
torrada. Ela nunca lidara bem com nervos e, na verdade, tinha vomitado três vezes antes do
primeiro encontro “de verdade” com Ronald, mesmo que tecnicamente já estivessem
namorando há mais de dois meses naquele ponto. Também havia o detalhe de que ela estava
prestes a voltar marchando para o trabalho depois de todas as revelações dos últimos dias no
jornal. Isso definitivamente não ajudava a ansiedade. Ela queria muito poder lançar alguns
feitiços para se esconder ao atravessar o átrio rumo ao trabalho, mas isso era algo
severamente desaprovado e ela não estava com vontade de lidar com uma bronca por causa
disso.
Resignada ao destino de ser encarada como uma atração de circo, deixou de lado a
preocupação de aparentemente ter um encontro naquela noite e vestiu um tailleur calça trouxa
azul-marinho, colocando as vestes do Ministério dobradas sobre o braço antes de ir para a
lareira. Os temores sobre uma recepção pouco calorosa estavam, infelizmente, totalmente
corretos, e ela nem teve tempo de tirar a fuligem das roupas antes que os sussurros
começassem.
Quando chegou aos elevadores, Hermione já estava de péssimo humor. Havia tantas pessoas
dispostas a comentar sobre sua vida privada, e nenhuma parecia ter um pingo de simpatia por
ela, nem decoro suficiente para esperar que ela estivesse fora de alcance auditivo antes de
começar a fofocar. A tentação de começar a enfeitiçar as pessoas devia estar estampada no
rosto dela, porque, quando o elevador vazio chegou, ninguém tentou entrar junto. Pelo menos
até a porta estar se fechando, quando uma bruxa empurrou as portas e entrou, parando ao lado
dela, ofegante.
— Desculpa, tive que forçar um pouco pra conseguir entrar. — A alta bruxa morena sorriu
para ela. Devia ter por volta de trinta e poucos anos e trazia uma grande quantidade de
cristais pendurados no pescoço em correntes de prata, cada um gravado com runas diferentes.
— Eu sou a Agatha, prazer em conhecer. — Estendeu a mão, e Hermione pôde ver que cada
unha estava pintada com um tom diferente de glitter roxo.
— Ah, eu sei. Desculpa invadir assim, eu só queria dizer que esses idiotas não fazem ideia do
que estão falando.
— Ah…
— Ah, não se preocupe, eu não vou me meter nem nada. Só ouvi o jeito como as pessoas
estavam falando e queria que você soubesse que pelo menos tem uma pessoa do seu lado. —
O elevador anunciou o terceiro andar com um solavanco. — Aqui é o meu. Foi um prazer te
conhecer, Hermione. Espero que você tenha um dia melhor.
— Bom, pelo menos uma pessoa não acha que eu sou uma qualquer.
Como se viu, Barnabus e a maior parte do time jurídico do DCRCRM também não achavam.
A mesa dela tinha alguns pequenos arranjos de flores delicadas, uma pilha saudável de
cartões de votos de felicidades e uma grande tigela de sopa da esposa de Barnabus sob um
feitiço de estase à espera, quando Hermione entrou em seu pequeno escritório.
— A Rosie disse que sopa foi a única coisa que me manteve inteiro durante as gravidezes
dela. Ela fez um caldeirão inteiro assim que viu o jornal. — Barnabus brincou quando a
encontrou parada à mesa com um sorriso suave, lendo todos os cartões. — Eu sei que você
odeia ser paparicada, mas deixei você com uma carga de trabalho mais leve pelos próximos
dias, Hermione. Tem coisa demais acontecendo, quero você pensando direito, e isso significa
aliviar um pouco sua carga até o tumulto diminuir. — Ele largou um monte de pastas sobre a
mesa e puxou um envelope de dentro das vestes, colocando-o cuidadosamente em cima. —
Eu revisei seu relatório e fiz algumas sugestões, mas são só de redação. Quando você acertar
isso, pode mandar direto para o Wizengamot dar uma olhada. E esta carta chegou para você,
o Harry deixou aqui pouco antes de você chegar.
Os olhos castanhos de Barnabus ficaram, de repente, um pouco úmidos por trás dos óculos de
aro fino.
— Ela vai ficar encantada, você sabe que te consideramos família desde que…
Hermione esticou a mão e tomou a dele entre as suas com um sorriso solidário.
— Eu sei. É melhor eu começar a trabalhar agora, mas muito obrigada por tudo.
Assim que ele saiu, Hermione despencou na cadeira do escritório com um suspiro. Isso não
acontecia com frequência, mas às vezes Barnabus parecia vê-la como uma espécie de
substituta da filha falecida, Lavender. Hermione sabia que ele se esforçava muito para não
deixá-la desconfortável nem permitir que isso interferisse no trabalho, mas imaginava que o
fato de elas terem sido colegas de dormitório na escola, somado ao trauma em torno da morte
da filha, tornava difícil para ele, em momentos de baixa ou de alguma data marcante.
Provavelmente era o único tropeço na relação profissional dos dois, e por isso Hermione
nunca comentava quando o assunto surgia. Afinal, fazia tão pouco tempo desde a Batalha de
Hogwarts; mal dois anos desde que ele perdera a menina de quem tanto se orgulhava. Então,
se ele, de vez em quando, precisava mimá-la um pouco para conseguir seguir em frente, ela
podia permitir.
Encolhendo com a varinha os votos de felicidades dos colegas para caberem no bolso e
levitando os arranjos de flores para a estante, fora do caminho, Hermione quebrou o selo já
familiar da carta de Malfoy. Ele tinha respondido dizendo que ela deveria se vestir de forma
confortável, mas trouxa. Hermione sorriu e mandou uma resposta dizendo que o veria às sete,
depois mergulhou no relatório sobre a mesa para fazer as alterações que Barnabus solicitara
enquanto sorvia a sopa.
Uma das melhores coisas de ser cronicamente superpreparada é que, quando algo inesperado
surge, como, digamos, um encontro com o seu ridiculamente rico e aparentemente atualmente
relativamente simpático ex-bullying de infância, que por acaso também é o pai dos seus
gêmeos concebidos numa única noite, você tem uma seleção de roupas pronta para usar, com
acessórios combinados, além de já ter aprendido um penteado básico e uma maquiagem para
acompanhar. Hermione podia ter preparado os conjuntos para encontros com Ron que nunca
aconteceram antes da confusão com Razorano, mas isso não significava que eles não seriam
perfeitamente adequados para um encontro com Draco Malfoy.
Ela trabalhou direto até as seis da tarde, encerrando vários serviços menores que Barnabus
lhe passara como parte da carga reduzida, e aparatou para casa, onde teve uma hora
relativamente tranquila para se arrumar antes da chegada de Malfoy. E ela precisava dessa
hora, porque o stress em torno do encontro em si estava deixando o estômago dela dar tantas
voltas que Hermione começou a se perguntar se valia a pena. Ela nem sabia se gostava de
Malfoy o suficiente para isso ser um “encontro de verdade”. Ou vice-versa. Poderia muito
bem ser apenas os dois tentando se entender pelo bem dos dois bebês que tinham,
acidentalmente, criado.
Quando Malfoy bateu à porta pontualmente às sete, Hermione já tinha tomado banho e estava
vestida com uma bonita blusa vinho e uma calça jeans justa, com um par de pequenos saltos
pretos de verniz. Uma sombra brilhante discreta nos olhos, um pouco de rímel e um toque de
gloss, e ela tinha ficado pronta com tempo suficiente para entrar em pânico completamente
sobre prender o cabelo numa trança ou deixá-lo solto, como planejara quando montara o
conjunto.
Quando abriu a porta, tentando parecer casual ao cumprimentá-lo, ficou aliviada ao ver que
Malfoy estava vestido de forma semelhante. A calça jeans escura e a camisa azul abotoada
combinavam bem o suficiente com o visual dela para que não fosse necessário mudar nada.
— Ah, oi. Você quer entrar? — Ela se afastou para deixá-lo passar. — Eu só preciso pegar
meu casaco e minha bolsa.
Malfoy entrou com aquele ar de quem passeia, olhando ao redor com curiosidade enquanto
Hermione apanhava o casaco preto e a bolsa preferida — o presente de Natal que Harry tinha
lhe dado depois do fim da guerra para substituir o trapo em que a bolsinha com feitiços de
expansão tinha se transformado. Ela, é claro, duplicara imediatamente os feitiços; Harry não
tivera coragem de tentar ele mesmo.
— É um lugar agradável, Granger — comentou Malfoy, com as mãos nos bolsos e a cabeça
inclinada de lado enquanto lia as lombadas dos livros.
Hermione tentou perceber se ele estava zombando dela, mas o tom era neutro o suficiente
para que concluísse que devia ser só conversa fiada.
— Ah… obrigada?
— Hm. — Ele se virou, afastando-se da estante, e deu um leve floreio com o pulso,
conjurando uma única rosa branca e entregando-a a Hermione com um gesto exagerado. —
Pronto. Agora você pode mandar o Potter parar.
Hermione olhou para a rosa, confusa tanto por ele ter trazido a flor quanto por mencionar
Harry.
— Recebi hoje de manhã uma carta com palavras bastante contundentes sobre
comportamento adequado em encontros. Imagino que você tenha contado a ele que iríamos
jantar? — A sobrancelha dele arqueou, sarcástica, mas ele não parecia irritado. Se alguma
coisa, estava divertido.
— Na verdade eu não comentei com ninguém. — Então ela se lembrou de Barnabus dizendo
que Harry tinha deixado a carta de Malfoy sobre como se vestir naquela noite. — Ah, droga.
O Harry pegou o turno do correio hoje. Desculpa, ele deve ter lido a carta e selado de novo.
— Entendo. Bom, você pode informar a ele que acabei de cumprir o mínimo obrigatório de
etiqueta de encontro. — Malfoy mordia o canto do lábio para não rir, e Hermione se viu rindo
junto, impotente.
— Merlin, ele é constrangedor. Vou mandar um berrador amanhã. Desculpa por ele. —
Hermione não sabia se ficava chateada ou aliviada por ele parecer achar a ideia de aquilo ser
um encontro uma grande piada. Rápida, conjurou um vaso para pôr a rosa e decidiu ficar
aliviada; não queria pensar no motivo pelo qual possivelmente se sentiria magoada por isso
não ser um encontro.
— Sem dano algum. Mas por que ele está lendo a sua correspondência? É algo que ele faz
com frequência? — As sobrancelhas de Malfoy se ergueram em questão.
Hermione suspirou.
— É protocolo padrão sempre que eu, o Harry ou o Ron aparecemos no jornal. Toda
correspondência nossa que chega ao Ministério é redirecionada para ser examinada pelos
Aurores, atrás de maldições e coisas assim. Começou depois que o Harry recebeu uma
maldição particularmente nojenta disfarçada de carta de fã que teria matado ele devagar ao
longo de seis meses. Felizmente, o idiota responsável mal conseguia lançar um lumos e errou
feio. A carta explodiu a pobre coruja assim que atravessou as defesas do Ministério. — Ela
fez uma careta. — Mas ele não devia ler as cartas, enxerido. Provavelmente reconheceu o
selo da sua família.
— Hm, vou certificar-me de não usar o brasão, então. Vai saber que tipo de informação
sensível ele poderia ler. — Malfoy fez uma pausa e levantou os olhos para o lustre por um
instante, antes de um sorriso ir se abrindo lentamente em seu rosto. — Embora isso talvez
seja melhor do que um berrador. O que você acha de o Potter receber um relatório
pormenorizado da noite em que concebemos os gêmeos? — Ele sorriu lascivo, com um
cômico levantar de sobrancelhas.
— Eu realmente espero que você esteja brincando. Mas, se ele for muito idiota, acho que
pode se vingar desse jeito. Ele sempre pega o turno do correio quando eu ou o Ron saímos no
jornal, e se ele está lendo a minha correspondência, talvez mereça.
Malfoy riu enquanto ela trancava a porta. Ele tinha uma risada bem agradável, atualmente;
baixa e contida, como se fosse sua piada particular.
— Potter sempre foi bom em enfiar o nariz onde não era chamado.
— Hm, ainda bem que é. Só Merlin sabe como as coisas teriam acabado se ele não fosse tão
obcecado.
— Acho que estaríamos todos bem mais mortos, imagino — disse Malfoy enquanto ela
erguia os feitiços de proteção; então ele lhe ofereceu o braço para descerem o único lance de
escadas até o beco onde poderiam aparatar. — Nossa reserva é em cinco minutos, você se
importa de irmos de aparatação conjunta?
— Tudo bem. Eu nem perguntei, pra falar a verdade, pra onde estamos indo?
— Eu tenho uma townhouse na parte trouxa de Londres onde fico às vezes quando a Mansão
começa a parecer um pouco… vazia. Por acaso tem um restaurante italiano na rua de baixo
que faz um sticky toffee pudding espetacular. Pensei em irmos lá.
— Claro que você tem uma townhouse no meio de Londres só pra passar lá “de vez em
quando”. — Hermione clicou a língua em tom de brincadeira e deu-lhe uma leve encostada
com o quadril, fazendo aparecer uma covinha ao lado da boca dele. — Mas italiano parece
maravilhoso. Vamos?
O restaurante era um lugar acolhedor de bairro chamado “Mama’s”, do tipo que tem velas em
garrafas de vinho envoltas em palha sobre toalhas xadrez vermelhas e brancas. A mulher que
o administrava lembrava Hermione fortemente a Professora Sprout e Molly Weasley, tudo
misturado numa pessoa só.
— Meu menino! Você trouxe uma moça bonita desta vez. Minha filha vai chorar no
travesseiro hoje à noite! — exclamou, com um forte sotaque italiano, apressando-se para
agarrar Draco pelas bochechas. Pelo olhar que a adolescente carrancuda atrás do balcão
lançou na direção deles, Hermione se perguntou se não havia mesmo um fundo de verdade
naquela afirmação.
— Tão bom ver o Draco trazer alguém, ele sempre senta no canto sozinho. Eu vivo dizendo
que ele é jovem demais pra não estar por aí se divertindo, a não ser que esteja esperando a
minha Bella crescer mais um pouquinho — provocou a mulher, conduzindo-os até a mesa no
canto.
— Mama! — protestou a adolescente. Hermione sentiu uma pontada de simpatia pela filha de
Lucia, que ouvira cada palavra e estava vermelha como um tomate. Silenciosamente,
prometeu a si mesma nunca ser tão constrangedora assim para os gêmeos.
— Então eu volto quando vocês tiverem decidido, eu já sei o que o Draco vai pedir. —
Piscou para ele e se afastou, indo dar o mesmo tipo de atenção a outro freguês aparentemente
habitual que acabava de entrar pela porta.
— Desculpa, esqueci de te avisar. Ela pode ser um pouco intensa — disse Draco, sem graça.
— Malfoy, a Molly Weasley era basicamente minha sogra. A Lucia é uma brisa de verão
comparada a ela — retrucou Hermione, lendo o cardápio.
— Com fome. Meu estômago anda meio esquisito hoje. Cheguei até a ter enjoo matinal de
verdade pela primeira vez hoje de manhã. — Acabou decidindo por um simples espaguete à
bolonhesa, na esperança de que não fosse atacar o estômago.
— Ah. Tem algo que eu possa fazer pra ajudar? — perguntou ele, surgindo um pequeno
vinco entre as sobrancelhas, enquanto tamborilava nervosamente no cabo do garfo.
— Além de pegar um vira-tempo e me lembrar de não beber o bastante pra esquecer a poção?
Sinceramente, não muito. — Ela sorriu para mostrar que estava brincando, mas Malfoy
enrijeceu um pouco.
— Ah, sim. — Ele reparou que ela tinha pousado o cardápio. — Já decidiu?
O resto do jantar passou rápido, com os dois evitando cuidadosamente temas potencialmente
constrangedores depois de a piada de Hermione ter caído tão mal. Felizmente, eles
compartilhavam muitas áreas de interesse e conseguiram falar de coisas como academia e
livros até o fim da refeição. Hermione gostava bastante de discutir com alguém que
conseguia acompanhá-la; seus amigos, em geral, só a aturavam quando ela disparava a falar
sobre como o último artigo da Potions Weekly a respeito de pelos de unicórnio era uma
completa bobagem. Malfoy discutia com ela concordando ou não, compartilhando o prazer
de brigar por causa de semântica quando a questão em si, no geral, não era de vida ou morte.
Mesmo precisando manter a conversa relativamente “amigável aos trouxas”, ainda assim era
divertido.
Ela também descobriu que Malfoy estava na metade de uma Maestria em Poções, com foco
em poções de cura. Em meio ao caos que sua vida se tornara, ela nem tinha parado para
perguntar o que ele fazia com o tempo, assumindo que vivesse da herança e vagasse pela
Mansão. Depois de superar a breve vergonha por ter feito suposições erradas, passou a
segunda metade do jantar o bombardeando de perguntas sobre o trabalho, enquanto ele ria do
entusiasmo dela.
— Espero que não se importe com a pergunta, mas você parece tão à vontade neste mundo
agora. Como isso aconteceu? — perguntou Hermione, depois que o sticky date pudding (que
era tão delicioso quanto prometido) foi retirado da mesa.
Malfoy olhou em volta cuidadosamente, fazendo uma careta exasperada quando avistou
Lucia observando-os com atenção da cozinha.
— Que tal você voltar para o meu apartamento pra tomar uma xícara de chá e eu te conto
tudo sobre o meu caminho rumo à iluminação? Não acho que exista um único feitiço no
mundo capaz de impedir a Lucia de dar um jeito de escutar se achar que estamos falando de
algo interessante.
E assim, mais uma vez, Hermione se viu seguindo Malfoy para um território dele sem a
menor hesitação. O sobrado realmente ficava apenas alguns prédios adiante do Mama’s e,
tirando a forte magia de proteção que ela sentiu ao cruzar a soleira, parecia bem comum, com
tijolos vermelhos simples e uma porta pintada de um verde-musgo suave. O interior era todo
em tons neutros de branco e bege-claro, e os móveis, tanto bruxos quanto modernos trouxas,
em verdes-sálvia e cinzas enevoados. Havia até uma grande televisão de tela plana num canto
da sala de estar.
— Você tem uma TV? — perguntou ela, curiosa. Por mais confortável que ele parecesse no
mundo trouxa, ela não esperava por isso. Nem ela, afinal, tinha uma TV.
— Hm? Ah, quase não uso. Na verdade foi um presente do Theo. Ele tem uma obsessão
estranha por aqueles filmes do Schwarzenegger e acha que o resto de nós também vai se
viciar.
Malfoy soltou uma risadinha enquanto passava por ela rumo à cozinha.
— É sempre um choque ouvir as pessoas chamarem o Theo de “quieto”. Tenho quase certeza
de que ele só estava de ressaca em todas as aulas que frequentou depois do terceiro ano.
Malfoy reapareceu com um bule de chá e duas xícaras numa bandeja de prata.
— Camomila com gengibre. Parece-me lembrar que você gostou do meu chá outro dia.
— Obrigada. Eu sei que isso pode ficar muito pior, e se piorar vou ficar furiosa por não poder
tomar poção contra enjoo. — Suspirou. — E não acho que exista nem medicamento trouxa
em que eu confie cem por cento pra isso. — Sentou-se no sofá de couro dele e serviu-se de
chá do bule.
— Pelo que vale, eu agradeço por você estar passando por isso. Sei que não deve ser fácil. —
disse Malfoy, servindo-se também, usando a varinha.
— Obrigada. Eu sei que foi basicamente culpa minha estarmos nessa enrascada. — falou em
voz baixa.
— Pode soar leviano, já que não sou eu quem está carregando os gêmeos, mas… eu não
estou exatamente chateado por isso ter acontecido. — Malfoy respondeu, igualmente baixo.
— Você poderia dizer isso com toda a ofensa do mundo e eu ainda concordaria. — Malfoy
suspirou. — Acho que tudo começou como um grande “vai se danar” para o meu pai, se eu
for honesto. Depois do fim da guerra, ele ficou preso na mansão enquanto esperava ser
levado diante do Wizengamot. Ele tinha tanta certeza de que escaparia e ficava repetindo o
mesmo veneno que quase matou a mim e a minha mãe. A ele também, suponho. Aí, um dia,
ele começou a falar que o Potter era um trapaceiro imundo e que foi assim que derrotou
Você-Sa-… Voldemort. Eu fiquei parado ali pensando: como diabos alguém trapaceia numa
guerra daquelas? E então percebi que praticamente tudo o que meus pais tinham me ensinado,
toda aquela história sobre o meu sangue me tornar melhor, era bobagem. — Deu uma
risadinha escura. — Foi como levar uma tacada de balaço. Metade dos Sagrados Vinte e Oito
sofre de endogamia catastrófica, enquanto as famílias que não se importam em casar fora
dessas linhagens estão ótimas. — Malfoy parou e estalou a língua. — Minha prima Ninfadora
era um ótimo exemplo disso. Como bruxo eu não sou exatamente fraco, mas ela me superava
de longe, pelo que ouvi. E isso sem contar o dom de ser uma metamorfomaga. É algo pelo
qual os Sagrados Vinte e Oito praticamente babam, mas que fomos basicamente eliminando
de nós mesmos por essa obsessão de casar com primos. E isso quando ainda temos primos —
ter filhos está ficando cada vez mais difícil pra nós a cada geração.
— O queixo Habsburgo — murmurou Hermione.
— Isso é realeza trouxa, certo? Acho que o Theo mencionou isso uma vez quando
conversamos sobre o assunto depois que tive minha grande revelação. Bom, quando eu
estava pronto pra conversar, pelo menos. Primeiro tive uma crise de pânico que durou duas
semanas e troquei a maior parte das minhas roupas por coisas trouxas pra irritar meu pai,
antes de voltar a funcionar. Mal dei conta de comparecer ao meu próprio julgamento de tão
sobrecarregado que estava. — Ele fez uma careta ao recordar, e Hermione também.
— Eu lembro de como você parecia exausto. Eu e Harry ficamos tão chocados que achamos
que alguma coisa tinha acontecido com você.
— Nada mais sério do que todo o meu sistema de crenças desmoronando à minha volta —
Draco brincou. — Depois que fui solto — obrigado por isso, aliás —, perguntei ao Auror
responsável por me vigiar se eu teria permissão para sair da Mansão e cumprir o período de
liberdade condicional em outro lugar. Disse que queria aprender de verdade sobre os trouxas,
mas não esperava que acreditassem em mim. Mas ela acreditou. Arrumou uns formulários pra
eu preencher assim que tivesse um novo lugar e ainda contactou uma amiga, nascida trouxa,
pra me ajudar a me instalar. Depois disso foi pura absorção. Comer em restaurantes trouxas,
aprender a cozinhar e a limpar do jeito deles, sair em público e observá-los, conversar com
eles quando puxavam papo comigo. Essas coisas. Hoje em dia, mal saio pro mundo bruxo, só
o essencial e ir ao Cabeça de Javali de vez em quando, pra ficar vendo as pessoas entrarem e
saírem. — Malfoy olhou para o fundo da xícara como se ali estivesse a resposta a todas as
perguntas que já fizera. — A Jane foi surpreendentemente receptiva ao fato de eu querer
aprender sobre os trouxas, assim que a Auror McLeod nos apresentou. Foi a primeira vez que
alguém realmente acreditou que eu podia mudar.
— Talvez na sua frente, mas eu e o Harry achávamos que você podia, sim. Não teríamos
testemunhado a seu favor se não achássemos.
— Exceto que o Potter ainda acha que estou aprontando alguma toda vez que me aproximo
de você — apontou.
— Talvez, mas é mais no sentido de um irmão chato protegendo a preciosa virtude da irmã
do que como era antes da guerra — disse, ácida, ainda ressentida por Harry ter lido a carta.
— Tenho quase certeza de que o Harry estaria se comportando exatamente do mesmo jeito,
não importa quem você fosse. Ele anda meio exagerado desde tudo o que aconteceu com o
Ron. — Hermione arqueou a sobrancelha com um suspiro. — Dou a mim mesma mais uma
semana antes de eu almadiçoar ele.
Malfoy riu.
— Bom, em toda justiça, você foi um Comensal meio porcaria — apontou Hermione,
achando que não era uma observação exatamente injusta.
Hermione riu.
— Ah, claro, aterrorizante. — Ela ergueu os olhos para ele por debaixo dos cílios. — Ainda
bem que você foi tão péssimo nisso, na verdade.
— Eu também.
Chapter 8: Semana Sete
Hermione estava, para os seus padrões, praticamente inútil no trabalho. Entre estar com o
pior enjoo matinal que tivera até então e o fato de saber o que Malfoy provavelmente estava
fazendo exatamente naquele momento, ela já tinha vomitado três vezes antes das dez da
manhã e mal tivera presença de espírito para sumir com aquilo da sua lixeira depois, para que
Barnabus não sentisse o cheiro do lado de fora de sua sala e a mandasse de volta pra casa de
novo. Que dirá fazer o próprio trabalho; aquilo tinha virado um caos de formulários pela
metade e pastas fora do lugar que faziam Hermione se encolher só de pensar no trabalho que
daria arrumar tudo quando finalmente conseguisse pensar direito outra vez.
Então, depois de arquivar um relatório na pasta errada pela que parecia ser a décima terceira
milionésima vez, ela desistiu com um suspiro desalentado e pegou a xícara de chá para ir
preparar uma nova infusão do chá de gengibre com camomila que Malfoy lhe dera quando
ela saiu do sobrado dele depois do jantar. Eles tinham se falado algumas vezes desde então e,
em todas, ele perguntara casualmente se ela precisava de mais ou queria experimentar alguma
das outras misturas. Por mais estranho que fosse pensar em Malfoy daquela forma, era até
meio enternecedor ver como ele parecia estar se esforçando para ajudá-la sem empurrar a
ajuda goela abaixo. Além disso, as misturas de chá que ele fazia eram realmente boas.
Na última conversa deles, porém, o assunto tinha sido a mãe dele, e Hermione tinha desejado
ardentemente poder pedir uma bebida forte antes de irem direto ao ponto. Eles vinham dando
sorte nas últimas duas semanas, desde que a notícia da gravidez saíra: havia especulação
desenfreada, mas nenhuma confirmação de quem poderia ser o pai do bebê de Hermione
Granger, em todos os jornais bruxos de manhã e à noite, mas absolutamente nenhum fato. Os
dois sabiam, no entanto, que essa sorte não duraria se continuassem a passar tempo juntos;
alguém acabaria tendo sorte ou eles escorregariam, e a tempestade de fofoca resultante seria
barulhenta o suficiente para ser ouvida na lua.
Por isso tinham decidido que Malfoy contaria à mãe na sexta-feira, durante o chá das cinco
semanal para o qual ela voltava à Inglaterra vindo de sua casa na França, e Hermione contaria
aos seus pais substitutos, os Weasley, no sábado, para não precisar fazer isso com o clã inteiro
presente, como seria se ela fosse ao tradicional jantar de domingo. Malfoy perguntara por que
ela queria espaçar em um dia, e Hermione respondera que seria mais fácil manter a mãe dele
calada do que Molly Weasley; se fizessem tudo ao mesmo tempo, poderiam acabar lidando
com complicações caso houvesse qualquer problema.
Molly deixara claro que, não importava o que tivesse acontecido entre ela e Ronald,
Hermione sempre seria considerada uma das suas. Mas Hermione se perguntava se isso
continuaria valendo depois de amanhã ou se dependia da possibilidade de ela e Ronald
voltarem a ficar juntos. Sabia, por meio de Ginny, que Molly ainda alimentava alguma
esperança de que Ronald fosse o pai do bebê de Hermione. Hermione torcia para que isso
viesse apenas do desejo de a outra bruxa ser avó dos bebês, e não de querer ver Hermione e
Ronald de novo como casal. Ela definitivamente não gostava da ideia de ter que explicar a
Molly por que nunca mais deixaria Ronald chegar perto dela na vida.
Estava tão mergulhada nos próprios pensamentos sobre o que todo mundo iria dizer que nem
percebeu a batida discreta na porta quando se levantou para ir até a copa. Ao abrir, recuou um
pouco ao quase trombar com a pessoa do outro lado.
— Mesmo? Eu tinha a impressão de que desejava pedir a minha ajuda para limpar parte das
nossas terras para o cultivo de acônito? — A voz dela parecia um tom alto demais, e
Hermione se esforçou para não olhar em volta, culpada, a fim de checar se os colegas tinham
notado a visitante.
Hermione molhou os lábios, nervosa, perguntando-se se Malfoy tinha despachado para ela a
tarefa de dar a notícia à maldita mãe usando como desculpa o mais recente entrave em sua
tentativa de conquistar direitos iguais para lobisomens. Ela tinha desabafado com ele, durante
o chá, sobre a falta de fornecedores confiáveis de acônito depois de planearem como contar a
todos sobre o envolvimento dele.
— Claro, desculpe, isso me escapou por um momento. A senhora quer entrar? — Ela se
afastou educadamente, conduzindo a matriarca dos Malfoy para dentro da sala e fechando a
porta atrás delas.
A senhora Malfoy se sentou na beirinha da cadeira que Hermione mantinha para visitas,
esperando até que a outra estivesse na própria cadeira antes de lançar um feitiço de silencio
na porta e virar-se completamente para encará-la, com uma expressão assustadoramente
neutra.
— Vou ser direta. Meu filho me contou que a senhorita está carregando o herdeiro dele neste
momento. — declarou a socialite, os olhos azuis pousando sobre a mesa que escondia a
barriga ainda lisa de Hermione.
Hermione conteve o impulso de se remexer e ergueu um pouco o queixo, em algo que beirava
um desafio.
— Estou, sim. Como pode imaginar, nós não exatamente planejamos isso.
A senhora Malfoy assentiu e encontrou o olhar dela, formando um minúsculo vinco ao lado
dos lábios pintados de bordô.
— Foi o que ele me disse. Se fosse qualquer outra pessoa, eu teria presumido que estivesse
atrás do nome e do dinheiro dele. Mas sei muito bem que, se estivesse interessada em
qualquer um dos dois, haveria muitas opções mais palatáveis para a senhorita do que meu
filho. — O vinco se aprofundou um pouco. — E não sou tola, sei que a senhorita nem
precisa, nem se importa com essas coisas.
Hermione mordeu levemente o interior da bochecha para não franzir a testa para a outra
mulher. Tinha a sensação de que a senhora Malfoy estava construindo algum tipo de
raciocínio.
A senhora Malfoy tornou a assentir, o cabelo loiro macio escorregando sobre um ombro.
— Imagino que queira saber por que estou aqui, se não for para acusá-la de tentar enredar
meu filho usando o seu filho. — disse, quase indiferente.
— Tenho que admitir que sim. Tudo isso é um pouco inacreditável, e eu não a culparia por
pensar o pior. — admitiu.
— Suponho que não, a senhorita tem a reputação de ser uma garota inteligente. — O rosto
dela voltou a se alisar na máscara régia de sempre, restando apenas aquele único vinco ao
lado da boca. — Estou aqui porque quero saber quais são realmente as suas intenções. Draco
me explicou que pretende partilhar a criança, e devo confessar que não faço ideia de como
algo assim poderia funcionar.
— Ah, o Malfoy comentou que isso não é exatamente algo comum no mundo bruxo. —
Hermione notou a forma como a sobrancelha da senhora Malfoy deu um leve espasmo
quando ela usou o sobrenome de Malfoy e mentalmente guardou a reação para depois. —
Não é algo tão incomum no mundo trouxa quando um relacionamento que envolve filhos não
dá certo. Os pais decidem um regime de custódia e as crianças passam a viver com um ou
outro de acordo com os dias definidos. Às vezes é uma semana inteira com cada um,
alternando, ou pode ser que um dos pais fique com a criança nos dias de semana e o outro nos
fins de semana. — Hermione mascou o lábio. — E, se os pais não conseguem chegar a um
acordo, eles podem pedir aos tribunais que resolvam a questão de forma justa.
O único vinco da senhora Malfoy se aprofundara à medida que Hermione falava, até que o
rosto dela ficou claramente desapontado.
— E isso é preferível a simplesmente se casar com o meu filho e oferecer um lar estável à sua
criança?
Hermione recostou na cadeira, esforçando-se para não se armar na defensiva. Malfoy a tinha
avisado de que essa era uma das reações mais prováveis, ali pertinho de um colapso completo
sobre Hermione tentar enredar o filho dela. Ela só não esperava que a senhora Malfoy
aparecesse tão rápido, e estava completamente em desvantagem.
— A senhora realmente acha que nós teríamos um casamento feliz? — perguntou, incisiva.
O vinco da senhora Malfoy se transformou num sorriso enviesado, que a fez parecer muito
com Sirius por um instante desconcertante.
— Mais feliz do que muitos. Casamentos arranjados funcionam muito bem entre pessoas que
têm menos em comum do que a senhorita e Draco. Não lhe faltaria nada, senhorita Granger.
— retrucou.
— Senhora Malfoy, eu sei que isso pode parecer muito estranho para a senhora, mas, no
mundo de onde eu venho, casamentos arranjados não são a norma, e a minha geração
geralmente não se sente pressionada a entrar no que chamamos de shotgun weddings —
casamentos forçados pelo fato de a pessoa estar grávida. — Hermione tentou entender melhor
de onde vinham as preocupações da bruxa mais velha para poder respondê-las. — Malfoy
também me informou que o processo de legitimar um herdeiro nascido fora do casamento
não é assim tão complicado. E eu prometo que, na situação em que estamos agora, não tenho
qualquer intenção de manter o… bebê longe do Malfoy. — Hermione quase escorregou e se
referiu aos gêmeos no plural, mas não lhe passou despercebido que a senhora Malfoy havia
usado singular o tempo todo. Ela tinha certeza de que Malfoy ia contar isso também à mãe e
ia precisar perguntar depois o motivo de ele não o ter feito.
A senhora Malfoy ficou imóvel por um bom tempo, a postura rígida, mas pensativa.
— Vejo que não vou conseguir fazê-la mudar de ideia hoje. Mas eu pediria que considerasse
a opção. Meu filho é um bom homem, apesar de vocês terem… Histórico.
— Eu entendo, senhora Malfoy. É só que nenhum de nós acha que seja a melhor opção.
Hermione teve a clara impressão de que acabara de jogar Malfoy em um enorme problema
materno e xingou a si mesma mentalmente.
— Hã, nós conversamos sobre isso. Eu… achei que ele tivesse dito à senhora que estávamos
de acordo.
— Obrigada pelo seu tempo, senhorita Granger. Acho que preciso falar com o meu filho.
— Espere… — Hermione tentou chamar de volta a bruxa furiosa, mas ela saiu da sala num
rodopio de capas que deixaria Snape orgulhoso.
Antes mesmo que o som seco dos saltos da senhora Malfoy se perdesse no corredor, Carina
Starling, que ocupava a sala ao lado, enfiou a cabeça pela porta de Hermione.
— Está tudo bem? Quem era? — Os olhos castanhos dela percorreram Hermione cheios de
preocupação, checando se ela estava bem depois do encontro com a bruxa furiosa que
acabara de sair esbaforida.
— Não se preocupa. Era só uma reunião que eu esperava que fosse correr bem. Claramente
não correu.
— É, achei que tinha ouvido ela falar sobre o cultivo de acônito. Não esquenta, Hermione,
você ainda vai encontrar um lugar. — Ela balançou a caneca que trazia pendurada por um
dedo, adoravelmente pintada à mão pelos três filhos como presente de Natal. — Eu estava
indo pra copa, você quer um daqueles seus chás? Ouvi que você passou mal mais cedo.
Hermione fez um gesto com a mão para levitar a própria caneca até ali, com um sorriso
agradecido.
— Só não conta pro Barnabus, senão ele vai me mandar pra casa de novo. — pediu, com um
meio sorriso.
— Por que é que homem é assim? Ele foi igualzinho quando eu estava grávida da Olivia.
Ficar em casa não ia me deixar menos miserável, só ia me privar da distração da miséria.
Hermione balançou a cabeça. Carina tinha sido um consolo enorme desde que a notícia da
gravidez veio à tona, especialmente depois que o enjoo matinal começou de verdade.
Hermione ouvira dizer que Carina ficara incrivelmente doente durante a gravidez da filha
mais nova e mal conseguia manter qualquer coisa no estômago sem ajuda, mas mesmo assim
ela ainda garantia a Hermione que os momentos horríveis valiam a pena, e fazia isso de um
jeito que não parecia condescendente nem sufocante.
— Acho que ele vai acabar se acostumando. Digo, ainda tenho mais umas trinta e poucas
semanas pela frente. — falou, esperançosa, sabendo muito bem que ele provavelmente
continuaria a se preocupar até o exato momento em que ela entrasse em licença.
Até a caligrafia na carta de Malfoy, que chegou à sua mesa uma hora depois que a mãe dele
foi embora com um pedido para vê-la depois do trabalho, parecia aflita. Havia até uma
mancha de tinta, coisa que Hermione não achava que tivesse visto nem nos bilhetes do
primeiro ano dele, antes de ela perder o hábito de tentar espiar as anotações dos outros para
comparar com as suas. Hermione riu sozinha enquanto rabiscava uma resposta dizendo que
ele podia ir ao apartamento dela depois das cinco. Já tinha imaginado que a senhora Malfoy
aparecera sem o consentimento do filho, mas o traço arranhado da caligrafia normalmente
impecável e a redação seca da carta confirmavam isso muito bem.
Decidindo que podia muito bem alimentá-lo, Hermione aparatou para um canto escondido
perto de um restaurante de comida para viagem conhecido pelo peixe empanado
perfeitamente crocante e pegou o jantar antes de caminhar os dois quarteirões até em casa.
Malfoy já estava esperando do lado de fora do prédio, com os ombros encolhidos dentro do
casaco leve e uma carranca no rosto.
— Ei, eu peguei fish and chips se você quiser jantar. Acho que o Harry deixou umas cervejas
na geladeira da última vez que esteve aqui, se você quiser uma. — Hermione ergueu o saco
enquanto abria a porta de entrada, mantendo-a aberta para Malfoy passar primeiro.
Malfoy deu um pequeno pulo, claramente não a tinha ouvido se aproximar, e então segurou a
porta dela, conduzindo-a à frente.
— Parece perfeito. Acho que vou precisar mesmo depois de hoje. — disse em tom irônico,
pegando o saco de gordura gloriosa da mão dela.
Hermione riu enquanto subiam as escadas. O prédio tinha elevador, mas, considerando que
logo ela estaria do tamanho de um hipogrifo e com nada da graça deles, ela insistia em usar
as escadas enquanto conseguisse.
— Imaginei. Como é que a sua mãe conseguiu sair sem você notar?
Malfoy fez um som de nojo quando chegaram ao andar dela e Hermione destrancou a porta.
— Ela não conseguiu. Assim que comecei a contar o plano de dividir os nossos filhos ela me
desarmou, me silenciou e me colou no sofá. Quando consegui me soltar, ela já tinha voltado e
estava pronta para me dar sermão sobre não assumir a responsabilidade adequada pela minha
prole.
— Sem querer ofender, mas isso é levemente hilário. — Ela girou a varinha em direção à
cozinha e dois pratos voaram do armário e pousaram sobre a mesa. — Espero que ela não
tenha pegado tão pesado com você.
Malfoy deu de ombros e lançou um olhar enviesado para a geladeira, abrindo-a para
encontrar a cerveja de Harry quando Hermione assentiu.
— Tenho certeza de que ela me perdoa eventualmente. Nem cheguei a contar que são
gêmeos, no meio de toda a bronca. — Ele enrugou o nariz ao abrir a garrafa marrom de
cerveja. — Merlin e Nimue nos ajudem se uma for menina. Não nasce uma Malfoy mulher
de forma natural há séculos, mas minha mãe quer uma garotinha para vestir de boneca desde
que me entendo por gente. Foi por isso que ela sempre gostou tanto da Pansy, ela topava de
bom grado deixar minha mãe levá-la para fazer compras.
Hermione deu uma risadinha ao roubar uma batata de dentro da embalagem de jornal.
— Pois aí está, vamos ter que torcer para vir pelo menos uma menina, assim a sua mãe
perdoa todos os nossos muitos pecados.
Se Hermione achava que esperar pela notícia de que Malfoy tinha contado à mãe socialite
sangue-puro que ela estava prestes a ter netos mestiços era de dar nos nervos, estava
redondamente enganada. Parada em frente à Toca, prestes a contar à coisa mais próxima que
tinha de pais bruxos que estava para ter gêmeos meio-Malfoy, era um milhão de vezes pior.
Ela não tinha certeza se ainda seria bem-vinda depois daquele dia. Os pais Weasley tinham
feito questão de deixar a guerra para trás enquanto ainda choravam Fred, sem querer se
agarrar a velhos ódios depois de perder um filho. Mas Hermione precisava se perguntar se
carregar um filho Malfoy não seria demais para eles perdoarem, dado o histórico com a
família. Sem falar no histórico bem recente entre ela e o filho mais novo deles.
Reunindo coragem, Hermione pousou a mão no portão baixo e o empurrou. O cabelo ruivo já
grisalho de Molly imediatamente surgiu na janela da cozinha, quando ela levantou os olhos
do que quer que estivesse preparando para o chá da manhã. Menos de um segundo depois, já
estava saindo apressada pela porta para puxar Hermione para um abraço.
— Hermione, querida! Como você está, como vai o bebê? — Molly afastou Hermione pelos
ombros e passou um olhar maternal pelo corpo dela, de cima a baixo. — Venha, você está
magrinha demais. Eu resolvo isso rapidinho, não se preocupe! — Molly piscou e a conduziu
para dentro de casa com um braço firme em torno dos ombros perfeitamente saudáveis de
Hermione.
Hermione não disse nada, mas simplesmente detestava como todo mundo perguntava mais
pelos bebês do que por ela. Não porque fosse egoísta e quisesse a atenção para si, mas porque
era exaustivo. Ela sempre ficava tentada a responder com uma descrição clínica de em que
estágio o desenvolvimento deles estaria, mas a maioria das pessoas acharia isso
estranhamente incômodo por algum motivo, então ela mordia a língua e sorria.
— Está tudo bem, Molly. E eu prometo que estou comendo direitinho. Na maioria dos dias,
eu nem vomito uma vez. — garantiu.
A frase talvez fosse um pouco enganosa, considerando que havia dias em que Hermione mal
conseguia se forçar a comer uma refeição inteira por causa da náusea constante no estômago;
mas ela não ia arranjar motivo para Molly se preocupar e fazer ainda mais alarde, justamente
quando estava prestes a lhe dar o maior de todos os motivos.
Molly estalou a língua e a guiou até seu lugar habitual à enorme mesa da cozinha dos
Weasley.
— Que sortuda. Eu passei mal os três primeiros meses em todas as gravidezes. Precisava
tomar poções, e olha, a atenção extra de curandeiro que isso exige é mais cansativa do que o
enjoo. — Ela pôs a chaleira no fogão e deu um tapinha no ombro de Hermione com um
sorriso largo. — Vou chamar o Arthur. Ele ainda está brincando com o brinquedinho novo no
galpão.
— Já terminei, Mollywobbles, ouvi o portão. — Arthur entrou pela porta dos fundos, alto,
magro e calvo como sempre, com jeans trouxas e um robe xadrez de bruxo, remendado. —
Bom dia, Hermione. Como está se sentindo?
— Bem, bem. Estou ótimo, arrumei uma coisa nova dos trouxas para brincar. Já viu esses
gramofones minúsculos que eles têm? Duvido que consigam tirar uma música decente de
dentro daquilo! — Arthur beijou a esposa na bochecha e surrupiou dois biscoitos do prato no
balcão, entregando um a Hermione com uma piscadela conspiratória.
Hermione sentiu o nó de tensão entre as omoplatas afrouxar um pouco com o gesto. Era tudo
tão normal, tão Arthur, mesmo considerando que Hermione era a ex-namorada do filho dele,
que isso lhe deu esperança de que talvez as coisas ficassem bem no fim das contas.
Molly colocou uma xícara de chá na frente de Hermione e sentou-se à própria cadeira, do
outro lado da mesa.
— Então, do que você queria falar conosco, querida? — perguntou com gentileza, fazendo o
prato de biscoitos levitar até pousar entre os três.
Hermione segurou a caneca com as duas mãos e baixou o olhar para evitar encarar os dois.
— É… sobre o pai. Dos… você sabe. — A voz falhou na última palavra e os olhos se
encheram, embaçando a visão da caneca entre os dedos. — Desculpem, eu só… só não quero
que vocês pensem menos de mim.
— Hermione, eu prometo que não vamos pensar menos de você. Não sabemos o que o nosso
filho fez para afastá-la, mas acho que deixamos claro que ainda a consideramos nossa filha.
— Com certeza. Ronald nos contou — e contou ao mundo inteiro — que se considera
culpado pelo que quer que tenha acontecido entre vocês. Então não precisa se preocupar em a
gente virar as costas por causa dele. O próprio Ronald não aceitaria isso. — Molly observava
Hermione com atenção enquanto falava, e Hermione teve a impressão de que começava a cair
a ficha de que ela não estava prestes a dizer que Ronald era o pai, como Molly tinha
esperado.
Molly se esticou por cima da mesa para dar um tapinha no pulso de Hermione.
— Nós sabemos, querida, então vamos fazer o mesmo que faríamos por qualquer um dos
nossos, ou pelo Harry. Mesmo que o que tiver para nos contar seja algo de que não gostamos,
vamos continuar aqui por você. Já houve perda demais nesse mundo para virarmos as costas
a alguém que amamos por motivos tão mesquinhos. — disse com tanta gentileza que o peito
de Hermione chegou a doer.
— Obrigada, eu… eu nem consigo expressar o quanto isso significa para mim. — Ela
apertou a mão de Arthur para que ele soubesse que o incluía na frase.
— Claro, e falamos isso do fundo do coração. — disse Arthur, gentil. — Agora, o que é que
deixou a sua varinha tão emaranhada?
— Tem… muita especulação na imprensa sobre a minha gravidez. E você sabe que tenho
mantido os… detalhes… bem guardados comigo.
— Sim, querida, sabemos que você vai contar quando estiver pronta, e não vamos pressionar
se não estiver. — disse Molly, num tom tranquilizador.
— Acho que não estou, mas se eu não contar agora, existe a chance de vocês descobrirem
pelos jornais se nos virem juntos.
— Não exatamente, mas ele está envolvido na gravidez e vai estar com as crianças depois.
— Eu sei que deve ser difícil pensar em gêmeos. Vou entender se você precisar de um
tempo…
Molly a interrompeu com um sorriso marejado e começou a abanar o rosto, os olhos cheios
de lágrimas.
— Desculpa, não precisa disso. É que eu pensei no… — Ela cortou a frase com um olhar
para o relógio da família Weasley, onde o ponteiro de Fred estava conspicuamente ausente
desde que caíra, no dia da morte dele.
— Melhor matar isso logo, como a gente faz com poção ruim: de um gole só.
— Já imaginávamos. E eu prometo, ele pode ser o próprio Voldemort que não vamos julgá-la,
Hermione. — disse Arthur, gentil.
— Hã, então… no dia em que o Ron e eu… terminamos… eu estava bem chateada e acabei
bebendo talvez um pouco mais do que o sensato no Cabeça de Javali. — Hermione sentiu
que precisava explicar, para que não achassem que tinha sido uma vingança premeditada em
vez de algo impulsivo, num momento de bebedeira. Explicar demais sempre tinha sido uma
maldição dela. — Eu encontrei um… um ex-colega de Hogwarts lá e, bem, uma coisa levou à
outra.
— De certa forma.
— Sei que você tem medo da nossa reação, Hermione, então imagino que nós não estejamos
exatamente em bons termos com ele. Mas você disse que ele vai estar presente na vida das
crianças, e isso, para mim, diz muito sobre o caráter dele, o fato de estar disposto a fazer a
coisa certa por você. Pai ou não, você não deixaria ninguém que considerasse um risco
chegar perto de qualquer filho seu. — Ele ergueu a mão calejada de tanto fuçar em
bugigangas trouxas e segurou o rosto dela. — Está tudo bem, você pode contar.
Hermione sentiu uma onda enorme de gratidão pelos dois Weasley mais velhos ao ouvir
Molly concordar com o marido. O perdão deles parecia não ter limites.
— Draco Malfoy. Ele é o pai. — disparou, apertando os olhos com força contra qualquer
julgamento, apesar de todas as garantias que tinham lhe dado.
Hermione ficou tensa ao ouvir Molly se levantar e contornar a mesa, então de repente se viu
abraçada pelos dois, Molly e Arthur.
— Oh, Hermione, contanto que ele esteja sendo bom com você, nunca poderíamos pensar
menos de você por isso. — Molly murmurou, enfiando o rosto nos cachos dela.
— Obrigada. Eu estava com tanto medo de vocês me odiarem. O Malfoy… Ele… Bem, é o
Malfoy. — sussurrou, engasgada com a gentileza sem limites deles. — Com tudo o que
aconteceu… Mas eu juro que ele mudou muito, então acho que posso confiar nele nisso.
Molly apertou mais o abraço e então se endireitou para dar tapinhas afetuosos no cabelo de
Hermione.
— Não se preocupe com o que o resto do mundo pensa, você deve confiar em si mesma.
Aquele rapaz não passava de uma criança durante a guerra, e você deve achar que ele mudou
se deixou que ele… bem. — O tom maroto de Molly fez Hermione rir um pouco, ainda em
prantos. — Dito isso, se não se importar, gostaria que o trouxesse um dia para o chá, para
podermos ver com nossos próprios olhos. Mas só quando você estiver pronta; confiamos em
você e no seu julgamento, Hermione.
Hermione tentou imaginar Malfoy sentado à mesa da cozinha dos Weasley, sendo alimentado
com biscoitos e interrogado sobre a TV dele, e acabou rindo um pouco mais, passando o
dorso da mão nas bochechas úmidas.
— Eu só acho que você devia ficar com uma carta. — disse Harry por cima da xícara de chá.
— Eu entrego pessoalmente, se você quiser.
— E como eu já disse, eu ficaria mais tranquila fazendo isso se ele não estivesse tão
imprevisível. Eu preciso fazer cara a cara pra conseguir lidar com qualquer plano sem noção
que ele invente pra provar que tá “de boa”, ou com o chilique se ele não aguentar a ideia de o
Malfoy ser o pai dos bebês. — Hermione suspirou. — A última coisa que eu preciso é o
mundo descobrir que o Malfoy é o pai dos gêmeos lendo outra entrevista do Rony com a
Skeeter em que ele fala como tá tranquilo com isso enquanto ela fica declamando sobre os
olhos azuis lacrimejantes dele.
— Mas e se ele não fizer isso? E se ele surtar e tentar fazer alguma coisa com você? Ele
odeia o Malfoy. — protestou Harry.
— Harry James Potter! O Rony é muita coisa, mas duvido sinceramente que ele machucaria
uma grávida. — Hermione franziu forte a testa, desaprovando. — Eu não tô pedindo sua
permissão; eu tô pedindo pra você e a Gina estarem lá pra mediar. Se você não consegue
fazer isso, talvez seja melhor ir embora, e a Gina fica e me dá apoio. — ela disse, apontando
um dedo em direção à porta de entrada.
— Harry, eu tô tão brava com o Rony quanto você, mas ele não vai machucar a Hermione. —
falou com firmeza.
Harry passou a mão pelos cabelos, frustrado, deixando tudo espetado pra cima.
— Eu sei. É só que… eu nunca teria imaginado que o Rony fosse drogar a Hermione pra
tentar forçar ela a ter um filho dele também. O que mais eu deixei passar? — perguntou em
tom sombrio.
— Não tanta coisa assim. Além do mais, se você tem que se culpar por não ter visto os sinais
de que ele poderia fazer isso, quer dizer que eu também tenho que me culpar? — Ela ergueu
as sobrancelhas pra ele, esperando a resposta.
Gina suspirou.
— Por mais que eu odeie admitir, o Rony definitivamente faria. A mamãe e o papai usaram
Razorano pra conceber o Percy, pelo menos ele, que eu saiba. Eles sempre foram bem abertos
sobre isso, então o Rony com certeza sabe o que é e como conseguir. E o Rony nunca foi
paciente quando decide o que quer. — Os lábios de Gina se apertaram num traço fino. — Ele
sempre foi do tipo que acha que aquilo que ele quer é o que ele tem que receber também.
Mas, por mais babaca egoísta que ele seja, eu sei que nenhum de nós foi criado pra bater
numa mulher grávida.
Hermione assentiu; a Molly esfolaria vivo qualquer filho se pegasse um deles machucando
alguém que estivesse esperando um bebê.
— Acho que a gente já pode concordar que o Rony é egoísta e meio idiota, mas eu realmente
não acho que ele vá me machucar de verdade. Eu me preocupei, quando ele descobriu que eu
tava grávida, que ele viesse aqui gritar um pouco, mas eu nunca cheguei a temer pela minha
segurança.
— É, porque você é mais rápida que ele com a varinha. — resmungou, carrancudo, antes de
murchar e mastigar o maxilar de um lado pro outro por um segundo. — Tá bom. Me avisa
quando e onde, e eu vou estar lá pra ficar encarando ele de capa de Auror.
— Agora você tá só sendo dramático. Você vai com roupa normal, e eu já vou corujar ele
agora, pra ver se topa encontrar com a gente. — Ela convocou papel e tinta. — Ah, eu devia
avisar o Malfoy também. Deus me livre a gente ter outra surpresa tipo a da senhora Malfoy
depois que ela já tinha sido avisada.
— É, qual das duas? A vassoura oficial das Harpias ou a Soundburst chique que eu te dei de
aniversário?
Hermione ouviu a falsa indignação de Harry com a cutucada da namorada, sorrindo de leve.
Ele ia ficar bem. Agora ela só precisava enfrentar o ex-namorado sem que Harry ou Rony
explodissem.
Ela tinha um pressentimento de que não teria tanta sorte.
Rony mandou uma carta de volta na mesma hora com a coruja-mochinha da Gina, o Pig,
dizendo que encontraria a Hermione quando e onde ela quisesse. Conhecendo o Rony como
conhecia, Hermione concluiu pela brevidade do bilhete que ele realmente estava desesperado
pra vê-la de novo. A principal esperança dela pra esse encontro era que ele simplesmente
absorvesse a informação sobre a paternidade dos bebês, pedisse desculpas direito e fosse
embora. Ela duvidava que fosse tão simples, dado o temperamento do Rony, mas isso não a
impedia de desejar.
Como quase tudo desde a noite em que ela e o Malfoy se encontraram no Cabeça de Javali,
Hermione resolveu mergulhar de cabeça e mandou outro bilhete pro Rony dizendo pra ele vir
pro apartamento que eles tinham dividido um dia, assim que pudesse.
— Você tem certeza? Ainda dá tempo de desistir. — disse Harry, enquanto eles observavam o
Pig bater as asinhas pela janela, de braços cruzados. Gina fuçava a cozinha atrás de petiscos,
e Hermione ouviu o estalo de língua dela porque o Harry tinha tocado no assunto de novo.
— Desculpa. Eu devia estar cuidando de você, não te estressando. — pediu em voz baixa.
Hermione envolveu a cintura dele com os braços e encostou a bochecha no peito dele, só um
pouco mais baixa do que o queixo dele.
— Tá tudo bem de verdade, Harry. Eu sei por que você tá abalado. Só lembra que o Rony
ainda é o Rony, lado egoísta e tudo. Eu vou contar pra ele e pronto. Ele provavelmente vai
sair pra se trancar num canto e fazer bico depois de gritar um pouco. — apontou.
— Eu não entendo como você tem estado tão calma com isso ultimamente. Quando você
descobriu, achei que ia explodir. Mas de repente você só… ficou de boa. — Harry murmurou
contra o cabelo dela. — Eu esperava muito mais surto.
— Não sei, acho que tô num lugar estranho em que isso ainda não parece real. Tirando o
enjoo e o inchaço. — Ela apontou pro próprio estômago. — No começo eu achei que o
Malfoy ia ser horrível com isso também, mas ele tem sido bem razoável. Mais que isso, até.
— disse pensativa.
Ela dizia a mais pura verdade ao afirmar que ele estava sendo ótimo com a gravidez. Vivia se
espantando com o quanto ele parecia mais envolvido do que ela. Apesar de ser quem
vomitava dia sim, dia não, e de estar sofrendo com uma fadiga constante de fundo, Hermione
ainda tratava os bebês mais como um conceito do que como uma realidade. O Malfoy, por
outro lado, parecia aceitar plenamente que ia ser pai — chegando ao ponto de cuidar dela
tanto quanto achava que ela deixava. Eles não tinham discutido se o jantar tinha sido um
encontro de verdade ou não, e Hermione não tinha certeza se queria; mas o Malfoy parecia
perfeitamente satisfeito desde que pudesse aparecer de vez em quando pra checar se ela e os
bebês estavam bem.
Duas vezes, o Malfoy já tinha aparecido no apartamento dela com comidas variadas que
achava que ela poderia gostar; uma vez, fish and chips da mesma lanchonete de onde ela
tinha comprado pra ele depois da visita da senhora Malfoy ao escritório dela, e outra, uma
lasanha maravilhosa do Mama’s, com uma salada simples ao lado, sem azeitonas. Nas duas,
ele tinha checado com ela antes, mandando cartas para a mesa dela no Ministério com o que
Hermione deduzia ser o selo pessoal dele, e não o brasão oficial da família Malfoy — tinha
só uma estrela elaborada, gravada em cera verde-escura. Ela apreciava tanto a comida quanto
o fato de ele sempre perguntar antes, e reagira bem o bastante pra que ele ficasse depois das
refeições pra uma xícara de chá e um papo rápido sobre o dia de cada um.
— Nem fala. Se eu não soubesse, jurava que tinham trocado ele ou que enfiaram alguma
poção nele.
Harry gemeu.
— É, eu odeio admitir, mas ele tem se comportado bem certinho nessa história toda. — Ele
ajustou os óculos para esfregar a ponte do nariz antes de deixá-los cair de volta, tortos. — É
tipo uma realidade alternativa. Eu juro que ele parecia feliz quando contei o plano da Gina
com o polissuco.
— Ele tava mesmo, tenho certeza. Foi muito gentil da sua parte confiar tanto assim, e ele
sabe disso.
— Gentil ou burro. Mas ele se saiu bem. Ainda me devolveu os frascos vazios pra mostrar
que não guardou nada escondido e disse que esperava no meu escritório até a poção passar se
eu quisesse. Embora tenha comentado que eu preciso de armações de óculos e roupas
melhores. Idiota.
Hermione teve uma ideia, lembrando de como o corpo do Harry tinha ficado com as roupas
do Malfoy.
— Você não também. Eu juro que se tentar me arrastar de novo pra fazer compras…
— Não, o gosto dele é ótimo, você não diria? — perguntou, retórica. O Malfoy sempre se
vestira bem quando ainda usava roupas de bruxo, mas, aparentemente, o gosto dele pra
roupas trouxas era ainda melhor. — E o Harry odeia fazer compras… — Ela deixou a frase
morrer no ar, fazendo um gesto sutil de quem bebe uma poção.
— Sim! Genial! — vibrou, dando um tapa no ombro do namorado. — Você vai fazer isso.
— Ir às compras com o Malfoy não vai me fazer odiar menos, você sabe, né? — Aí caiu a
ficha, e ele ergueu as mãos, como se pudesse afastar o plano à força. — Ah, nem a pau. Eu
não vou deixar ele usar meu corpo pra ir às compras! Além disso, ele nunca aceitaria.
— Nem mesmo como um favor pra bruxa que tá carregando os herdeiros dele? — perguntou
Hermione, vitoriosa.
Muita gente já tinha tentado colocar o Harry em roupas melhores ao longo dos anos, mas o
ódio dele a compras era suficiente pra frustrar até a Luna Lovegood. Então, se Hermione
precisava apelar, ela ia apelar. Harry era um Auror formado e ia fazer vinte e um anos no ano
seguinte, estava na hora de parar de usar trapos que tinham sido empurrados pra ele quando
tinha quatorze anos por pessoas que o odiavam. Na maioria das vezes, ele parecia um órfão
perdido, a não ser que alguém o enfiasse em vestes de gala ou que estivesse de capa de Auror.
— Você sabe que eu te amo do jeito que você estiver, mas eu reconheço essa camisa. Você
tem desde o segundo ano. — Gina pegou a barra da camisa desbotada do Harry, obviamente
um resto dos Dursley, com mais de uma costura desfiando, e fez uma careta. — Você sabe
que eu não ligo muito pra roupa e essas coisas, mas você precisa arrumar roupas de adulto de
verdade.
— Mas isso aqui é só pra usar quando eu não tô trabalhando. Eu fico bem adulto com a roupa
de serviço. — argumentou, devagar.
— Harry, você tem um conjunto de roupa meio decente pra eventos chiques e a capa de
trabalho. O resto são roupas que você já gastou até o fim. Se você não topar o plano da
Hermione, eu vou arrancar um pouco de cabelo e mandar o Malfoy com um bom maço de
galeões, enquanto eu toco fogo em todas as suas roupas velhas. — ameaçou Gina, com as
mãos firmes na cintura. — Pelo menos se você concordar, a gente pode deixar você dizer que
cores quer. — Ela adotou uma pose suplicante, mãos entrelaçadas, e olhou pra cima pro
Harry com o lábio inferior projetado de forma exagerada. — Por favor? Considera como meu
presente de Natal?
— Tá bom. Eu não vejo nada de tão ruim nas minhas roupas, mas tá. Só se certifica de que o
Malfoy não faça nada muito horrível, beleza? — disse para Hermione, enquanto deixava a
Gina se encaixar ao lado dele, triunfante.
— Claro, Harry. Tenho certeza de que ele vai se comportar. — Hermione o tranquilizou,
explodindo em gargalhada quando Harry inclinou a cabeça pra trás e gemeu.
Hermione mudou o assunto para a rotina de treinos da Gina enquanto esperavam a resposta
do Rony. Em retribuição, tanto Harry quanto Gina tentaram fingir grande interesse nos
detalhes minuciosos do trabalho um do outro sempre que o tema vinha à tona, então
Hermione devolveu o favor: fez perguntas suficientes sobre Quadribol pra preencher o tempo
até o Pig entregar o bilhete dela ao Rony.
Não precisaram esperar muito até que se ouvisse uma batida firme na porta; Hermione não
tinha desfeito as proteções da lareira, e o Rony devia ter aparatado assim que recebeu o
bilhete. Gina foi quem foi atender, barrando o Harry com um esbarrão de quadril quando ele
tentou marchar pelo corredor estreito, e ele se resignou a voltar à cadeira à mesa,
resmungando, enquanto Gina trazia o irmão. Hermione ouviu o murmúrio breve de vozes e
supôs que Gina estava avisando o Rony para se comportar, sob pena de enfrentar a ira dela.
Então o Rony entrou na sala, atrás da Gina, com os olhos azuis varrendo o ambiente, vendo
como ela tinha deixado o lugar irreconhecível desde que terminara com ele, até por fim
pousarem na própria Hermione, com uma expressão triste.
— Quero. — Ele escorregou pra cadeira em frente, engolindo em seco. — E aí, Harry.
— Com toda a atenção em cima disso, eu não sei quanto tempo vai levar até alguém
descobrir a identidade dele e estampar nos jornais. Então eu te chamei pra conversar
primeiro. — Hermione descruzou os dedos para apontar um na direção dele. — E pra
arrancar de você uma promessa de que não vai fazer nada como aquela entrevista de novo.
— Sim, qualquer coisa. Eu devia ter perguntado antes de falar com a Skeeter, eu sei. Eu só
odiei ver eles te jogando na lama por causa do meu erro, e eu queria compensar. — Ele tentou
explicar, mas Hermione o cortou com a mão erguida.
Rony empalideceu tanto que Hermione se preocupou com a possibilidade de ele desmaiar.
— Tipo… o furão? Você… você dormiu com ele pra se vingar de mim? Porque eu odeio ele?
— perguntou com a voz rouca, como se as palavras estivessem sendo espremidas por um
bloqueio no peito.
Hermione ponderou quanto revelar sobre a própria decisão bêbada e optou por uma meia-
verdade. Contar tudo só ia inflamar o Rony e não servir pra nada.
Ele ficou quieto por um momento e então ergueu o olhar pra ela, com a expressão mais triste
que Hermione tinha visto no rosto dele desde o fim da guerra.
Hermione o cortou:
— Com licença? Quem falou alguma coisa sobre você criar um filho meu? — rosnou, a voz
subindo de tom diante da simples audácia.
— Mas… eu sei que eu caguei tudo e tal, mas não é por isso que você me chamou? Pra dar
outra chance pra gente? Quer dizer, criar um filho sozinho seria uma porcaria, ‘Mione. Você
vai precisar de alguém pra te apoiar enquanto fica em casa com eles. — disse num tom
exageradamente razoável que fez Hermione querer estapear ele na hora.
Gina parecia prestes a almadiçoar o irmão, e Harry abriu a boca pra responder no lugar dela,
mas Hermione ergueu a mão, mandando os dois pararem.
— Não, Ronald. Não foi por isso que você veio. Eu já expliquei que só não queria você lendo
uma notícia e se enfiando de novo na minha vida pessoal. — Uma pequena fagulha vingativa
acendeu dentro dela enquanto encarava o rosto ainda sem noção do Rony. — E, além do
mais, eu não vou estar sozinha. O Draco tem sido maravilhoso com tudo isso e vai participar
totalmente da vida dos bebês.
— Você vai ter mais de um filho com ele? Você tá saindo com ele ou o quê? — perguntou,
furioso, o temperamento se acendendo.
— Não do jeito que você tá pensando, Ronald; eu vou ter gêmeos graças à sua gracinha. —
retrucou Hermione, com a mão roçando a varinha presa no cós da calça.
Rony ficou boquiaberto, chocado demais pra reagir de imediato. Mas, como sempre, uma vez
irritado ele não saía desse estado, e voltou a ficar fumegando em segundos.
— Então o quê? Você prefere deixar um Comensal da Morte criar as crianças do que eu? Não
vem me dizer que ele tá de boa com uma sangue-ru…
Harry se levantou da mesa e se projetou sobre ele com a varinha na mão, apontada bem no
nariz do Rony.
— Cala. A. Porra. Da. Boca. Você não tem voz aqui. A Hermione te chamar pra contar
pessoalmente é mais cortesia do que você merece depois de tentar prender ela na marra. —
rosnou.
Gina também estava com a varinha na mão e, quando o irmão olhou pra ela pedindo apoio,
ela levantou o lábio superior num esgarro que dizia exatamente o que achava das ações dele.
— Você não pode estar falando sério que vai entregar as crianças pro Malfoy, ‘Mione. Elas
vão ser mestiças, não que tenha nada de errado nisso. Mas quem sabe como ele vai tratar elas.
— O rosto do Rony estava quase tão vermelho quanto o cabelo, e o tom deixava claro que ele
achava que ela era uma completa idiota por sequer considerar a possibilidade.
— Só pra constar, eu não vou entregar criança nenhuma pra ninguém. O Malfoy concordou
em fazer as coisas do jeito trouxa, coisa que, aliás, você nunca quis fazer por mim quando eu
queria manter contato com minhas raízes. — Hermione até poderia ter se sentido culpada por
esfregar coisas antigas na cara dele, mas, francamente, ele estava dançando sapateado no
último nervo dela. — Quando as crianças forem grandes o suficiente, a gente vai
compartilhar a guarda delas. E, quanto às suas preocupações sobre como ele vai tratá-las, ele
não tem sido nada além de gentil em tudo isso, e eu não tenho nenhuma dúvida quanto às
intenções dele. O Draco cresceu; talvez esteja na hora de você fazer o mesmo.
— Compartilhar crianças? Que porra é essa? — Rony parecia horrorizado só com a ideia, o
queixo caindo, e ele se pressionou contra o encosto da cadeira como se pudesse se afastar da
própria noção. — Sabe de uma coisa? Beleza, vive a vida louca que você quiser com o seu
namorado Comensal, e eu fico fora. Só não vem rastejando atrás de mim quando tudo isso
explodir na sua cara! — gritou, levantando e marchando até a porta enquanto despejava o
discurso.
Assim que a porta bateu atrás dele, Harry saiu do choque e deu um passo na direção da saída
com uma expressão de tempestade.
Hermione lançou um feitiço rápido pra colar a porta no batente, impedindo o Harry de
cumprir a ameaça.
— Nem perde tempo. Desde que ele fique longe da minha vida, não vale o esforço. —
suspirou, massageando as têmporas; a adrenalina da discussão já tinha ido embora, deixando
um senhor de um mal-estar no lugar.
— Se ele fizer qualquer coisa, eu conto pra mamãe por que você tá grávida. — prometeu. —
Ela arranca as bolas dele e faz ele engolir.
Hermione sorriu, exausta, pra ela, sem energia pra discutir com os amigos cabeça-quente.
— Obrigada por estarem aqui. Tô bem cansada depois de tudo isso, acho que vou tirar um
cochilo, se vocês não se importarem.
Gina beijou a testa dela, e Harry veio pelo outro lado da mesa pra engolfar as duas num
abraço apertado.
— Claro. A gente vai indo e eu te vejo amanhã no brunch? — perguntou, esperançoso. Ele
tinha passado a levar brunch pra Hermione aos domingos, enquanto a Gina treinava de manhã
com as Harpias. Normalmente comiam doces cheios de açúcar enquanto conversavam sobre
qualquer coisa que viesse à cabeça, e Hermione gostava do tempo quieto com o melhor
amigo.
Hermione devolveu o livro que tinha folheado distraidamente à prateleira e desceu o corredor
da livraria em busca de outro título que pudesse servir de presente. Já tinha resolvido todos os
presentes de Natal desde o começo de novembro, mas depois que a coruja do Malfoy deixou
um pequeno kit de cuidados — biscoitinhos aromatizados com todos os chás de que ela mais
gostava — como resposta à carta contando o que tinha acontecido com o Rony, ela percebeu
que ele vinha lhe dando pequenos presentes há semanas, e que o mínimo que podia fazer era
dar um presente de Natal pra ele. Nem que fosse só em nome de manter as coisas
equilibradas entre os dois.
Então lá estava ela, uma semana depois do confronto com o Rony, em um dos sebos trouxas
antigos de que mais gostava, procurando textos médicos antigos que pudessem interessar ao
Draco. Ela tinha reparado que ele mantinha vários livros de medicina trouxa moderna no
sobrado e achou que acrescentar um livro mais antigo, pra comparar como a medicina tinha
evoluído, podia chamar a atenção dele.
Não que Hermione não estivesse sendo relativamente aberta também. Era verdade que ela era
mais cautelosa com ele do que ele com ela, mas os dois entendiam que isso era de certa forma
esperado. Deixando de lado a guerra — na qual Hermione sentia de verdade que ele não tinha
muita escolha sobre as próprias ações —, o Malfoy tinha passado seis anos de Hogwarts
sendo absolutamente detestável com ela. As opiniões dele terem mudado e as atitudes mais
gentis não passaram despercebidas, e Hermione se pegava aquecendo-se a ele a cada carta,
cada encontro. A ponto de, enquanto folheava um livro descrevendo procedimentos
cirúrgicos do início do século vinte, estar bem mais concentrada em decidir se chamava ou
não o Draco pra passar um tempo juntos na véspera de Natal ou no Boxing Day do que no
que estava escrito nas páginas.
Depois que Hermione terminou de contar ao senhor e à senhora Weasley que o Malfoy era o
pai dos gêmeos, Molly a convidou para o Natal dos Weasley simplesmente dizendo pra ela
aparecer, com um tapinha gentil na mão e a promessa de que não precisava ficar se não
quisesse. Hermione planejava dar um pulo rápido só pra dizer oi e depois passar o resto do
dia relaxando com um bom livro no apartamento. Desde que alguém mantivesse o Rony
longe dela, achava que o dia até podia correr bem, mas não estava muito animada pra ficar lá
por muito tempo.
A grande preocupação era o Boxing Day. Hermione e os pais sempre tinham passado o
Boxing Day só os três, depois de dividir o dia de Natal entre a Nonna — avó materna dela —
e os pais do pai, numa confusão de viagens de carro e comida boa demais. Mesmo depois que
os avós foram morrendo e o próprio Natal passou a ser só os três — os dois pais dela eram
filhos únicos —, o Boxing Day continuou sendo especial. Um dia calmo em que faziam o
café da manhã juntos e se enfiavam no sofá com filmes e livros.
Salvo o Boxing Day em que ela e Harry estavam se recuperando do encontro com a Nagini e
foram reencontrados com o Rony, Hermione tinha passado os Boxing Days desde que havia
obliviado os pais mergulhada na própria culpa. O Rony tinha tentado ajudar no primeiro ano
depois da guerra, insistindo pra ela comer e tentando convencê-la a ler Hogwarts: Uma
História em voz alta pra distrair os dois, mas no ano seguinte ele a deixou em paz e foi passar
o dia na Toca jogando quadribol com a Gina. O Harry tentou passar o dia com ela quando
percebeu que o Rony não ia, mas Hermione despachou o amigo com a garantia de que só
precisava descansar — e caiu no choro assim que ele saiu.
Olhando por cima do livro nas mãos até o próprio estômago, Hermione pensou que talvez
começar uma tradição própria de Boxing Day pra famíliazinha em formação pudesse ser um
passo rumo a cicatrizar a dor de ter perdido os pais pra salvá-los. Pela primeira vez, ela viu
com clareza como poderia ser um futuro com os gêmeos: uma manhã aconchegante fazendo
panquecas do jeito trouxa enquanto duas crianças sem rosto, de cabelos loiros cacheados,
comparavam entusiasmadas os presentes que tinham ganhado no dia anterior. A mente dela
até incluiu o Malfoy na cena, pondo a mesa e rindo das peraltices das crianças.
Hermione percebeu que tinha começado a chorar e secou depressa o rosto com a manga do
casaco.
— Ah, desculpa! Hum, hormônios, sabe? — disse, enfiando o livro de cirurgia debaixo do
braço enquanto lançava um sorriso envergonhado e apontava vagamente para a própria
barriga.
— Ah! Bom, parabéns então. — disse, deixando cair a mão ao lado do corpo e sorrindo
calorosamente antes de virar a cabeça quando o sino sobre a porta tilintou, anunciando outro
cliente. — Espero que dê tudo certo. Se resolver levar alguma coisa hoje, eu te dou dez por
cento de desconto pra comemorar.
Antes que Hermione pudesse dizer qualquer coisa, a livreira já tinha sumido com uma
piscadela na direção dela e um cumprimento alegre para quem tinha acabado de entrar.
Pegando o livro que tinha levado de volta pra debaixo do braço, Hermione passou a mão pela
capa de couro gasta. Decidida a comprá-lo, caminhou até o balcão da frente com o coração
aquecido pela imagem difusa de futuro que tinha desenhado e a mão livre pousada
distraidamente sobre a barriga.
-
Sem ter uma coruja própria, assim que chegou em casa depois da ida às compras Hermione
enviou o Patrono ao Malfoy perguntando se ele queria aparecer pra tomar um chá. Ela queria
falar com ele sobre o Boxing Day e, talvez, uma partezinha dela simplesmente quisesse vê-lo.
O Malfoy respondeu em poucos minutos, enfiando a cabeça na lareira para uma chamada de
fogo.
— Bom dia. Não posso dar um pulo aí agora porque tô no meio de uma coisa, mas por que
você não vem pra cá em vez disso? Eu tô no Sobrado. — disse, com o rosto iluminado de
baixo pelo fogo.
— Nem o que eu tô fazendo é urgente, pra falar a verdade. Só tenho pão no forno e não quero
sair. Vem pra cá e eu faço uma sopa pra acompanhar. — Malfoy disse com um sorriso.
Malfoy sorriu de lado, com aquela cara de quem já sabia que ela ia ceder desde o começo.
Malfoy assentiu.
Quando Hermione atravessou o fogo e chegou à sala do Malfoy dez minutos depois, os
cheiros que vinham da cozinha fizeram a boca dela encher d’água na mesma hora. O que quer
que ele estivesse assando cheirava divinamente.
— Na cozinha! — Malfoy gritou com uma familiaridade fácil, embora ela só tivesse estado
ali uma única vez.
Hermione pôs os sapatos no sapateiro ao lado da lareira e limpou os vestígios de fuligem das
roupas com um feitiço antes de seguir descalça até a cozinha impressionante dele.
— Não conta pros meus elfos, mas eu roubei um pouco do fermento-mãe da Mansão uns três
meses atrás. Eu queria tentar fazer meu próprio pão; as primeiras tentativas foram um
desastre. — contou sem rodeios.
— Bom, eu acho que essa deu certo. — Hermione respondeu, inspirando fundo pelo nariz.
Malfoy murmurou um som aprovador e foi mexer o caldeirão grande que fervia em fogo
baixo no fogão.
— Ah! Nada de ruim! É só… o que você vai fazer no Boxing Day? — perguntou, mordendo
o lábio e tentando sorrir ao mesmo tempo.
— Nada demais. Eu vou pro château da minha mãe no dia de Natal, mas tinha planejado ficar
de preguiça aqui depois disso. Por quê?
— Você… gostaria de passar esse dia comigo? — Hermione perguntou, nervosa. — É que eu
tava comprando um presente de Natal e isso me fez pensar em como, quando eu era criança,
eu amava a tradição da minha família de passar o Boxing Day só nós três, nos recuperando da
loucura do dia anterior. E claro que isso me levou a pensar em passar isso pros bebês, e como
você é o pai deles… eu pensei que a gente podia ver como é antes de, bem, você sabe. — Ela
terminou a frase com um gesto vago em direção ao próprio meio do corpo.
— Na verdade, isso parece ótimo. Obrigado por pensar em mim. — Ele apoiou a colher de
pau atravessada no topo da panela de sopa e foi até onde ela estava sentada, tomando a mão
dela entre as dele. — Obrigado, Hermione.
Malfoy pigarreou e voltou pro fogão, mexendo na colher, pegando-a de novo e remexendo a
sopa de costas para Hermione.
— Bom, talvez estivesse na hora, já que você é a mãe dos meus filhos. — Ele apoiou a colher
de novo e se virou, com a expressão neutra cuidadosamente colocada no rosto. — Peço
desculpas se causei algum incômodo.
Hermione corou, constrangida com o fato de uma coisa tão simples quanto a própria reação
ao nome ter gerado um mal-entendido.
— Acho que agora entendi o seu choque. — comentou, com ironia suave. — Realmente soa
estranho.
— Viu?
Draco riu também e passou a mão pelo cabelo, todo o azedume tendo sumido.
— Não, eu entendo.
— Hah, obrigado. — Ele voltou para a ilha, apoiando os cotovelos do outro lado da bancada.
— Qual era a outra coisa de que você queria falar?
— Ah, isso.
— Não é nada demais, de verdade. — Hermione disse, olhando por baixo dos cílios. — É só
que… a Gina e eu queríamos te pedir um favor. O Harry também, meio que.
Draco lutou pra não deixar um sorriso presunçoso se abrir no rosto, mas a Hermione viu o
traço passar pelos contornos afiados dele mesmo assim.
— Não desse jeito! — exclamou. — A gente só quer que você consiga roupas novas pro
Harry.
— Conseguir pro Potter… roupas novas. — Ele repetiu devagar, como se pudesse ter
entendido errado. — Tenho quase certeza de que o Potter pode pagar as próprias roupas,
apesar de se vestir como se pescasse tudo no lixo.
— Você não está tão longe. O Harry odeia comprar roupa e todas as roupas que ele tem são
sobras dos parentes trouxas dele; da época em que ele tinha uns treze anos. E, obviamente,
você não ia pagar nada.
— Por que não simplesmente comprar roupas pra ele mesma, se ele tá ocupado demais? —
Draco perguntou, não sem razão.
— Porque aparentemente as roupas que a gente compra não combinam com ele. Ele se recusa
até a experimentar. — Hermione cortou.
Praticamente qualquer um que fosse considerado amigo próximo do Harry já tinha passado
por isso. Primeiro tentavam levá-lo às compras, o que terminava com ele carrancudo e
desconfortável, e o amigo se sentindo culpado e irritado. Depois vinha a fase de presentear
com roupas, que o Harry agradecia educadamente e depois nunca usava. O passo seguinte era
comprar roupas e tentar enfiá-las nele à força, o que levava o Harry a doar as peças e se
recusar a falar mais no assunto.
— E o que te faz achar que eu, justamente eu, comprando roupas pra ele vai mudar isso? —
Draco inquiriu, com uma sobrancelha erguida.
— Porque a Gina e eu concordamos que as suas roupas ficaram muito bem no corpo dele
quando você estava de polissuco, e a gente não vai dar escolha pra ele. Eu sei que pode
parecer mandona, mas as roupas dele estão honestamente começando a cair aos pedaços. Até
os óculos são os mesmos que ele usa desde os dez anos, ele só esticou as hastes quando
pararam de caber.
— Porque eu sou excelente em Feitiços. Mudei o formato quando a gente estava fugindo,
mas ele realmente precisa de uma receita nova. Não que vá fazer, porque eles não deixariam
usar a armação antiga. — disse, com um toque de amargura.
— Longe de mim defender o Potter, mas não tenho certeza de que forçar o coitado a se vestir
como eu vá resolver o problema. Concordo com você que ele precisa desesperadamente de
roupas novas — e, aparentemente, de óculos novos —, mas isso parece receita pra desastre.
Eu e o Potter fazendo compras juntos é garantia de, no mínimo, um duelo, possivelmente
uma briga de soco.
— É por isso que a gente quer que você vá sozinho. Se não for incômodo.
— O que nos traz de volta ao seu ponto anterior de que ele não gosta de roupas compradas
pelos outros. — Draco rebateu. — Eu realmente não acho que isso vá funcionar, Hermione.
— Ela faria isso mesmo. — caiu na risada. — Certo, fala pro Potter marcar um dia e eu
encontro ele onde ele quiser. Mas não prometo me comportar se ele for um babaca.
— Eu não conheço o Potter bem o suficiente pra escolher roupa que fique boa nele. Só
consegui transfigurar as minhas da outra vez porque eu estava literalmente no corpo dele. —
Draco encontrou os olhos dela, cheios de expectativa, e o resto do sorriso escorreu da cara
como se tivessem passado graxa. — Não. Nem pensar.
— Por favor, Draco? Eu não pediria se a gente tivesse qualquer outra opção. As roupas dele
literalmente estão se desfazendo e ele não consegue se obrigar a trocá-las. Eu sei que posso
ser mandona, mas eu juro que não é isso. — Hermione implorou, juntando as mãos na frente
do corpo no clássico gesto de súplica.
— Não. Primeiro: isso é mandonice, sim; o Potter pode usar o que ele bem entender.
Segundo: eu não vou sair por aí andando no corpo dele só pra te agradar — e agradar a
namorada dele — porque ele concordou sob ameaça.
Hermione mordeu o lábio ao ouvir a bronca.
— Você promete não repetir o que eu vou te contar agora? Nem pro Harry? — perguntou,
hesitante.
— Prometo?
— O Harry não gosta das roupas dele. Ele odeia, na verdade. O motivo pra não comprar
novas é que o tio e a tia criaram umas associações bem desagradáveis entre roupas novas e
punição. — Hermione engoliu em seco, se sentindo culpada, e espiou o Draco. — Viu? Não é
mandonice. Ele diz que tão boas, mas todo mundo que conhece ele sabe que não. A gente só
quer que ele pare de achar que tem que usar tralha do tio porque gastar dinheiro consigo
mesmo vai resultar em alguma punição.
Draco ficou olhando pra ela mais um pouco, agora com um ar menos defensivo e mais
pensativo.
— Que tal um meio-termo? A gente vai primeiro em algum lugar mais em conta, pra ele não
sentir que tá desperdiçando dinheiro. Eu chego uma hora antes e separo uma seleção de peças
que ele só precisa experimentar e ele pode rejeitar qualquer uma de que não gostar.
— O Neville e eu já tentamos isso, ele falou não pra tudo. Até pras peças em promoção.
— Ainda assim, eu queria tentar isso antes de pular direto pra algo tão drástico quanto
polissuco. — O lábio do Draco se curvou, irritado. — Eu disse que ia ajudar, e vou. Mas
vamos fazer do meu jeito primeiro.
Hermione suspirou.
— Tá bom, mas não me culpa se você acabar trocando murro. O Harry fica grosso quando tá
desconfortável.
— Eu dou conta de um Potter rabugento, vai ser até nostálgico. — Draco brincou justamente
quando um alarme começou a apitar. — Fala pra ele me corujar com hora e lugar, eu não vou
começar nenhuma poção nova até meados de janeiro, então minha agenda é flexível.
Draco bufou.
— Prometo que não vou dizer. — Olhou franzindo a testa pros pãezinhos enquanto pousava a
assadeira na tábua, cutucando um em particular que parecia se esforçar pra criar braços e
fugir da forma. — Como diabos as pessoas fazem pra os pãezinhos não virarem bicho-papão?
Hermione riu e garantiu a ele que, pelo menos pra ela, ainda pareciam ótimos.
Chapter 11: Semana Doze
Hermione encarou o espelho de corpo inteiro que pendia ao lado da sapateira em seu curto
hall de entrada, temporariamente congelada, rígida de surpresa. Sacudindo-se para sair do
estupor, virou-se de frente e depois de lado, puxando a barriga para dentro o máximo que
conseguia.
— Hm. — Ela encarou o próprio corpo e o volume que, embora realmente não fosse assim
tão grande, era óbvio o bastante para ela a ponto de o fato de de algum modo ter deixado
aquilo passar ser vagamente ofensivo. Ela vinha se sentindo inchada já havia algumas
semanas, mas havia uma certa firmeza naquele inchaço específico que dizia “bebê” muito
mais do que “coma comida melhor”.
Ela notara aquilo quando estava no chuveiro, se arrumando para a chegada de Draco para o
almoço de Boxing Day. Tinha estado pensando sobre o dia de Natal com os Weasley;
Hermione passara uma meia hora desconfortável abrindo presentes e tentando ignorar os
olhares magoados que Rony ficara lançando para ela do outro lado da sala. Ele acabou saindo
furioso quando o presente de Molly para ela se revelou ser dois pequenos suéteres verdes,
junto com o suéter habitual de Hermione, ambos com minúsculos dragões na frente. Sutil,
Molly não era. Felizmente, o restante dos Weasley, exceto Arthur e Gina, apenas pareceu
confuso com a escolha do motivo e presumiu que um dos suéteres fosse reserva.
Harry, por outro lado, quase engasgou de tanto rir até Hermione perguntar, de maneira bem
pontual, se ele precisava de um elixir para tosse.
Depois de ter sido arrancada de seu devaneio pelas próprias mãos passando sobre uma
barriga que ela tinha certeza de que não estava daquele jeito nem mesmo no dia anterior,
Hermione voltara ao quarto em um leve estado de torpor, vestira um suéter vermelho
confortável que gostava de usar em casa e uma calça de linho verde macia que ganhara de sua
mãe no Natal anterior àquele em que precisara Obliviar os pais e tentou seguir com o resto do
dia.
Quando finalmente conseguiu desviar os olhos da prova crescente dos gêmeos dentro dela,
Hermione prendeu o cabelo num coque e foi até a cozinha para começar a arrumar as várias
tortas e carnes que trouxera de volta da ceia de Natal dos Weasley. Molly sempre se superava
na ceia de Natal, e Hermione cantarolou distraída enquanto colocava uma fatia de ganso na
boca e lançava um feitiço de aquecimento sobre tudo.
Preparos concluídos, Hermione deu uma olhada no relógio. Dez para a hora, o que lhe dava
pelo menos mais cinco minutos para arrumar a pequena bagunça que fizera ao organizar as
sobras que Molly empurrara em suas mãos antes de ela sair d’A Toca. Mas, em vez disso, ela
se pegou olhando de novo para a barriguinha no espelho e se perguntando como Draco
reagiria se a notasse. Em outro tempo, talvez tivesse presumido que ele reagiria com um
escárnio e uma palavra cruel; mas agora tinha quase certeza de que ele ficaria bastante
animado de poder ver a evidência dos gêmeos.
— Um dia eu ainda vou conseguir que todos saiam com a mesma cara. — resmungou, depois
se inclinou e deu um beijo rápido em sua bochecha em cumprimento. — Feliz Natal e Yule
Abençoado. Como você está se sentindo? — perguntou, com um olhar impressionado para a
ceia que Hermione arrumara na pequena mesa de jantar.
Hermione ergueu os olhos para ele com a mão pressionada no lugar onde ele beijara sua
bochecha, piscando em surpresa.
— Ah, eu… eu estou ótima. — gaguejou. Depois agarrou a cesta de pãezinhos e se ocupou
em encontrar um lugar na mesa para eles, a fim de esconder o rubor que subira por suas
faces. — Não me sinto enjoada desde sexta-feira, então estou torcendo para que isso tenha
acabado.
Draco murmurou algo aprovador atrás dela e sua mão entrou em seu campo de visão para
pegar uma fatia de ganso.
— Isso é bom. Eu me sentia péssimo por você toda vez que nossos filhos faziam você perder
o almoço. — disse, e então gemeu de prazer. — Merlin, esse ganso está espetacular!
Hermione riu, de repente sentindo-se um pouco mais como se estivesse em terreno firme.
— Ah, eu sei. A Molly sempre faz o melhor almoço de Natal e manda bastante sobra para
casa. Este ano ela fez um ganso inteiro só para eu levar, com todos os acompanhamentos! —
a risada dela virou um acesso de risadinhas. — O Harry ficou tão com ciúmes.
— Bem, suponho que devo ser grato por você estar compartilhando comigo, então. Todo
mundo sabe que a sra. Weasley é uma das melhores cozinheiras da Grã-Bretanha. —
Virando-se para encará-la, apoiou-se de maneira casual no encosto de uma das cadeiras da
sala de jantar. — Falando nisso, como foi o seu Natal? Eu sei que você estava um pouco
nervosa por passá-lo com… os Weasley. — disse com cautela.
Hermione sabia que ele se referia a um Weasley em particular e sorriu para ele.
— Vamos nos sentar primeiro? — disse, puxando uma cadeira para si e pegando um Boggart
Roll no caminho enquanto se sentava. — Na verdade foi agradável. O Rony ficou meio
emburrado, mas não fez nenhum escândalo nem nada.
— Isso é bom. Ele sempre teve problema com o temperamento e eu devo admitir que estava
um pouco preocupado.
— Você e o Harry, mas ele se comportou. Mas chega dele; olha só o que a Molly me deu de
Natal! — disse, convocando com um sacudir de varinha os dois pequenos suéteres de seu
quarto. — Ela é praticamente a pessoa menos sutil que eu conheço.
Draco pegou facilmente as pequenas peças de tricô quando elas passaram voando por ele e as
ergueu para olhar melhor, as sobrancelhas subindo até a linha do cabelo quando ele percebeu
o desenho na frente.
— Dragões? Bem, você tem razão sobre ela não ser sutil. — ele riu, então ergueu um pelos
ombros para observar melhor o motivo. — Ela ainda fez de um jeito que eles parecem o
brasão da minha família. Alguém percebeu?
— Não, graças a Merlin; essa não é uma conversa que eu gostaria de ter tido durante o
almoço de Natal. Mas eu vi o Gui lançando uns olhares bem significativos para o Carlinhos
depois que eu os abri. — ela riu.
— Ah, o Carlinhos trabalha com dragões na Romênia, então acho que o Gui pensou que tinha
alguma coisa a ver com isso. Mas eu só vejo o Carlinhos quando ele vem para o Natal, então
não sei por que o Gui pensaria assim. — disse ela com a boca cheia de pãozinho. — Merlin,
estes estão ainda melhores que os últimos. — suspirou de contentamento, gesticulando em
direção ao ganso com a mão livre. — Se serve, Boxing Day não é dia para ficar fazendo
cerimônia.
— Nada. — disse, obviamente mentindo. Então abriu um sorriso. — Mas se você acha a sra.
Weasley pouco sutil, espera até ouvir sobre o meu Natal.
Hermione pegou o pegador de servir das mãos dele quando ele terminou e ergueu uma
sobrancelha.
— Ah, não, o que é que a sua mãe fez? — perguntou, tentando imaginar no que Narcisa
poderia ter se metido.
— Pela primeira vez em toda a minha vida eu ganhei exatamente um presente de Natal. Quer
arriscar um palpite sobre o que era? — Diante da negativa horrorizada de Hermione, apenas
sacudindo a cabeça, ele continuou com alegria. — Mamãe me deu o anel de noivado da mãe
dela, com todos os feitiços de almadiçoar removidos. — disse, dando uma garfada no almoço
com óbvio deleite.
— Ela não! — Hermione arfou antes de cair na própria crise de risos. — Deus, a gente nunca
pode deixar ela e a Molly se encontrarem. Desde que contei para ela, a Molly mal consegue
ter uma conversa comigo sem soltar indiretas sobre alianças ou perguntar quando vou levar
você lá para “conhecer a família”.
— De jeito nenhum. — concordou. — Não existe grau de animosidade hereditária que minha
mãe não poria de lado para começar a tramar. Se ela descobrisse que existe uma co-
conspiradora disposta, provavelmente acordaríamos com um anúncio de página inteira no
Profeta declarando nossas núpcias iminentes. — Então ele parou no meio de cortar uma
batata assada. — Espera, você disse que a sra. Weasley quer que eu “conheça a família”?
— Ah… ahm, sim. — disse Hermione, mexendo no garfo. — Ela anda perguntando desde
que contei a ela e ao Arthur que você é o pai.
A tensão que tomara conta de Draco à menção da suposição de Gui voltou a se infiltrar em
seus ombros.
— Entendo. E você não deseja que isso aconteça? — sondou, neutro, os olhos cinzentos
tempestuosos fixos cuidadosamente no prato.
Hermione esperou que ele fizesse contato visual com ela, mas ele se recusava a erguer o
olhar.
— Eu… não pelos motivos que você está pensando. — disse, hesitante.
Draco finalmente ergueu os olhos para ela com uma sobrancelha arqueada.
— Ah, não?
— É só que isso vai fazer tudo parecer tão… real. — admitiu. — Eu sei que você não tem
tanta dificuldade assim em aceitar tudo isso, mas eu tenho, e muita. Eu gosto de planos, de ter
uma sensação de controle das coisas. E isso é tão… permanente e tão contra o que eu tinha
traçado para a minha vida; pelo menos nessa fase. — ela espiou Draco por entre os dedos e
viu que a expressão dele se suavizara em direção à compreensão. — Desculpa, eu estou
chegando lá; é só… desafiador abrir mão de todas as coisas que eu imaginava fazer.
Draco pousou os talheres e se levantou da mesa, andando até ficar agachado à sua frente.
— Eu também sinto muito. Eu disse que ia respeitar o seu ritmo, mas aí fiquei ofendido
porque alguém pensou que os bebês pudessem ser de outra pessoa e você ficou, com toda
razão, hesitante quanto à ideia de eu conhecer a coisa mais próxima de pais bruxos que você
tem. Eu fui irracional. — suspirou.
Hermione sentiu uma lágrima tentando escapar do canto do olho e esfregou os olhos com a
base das mãos antes de se inclinar para pegar as mãos de Draco nas suas.
— Espera. — disse, mordendo o lábio. — Ahm, esta manhã… veja bem… — ela se
atrapalhou por um momento, então também se levantou e largou uma das mãos de Draco para
erguer um pouco o suéter. — Dane-se. Aqui. — disse, e pressionou a mão fria dele contra a
pequena saliência em seu abdômen.
As sobrancelhas de Draco dispararam até a linha do cabelo e ele pareceu confuso por um
instante antes que a compreensão surgisse e seus dedos se movessem para sentir a firmeza da
barriguinha em comparação com o resto de seu estômago.
— Eu reparei quando estava me arrumando hoje de manhã. Eu sei que não tem muita coisa
aí, mas bem… Feliz Natal. — disse.
Draco ergueu os olhos para ela, e Hermione ficou atônita com a pura quantidade de
maravilhamento em seus olhos cinzentos.
Assentindo, Hermione soltou a mão dele para deixá-lo explorar por conta própria.
— Tenho quase certeza. Eu sei que não é nada muito grande ainda, mas que momento melhor
para te mostrar do que hoje? — disse com um sorriso.
Draco abaixou-se cuidadosamente até ficar de joelhos e levou a outra mão para cima, de
modo que emoldurava a pequena saliência no abdômen de Hermione, de resto normal.
— Vai comigo à consulta nos Curandeiros na quinta-feira. — disparou, corando quando ele
ergueu o olhar para ela de maneira brusca.
— Você quer que eu vá como eu mesmo? — perguntou em voz baixa. — As pessoas vão
perceber então, você sabe disso, não sabe?
Hermione lhe ofereceu a mão para que ele se levantasse com ela.
— Eu sei. — disse com um sorriso trêmulo. — Eu odeio a ideia de quanta fofoca isso vai
causar, mas as pessoas vão descobrir eventualmente. Com a minha sorte, eles vão nascer com
cabelo loiro platinado e sorrisos insolentes combinando. Ia ser bem difícil esconder quem é o
pai, assim. — brincou fracamente.
Draco aceitou a mão dela com cuidado e se pôs de pé sem dar um passo para trás, de modo
que o peito quase roçava o dela e Hermione precisou inclinar a cabeça para trás para encará-
lo. Ele parecia dividido, e em outra época Hermione teria presumido que era porque ele não
queria que ninguém soubesse que era o pai; mas agora ela sabia que não era isso. Por motivos
que ainda não estavam inteiramente claros para ela, Draco acolhera a ideia de ser pai de
bebês mestiços incrivelmente bem quase desde o início. Ele ficara chocado e um pouco
desconfiado, com razão, quando ela lhe contara sobre o Razorano Pole pela primeira vez, mas
depois disso fora muito mais entusiasmado com a gravidez do que ela teria julgado possível.
Assim, deixando de lado a própria aversão à tagarelice constante que a rodeava por onde quer
que fosse, Hermione achava que Draco merecia ao menos ser reconhecido como o pai dos
bebês. Ela sabia que ele estaria preocupado com a tempestade midiática que isso traria, mas
tinha tomado a decisão, por mais espontânea que fosse, e não ia voltar atrás.
— Certo. — disse Draco, com um sorriso lento se espalhando pelo rosto. — Isso parece…
bom.
— Certo, agora vamos terminar tudo isso antes que esfrie. — disse, indicando com um gesto
os pratos abandonados.
Draco voltou a se sentar na própria cadeira, mas Hermione percebeu que, de tempos em
tempos, ele sorria para ela quando achava que ela não estava olhando, ao longo da refeição.
Era uma companhia agradável e simples num dia em que Hermione normalmente ficava
tomada de culpa e arrependimento pelo que precisara fazer com os pais. Depois de um tempo,
eles conseguiram voltar a assuntos mais seguros, rindo das várias maquinações nada sutis de
Narcisa Malfoy em relação ao desejo transparente de ver os dois casados, e competindo para
inventar manchetes cada vez mais ridículas para a revelação de que Draco Malfoy de alguma
forma teria um bebê com Hermione Granger. Dois bebês, na verdade.
— Eu comprei uma coisa para você. — disse, um pouco sem jeito. — Eu sei que a gente não
combinou presentes, mas achei que isso tinha muito a ver com você.
Rindo ainda mais, Draco colocou o livro embrulhado em vermelho no colo e enfiou a mão no
bolso para pegar dois pequenos pacotes, um dos quais ele aumentou e lhe estendeu.
— Como é que os Trouxas dizem mesmo? Mentes brilhantes pensam igual? — brincou.
Assentindo com um sorriso juvenil, Draco colocou o presente no colo e pairou as mãos sobre
ele.
— Com certeza, eu sou impaciente demais para esperar para ver o que uma bibliófila
renomada me deu, mas é de péssima educação não deixar a dama ir primeiro.
Um tom rosado subiu às faces de Hermione, porque Draco dissera algo muito parecido em
um estado de embriaguez, lá de algum lugar entre as coxas dela. Na época, ela tinha dado
uma risadinha debochada, mas as ações dele logo em seguida haviam apagado as palavras da
mente dela até ele repeti-las agora.
— Certo, no três? — disse ela, torcendo para que ele não notasse o rubor.
— Oh! — exclamou, virando o livro para ler o título. — Isso parece realmente interessante,
obrigado, Hermione. — disse com empolgação genuína.
— Correndo o risco de ser posto para fora daqui por te lembrar o moleque babaca que eu
costumava ser… eu roubei no quarto ano. — confessou, ruborizando e parecendo
envergonhado. — Eu sei que é um presente meio esquisito para o Natal, mas eu queria te dar
alguma coisa que mostrasse que eu não sou mais aquele garoto. Só lembrei que tinha esse
livro quando você me convidou para passar o Boxing Day com você, senão eu já teria
devolvido antes.
Pousando o livro de medicina que Hermione lhe dera de presente de lado, Draco estendeu a
mão e cobriu as mãos dela com as suas.
— Eu não sabia disso, mas eu sabia que você amava esse livro. Eu fui horrível com você, e
esse livro representa isso. Devolvê-lo representa o quanto eu me arrependo de ter me
comportado daquele jeito e o quanto eu quero compensar você. — disse ele, o polegar
roçando o osso do pulso dela. — Fico admirado de você sequer ter me dado atenção naquele
dia, em vez de ter me almadiçoado com algo bem doloroso quando eu fui falar com você
naquele bar, e fico humilde por você estar me permitindo fazer parte da vida dos nossos
filhos com você. Eu mereço bem menos, e quero que você saiba que eu sinto muito. Eu vou
dizer isso todo dia se você quiser, mas quero começar com isto.
O lábio de Hermione tremeu. Ela não tinha percebido o quanto precisava ouvir Draco dizer
que sentia muito por tudo o que veio antes; por sua parte na história tumultuada dos dois.
Achara que tinha separado Draco-na-Escola e Draco-Agora em sua mente; vendo o homem
calmo e reservado em que ele se tornara como alguém diferente do garoto cruel que fora. Mas
ouvir aquelas palavras rachou algo dentro dela, alguma barreira que ela não sabia que existia
durante todas aquelas semanas em que ele vinha aparecendo para bater papo ou trazer
comida.
Largando o livro de repente, ela jogou os braços em volta do pescoço dele e enfiou o rosto
em seu ombro, chorando as lágrimas da jovem cuja posse mais preciosa fora roubada por um
garotinho rancoroso. De algum modo, chorando no ombro de Draco enquanto ele murmurava
desculpas em seus cabelos, Hermione soube que ele poderia ter dito “desculpa” um milhão de
vezes e a barreira teria permanecido; invisível e não reconhecida, mas para sempre entre os
dois. Mas ele devolvera o livro, um livro que roubara há tanto tempo que ela quase tinha
esquecido dele e há muito substituíra por uma cópia mais nova, apesar do significado que
tinha para ela. Ele desenterrou o passado doloroso e o apresentou como um presente,
embrulhado no pedido de desculpas mais sincero que conseguiu.
Ela chorou até o moletom dele ficar encharcado, deixando que ele esfregasse suas costas e
murmurasse seus arrependimentos. Mas, eventualmente, as lágrimas acabaram e ela se
afastou com um fungar molhado.
— Vamos considerar parte da restituição. — disse com um sorriso meio torto. — Você quer
que eu vá embora?
— Não, você pode ficar. — disse, passando a mão de novo pelo velho livro com um
sorrisinho.
— Graças a Merlin. — Draco riu, ainda meio trêmulo. — Eu não tinha certeza se isso ia me
render o banimento.
Hermione o encarou atentamente, notando o jeito desconfortável com que ele tamborilava os
dedos na caixinha que ainda segurava.
— Tenha em mente que este presente é opcional. — começou Draco, hesitante. — Então, se
te deixar desconfortável, por favor sinta-se totalmente à vontade para recusar, sem
ressentimentos.
— Isso está te deixando nervoso? E é mais estranho do que me dar o livro que você surrupiou
para me irritar quando eu tinha quinze anos?
Hermione franziu os lábios, mas pegou o presente mesmo assim e desembrulhou o papel para
encontrar uma pequena caixa de madeira dentro, felizmente não do tipo que guardaria um
anel. Ao abri-la, revelou-se uma pequena chave de latão, do mesmo tipo que se encontrava
por toda parte no mundo trouxa.
— Eu não quero que você se sinta pressionada nem nada, mas… eu reparei que você não tem
exatamente espaço para uma criança aqui, muito menos para gêmeos. — disse Draco, se
mexendo um pouco para longe dela, como se temesse que ela fosse explodir. — Então pensei
em te oferecer a townhouse. Eu fiz minha pesquisa, a região tem ótimos parques e a escola
trouxa local é muito bem recomendada…
— Você quer me dar uma casa de Natal? A sua casa? — a boca dela abriu e fechou algumas
vezes como um peixe fora d’água antes que ela a fechasse de repente. — Você está me
pedindo para morar com você? — perguntou, desconfiada.
— Não, a menos que isso seja algo que você queira. — a boca dele tremeu, como se ele não
tivesse certeza de como formular a próxima defesa, antes de suspirar e esfregar a nuca. — Eu
ficaria na Mansão. Ou, se você quiser, eu compro com prazer uma casa totalmente nova para
você, uma que você escolha.
— Você… Draco. — disse ela, incrédula. — Quem é que oferece uma casa para alguém
como um presente casual de Natal?
— Alguém com mais dinheiro do que juízo? — sugeriu ele, com um encolher de ombros
desconfortável. — E alguém que está se esforçando muito para ficar do lado bom da mãe dos
filhos dele.
Hermione piscou para ele, observando-o se remexer como um aluno esperando detenção.
— Eu sei, eu sei. — disse ele. — Por isso eu disse que fica inteiramente a seu critério aceitar
ou não. E se você decidir aceitar, eu prometo que isso vai ser completamente livre e
desimpedido; eu não vou ficar usando isso contra você aconteça o que acontecer. Mesmo que
você resolvesse não continuar com o nosso plano de guarda compartilhada, eu não exigiria a
casa de volta. Eu só… queria dar a você e aos nossos filhos um lugar para viver com
conforto.
Hermione olhou em volta para a pequena sala de estar e depois para a porta do único quarto.
— Eu simplesmente não sei o que dizer. — admitiu, a caixinha ainda apoiada levemente na
mão.
— Imaginei que você precisaria de um tempo para pensar, se não resolvesse simplesmente
me atirar a chave na cabeça. — disse, com ironia. — Mas fique com a chave de qualquer
jeito, por favor. Ela vai deixar você passar por todos os meus feitiços de proteção mesmo que
eu os tenha ativado.
Hermione olhou para ele, para o moletom cinza trouxa manchado pelas lágrimas catárticas
dela e para a expressão esperançosa no rosto dele. Inspirando fundo para se acalmar, ela
assentiu uma vez.
Um sorrisinho puxou os lábios de Draco, e ele empurrou a chave com cuidado um pouco
mais na direção dela.
A nova recepcionista atrás da mesa no consultório de Curandeiros pré-natais foi muito mais
profissional do que a anterior quando Hermione e Draco chegaram para a consulta; limitou-se
a piscar em surpresa diante daqueles rostos tão reconhecíveis por alguns momentos antes de
direcioná-los às cadeiras para esperar pela Curandeira Agg. Hermione até teria ficado
aliviada, não fosse o fato de já ter visto queixos demais caindo pelo caminho, o suficiente
para ter certeza de que a notícia de Draco Malfoy acompanhando Hermione Granger até a
Ala de Maternidade de St. Mungo já estava voando direto para a mesa de Rita Skeeter.
Ela estava muito grata por ter passado os últimos dois dias avisando seus amigos mais
próximos e família substituta sobre o que estava por vir. As respostas tinham sido… variadas,
mas no geral melhores do que ela imaginara. Luna ficara encantada, mandando uma coruja de
suas viagens na América do Sul dizendo a Hermione que achava lindo ela e Draco se
esforçarem tanto para trabalhar juntos pelo bem dos filhos. Neville ficara menos empolgado,
mas aceitou com relutância a situação ao longo da conversa pela lareira, até finalmente
suspirar e dizer a Hermione que, contanto que ela estivesse feliz, ele não se importava.
Surpreendentemente, tinha sido Jorge quem recebera melhor a notícia de que ela estava
grávida de Draco Malfoy. Ele explodira em gargalhadas quando Hermione contara, hesitante,
e a presenteou com o relato de Gui encurralando Carlinhos assim que ela saíra d’A Toca no
Dia de Natal para perguntar como diabos ele tinha conseguido deixar Hermione grávida, e a
consequente confusão de Carlinhos. Aparentemente, Arthur acabara encontrando os dois
tentando decifrar o significado dos pequenos suéteres com dragões e lhes dissera que
acabariam descobrindo em algum momento, e que deixassem isso de lado até Hermione estar
pronta para contar. O que levara Gui, Carlinhos, Jorge e, surpreendentemente, Percy a
tentarem entupir o pai de firewhisky numa tentativa de soltar sua língua e descobrir o que ele
sabia, enquanto Harry e Gina faziam cara de sabichões ao fundo e Rony amuado sob o olhar
atento de Molly.
Hermione até considerou mandar cartas para mais conhecidos, mas a verdade é que não
mantinha contato com muita gente e tinha quase certeza de que os poucos dias restantes das
férias de Natal seriam tempo suficiente para os repórteres se acalmarem um pouco daquele
fervor ridículo por qualquer notícia sobre sua gravidez, de modo que não causariam tantos
problemas quando ela voltasse ao trabalho. Barnabus, sem dúvida, ficaria preocupado por ela
quando soubesse, mas ela tinha quase certeza de que ele entenderia depois que conversassem.
Infelizmente, dizer a si mesma que já contara aos mais próximos e queridos, e que eles não a
tinham imediatamente almadiçoado nem mandado internar na Ala Janus Thickney de Mungo,
não ajudou tanto assim com os nervos na caminhada pelo hospital. Os olhares já tinham sido
ruins o bastante sem o horror absoluto que ela viu no rosto de um par de bruxas quando
Draco colocou distraidamente a mão em suas costas para guiá-la para dentro do elevador.
Mas eles conseguiram chegar à Ala de Maternidade ilesos e sem interrupções, o que
Hermione supôs que já era algo pelo qual agradecer.
— Tenho quase certeza de que você perderia essa. — resmungou. — Essa recepcionista mal
piscou.
— Ah, não, tenho certeza de que já existe um parlamento inteiro de corujas a caminho do
Profeta por causa do nosso pequeno passeio por Mungo. Eu estava pensando em apostar se
isso entra ou não na edição da noite. — disse, com um leve desafio nos olhos.
— Outro jantar? — Hermione perguntou, revirando os olhos para si mesma por morder a isca
tão rápido.
— Feito. Eu aposto que entra na edição da noite. — disse, estendendo a mão para que ele
apertasse.
Mal Draco segurara a mão dela para selar a aposta, a porta do consultório da Curandeira Agg
se abriu e uma bruxa muito grávida saiu se balançando à frente da parteira.
— Se você falar com a Melissa aqui, ela já marca essas consultas extras para você. — disse a
curandeira robusta, gentil. — E não hesite em me chamar pela lareira se precisar de qualquer
coisa.
A bruxa grávida sorriu, agradecida, e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que
pudesse soltar uma palavra sua mandíbula caiu completamente ao ver Hermione e Draco
sentados lado a lado, aparentemente de mãos dadas. Houve um momento tenso de silêncio
antes que a Curandeira Agg empurrasse de leve o ombro de sua paciente em direção à
recepção.
A recepcionista entendeu rápido e puxou a bruxa com um gesto, enquanto a Curandeira Agg
acenava para Hermione e Draco, conduzindo-os para dentro, passando pela bruxa ainda
encarando os dois com um leve franzir de cenho.
Assim que a porta se fechou atrás deles, a Curandeira Agg ergueu a varinha para lançar uma
chuva de feitiços de limpeza pela sala, ajeitando tudo depois da consulta anterior.
— Eu lhe devo um pedido de desculpas, srta. Granger; tenho feito um péssimo trabalho
protegendo a sua privacidade. — disse, observando Hermione por trás dos óculos de casco de
tartaruga e gesticulando para que os dois se sentassem. — Eu dispensei a funcionária que
avisou a imprensa da última vez, mas temo que possa haver outra violação de privacidade se
formando; embora eu possa garantir que não virá de mim nem da minha equipe.
Hermione prendeu uma mecha do cabelo armado atrás da orelha com um encolher de ombros
envergonhado.
— Não se preocupe, eu sei que sou um escândalo ambulante neste momento. — molhou os
lábios. — Além disso, já vimos gente o bastante no caminho pelo hospital, e todos reagiram
praticamente como a sua última paciente.
Os olhos da Curandeira Agg saltaram para onde Draco estava sentado ao lado dela.
— Entendo. — disse, para então voltar a olhar para Hermione. — Mais um amigo? Ou…?
— Draco Malfoy, sou o pai dos gêmeos. — cumprimentou, sem dar a entender que na
verdade fora ele por trás do rosto de Harry da última vez e esta não era a primeira vez que se
encontravam.
— Ah, bem, devo dizer que isso é uma surpresa. — largando a mão de Draco, ela convocou o
prontuário de Hermione da pilha sobre a mesa e o abriu. — Mas vamos aos negócios: como
você tem se sentido, srta. Granger?
— Na verdade, bem. Acho que os enjoos matinais passaram, mas ainda estou muito cansada
e com aquelas dores de cabeça. — disse. — As coisas têm estado um pouco agitadas, mas
estou tentando não exagerar e estou tomando as poções suplementares direitinho.
A Curandeira Agg assentiu e conferiu a anotação que a pena fez sozinha no prontuário.
— Fico feliz que você não tenha se sentido mal. Gravidez de gêmeos tem alta chance de
enjoos matinais debilitantes em bruxas, então você escapou com sorte dessa.
— Eu sei. — Hermione disse com um pequeno sorriso. — Minha… amiga teve gêmeos e me
deu todos os detalhes sangrentos de como foi diferente das outras gestações. — o sorriso
virou uma leve careta ao se lembrar de Molly se estendendo em detalhes vívidos sobre o quão
horrível foi dar à luz gêmeos.
— Mm. — murmurou a Curandeira Agg, lançando a Hermione um olhar que deixava claro
que sabia exatamente de quem ela estava falando. — E a sensibilidade nos seios?
Hermione corou e lançou um olhar rápido a Draco, que lhe devolveu um sorriso de canto.
— Igual a antes. — admitiu. — Mas meu quadril está começando a se sentir… estranho? Não
dói nem nada, só diferente do normal.
A Curandeira Agg assentiu, sábia.
— Isso vai acontecer, sua pelve está tendo que acomodar bem mais coisa do que está
acostumada. Especialmente com seu porte miúdo e gêmeos, você vai notar uma mudança na
maneira de andar bem cedo. Continue fazendo bons exercícios de assoalho pélvico e se
mantenha razoavelmente ativa. — ergueu uma sobrancelha. — Mais alguma coisa que você
queira perguntar ou mencionar?
— Ah, hm… Notei outro dia que dá para ver um pouco de barriga… Isso é normal nessa
fase? — perguntou, hesitante. — Parece muito cedo para ver alguma coisa.
— Bom, como eu disse, você tem um porte pequeno e está esperando dois bebês. Não tem
tanto espaço quanto teria numa bruxa mais alta. Eu vou dar uma olhada quando você estiver
na maca, mas tenho quase certeza de que não é nada com que se preocupar. — tranquilizou a
Curandeira Agg com um sorriso. — Agora, sr. Malfoy; mil desculpas por tê-lo ignorado. É
bom vê-lo.
Draco engoliu em seco diante do brilho sabichão nos olhos da Curandeira, mas respondeu
com o sorriso treinado de quem foi criado em casa de políticos.
— Muito bem. — disse, calorosa. — Agora, imagino que você tenha uma cópia de seus
registros médicos para anexarmos ao prontuário?
Draco se mexeu na cadeira e tirou do bolso de trás uma única folha de pergaminho dobrada.
— Melhor ainda, estou com os formulários para a senhora ter acesso a eles pelo hospital, já
assinados e com firma reconhecida. — disse, entregando-os à Curandeira.
— Maravilhoso! — A Curandeira Agg pegou o formulário e deu uma lida rápida antes de
colocá-lo junto ao dossiê de Hermione. — Agora, há alguma pergunta que você precise fazer,
sr. Malfoy?
— Ah… Eu não tinha pensado em… — interrompeu a frase com um franzir de cenho. — Na
verdade, tenho sim. Eu li todos os livros que consegui pôr as mãos, mas não tenho nenhuma
experiência com gravidez ou crianças. A senhora teria talvez algum material para me indicar
sobre como apoiar melhor a Hermione?
A surpresa cintilou no rosto da Curandeira Agg por um instante antes de ela relaxar.
— Temos um ou dois, posso pedir para a Melissa entregar os folhetos quando vocês saírem.
Mas, para ser sincera, os Trouxas estão bem à nossa frente nesse tipo de curso. — ergueu
uma sobrancelha por trás dos óculos para ele. — Se isso for algo com que você se sinta
confortável, é claro. — acrescentou, neutra, observando a reação dele.
— Vou procurar saber, não tenho problema algum em fazer cursos trouxas se a senhora puder
me indicar alguns.
Hermione se eriçou diante do que considerou uma provocação descarada e abriu a boca para
repreender a outra bruxa, mas Draco apertou rápido o joelho dela para fazê-la parar, sem
sequer olhar em sua direção.
— Agradeço muito. Vou pensar mais a respeito e, se tiver mais perguntas, trago-as na
próxima consulta. — disse, calmo.
Hermione ainda queria dizer à Curandeira Agg que colocar Draco à prova daquele jeito era
impróprio, mesmo que ela não parecesse ter intenção maliciosa, mas deixou passar. Precisava
admitir, a contragosto, que tivera reservas parecidas em relação a Draco no começo de toda
aquela confusão, afinal de contas. Foi preciso conhecer um pouco melhor o novo Draco ao
longo dos últimos três meses, e uma quantidade surpreendente de paciência da parte dele,
para que Hermione começasse a vê-lo sob outra luz.
— Acho que, por enquanto, é só. Talvez eu tenha mais perguntas depois do exame. — disse
Hermione, um pouco ríspida.
A Curandeira Agg sorriu e sacudiu a varinha, fazendo a cama deslizar para fora da parede.
— Muito bem, então vamos em frente. — Quando Hermione já estava acomodada com a
barriga exposta, a bruxa mais velha virou a cabeça na direção de Draco, que tentava enxergar
sem demonstrar tanto interesse. — Venha para cá, meu filho, tenho certeza de que você quer
ver.
Hermione observou com interesse enquanto a Curandeira palpava o pequeno volume, dedos
ágeis apalpando tudo com uma expressão alegre no rosto antes mesmo de ela pegar a varinha.
— Está muito bem, srta. Granger. — disse, conjurando a esfera de cores em movimento e
observando enquanto ela se estabilizava num padrão estático. — Muito bem mesmo. Vamos
voltar para a mesa e conversar mais um pouco.
Hermione puxou a blusa para baixo com um pequeno sorriso diante da notícia de que tudo ia
bem, e então flagrou a expressão de Draco quando se sentou. Ele parecia ter levado um soco
no plexo solar, surpreso e um pouco sem ar.
— Desculpa, é só que… eu estou feliz que esteja tudo correndo tão bem. — disse, com um
leve gesto de cabeça na direção da barriga dela.
Hermione deixou passar o que tinha certeza de ser uma forma de desviar e voltou a olhar para
a Curandeira Agg.
— Apenas ferro um pouco baixo, então vou passar uma poção de ferro para você tomar uma
vez por semana. Mas isso é um problema comum na gravidez, nada com que se preocupar. —
disse a Curandeira Agg, quando todos voltaram às cadeiras. — Agora, você é nascida Trouxa.
Não falamos disso na última consulta, mas alguns dos meus pacientes Muggleborn gostam de
fazer exames de ultrassom; posso fazer um encaminhamento para uma clínica trouxa aqui
perto, se for algo que você queira.
— Ah, sim, por favor. Eu estava me perguntando como faria para conseguir isso. — corou
um pouco e abaixou a cabeça. — Não que eu não confie nos seus feitiços nem nada, eu só
acho que seria muito interessante ver os bebês.
— Sem ofensa, srta. Granger. Como eu disse, muitos pacientes Muggleborn têm optado pelos
exames, a maioria pelo mesmo motivo que você. Eu escrevo o encaminhamento antes de
vocês irem. — inclinando-se para dar uma olhada no gráfico com o diagrama da última
avaliação, voltou a sorrir. — Agora, vocês vão querer descobrir o sexo dos bebês?
— Hm, eu ainda não me decidi. — lançou um olhar para onde Draco estava sentado. — Tudo
bem para você?
— Claro. Vamos descobrir em algum momento nos próximos ano ou dois, com certeza.
— Ah, então você terá uma boa ideia do que fazer numa emergência. — disse a Draco.
— Em parte. — respondeu Draco com uma inclinação de cabeça que não chegava a ser um
aceno. — Eu conheço os feitiços diagnósticos básicos e afins, mas o foco da minha
especialização é poções de cura.
Hermione nem tinha cogitado pedir que Draco preparasse suas poções. Vinha tomando
poções básicas de gravidez compradas na farmácia em Diagon sem nem pensar no fato de
que tinha um excelente recurso à disposição.
— Ainda não. — disse Draco, suave. — Ela tem se virado com as normais, já que eu ainda
não terminei completamente a especialização e não cobri integralmente as poções natais.
— Hmm, bem, isso fica a critério de vocês. Ela ainda não precisa de poções específicas,
então, se os dois se sentirem confortáveis, você pode assumir a preparação. Mesmo sem ter
concluído a especialização, eu tenho confiança de que você conseguiria preparar as poções
básicas para ela. — a curandeira fixou em Hermione um olhar gentil. — Sempre é melhor
que um familiar prepare as poções para você, se tiver alguém competente. Ajuda na parte
mágica.
— Ah. — fez Hermione, olhando para Draco de esguelha. Diante do aceno curto dele, ela
sorriu. — Então, por mim, tudo bem. Eu só não tinha pensado nisso antes. — admitiu, meio
sem graça.
— Excelente. — disse. — Bem, posso dizer com segurança que você está evoluindo muito
bem; os bebês estão exatamente dentro do esperado para o crescimento e, tirando a questão
do ferro, você também está indo notavelmente bem. Se as coisas continuarem assim, devo vê-
la de novo em quatro semanas, mas se sentir qualquer mudança, posso adiantar isso sem
problemas.
Hermione sentiu uma bolinha de felicidade ao ouvir que tudo ia tão bem e sorriu para a
curandeira. Nem percebeu que apertava de leve o joelho de Draco enquanto fazia algumas
perguntas básicas sobre coisas às quais deveria ficar atenta.
Dennis Creevey abaixou a cabeça loira-areia em reconhecimento e ergueu a mão para mostrar
um pequeno bloco de notas espiralado e uma caneta trouxa.
— Estou bem, trabalhando no Profeta agora. — os olhos dele passaram por Draco antes de
voltarem para Hermione. — Podemos conversar um minuto?
Enquanto Hermione ainda estava atônita com a ousadia dele, Draco ficou indignado.
Dennis lançou a ele o mais leve indício de um esgar no canto dos lábios antes de se
concentrar de novo em Hermione.
— Não foi por isso que eu vim. Ou, em parte, não. — suspirou fundo e esticou o pescoço
para ter certeza de que não havia ninguém ao alcance de ouvir. — Olha, eu sou só um
repórter júnior. Fiquei encarregado da correspondência hoje quando fomos inundados de
corujas dizendo que tinham visto você indo para a clínica de maternidade com o Malfoy. Eu
não teria vindo te incomodar, mas sei com certeza que a Skeeter está procurando qualquer
coisa para te arrastar pela lama. Ela não fez isso, por algum motivo, quando a notícia da sua
gravidez saiu, embora tenha sido bem vocal sobre como queria; mas isso aqui é bom demais
para ela deixar passar. Ela vai vir atrás de sangue, Hermione.
— Aonde você quer chegar com isso, Dennis? — perguntou, em voz baixa.
— Eu sei que você odeia sair nos jornais, Hermione, e lembro como você e o Harry sempre
odiaram a Skeeter também. Mas você precisa saber que isso aqui vai parar na primeira página
amanhã. — disse Dennis, inclinando-se um pouco à frente com um olhar intenso nos olhos.
— A Skeeter está fora do escritório hoje fazendo uma matériazinha fútil sobre um político, e
eu e mais alguns conseguimos esconder as corujas de qualquer um que entregasse a ela o que
está acontecendo. Me deixa escrever uma notinha, só o suficiente para que ela não possa
reivindicar um exclusivo gigantesco quando souber. Assim as coisas ficam menos
sensacionalistas e ela vai ter que correr atrás se quiser mudar a narrativa. Eu sei que, embora
meu chefe seja enfiado até o pescoço na bunda da Skeeter, ele não vai conseguir recusar a
chance de colocar você oficialmente em on.
Hermione se balançou um pouco para trás, perturbada pelo encontro inesperado, e sentiu a
mão de Draco subir para apoiar suas costas, na base da coluna.
— Dennis, eu preferia não ver isso nos jornais de forma alguma. — disse.
— Eu sei, e eu não estaria aqui se fosse só pela minha carreira. Não vou mentir e dizer que
um furo desses não seria foda pra caralho para botar meu nome na praça, mas juro que não é
por isso que eu estou aqui. — disse, com sinceridade. — Você sabe que meus colegas menos
escrupulosos, não só a Skeeter, vão ficar sabendo disso logo. Eu calculo que tenho talvez uma
hora para botar alguma coisa na frente do editor que seja minimamente decente. Mas a única
forma de ele publicar meu artigo em vez de alguma porcaria sensacionalista é se eu conseguir
alguma declaração sua.
— Ele tem razão. — disse Draco, em voz baixa, fazendo com que ela o olhasse, surpresa. —
Você confia nele?
Dennis lançou um olhar fulminante a Draco, mas manteve a boca fechada. Hermione
conseguia ver que ele não estava nada feliz com um Malfoy no meio da conversa — afinal,
Dennis perdera o irmão, Colin, cedo demais na guerra —, mas era esperto o bastante para não
provocar Draco quando ele estava concordando com o plano. Hermione observou o jovem
tentando perceber o quanto ele mudara desde o garoto que seguia o irmão por Hogwarts com
um sorriso ofuscante e um saltitar no passo. Hermione detestava admitir, mas sempre
simpatizara mais com Dennis do que com Colin. Enquanto Colin sempre se esquecia de si
mesmo e era insistente demais no entusiasmo com que queria registrar tudo com suas
câmeras infernais, Dennis era um pouco mais reservado e ouvia quando diziam que não
queriam falar sobre determinado assunto. Foi só isso que a deixou disposta a acreditar nele
quando dizia que não estava ali pela glória de ter o nome estampado no artigo.
— Claro que pode! Deus, a quantidade de coisas que você já fez por mim ao longo dos
anos… — deu um meio sorriso torto. — Sem falar que isso é uma chance de ouro para tirar
aquela víbora sorrateira da Skeeter do pedestal. Ninguém sabe como ela consegue as
informações, mas nem ela arranca nada de você ou do Harry que vocês não mandem
diretamente para ela. Se o pessoal lá de cima no Profeta souber que você e eu estamos em
bons termos, adeus posição inexpugnável da Skeeter. — ele deu um pequeno sorriso ao
imaginar isso, mas logo ficou sério de novo e prendeu o olhar nos olhos de Hermione. — Eu
te prometo: eu vou fazer o possível e o impossível para garantir que isso seja tratado com o
máximo de sensibilidade que eu conseguir.
Soltando um suspiro leve e lançando outro olhar a Draco em busca de orientação, Hermione
se firmou.
Dennis cumprira a palavra; o artigo que saiu no dia seguinte à conversa deles fora muito mais
sóbrio do que teria sido se a assim chamada Repórter Estrela do Profeta, ou qualquer um da
laia dela, tivesse escrito. Ele usara as falas de Hermione e de Draco para dar credibilidade,
enfatizando a disposição dos dois em trabalhar juntos para construir um futuro mais brilhante
na forma do filho, em vez de se focar no fato escandaloso de que eles não estavam realmente
juntos. Tinha erguido os dois como uma espécie de exemplo cintilante de reconciliação pós-
guerra, antigos adversários deixando qualquer ressentimento de lado diante de uma gravidez
não planejada. Claro que houve perguntas desconfortáveis sobre o relacionamento anterior de
Hermione com Rony, mas Dennis aproveitou a entrevista desastrosa que Rony dera à Skeeter
e construiu em cima da ideia de que Hermione não tinha culpa e que o relacionamento estava
definitivamente terminado quando ela e Draco se encontraram naquela noite fatídica.
Hermione não lhe contara que, naquela altura, o namoro tinha acabado fazia só algumas
horas, mas tinha quase certeza de que Dennis desconfiara de algo do tipo, mesmo sem ter
impresso isso.
Havia, é claro, um pequeno fio de romantismo suspirante no artigo, algo que Dennis dissera
ter sido exigido pelo editor na carta que mandou entregar a Hermione junto com o exemplar
do jornal. Mas, considerando que o texto estava misericordiosamente livre da especulação
desenfreada e da distorção de falas de que Rita tanto gostava, Hermione conseguia lidar com
alguns floreios. Uma insinuação aqui e ali de que Hermione e Draco pareciam
assombrosamente à vontade um com o outro não era nada comparado ao tipo de bobagem
que Skeeter teria inventado. Provavelmente haveria uma porção de referências nada sutis ao
boato calunioso que a bruxa insetoide espalhara sobre Hermione no quarto ano e uma enorme
quantidade de “insinuações discretas” sobre exatamente quando Draco e Hermione teriam
começado um relacionamento.
Por mais que o jantar que tiveram no Mama’s, ou os sucessivos jantares com comida de
entrega jogados pelo apartamento dela ou na townhouse de Draco, às vezes parecessem
encontros.
Ou o fato de Hermione ter convidado Draco para participar da ressurreição de sua tradição
natalina mais querida.
Ou o fato de Draco embalando a pequena saliência dos filhos no Boxing Day ter deixado o
coração dela quente e macio.
Hermione franziu os lábios enquanto revirava o guarda-roupa em busca de algo para vestir
para o trabalho. Recusava-se a pensar mais fundo naquilo, sentindo que um nível sério de
confusão — e possivelmente loucura — a aguardava se continuasse por esse caminho.
Em vez disso, lançou o olhar para o jornal dobrado na ponta da cama; estivera relendo o
artigo de Dennis enquanto tomava café da manhã para se preparar mentalmente para o
primeiro dia de volta ao trabalho depois das férias. Estava grata, é claro, por Dennis ter se
aproximado dela do jeito que se aproximou, e sabia que, se ela tivesse se recusado e, em
seguida, descobrissem que Dennis atrasara para Rita Skeeter o acesso à notícia bombástica,
ele provavelmente teria sido colocado na lista negra; mas ela ainda odiava atenção indevida.
Ser alvo de fofocas era a pior parte de sua vida pós-guerra e, ao contrário de Rony, que
sempre aceitava a atenção com sorrisos largos e fanfarronices barulhentas, tanto Hermione
quanto Harry detestavam a adulação despejada sobre seus ombros como “Trio de Ouro” e
faziam o possível para não dar motivo para os jornais escreverem sobre eles.
Então, obviamente, ela estava tentando decidir se valia a pena correr o risco de levar uma
bronca da segurança ao entrar no trabalho debaixo da capa de Harry para evitar os sussurros
que, com certeza, seriam várias magnitudes mais altos hoje do que quando os jornais
descobriram que ela estava grávida. Infelizmente, Hermione acabou tendo que admitir para si
mesma que seu coração grifinório não permitiria uma rota tão covarde, mesmo que a
segurança do Ministério pudesse ser convencida a ignorar aquilo só desta vez.
Assim, com um suspiro fundo e firme, Hermione girou as vestes de trabalho sobre os ombros
e entrou na lareira de Flu para encarar a música — metaforicamente falando.
Para sua surpresa, ao sair das chamas verdes para o enorme átrio, foi recebida por um rosto
familiar. Não teria se espantado se fosse Harry, à espera em pleno modo intimidador de Auror
para fulminar com o olhar qualquer um que ousasse encará-la de lado, mas ficou surpresa ao
encontrar, em vez disso, o chefe parecendo feliz em vê-la.
Hermione parou onde estava, lembrando-se de liberar a lareira para o próximo viajante
apenas quando Barnabus fez sinal para que ela se afastasse para o lado.
— Barnabus… — engoliu em seco e arriscou um olhar em volta, para as muitas pessoas que
não faziam esforço nenhum para fingir que não tentavam ouvir a conversa. — É muita
gentileza, mas eu não gostaria de dar trabalho.
O sorriso de Barnabus se transformou naquele calor paternal mais familiar, agora que tinha
certeza de que ela não ficaria brava nem acharia que ele estava sendo condescendente.
— Bobagem, Hermione, eu talvez não seja o chefe do DMLE nem nada tão importante, mas
sou chefe de departamento, o que significa que esses fofoqueiros vão pensar duas vezes antes
de dizer qualquer coisa enquanto você só está tentando chegar ao trabalho. — Ele fez um
gesto para que ela o acompanhasse através da multidão que os observava avidamente. —
Vamos, querida, sua primeira reunião está à espera. Acho que a sra. Rosier já está no seu
escritório, chegou bem cedo.
Hermione o seguiu meio em transe; às vezes era fácil esquecer que o afável Barnabus Brown
era, de fato, um chefe de departamento, com todo o poder que isso trazia. Ele se envolvia
tanto, pessoalmente, com todos os funcionários do pequeno departamento que tornava mais
natural tratá-lo como igual do que como chefe, às vezes. Enquanto serpenteavam rumo aos
elevadores, Hermione ficou muito grata por ele ter tido a ideia de acompanhá-la; houve
vários momentos em que algumas pessoas claramente se preparavam para dizer algo
desagradável a ela, antes de se calarem ao perceberem o Barnabus discretamente sorridente
ao lado dela.
Ao chegarem ao escritório, Barnabus rompeu o silêncio e deu uma olhadinha rápida pela
porta.
— Ah, sim, ali está. Vou deixar você tocar seu dia, Hermione, mas se alguém te der trabalho,
qualquer um, venha direto falar comigo, ouviu? — Ele deu um tapinha em seu ombro com
um aperto afetuoso. — Eu sei que algumas pessoas não vão ser agradáveis, mas prometo que
você não precisa passar por isso sozinha. Eu confio em você e confio no seu julgamento. Por
mais que me surpreenda.
O sorriso de Hermione saiu um pouco trêmulo enquanto ela pousava, agradecida, a mão
sobre a dele.
Depois que Barnabus se foi com outro sorriso, Hermione levou um momento para se
recentrar. Tinha se preparado para abrir caminho na base da briga verbal por entre uma
multidão zombeteira e precisava de um instante para acalmar aquela defensividade ansiosa
antes de entrar numa reunião que começaria vinte minutos antes do horário marcado.
Assim que se sentiu suficientemente equilibrada, empurrou o resto da porta e entrou com um
sorriso aberto.
— Desculpe se a fiz esperar. — disse, diplomática, para as costas da bruxa que estava
sentada, rígida, na cadeira de visitas. — Eu sou Hermione Granger, em que posso ajudar, sra.
Rosier?
A cabeça de cabelos lisos e brilhantes se virou à sua entrada, e a bruxa em questão lhe lançou
um sorriso sofrido.
— De forma alguma, estou ciente de que cheguei bem cedo. — respondeu num tom tenso de
esforço.
Os passos de Hermione rumo à mesa estacaram e ela recuou em choque, uma mão se
contraindo em direção à varinha por puro instinto.
Os lábios coral de Pansy Parkinson se esticaram em algo que quase parecia um sorriso — se
tivesse sido feito por alguém em extrema dor que nunca tivesse visto um sorriso de verdade
antes.
Pansy se remexeu, cruzando uma perna sobre a outra sob as vestes de veludo caras.
— Sinto muito por aparecer assim de surpresa, e espero que você não guarde contra mim o
nosso… passado. Mas devo admitir que vim conversar sobre algo que não é totalmente
ligado a criaturas com você. — disse, sem olhar na direção de Hermione, mas sim para os
muitos livros e fotos nas paredes do escritório.
— Se isso for sobre a minha vida particular, eu absolutamente não vou discutir isso com
você. — retrucou firmemente, quase rosnando.
Pansy inclinou-se para a frente de repente, uma mão bem cuidada agarrando a borda da mesa
castigada de Hermione.
— Não estou aqui para fofocar, Granger, você sabe que normalmente eu teria menos do que
nenhum interesse no que acontece na sua vida. — disse, com honestidade. — Mas agora o
Draco está envolvido.
Hermione bufou.
— E daí? Você veio me dizer para ficar longe dele? — Ela gesticulou na direção do
abdômen, por mais invisível que estivesse a pequena barriga sob as vestes. — Um pouquinho
tarde para isso.
— Quanto a isso, estamos em total acordo. — disse. — Mas não estou aqui numa missão
para mandar você se afastar, muito pelo contrário.
— Vim aqui para defender o Draco. — disse Pansy, com um aceno firme — embora
desconfortável — da cabeça elegante. — Você falou sério com aquilo tudo no jornal, sobre
trabalhar com ele pelo bem do seu filho?
Hermione ficou alguns segundos só encarando, em puro choque diante de quão bizarra aquela
situação era.
— Ele te mandou aqui? — perguntou, erguendo a mão para impedir a resposta da outra
bruxa. — Não, espera, eu sei que ele não faria isso. — Ela respirou fundo e recostou-se na
cadeira. — Olha, Parkin… desculpe, sra. Rosier… O que o Draco e eu decidimos entre nós é
justamente isso: entre nós. Então, se você não tiver nada a dizer que tenha mesmo a ver com
alguma criatura mágica precisando da ajuda do meu departamento, vou ter que pedir que se
retire.
— Família é tudo para o Draco. — disse em voz baixa. — Eu sei que você e eu nunca
tivemos a melhor das relações, e sei que o Draco foi ainda pior com você, mas por favor não
o afaste do bebê. — pediu. — Se você se casar com ele, ele vai cuidar de você, eu juro. Você
teria acesso a todo o dinheiro que pudesse querer, e ele mudou de uns tempos para cá, e
mesmo que não tivesse mudado eu sei que te trataria bem como mãe do filho dele.
— Por que todo mundo acha que só existem duas respostas possíveis? — rosnou, mais para si
mesma, fazendo Pansy encará-la com espanto. — Olha, vou te dizer isto apenas porque
aparentemente você veio com boas intenções: eu não vou casar com o Draco, nem vou afastar
o filho dele. Eu sei que ele mudou de uns tempos para cá e, por isso, estou deixando que ele
escolha o quanto quer se envolver com as nossas vidas. Para facilitar, vamos fazer as coisas
do jeito trouxa e compartilhar a guarda. Agora, eu realmente tenho trabalho a fazer, então,
por favor? — apontou com impaciência para a porta do escritório, numa dispensa claríssima.
Pansy murmurou as palavras “compartilhar a guarda” para si mesma e então voltou o olhar
para Hermione.
— O que isso quer dizer? — perguntou, sem conseguir esconder a careta perplexa.
— Quer dizer que você pode muito bem procurar sozinha, Pansy. — disse Hermione, firme.
— Pode se despedir sozinha também.
— Bem, obrigada pelo seu tempo. — disse, um tanto gelada, e então hesitou. — E…
parabéns.
Hermione esperou até o som dos saltos altíssimos de Pansy sumir por completo no corredor e
então apertou as mãos com força contra as pálpebras, furiosa. Teria que pedir a Barnabus para
voltar a filtrar as reuniões, e ela detestava a sensação de estar recebendo tratamento especial.
Funcionários juniores normais do Ministério não precisavam ter os encontros peneirados,
mas parecia que Hermione ia precisar, sim, se pessoas como Pansy e a sra. Malfoy
continuassem aparecendo para dizer que ela tinha que se casar com Draco.
–
— Então eu tive uma visita inesperada no trabalho hoje. — disse Hermione em forma de
cumprimento, ao sair da lareira de Draco e encontrá-lo lendo no sofá.
Draco ergueu os olhos do livro para ver a expressão irritada no rosto dela e fechou o volume
com um suspiro exasperado.
— Por favor, me diga que minha mãe não apareceu com um anel nem nada do tipo. —
implorou.
— Pansy? — repetiu, e então abriu e fechou a boca como um peixe por um momento. —
Tipo, Pansy Rosier, nascida Parkinson?
— Ela mesma. — disse Hermione, tirando as vestes e se jogando no sofá ao lado dele. — A
pauta dela era a mesma que a da sua mãe.
Draco soltou um gemido dramático e virou-se para encará-la, apoiando a cabeça num dos
punhos.
— Eu juro que não tive nada a ver com isso, não falo com ela desde o maldito casamento. E
mesmo assim só fui convidado por pura formalidade. — disse, passando as mãos pelos
cabelos claros, agitado. — O que diabos ela está fazendo falando com você sobre esse tipo de
coisa?
— Ela parece achar que eu ia te impedir de ter contato com os seus filhos. — disse
Hermione, de lábios comprimidos. — Estou ficando farta de todo mundo achar que tem voz
de voto na minha vida. O Barnabus teve que me escoltar até o escritório e de volta hoje.
Tentei ir sozinha na hora do almoço e três pessoas me pararam! Eu quase almadiçoei todas.
— O que exatamente elas disseram? — perguntou Draco, parecendo furioso em nome dela
pelo dia péssimo.
— Bem, uma jovem “encantadora” me deu os parabéns por ter aberto as pernas e posto as
mãos no seu dinheiro, e as outras duas me perguntaram se eu precisava de ajuda para me
livrar do feitiço com que você me prendeu! — Hermione explodiu. — A cara de pau! Sem
falar que a maioria dos meus colegas mal conseguia olhar pra mim. A Carina, acho que já
comentei dela com você, me encarou como se não soubesse quem eu era quando perguntei se
ela precisava de alguma coisa da copa.
Draco apertou os dois lábios um contra o outro e o maxilar, já afiado, se contraiu ainda mais.
— Sinto muito que você esteja passando por isso. Eu sabia que as pessoas iam ficar furiosas
porque eu engravidei a Garota de Ouro, mas imaginei que fossem direcionar a raiva pra mim.
— desculpou-se. — Imbecil da minha parte.
— Mas isso é ridículo! — zombou Draco. — Você é provavelmente a melhor de vocês três. E
a menos escandalosa.
— Longe disso. — disse Hermione, em tom seco, ignorando o calor que sentiu ao ouvi-lo
chamá-la de “a melhor”. — Gostaria de lembrar que eu engravidei em uma noitada bêbada,
só algumas horas depois de terminar com meu namorado de longa data.
— Que tentou te dopar com uma poção de fertilidade para te forçar a casar com ele! —
retrucou Draco. — Acho que você ganha um passe livre por isso.
— Eu achei que ele estava enfeitiçando a vassoura do Harry durante um jogo de Quadribol
pra derrubá-lo, e usei um feitiço de fogo bem prático, que não queima de verdade, para
distrair. — fez uma careta. — Graças a deus ele acabou derrubando o Quirrell quando tentou
apagar as chamas.
— Ah, ele estava possuído pelo Voldemort e era quem estava realmente tentando matar o
Harry. — disse Hermione, num tom leve, aproveitando a expressão estupefata de Draco. —
Você não sabia?
— Não, eu não sabia dessa porcaria! — Draco explodiu. — Eu achava que ele era só um
fanático que tinha se matado sem querer quando se meteu na encrenca que o Potter arranjou
para roubar a Taça das Casas da gente no primeiro ano!
— Ah, na verdade foi bem sério. — disse, dando de ombros. — Pensando bem, é um tanto
insano o Dumbledore não ter interferido antes de nós três quase morrermos.
— Vocês quase morreram? — sussurrou, claramente desnorteado pelo tom casual dela.
— Hm, meio que sim. — disse Hermione, baixinho. — O Harry e o Rony correram mais
perigo do que eu, mas não foi exatamente um piquenique.
— Eu nunca soube. — disse, suavemente. — Eu sabia que o Potter tinha ficado um tempo na
ala hospitalar, mas só achei que ele tinha feito alguma burrada que passou por corajosa o
bastante para dar ao Dumbledore uma desculpa pra impedir que nós ganhássemos a taça.
Hermione sorriu e virou a mão, entrelaçando os dedos com os dele.
— Bem, não está totalmente errado. Foi incrivelmente estúpido da nossa parte, mas ninguém
ouvia o que a gente dizia e precisávamos impedir o Voldemort de conseguir a Pedra Filosofal.
— A o quê? — engasgou.
— Eu sei. — disse Hermione, sombria. — Só consigo imaginar quão pior teria sido se ele
tivesse isso e todos aqueles Horcruxes.
— Todos aqueles… — Draco engoliu em seco. — Quantos ele tinha? Eu sabia que devia ter
um, mas… mais? — perguntou. — Eu nem achava que isso fosse possível.
— Sete. — respondeu ela, com a voz pesada. — Ele tinha sete daquelas coisas horríveis.
— Questão de galinha e ovo. Ele já era desequilibrado fazia muito tempo antes de matar a
Myrtle para criar o primeiro Horcrux.
— Você era próximo dela, não era? — perguntou Hermione, em voz baixa. — No sexto ano.
— Acho que sim? Tão próximo quanto dá pra ser de um fantasma que alterna entre dar em
cima de você e provocar enchentes de lágrimas de verdade. — disse, em tom calmo. — Eu
não tinha realmente ninguém em quem confiar naquela época.
Hermione se aproximou um pouco dele no sofá, deixando a coxa encostar na dele, num gesto
suave de apoio. A guerra fora monstruosamente injusta, usando crianças como combatentes
principais dos dois lados. Nenhum deles tivera escolha, com as próprias vidas e as vidas de
quem amavam sendo usadas como moeda de troca. Hermione não gostava exatamente de
pensar na guerra, especialmente no papel de Draco nela, mas era uma parte tão grande da
história compartilhada dos dois que às vezes era impossível evitar.
— Perdi muita fé no Dumbledore quando descobri que ele sabia que você estava sendo
forçado a matá-lo e mesmo assim fez quase nada pra te ajudar, pra te tirar daquela situação.
— disse, baixinho. — E queria ter sido menos cega. Achei que você estava estressado por
causa da prisão do seu pai, mas sabendo o que sei hoje, queria ter te procurado.
— Você é. — disse Hermione, firme, encarando os olhos cinzentos para que ele visse o
quanto ela falava sério. — Você está me mostrando como mudou todos os dias, Draco
Malfoy.
Apertando a mão dela, Draco sorriu.
Hermione de repente percebeu que, enquanto falavam, tinham se aproximado cada vez mais,
até que os rostos estavam a um sopro de distância. Houve um instante cristalino em que ela
ficou paralisada, presa pelo brilho dos olhos prateados dele; então Draco rompeu o momento
e se recostou com um suspiro.
— Vou mandar uma carta pra Pansy dizendo pra ela parar. — disse, desviando o olhar de
Hermione, um rubor alto colorindo as maçãs do rosto. — Não acho que mais alguém do meu
lado vá tentar te emboscar no trabalho, mas me avise se acontecer.
— Ah, está bem. — disse, e pigarreou. — O Barnabus vai filtrar minhas reuniões por um
tempo, de qualquer jeito.
Nenhum dos dois falou mais nada por um tempo, sentados num silêncio tenso enquanto
tentavam encontrar outro assunto.
Hermione se esgueirou para passar por um grupo de adolescentes que andavam se arrastando
pelo corredor, as gargalhadas estridentes deles se somando à cacofonia do centro de compras,
xingando a si mesma e as multidões que estavam entre ela e seu objetivo. Estava
incrivelmente atrasada por causa de um cochilo não planejado e isso a irritava
profundamente. Sabia, racionalmente, que precisar de sonecas era perfeitamente normal na
gravidez — afinal, era exaustivo fazer crescer outro ser humano, quanto mais dois —, mas
Hermione Granger não gostava de se atrasar, e aquela era a terceira vez que cochilos
improvisados batiam de frente com coisas que ela supostamente deveria estar fazendo.
Infelizmente, ou felizmente dependendo do ponto de vista, era a primeira vez que as sonecas
se sobrepunham a algo que envolvia outras pessoas.
Finalmente ela avistou a loja que tinha como alvo e apressou o passo, olhando em volta na
esperança de que Harry e Draco ainda não tivessem ido embora.
Erguendo-se na ponta dos pés para tentar ver de onde o grito tinha vindo, ela viu a visão mais
peculiar serpenteando em sua direção, porque, em vez de um Harry e um Draco como
esperava, havia dois Harry andando na direção dela. Um vestia a conhecida camisa de flanela
folgada sobre uma camiseta desbotada e jeans rasgados, enquanto o outro usava um suéter de
cashmere em um tom suave de caramelo com calças chino escuras e tinha feito um esforço
óbvio para arrumar o cabelo. Os óculos, no entanto, eram idênticos, então deviam ter usado
um feitiço de Gêmeo.
— Eu sei que prometi que ia fazer as compras sozinho, mas quando chegamos aqui já
pareceu um pouco demais. — Ele fez uma pausa e olhou em volta, apontando sutilmente para
os Trouxas ao redor. — Então meu irmão gêmeo Draco se ofereceu para ser o que prova
todas as roupas, caso eu não me sinta à vontade, assim eu posso ver como ficam sem pressão.
— De fato, foi o que eu fiz. Sei que esse não era o plano original, mas assim que chegamos
percebi que você tinha razão, aquele dia, quando conversamos sobre isso. — disse de forma
enigmática, depois as sobrancelhas escuras sobre os olhos verdes se franziram em
preocupação e ele estendeu a mão para tocar de leve o braço dela logo abaixo do ombro. —
Mas deixando isso de lado, você está bem? Estamos aqui há vinte minutos.
Hermione olhou de um para o outro e depois murchou um pouco, levando a mão à barriga,
que agora já estava quase visível sob a camisa que usava debaixo do casaco aberto.
— Desculpa, eu canso fácil ultimamente e acabei cochilando sem querer. — admitiu,
baixando o olhar com um pequeno encolher de ombros impotente.
Os olhos de Draco desceram até a barriga dela e voltaram para o rosto, com um leve sorriso.
O sorriso de Draco se abriu, e ele passou a mão de leve pelo braço dela, roçando os dedos na
mão dela antes de soltá-la.
— Bem, seria negligência da minha parte não garantir que você receba a devida sustentação.
— sorriu. — Eu conheço um café decente não muito longe daqui que acho que você vai
gostar.
Harry olhou de um para o outro com uma expressão meio divertida, meio preocupada.
— Hã… certo. — disse por fim. — Vamos dar cabo disso logo.
— Quantas.
— Dez camisetas e pelo menos cinco calças. — respondeu Draco, com um sorriso de canto.
— Ela tinha algumas opiniões sobre cuecas e meias também, mas eu me recuso a modelar
isso pra você.
— Tá, beleza. Dá pra lidar. — resmungou Harry. — Eu só vou pegar uns pacotes enquanto
estamos aqui.
— Eu vou estar bem aqui com você, e podemos fazer pausas se você precisar. — prometeu.
— Certo, então vamos lá. — disse, e marchou para dentro da loja de departamentos.
Draco pousou uma mão nas costas de Hermione para guiá-la para dentro e inclinou-se para
murmurar no ouvido dela:
— Tenho quase certeza de que ele parecia menos como se estivesse marchando para a batalha
quando ele realmente estava marchando para a batalha. — brincou.
Hermione conteve uma risadinha e deu uma leve encostada de quadril nele.
— Como a dama quiser. — sorriu Draco, o que ficava totalmente bizarro no rosto do Harry.
Demorou menos de cinco minutos para Harry começar a ficar irritadiço por estar sendo
forçado a fazer compras de roupa, e dez para Hermione começar a se frustrar. Draco, por
outro lado, parecia imune às recusas grosseiras de Harry às peças que ele escolhia e
simplesmente as acomodava sobre o próprio braço com um dar de ombros, insistindo que
Harry não julgasse as roupas antes de experimentá-las.
— Isso é inútil. — reclamou Harry enquanto Draco folheava um expositor de camisetas tipo
polo em várias cores. — Minhas roupas não estão tão ruins, aposto que ainda consigo tirar
mais alguns anos delas.
Draco virou a cabeça e franziu os lábios, os olhos verdes — por ora — percorrendo Harry em
julgamento completamente escancarado. Hermione teve que desviar o olhar para Harry não
ver o sorriso dela, porque tinha absoluta certeza de que era exatamente aquela expressão a
que o melhor amigo se referia quando implorara que ela garantisse que Draco não fizesse
“cara de esnobe” enquanto estivesse com a aparência de Harry ao levá-la à primeira consulta
com a Curandeira.
— Potter — disse Draco com calma, jogando o monte de roupas em cima do expositor —,
venha aqui um instante.
Draco olhou para Hermione por um momento, depois meneou a cabeça com um pequeno
sorriso e virou-se até localizar uma jovem Muggle bonita, talvez alguns anos mais nova que
eles, ali perto.
Harry resistiu por um instante como um filhote teimoso, mas Draco estava determinado e
simplesmente puxou o braço dele até que estivesse ao lado de sua “presa”.
— Mil desculpas por interrompê-la, senhorita. — disse, com um sorriso encantador. — Mas
eu gostaria de saber se poderia responder uma pergunta para mim e para o meu irmão.
A garota se virou, semicerrando os olhos com desconfiança, e então arregalou-os para os dois
homens idênticos à sua frente.
— Cristo, vocês devem ser gêmeos. — disse, e depois levou a mão à boca. — Desculpa, que
falta de educação. Hã, ajudo no que der, mas eu não trabalho aqui.
Draco inclinou levemente a cabeça, o sorriso cordial firmemente no lugar.
— Não se preocupe, eu consigo encontrar o que preciso. Só queria pedir uma opinião
imparcial. — persuadiu. — Se você fosse gentil o bastante a ponto de nos conceder isso?
— Maravilha. — exultou Draco. — Meu irmão aqui acha que não precisa de roupas novas,
mas nossa acompanhante ali discorda. Talvez a senhorita possa ser o voto de desempate,
senhorita…?
— Ah! — A garota lançou um olhar sobressaltado a Hermione, que estava do outro lado do
expositor, segurando as roupas que Draco descartara. — Hã… Chloe.
— Senhorita Chloe, então. — sorriu Draco, e soltou o bíceps de Harry para apontar para a
camiseta desbotada e cheia de furos que ele usava. — Então, senhorita Chloe, o meu querido
irmão deveria ceder à pressão e se dignar a comprar algumas camisetas novas?
Chloe corou um pouco e espiou Harry, que parecia prestes a morrer de pura vergonha.
— Desculpa, amor, mas seu irmão e sua amiga podem ter razão. Dá pra ver direto através
dessa camiseta. — disse com uma pequena careta.
Harry lançou um olhar assassino a Draco e tentou sorrir para a Muggle através dos dentes
cerrados.
— Não, quem tem que pedir desculpa sou eu, por ele ter te colocado nessa situação. —
desculpou-se.
— De boa, sério. Mas você só precisa olhar pro seu irmão aqui pra ver como você poderia
ficar. Ele tem bom gosto.
Chloe piscou e então olhou para Hermione com um pequeno franzir de cenho.
— Ah, vou ter que contar isso pra ela quando voltarmos. Ela vai ficar triste de ter perdido o
momento em que alguém sem qualquer interesse na questão disse isso pra você. — tripudiou.
Chloe pareceu confusa por um instante e então arregalou os olhos.
— Sério? — disse Chloe, então virou-se para Draco com um sorriso especulativo, o jeito de
falar ficando subitamente mais insinuante. — É mesmo?
Draco riu baixinho e deu um pequeno passo para trás, na direção onde Hermione estava.
— Ah, mas ela está muito longe de ser uma irmã pra mim. — ronronou. — Muito longe
mesmo.
Hermione não conseguia ver o rosto de Draco, mas o tom dele fez o peito dela se aquecer
como mel morno. Ela tentou não lançar um olhar triunfante para a outra garota, mas, por
Merlin, era impossível não sentir pelo menos um pouquinho de satisfação mesquinha ao ver
Draco recuar tão claramente da paquera que tinha usado para convencer a garota a ajudar a
pressionar Harry a, pelo menos, se abrir à ideia de roupas novas. Hermione sentira um
pequeno revirar no peito ao vê-lo direcionar todo o charme para a Muggle.
— Não dá pra culpar uma garota por tentar. — lamentou. — Mas espero que vocês resolvam
essa discussão.
Draco inclinou-se novamente, antes de se virar para recuperar as roupas que Hermione agora
segurava contra o peito.
— É, valeu. — disse Harry, com bem menos elegância, e saiu arrastando os pés atrás de
Draco.
Hermione ofereceu à garota Muggle um sorrisinho tenso e então seguiu os dois homens
idênticos até os provadores, surpreendendo-se quando Harry arrancou as roupas dos braços
de Draco e desapareceu dentro do cubículo de uma vez.
— Acho que você é a primeira pessoa que consegue fazer com que ele experimente as roupas
sem ameaças de Imperius. — comentou.
— Hmm, talvez trazer um irmão gêmeo para servir de comparação fosse o caminho mesmo,
no fim das contas. — sorriu Draco.
— Ou simplesmente ser um chato constrangedor. — resmungou Harry lá de dentro, atrás da
cortina.
— Também. — riu Draco. — Mas funcionou, não funcionou? E agora existe a chance de
você ter algo pra vestir quando chegar em casa.
— O quê? — perguntou Hermione. — Espera, pelo amor de Deus, me diz que a Ginny não
vai mesmo queimar todas as roupas do Harry.
— Provavelmente. — resmungou Harry. — Ela disse que vai jogar fora qualquer coisa com
furos demais pra consertar.
— Ah, então todas as suas roupas. — disse, perdendo a batalha e desatando a rir.
— Só porque ela não tem mil anos e não foi feita pra caber no seu amigo Hagrid. — retrucou
Draco. — Mas, se você não gosta do caimento na gola, experimenta a Henley.
— Merlin. — murmurou Draco, fazendo Hermione rir dele. — É aquela com botões e sem
gola.
— Não.
— Não.
— Claro. Desculpa, Po– Harry. — corrigiu. — Sim, essa é uma Henley. O tecido é macio o
bastante para não arranhar, mas os botões vão permitir que você afrouxe a gola.
Hermione e Draco ficaram em silêncio por um momento enquanto Harry puxava a cortina de
volta para ter privacidade. Houve um longo, estranho momento de espera, nenhum dos dois
olhando para o outro enquanto ficavam lado a lado. Hermione não sabia por que Draco estava
com dificuldade, mas sabia por que ela estava; só não queria admitir. Tentou dizer a si mesma
que a pontada quente no peito ao ver Draco encantar a Muggle para ajudá-lo a empurrar
Harry na direção de roupas novas era apenas porque ele estava no corpo do Harry, e ela não
gostava de ver o rosto do amigo sorrindo daquele jeito para alguém que não fosse a Ginny;
mas, no fundo, sabia que não era por isso que tinha odiado assistir àquela cena toda.
Não era porque era o Draco usando o rosto do Harry pra flertar, era porque era o Draco
usando o rosto do Harry pra flertar.
Hermione estava com ciúmes. Ou talvez “invejosa” fosse uma palavra melhor, porque, além
da ligação por meio dos bebês dentro dela, Draco não era dela e podia flertar com quem bem
quisesse. Ele podia encantar uma Muggle à vontade. Além do mais, não era como se
estivesse sendo sério, mesmo que Hermione tivesse algum tipo de direito sobre a atenção
dele.
Em meio à própria angústia, Hermione podia pelo menos sentir um prazer sombrio em
perceber que tinha amadurecido desde todo o fiasco com Rony e Lilá no sexto ano. Pelo
menos daquela vez Hermione não estava conjurando canários para atacar o rosto do Draco.
— Você está bem? — murmurou Draco, franzindo a testa para baixo, ainda com o rosto do
Harry.
Não era exatamente uma mentira. Podia ser que estivesse mais chateada do que cansada; mas,
embora praticamente todo mundo a tivesse avisado, Hermione não estava preparada para o
fato de que, mesmo só tendo acabado de sair do primeiro trimestre, o corpo inteiro parecia
desconfortável na maior parte dos dias. Desde a bacia, que agora parecia toda errada porque
já estava se flexibilizando (o que não era algo que uma bacia deveria fazer, na opinião dela)
para acomodar os dois fetos dentro dela, até a dor de cabeça que insistia em reaparecer toda
vez que ela achava que tinha se livrado dela. E nem dormir dava pra dizer que era
confortável, porque até virar na cama estava começando a virar um processo.
Mas estar desconfortável na gravidez era uma desculpa bem melhor para o súbito silêncio do
que sair com um “Eu odeio que você flerte com outras mulheres mesmo a gente não estando
num relacionamento e eu não tendo nenhum direito de dizer com quem você pode dar em
cima”.
— Ah. — disse Draco, olhando em volta. — Hã, tem um banco aqui. Você pode sentar
enquanto esperamos.
Hermione deixou que ele a guiasse até o banco com um pequeno sorriso de agradecimento. A
mão de Draco estava quente nas costas dela, e ele tomou a mão dela para firmá-la enquanto
se sentava. Assim que ela se acomodou, ele ficou em pé à frente dela, o cenho levemente
franzido, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a cortina do provador foi arrancada
com força e o melhor amigo saiu pisando duro.
— Eu não acredito que vou dizer isso — gemeu Harry —, mas você tem razão, Malfoy. Essa
camiseta é confortável mesmo.
A tensão que tinha descido entre Hermione e Draco se desfez, e os dois olharam para Harry e
depois um para o outro, de olhos arregalados, antes de caírem numa gargalhada quase
histérica.
— Desculpa, Harry, mas é sim. — riu. — De todas as pessoas que tentaram, eu devia saber
que seria o Draco a conseguir fazer você aceitar roupas novas.
— Ora, obviamente, Hermione. — arrastou Draco, ao lado dela. — Meu gosto impecável é
universal.
— Cuidado, eu ainda posso sair daqui sem comprar nada. — avisou, mas ele próprio lutava
para conter um sorriso.
— Ah, não, não, não! — riu Hermione. — Agora eu sei que você gosta de camisetas Henley.
Eu vou contar pra Ginny e você vai encontrar todas as suas camisetas trocadas amanhã de
manhã.
— Eu não duvido nem um pouco da sua namorada, Po– Harry. — alertou Draco. — A carta
que ela me mandou com as expectativas dela para esse passeio de compras me assustou até.
--
No fim das contas, Draco conseguiu convencer, ameaçar, desafiar e até chantagear Harry a
ultrapassar a cota. Hermione sorria de orgulho enquanto o amigo segurava as sacolas com
todas as roupas novas e revirava os olhos para o orgulho escancarado de Draco por ter
conseguido o que ninguém antes conseguira.
— Tanto faz, Malfoy. — zombou Harry. — Aposto que, se eu deixasse a Hermione usar meu
corpo por um dia, ela também conseguia. Provavelmente faria até melhor se eu entregasse
aquele frasco no seu bolso pra ela.
— Você não vai enfiar Polissuco na mãe dos meus filhos enquanto ela está grávida. —
protestou Draco. — Então esse ponto é irrelevante.
Hermione revirou os olhos para os dois.
— Meu Deus, será que vocês dois algum dia vão parar de implicar um com o outro? —
perguntou, completamente em tom retórico, porque sabia bem a resposta.
— Provavelmente não. — riu Harry, passando um braço carinhoso pelos ombros dela. —
Enfim, acho que vou pra casa, tudo bem pra você, Hermione?
— Você foi muito bem hoje, Harry. — sorriu. — Foi tão ruim assim depois que você
começou?
— Não. — admitiu Harry, envergonhado. — E eu prometo que vou usar essas roupas.
— Acho que você não vai ter muita escolha. — zombou Draco. — A Ginevra pareceu…
determinada.
— Por favor, por favor chama ela assim quando eu estiver por perto pra assistir. —
gargalhou.
Draco ergueu uma mão, que de fato começava a se alongar e clarear de cor.
— Ah, eu não tinha reparado. — Ele olhou em volta e avistou um banheiro ali perto,
suspirando com resignação. — É melhor eu dar um pulo ali. Vejo você depois, Potter.
— Eu vou… hã… vou esperar aqui. — disse, com um sorriso nervoso, sentindo as bochechas
esquentarem num rubor. — Você me prometeu um chá, afinal.
— Prometi mesmo. — riu Draco. — Eu já volto e aí podemos ir até o café que mencionei.
Assim que Draco sumiu de vista, Harry largou as sacolas no chão para cruzar os braços e
encarar Hermione com uma sobrancelha erguida.
— Você sabe muito bem o quê. — respondeu Harry, tranquilo. — Vamos falar disso depois.
— Tá, vai. — reclamou, já resolvendo que estaria incrivelmente ocupada num futuro
próximo. — Manda meu beijo pra Ginny.
— Mando sim. — Harry olhou por cima do ombro dela. — Te vejo por aí, Malfoy, e valeu,
eu acho.
A mão de Draco pousou casualmente na parte baixa das costas de Hermione por um instante
quando ele chegou ao lado dela, fazendo um pequeno arrepio subir pela espinha dela.
Hermione ergueu o olhar e o viu de volta ao próprio corpo, mais alto que Harry, com os olhos
prateados brilhando de divertimento.
— Sempre que quiser, Potter. Uma chance de te dizer o que fazer não é algo que se
desperdice. — arrastou Draco, enquanto Harry se afastava rápido, revirando os olhos e
fazendo um gesto obsceno.
Depois de um momento, Hermione respirou fundo e sorriu para o loiro ao seu lado.
— Suponho que sim. — murmurou Draco. — Eu quase estava ansioso por uma briga com ele
por causa disso.
— Ah, hoje em dia é tudo por diversão. Muito menos de nos machucarmos um ao outro. —
O sorriso se suavizou quando ele olhou para baixo, para ela, e então pigarreou, desviando o
olhar. — Mas enfim, acho que prometi chá e lanchinhos. Vamos?
Passando a língua pelos lábios, nervosa, Hermione abaixou a cabeça num aceno e
acompanhou o passo dele. Eles se desviavam dos vários Trouxas que andavam a esmo com
seus afazeres. Draco encurtou o próprio passo para acompanhar o dela sem comentar nada, as
mãos enfiadas casualmente nos bolsos enquanto a guiava até o destino. Hermione não
conseguia pensar em nada para dizer durante o trajeto, por mais que quisesse, e quando
chegaram ao café ela já tinha dado tantos nós nos próprios pensamentos, por causa da
pontada de ciúme idiota de mais cedo e da “conversa” que pairava no horizonte com o Harry,
que mal percebeu Draco a conduzindo até um assento e lhe perguntando alguma coisa.
— Desculpa, o quê? — ela sobressaltou-se na cadeira quando se deu conta de que ele estava
falando.
— Eu perguntei se você queria alguma coisa em particular. — repetiu. — Você está bem? A
gente pode ir embora se você precisar descansar.
Hermione sacudiu a cabeça, em parte para responder e em parte para tentar clarear a mente.
Draco a observou por mais um instante antes de relaxar um pouco na própria cadeira e voltar
a sorrir de lado.
— Foi mesmo! — Hermione riu. — Não sei se a Ginny vai algum dia deixar o Harry
esquecer que, depois de anos de os melhores amigos tentarem, foi o Draco Malfoy quem
conseguiu colocar roupas novas nele sem grandes reclamações.
As risadas de Hermione vieram soltas, mesmo com o revirar de olhos que ela tentou fazer.
— Sinceramente, eu nem sei dizer se vocês dois se odeiam ou não, hoje em dia.
— Eu também não faço ideia. — admitiu Draco, honestamente. — Acho que nós dois só
estamos nos esforçando muito pra nos dar bem porque temos algo em comum.
— Ah, é?
Draco olhou para ela com muita paciência antes de soltar um bufar elegante e balançar a
cabeça.
— Você, sua bruxa tola. Estamos sendo bonzinhos porque temos você em comum.
— Ah! — fez Hermione, e então baixou o olhar, corando, para a barriga em crescimento. —
Acho que você tem um bom ponto aí.
— Eu tenho sido conhecido por ter bons pontos desde que tirei a cabeça de dentro do próprio
traseiro. — disse Draco, com um sorriso satisfeito. — Não foi fácil, mas olha só pra mim
agora: todo maduro, passando um dia agradável comprando roupas pro Potter. — O nariz
afilado se enrugou e ele franziu levemente a testa. — Embora isso talvez tenha mais a ver
com a companhia do que com o Potter.
— Isso e o fato de que eu simplesmente gosto de passar tempo com você. — respondeu
Draco, em voz baixa.
Hermione ergueu os olhos e o encontrou sorrindo para ela com aquele meio sorriso que fazia
o fôlego prender no peito, mesmo que ela tivesse certeza de que ele não queria dizer nada
além de amizade.
— Acho que não vai demorar até a gente precisar de outra rodada de compras. — murmurou
Draco.
— Duvido que a gente convença o Harry de que ele precisa de mais roupas do que comprou
hoje. — respondeu, com um pequeno balançar de cabeça.
— Merlin, não pro Potter. Uma vez já foi suficiente, pra nós dois. — exclamou Draco. —
Não, quis dizer que vamos precisar começar a pensar no que nossos bebês vão precisar.
Berços e roupas e coisas assim.
Hermione ficou boquiaberta por um instante. Ainda outra coisa que nem sequer lhe passara
pela cabeça e sobre a qual Draco aparentemente já vinha traçando algum tipo de plano.
Draco se inclinou e cobriu a mão dela com a sua, os dedos elegantes roçando o pulso dela.
Respirando fundo, Hermione fez uma breve pausa do lado de fora da casa de chá. Estava
vestida com um conjunto quente de vestes de bruxa em tom malva, que ela sempre hesitara
em usar por causa do preço exorbitante que pagara, e com seus melhores sapatos, mas a
fachada da loja ainda a fazia sentir-se malvestida. Ela estava incrivelmente consciente de que
os feitiços de ajuste que precisara usar para acomodar sua barriga em crescimento no recorte
justo da cintura das vestes eram visíveis, se alguém olhasse de perto. A porta era emoldurada
por uma hera delicada feita de puro ouro batido, e as janelas eram de cristal lapidado em vez
de vidro, dando privacidade aos clientes ao mesmo tempo em que deixavam a luz entrar. Era
tudo um tanto humilde em seu efeito sobre ela, embora Hermione tivesse certeza de que a
bruxa que encontraria ali consideraria o ambiente modesto e confortável.
Cerrando os punhos, Hermione endireitou a coluna e pousou uma mão sobre o leve volume
sob as vestes num gesto cujo significado ela mesma não sabia definir; talvez em busca de
coragem, talvez em busca de proteção. Ela simplesmente não sabia.
— Vai dar tudo certo, eu já a enfrentei antes, posso fazer isso de novo. — disse a si mesma,
mantendo as mãos firmemente abaixadas para não ficar mexendo no cabelo de nervoso. —
Ela me chamou pra tomar chá pra me conhecer, não pra me amaldiçoar.
— Hã, eu marquei de encontrar alguém aqui pra tomar chá. Um salão privado em nome de
Malfoy? — informou.
Hermione seguiu a bruxa até o fundo da loja, esforçando-se ao máximo para não deixar
transparecer o nervosismo por fora — batalha já perdida —, o que ficava ainda mais difícil a
cada passo. A bruxa tirou uma varinha fina do bolso do avental e a passou pelo ar para
desfazer um feitiço de privacidade, revelando uma porta no meio do salão dos fundos, que ela
abriu com outro movimento de varinha.
— Seja bem-vinda, senhorita Granger. — disse com outro sorriso profissional. — A senhorita
conseguirá encontrar a sala durante toda a visita. Se precisar de qualquer coisa, basta tocar o
arranjo de flores com a varinha e um dos meus funcionários irá atendê-la.
Hermione inclinou a cabeça rapidamente em reconhecimento e esboçou um sorriso pálido.
Hermione congelou um pouco, sem saber qual seria a saudação apropriada. Beijar a avó de
seus filhos na bochecha, como faria com Molly? Oferecer a mão para um aperto? Fazer uma
mesura?
Aquele minúsculo furinho apareceu ao lado da boca da senhora Malfoy, o único sinal externo
de diversão, e ela fez um gesto elegante para que Hermione se sentasse do outro lado da
mesa. Hermione obedeceu em silêncio, embora não sem um leve tropeço, o que fez o furinho
de Narcisa se acentuar; Hermione rezou para que não fosse um “furinho de desaprovação”.
— Por favor — disse a senhora Malfoy com frieza controlada, ao se recostar na própria
cadeira enquanto o guardanapo se acomodava sozinho em seu colo —, fique à vontade. Meu
filho já fez o que ele chama, de forma encantadoramente dramática, de “ler a ata da rebelião”
e me prometeu todo tipo de consequência terrível se eu sequer respirar uma palavra sobre
noivados. Aparentemente Draco acha que eu preciso de instruções muito claras quando se
trata de visitas sociais.
— Isso é a cara do Draco. — disse Hermione, relaxando um pouco, agora que sabia que
Narcisa de fato estava ali para estreitar laços, ou pelo menos disposta a brincar um pouco às
próprias custas.
— Ah, sim, ele foi bastante firme nas instruções. — Narcisa deixou escapar um meio sorriso
fugaz. — Então, por favor, não comente com ele que pronunciei a palavra proibida. Eu de
fato temo que ele abandone as poções para vir me repreender, se descobrir que pensei nela,
não importa o contexto.
— Posso fazer isso. — prometeu. — Eu sei que a poção de hoje é crucial pro mestrado dele,
e eu detestaria ficar no caminho da educação.
— Não vou lhe faltar com o respeito fingindo que nunca estivemos em lados opostos de uma
divisão criada por nada além de medo do desconhecido e arrogância. Certamente não vou
fingir que não fui imperdoavelmente passiva quando deveria ter me manifestado e, em alguns
casos, pior do que passiva. — A voz de Narcisa era baixa e sincera, enquanto seus olhos
fitavam os de Hermione sem vacilar. — Também não vou fingir que, às vezes, não me vejo
escorregando de volta para mentalidades ultrapassadas, principalmente diante de algo
surpreendente. Mas posso dizer com absoluta certeza que me arrependo da postura que tive
no passado em relação a bruxas e bruxos como você. Lamento além das palavras já ter
considerado alguém tão brilhante quanto você indigna de um lugar no nosso mundo, e farei o
possível para nunca mais fazê-la sentir isso.
Hermione ficou atônita, não apenas pelo pedido de desculpas tão sentido, mas pela
semelhança dela com o próprio Draco naquele momento. Havia uma similaridade
perturbadora com aqueles momentos em que Draco deixava cair a armadura sarcástica na
presença dela e mostrava o núcleo arrependido. Hermione sempre achara que havia
pouquíssimo da mãe no rosto de Draco, mas agora conseguia vê-lo bem ali na tensão que se
desenhava na mandíbula e nos olhos de Narcisa.
Hermione sabia, por Draco, que a mãe às vezes era insensível, mas que, na maior parte do
tempo, se esforçava ativamente para ser melhor. Sabia que Narcisa escorregava de vez em
quando, de um jeito que deixava Draco incrivelmente frustrado (ou imóvel, preso no sofá,
enquanto ela invadia o Ministério), mas que, no geral, ele sentia um orgulho silencioso da
bruxa por tentar abandonar a mentalidade que lhe fora incutida desde o berço. Hermione
simplesmente não esperava ser apresentada a um pedido de desculpas desse calibre, em meio
a docinhos delicados e antes de o chá sequer ser servido.
Ela não fazia ideia de como responder. Viera esperando uma repetição menos carregada
emocionalmente do último encontro, ou talvez uma avaliação velada para decidir se
Hermione era “boa o bastante” para gerar a próxima geração de Malfoys. O silêncio de
Hermione se prolongou o suficiente para que Narcisa enrijecesse de maneira quase
imperceptível.
Narcisa apertou a mão dela antes de recuá-la para o próprio lado da mesa, o rosto voltando à
neutralidade.
— Já vinha tarde. — disse, e o furinho reapareceu ao canto dos lábios levemente rosados. —
Eu teria deixado meu filho avisá-la, mas contar ao Draco o verdadeiro motivo pelo qual eu
queria tomar chá com você teria resultado nele parado atrás de mim, garantindo que o pedido
de desculpas estivesse à altura dos padrões dele. Ele já estava cogitando maneiras de colocar
a poção em estase para vir acompanhar a visita, quando achava que se tratava apenas de eu
tentar conhecer a mãe do filho dele.
Hermione sentiu os lábios puxarem-se num sorriso e abaixou a cabeça.
— Eu não sabia que ele tinha mandado um berrador. — esfregou os dedos nervosos sobre a
renda da toalha, admirando distraidamente a delicadeza contida do desenho. — Mas devia ter
esperado isso. Draco já está muito… ligado aos gêmeos, e detesta qualquer coisa que possa
colocá-los em risco, incluindo eu ficar estressada de qualquer forma.
O silêncio se esticou, uma tensão súbita vibrando nele, e, quando Hermione se deu conta,
ergueu o olhar de repente para encontrar Narcisa a encarando, o rosto pálido como papel e
retesado. A outra bruxa tinha uma mão levemente suspensa na direção de um dos bules
delicados na mesa, como se fosse servir o chá, mas os dedos tremiam só um pouquinho, o
único sinal de vida naquele momento congelado.
Quando a barriga de Hermione despontou acima da mesa, os olhos de Narcisa desceram até
ali, e os lábios se entreabriram num suspiro entrecortado.
Hermione despencou de volta na cadeira como uma marionete cortada dos fios, as mãos
instintivamente abraçando a barriga em expansão. Tinha esquecido que Draco ainda não
contara esse detalhe à mãe; que Narcisa não sabia que havia dois bebês sob o coração de
Hermione, e não apenas um. Na afobação desde que recebera o convite para o chá, ela
simplesmente esquecera de pedir a Draco que finalmente revelasse a novidade. Não tinha
tocado no assunto antes por achar que não era da sua conta interferir na dinâmica complicada
entre os dois, mas pretendia ter pedido isso a ele justamente para não deixar escapar nada…
— Estou. — respondeu Hermione por fim, hesitante. — Desculpe, eu tinha esquecido que a
senhora ainda não sabia.
— Não! — Narcisa levou a mão trêmula ao rosto, abanando-se por causa das lágrimas que se
acumulavam nos olhos. — Você não tem nada de que se desculpar. Só estou surpresa porque
há pouquíssimos irmãos na família Malfoy, quanto mais gêmeos. — Continuou a se abanar
com um risinho molhado. — Esconder isso de mim provavelmente foi a maneira que meu
filho encontrou de se vingar por eu ter invadido o seu escritório quando ele me contou que
você estava grávida do meu neto. Netos.
Hermione engoliu em seco, as lágrimas ardendo nos olhos e o nariz já formigando.
— Tenho quase certeza de que foi exatamente isso. — confessou. — Não achei que era meu
papel interferir.
— Eu não diria isso. — fungou Narcisa, conjurando do nada um pedacinho de renda para
enxugar os olhos. — Mas não é sua responsabilidade fazer a ponte entre Draco e eu. Nosso
relacionamento não é mais o que foi, é verdade, mas somos ambos adultos, e nenhum de nós
gostaria de colocá-la nessa posição constrangedora.
— Obrigada. — disse, com a voz espessa. — Eu só não faço ideia do que fazer com tudo
isso, às vezes. Me sinto completamente fora da minha profundidade, porque isso não podia
estar mais longe do que eu sempre imaginei.
— Mas é claro. — concordou Narcisa. — A vida raramente concorda com os nossos planos.
Acho que entendo seus sentimentos quanto a toda essa situação, mesmo que não tão
intimamente. Certamente foi uma grande surpresa para mim quando Draco se sentou comigo
para explicar que esperava um filho com a pequena bruxa que tinha a distinta proeza de ser a
única colega de classe de quem ele reclamava ainda mais do que o senhor Potter. — Ela fitou
Hermione por cima do lenço, com olhos suaves. — Mas talvez eu não devesse ter ficado tão
surpresa.
— Oh. — chiou Hermione, uma nova onda de lágrimas subindo de maneira nada digna.
— Ai, céus — engasgou Narcisa. — Veja só a que ponto chegamos, que parzinho. Eu já
devia saber que não se chora na frente de uma bruxa grávida.
Hermione enxugou os olhos com outro lenço conjurado, soltando um risinho molhado.
— Acho que já chorei ao ver uma cena parecida. — riu Narcisa, dando a última batidinha de
lenço nos olhos antes de pegar o bule para encher a xícara de Hermione. — Mas acho que a
coisa mais boba pela qual chorei foi quando eu não conseguia ver os próprios dedos dos pés
sem me curvar.
— Ah, não acho bobo, não. Eu já me sinto como se estivesse contrabandeando um caldeirão
debaixo da roupa.
— Devo dizer que me surpreendi ao ver o quão adiantada você parecia. Se me permite
comentar. — murmurou Narcisa, escolhendo um delicado docinho cor-de-rosa para
acompanhar o chá. — Mas gêmeos explicam bastante coisa.
Hermione fez uma pequena careta, mas não se ofendeu; sabia muito bem que, para quem não
soubesse a verdade, ela parecia bem além de quinze semanas de gestação. Os gêmeos
pareciam gostar de ocupar o máximo de espaço possível no interior apertado do corpo dela, e
isso aparecia. Pelos livros, os bebês estavam aproximadamente do tamanho de uma maçã ou
laranja, mas, por Merlin, aquilo parecia mentira. Se perguntassem a Hermione, cada um tinha
o tamanho de uma Goles, no mínimo.
— Já chegou ao ponto em que acho que vou precisar de roupas novas logo. — suspirou
Hermione. — Feitiço de ajuste aguenta só até certo ponto, afinal.
— Bem, eu ficaria muito feliz em oferecer minha ajuda nessa área, se você quiser. — propôs.
— Eu aprecio bastante um passeio pelos distritos de compras do mundo bruxo europeu. Há
uma butique em Nice que mistura roupas Trouxas e de bruxa de um jeito que eu acho que
você talvez acharia interessante.
— Hã, parece… legal? — arriscou, com um pequeno engasgo na voz que a entregou.
Enquanto a outra bruxa parecia se divertir com a expressão de leve terror no rosto de
Hermione, a própria Hermione se perguntava se aquilo era o seu carma pelo passeio de
compras do Harry.
— Hermione?
Hermione deu um pulo enorme, com um guincho, quase tombando no batente da lareira ao se
surpreender. Girando depressa, encontrou Ginny sentada à mesa da cozinha, de cenho
franzido.
— Ginny! — gritou. — O que você está fazendo à espreita na minha cozinha? Você quase me
matou do coração!
— Eu te disse que ia passar aqui pra ver como você estava depois de encontrar a mãe do
Malfoy. — lembrou Ginny, e então o cenho se fechou ainda mais, perigosamente. — Você
chorou. O que foi que ela te disse?
Hermione agitou a mão no ar, tentando impedir que Ginny tirasse conclusões.
— Não foi a senhora Malfoy! — explicou rápido. — Quer dizer, foi, mas não porque ela
tenha sido maldosa. Muito pelo contrário, ela pediu desculpas pelo jeito como agiu no
passado, e aí nós começamos a falar dela e do Draco e eu simplesmente comecei a chorar. Eu
tô bem, de verdade, é tudo culpa desses hormônios!
— Eu tenho, de verdade. — garantiu Hermione. — Fiquei meio pega de surpresa quando ela
pediu desculpas assim, do nada, mas acho que foi sincera.
— Hã. — Ginny piscou. — Imagino. Você acha que o Malfoy mandou ela fazer isso?
— Não, ele nem sabia que ela pretendia. Acho que ela quis limpar um pouco o ar por causa
da nossa situação e aproveitou a oportunidade quando aceitei tomar chá com ela. A gente não
se aprofundou muito nisso depois do pedido de desculpas, principalmente porque eu não
queria muito, mas consigo valorizar a sinceridade dela, mesmo desejando que ela tivesse
“chegado lá” de maneira menos abrupta.
— Por que você acha que ela fez isso, então? Se não foi o Malfoy que mandou?
— É um motivo bem razoável. — concordou Ginny. — Se ela for que nem a mamãe, vai
querer aquele “pacote completo de vovó babona”.
— Com certeza! — Hermione conteve uma risada súbita. — Adivinha o que eu deixei
escapar sem querer?
— Diga.
— Eu chamei eles de “os gêmeos”. — Hermione apertou os lábios num sorriso arrependido.
— Ela ficou tão chocada que eu achei que tivesse tido algum problema de saúde. Eu já estava
quase chamando uma Curandeira ou algo assim, de tão pálida que ela ficou.
— Ah, Merlin! Se ela grudou o Malfoy no sofá por ele contar que você estava grávida do
filho dele, o que será que ela vai fazer quando descobrir que ele não contou que eram
gêmeos?
— Te aviso quando eu receber uma carta rabugenta dele. — prometeu, sabendo que Draco
provavelmente mandaria uma mensagem assim que a mãe terminasse com ele, nem que fosse
só pra fazê-la rir. E então provavelmente apareceria pela lareira na manhã seguinte com mais
daqueles pãezinhos dele para dar café da manhã a ela e checar se estava bem de verdade.
Ginny sorriu de lado.
— Seja o que for, vai ser bom. Não acho que já tenha rido tanto quanto naquele dia em que
você me contou o que ela fez com ele da primeira vez. — As sobrancelhas da ruiva
dançaram, felizes. — Na verdade, já sim. Ri ainda mais quando o Harry me contou como o
Malfoy conseguiu fazer ele experimentar aquelas roupas.
Hermione tentou manter o sorriso no rosto, mas ele vacilou um pouco à simples menção ao
passeio de compras. Ela ainda não tinha conseguido digerir a própria reação ao flerte de
Draco na frente dela. Sem falar que passara a última semana desviando do “papo” que Harry
vinha prometendo desde que reparara no jeito dela perto do fim do passeio. Sabia que estava
sendo covarde e se repreendia toda vez que a magia de proximidade que jogara
silenciosamente nos óculos de Harry apitava na varinha, mas simplesmente não se sentia
pronta para discutir aquilo com o homem que mais a conhecia na vida — e que não teria
qualquer dificuldade em cortar todas as desculpas e autoenganos pela raiz.
— Hermione? — A voz dela amaciou, e Ginny estendeu a mão por cima da mesa para
segurar a da amiga. — Você tem certeza que está bem? Quer que eu pegue alguma coisa pra
você?
— Tenho. Eu só… — Ela hesitou. — Foi muita coisa ouvir a senhora Malfoy pedindo
desculpas do nada, e acho que só preciso de tempo pra processar. — Deu de ombros, embora
tivesse certeza de que pareceu mais uma careta. — Eu fui pra lá esperando algo muito
diferente do que acabei encontrando. Agora entendo por que o Draco resmunga tanto sobre a
mãe ser imprevisível. Eu achava que ia receber, na melhor das hipóteses, uma aceitação a
contragosto — não um pedido de desculpas e uma conversa surpreendentemente agradável
regada a chá.
— Entendo. — acalmou Ginny. — Quer que eu vá embora? Se você precisar ficar sozinha
um pouco, posso voltar depois, ou mandar o Harry vir.
— Não. — assegurou. — Que tal você me distrair em vez disso? O que você anda
aprontando desde a última vez que a gente se viu?
— Bom, sabe aquele treino extra que queriam que eu e as outras artilheiras do banco
fizéssemos com o time principal das Holyhead Harpies?
Hermione se inclinou para a frente, ansiosa.
— Então, acontece que a Morhead vai sair do time! — guinchou, empolgadíssima. — Ela
decidiu se aposentar dos jogos e ir pra parte de técnica. Todo aquele treino extra era pra
encontrar a substituta dela!
Hermione arregalou os olhos e sentiu uma onda de pura empolgação pela amiga se espalhar
pelo peito.
— Apresente-se à mais nova Holyhead Harpy. A partir da próxima sexta, pelo menos. —
sorriu, convencida. — A técnica Jones me disse hoje de manhã que eu vou jogar com o time
principal no primeiro jogo da temporada, no dia dez de março!
Ginny também se levantou, e os braços fortes dela quase tiraram Hermione do chão quando
se abraçaram.
— Não, se tem algo que merece ser verdade é isso! — garantiu. — Você se dedica mais do
que qualquer pessoa que eu conheça quando o assunto é Quadribol, e era só questão de tempo
até você virar a Chaser estrela da liga.
— Puxa, Hermione, eu só acabei de ser promovida pra equipe titular. — riu Ginny. — Dá um
tempinho pra bruxa subir os degraus, né.
Hermione agarrou as bochechas sardentas da amiga e a encarou nos olhos, com as lágrimas
de alegria escorrendo pelo próprio rosto decidido.
Hermione xingou mentalmente até o último osso treinado como Auror no corpo do melhor
amigo e fez questão de evitar o olhar verde dele, pela primeira vez desobstruído pelos óculos
redondos característicos.
— Você não tem reserva, então eu sabia que ia estar usando, porque você odeia esses feitiços
temporários de visão. — Hermione resmungou, despencando na poltrona de visitante que
normalmente ficava do outro lado. — Tá bom, vamos acabar logo com isso.
— Minha própria amiga, feliz em se aproveitar da minha miopia pra fugir de mim. —
lamentou, com um sorriso malandro. — Já não sei mais em quem confiar!
Hermione não conseguiu evitar, e uma risadinha rompeu o beiço emburrado que surgira
assim que ela percebeu que Harry tinha driblado a tentativa dela de escapar da conversa
prometida.
— Tá, tá. Você já fez seu ponto. — se rendeu. — Desculpa, eu encanto outra coisa da
próxima vez.
— Ou você podia só falar comigo. — Harry ralhou, com os olhos brilhando de malícia (e,
honestamente, um pouco marejados; ele realmente odiava feitiço de visão). — É quase como
se você tivesse alguma coisa a esconder, Hermione.
— Só faz logo o interrogatório, Harry, eu preciso ir ao banheiro e pelo menos um dos gêmeos
resolveu apoiar todo o peso em cima da minha bexiga.
— Tá bom, talvez um pouco. — Harry admitiu, envergonhado. — Mas não tanto quanto você
tá imaginando. Eu só quero ter certeza de que você tá bem. Eu sei que as coisas estão meio
estranhas pra você agora, e só quero garantir que você sabe no que está se metendo.
Hermione mediu Harry com um olhar desconfiado por um momento, antes de suspirar
derrotada e afundar na cadeira, uma mão esfregando distraidamente a barriguinha.
— Eu não sei o que dizer, Harry. — confessou. — Nem eu mesma consigo organizar tudo
direito na minha cabeça.
— Tem, mais ou menos? — Hermione gemeu. — Tenho quase certeza de que é tudo do meu
lado, pelo menos. Eu sei que tô sendo ridícula, é que… esses hormônios e tudo que aconteceu
nos últimos meses estão deixando minha cabeça de ponta-cabeça. E aí o Draco resolve ser
todo legal e eu fico ainda mais confusa. Eu sei que ele só tá tentando garantir que eu não vou
mudar de ideia sobre dividir a guarda porque, por algum motivo, ele tá bem empenhado em
ter essas crianças. Mas às vezes eu esqueço disso e só sinto como se ele fosse um cara que tá
me tratando bem, e isso me faz sentir… especial? Alguma coisa assim. Eu nem sei direito
como explicar.
Harry franziu o cenho para ela por um instante, abriu a boca pra dizer alguma coisa, depois
tornou a fechá-la com um grunhido baixo. Os dois ficaram ali, em silêncio, Harry
mergulhado em pensamentos e Hermione olhando, sombria, para o nada.
Ela odiava ficar vulnerável, especialmente com tudo que tinha acontecido desde que o Ron
trocou a poção contraceptiva dela por Razorano Pole. Odiava não ter se sentido no controle
nem por um momento desde que percebeu que a poção que tinha virado de uma vez, como
um shot barato, tinha gosto de menta em vez de laranja, como deveria. Ela tinha imaginado
que teria uma única noite afogando as mágoas e pranteando o fim definitivo do
relacionamento que passara anos construindo e ao qual se agarrara mesmo quando já não era
o que imaginara. Mas Hermione subestimara o quanto queria esquecer todo aquele caos; em
vez de uma despedida bêbada e rápida do namoro com Ron, a noite inesperada com Malfoy
tinha se transformado numa coisa completamente fora de controle.
Depois, contra toda lógica, no começo até que foi quase tranquilo. As maneiras engessadas e
a cautela de Malfoy permitiam que ela o mantivesse a certa distância: perto o bastante para
que ela não se sentisse sozinha no meio da confusão, mas longe o suficiente para que pudesse
se contentar com o fato de que estavam conseguindo ser cordiais na situação em que se
encontravam e ponto. Só que aí Malfoy foi amolecendo, e o “cordial” voou pela janela,
deixando Hermione com momentos estranhíssimos em que quase esquecia que ela e Malfoy
tinham sido jogados naquela situação por causa de um descuido colossal dela, que eles não
eram amigos para começo de conversa.
Malfoy era arredio e nervoso, Draco era presente e gentil. Malfoy era regularmente ácido e
muitas vezes misterioso, Draco era atencioso e aberto. Malfoy não parecia querer nada dela
além das crianças que os dois tinham concebido sem querer, Draco parecia genuinamente
gostar de passar tempo com ela. Malfoy era todo rigidez de boas maneiras sangue-puro,
Draco era puro charme descomplicado.
Malfoy deixava Hermione pensando em como ela tinha estragado tudo.
Draco deixava Hermione querendo se enfiar no colo dele e desejar que tudo aquilo fosse de
verdade.
— O que faz você achar que o Malfoy só tá sendo legal por causa dos bebês? — Harry
quebrou o silêncio de repente, fazendo Hermione se sobressaltar e engolir em seco.
— Merlin, claro que não! — Hermione guinchou. — Você consegue imaginar a humilhação?
“Oi, Draco, quer passar aqui pra tomar um chá e falar dos nossos filhos acidentais?
Aproveitando, eu tenho uma queda completamente degradante por você.” Não, de jeito
nenhum. Lá no começo, quando a gente falou de coparentalidade pela primeira vez,
decidimos que ia ser melhor tentar se dar bem.
— Então você não falou nada? Pelo menos não recentemente. — insistiu.
— Cuida, Harry, como eu já disse mil vezes, ele tá bem ligado nessas crianças desde o
primeiro segundo. — Hermione respondeu, incisiva. — Além disso, você e a Ginny também
cuidam de mim, e isso não significa nada.
— Mas a gente não flerta com você. — Harry argumentou, erguendo uma mão da mesa para
apontar pra ela, com uma careta de irmão mais velho. — Nem fica te secando o tempo todo.
— Ele não fica me secando, Harry. — Hermione retrucou, irritada. — Ele só fica preocupado
com os gêmeos, e eles, por acaso, estão dentro de mim.
— Ele flerta com a mesma facilidade com que respira. — Hermione rebateu, engolindo em
seco e empurrando pra longe a lembrança de Draco sorrindo com o rosto do Harry para
aquela garota trouxa bonita. — Ele flertava o tempo todo na escola.
— Não, não devia mesmo. — Hermione crocitou. — Eu já tô um caos por dentro com isso, e
você me conhece o suficiente pra saber disso, mesmo que eu não quisesse falar sobre o
assunto. A última coisa de que eu preciso é de esperança falsa de que o Draco… — Ela
engoliu as palavras, sem saber nem como terminar a frase.
— Eu sei que nem sempre eu entendo tudo, mas eu não acho que seja esperança falsa,
Hermione. — disse, sincero. — Eu acho que ele realmente gosta de você.
— Por favor, para, Harry. — ela implorou, pendendo a cabeça, tomada de vergonha.
Ela já sabia fazia tempo que Harry tinha percebido a confusão dela em relação ao Draco, mas
teria sido bem mais fácil se ele tivesse se mantido naquele modo superprotetor ridículo em
que entrara desde que ela engravidou. Ouvir logo do Harry, de todas as pessoas, que aqueles
sentimentos estranhos, confusos e avassaladores que ela nutria podiam ser correspondidos…
Aquilo era demais. Pior ainda porque ela sabia que era só o desejo quase desesperado que
Harry tinha, naquele momento, de vê-la feliz. Ele era perfeitamente capaz de convencer a si
mesmo — e a ela — de que a paixonite unilateral dela era recíproca, se ela deixasse; e isso
seria desastroso.
— Tá bom, desculpa. Eu vou deixar isso quieto. — Harry prometeu, apertando as mãos dela.
— Eu só quero te ver feliz, você é basicamente minha irmã e nunca parece ter um respiro de
paz. Eu só queria… — Ele interrompeu a frase com um meio dar de ombros, contrito. — Não
vou insistir. Mas vou estar sempre aqui se você quiser conversar.
— Eu sei. — Hermione fungou. — Eu só acho que nunca vou querer, pra ser honesta.
Harry tirou de um dos muitos bolsos uma pena quebrada e a transfigurou em lenço de papel,
usando-o para enxugar com cuidado as lágrimas no rosto dela.
— Tudo bem, mas eu vou continuar aqui. — assegurou. — Pra qualquer coisa que você
precisar.
Hermione pegou o lenço do garoto que ela tinha seguido inúmeras vezes para o perigo e se
inclinou para abraçá-lo pelo pescoço. Ele teve que se ajeitar um pouco, já que o corpo
desengonçado dela não facilitava a torção necessária para abraçá-lo direito, e Hermione
sentiu uma gratidão enorme pelo fato de ele se importar o bastante pra tentar fazê-la feliz, por
mais que ela achasse que ele estava completamente equivocado.
Draco finalmente terminou a poção misteriosa em que vinha trabalhando nos últimos dias
com uma pontualidade impecável e, poucos instantes depois de Harry sair do escritório dela
após a conversa emotiva, uma coruja chegou com um bilhete dele perguntando se podia
passar no apartamento dela em algum momento.
Hermione pensou em pedir que ele viesse só no dia seguinte, para ter um pouco mais de
tempo pra se recompor, mas no fim decidiu apenas responder dizendo que ele podia levar o
jantar quando ela saísse do trabalho. Ela sabia muito bem que ele provavelmente estava
cavando um sulco no tapete caríssimo da Mansão, de tanto andar de um lado para o outro se
preocupando com o chá de Hermione com Narcisa, e talvez fosse melhor sossegar a cabeça
dele e garantir que a mãe não a tinha assustado a ponto de afastá-la. Além disso, ela estava
bem curiosa para saber qual seria a vingança da temível matriarca Malfoy por ele não ter
contado que, na verdade, viria a ser avó de dois netos.
Então mandou um recado dizendo que estaria de volta às cinco e provavelmente com muita
fome, e fez o possível para tirá-lo da cabeça até lá. O resto do dia correu tranquilo, cheio de
relatórios atrasados e papéis pra assinar, coisas nas quais normalmente ela teria maior
interesse se o humor não continuasse um pouquinho instável. Em determinado momento,
Carina enfiou a cabeça pela porta e ofereceu um chá com um sorriso meio duro, o que
alegrou Hermione consideravelmente, depois da postura meio arisca da colega nos últimos
tempos. Mais tarde, Barnabus apareceu pessoalmente com o último lote de papéis, por volta
das quatro da tarde, dizendo, sorridente, que ela deveria ir embora no horário certo.
Era exatamente o tipo de tarde de que Hermione precisava para se acalmar depois da
conversa com o Harry, e ela estava de muito melhor humor do que imaginara quando saiu
pela lareira no apartamento e foi recebida pelo cheiro de lasanha da Mama’s, de dar água na
boca.
— Aí está você. — Draco saudou, sorrindo pra ela do seu lugar de costume no sofá, com um
dos livros dela em mãos. — E no horário, até!
— Engraçadinho, Malfoy. — Hermione fingiu uma carranca. — Mas acho que posso te
perdoar porque você trouxe comida.
Draco riu pelo nariz e deixou o livro de lado para se erguer do sofá. Aproximou-se, tomou a
bolsa de trabalho das mãos dela e depositou um beijo rápido na bochecha dela.
— Acho que sim. — Hermione virou o rosto para esconder o rubor. — Pelo menos até eu
comer.
Suspirando, triste, Hermione tirou as vestes de trabalho e vestiu uma calça de moletom
confortável e um suéter que tinha “pegado emprestado” do Harry anos atrás. Quando se
sentiu suficientemente corajosa para sair, encontrou Draco já sentado à mesa, claramente
esperando por ela. Os olhos cinzentos acompanharam o caminho dela até a cadeira, e uma das
sobrancelhas se arqueou.
— Esse é um dos suéteres do Potter? — ele perguntou, com um tiquinho de desdém na voz.
— O quê? — Hermione olhou para o grande “H” na frente do velho suéter verde-esmeralda e
depois de volta para o homem do outro lado da mesa. — Como diabos você sabe que esse H
não é de Hermione?
— Porque parece que foi enfiado num Feitiço de Fragmentação e consertado do jeito trouxa
por uma criança de vendas nos olhos. — Draco respondeu, com um fungado arrogante. —
Você cuidaria muito melhor de qualquer coisa que te dessem, até mesmo de um suéter
Weasley.
— Quer que eu tire, então? — Hermione provocou, entre risos. — Pra não ferir seus olhos
preciosos?
Algo relampejou na expressão de Draco, rápido demais para ela entender. Então ele se
recostou na cadeira com um suspiro e balançou a cabeça, numa resignação exageradamente
dramática.
— Não. — suspirou, pesado. — Acho que vou ter que suportar isso em nome de deixar você
aproveitar o jantar antes que desapareça de tanta fome.
— Draco… — disse, suave. — Você comeu alguma coisa desde que terminou a poção?
— Hã, eu comi um sanduíche quando acabei, hoje de manhã? — ele respondeu, com um quê
de culpa. — Só que a maldita poção levou mais de seis horas além do que deveria e eu só
consegui comer metade antes de desmaiar no sofá.
— Merlin! — Hermione ofegou. — Seis horas? Você teve algum momento pra descansar
nesses últimos dois dias?
— Não muito. — Draco deu de ombros, cortando um pedaço perfeito da lasanha. — Essa
poção exige atenção quase constante, porque cada etapa depende de uma mudança na cor, no
cheiro ou no som. Você não pode simplesmente deixar lá em fogo baixo com um cronômetro
e sair por aí fazendo coisas sem importância, tipo dormir ou comer.
— Ugh. — Hermione fez uma careta só de pensar em ter que depender do olfato, ainda mais
aguçado pela gravidez, pra preparar uma poção. — Eu provavelmente teria voltado a vomitar
se tivesse que cheirar cada etapa.
— Provavelmente. — Draco concordou, muito sério. — Uma das fases finais tem exatamente
o cheiro daquela nuvem de perfume horrenda que vivia em volta da Umbridge.
— Tá bom, tá bom. — Draco riu, esticando o braço sobre a mesa estreita para apertar a mão
dela rapidamente antes de recuar. — Então me conta como foi o chá com a minha mãe. Ela só
me disse que você é adorável.
— Ela disse isso? — Hermione esganiçou, xingando mentalmente a própria cara de culpa
quando Draco ergueu o olhar, atento.
— Hã… — Hermione enrolou, mexendo no garfo. — Pode ser que eu tenha… só por
acidente, veja bem… pode ser que eu tenha contado pra sua mãe que eu tô esperando
gêmeos.
— Ela ficou um pouco surpresa. — Hermione se apressou em dizer. — Mas me pareceu feliz
depois que o choque passou? Eu acho? Quer dizer, no começo eu achei que ela estivesse
tendo um AVC ou alguma coisa assim, de tão pálida. Mas, depois disso, ela foi muito gentil.
Talvez eu tenha interpretado errado, se ela não falou nada pra você. Você acha que ela pode
ficar chateada?
Draco ergueu a mão, pedindo silêncio para conter a torrente nervosa de Hermione.
— Acho que ela vai ficar feliz, Hermione. — garantiu. — Eu só estou me perguntando o que
ela anda tramando, se não falou nada comigo quando me encontrou a caminho do laboratório
hoje cedo. Você contou que eu já sabia?
— Hã… contei.
— Hmm. — Draco murmurou, pensativo. — Então tenho certeza de que ela quer me deixar
fervendo um pouco de medo da reação dela.
— Ela não vai ficar zangada demais, vai? — Hermione perguntou, em vozinha. — Desculpa
ter deixado escapar.
— Não precisa se preocupar, Hermione. — Draco sorriu. — Minha mãe gosta de um drama,
mas não vai fazer nada de verdade ruim. Além disso, eu é que não devia ter sido tão infantil e
devia ter contado. Pra ser sincero, eu realmente esqueci.
— Ah. — Hermione soltou o ar num suspiro de alívio. — Ainda bem que ela não vai ficar
tão brava, então.
— No máximo vou aguentar umas semanas de visitas inesperadas cheias de subtexto, talvez
alguns comentários bem colocados. — Draco deu uma risadinha e voltou a atacar o prato. —
Mas, tirando isso, eu fiquei feliz de saber que vocês se deram bem.
— Que Merlin te proteja, Granger. — ele gargalhou. — Você não tem ideia do que arranjou
pra si mesma.
— Ah, cala a boca e come logo antes de desmaiar de novo. — resmungou, falhando
espetacularmente em esconder o sorriso.
Chapter 17: Semana Dezoito
A cabeça de Hermione desabou em cima do livro à sua frente, e seu cabelo, já caótico, estava
tão volumoso de tanto ela enfiar a mão nele que agora escondia com folga o maldito tomo
inteiro de vista, junto com o rosto dela. Ela vinha tentando avançar naquele texto
irritantemente paternalista sobre bem-estar das sereias há uma hora, mas não conseguia
absorver uma única palavra. Ajudaria se o autor não achasse necessário explicar os conceitos
mais simples em detalhes exaustivos, mas enfim, se Hermione quisesse chegar às tais ideias
inéditas que o livro supostamente oferecia, teria de atravessar pelo menos umas dezessete
explicações sobre as diferenças entre água doce e salgada primeiro.
Ela tinha passado a tarde inteira de sexta-feira no trabalho nisso, e os últimos minutos antes
de Barnabus, como sempre, aparecer para enxotá-la do escritório foram gastos preenchendo
freneticamente os formulários para poder tirar o livro do Ministério no fim de semana.
Felizmente, os Arquivistas do Ministério eram bem menos territoriais que Madame Pince, e o
memorando aprovando o empréstimo tinha atravessado a porta flutuando exatamente no
ombro de Barnabus.
— Ainda nessa? — Draco riu da cozinha, onde mexia calmamente uma sopa que vinha
deixando a boca de Hermione cheia d’água desde que ela saiu da lareira dele uma hora antes.
— Esse livro é um absurdo! — ela reclamou. — Eu sei que o Pembroke Rosier era
supostamente a maior autoridade em bem-estar das sereias, mas, pelo amor de Godric, que
homem entediante no papel.
— E é mesmo. — Draco concordou, vindo até ela e afastando o cabelo de Hermione para
espiar qual dos livros do autor ela estava lendo. — Isso é para o trabalho?
— É. — Hermione suspirou e se endireitou para bater o livro com força, de pura birra. — A
gente teve um problema com umas informações conflitantes no meu novo relatório sobre a
qualidade da água das colônias de sereianos. Passei a última semana rastreando esse livro
estúpido, e agora nem consigo focar nele porque meu cérebro está embaralhado demais para
conseguir passar da pompa dele!
— Perguntar o quê? — Hermione franziu a testa, confusa. Pelo que ela sabia, tudo que Draco
sabia sobre sereianos era que alguns viviam no Lago Negro em Hogwarts.
— Bom, se você tivesse me perguntado sobre o Pembroke Rosier eu podia ter te dado as
anotações dele, além de cópias de todos os livros. — Ele passou o dedo pela capa descascada
do tomo ofensivo. — Incluindo duas cópias desse aqui, em estado bem melhor.
— Você o quê?! — Hermione guinchou, virando a cabeça num estalo para encará-lo
boquiaberta. — Você tem as anotações dele? Como?
— Hermione — o sorrisinho de Draco ficou insuportavelmente presunçoso. — Você não
sabia que ele é meu bisavô?
A boca de Hermione abriu e fechou sem som por um instante, antes de ela enrugar o nariz e
fazer uma careta.
— Não é uma forma muito simpática de pedir emprestados meus preciosos tesouros de
família. — Draco riu. — Mas acho que vou permitir, nem que seja só para poupar meus
bebês do estresse perene da mãe com a ideia de que os relatórios dela não incluem cada
detalhe que já foi escrito na história.
— Eu… você… — Hermione engasgou com as palavras por um momento e acabou cruzando
os braços e bufando, infantil. — Grossura.
— Provavelmente. — Draco concordou com facilidade, dando uma última batidinha no livro.
— Mas a oferta de te emprestar as anotações dele continua de pé.
Hermione cogitou fazer charme e se manter irredutível por um momento, só porque estava
irracionalmente irritada por ter levado tanto tempo rastreando aquele livro idiota, mas, no
fim, o lado prático venceu.
— Obrigada, isso na verdade vai ser ótimo. — suspirou, fazendo uma careta. — Desculpa
por estar tão… sensível.
— Tudo bem, pelo menos você não me deu um tapa dessa vez.
— Aquilo foi uma vez só! Mais de meia década atrás! — Hermione protestou. — E você
mereceu completamente.
— Bem, isso eu não posso negar. — Draco sorriu de lado, afastando-se para cuidar das etapas
finais da sopa. — Quão faminta você está?
— Você precisa comer, Hermione. — Draco ralhou, enchendo uma tigela grande com a sopa
celestial de ervilha e presunto. — Preciso mandar um elfo levar seu almoço todo dia pro seu
escritório para te lembrar?
— Não. — Hermione lançou um olhar fulminante enquanto pegava a tigela. — Isso é função
do Harry, aparentemente. Ele anda pegando no meu pé pontualmente ao meio-dia, todos os
dias; e, se sabe que vai estar fora do escritório, avisa o Barnabus, que consegue ser ainda
mais insuportável.
— Vejam só. — Draco sorriu de canto. — Potter serve para alguma coisa, afinal. Ele
esqueceu hoje?
— Não, ele até me trouxe um daqueles sanduíches empanados deliciosos daquele lugar
trouxa a umas ruas daqui. — Hermione disse, aspirando fundo o aroma delicioso e salgado da
sopa. — Eu é que não tive tempo de terminar, principalmente porque esse livro idiota
finalmente chegou.
— Bom, depois do jantar eu pego essas anotações pra você, e tomara que ajudem. — Ele se
sentou à frente dela. — São bem menos prolixas do que o livro em si.
— Tem anos, e eu só dei uma passada de olhos. — Draco fez uma pausa e a observou,
pensativo. — Aliás, já que vou ao Solar, que tal eu trazer uma cópia do nosso índice? Aí você
pode folhear e eu trago quaisquer títulos que você quiser.
Hermione mal conseguiu engolir a sopa a tempo de não engasgar. Ela, com acesso
aparentemente irrestrito à famosa Biblioteca Particular dos Malfoy? Era como um sonho
virando realidade. Na verdade, tinha sido literalmente um sonho durante uma semana inteira
no segundo ano, antes de toda a confusão do basilisco começar: ela sonhava que Malfoy
finalmente percebia o quanto ela era inteligente e oferecia mostrar a biblioteca dele. Naquela
época, Hermione teria feito quase qualquer coisa para dar uma boa olhada naquele acervo, e
levou até o quarto ano para desistir desse sonho de vez. O quanto ela odiara Malfoy naquele
tempo, mas era inegável que ter a mais célebre coleção particular da Europa era um baita
atrativo.
— Você me deixaria mesmo pegar emprestado qualquer coisa que eu quisesse? — ela
perguntou, a voz indevidamente ofegante.
— Claro que é isso que te deixa toda derretida. — caçoou. — Mas sim, eu gastei uma boa
fortuna contratando quebradores de maldições para vasculhar tudo, então acho que só tem
uma meia dúzia de livros que eu não posso te emprestar.
Obviamente não conseguiu esconder nada de Draco, e em segundos ele já tinha contornado a
mesa e estava dando tapinhas nas costas dela. Hermione enfiou o rosto no ombro dele,
tentando não ceder completamente ao choro, mas sabia que era uma causa perdida, e logo o
tecido cinza-carvão da camisa dele estava encharcado. Ele se absteve de rir abertamente
daquela mais recente crise de choro exageradamente emotivo, porque sabia o quanto a
irritava o fato de ela chorar tão fácil agora, mas Hermione praticamente sentia o divertimento
dele mesmo assim e o cutucou com força nas costelas.
— Ai! — ele se queixou, tentando se afastar sem soltá-la. — Mas o que foi isso?
— Você é tão dramático. — Hermione bufou, se afastando para secar os olhos com o
guardanapo. — Eu cortei as unhas hoje de manhã.
Draco revirou os olhos e apertou os ombros dela com um braço, enquanto com a outra mão
inclinava delicadamente o queixo de Hermione para examinar o rosto dela. Os olhos
cinzentos analisaram com seriedade a leve coloração arroxeada sob os olhos antes de
descerem mais, retornando então ao olhar dela com uma expressão curiosa que foi
rapidamente substituída por preocupação e uma sombra de cautela.
— Você tá bem?
— Tô. — Hermione respondeu, com um sorriso minúsculo. — Acho que só tô meio de mau
humor hoje, desculpa.
— Draco… — Hermione mordeu o lábio e se esticou sobre a mesa para tocar o dorso da mão
dele. — Desculpa, eu fui péssima companhia hoje. Eu realmente agradeço a oferta, e o jantar;
eu é que tô sendo difícil sem motivo. Depois que a gente comer eu vou para casa e deixo
você em paz.
Draco ficou olhando para as mãos dos dois por um instante, antes de virar a própria para que
ficassem palma com palma.
— Você não seria você se não fosse pelo menos um pouco difícil. — disse, sério. — Mas não
precisa ir embora, a não ser que seja isso que você queira. Uma noite na sua companhia me
parece ótima depois de toda a papelada que eu tive de preencher essa semana.
— Pra quê? — Hermione perguntou, e logo fez uma careta. — Desculpa, sim, eu adoraria
ficar. Não devia me meter tanto.
— Achei que você tinha dito que era bem simples. — Hermione franziu o cenho. — Na
verdade, tenho quase certeza de que foi exatamente isso que você disse quando me contou
sobre torná-los seus filhos legítimos sem casamento ou guarda exclusiva.
— Na hora eu estava pensando no ritual mágico em si, para que eles tenham o mesmo grau
de acesso ao Solar e ao nosso legado que eu tenho. Isso continua simples: uma ida rápida a
um certo bosque nas terras da propriedade e um feitiço consideravelmente longo da minha
parte, e pronto, eles são meus herdeiros no que diz respeito à magia ancestral da família. —
Ele fez uma careta. — Eu achei que o processo no Ministério também fosse direto o
suficiente, mas talvez eu tenha superestimado minha capacidade ali.
— Ainda não, acho que consigo gerenciar a minha parte entre uma coisa e outra da
especialização. — Draco sorriu para ela, e alguma coisa bateu asas logo abaixo das costelas
dela. — Eu cuido da minha parte e você preenche a sua depois, sem preocupação.
— Tem certeza? — Hermione girou a colher entre os dedos, abaixando o olhar para esconder
o leve rubor que tinha certeza de estar colorindo as bochechas. Ela detestava o quanto se
sentia uma colegial boba perto de Draco ultimamente; era distração pura e provavelmente
nada saudável.
— Prometo que vou deixar você revisar tudo, Hermione. — Draco sorriu de lado, feliz em
interpretar mal aquela súbita timidez. — Você vai ter todo o tempo do mundo pra pôr pontos
nos meus tês e cruzar os meus is.
— É “pôr pontos nos is e cruzar os tês” — Hermione começou, levantando o rosto só para
ver Draco apertando os lábios para não rir da correção automática dela. — Ah,
engraçadíssimo. — ralhou.
— Eu achei. — Draco ergueu a varinha e mandou o próprio prato vazio para a cozinha com
um suspiro satisfeito. — Muito bem, acabei por aqui. Vou lá buscar as anotações e o índice.
Quer escolher um filme enquanto eu vou e volto? O Theo largou alguns por aqui
recentemente, disse que talvez você gostasse de alguns.
Isso a surpreendeu de verdade, porque tinha quase certeza de nunca ter conversado direito
com Theodore Nott. Apesar de ele ser, aparentemente, o melhor amigo de Draco, ela não
tinha visto um fio de cabelo dele desde que engravidou. Agora que pensava bem, Hermione
não tinha visto ninguém na vida de Draco que não tivesse ido atrás dela ativamente: como a
mãe dele ou, menos bem-vinda, Pansy Rosier.
Draco parou, congelado, no meio do movimento de se levantar, e piscou para ela, como uma
coruja.
— Pra você não saber? — Draco perguntou, ainda nitidamente abalado pela pergunta
repentina. — Sobre o Theo?
— E a Jane, a bruxa nascida trouxa que te ajudou? — Hermione perguntou. — Vocês ainda
são amigos?
— Não sei se dá pra dizer que fomos amigos, Hermione. — Draco explicou, gentil,
afundando de volta na cadeira com uma expressão séria. — Ela foi muito gentil comigo
quando eu precisei de ajuda para aprender a circular no mundo trouxa, mas hoje em dia o
máximo que fazemos é trocar uma carta educada a cada mês, mais ou menos. Tenho quase
certeza de que, por mais paciente que tenha sido, ela só estava fazendo um favor à amiga
quando topou me mostrar as coisas.
— Você achou que eu tivesse uma vida social agitada? — Draco perguntou, um pouco rígido,
mas felizmente não irritado.
— Eu não saio muito por aí, Hermione. — Draco esclareceu. — Passo a maior parte do
tempo ou com você, ou trancado preparando poções. Antes de nós… nos reencontrarmos…
eu era ainda mais recluso. Jantava sozinho algumas noites por semana em alguns restaurantes
trouxas, só para estar perto de gente, e tomava uns drinques sozinho a cada poucas semanas
no Cabeça de Javali, só para sentir que ainda tinha alguma conexão com o mundo mágico.
Fora isso, a minha mãe e o Theo aparecem sem avisar, quando querem, para me chamar de
“eremita miserável” e variações afins. E é isso, essa é minha vida. Fico quieto no meu canto,
e eu estava bem com isso.
— Estava. — Draco confirmou. — Você claramente deu uma de Grifinória e se enfiou com
tudo na minha vida tranquila, Hermione.
Tentando sorrir para a brincadeira, Hermione deu de ombros.
— Você que veio falar comigo primeiro. — lembrou. — Naquela noite, no Cabeça de Javali.
— Pois é. Eu tinha tido um dia péssimo tentando finalizar um relatório para o comitê que está
avaliando minha especialização; e, quando te vi virando uísque no Cabeça de Javali, achei
que você seria ótima para uma boa discussão. Sabe, provocar até você me dar um tapa ou
algo assim.
— Ou algo assim. — Hermione repetiu, olhando para a camiseta esticada sobre a barriga.
— Ou algo assim, de fato. — Draco sorriu de lado. — Olha, não vou fingir que não esperava
que você risse da minha cara quando sugeri ficar com a guarda do nosso filho, porque
esperava. Achei que, com muita sorte, você mandaria uma coruja avisando que estava
grávida e dizendo para eu ficar bem longe; achei que, se você levasse a gravidez adiante, eu
só veria meu filho se trombasse com vocês por acaso no Beco Diagonal.
— Eu nunca…
— Era isso que você podia, e talvez devia, ter feito, considerando nosso histórico. Eu não
tinha feito absolutamente nada para merecer a sua confiança; então o fato de você ter
sugerido a guarda compartilhada comigo foi, sinceramente, de explodir a cabeça. Passei uma
semana inteira em estado de choque, e acho que ainda estou tentando entender por que você
decidiu seguir por esse caminho. Por que você está tão tranquila com a ideia de eu ter livre
acesso ao seu apartamento, ou por que parece feliz em entrar na minha casa, jantar comigo
regularmente e reclamar do trabalho.
— Ainda bem que surtei em particular, então. — Draco comentou, com ironia.
— Ainda bem. — Hermione concordou, com uma careta solidária. — Acho que eu surtei o
suficiente por nós dois.
— Descobri que não me incomodo tanto assim. — disse, com um sorriso extremamente
aberto. — Ou pelo menos, não consigo pensar em uma interrupção melhor do que uma
Grifinória maluca trazendo um monte de perdão que eu não mereço, junto com meus filhos.
Hermione queria dizer alguma coisa, responder à altura com algo igualmente encantador, mas
o rosto de Draco estava tão perto e tão sincero, e aqueles olhos cinza de nuvem de chuva a
prendiam mais firmemente do que qualquer basilisco. O jeito como ele sorria para ela
deixava a boca dela seca, e aquele frenesi louco sob as costelas entrou em modo de pânico.
Mas então o frenesi mudou, ficou mais firme, e Hermione arfou. Rompendo o contato visual
para olhar para baixo, maravilhada, ela ficou vulnerável de novo, agora por um motivo
completamente diferente.
Draco enrijeceu imediatamente, e as mãos voaram para perto do volume que os gêmeos já
faziam na barriga dela.
— Não! — Hermione levantou o rosto para ele, radiante. — Eles estão chutando! Eu consigo
sentir!
— Você provavelmente não vai sentir ainda, mas acho que um deles tá chutando bem aqui.
A mão de Draco se acomodou sobre a barriga dela, mas os olhos não se desviaram um
segundo sequer do rosto de Hermione. Ela sorriu para ele, e o sorriso dele floresceu, lento,
em resposta.
— Talvez eu ainda não consiga. — ele prometeu, a voz espessa. — Mas eu vou.
Chapter 18: Semana Vinte
Era muito mais fácil, na humilde opinião de Hermione, ficar empolgada com uma consulta
pré-natal quando não estava sendo encarada como um espécime exótico de zoológico.
Nem uma única alma na sala de espera da clínica trouxa de ultrassom para a qual a
Curandeira Agg os havia encaminhado deu a ela e a Draco uma segunda olhada, além de
alguns breves sorrisos direcionados à barriga de Hermione e um senhor mais velho que
parecia estar encarando o vazio alguns centímetros acima do ombro esquerdo de Draco
enquanto tamborilava sem pensar na revista que segurava nas mãos retorcidas. Era uma
sensação incrível não ter olhares a seguindo, cartas para Skeeter já se formando nas mentes
fofoqueiras da pequena comunidade bruxa.
Draco claramente também estava bem mais à vontade. Nunca tinha estado num consultório
médico trouxa antes, e Hermione conseguia perceber a curiosidade por baixo da fachada
cuidadosamente entediada. Ela sabia que ele tinha passado a última semana, até a consulta,
revisando tudo o que sabia sobre máquinas de ultrassom, e tinha rido da indignação dele ao
descobrir que bruxos não tinham nada parecido. A sugestão dela de que ele inventasse um
feitiço para mostrar uma imagem de verdade, se isso o ofendia tanto, tinha sido recebida com
uma inclinada arrogante de queixo e um resmungo: “Então vou ter mesmo que fazer isso,
porra.”
Ela não tinha certeza se aquilo era mais aterrorizante ou engraçado, para ser sincera.
Provavelmente as duas coisas.
— Hm?
Draco levantou os olhos do livro que tinha trazido quando ela o avisou que consultórios
médicos trouxas costumam ter uma seleção de leitura ainda pior que os mágicos. Hoje ele
estava lendo Matadouro Cinco, que Hermione sempre quisera ler; precisaria pegar
emprestado outra hora.
— Tomara que seja de empolgação desta vez. — Draco colocou um dedo elegante entre as
páginas do livro, sorrindo. — Tem sido meio tenso até agora. Ninguém em Mungo parece
saber cuidar da própria vida.
— Deus, eles são os piores. — Hermione deixou a cabeça cair contra a parede atrás da
cadeira com um revirar de olhos. — A maldita da Skeeter deve começar a salivar toda vez
que ouve que eu passei perto do hospital.
— Provavelmente hoje em dia ela sente mais é uma fúria apocalíptica, agora que você tem o
Creevy a seu dispor. — Draco riu. — Será que ela já tentou colocar alguma porcaria no chá
dele?
— Pelo visto ela já tentou cortar ele de algumas reuniões importantes, mas o Dennis me disse
que o editor deles tá empolmadíssimo por finalmente conseguir me ter a mim e ao Harry
oficialmente citados, então ela não está indo muito longe.
— E pensar que você já foi o maior fã dela. — Hermione lembrou, em tom severo. — Lá
pelo Quarto Ano.
— Longe disso — Draco respondeu, com a mesma mistura de ironia seca e constrangimento.
— Ela só era útil na minha interminável guerra com o Potter.
— E comigo.
— Eu era um fedelho completamente babaca naquela época. — Draco admitiu, fazendo uma
careta. — Eu sinto que um pedido de desculpas não chega nem perto de ser suficiente.
— Talvez sim, talvez não. — Hermione deu de ombros, olhando para o colo. — Mas é um
começo.
— Então eu sinto uma vergonha indescritível por ter dado a ela sequer um fiapinho de
munição para aquela campanha nojenta que ela fez contra você. — Draco disse, sério. — Foi
uma mesquinharia sem tamanho, e só serviu para provar que eu estava longe de ser tão
inteligente quanto achava. Posso dizer isso quantas vezes você quiser, e vou querer dizer de
verdade todas elas.
— Obrigada, Draco. — Hermione deixou a mão deslizar até cobrir a dele. — Eu aprecio isso,
e acho que sei que você está se esforçando para compensar em muita coisa.
— Eu vou passar o resto da nossa vida conser… — Draco começou a prometer, mas foi
interrompido por alguém chamando o nome de Hermione.
Uma trouxa alta, usando um conjunto estampado de scrubs azuis, estava parada no vão da
porta que levava ao interior da clínica. Era alta e magra, com o cabelo cheio de mechas
puxadas preso numa trança desleixada, e sorria diretamente para Hermione. Parecia ter uns
vinte e poucos anos, e todo o seu porte praticamente gritava “competência”.
— Sim, sou eu! — Hermione disse, com o coração pulando para a garganta. — Aqui!
A trouxa sorriu de um jeito indulgente e fez um gesto para que ela se aproximasse.
Hermione levantou num pulo, puxando Draco pela mão e começando a marchar em direção à
mulher com determinação. Ela não sabia se estava andando tão rápido por nervosismo ou por
ansiedade de ver os bebês na tela; ou se era puramente porque tinham mandado ela enfiar o
equivalente a um lago inteiro de água para dentro e não fazer xixi, o que era uma crueldade
excepcional com uma grávida.
— Ah! — Hermione largou a mão dele e correu de volta para pegar a bolsa antes de apressar-
se de novo atrás da mulher que chamara os dois. — Certo, desculpa! Agora tô pronta.
— Sem problema, senhorita Granger. — Ela então olhou, em expectativa, para Draco, que
pairava logo atrás do ombro de Hermione.
— Draco Malfoy — Draco disse com suavidade, estendendo a mão para um aperto rápido. —
Sou o pai dos bebês.
— Ótimo. — A trouxa sorriu para os dois e começou a guiá-los por um corredor bem
iluminado. — Eu sou Teresa McIntyre e vou fazer o seu exame hoje.
Hermione assentiu, depois se lembrou de que a mulher não tinha olhos na nuca.
— Ah, que bom. — guinchou. — Tô bem empolgada pra isso, faz semanas que estou
esperando para ver os bebês. É tudo tão novo.
— Ela só está empolgada. — Draco comentou com um sorriso de lado, para enorme alívio de
Hermione.
Ela tinha esquecido completamente da orientação que a Curandeira Agg mandara para os dois
apenas duas semanas antes, quando marcou a consulta. Eles tinham que fingir que o
ultrassom de doze semanas tinha sido feito normalmente, mostrando dois bebês saudáveis e
nenhuma complicação. Tudo aquilo que a Magia informava automaticamente na primeira
consulta, mas que um médico trouxa precisaria de vários exames para descobrir.
— Ah. — Teresa parou e abriu uma porta para uma pequena sala escurecida. —
Completamente compreensível.
— Certo, então por que você não sobe nessa maca ali e a gente começa? — Teresa apontou
para a mesa acolchoada que ocupava a maior parte da sala, e à qual estava acoplado um
grande conjunto de equipamentos de computador. — E, se quiser, senhor Malfoy, pode se
sentar naquela cadeira à esquerda dela.
— Certo. — Teresa sorriu para Hermione ao se sentar num banquinho e pegar um frasco com
um gel transparente. — Antes de começarmos, tenho algumas perguntas.
— Nada demais. — Teresa riu, com um sorriso afetuoso. — Primeiro, você pode dizer seu
nome completo e data de nascimento?
Ela não tinha conseguido se decidir até ontem, quando Harry sugeriu jogar uma moeda. O
resultado tinha sido para nãodescobrir, mas ela ficou tão imediatamente decepcionada que
percebeu, na mesma hora, que o que queria de fato era saber. Draco, felizmente, ficara
contente com qualquer escolha, o que a surpreendeu um pouco, já que bruxos normalmente
ficam sabendo logo nas primeiras consultas graças aos vários feitiços de que os Curandeiros
dispõem.
— Muito bem. — Teresa virou uma chave no computador e a tela de frente para Hermione e
Draco se acendeu, por enquanto mostrando apenas um vazio preto. — Agora, por que você
não puxa a blusa para cima e abre o fecho da calça pra gente começar?
Hermione fez exatamente isso, corando um pouco por desabotoar as calças na frente de
outras pessoas. Achou que já devia estar acostumada àquilo, considerando que precisaria
ficar bem mais exposta na hora de dar à luz, mas continuava sendo um pouco constrangedor
todas as vezes. Teresa, porém, não parecia nem um pouco afetada e apenas ajudou Hermione
a ajeitar a calça na posição certa, dobrando o cós para baixo de modo que não saltasse de
volta e atrapalhasse o exame.
— Pronto, o gel talvez esteja um tiquinho frio. — Teresa avisou. — Às vezes o aquecedor
não dá conta.
O gel realmente estava um pouco frio quando um pinguinho foi espremido diretamente na
barriga de Hermione, mas nada desconfortável. Hermione observou, ansiosa, enquanto Teresa
pegava o transdutor de ultrassom e acomodava o fio confortavelmente sobre o próprio
cotovelo antes de erguer o rosto com um sorriso.
— Certo, preparada para ver esses bebês?
Teresa deu uma risadinha, assim como Draco, mas então o aparelho encostou na barriga de
Hermione e ela esqueceu completamente da própria vergonha.
Por pura sorte ou habilidade, a primeira imagem que Teresa capturou foi um perfil perfeito do
rostinho de um dos bebês. Uma das mãozinhas estava encolhida contra o nariz, e Hermione
ficou absolutamente atônita ao perceber que já conseguia dizer que o bebê tinha o nariz dela,
e não o de Draco, só a partir daquela primeira olhada. Os lábios se franziram como se a
criaturinha quisesse chupar o dedo, depois relaxaram num biquinho.
— Aqui vamos nós. — Teresa disse, calorosa. — Olhem só, dedinhos perfeitos e já pronto
pra dar oi.
O bebê, como se soubesse que estava sendo observado, abriu os dedos num gesto que parecia
um aceno.
— Ah. — O ar sumiu dos pulmões de Hermione e ela sentiu os olhos arderem. Aquele era o
bebê dela, o filho dela. Ela tinha aceitado que havia bebês dentro dela, até certo ponto, mas
ver o bebê de verdade, com o nariz dela e a mãozinha acenando? Era impressionante como
aquilo tornava a gravidez muito mais real, como se estivesse sonhando com tudo até ali e, de
repente, tivesse percebido que estava acordada.
— É. — Draco murmurou ao lado dela, a mão subindo para segurar a dela, que descansava
ao lado do quadril sobre a maca. — Olha só.
— Parece bem saudável e feliz aí dentro. — comentou Teresa, clicando em vários botões para
fazer medições e capturar alguns quadros estáticos. — Tudo certinho para uma gestação de
gêmeos nesse estágio, medindo exatamente o que esperamos. Vamos ver agora o bebê B.
— Não, esse é o bebê B. — Teresa respondeu, e então sorriu de lado quando outro rosto
apareceu na tela. — Aha! Te achei. Aqui está, com cara de tão feliz quanto o irmãozinho ou
irmãzinha, só um pouquinho mais tímido.
Mais uma vez Hermione ficou chocada, porque também já conseguia distinguir os dois
bebês. Aquele parecia ter um nariz mais afilado, embora ainda não tão marcante quanto o do
pai, e ela tinha certeza de que era um tiquinho maior do que o primeiro.
— É, também está medindo bem. — informou Teresa. — Acho que um pouquinho maior que
o irmão.
— Uau. — Draco se inclinou contra o ombro de Hermione para chegar mais perto da tela. —
Olha pra eles, são perfeitos.
— Eu diria que sim. — Teresa riu, continuando a clicar para pegar mais medidas. — A
senhorita Granger está fazendo um trabalho maravilhoso em “cultivá-los”, especialmente
sendo a primeira vez.
— Ele… — Hermione observou o bebê na tela tentando se virar de novo enquanto Teresa o
perseguia com o transdutor para conseguir as medições de que precisava. — Ele é tão ativo.
Esse deve ser o que me chuta o tempo todo.
— Aposto que eles se revezam. — brincou, e quando Hermione olhou de lado, ele estava
encarando-a com uma expressão de completa fascinação.
Eles observaram em silêncio enquanto Teresa deslizava o transdutor para captar mais
imagens e medidas por alguns minutos. Hermione não conseguia acreditar no quão humanos
eles pareciam; ela lera os livros e tinha visto desenhos e imagens de como era um bebê no
útero, mas até aquele momento era incompreensível para ela que os bebês dentro dela
realmente parecessem assim. Ficou ali, vendo mais dedos minúsculos e pés aparecerem na
tela, sua mão na de Draco enquanto contemplavam os membros dos filhos surgindo naquele
monitor mudo.
Hermione quase disse para seguirem em frente logo, mas ela precisava desesperadamente ir
ao banheiro havia pelo menos uma hora e já estava começando a temer se molhar toda se
pressionassem mais uma vez a bexiga dela.
— Obrigada. — disse depressa, tentando descer da maca e abotoar a calça ao mesmo tempo.
— Já volto.
— Duas portas à esquerda — Teresa indicou. — Aí você volta pra cá e a gente parte pra parte
divertida.
Hermione saiu quase em disparada e achou a porta certa, a tempo de evitar um desastre.
Sentou no vaso com a cabeça girando, o que tinha acabado de ver e a percepção de que
pessoas de verdade estavam crescendo dentro dela a deixando completamente tomada. Não
sabia se queria chorar ou rir diante da magnitude do fato de saber que aquelas criaturas
minúsculas dependiam dela. Tinha lido os livros, e de certa forma a contragosto vinha
seguindo o que recomendavam às bruxas grávidas em termos de alimentação e exercícios,
mas tudo ainda parecia abstrato — a ideia de que, em poucos meses, estaria criando pessoas
de verdade. Até ali, estavam dentro dela, e bastava seguir algumas regras para manter o corpo
um ambiente saudável. Agora, porém, começava a entender que, uma vez do lado de fora,
seria um jogo completamente diferente.
E Merlin, ela não conseguia tirar da cabeça o fato de que um deles tinha o nariz dela e o outro
parecia puxar o do Draco. Era de explodir a mente, impensável, fenomenal.
Mas ainda havia mais uma coisa para descobrir, então o colapso sobre o quão despreparada
ela de repente se sentia teria de esperar. Depois de lavar as mãos e jogar um pouco de água no
rosto corado, Hermione deixou o banheiro, não sem antes dar uma última olhada à barriga no
espelho.
Draco aparentemente usara a ausência dela para bombardear Teresa de perguntas sobre o
funcionamento da máquina, porque, quando Hermione voltou, ele estava inclinado sobre a
maca e gesticulando para uma peça específica do equipamento, com uma expressão curiosa.
— Ah, e aqui está a mamãe. — Teresa disse, tranquila. — O senhor Malfoy estava aqui me
impressionando com o conhecimento que tem de ultrassom.
— Ah. — Hermione disse, sem jeito. — Ele coleciona livros de medicina como hobby.
— Não é um hobby ruim de se ter. — Teresa riu. — Meu marido coleciona umas pelúcias
estranhas com a nossa filha. Elas estão literalmente por toda parte, e eu vivo ameaçando jogar
tudo fora se eu tropeçar em mais uma.
Se deixando ajudar por Draco para voltar à maca, Hermione deu uma risadinha.
— Com certeza existem hobbies piores que livros. Pelo menos dá pra colocar todos numa
estante.
— Você pode falar. — Draco comentou, com um meio sorriso, voltando para a cadeira. — A
Hermione aqui tem mais livros do que muita biblioteca por aí.
— Certo, prontos para descobrir o sexo? — Ela fez uma pausa e corrigiu: — Quer dizer, os
sexos.
— Sim. — Draco repetiu ao lado dela, mais baixo, mas com bem mais convicção real. A mão
dele já tinha encontrado a dela de novo, o polegar traçando um carinho suave nas costas da
mão de Hermione, algo que, em qualquer outra circunstância, teria sido terrivelmente
perturbador para a concentração dela.
Hermione não sabia bem o que tinha imaginado, mas ainda assim ficou chocada com o quão
clara e inconfundível era a visão que teve da genitália do bebê. Mesmo com toda a nitidez
surpreendente do restante do exame, parecia impossível que fosse tão óbvio.
— Uau. — Hermione murmurou, atordoada demais para dizer qualquer outra coisa.
Felizmente Teresa parecia acostumada a esse tipo de reação e apenas continuou sorrindo para
a tela.
— Certo, próximo bebê. — Ela moveu o transdutor para onde o mais agitado Bebê B estava.
— O que temos escondido aí?
Desta vez Hermione não conseguiu segurar o riso, porque o Bebê B ainda se mexia sem
parar, e os três foram agraciados com uma visão muito clara das perninhas bem abertas
enquanto ele aparentemente tentava fugir da “cutucada”, deixando absolutamente nenhuma
dúvida quanto ao sexo.
— Ah, isso com certeza não. — concordou Teresa. — Ele está sendo bem cooperativo agora.
A mão de Draco afrouxou, e Hermione virou a cabeça para vê-lo boquiaberto para a tela. Os
olhos estavam brilhando de um jeito suspeito, e ele estava tão imóvel que o coração dela deu
um pequeno salto de preocupação.
Hermione entendeu, de repente, que ele estava tão impactado quanto ela por ver tudo aquilo
e, agora, literalmente tudodos bebês. Apertou a mão dele com mais força e conteve algumas
lágrimas traiçoeiras.
— Eu sei. — tentou dizer num tom reconfortante, mas a voz falhou. — É louco, né?
Draco assentiu, o cabelo prateado caindo sobre os olhos, e então esticou a mão para acariciar
o rosto dela.
— Um menino e uma menina. — Draco repetiu, quase sem ar. — Um filho e uma filha.
Os lábios de Hermione tremeram diante do espanto na voz dele e da força pura de emoção em
seu rosto. Ela mal enxergava através das lágrimas que ameaçavam despencar de vez, mas,
mesmo assim, conseguia ver o quanto aquilo o afetara.
— Eu sei. — conseguiu chiar. — E o rosto deles, eles já se parecem com a gente. É tão
surreal eu conseguir perceber isso, mesmo a imagem sendo meio granulada.
— Nossa filha vai ser tão bonita quanto a mãe. — Draco respondeu, com um sorriso trêmulo.
Ele se inclinou até encostar a testa na dela. — E aposto qualquer coisa que os dois vão ser tão
inteligentes quanto ela também.
Draco riu, o hálito quente ainda com um leve cheiro do chá de hortelã que tinham tomado
antes da consulta.
Ela omitiu a parte em que sabia que ele iria porque Draco tinha crescido muito bem dentro
dos próprios traços angulosos — porque aquilo chegava perigosamente perto de admitir que
o achava quase insuportavelmente atraente.
E ela sabia que, se admitisse isso, acabaria admitindo muito mais, mais do que estava pronta
para pôr em palavras. Então, em vez disso, apenas deixou que ele encostasse um beijo lento
em sua testa e sorriu ao ouvir o “obrigado” sussurrado dele.
Chapter 19: Semana Vinte-Um
— Granger!
Hermione quase saltou para fora da própria pele quando o latido do sobrenome dela ecoou
vindo das chamas verdes que surgiram de repente na lareira. Praguejou baixinho, conferindo
se não tinha derrubado o chá que estava preparando, e se virou com uma carranca para
encontrar a cabeça loiro-branca dele na lareira, com uma expressão absolutamente
tempestuosa.
— Aí está você — ele rosnou. — Você tem que vir aqui e fazer ele cair fora. Ou ela, não faço
ideia.
— Só… vem pra cá — Draco suspirou, um pouco menos confrontador. — Por favor,
Hermione.
— Tá bom — reclamou Hermione. — É melhor ter um motivo muito bom pra isso.
Hermione até considerou deixá-lo esperando só por birra, por ter interrompido a tarde
tranquila dela, mas tinha que admitir que qualquer coisa que o tivesse deixado tão agitado a
ponto de voltar a chamá-la de Granger provavelmente era algo que exigia atenção imediata.
Então, com um suspiro resignado para a xícara ainda fumegante de chá de lavanda,
atravessou a sala até a lareira e jogou um punhado de pó de flu.
Draco estava em pé do outro lado quase imediatamente, e Hermione teve que parar e ficar
encarando ele por um momento. Os olhos dela percorreram o corpo dele, incrédulos, até se
fixarem no bico petulante do rosto. Tirando a idade, ela poderia muito bem estar olhando para
Draco por volta do Sexto Ano. Ele usava um terno preto de três peças, com gola engomada e
gravata igualmente preta, sob uma capa elegante que terminava na altura dos joelhos; o
cabelo prateado estava penteado para trás com gel de forma severa, sem um único fio fora do
lugar. Ele estava até usando aquelas malditas abotoaduras de diamante que usava em
Hogwarts, até mesmo no uniforme escolar.
— Com certeza a Maior CDF da Sua Geração consegue descobrir sozinha — zombou o
Draco-de-terno.
— Minha mãe me enganou pra abrir o maldito flu — explicou o Draco de jeans, bufando. —
Disse que precisava trazer uma coisa aqui. Aí esse imbecil entrou desfilando na minha casa e
tá me enchendo muitíssimo o saco já tem uma hora. Eu achei que dava pra esperar o efeito
passar, mas eles acabaram de tomar outra porra de dose de polissuco. Então resolvi vir te
buscar pra você fazer as almadiçoações.
— Tenho quase certeza de que ou é o Potter ou é a namorada dele — sibilou Draco. — O que
é o único motivo de eu ainda não ter almadiçoado até Hogwarts; eu não queria te chatear
mandando qualquer um dos dois pra Mungo dentro de um saco de lixo. Eu quase suspeitaria
do Theo, mas eu sei exatamente onde ele está agora, e é bem longe daqui.
— Potter está aqui? E um Weasley? — gemeu o Draco-de-terno. — Ah, meu pai vai saber
disso!
— Viu? — reclamou o Draco de jeans em resposta. — Eles tão assim há uma hora. Se você
não fizer eles calarem a boca, eu vou fazer!
Hermione estreitou os olhos, tentando adivinhar qual dos amigos estava se passando por
Draco. O Draco-de-terno retribuiu o olhar, com um beiço arrogante, e Hermione foi obrigada
a admitir que era uma representação absurdamente convincente da arrogância perpétua de
Draco Malfoy adolescente. Ela se inclinava a achar que era o Harry, simplesmente porque ele
conhecia melhor o Draco, mas não podia descartar a Ginny, que tinha um certo talento para
imitações quando se esforçava.
— Certo, qual de vocês é? — ela tentou perguntar. — O Draco tem razão, tem que ser um de
vocês dois.
— Sério, Granger — o Draco-de-terno arrastou as palavras. — Seu cérebro não serve pra
nada além de alimentar esse ninho de pássaro que você chama de cabelo? Eu sou claramente
Draco Malfoy, insuportavelmente inteligente e aristocrático Herdeiro da maior dinastia que já
agraciou esse pedregulho cheio de lama chamado planeta.
— Mas é maravilhoso ter você aqui, Granger — arrastou o Draco-de-terno. — Por mais
bonito que eu seja, encarar o meu próprio rosto só diverte por um tempo. Quem sabe a gente
pode relembrar a vez em que eu insinuei que queria ver a sua calcinha na Copa Mundial?
A mandíbula de Hermione caiu com a audácia da frase, antes de se fechar de novo quando
uma certeza súbita a atingiu.
— Harry James Potter, você para com isso agora — ela ralhou. — O que você pensa que está
fazendo, enchendo o saco do Draco desse jeito? E onde é que você arrumou essa roupa?
— Droga, me entreguei, né? — ele riu. — A senhora Malfoy me mandou uma carta duas
semanas atrás perguntando se eu queria ajudar a pregar uma peça no Malfoy aqui. Pelo visto
ela ficou sabendo da nossa ida às compras pelo próprio Malfoy e sugeriu que, se eu ainda
tivesse polissuco guardado, poderia ser divertido. Quando perguntei à Ginny se ela ainda
tinha um pouco, ela me fez jogar uma moeda pra decidir qual de nós vinha encher o saco
dele, ela tá meio irritada por ter perdido. — ele deu uma gargalhada, visivelmente satisfeito
consigo mesmo. — Enfim, eu encontrei a senhora Malfoy lá na Mansão hoje de manhã pra
me trocar e aí ela me ajudou a vir pelo flu quando vimos que o Malfoy não tava rondando por
lá hoje.
— Ajudar ela a pregar uma peça no Draco? — Hermione resmungou. — Por que ela ia
querer a sua ajuda pra isso?
— Você é que pediu pra eu tomar o polissuco, Potter! — Draco retrucou, e os olhos cinzentos
escureceram perigosamente.
Dessa vez ele não dispensou a bronca de Hermione, apenas sorriu de lado, envergonhado, e
coçou a nuca.
— Sinceramente, Harry, você não tem coisa melhor pra fazer? — Hermione perguntou,
completamente exasperada.
— Então é um não — Hermione massageou a testa para conter a dor de cabeça que dava
sinais de vida e apertou os lábios numa linha fina. — Vocês dois são impossíveis.
Hermione lhe deu um sorriso apologético e estendeu a mão para apertar o antebraço dele.
— Desculpa, Draco — disse, apontando para Harry. — Quer que eu leve ele comigo e vá
embora?
— Não — decidiu. — Só faz ele cair fora e garante que ele não vai ficar por aí usando o meu
corpo.
— Tá bom — Harry riu. — Acho que já me diverti o bastante. Vou pra casa e espero passar o
efeito, depois mando as roupas de volta amanhã.
— Queima — Draco rosnou. — Eu nunca vou usar essas porcarias de qualquer jeito.
— Tá, tá, eu mando as abotoaduras de volta pra sua mãe, pelo menos — ainda ria. — Elas
provavelmente custam mais do que uma casa.
— Isso você faz — Draco falou entre dentes cerrados. — Desde que vá embora.
— Sim, sim. — Harry puxou a gola do terno. — Merlin sabe que só valeu a pena usar esse
terno infernal enquanto eu estava te irritando. Como diabos você aguentava usar isso todo
dia?
— Ela disse que ia ficar esperando e pra te avisar que planeja ler em voz alta sempre que
você precisar de um lembrete sobre boas maneiras.
A carranca de Draco se aprofundou e ele apontou para a lareira.
Harry fingiu fechar a boca com um zíper, depois jogou um punhado de pó verde no fogo e
sumiu num clarão esmeralda.
— Você tá bem? — Hermione perguntou, estendendo a mão com hesitação para tocar o
bíceps dele. — Eu sei que o Harry pode se empolgar um pouco demais.
— Assim como a minha mãe — Draco bufou. — Mas eu tô bem, só preciso de um tempo pra
me acalmar antes de dizer alguma coisa de que eu vá me arrepender pra ela.
— Ele não fez nada muito horrível, fez? — Hermione franziu a testa, preocupada que Harry
tivesse dito algo muito além do aceitável no entusiasmo de passar a perna no Draco.
— Nada demais — Draco suspirou, soltando uma respiração represada quase de forma
explosiva. — Só ficou rondando como um espectro das piores partes de mim.
— Sinto muito.
— Você não tem nada pelo que se desculpar — Draco respondeu na mesma hora, com muita
firmeza. — E eu sei que ele podia ter sido muito, muito pior. Ele só ameaçou contar tudo pro
papai a cada trinta segundos, e isso é bem melhor do que muita coisa que ele podia ter dito —
terminou em tom sombrio.
— Mesmo assim, eu lamento — Hermione insistiu. — Ele não devia ter feito isso, vou lá
berrar com ele depois.
— Mas…
— Mas nada — Draco entortou os lábios num quase sorriso. — É verdade que eu não gosto
de ter meu espaço invadido, mas também não posso dizer que ele estava completamente
errado ao fazer pouco de mim. Podia ter sido bem pior, e eu ainda assim não teria como negar
que fui uma pessoa horrível. — Ele suspirou e passou rápido a mão pela bochecha de
Hermione, afastando um cacho rebelde. — Eu não devia ter te envolvido na nossa briguinha,
desculpa. Isso era entre mim, o Potter e a Mamãe, foi grosseria da minha parte te puxar pra
isso; eu só estava de cabeça quente sem saber como fazer ele ir embora sem acabar fazendo
alguma idiotice que terminasse num duelo. Mas, de qualquer forma, eu devia ter sido o adulto
da história e resolvido quando tivesse me acalmado.
Hermione o examinou com curiosidade, um pouco surpresa ao se dar conta de que já ouvira
Draco dizer coisas bem parecidas antes — e a própria senhora Malfoy também.
— Você fala esse tipo de coisa com uma certa frequência, e sua mãe também falou, quando
tomamos chá — arriscou Hermione. — Às vezes isso me surpreende. Acho que só fico
curiosa.
— Deu sim — Draco riu baixinho. — Eu ia jogar fora assim que saísse, mas por algum
motivo hesitei quando estava prestes a enfiar o livro na lixeira lá fora. Demorei mais uma
semana pra descer do salto, mas acabei lendo. Aí li de novo, e então mandei uma carta pra
Jane pedindo desculpa por ter ido embora daquele jeito e perguntando se ela toparia se
encontrar comigo de novo.
— Isso é surpreendente.
— Naquela época eu estava completamente à deriva, e como ela não tinha me mandado
claramente à merda, achei que não custava tentar. — Ele fez uma careta. — Já tive
experiências bem piores em primeiros encontros com pessoas, afinal.
— Ainda assim, foi estranhamente maduro da sua parte — murmurou Hermione, empurrando
para baixo o pequeno espinho de tristeza ao pensar nesses outros primeiros encontros.
A reputação de Draco depois da guerra ainda estava em frangalhos, e ela tinha ouvido uma
história ou outra sobre como as pessoas reagiam ao ver figuras como Draco ou Pansy na rua.
Sabia que as coisas começavam a se acalmar, mais de dois anos após o fim da guerra, mas
também sabia que a maioria dos colegas sonserinos de Draco tinha fugido do país diante da
fúria que o público dirigia aos rostos mais jovens e reconhecíveis do círculo de Voldemort. E,
para falar a verdade, a própria Hermione tivera um vislumbre disso nas semanas que se
seguiram à revelação pública de que Draco era o pai dos bebês dela. Ainda que não chegasse
nem perto da perseguição que os nascidos trouxas tinham sofrido sob Voldemort, aquilo a
deixava um pouco revoltada — ver como o público escolhia descarregar boa parte da raiva
nos membros mais jovens do círculo, independentemente do quanto tinham, de fato,
contribuído para a guerra ou das circunstâncias por trás do que fizeram. Parecia injusto que
fossem sempre atrás dos alvos mais fáceis em vez das pessoas que realmente mereciam.
Havia certamente alguns indivíduos com álibis bem duvidosos para as próprias ações durante
o conflito, e esses não pareciam atrair nem metade da ira que recaía sobre os jovens
sonserinos.
— Muito obrigado — um canto da boca de Draco levantou num sorriso torto. — A melhor
parte foi a cara da minha mãe quando insisti para que ela lesse o livro que a Jane me deu, e
mais alguns que eu fui juntando depois.
A mandíbula de Hermione despencou. Ela não achava que teria coragem de tentar algo assim
com a imponente e intimidantemente impassível matriarca Malfoy. Uma única sobrancelha
erguida já seria suficiente para fazer Hermione sair correndo em pânico, sem falar naquela
única maldita ruguinha ao lado dos lábios da senhora Malfoy que aparecia quando ela estava
contrariada.
— Ela estava me enchendo sobre cumprir o meu dever — Draco riu. — Umas bobagens
sobre como eu devia estar cortejando ativamente uma das três bruxas britânicas da nossa
geração que são ao mesmo tempo do Sagrado Vinte e Oito e parentes distantes o suficiente
pra não ser considerado incesto.
— O quê? — Hermione arregalou os olhos. — Ela queria que você já estivesse casando?
— Você esqueceu que ela me deu um anel de noivado e nada mais no Natal?
— Ah, verdade — Hermione fez uma careta. — Eu tinha esquecido. Se serve de consolo, a
Molly arrumou um hobby novo. De repente ela desenvolveu uma verdadeira paixão por
revistas de casamento, até está colecionando as trouxas. Claro, isso significa que ela vive
pedindo pra eu comprar, já que eu sei como achar nas lojas — acrescentou, com um profundo
revirar de olhos.
Draco clicou a língua.
— Precisamos manter a senhora Weasley o mais longe possível da minha mãe. Acordamos
sob Imperius e casados em menos de um dia.
— Você não está tão longe da verdade. É coisa de geração mais velha, eu sei, mas bem que
podiam deixar isso quieto. A gente parece estar nos virando muito bem sem sair correndo pro
altar.
— Quase certeza absoluta — Hermione assentiu, batendo com a mão na almofada ao lado até
Draco se sentar ali. — Minha mãe sempre apontava os títulos ridículos desses livros, e devo
dizer que esse soa exatamente como muitos deles.
— Trouxas são bem mais interessantes do que eu jamais dei crédito — Draco apoiou a
cabeça no encosto do sofá e virou para ela com um sorriso de canto. — Afinal, eles
produziram você.
— Que bom que você notou — retrucou, no tom mais seco que conseguiu. — Tô curiosa,
aliás: que tipo de coisas a Jane te mostrou, depois que você leu o livro?
— Em sua maioria, coisas práticas, tipo como cozinhar do jeito trouxa ou como usar dinheiro
e transporte trouxas. Depois disso ela me deu um curso intensivo de cultura trouxa, me
levando a alguns museus e galerias. — Draco franziu os lábios. — Ah, e me levou à casa dela
uma vez pra me mostrar um filme na televisão como exemplo de quão mais avançada a
tecnologia trouxa era do que eu pensava.
— Ela não te levou ao cinema? — Hermione perguntou, pensando que teria feito exatamente
isso se tivesse sido ela arrastando o antigo Malfoy por aí para apresentar o mundo trouxa. Ela
adorava ir ao cinema sempre que voltava para casa nas férias de Hogwarts; era uma
experiência que o mundo bruxo mal tinha como comparar — no máximo um teatro ou uma
ópera engessados, nada tão casual quanto ir ver filme com amigos.
— Não — Draco balançou a cabeça. — Acho que estar perto de tantos trouxas teria sido um
pouco demais pra mim naquela época. Uma galeria onde eu consigo encontrar cantos vazios é
uma coisa, mas ficar espremido num quarto escuro provavelmente teria me deixado em
pânico e aparatar pra fora, ou fazer alguma outra idiotice desse tipo.
— É — Draco deu de ombros, esbarrando de leve nela. — Depois só nunca mais cheguei a ir.
— Espera! — Hermione se virou para encará-lo, incrédula. — Você ainda nunca foi ver um
filme no cinema?
Hermione engasgou por um instante, depois se virou completamente para ele, enfiando o
joelho na coxa dele.
— Ah, não — Hermione murchou um pouco. — Provavelmente é tarde demais pra organizar
isso hoje. Que tal semana que vem?
Os olhos cinzentos de Draco percorreram o rosto dela, curiosos e atentos. Então ele se
recostou de novo com um sorriso de canto.
Hermione bufou para ele e começou a falar sobre os filmes que tinha visto serem lançados
recentemente. Enquanto isso, Draco a observava com um pequeno sorriso puxando os cantos
da boca.
Chapter 20: Semana Vinte-Dois
Hermione ergueu-se nas pontas dos pés, procurando o loiro platinado inconfundível de Draco
no meio dos trouxas encasacados que passavam em frente ao cinema. Ela tinha torcido para
escolher um dia menos movimentado ou, na pior das hipóteses, se encontrar com ele no
sobrado e virem juntos; mas, infelizmente, os horários dos dois tinham conspirado para tornar
isso menos prático do que simplesmente marcarem diretamente no local. Então lá estava ela,
numa tarde fria de sábado, esperando na frente do cinema a chegada de Draco.
— Com licença, moça? — uma voz grave e agradável soou atrás dela.
— Sim? — respondeu Hermione educadamente, ainda tentando não perder Draco de vista
enquanto lidava com o provavelmente perdido trouxa que tinha falado.
A voz pertencia a um homem trouxa que parara muito perto atrás dela, talvez da idade dela
ou algo assim. Tinha um rosto bonito, cabelo castanho-claro e olhos azuis profundos, e sorria
para ela com um charme torto. Hermione deu um passo bem marcado para o lado, e o sorriso
cortês dela ficou muito mais tenso quando ele deu um passo correspondente para segui-la.
— Desculpa incomodar, mas você estudou em St Mary’s por acaso? — ele ergueu as
sobrancelhas numa inconvincente tentativa de dúvida.
Ela era uma mulher inteligente e sabia muito bem o que aquele trouxa estava tentando, todo o
jeito dele gritava “cafajeste” muito mais do que “você pode me indicar o metrô?”. Hermione
fez questão de continuar procurando Draco na multidão, esperando que aquele idiota captasse
a indireta.
— Tem certeza? — ele insistiu. — Poxa, foi engano meu, então. É que você parece tanto com
uma garota por quem eu era completamente apaixonado. — Ele deu de ombros com um
sorriso. — Tive que tentar a sorte, né?
O movimento fez o casaco abrir um pouco, e os olhos do homem desceram num relance até a
barriga de Hermione, que só na semana anterior começara a ficar evidente o bastante para
quem não sabia da gravidez notar — e o sorriso dele sumiu do rosto num instante.
Hermione ficou boquiaberta ao ver o sujeito se esgueirar pela multidão, meio tentada a gritar
algo bem cortante sobre aquelas cantadas péssimas, quando uma mão pousou em seu ombro e
uma voz bem mais bem-vinda zombou atrás dela.
— Merlin, que idiota. — Draco fez uma careta de nojo. — Ele tava mesmo tentando dar em
cima de você?
— Pois é! — Hermione se virou com uma carranca. — E o jeito que ele fugiu correndo
quando viu isso aqui foi simplesmente… — Ela apontou para a própria barriga com um som
ofendido.
— Bom, é uma sorte ele ter ao menos dois neurônios funcionando — Draco lançou um olhar
fulminante na direção em que o trouxa tinha sumido. — Eu detestaria estragar minha
primeira ida ao cinema com uma briga. Você tinha vendido isso quase como uma
peregrinação sagrada.
— Ah, não seja ridículo — Hermione resmungou, agarrando Draco pelo cotovelo para
arrastá-lo para dentro, onde era mais quente. — Ele não ia fazer nada de terrível com tanta
gente por perto.
— Talvez — concedeu Draco. — Não quer dizer que eu não teria vontade de socar ele.
— Sinceramente, você é tão dramático quanto o Harry. Se ele tivesse insistido demais, eu
conheço um belíssimo feitiço de picada sem varinha que funciona muito bem combinado
com um belo tapa. — Hermione revirou os olhos, depois soltou o braço dele para gesticular
em volta, indicando o saguão do cinema. — Então, o que você acha?
— Acho que não devia nunca ser comparado com o Potter — Draco declarou, olhando o
salão cheio com aquela expressão neutra que Hermione agora sabia que significava
apreensão. — Mas parece aceitável.
— Eles reformaram esse lugar tem uns meses — Hermione riu. — Cadeiras novas e tudo.
— Maravilhoso — murmurou Draco, mostrando um sorriso rápido para ela antes de erguer o
olhar para o painel com os filmes em cartaz. — Então, no que você decidiu?
— Bom, eu sei que você disse que o Theo te faz assistir filmes de ação…
Draco olhou para o pôster para o qual ela apontava, que mostrava uma mulher dando um
chocolate na boca de um homem de ar vagamente malandro, com um sorriso insinuante. As
sobrancelhas dele subiram e ele lançou um olhar de lado para ela, o canto dos lábios se
puxando num sorriso.
— Isso — ele apontou para o pôster — parece exatamente um daqueles romances com que a
Pansy e as outras ficavam desmaiando de paixão pela sala comunal.
— Ah, não, esse aqui serve muito bem — Draco abriu um sorriso, arqueando as
sobrancelhas. — Acho que estou morrendo de curiosidade pra ver o que é que você considera
um belo encon… — Ele pigarreou de repente, enfiando o punho na frente da boca, antes de
retomar a provocação: — um belo cinema.
— Alguém está briguentinha hoje — Draco riu, mas logo depois ficou um pouco mais sério e
ergueu o queixo dela com um dedo para poder ver melhor o rosto. — Tá tudo bem? Você tá
precisando de alguma coisa?
— Eu tô bem, prometo. Só irritada com aquele idiota tentando dar em cima de mim —
admitiu, enrugando o nariz. — Mas esquece ele, vamos pegar logo nossos ingressos, eu tô
doida pra te mostrar uma experiência de cinema de verdade.
Depois de conferir o rosto dela uma última vez, Draco deixou cair a mão do queixo dela e
ergueu uma sobrancelha aristocrática.
— Tem certeza? — Draco encarou o balde de pipoca com desconfiança enquanto eles
caminhavam para as filas de gente esperando entrar nas respectivas salas. — Porque os
trouxas não têm feitiços de preservação e aquilo estava simplesmente aberto no ar. Talvez
devêssemos ficar só com os chocolates, pelo menos vieram numa caixa lacrada.
Hermione respondeu enfiando alguns grãos de pipoca na boca e mastigando com uma
satisfação bem evidente, até ele ceder e provar também. Ela lhe lançou um sorrisinho
vitorioso quando ele tentou manter o ar blasé, enquanto imediatamente pegava outro punhado
para ir beliscando à medida que avançavam na fila rumo à sala. A pequena vitória boba a
levou satisfeita até dentro do auditório em si.
— Elas são sempre tão vazias assim? — Draco perguntou quando encontraram alguns lugares
mais ao fundo, olhando ao redor para o único outro grupo, sentado bem na frente.
Draco só fez um som neutro em resposta, ainda examinando o outro grupo como se estivesse
avaliando se aqueles trouxas eram ou não uma ameaça. Com uma cutucada afiada na lateral,
porém, ele olhou para baixo, deu de ombros e revirou os olhos. Tirando o casaco de lã preto e
dobrando-o com cuidado, sentou-se ao lado de Hermione, só fazendo uma rápida checagem
para ver se o assento estava limpo.
— Ah, é mesmo, vossa alteza — Hermione zombou, rindo, e o viu relaxar um pouco com a
provocação.
Eles passaram os dez minutos seguintes em uma conversa tranquila sobre o que a banca da
Mestria tinha querido de tão urgente. Hermione ficou um pouco aborrecida ao descobrir que
se tratava de contaminação em uma das poções que Draco havia preparado recentemente, o
que exigia refazer uma poção que levava pouco tempo, mas muita concentração cuidadosa.
Pelo visto, a rolha que ele usara no frasco tinha uma rachadura microscópica, permitindo que
uma quantidade minúscula de ar oxidasse um preparo que, de outra forma, teria sido perfeito.
O humor de Draco azedou enquanto ele contava, irritado consigo mesmo por não ter
verificado a rolha como devia, mas parecia um pouco mais animado depois que Hermione lhe
ofereceu um meio abraço de solidariedade.
Hermione estava bastante orgulhosa de si por não ter se agarrado nele como uma completa
bobalhona apaixonada quando percebeu que o perfume do dia era o favorito dela: um cheiro
suave, escuro e condimentado, que sempre a tentava a ficar um pouquinho perto demais
sempre que ele o usava no lugar do aroma mais neutro habitual. Sinceramente, ela achava que
merecia uma medalha por ter conseguido se soltar dele para pegar mais pipoca, em vez de
enterrar o rosto exatamente naquele ponto onde a gola da camisa azul impecável deixava à
mostra a coluna pálida do pescoço encontrando o ombro.
A diminuição das luzes pegou os dois de surpresa, mas, àquela altura, já estavam soltos o
suficiente para simplesmente se recostarem na sala quase vazia e assistir aos anúncios. Draco
pareceu achar os comerciais um pouco irritantes, mas já era familiar o bastante com o mundo
trouxa para dispensar explicações. Hermione anotou mentalmente alguns filmes que talvez
valesse a pena conferir, mas nada em especial chamou muito a atenção dela.
Quando o filme de fato começou, Hermione se viu apenas sentada ao lado de Draco,
passando distraidamente a mão pela barriga. Pelo menos um dos gêmeos aproveitava o fato
de ela estar quieta para se fazer notar. Às vezes, quando se mexiam o suficiente, Hermione
tinha quase certeza de conseguir senti-los com a palma da mão. Ela passara a pressionar as
mãos onde achava que havia movimento, principalmente na esperança de que em breve
pudesse deixar Draco sentir também. Ela se lembrava bem da expressão dele quando sentira
os bebês se mexendo por dentro dela pela primeira vez, e estava desesperadamente curiosa
para ver como ele reagiria ao sentir os movimentos com as próprias mãos.
Hermione arriscou um olhar de lado para ver se Draco estava gostando do filme e percebeu
que ele prestava mais atenção na mão dela do que na tela. Com uma risadinha silenciosa pela
sincronia de pensamentos, ela roçou os dedos na mão dele sobre o apoio de braço para
chamar sua atenção.
— Acho que você ainda não vai conseguir sentir quase nada — sussurrou, apontando para a
barriga. — Mas, se quiser, pode tentar.
Os lábios de Draco se curvaram num sorriso e ele lhe lançou um olhar de soslaio. Ele não
pousou a mão inteira nela como Hermione já vira gente fazer com barrigas de grávidas, só a
deslocou devagar até que o dorso do dedo indicador roçasse o arco do ventre dela. Hermione
teve que morder o lábio quando ele começou um movimento lento naquele pequeno pedaço
de pele que alcançava daquele jeito; era menos contato do que alguém apalpando demais,
mas parecia infinitamente mais íntimo. Havia algo de tão casual no jeito como ele voltava a
focar a tela enquanto o dorso de um único dedo desenhava um padrão repetitivo, como se já
tivesse feito aquilo um milhão de vezes.
Ele mal parou com aquilo o filme inteiro, só interrompendo para pegar algum lanche ou um
gole de refrigerante antes de colocar a mão de volta no lugar. Se alguém perguntasse,
Hermione não teria a menor condição de contar qual era a trama ou descrever as personagens,
porque a concentração dela estava completamente consumida por aquele pequeno movimento
do dedo elegante de Draco. Na teoria, ela deveria achar irritante aquele roçar constante contra
a blusa, mas, em vez disso, só conseguia desejar que ele fizesse aquilo para sempre.
Ele ignorou todos os olhares de relance que ela jogou na direção dele enquanto o drama se
desenrolava na tela, embora tivesse que saber que ela estava observando. Manteve os olhos
cinzentos obstinadamente voltados para frente, sem sequer esboçar um sorriso ou vacilar no
gesto. Era enlouquecedor — e desanimador — vê-lo tão aparentemente imperturbável
quando, no clímax do filme, Hermione se sentia prestes a combustão espontânea.
Por isso, os créditos a pegaram de surpresa, e, quando as luzes se acenderam, ela percebeu,
piscando como uma coruja, que precisava desesperadamente ir ao banheiro. Não lembrava a
última vez em que estivera tão alheia à própria bexiga, e ficou um tanto mortificada com a
pressa com que teve de disparar em direção ao toalete, com Draco vindo logo atrás até a saída
da sala para esperar do lado de fora.
Depois de cumprir a missão, ela parou um instante em frente ao espelho, ajeitando o cabelo e
puxando a blusa para ficar no lugar. O reflexo não mostrava nada da tempestade interna, e
Hermione torceu para que continuasse assim até estar segura em casa. Muitas vezes,
recentemente, Hermione se sentara perto o suficiente para encostar em Draco no sofá dele, os
dois mergulhados em leituras diferentes, mas, embora não tivessem ficado fisicamente mais
próximos do que isso hoje, ela sentia que havia algo na proximidade de agora que fora
infinitamente mais íntimo.
Respirando fundo, Hermione assentiu para o próprio reflexo e se afastou da pia. Sabia que
estava sendo boba, Draco não tinha sido atrevido em momento algum. Ele não se aproveitara
da oferta dela, nem a usara como desculpa para tocá-la demais. Só tinha aceitado o convite
para tocar os gêmeos, através dela, algo de que obviamente gostava ainda mais, por entender
melhor a ideia deles. Ela precisava parar de ficar tão à flor da pele, parar de deixar a atração
idiota que sentia por ele distorcer a percepção das coisas, e voltar para lá antes que Draco
começasse a achar que ela tinha caído dentro do vaso.
O corredor estava cheio de trouxas saindo de outra sessão quando Hermione emergiu, e ela
agradeceu por Draco estar esperando bem ao lado da porta; não tinha a menor vontade de
atravessar o empurra-empurra para procurá-lo de novo.
— Então — ela disparou, enquanto Draco a escoltava até a saída e de volta para o frio —, o
que achou da sua primeira experiência no cinema?
— Bom — Draco lançou um sorriso de lado para ela —, eu mantenho absolutamente minha
afirmação anterior de que parecia exatamente um daqueles romances com que a Pansy
desmaiava de amores.
— Não era… — Hermione começou, mas se interrompeu com um suspiro, porque, do pouco
que tinha absorvido do filme, teve que admitir que a teoria dele era bem certeira. — Certo, tá,
se a Pansy e a Lavender tinham os mesmos gostos literários, eu concedo. Mas eu escolhi ele
justamente porque era praticamente o oposto de um filme de ação…
— Schwarzenegger.
— Mais um motivo pra eu ter escolhido esse filme — Hermione concordou. — Filmes
recém-lançados ficam lotados no fim de semana, e eu achei que você não ia gostar disso.
— Escolha sensata — Draco sorriu enquanto os dois viravam em direção a uma pracinha, o
caminho iluminado pelos postes que começavam a acender no anoitecer. — Sabe, tem mais
uma tradição trouxa ligada a cinema de que eu já tinha ouvido falar.
Hermione olhou para cima, intrigada com o que ele achou que faltou na programação e que
ela não tinha pensado em incluir. Ele a fitou com um semissorriso, a boca séria de um jeito
que a confundiu, sem entender a súbita mudança de humor.
— Talvez eu esteja enganado — a voz dele baixou, e Draco pegou de leve o cotovelo dela,
puxando-a devagar para que parasse —, mas os trouxas não costumam ir ao cinema em
encontros?
O chão sumiu debaixo dos pés de Hermione de forma tão abrupta que ela ficou tonta. Era
isso. Era esse o motivo de o dia ter parecido tão mais íntimo do que se enroscar no sofá dele
lendo até tarde. Ela não tinha pretendido, mas o subconsciente estúpido e sabotador dela tinha
transformado o convite ao Draco em um encontro. Nem dava pra chamar de “convite”, na
verdade — ela tinha basicamente anunciado o plano a ele e não dado muita chance de recusa.
Com as palavras ditas em voz alta ali, ao ar livre, ela não podia nem fingir que não era isso;
simplesmente ignorara as implicações de ir ao cinema sozinha com o homem por quem
estava desesperadamente atraída. Tinha esmagado a simples ideia disso com tanta eficiência
que a própria consciência não tinha acusado o golpe uma única vez desde o momento em que
declarara que eles iriam.
E Draco sabia o suficiente sobre a cultura trouxa para entender perfeitamente o que ela tinha
se recusado a enxergar. Hermione se espantava por ele ainda não estar rindo dela
abertamente.
— Porque — a voz de Draco arrancou Hermione dos próprios pensamentos ao mesmo tempo
em que a mão quente dele deslizava do cotovelo para a mão dela —, e fique à vontade pra me
interromper se não quiser ouvir isso…
Hermione queria interrompê-lo, queria tapar os próprios ouvidos com as mãos para não
escutar a recusa educada às investidas acidentais dela. Ou pior: uma aceitação relutante
porque ele tinha medo de que ela usasse os bebês como moeda de troca se ele não topasse
qualquer coisa que ela sugerisse. Mas estava paralisada, congelada pela pura mortificação do
erro, daquele deslize egoísta e idiota.
— Mas eu gostaria muito que essa tivesse sido a sua intenção — Draco falou num sopro
rápido.
Foi como se o mundo tivesse parado de girar, como se a magia tivesse congelado o tempo.
Hermione tinha certeza de que não podia ter ouvido o que achou que ouviria, de que Draco
não podia ter acabado de admitir que queria que aquilo fosse um encontro. Ele não estava
erguendo uma barreira, nem cedendo com má vontade.
Ele queria.
Hermione raramente ficava sem palavras, mas Draco parecia ser sempre a exceção. A boca
dela se abriu e fechou, abrindo e fechando como a de um peixe fora d’água, e o cérebro
pareceu reduzir-se a um amontoado de impulsos inúteis que se recusavam a obedecer a
qualquer ordem coerente.
Então, praticamente a pior coisa que poderia ter feito, o furacão hormonal dela tomou a frente
— e ela começou a chorar.
— Ah, Merlin! — Draco pareceu horrorizado. — Não chora, desculpa, Hermione. — Ele
estava com a expressão de quem tentava decidir se devia correr ou confortá-la, as bochechas
ruborizadas e as mãos pairando nervosas ao redor dos ombros dela, sem chegar a tocá-la. —
Olha, a gente pode esquecer isso, tá bem? Eu não falo mais nada.
— Sim — Hermione finalmente conseguiu chiar, ainda soluçando ridiculamente no meio da
pracinha, enquanto alguns trouxas por perto tentavam entender se precisavam intervir.
— Certo, claro — murmurou, apagado, deixando as mãos caírem ao lado do corpo com um
engolir seco. — Eu só vou… Vamos… vamos te levar pra casa e depois… — Ele olhou para
qualquer lugar, menos para ela. — E depois eu te dou um tempo.
— Não! — arfou. — Não isso! Eu quis dizer sim pra sua outra pergunta.
Sacudindo a cabeça para clarear as ideias, Hermione fez um esforço e ajeitou um sorriso
trêmulo.
— Eu não pensei nisso como um encontro — começou, puxando as lapelas dele até o rosto se
inclinar mais perto do dela, molhado de lágrimas. — Mas acho que talvez eu quisesse que
fosse.
— Sério? — Draco sussurrou, tão perto que Hermione conseguia sentir o cheiro de manteiga
de pipoca na respiração dele.
O aceno de cabeça com que ela respondeu acabou batendo a testa dele com a própria, mas
aquilo deixou de importar muito depressa. Afinal, é bem difícil se importar com um pouco de
desajeitamento quando se está vivendo exatamente o tipo de beijo sobre o qual se escrevem
filmes inteiros.
Chapter 21: Semana Vinte-Três
Foi realmente mais do que um pouco embaraçoso para Hermione perceber que, além de ter
arrastado Draco sem querer para um encontro, ela também, a bem da verdade, tinha, sem
intenção, acabado derivando para um relacionamento completo com ele. Depois que ele a
beijou até deixá-la completamente sem sentidos bem no meio do parque, fora tão cavalheiro e
a deixara em seu apartamento com nada além de um selinho suave nos lábios, então foi
embora de volta para a Mansão com um sorriso satisfeito diante da visão dela parada ali na
sala de estar.
Depois de uma quantidade chocante de tempo passada encarando a lareira vazia, Hermione
desabou no sofá como um saco de batatas e ficou olhando para a própria barriga enquanto
tentava dar sentido a tudo. Ela tinha presumido que o flerte de Draco era simplesmente ele
sendo, bem, ele; mas, quando pensou melhor naquilo, percebeu que ele não só flertava com
ela, como passava praticamente todo o tempo com ela. Ela ficava na casa da cidade dele —
aquela mesma que ele tinha se oferecido para, droga, dar de presente para ela — pelo menos
quatro noites por semana para o jantar, e ele aparecia no apartamento dela para ver como ela
estava ou simplesmente passar um tempo com ela em pelo menos duas das outras três noites.
Mais estranho ainda, Hermione ficou chocada ao perceber que gostava daquilo. Atração era
uma coisa, mas ela tinha realmente estado em um relacionamento sério com Rony por dois
anos e não gostava tanto assim de tê-lo no seu espaço, insistindo que preferia ter tempo
sozinha para relaxar enquanto se trancava no quarto deles para terminar qualquer trabalho
que tivesse levado para casa. Ela nem deixava Harry invadir o tempo dela como, ao que tudo
indicava, incentivava que Draco fizesse. Havia um limite para o quanto dava para culpar
aquilo na construção de uma relação decente de coparentalidade, especialmente quando ela
levava em conta o fato de que ambos vinham aumentando gradualmente o número de toques
casuais nas últimas semanas e praticamente não conversavam sobre nada realmente relevante
para os bebês crescendo dentro dela.
Era desconcertante, para dizer o mínimo, e Hermione não estava nem um pouco mais perto
de entender tudo aquilo quando finalmente se arrastou para a cama depois de um jantar
protocolar de pizza requentada.
Do lado dele, Draco parecia mais do que satisfeito com aquela evolução. Hermione percebeu
que ele a fazia lembrar bastante do seu velho e familiar Bichento quando sentia que tinha
permissão para demonstrar afeto; arredio e espinhoso, até decidir que você era a pessoa dele.
Ele também era, aparentemente, fã de surpreendê-la com beijos; Hermione corou como uma
colegial quando saiu da lareira da Rede de Flu dele na terça-feira à noite para se juntar a ele
no jantar e foi arrebatada em um beijo que embaralhou um pouco o cérebro dela. Ela o tinha
repreendido por tê-la surpreendido, mas não o afastou quando ele ficou atrás dela, deixando
beijinhos que faziam cócegas em seu pescoço enquanto ela desempacotava a comida chinesa
para viagem que tinha levado. Era gostoso ser desejada com tanta intensidade, e ela retribuía
os beijos dele com um sorriso toda vez que terminava de desempacotar um pote.
Draco tinha ido ao apartamento dela naquela noite, levando seus rolinhos de bicho-papão e
uma farta caçarola para alimentá-la, parecendo incrivelmente satisfeito consigo mesmo
quando ela revirou os olhos diante da exigência de que o beijasse antes que ele lhe desse o
jantar, mas sem negá-lo. Quando terminaram, ele levou os pratos até a pia e os pôs para se
lavarem sozinhos antes de se virar para ela com um ar de indiferença ensaiada.
— Então — ele sorriu para ela com só a menor pontinha de nervosismo. — Se você estiver
livre amanhã, eu estava pensando que talvez pudéssemos sair num encontro de verdade.
Agora que nós dois estaríamos cientes desde o começo de que é um encontro, quero dizer.
— Ah, eu tinha me esquecido. — Draco fez uma careta. — Bem, talvez eu possa acompanhar
você e, se não terminar muito tarde, podemos ir jantar depois?
Hermione abaixou a cabeça para esconder um sorriso diante do tom esperançoso de Draco.
Havia algo muito doce no jeito como ele estava se esforçando tanto para não demonstrar um
pingo de nervosismo. A mudança rápida de rota, no entanto, tinha desmentido a indiferença
dele, deixando claro para Hermione que ele realmente queria muito levá-la a um encontro.
Ele adorava Quadribol, isso ela sabia muito bem, mas parecia que o jogo em si era bem
secundário no pedido. Aparentemente passar quase todas as noites da semana anterior juntos
simplesmente não era suficiente para ele, e Hermione se inclinava a concordar.
Ela abriu a boca para dizer a ele que talvez pudesse ir para a casa da cidade depois, porque as
Harpies tinham dado o camarote corporativo para a família Weasley para o jogo, assim todos
poderiam assistir à Ginny voar, mas então percebeu que tinha uma oportunidade de ouro na
proposta de Draco. Ir assistir a um jogo sozinha soava como pura tortura para Hermione, mas
ficar sentada em um camarote apertado com um Rony indubitavelmente emburrado, e
possivelmente bêbado, parecia tão ruim quanto ou pior.
Quando Ginny tinha perguntado se ela ficaria bem com Rony estando lá, Hermione dissera
que tudo bem porque, embora Ginny não estivesse falando com o irmão depois do que ele
fizera, ainda se sentia péssima com a ideia de Ginny não ter a família inteira assistindo ao seu
primeiro jogo como titular. Mas, quanto mais pensava naquilo, mais odiava a ideia. Harry e
os outros Weasley seriam um amortecedor, com certeza, mas, quanto mais avançada a
gravidez ficava, mais a ideia de ver Rony a perturbava.
Mas talvez, se Draco conseguisse arranjar ingressos na noite anterior a um jogo, Hermione
pudesse ir apoiar a amiga e evitar passar tempo nas proximidades do ex-namorado.
— Você conseguiria mesmo ingressos tão em cima da hora? — ela perguntou. — O jogo
pode estar esgotado.
— É claro que eu conseguiria. — Draco zombou, aproximando-se para dar um beijo em sua
testa. — Eu sou um Malfoy.
Ele era, de fato, um Malfoy. Draco entrou desfilando na sala de estar dela antes mesmo de ela
ter tido chance de acordar direito, brandindo dois ingressos em uma mão como troféus.
— Como se eu não fosse conseguir. — Draco bufou. — Ingressos para um jogo de Quadribol
são triviais.
— Ingressos para o jogo de Quadribol em que Ginny Weasley, a namorada de Harry Potter,
vai estrear? — Hermione inclinou a cabeça em descrença. — Com poucas horas antes de eles
estarem no ar?
— Tá bom, tudo bem. Eu devo ao Theo uma apresentação adequada de você. — Ele
resmungou, desviando o olhar enquanto a fachada de confiança sofria um golpe. — Se isso
estiver tudo bem para você.
— Está. — Hermione sorriu. Ela estava curiosa fazia semanas para conhecer o único amigo
que Draco parecia ter, então ficou satisfeita ao descobrir que Theo estava tão ansioso quanto
ela para se conhecerem.
Eles passaram a manhã se arrumando para sair para o jogo, Hermione preparando um café da
manhã simples de ovos mexidos e bacon enquanto Draco encontrava inúmeras desculpas para
tocá-la enquanto preparava o chá. Uma mão em seu quadril ao passar, um beijo em seu
cabelo quando se inclinava para ligar a chaleira trouxa, um carinho suave em sua barriga
enquanto ela colocava a comida nos pratos ao lado dele. Tudo aquilo era ternamente
doméstico e exatamente o que Hermione precisava antes de ver a amiga disparar em volta de
um estádio a trinta metros de altura.
Eventualmente, onze horas chegaram, e Hermione estava quase dançando na ponta dos pés ao
lado da lareira enquanto Draco sorria de lado para ela ao pegar o casaco e os ingressos. Ela
tinha combinado de encontrar Harry antes do jogo, o que agora era duplamente importante já
que não se juntaria a ele no camarote das Harpies; ela não queria que ele achasse que tinha
decidido não ir. Já era ruim o bastante não poder ir dar os votos finais de boa sorte para
Ginny no vestiário por causa de alguma tradição que as Harpies tinham sobre amigas verem a
jogadora antes da primeira partida, então queria ter certeza de que todos sabiam que ela ainda
estava ali para apoiar a Ginny, mesmo que não estivesse com eles no camarote.
— Harry! — ela chamou, acenando para ele e tentando se fazer ver acima das pessoas atrás
deles.
Houve um momento em que ela e Harry sorriram um para o outro, ambos incrivelmente
animados por estarem no primeiro jogo de Ginny. Hermione tinha arrastado Draco quase
perto o suficiente para se jogar em Harry num abraço esmagador, quando foi abruptamente
interrompida pela figura que saiu da entrada sombreada atrás de Harry.
Harry viu o sorriso sumir do rosto de Hermione e franziu o cenho em confusão, então se
virou um pouco para ver o que a tinha paralisado.
Ela não conseguiu decidir se largava a mão de Draco ou se agarrava nele e fugia.
— Eu te disse que voltaria. — O rosto de Harry estava a meio caminho de uma carranca
enquanto se virava para Rony, posicionando-se entre ele e os outros. — Você devia ter
esperado com a sua mãe.
— É, bem, eu não imaginava que ela ia trazer ele para o jogo da minha irmã. — O rosto de
Rony estava ficando manchado de vermelho, o que nunca era um bom sinal, e os ombros dele
estavam se encolhendo em direção às orelhas.
— E você decidiu trazer a Doninha pra ele? — Rony zombou. — Por que diabos a gente
deveria ter que acolher um Comensal da Morte na coisa da minha família só porque você
decidiu foder com ele depois de me jogar fora?
A intervenção de Harry não fez nada além de inflamar Rony, e ele mal parou para olhar para
Harry antes de rosnar para Hermione e Draco atrás dele.
— Aposto que você tá radiante, Malfoy. — Ele cuspiu. — Não conseguiu usar o seu dinheiro
pra comprar o caminho de volta pra sociedade, então vai atrás da Hermione quando ela tá no
chão? Não tô nem um pouco surpreso, você sempre foi uma maldita cobra.
— Eu não… — Draco começou em brasa, apertando a mão de Hermione numa pressão quase
esmagadora. Então fechou a boca com um estalo e rolou os ombros, se acalmando
visivelmente. — Deixa pra lá, Weasley. Nem Hermione, nem a sua irmã, eu tenho certeza,
precisam de uma cena aqui.
— Você tem uma cara de pau. — Rony zombou, mas os olhos dele tinham caído para onde os
dedos deles estavam entrelaçados, e a fúria dele se tornou palpável. — Que merda é essa?
Você tá realmente vendo isso, Harry?
Harry olhou por cima do ombro, notando as mãos deles, então se virou de volta para Rony
com uma expressão de determinação.
— Tô. — Ele apontou por cima do ombro de Rony na direção da entrada por onde o ruivo
tinha vindo. — Agora volta lá pra cima antes de estragar o grande dia da Ginny.
Previsivelmente, Rony não ouviu, e a varinha dele estava na mão em questão de segundos,
apontada diretamente para o peito de Draco. Os momentos seguintes passaram diante de
Hermione como quadros congelados; primeiro Draco a empurrando para trás de si, para fora
da linha de fogo, a ponta da varinha de Rony começando a se mover enquanto ele se
preparava para lançar o feitiço, depois Harry segurando a varinha de Rony com a sua própria
apontada baixa, mas pronta caso Rony tentasse mais alguma coisa.
— Harry? Que diabos você tá fazendo? — Rony protestou, claramente não esperando que o
ex-amigo tomasse uma posição contra ele tão imediatamente. — Me devolve a minha
varinha!
— Não. — Harry manteve uma postura perfeitamente treinada como Auror, guardando a
varinha de Rony no bolso do casaco com a sua própria pairando rente à cintura. — Já chega,
Rony, você não pode ameaçar a Hermione só porque ela trouxe o Malfoy. Você não pode
fazer mais nada com a Hermione, não enquanto eu estiver aqui.
Olhando para a expressão atônita de Rony, ficou muito claro para Hermione que ele esperava
que a fúria de Harry por causa do Razorano eventualmente passasse, que imaginava que, em
algum momento, Harry simplesmente superaria aquilo e eles voltariam a ser melhores
amigos. Hermione não conseguia entender como o ex podia ter pensado isso, não quando a
raiva de Harry com a situação muitas vezes parecia mais profunda do que a dela própria. Só
provava que Rony simplesmente não era quem ela achava que fosse, não se ele ainda achava
que as próprias ações eram algo que pudesse ser varrido para debaixo do tapete depois de
alguns meses de amuo.
— Volta lá pra cima, Rony. — Harry avisou. — Ou eu conto tudo pra Molly. Eu devolvo a
sua varinha quando achar que você esfriou a cabeça o suficiente pra não causar problemas.
Esse é o dia da Ginny, e eu não vou deixar você estragar.
— Meu Deus. — Hermione encontrou a própria voz no exato momento em que os joelhos
amoleceram, e de repente ela se viu sustentada tanto por Draco quanto por Harry, enquanto
eles a conduziam a um recanto escondido com um pequeno banco. — Sinto muito, Harry.
— Nem vem. — Harry disse áspero, lançando um rápido Muffliato para impedir qualquer
risco adicional de serem ouvidos.
Felizmente Hermione não tinha visto ninguém perto o suficiente para escutar a explosão de
Rony, mas isso não garantia que a roupa suja dela não fosse ser espalhada pelo Profeta de
novo.
— Você tá bem? — Draco se ajoelhou à frente dela e a examinou, segurando o rosto dela
com carinho.
— Tô. — Hermione sorriu fracamente, tentando tranquilizá-los embora soubesse que tinha
lágrimas nos olhos.
Ela tinha simplesmente ficado chocada e sobrecarregada, e tudo acontecera rápido demais
para que ela mesma tirasse a varinha e calasse Rony. Quando ele começou a explodir, já era
tarde demais, percebia agora, e desejou ter tido presença de espírito para pará-lo antes que
quase arruinasse o primeiro jogo de Ginny com o ciúme mesquinho dele.
Da próxima vez, prometeu a si mesma, ela não esperaria. Da próxima vez que Ronald
Weasley achasse que tinha algum direito de opinar na vida dela, ela ia almadiçoar primeiro e
acalmar as coisas depois.
— Vai ficar tudo bem, Hermione. — Harry se sentou ao lado dela no banco e passou um
braço pelos ombros dela. — Eu e o George vamos servir de amortecedor, garantir que ele não
chegue nem perto de vocês dois.
— Isso não vai ser necessário, Potter. — Draco cortou, seco. — Nós temos nossos próprios
ingressos.
— Ah, você não precisa… — Hermione mordeu o lábio por soar tão pequena.
— Que nada, vou precisar ter certeza de que você tá prestando atenção. — Ele brincou,
arrancando um muxoxo de Draco. — Mas tenho certeza de que o Malfoy vai cuidar muito
bem de você.
— Obrigadíssimo, Potter.
— De nada. — Harry sorriu para o outro homem, então se virou de volta para Hermione. —
Você vai ficar bem? Eu posso explicar tudo pra Ginny mais tarde se você precisar ir pra casa.
— Eu não vou embora só por causa de uma briguinha, Harry! — Hermione protestou. — Se
você puder explicar tudo para os Weasley por mim, então eu te vejo nos intervalos.
— Certo. — Com um último aperto, Harry se levantou e a ajudou a ficar de pé. — Vamos
entrar antes que chegue a multidão, então.
Os dois homens flanquearam Hermione por toda a subida das escadas em espiral até o ponto
em que precisaram se separar, nenhum dos dois parecendo se importar com o fato de estarem
bloqueando a passagem de outras pessoas. Hermione ficou contente por ainda terem
conseguido chegar antes da multidão, porque tinha quase certeza de que não ia conseguir
convencer nenhum dos dois a sair da frente se alguém precisasse usar as escadas. Na
bifurcação de seus caminhos, Harry parou e fez uma careta antes de estender a mão para
Draco apertar.
Draco não perguntou pelo quê, apenas apertou a mão de Harry com um aceno seco.
Entendimento alcançado, os dois homens largaram a mão um do outro como se tivessem se
queimado, antes de Harry puxar Hermione para um abraço apertado.
— Nós — ele murmurou no ouvido dela. — Vamos conversar sobre isso depois. E nada de
feitiços nas minhas lentes dessa vez.
— Tá bom. — Hermione suspirou e deixou Harry ir com um tapinha no ombro dele. — Sem
feitiços de rastreamento.
Harry os deixou para ir se juntar à família Weasley no camarote das Harpies com um aceno e
um sorriso que começava a refletir a empolgação do jogo que se aproximava, permitindo que
Hermione soltasse um suspiro de alívio por sua presença não ter arruinado as coisas. Ela
deixou Draco ajudá-la a chegar ao lugar deles, um assento luxuoso logo abaixo dos camarotes
privados, e se sentou aliviada por ninguém parecer lhes dar atenção ainda.
O bom humor de Hermione voltou por completo quando o jogo começou, com Ginny sendo
recebida com aplausos estrondosos ao voar para o campo com o cabelo ruivo esvoaçando
atrás dela como um estandarte. A amiga sorria radiante e acenava, parecendo ter nascido em
uma vassoura, nascida para a adulação da multidão. As companheiras de equipe deram a ela a
primeira posse da Goles, e o coração de Hermione subiu junto com Ginny quando ela
disparou para frente mais rápido do que o outro time conseguia acompanhar, marcando um
gol espetacular quase completamente sem ajuda em menos de um minuto depois do apito
inicial.
O jogo foi disputado, empolgante do começo ao fim de um jeito que Hermione nunca tinha
experimentado. Ela arfava a cada escorregão e balaço, vibrava a cada jogada que as Harpies
executavam. Gritava de raiva a cada gol do time adversário, apertava o braço de Draco toda
vez que Ginny marcava um gol, e não poderia se importar menos se fossem vistos.
Ela sempre tinha assistido Harry, Rony e Ginny jogarem na escola; ia a todos os jogos e
torcia por eles com um livro no colo, só por precaução caso se entediasse, o que praticamente
sempre acontecia. Mas não precisava de livro nenhum para aquele jogo, estava tão cativada e
empolgada que mal percebeu quando Draco desapareceu e voltou com lanches do estádio
porque o jogo tinha avançado até o horário do jantar. O placar estava tão apertado, 270–230
para as Harpies, e Hermione estava tão envolvida assistindo que Draco quase teve que
alimentá-la com as batatas fritas porque ela vivia esquecendo que estava com comida na mão.
A hora seguinte foi um borrão de encontrar Ginny com a família, abraçar a amiga suada com
força e gritar sobre o quão maravilhosa ela tinha sido. Mais ninguém passou pela cabeça de
Hermione enquanto ela tagarelava que nunca tinha aproveitado tanto um jogo, rindo com
Ginny em um êxtase tonto até ser puxada para longe porque Harry e Draco acharam que ela
parecia prestes a desabar, apesar da euforia.
Ela poderia ter voado sem vassoura, poderia ter lançado um lumos mais brilhante que o sol.
Draco ria com ela, divertido com a empolgação sem sentido das palavras dela enquanto a
guiava até a lareira. Hermione entrou no apartamento leve, radiante e com um sorriso tão
aberto que doía.
Quando se virou para se lançar em cima de Draco, que a tinha acompanhado até o
apartamento, o bom humor dela freou com um guincho e ela tropeçou nos próprios pés.
Na mesinha que mantinha perto de uma janela aberta para correio de corujas, o Profeta
Vespertino jazia como uma bomba-relógio, a matéria de capa claramente visível acima da
dobra.
Duas fotos em perfeita nitidez estavam logo abaixo da manchete; à esquerda, Rony gritando
enquanto Harry e Draco abrigavam uma Hermione de expressão confusa, felizmente sem
varinhas visíveis; à direita, Harry e Draco apertando as mãos enquanto Hermione estava ao
lado deles com um pequeno sorriso diante do esforço de maturidade.
A manchete deixou Hermione enjoada, deu vontade de correr imediatamente até Harry e
pedir desculpas por arrastá-lo para os holofotes de novo. Ou talvez simplesmente correr até a
redação do Profeta e lembrar a Skeeter por que era uma ideia tão, tão péssima cruzar o
caminho dela.
— Eu sinto muito mesmo, Harry. — Hermione pediu desculpas, pela possivelmente vigésima
vez desde que Harry entrara em seu escritório trazendo chá e uma sacola de croissants. — Eu
odeio que a Skeeter tenha te arrastado para a minha bagunça.
O artigo da noite do jogo de Ginny felizmente tinha sido leve o bastante nos detalhes para
deixar claro que a briga deles não tinha sido realmente ouvida, nem o pequeno detalhe de que
varinhas tinham sido sacadas chegara a ser mencionado, mas havia o suficiente para que
Hermione estivesse quase cega de fúria quando terminou de ler. Havia muitas menções a
Hermione e Draco parecendo “aconchegados”, algumas a Harry parecendo satisfeito o
bastante na presença deles, e uma quantidade repugnante de especulação sobre por que
exatamente Rony estava sendo colocado do lado “errado” da situação.
Tinha levado uma boa hora para Draco impedir Hermione de rastrear o endereço residencial
de Skeeter e enfiá-la de volta em outro vidro. Ela tinha até encontrado um embaixo da pia da
cozinha que Draco precisou confiscar antes que ela se metesse em encrenca.
Então, no jornal daquela manhã, depois de uma breve pausa no domingo para vangloriar
triunfantemente a estreia espetacular de Ginny, voltava a fofoca sórdida sobre a breve briga
que Rony começara do lado de fora do estádio; incluindo fotos de longa distância mostrando
Hermione agarrada em Draco e sendo alimentada com batatas fritas enquanto torcia por
Ginny, em contraste com uma foto tirada de Rony tentando falar com Harry no camarote das
Harpies e recebendo nada além de uma carranca e as costas viradas. Hermione tinha fervido a
manhã inteira, furiosa por Harry e triste por ser a confusão dela que o tinha colocado de volta
nas páginas do jornal.
— Tá tudo bem de verdade, Hermione. — Harry disse a ela, certamente pela vigésima vez
desde que trouxera o lanchinho de meio da manhã para compensar estar de ressaca demais
para conversar no dia anterior. — Eu não tô bravo por causa disso.
— Mas você odeia estar nos jornais. — Hermione torceu as mãos, lançando um olhar furioso
para o jornal da manhã, amassado na lixeira. — Não é justo que eles estejam basicamente
declarando isso uma guerra com “lados”. Eles não deviam se importar tanto assim com a
minha vida em primeiro lugar, muito menos decidir a sua posição por você.
Harry enfiou as mãos por baixo dos óculos com um gemido, então se inclinou para a frente e
apontou para Hermione com seriedade. Ele parecia tão atipicamente severo que Hermione foi
impedida de entrar em espiral, de novo, e o próximo pedido de desculpas morreu em sua
língua.
— Bom, talvez esteja na hora de eu escolher um lado publicamente. — Harry estalou o dedo
na direção do jornal. — Eu sei que você não quer que todo mundo saiba o que ele fez, e eu
respeito isso por sua causa, mas não vou fazer média com o Rony só pra manter meu nome
fora dos jornais. A única coisa impedindo a Skeeter de declarar vale-tudo contra você é o
Dennis conseguir te colocar “oficialmente” em matéria, e quem sabe quanto tempo isso dura
depois que os chefões do jornal decidirem que a marca de lixo dela é mais lucrativa do que
conseguir de vez em quando uma ou duas aspas de você?
— Mas…
— Mas nada, Hermione. — Harry pegou o café para dar um gole profundo. — Você vale
mais pra mim do que não ver meu nome impresso, e eles vão pensar duas vezes antes de te
arrastar pela lama se eu estiver firmemente apoiando o seu lado nisso.
— Ainda assim… Eu sei que o Rony significava muito pra você, ele foi seu primeiro amigo
de verdade. — Hermione engoliu a sensação ruim de estar até tangencialmente defendendo
Ronald Weasley. — Eu odeio que isso tenha destruído a sua amizade com ele.
— Tá brincando comigo? — Os olhos verdes de Harry ficaram duros como pedra e ele fez
uma careta. — Você sabe o que eu teria feito se tivesse descoberto o que ele fez por ter te
deixado grávida?
— Não? — Hermione piscou, sentindo a pura, revolta raiva que emanava do melhor amigo.
— Eu teria matado ele, Hermione, ou quase isso. — Harry falou com absoluta seriedade, e
Hermione não tinha certeza de que fosse exagero. — Eu teria caçado ele e garantido que ele
soubesse exatamente onde eu fico quando se trata de agressão sexual.
— Não foi… — Hermione engasgou. Não era que achasse as ações de Rony desculpáveis de
qualquer forma, mas agressão sexual? Certamente ela não tinha sido…? Ela não era…? Ele
não tinha…?
Tinha?
Se tivesse sido qualquer um de seus amigos contando que isso tinha acontecido com eles, ela
imediatamente teria o autor do ato sob a mira da varinha. Por que ela não pensou nisso?
Como tinha conseguido tocar a vida por meses sem pensar nisso?
— Foi, Hermione. — Harry se inclinou para a frente e estendeu a mão por cima da mesa para
apertar a dela. — Eu não vou te dizer como você tem que se sentir sobre isso, mas se o Rony
tivesse conseguido levar o plano dele adiante, então, pra mim, teria sido, sim. Eu não dou a
mínima pro que as nossas leis idiotas e ultrapassadas dizem, teria sido, sim. — Ele apertou
com força. — Na verdade, já é.
— Eu não… Com certeza… — Hermione sentia as lágrimas, quentes e ardendo nos olhos.
Fungou e tentou impedir que escorressem, mas era inútil e logo estava chorando no peito de
Harry.
— Por que ele fez isso? — Ela soluçou, todas as negativas voluntariosas desmoronando
como areia até sobrar apenas a verdade crua, em carne viva. — Por que ele faria isso comigo,
Harry? Por que eu nunca fui suficiente pra ele? Por que ele não podia esperar até eu ter
vivido pelo menos alguns dos meus sonhos antes de tentar me transformar na Molly?
— Eu não sei, realmente não sei. — Harry transfigurou um pedaço de papel em um lenço de
algodão macio e o enfiou na mão dela. — Mas ele não merece que você fique se preocupando
com ele.
— Você se preocupa com todo mundo, e tudo bem. — Harry a assegurou. — Mas o que o
Rony fez com você merece consequências, e se a única que eu posso aplicar é perder a minha
amizade com ele publicamente, então é isso que eu vou fazer.
Novos soluços sacudiram Hermione diante da profundidade da convicção dele. Ela não tinha
querido admitir, tinha se desviado bruscamente de qualquer pensamento que chegasse perto
daquela direção, mas Harry tinha razão e o que Rony tentara fazer era agressão.
Especialmente quando ela pensava em quanto tempo fazia desde que os dois tinham feito
algo além de dormir rígidos em lados opostos da cama de casal, nenhum dos dois chegando
sequer a iniciar um beijo direito havia meses antes de Rony trocar as poções dela. Como o
Rony planejava fazer o plano dele se concretizar quando Hermione tinha menos que zero
interesse em dormir com ele? Ela mal vinha falando com ele depois do discursinho dele na
festa de aniversário dela, quanto mais querer fazer qualquer coisa a mais. Ele simplesmente
não tinha pensado nisso, ou havia outra camada na desonestidade dele que ela tinha deixado
passar?
Ela chorou por si mesma, pelo que tinha acontecido com ela nas mãos de alguém em quem
teria confiado implicitamente mesmo quando havia problemas claros no relacionamento, e
finalmente se permitiu reconhecer por que ficava tão inquieta perto de Rony agora. Ela não
queria vê-lo por causa da profundidade da traição e de quão horrível a violação realmente era.
Ela tinha conseguido esconder isso de si mesma, usando suas prodigiosas habilidades de
autoengano, mas Harry puxara tudo para a luz e a fizera encarar o fato de que o homem com
quem teria se casado, se ele apenas tivesse estado mais disposto a ceder e a vê-la como ela
era, não era nem de longe quem ela pensou que fosse. Em que momento ele se tornara o tipo
de pessoa que faria algo como aprisionar uma mulher em uma gravidez indesejada, Hermione
não saberia dizer, mas o Rony Weasley por quem ela se apaixonara com certeza não teria
sequer cogitado algo tão hediondo.
— Não tem pelo quê agradecer, Hermione. — Harry a segurou firme, braços fortes
sustentando-a mesmo que os joelhos dele devessem estar gritando depois de tanto tempo
ajoelhado diante da cadeira do escritório dela. — Você é minha irmã em tudo menos no
sangue, então qualquer um que te machuca responde a mim. Eu passei tempo demais
tentando manter a paz quando devia simplesmente ter mandado o Rony parar com as
idiotices, e só agora tô percebendo o quanto isso te afetou.
— Ah, Harry… — Hermione o abraçou de volta com a mesma força. — Tá tudo bem, eu sei
que você só tava cansado de brigar e queria paz.
— Talvez, talvez não. — Harry se recostou um pouco e ela conseguiu ver que os olhos dele
estavam um pouco embaçados atrás dos óculos. — Eu fui direto pra formação de Auror, isso
não é exatamente pacífico.
— Acho que não. — Hermione concordou, duvidosa. — Mas paz na sua vida pessoal, depois
de tudo que você passou, é o mínimo que você merece. Você pode escolher caçar Bruxos das
Trevas e vários tipos de calhordas, mas isso não significa que não deveria poder voltar pra
casa e desfrutar de uma vida tranquila.
— Não às suas custas. Talvez, se eu tivesse cortado o Rony assim que ele teve aquele
chilique sobre você voltar pra pegar seus NIEMs, ele nem teria pensado em trocar a sua
poção. Talvez, se eu tivesse dado um basta antes, nada disso teria acontecido.
Hermione afastou alguns fios do cabelo rebelde do amigo do rosto dele. O coração dela
sempre doía por Harry quando ele assumia o peso do mundo. Era simplesmente injusto que
ele tivesse passado a infância sendo convencido de que era responsável por todas as queixas
mesquinhas dos Dursley ou, literalmente, sendo o centro de uma guerra que tentava matá-lo
pelo menos uma vez por ano. Ela nunca poderia culpá-lo por apenas querer que as coisas
fossem suaves e sem conflito depois de tudo aquilo, e sabia que ele não era o único a deixar
Rony sair impune de muito mais do que deveria.
— Obrigada. — Ela lhe deu um sorriso lacrimoso. — Por estar aqui por mim e por me fazer
encarar… tudo.
— Sempre, Hermione. — Harry a apertou com força e enterrou o rosto nos cabelos dela. —
Eu te amo, sabia?
— Também te amo. — Ela murmurou de volta, o calor se espalhando pelo corpo com a
simplicidade daquela afirmação.
Eles ficaram ali na convivência pacífica que muitas vezes vinha depois de uma reviravolta
emocional. Harry acolhia Hermione com cuidado, e Hermione apoiava a testa no ombro dele.
Harry cheirava a algodão quente e a um desodorante trouxa horrível, o mesmo de sempre há
uma década, e a familiaridade disso seria para sempre um dos cheiros que Hermione
associaria com segurança. Ele era ossudo, apesar dos músculos secos do Quadribol e do
trabalho como Auror, e só dava abraços a poucos de confiança. Hermione suspirou, contente,
e apreciou o simples fato de que ele estava ali por ela.
— Ah. — Harry quebrou o momento, soltando-a para poder se levantar e esticar as pernas
depois de tanto tempo agachado na mesma posição. — Falando em amor…
Hermione sentiu a breve esperança de que Harry esquecesse a mais recente promessa de
conversar morrer uma morte triste. Ela estava um pouco grata por não ser como da última
vez, em que tinha estado deliberadamente cega à profundidade do que estava acontecendo
entre ela e Draco, sem falar no fato de estar absolutamente apavorada com os próprios
sentimentos nascendo pelo bruxo loiro que tinha gerado seus bebês. Mas isso não significava
que Hermione algum dia ficaria confortável falando sobre a própria vida amorosa.
Ela supôs que os dois precisavam da distração, então permitiu, nem que fosse apenas para
não ter que pensar mais sobre o tópico anterior da conversa.
— Certo, manda ver com o interrogatório, Auror Potter. — Ela cedeu, com um aceno cansado
da mão.
— Não sei, eu preferia é me gabar de estar certo. — Ele se recostou casualmente no canto da
mesa dela com um sorriso maroto.
— Contanto que você esteja. — Harry riu baixinho. — Ele tá te tratando bem?
— Bom, não, mas você não pode me culpar por ser um pouco protetor. — Harry pegou um
lenço de papel e esfregou com força na bochecha dela até ela afastar a mão dele. — Faz parte
do meu trabalho, e ele tem um longo histórico de merecer uns bons socos.
— Draco está longe de ser uma ameaça em nível Auror hoje em dia. — Hermione fungou,
ofendida. — Ele tem sido muito gentil.
— Eu estava… Bem, não foi meu momento mais brilhante. — Hermione sentiu as bochechas
esquentarem em um rubor. — Eu posso ter levado ele sem querer a um encontro no cinema.
Harry explodiu em gargalhadas de pura alegria.
— Só você mesmo, Hermione. — Ele abriu um sorriso e soltou mais uma risada. — Um
encontro acidental, é? Como ele reagiu? Aposto que ficou radiante.
— Ficou, eu acho. — Hermione admitiu. — Ele é que apontou que trouxas muitas vezes vão
ao cinema em encontros, pelo menos. Eu estava completamente mortificada e quase saí
correndo quando percebi o que tinha feito.
— Porque eu não tinha percebido que era um encontro até ele dizer. — Hermione murmurou,
estudando uma mancha no tapete como se fosse a coisa mais interessante do mundo. — Eu
não gostei de ter conseguido deixar passar isso.
— Sério? — Harry soava divertido e exasperado ao mesmo tempo. — Você é ótima nessa
coisa de evitar o assunto, Hermione, mas isso é impressionante até pra você.
— Eu sei, eu sei. — Ela gemeu. — Eu achei que ele estivesse apontando aquilo para me
dispensar com delicadeza, mas aí ele disse que gostaria muito que fosse um encontro.
— Você o quê? — Os olhos de Harry quase saltaram da cara. — Me diz que o sujeito
finalmente confessou que gosta de você e você desabou chorando em cima dele!
— Tudo me faz chorar agora! — Hermione se defendeu, com um beiço petulante. — Não
posso ser culpada.
— Caramba. — Harry deu uma risadinha. — Nunca pensei que um dia teria pena do Malfoy.
Eu sei como é beijar uma bruxa chorando e não tem muita coisa a recomendar. Pelo menos
foi um chorinho bonitinho? Ou tinha meleca envolvida?
— Ah, cala a boca. — Hermione resmungou, cutucando o pé dele com a ponta do sapato
sensato. — A gente resolveu tudo no fim das contas.
— Então ele é seu namorado agora? — Harry arrastou o título como se deixasse um gosto
ruim na boca, ganhando um olhar de repreensão.
— Eu não tenho certeza. — Hermione franziu os lábios, incerta. — A gente ainda não
conversou exatamente sobre essa parte.
— Hermione!
— Tá, Harry. Tenho certeza de que a ideia de te irritar vai fazer ele se comportar muito bem.
— Hermione apertou os lábios para não sorrir diante do jeito como Harry simplesmente
assumia que seria ela a se vingar se Draco a magoasse. Isso acalmava o orgulho ferido dela,
porque estava bem consciente de que não tivera o melhor histórico recente de se defender.
Um longo momento de silêncio se estendeu, Harry sorrindo para ela e Hermione tentando
descobrir sobre o que mais ele poderia estar prestes a zombar.
— Então… — O sorriso de Harry era muito parecido com o que George Weasley usava antes
de enfiar alguma travessura na sua comida. — Isso significa que você e o Malfoy estão, ah,
você sabe? Se conhecendo muito bem? — Ele levantou as sobrancelhas de forma sugestiva,
mas Hermione percebeu o encolher-se interno que mostrava que ele queria tanto provocar
quanto fugir antes de ouvir qualquer detalhe.
Chamando o blefe dele, Hermione apenas apontou para a curva da própria barriga e sorriu de
lado quando Harry, de repente, pareceu querer vomitar.
Chapter 23: Semana Vinte e Cinco
— Você vai rasgar isso se continuar puxando desse jeito. — Draco riu, estendendo a mão
para apertar a dela antes de balançar a varinha para mandar o tagine de cordeiro que tinha
feito voando para fora do forno para descansar um pouco.
— Não vou. — Hermione fez um biquinho bem infantil, imediatamente começando a mexer
nas três configurações de lugar à mesa, em vez disso. — Eu só estava me certificando de que
estava certinho.
— Você está ótima. — Draco garantiu, virando-se para verificar o cuscuz. — Linda como um
dia de primavera.
— Mais para uma baleia — ela zombou, apontando para a barriga, que parecia muito mais
proeminente do que o normal devido ao corte do novo vestido para acomodá-la. — Ele vai
achar que estou balançando isso por aí como algum tipo de justificativa para a minha
presença.
Draco lhe lançou um olhar excepcionalmente paciente por cima do ombro e então se virou de
frente para ela com um suspiro. O gesto fez o estômago de Hermione revirar de culpa. Ela
sabia que andava mais do que um pouco irritadiça ultimamente; tentar finalmente assimilar o
que Rony tinha feito, em vez de enterrar tudo sob camadas de negação, estava cobrando o seu
preço. A tentação de voltar a ignorar tudo tinha sido grande, mas agora que aquilo tinha sido
verbalizado, ela descobriu que simplesmente não conseguia mais.
Depois da conversa com Harry, ela tinha ido para casa do trabalho, para o próprio
apartamento pela primeira vez em muito tempo, e se sentara no sofá como uma estátua. Ela
ficou olhando, sem enxergar, o relógio acima da lareira dar voltas, tentando conciliar tudo,
até perceber que eram quase duas da manhã e que não tinha se mexido desde que chegara em
casa, nem mesmo para comer ou ir ao banheiro. A constatação a impulsionara à ação e,
embora pretendesse entrar no quarto e ir dormir, acabou atravessando a lareira da Rede de Flu
direto para a casa da cidade de Draco.
Draco não estava lá, passando a noite no quarto dele na Mansão, como geralmente fazia a não
ser que tivesse um motivo para estar na casa da cidade. Em pé na sala silenciosa, Hermione
percebeu o quão tola estava sendo e se virou para voltar para a própria cama — apenas para
ser interrompida quando Draco aparatou na frente dela porque sentira as proteções admitindo
sua entrada. O pânico dele diante de uma visita tão fora de caráter no meio da noite
desencadeara os hormônios sempre presentes e o estado emocional exaltado dela, e Hermione
desabou em cima dele com um uivo. Ele estava no meio do processo de arrastá-la pela lareira
para St Mungos quando ela finalmente conseguiu guinchar que nada estava fisicamente
errado com ela ou com os bebês, e que ela só precisava de um pouco de conforto.
Tinha sido uma noite longa depois disso. Nos intervalos entre os soluços, Hermione explicou
que tinha sido obrigada a encarar o impacto real das ações de Rony e que simplesmente não
sabia como lidar com tudo aquilo. Draco fora compreensivo, embora um tanto ressentido
com Harry por tê-la deixado naquele estado, e a acolhera com delicadeza, dando-lhe um
lanchinho noturno quando percebeu que ela não comia desde o almoço. Mesmo com todo o
histórico de antagonismo entre eles, Hermione ficou um pouco chocada ao descobrir que
Draco tinha opiniões sobre o comportamento de Rony quase tão fortes quanto as de Harry.
Na verdade, a única diferença real era que Draco não tinha sido pego desprevenido por aquilo
como Hermione e Harry; as opiniões suavizadas dele sobre os dois aparentemente não se
estendiam a Rony nem um pouco.
Ela acabou passando a noite na casa da cidade depois que chorou até se esgotar, Draco
levando-a para o próprio quarto e deitando-a com um casto beijo na testa. Ela pediu que ele
ficasse com ela naquela noite quando ele se virou para ir dormir no sofá, e ele mal hesitou
antes de deslizar para debaixo dos lençóis com ela, um braço sob a cabeça dela e o outro
envolvendo a barriga. O sono naquela noite foi entrecortado e curto demais, mas Hermione
valorizou a sensação mesmo assim.
— Ele também quer te conhecer, Hermione. — Draco lembrou. — Ele tem sido
irritantemente insistente a respeito.
— Não está. — Draco veio até ela e a puxou para um abraço. — Você está estressada,
grávida e lidando com muito mais do que jamais deveria ter que lidar.
— Tirando a parte da gravidez, não sei se isso é tão diferente do resto da minha vida desde
que eu fiz onze anos. — Ela brincou, sem muita força, deixando os próprios braços
repousarem acima dos quadris dele.
— Concordo. — Draco disse, solene. — Mas você não me deve desculpas por isso. Eu sei
que você se sente desequilibrada, Hermione, e eu vou te avisar se achar que está descontando
em mim de forma injusta. E, quando você estiver pronta para falar sobre o que quer que
esteja se passando nessa sua cabeça, eu vou estar bem aqui; a qualquer hora e independente
do que você tenha usado para se amarrar toda por dentro.
— Vai mesmo?
— Que tal assim? — O riso de Draco vibrou pelo peito dele sob a bochecha dela. — Eu te
entrego um dos meus livros de autoajuda se achar que você precisa de um lembrete para não
descontar nos outros. Eu tenho uma enorme coleção lá na Mansão, então tenho certeza de que
consigo achar o certo pra você.
— Um guia para sabe-tudo não enlouquecer o namorado? — Hermione riu, deixando que a
tensão derretesse diante da disposição dele de fazer piada com o humor dela sem ser
maldoso.
Ela percebeu o erro tarde demais, quando Draco enrijeceu como se tivesse levado um choque.
Ela levantou o olhar, hesitante, e o encontrou piscando para ela, e corou violentamente ao ver
o espanto em seu rosto.
— Desculpa! — Ela guinchou, tentando escapar do abraço. — Eu sei que a gente não
conversou sobre isso…
— Não. — Draco impediu que ela recuasse com um aperto firme nos ombros e um sorriso
mal contido. — Não conversamos. Eu não sou contra, porém, Hermione; só achei que teria
que esperar até os gêmeos estarem em Hogwarts antes de você admitir.
— Ah, dá um tempo. — Ela ralhou. — A gente está junto há menos de um mês! Isso mal é
tempo suficiente pra você ficar reclamando tão dramaticamente que eu estou arrastando os
pés com rótulos.
— Hmm. — Draco depositou um beijo em seu cabelo e a puxou de volta para o abraço. —
Mas eu gosto bastante de poder te chamar de minha namorada agora.
— Diz quem? — Hermione cutucou o lado dele. — Eu nunca disse que você podia me
chamar assim.
— Digo eu. — Draco riu, então a beijou de verdade. — Para a minha adorável namorada.
Uma ideia ocorreu a Hermione então, e ela ficou rígida como se tivesse visto um basilisco.
Draco se sobressaltou, mas recuperou-se rápido e alisou as mãos pelas costas dela.
— Então é isso que acontece. — Murmurou. — Mas acho que você vai notar que a gente se
dá bem o bastante para pelo menos conversar se as coisas começarem a ficar difíceis.
— Mas e os gêmeos? — Hermione recuou um pouco e ergueu o olhar até encontrar o dele. —
E se a gente terminar e eles ficarem presos no meio? E se isso arruinar todas as nossas
tentativas de coparentalidade?
— Você está catastrofizando. — Draco disse com gentileza, embora houvesse uma tensão em
torno dos olhos que denunciava preocupação. — A gente vem se dando bem há meses,
Hermione, e eu não sei você, mas eu tenho gostado o suficiente da sua companhia pra estar
disposto a levar isso bem a sério.
— Temos. — Ele concordou. — E eu, por um, estou ainda mais determinado a fazer isso dar
certo por causa deles. Eu sei que você se preocupa, Hermione, mas prometo que quero muito
estar com você de verdade, e que não estou entrando nisso de ânimo leve. — Ele pôs um
dedo comprido sob o queixo dela para mantê-la olhando para ele. — Eu planejei que as
coisas fossem assim? Nem em um milhão de anos. Eu achava que o melhor que
conseguiríamos seria uma relação cordial, sem nada além dos gêmeos em comum, mas
quanto mais tempo a gente passava junto, mais ganancioso eu ficava. Você não reparou na
quantidade de desculpas que eu inventava para jantar com você praticamente todas as noites?
Porque algumas eram bem esfarrapadas.
— Não muito. — Hermione mordeu o lábio. — Eu também gostava de passar tempo com
você, então não reparei muito nesse tipo de coisa. Mas tudo isso é… assustador, na falta de
palavra melhor.
— Eu entendo, entendo mesmo. — Draco soltou o queixo dela para envolvê-la com os
braços. — E, se você decidir que não consegue fazer isso, eu vou respeitar seus limites. Mas,
por favor, leve em conta que eu quero fazer isso dar certo, e vou fazer o que for preciso para
te convencer disso.
— Pelos gêmeos? — Hermione teve que engolir o embrulho na garganta com a possibilidade
de que a determinação dele estivesse ligada apenas às crianças que eles tinham criado tão
acidentalmente. Era um medo do qual ela simplesmente não conseguia se livrar.
— Em parte, eu acho. — Ele disse, pensativo. — Mas, como eles ainda nem estão realmente
por aqui, neste momento eu estou mais interessado em fazer isso por nós. A ideia de ter uma
família mais tradicional para meus filhos tem seu apelo, não vou negar, mas a ideia de ter isso
com você é o que realmente me deixa agindo como um adolescente apaixonado. Às vezes eu
penso nisso, em como o futuro poderia ser, e você está em absolutamente qualquer cenário
que eu imagino agora.
Hermione pensou naquele lampejo de devaneio que tivera enquanto comprava o presente de
Natal de Draco. A sensação de calor e contentamento ao imaginar duas crianças mal
definidas tagarelando enquanto Draco ria e punha a mesa. Era de algum modo animador
saber que Draco tinha fantasias semelhantes envolvendo ela.
— Nós dois estávamos bem dispostos a trabalhar juntos lá atrás, antes de nos conhecermos
melhor, mesmo com todo o histórico entre nós. — Draco a acalmou. — A gente pode fazer
isso de novo, se chegar a esse ponto.
— Certo. — Hermione disse baixinho, finalmente se permitindo relaxar nos braços dele e
agradecendo a tudo o que era sagrado por não ter chorado dessa vez. — A gente pode
continuar.
— Excelente. — Draco pousou outro beijo no topo da cabeça dela. — Você ainda quer
manter isso só entre nós por enquanto ou quer contar pras pessoas?
— Talvez manter em segredo por enquanto? O Harry sabe, até porque me fez admitir depois
do jogo da Ginny. E o Rony provavelmente percebeu pelo menos parte disso também no
jogo, mas o orgulho dele provavelmente vai impedi-lo de contar pra alguém. Eu não estou
muito a fim de deixar mais nenhum curioso intrometido sabendo disso, no entanto. —
Hermione suspirou, depois ofegou quando percebeu como aquilo devia ter soado. — Não
porque eu tenha vergonha nem nada, eu só odeio a atenção.
— Você certamente anda recebendo atenção mais do que suficiente. — Draco concordou. —
Que tal assim: eu fico de boca fechada desde que possa te beijar sempre que quiser em
privado?
Hermione estava prestes a ralhar com ele pela provocação, principalmente para encobrir o
leve constrangimento por dar mais um passo completamente acidental no relacionamento
deles e ter uma crise por causa disso, quando a lareira da Rede de Flu se iluminou e cuspiu
um homem esguio, de camisa de linho cru de trama larga e bermuda preta de surf. Os pés
descalços chamaram a atenção de Hermione imediatamente, e ela piscou para eles, surpresa.
— Draco! — O homem exclamou, feliz. — Não estou interrompendo, estou? Posso voltar em
cinco minutos se precisar!
— Theo. — A voz de Draco transbordava exasperação afetuosa. Ele largou Hermione para
cumprimentar o recém-chegado, mas não se afastou do lado dela. — Você veio direto de…
seja lá onde você estava aterrorizando os locais desta vez?
— Não. — Os dentes muito brancos de Theodore Nott brilharam num sorriso largo, em
contraste com o rosto bem bronzeado. — Eu estava no Solar Nott e perdi a noção do tempo.
— Ele virou o sorriso para Hermione e o suavizou levemente num comportamento menos
espalhafatoso. — Bom te ver, Granger, você está linda. Por favor, desculpe a minha roupa; o
Draco me garantiu que era um jantar casual e, como eu disse, perdi a noção do tempo.
— Me chama de Theo. — Ele pegou a mão dela e a ergueu para depositar um beijo muito
cavalheiresco nos dedos. — Eu abomino formalidades.
Hermione sorriu, tranquilizada pela aceitação casual dele da presença dela ao lado de Draco.
Ele era realmente terrivelmente diferente das lembranças que ela tinha. O Theodore Nott que
Hermione via em Hogwarts era arrumado e um pouco carrancudo, ficando sempre ao fundo e
projetando uma frieza que desestimulava as pessoas a se aproximarem. Draco tinha
mencionado que aquilo era meio fachada, mas ela não esperava que esse “novo” Theodore
Nott parecesse tão genuíno.
O sorriso de Theo se alargou e ele assentiu, lançando um olhar a Draco, que estava encarando
o amigo com uma clara advertência de não o envergonhar estampada no rosto. Hermione
reconheceu bem aquela expressão, porque tinha certeza razoável de que usara variações dela
durante toda a vida escolar, ou pelo menos desde que fizera amizade com Harry… e Rony.
— Perfeito. — Theo largou a mão dela e enfiou um braço em volta de Draco. — Então ouvi
dizer que você conseguiu levar o Draco a um cinema!
— Ah, sim. — Hermione não conseguiu impedir que as bochechas corassem ao se lembrar
do encontro acidental. — Ele ficou um pouco horrorizado com a pipoca, mas nós nos
divertimos, tirando isso.
— A maioria dos ingredientes das poções nas boticárias também fica, e são bem mais
voláteis. — Hermione apontou. — Pelo menos a pipoca costuma estar fresca.
— Hmph. — O resmungo mau-humorado de Draco era desmentido pelo jeito como ele
beijou a têmpora dela, e ele sacudiu a cabeça em direção à sala-de-jantar-cozinha. — Chega
de ficar em pé, venham para cá, Theo. Eu fiz aquele negócio de cordeiro que você gosta.
— Ooh! — Theo esfregou as mãos e, num truque elegante de magia sem varinha, produziu
uma garrafa de vinho de trás das costas. — Vai combinar muito bem com isto, então.
— Você comprou vinho para conhecer a… — Draco lançou um olhar à garrafa de líquido
vermelho-escuro e pigarreou. — A mãe grávida dos meus filhos? Sério, Theo?
— Ah, não. — Theo levou a mão à boca num falso horror, lançando a Hermione um sorriso
maroto. — Se ao menos esses trouxas espertos tivessem descoberto um jeito de fazer vinho
sem álcool!
Hermione teve que conter uma risada e pegou a garrafa das mãos de Theo, inspecionando o
rótulo para descobrir que ela de fato afirmava ser completamente sem álcool. Na experiência
dela, essas bebidas tinham gosto de vinho passado por uma meia, mas a intenção era doce.
— Tudo bem. — Draco revirou os olhos. — Você sabe onde ficam as taças, eu cuido da
comida. — Ele balançou a varinha para mover o tagine ainda coberto até a mesa e levantou a
tampa do cuscuz para afofá-lo com um garfo. — Senta, Hermione, a gente pega pra você.
— Dá até pra achar que eu sou um convidado indesejado. — Theo comentou, seco, enquanto
colocava uma taça de vinho diante de Hermione e servia uma medida com floreio. — Parece
até que ele foi criado sem uma única aula de etiqueta.
— Nós tivemos metade das aulas juntos, Theo. — Draco suspirou. — E você dormiu bem
mais vezes do que eu quando Madame Toussaint ficava resmungando sobre guardanapos e
reverências apropriadas.
Theo jogou a cabeça para trás numa gargalhada sonora ao se sentar.
— “Monsieur Nott, eu ‘esperro que o senhorr cresça bonito, porrrque os seus modos não vão
arranjar uma noiva!” — Ele imitou num falsete fortemente carregado de sotaque. — Pelas
bolas de Merlin, aquela mulher era uma bruxa insuportável.
— Ela gostava bastante de mim. — Draco sorriu de canto ao se sentar com uma tigela de
cuscuz perfumado. — Disse que, se tivesse uma neta da minha idade, eu seria bem-vindo
para conhecê-la.
— Provavelmente mais punição do que qualquer outra coisa, amigo. — Theo se inclinou para
trazer Hermione para a conversa com um sussurro bem alto. — A mulher fazia a Umbridge
parecer uma veela.
Hermione não conseguiu evitar o riso com a imagem de um Draco criança sendo
insuportavelmente presunçoso por uma velha severa achar que as maneiras dele eram
perfeitas, especialmente sabendo, com certeza absoluta, que ele nunca usou aquelas lições em
Hogwarts. Ela conseguia até imaginar uma versão pequena de Theo revirando os olhos por
trás da tutora.
— Então vocês dois aprenderam etiqueta juntos? — Ela perguntou, sorrindo para Draco
enquanto ele pegava o prato dela para começar a servir o prato de cordeiro de dar água na
boca.
— Entre outras coisas. — Theo disse. — Nossos pais faziam muitos “negócios” juntos, e
Narcisa gostava de ter a minha companhia.
— Pena que a gente passava mais tempo competindo do que se dando bem. — Draco
resmungou, então olhou para Hermione. — Eu também tinha aulas com o Greg e o Vince, às
vezes com a Pansy também.
— Nenhum de nós tinha tutores tão bons quanto os do Draco, então às vezes acabávamos
convidados a participar. — Theo passou o próprio prato quando Draco estendeu a mão. — Eu
acho que a Narcisa armava tudo pra dar ao Draco colegas de brincadeira pra ele não ficar
solitário.
— Ah. — Hermione pensou na mansão enorme e ostensiva e em como aquilo seria desolador
para uma criança. — Um pouco como uma escolinha, então.
— Tem seus prós e contras. — Hermione, que nunca tinha se encaixado muito bem na escola
primária, contornou o assunto. Ela redirecionou a conversa para o delicioso prato de cordeiro
que Draco tinha preparado e deixou que o assunto fluísse naturalmente a partir dali, sem
muita vontade de falar sobre aquilo.
Era fascinante observar Draco e Theo interagindo. Em certos aspectos, Draco estava menos
na defensiva do que Hermione alguma vez o tinha visto, mas em outros estava ainda mais. Os
bruxos claramente tinham um carinho profundo um pelo outro, mas por algum motivo
Hermione tinha a sensação de que Draco estava deliberadamente mantendo certa distância
entre eles. Nenhum dos dois a deixava de fora da conversa, frequentemente puxando-a ou se
dirigindo diretamente a ela, mas, enquanto o jantar era seguido de uma sobremesa de um
cremoso arroz-doce, ela se viu recuando para simplesmente observar.
Pelo visto, Theo havia começado a viajar assim que a propriedade ancestral passou para ele
após a morte do pai na guerra, pisando em solo inglês apenas esporadicamente e, mais
frequentemente do que não, ficando com Draco por alguns dias antes de desaparecer de novo.
Surpreendentemente, ele desenvolvera uma paixão por mochilar como um trouxa, achando
divertido se desafiar a não usar magia enquanto fazia isso. A última viagem o levara à Flórida
e ele tinha adorado, embora tivesse achado os trouxas de lá um pouco estranhos. Draco
parecia se divertir cutucando Theo para que ele contasse a Hermione o quanto se metia em
confusão por não saber como se virar no mundo trouxa, e Hermione chorava de rir em mais
de uma história de Theo aprendendo a usar transporte trouxa. Ela o tranquilizou dizendo que
ninguém entendia aquelas máquinas de bilhete, mas Theo pareceu cético quanto à veracidade
da afirmação.
— Então… — Theo voltou a atenção integral para Hermione de maneira bastante abrupta,
abandonando a tentativa de convencer Draco a ir ao cinema com ele. — O Draco não me
contou como tudo isso aconteceu.
— Hã? — Hermione olhou para Draco, que encarava Theo com uma expressão rígida. —
Como o quê aconteceu?
— Ah, qual é, Draco, com certeza não pode ter sido tão ruim assim! — Theo piscou inocente
para Hermione. — Por favor, me conte, eu estou morrendo de curiosidade aqui e o Draco só
diz que não é história dele pra contar.
— Ah. — Hermione sentiu uma estranha alegria culpada ao descobrir que Draco não tinha
contado nem ao melhor amigo como os gêmeos tinham surgido. — Não tem muito o que
contar, na verdade. Eu terminei com… o Rony, e então decidi ficar o mais bêbada possível
para afogar as mágoas. O Draco estava lá, por acaso, comprou umas bebidas pra mim,
ofereceu mais bebidas na casa dele, e então… — Ela deu de ombros. — Bom, cá estamos.
— Ah, isso é decepcionantemente normal. — Theo fez um beiço. — Pelo jeito como o Draco
falou, achei que fosse algo incrivelmente dramático, possivelmente envolvendo alguma coisa
tipo sair voando de Gringotes em cima de um dragão. Ficar de porre e montar nesse… — Ele
apontou um dedo para Draco. — dragão como rebound parece tão normal.
— Ah, nenhum detalhe. — Theo afastou Draco com um aceno zombeteiro, com um sorriso
maldoso. — Mas o que foi que você gritou pra me acordar naquela chamada internacional
pela lareira? Algo como “A Granger vai me matar!”? Ou foi mais na linha de “finalmente
realizei uma fantasia de anos”?
Draco bateu a varinha na mesa com força e lançou um olhar fulminante ao Theo subitamente
emudecido.
— Você é o pior, Theo. — Ele disse, lúgubre. — Quero ver se eu não te coloco pra fora com
as proteções.
O sorriso de Theo só se alargou, e ele fez um gesto que Hermione interpretou como “valeu a
pena”. Draco pareceu ainda menos impressionado e apontou para a lareira antes de erguer a
varinha para tirar o feitiço de silêncio.
— Sim. — Draco ainda estava lançando um olhar raivoso a Theo, mas já não parecia tão
aborrecido. Se alguma coisa, parecia resignado com carinho às travessuras do amigo. — Vai
atormentar mais uns trouxas e deixa a gente em paz.
Theo desapareceu numa labareda de fogo verde, deixando para trás o eco da risada
exuberante. Hermione mordeu o lábio por um momento, voltando a brincar com a renda das
mangas. Não sabia bem como tocar no que Theo tinha dito, não quando Draco o calara
apenas por ele mencionar o assunto.
— Ele é legal. — Ela acabou optando pela banalidade, mais segura do que simplesmente
mergulhar de cabeça no tema.
Draco inclinou a cabeça para trás com um gemido e se sentou no braço do sofá.
— Você quer saber o que ele quis dizer com a piada da “fantasia de anos”, não quer?
— Bem… — Hermione fez uma pequena careta. — Só se você estiver disposto a falar sobre
isso. Digo, eu entendo se for só ele te provocando, o Harry faz isso às vezes também. Então
eu vou entender se ele estiver só tentando causar um pouco de confusão, ele parece ser bem
do tipo.
— Hermione. — A risada sem graça de Draco cortou a verborragia dela. — Não é nada
terrível, ele só estava tentando me provocar e eu devia saber que não podia dar esse gostinho.
— Ele inclinou a cabeça para trás com um suspiro pesado, e as bochechas ficaram muito
levemente coradas. — Eu perdi uma partida de xadrez no quinto ano e tive que responder a
uma pergunta sob soro da verdade. O Blaise me perguntou qual tinha sido a minha fantasia,
ahn, sexual mais embaraçosa.
— É. — Draco fez uma careta. — Claramente eu ainda estou lidando com as consequências
de admitir que me masturbei pensando em você uma vez. Mas, em minha defesa, eu tinha
quinze anos, e garotos de quinze anos vão achar até um pêssego bem formado excitante.
— Você está me comparando a uma fruta? — Hermione cruzou os braços e torceu para que
as bochechas não estivessem tão vermelhas quanto pareciam.
— Bom… — Draco arrastou o olhar pelo corpo dela e voltou ao rosto. — Eu sou mais
criterioso hoje em dia, mas não vou negar ter tido alguns sonhos mais recentes com você no
papel principal.
O vermelho das bochechas de Hermione devia ser radioativo, e ela precisou de cada migalha
da coragem grifinória para não desviar o olhar. Quanto mais sustentava o contato visual, mais
escuros os olhos de Draco ficavam, até que ele finalmente se levantou e estendeu a mão para
ela.
— Se você quiser… — Ele fechou os dedos em torno dos dela quando ela pousou a mão
trêmula na palma dele. — Eu posso te contar tudo sobre eles.
Hermione ergueu o olhar e deu um passo por conta própria, a barriga arredondada roçando o
abdômen dele, e deixou os olhos descerem até os lábios dele.
Hermione se agarrara a um pequeno grãozinho de esperança de que sua breve ida a uma loja
trouxa para comprar para si mesma um conjunto (claramente simbólico) de roupas de
maternidade tivesse apaziguado o zelo da sra. Malfoy para que Hermione tivesse um guarda-
roupa completo de roupas que seriam inúteis em poucos meses. Desde que tinham tomado
chá, ela recebera algumas corujas da bruxa imponente insinuando uma ida às compras para
reunir tais roupas, mas vinha fingindo cuidadosamente ser incrivelmente obtusa e
subitamente incapaz de perceber qualquer subtexto. O que, é claro, levou a um Draco
completamente divertido informando-a de que a mãe dele tinha decidido que todos eles iriam
às compras juntos, e que era para ela deixar o fim de semana livre.
A expressão de triunfo dele quanto ao fracasso do plano dela fez muito mais sentido quando
ele contou há quanto tempo vinha tentando inutilmente fugir de idas às compras com a mãe.
Hermione pôde admitir, a contragosto, que se ele não tinha conseguido em quinze anos —
desde que percebeu que era exaustivo ser arrastado por aí e enfiado em roupas pela mãe
impecavelmente vestida — ela também não tinha muita chance.
Então se viu preparando-se para um dia de compras como se fosse o próprio funeral, sem
confiar totalmente nas promessas de Draco de que a mãe dele não perceberia que eles de fato
estavam juntos agora. Ela tinha sugerido, com mais do que um leve encolher de ombros
constrangido, que talvez ele quisesse contar à sra. Malfoy que eles tinham dado o próximo
passo no relacionamento, nem que fosse só para impedir que a mãe exigisse algum tipo de
vingança por ser deixada de fora do assunto de novo. Draco olhara para ela como se ela
tivesse se transformado numa mandrágora e perguntara por que cargas d’água ele daria à mãe
mais combustível para a febre de casamento dela. O suspiro de alívio de Hermione fizera os
dois rirem, e Draco apontara aquilo como o motivo pelo qual, no fim das contas, queria
esperar para contar à mãe. Quando Hermione se sentisse mais segura, aí eles poderiam contar
às pessoas.
Ela se sentia um pouco mal por fazer Draco manter esse segredo de todos, especialmente
considerando que Harry sabia e Theo certamente tinha algum tipo de ideia depois do jantar
deles, mas Draco dava de ombros toda vez que ela tocava no assunto e parecia genuinamente
despreocupado. O desejo dele por privacidade aparentemente tinha mais peso do que o leve
traço possessivo, embora ele desse a entender que, se visse outro homem sequer olhando para
ela do jeito errado, possivelmente faria algum tipo de cena.
— Hermione? — Draco enfiou a cabeça no quarto dela. — Nossa chave de portal sai em dez
minutos e você ainda está de roupão.
— Eu sei! — Ela fez beiço, lançando um olhar furioso às roupas estendidas sobre a cama. —
Mas eu não consigo decidir o que vestir. — Ela se virou para ele com um suspiro impotente.
— Me ajuda?
Rindo, Draco pegou um vestido de verão azul-claro que só tinha exigido uma Transfiguração
mínima para caber sobre a barriga e a ajudou a puxá-lo pela cabeça, beijando-lhe a testa
quando ela emergiu.
— Pronto, quase tão bonita quanto no Baile de Inverno. — Ele a beijou de novo, dessa vez
nos lábios, e acariciou a barriga dela com delicadeza. — Melhor, na verdade.
— Se você tem certeza… — Hermione ainda não acreditava totalmente, conhecendo como a
mãe dele se vestia. — Mas acho que a gente tem mesmo que ir. A sua mãe ainda vai
encontrar a gente na loja?
— Vai. — Draco a conduziu de volta à sala de estar, onde a velha lata de estanho usada como
chave de portal para Nice aguardava. — Ela anda bizarramente fixada em te mostrar essa
loja.
— Se for a que eu estou pensando, provavelmente é porque mistura moda bruxa e trouxa. Ela
mencionou quando tomamos chá.
— Ah, faz sentido. — Draco riu. — Essa seria a maneira da minha mãe de mostrar que aceita
a sua herança, então.
— Eu… não tinha pensado por esse lado. — Hermione piscou, depois franziu o cenho. —
Seria esse o único motivo?
— Duvido. — Draco lhe entregou a bolsa que ela levava sempre que ia para longe de casa,
abarrotada de qualquer coisa que pudesse precisar numa emergência, incluindo um estojo de
couro acolchoado cheio de poções pré-natais que Draco verificava regularmente. — Eu sei
que ela tem feito compras lá com frequência suficiente nos últimos meses para estar em
termos de primeiro nome com a estilista.
— Chamam ela pelo nome? — Hermione arregalou os olhos, tentando imaginar alguém
chamando a sra. Malfoy de “Narcissa”. Soava bizarro, e um tanto perturbador. Theo usara o
nome quando esteve lá para o jantar, mas Hermione tinha pensado, lá no fundo, que ele
provavelmente a chamava de “Mrs Malfoy” na cara dela.
Hermione resmungou por entre os dentes sobre a empáfia dele e enfiou os pés num par de
sapatilhas confortáveis. Uma jaqueta leve cor camelo por cima e ela estava pronta para
encarar a bruxa que era avó dos filhos ainda não nascidos dela. Para ir às compras — Deus e
Merlin a ajudassem.
— Certo. — Ela suspirou, conferindo o relógio de parede e vendo que faltavam trinta
segundos para a chave de portal ser ativada. — Vamos acabar logo com isso.
— Quanta animação. — Draco riu, estendendo a lata para que ela também pudesse segurá-la.
— Mas eu te entendo perfeitamente.
A chave de portal os rodopiou para longe antes que Hermione pudesse dizer mais alguma
coisa, depositando-os numa alcova ao lado de uma rua ensolarada cheia de gente em vestes e
trajes bruxos glamourosos. Draco imediatamente estendeu a mão para firmá-la quando ela
cambaleou. Ele levou um momento para se assegurar do equilíbrio dela antes de afrouxar o
apoio, embora não a soltasse completamente.
— Eu estou bem. — Hermione sorriu para ele e apertou a mão dele. — Eu só odeio chaves de
portal, aquele puxão e aquele giro são hor…
Ela interrompeu a frase com um cenho confuso, porque, agora que tinha mencionado,
percebeu que a sensação de puxão atrás do umbigo não tinha de fato desaparecido. Ela ainda
sentia pressão, um empurrão insistente que a fez baixar os olhos para o inchaço da barriga.
Então a sensação se deslocou um centímetro para a esquerda, e ela percebeu o que era.
— Nada. — Hermione riu, puxando a mão dele com mais força para que a deixasse guiá-la
até o empurrão que era, se ela tivesse adivinhado corretamente, um pezinho minúsculo. —
Acho que você consegue sentir esse chute.
— Ah. — Draco olhou entre o rosto de Hermione e a mão que ainda mantinha sobre o
estômago dela. — É tão forte.
Draco riu, quase eufórico, pressionando as mãos com mais firmeza, tentando perseguir a
sensação dos pequenos membros enquanto eles recuavam. Ele se inclinou para beijar a boca
de Hermione, nenhum dos dois conseguindo parar de sorrir para fazê-lo direito. Então ele se
abaixou, agachando-se e pressionando aqueles mesmos lábios sorridentes no lugar onde os
bebês descansavam.
Acabaram escorregando para dentro da boutique com dez minutos de atraso, depois de Draco
insistir em ficar ali onde estavam para tentar sentir mais chutes. Por fim, ele admitira a
derrota e fingira resmungar com os gêmeos, dizendo que era bom que dormissem tão bem do
lado de fora também.
A sra. Malfoy os aguardava dentro da lojinha chique, conversando com uma bruxa esguia
vestida num estilo que fez Hermione pensar em Audrey Hepburn. Quando o tilintar da porta
anunciou a chegada deles, as duas bruxas se viraram, e a sra. Malfoy fez questão de conferir
o delicado relógio de pulso de prata com um olhar de lado para o filho.
— Já estava começando a me preocupar achando que vocês tinham perdido a chave de portal.
— A sra. Malfoy deslizou até eles, o vinco ao lado da boca elegante sumindo quando olhou
para Hermione. — É um prazer vê-la, srta. Granger. Correndo o risco de soar clichê, você
está francamente radiante hoje.
Hermione tinha certeza de que não estava nada disso, especialmente quando comparada ao
elegante vestido rosa concha que a sra. Malfoy usava, mas não era grosseira a ponto de
rejeitar um elogio.
— Obrigada, sra. Malfoy. — Ela sorriu, um tanto nervosa. — E obrigada por me convidar.
— O prazer é meu. — A sra. Malfoy voltou os olhos para o filho. — Espero que o Draco não
tenha enchido a sua cabeça de histórias de terror sobre fazer compras comigo.
Draco, de fato, contara histórias de viagens extenuantes de uma semana em busca do par de
sapatos perfeito para combinar com as novas vestes da mãe. Mas Hermione tinha consciência
de que as reclamações dele eram exageradas de propósito e as encarara com uma pitada de
ceticismo.
— Eu faria isso, mãe? — Draco perguntou, inocente, e beijou a bochecha da mãe com uma
risada quando ela apenas ergueu uma sobrancelha em resposta.
— Venha, srta. Granger. — A sra. Malfoy tomou Hermione pelo cotovelo, entrelaçando os
braços como se fosse a coisa mais natural do mundo. — A Martine aqui estava me contando
que tem alguns modelos maravilhosos que podem ser facilmente adaptados para acomodar as
crianças.
— Ah, isso parece… — Hermione lançou um olhar rápido para Draco e o viu rindo atrás da
mão. — encantador. E, ah, por favor, sinta-se à vontade para me chamar de Hermione.
— Então, é claro, você terá que me chamar de Narcissa. — A sra. Malfoy deixou os lábios se
curvarem num sorriso enquanto as duas seguiam de volta até a bruxa bronzeada que parecia
terrivelmente francesa em seu vestido preto justo e com a franja castanho-avelã delicada. —
Martine, querida, esta é a Hermione. Hermione, esta é a Martine. Ela é realmente um
prodígio com agulhas e gentilmente concordou em fazer algumas peças sob medida para
você.
Hermione ignorou propositalmente o jeito como Draco transformou uma risada em tosse
quando a mãe pediu que Hermione usasse o nome dela tão pouco tempo depois de eles terem
tido uma conversa em que Hermione ficara boquiaberta só com a ideia. Em vez disso, ela
sorriu para a estilista elegante e torceu para não parecer deslocada demais.
— Bonjour, Hermione. — A estilista disse com um leve sotaque, os olhos escuros mostrando
que estava genuinamente feliz por fazer roupas sob medida a pedido de Narcissa. — Ouvi
muita coisa a seu respeito, e fiquei empolgada quando recebi a carta da Narcissa perguntando
se eu estaria disposta a me encontrar com você.
— Ah. — Hermione se sentiu meio sem chão, sem saber lidar com aquele tipo de situação.
— Também é um prazer te conhecer. Eu… — Ela sorriu, um pouco sem jeito. — Desculpa,
eu realmente nunca tive roupas feitas sob medida para mim antes, a não ser que você conte o
ajuste da barra das minhas vestes escolares.
Martine tinha uma risada como o mar, e pareceu encantada com a confissão de Hermione.
— Bem, então vou ter que ser gentil com você. — Ela apanhou um grosso portfólio de couro
do balcão de mármore ao lado do quadril e fez um gesto em direção ao fundo da loja. — Que
tal se todos nos sentarmos e conversarmos sobre o que você procura?
Hermione teve exatamente tempo suficiente para lançar a Draco um olhar suplicante por cima
do ombro antes de ser conduzida por Narcissa até um sofá baixo perto do provador.
— Por que você não dá uma olhada, Draco? — Narcissa instruiu, claramente querendo dizer
“não vá muito longe”. — Vamos chamar você quando estivermos prontas.
O portfólio de couro continha vários esboços, e Hermione ficou hipnotizada pela elegância e
variedade deles enquanto Martine folheava a caminho dos modelos que queria mostrar a
Hermione. Houve um vestido em particular, no qual Martine parou, que tirou o fôlego de
Hermione. Era a mistura mais bonita de um vestido de gala trouxa com vestes de bruxa que
Hermione já tinha visto, a saia volumosa escoando sem esforço a partir de um corpete
estruturado que fazia lembrar os belos trajes de gala que as bruxas francesas usaram no Baile
de Inverno lá no quarto ano de Hogwarts. Os dedos de Hermione coçaram na direção do
esboço sem cor, e ela estava tão fascinada tentando memorizar cada detalhe do vestido
maravilhoso antes que a página virasse que não percebeu o jeito como Narcissa e Martine
trocaram um olhar e um pequeno aceno ao notarem o interesse dela.
As roupas de maternidade que Martine desenhara não eram menos deslumbrantes, havia pelo
menos quinze esboços ao todo. Cada um deles foi disposto sobre a mesinha de centro, e
Hermione ficou boquiaberta enquanto as duas bruxas discutiam tecidos e números.
Havia vestes que ela poderia usar para trabalhar, macias e fluídas, com franzidos na cintura
para evitar que ficassem sem forma. Havia um tailleur inegavelmente trouxa, a saia lápis
justa redesenhada para acomodar o grande volume da barriga de Hermione. Havia todo um
conjunto de roupas mais casuais, bruxas e trouxas, todas com cara de algo que uma
celebridade usaria ao posar para um ensaio de maternidade para uma revista. Havia até dois
conjuntos distintos de trajes de gala, ambos justos o suficiente no meio do corpo para que não
restasse a menor dúvida de que quem os vestia estava bem grávida.
— Algum deles te agrada em especial, Hermione? — Martine perguntou quando julgou que
Hermione tivera tempo suficiente para ver os modelos.
— Eu… — Hermione mexeu nos papéis e mordeu o lábio. — Eles são todos tão lindos. Eu
não sei como conseguiria escolher.
— Talvez todos, então. — Narcissa parecia tão despreocupada quanto sempre, mas Hermione
reconheceu o brilho travesso nos olhos. Já tinha visto aquela expressão em Draco vezes
suficientes para ser íntima dela.
— Ah, eu… quer dizer… — Hermione se sacudiu um pouco e sorriu o melhor que pôde. —
Eles são mesmo lindos, mas eu só tenho um pouco mais de dez semanas pela frente. Não sei
se preciso de um guarda-roupa inteiro novo.
— Bem, eu tenho algumas peças prontas para você. — O sorriso de Martine dizia que ela não
se sentira nem um pouco ofendida pela hesitação de Hermione, mas que, na opinião dela,
uma bruxa precisava, sim, de um guarda-roupa inteiro novo até para dez semanas. — Talvez
possamos experimentá-las e ir decidindo a partir daí?
— Ah, eu não sabia que você tinha uma linha de maternidade. — Hermione olhou ao redor
da lojinha, tentando localizar o cabideiro para poder escolher algumas peças.
— Não tenho. — Martine riu, balançando a varinha para convocar várias caixas de roupas. —
Mas me senti inspirada quando Narcissa me mandou uma carta pedindo que eu vestisse a
famosa Hermione Granger.
— O quê? — A voz de Hermione saiu alta demais de tanta surpresa, e ela imediatamente fez
uma careta. — Desculpa, eu só não esperava por isso.
— Você é uma bruxa muito famosa, Hermione. — Narcissa riu baixinho, pousando a mão
com delicadeza sobre o pulso de Hermione. — Martine ficou terrivelmente empolgada.
— Ah. — Hermione baixou os olhos para as próprias mãos, sem ter muita certeza de como
reagir ao fato de alguém fora da Inglaterra saber quem ela era. Ela estava acostumada com
isso nos apertados limites da comunidade mágica do Reino Unido, mas tinha conseguido se
convencer de que só era tão conhecida dentro da Grã-Bretanha. Foi um pequeno choque
descobrir que uma estilista francesa ficaria empolgada com a perspectiva de fazer roupas sob
medida para ela.
— Que tal se deixarmos você experimentar estas, Hermione? — Narcissa sugeriu, tocando a
tampa de uma das caixas. — Eu tenho um vestido sobre o qual quero conversar com a
Martine, então podemos te dar um momento. Martine, seria possível usarmos o seu ateliê por
um instante?
Lá dentro havia um pequeno banco e uma cadeira, então Hermione pousou a caixa com
cuidado no banco e ergueu a tampa. Dentro havia tecido dobrado com perfeição, seda azul-
céu por cima e fina lã cinza por baixo. Hermione soube, antes mesmo de puxá-la, que
provavelmente se tratava do tailleur trouxa que tinha visto entre os esboços. Torcendo para
que a saia justa não fosse difícil demais de vestir, Hermione começou a tirar o vestido e a
jaqueta, com um suspiro.
Felizmente, a saia devia ter feitiços embutidos no tecido, porque foi mais fácil de vestir do
que ela teria imaginado. Hermione acabara de subir o pequeno zíper e enfiava a blusa macia
como manteiga para dentro da cintura quando ouviu a sineta da porta soar e Draco dizer
alguma coisa. Ela esperava que ele não estivesse indo embora, então deu um passo rápido
para fora do provador e começou a procurá-lo com o olhar.
Mas não tinha sido Draco quem acabara de entrar. Ele estava perto da porta, mas franzia o
cenho para a bruxa que acabava de passar por ela. A bruxa o encarava com uma expressão
altiva que se derreteu em surpresa quando Hermione apareceu, a barriga em destaque sob a
saia de lã.
— Pansy. — Hermione sentiu o impulso de disparar porta afora, mas obrigou-se a ficar de pé,
ereta. — Que coincidência te encontrar aqui.
— Certo. — Draco respondeu, seco, dando um passo para mais perto de Hermione. — Na
verdade, ela fez questão de levar a Hermione às compras, então vim junto pra garantir que ela
não fique exausta.
Se Pansy parecera surpresa com a barriga de Hermione, não era nada comparado ao choque
diante do motivo de ambos estarem ali. Hermione não tinha certeza se a surpresa era por
Narcissa querer levar Hermione às compras ou pelo fato de Draco aparentemente estar ali
para garantir que ela não se cansasse. Ela se lembrava de Draco ter mencionado que Pansy
fora uma companheira frequente de compras de Narcissa no passado, porém, então talvez
fosse só que Pansy achava absurda a ideia de alguém ficar exausto com essa atividade.
— Acho que a sua mãe e a Martine estão no fundo, Draco. — Hermione tocou de leve o
braço dele para chamar a atenção. — Por que você não vai avisar que a Pansy está aqui?
— Você vai ficar bem? — Draco perguntou, examinando-a como se ela tivesse feito muito
mais do que sentar quietinha num sofá olhando para desenhos lindos.
Draco se virou para ir, mas lançou um olhar por cima do ombro com um sorriso maroto:
Hermione hesitou entre um olhar feio e um rubor quando Draco saiu. Ficou satisfeita por ele
ter notado — e aprovado — as roupas, mas também se perguntou se ele tinha dito aquilo
tanto para benefício da Pansy quanto para o dela. Ela teria preferido muito mais que o elogio
não fosse também uma cutucada em outra pessoa.
— Mais ou menos sete. — Hermione não conseguiu evitar entrelaçar as mãos sobre a barriga
numa postura protetora. Havia algo no jeito como Pansy a olhava de soslaio que Hermione
não gostou nem um pouco.
— Hmm. — Pansy puxou um vestido da mesma cor da blusa de Hermione, depois torceu o
nariz e o devolveu ao cabideiro. — Então você e o Draco tiveram… o que quer que você
queira chamar… há uns sete meses, então?
— Essa é uma pergunta bem invasiva, Pansy. — Hermione a advertiu. — E tenho certeza de
que você já sabe que eu não vou discutir nada da minha vida particular com você.
— Desculpa, eu só não pude deixar de notar que você parece prestes a explodir. Não acho
que a minha irmã estivesse nem metade desse tamanho quando já estava com uma semana de
atraso. — Pansy lançou um sorriso pouco sincero e voltou ao cabideiro. — Há quanto tempo
você e o Weasley terminaram, aliás?
— Já terminou de insinuar que eu não sei quais crianças são minhas filhas, Pansy? — A voz
de Draco estava baixa, mas não menos furiosa por causa disso.
— Draco, eu só estava… — Pansy girou para encarar o bruxo irado parado atrás de
Hermione, o queixo erguido de forma desafiadora.
— Você só estava enfiando o nariz onde ele não tem nada que estar. — Draco rosnou. — A
mãe vai sair aqui para fora em um instante, e, se até lá você não tiver pedido desculpas à
Hermione… — Ele pousou a mão na parte de baixo das costas de Hermione e lançou um
olhar fulminante a Pansy. — Bom, aí eu vou ter que contar a ela que você estava insinuando
que ela não está prestes a se tornar avó.
— Desculpa, Granger. — Ela forçou, entre os dentes. — Eu só fiquei surpresa e devia ter
segurado a língua.
Hermione não tinha particular vontade de aceitar o pedido de desculpas, não com a rapidez
com que Pansy Rosier saltara para acusá-la de tentar enganar Draco. Era especialmente
irritante considerando o quão rápido Pansy também tentara empurrar Hermione para um
casamento com o dito bruxo quando a notícia sobre a paternidade dos bebês saiu nos jornais.
Então, em vez de dizer qualquer coisa, Hermione apenas assentiu, seca, e estreitou os olhos.
— Ora, se não é a sra. Rosier. — Narcissa surgiu da conversa que tivera, com uma acolhida
fria. — Que surpresa.
— Olá, sra. Malfoy, e Martine. — Pansy cumprimentou, com um olhar nervoso na direção de
Draco. — Eu soube que estariam na área e resolvi passar. A senhora tem estado bem?
— Estou bem. — Pansy abaixou o rosto num sorriso pequeno. — O Guillaume é um bom
homem, e estou descobrindo que Paris combina comigo.
— Guillaume sempre foi um bom menino. — Narcissa disse. — Sempre que eu visitava
minha prima, ele levava o Draco para voar.
— O marido da Pansy é meu primo de segundo grau pelo lado da minha avó Druella. —
Draco explicou, de forma um tanto desnecessária. Hermione já tinha captado o subtexto com
facilidade; sabia que Draco era aparentado à família Rosier, então não foi difícil ligar os
pontos.
— Ele me conta. — Pansy lançou outro olhar a Draco e então voltou a atenção para Narcissa
e Martine. — Mas é melhor eu deixar vocês à vontade, não quero interromper.
— Foi um prazer revê-la, sra. Rosier. — A expressão de Narcissa não revelava nada sobre o
que ela poderia realmente estar sentindo. — Por favor, me mande uma coruja quando quiser
se encontrar de novo.
— Vou mandar. — Pansy corou com a repreensão tácita e inclinou a cabeça lustrosa. — Foi
um prazer ver você, Draco… Granger.
Nem Draco nem Hermione disseram nada, limitando-se a um aceno de despedida enquanto
Pansy acenava para Martine e saía tão abruptamente quanto chegara. A estilista claramente
percebeu a tensão, o olhar saltando para a porta enquanto um vinco preocupado se formava
entre as sobrancelhas impecáveis. Hermione sentiu um pouco de pena de Martine, que
parecia genuinamente preocupada por ter cometido um erro grave ao contar para Pansy sobre
o horário da Narcissa. Hermione, porém, não a culpava nem um pouco, e se esforçou para
sorrir a fim de tranquilizar a outra bruxa.
— Os feitiços desta saia são interessantes. — Hermione arriscou, tentando quebrar a tensão
que Pansy deixara para trás. — Eu estava preocupada de que ficasse apertada demais ou fosse
difícil de vestir, mas é incrivelmente confortável.
— Espero que o suficiente. — Martine riu, dando de ombros. — A Narcissa me contou que
você ia precisar de bastante espaço.
— Acho que vou ter mesmo que comprar esta, então. — Hermione sorriu. — É realmente
muito bonita.
— Excelente. — Narcissa juntou as mãos, satisfeita, e se virou para Martine. — Está pronta
para levar?
— Parece cair bem o bastante, mas posso mandar fazer outra, exatamente nas medidas dela,
até amanhã. — Martine franziu os lábios, pensativa. — Também tenho mais um modelo que
esqueci de mostrar antes. Acho que seria perfeito para um chá de bebê.
Hermione estava prestes a explicar educadamente que não estava planejando fazer um chá de
bebê, quando ouviu as cinco palavras mais aterrorizantes daquele dia completamente de
cabeça para baixo.
Hermione sabia que não devia estar tão nervosa. Já fazia três dias que ela se repreendia por
causa da náusea eufórica que batia sempre que pensava na noite que estava por vir. Mas,
apesar de saber que era ridículo ficar tão cheia de nós por causa de um jantar com Draco —
quando eles já tinham saído várias vezes em programas que eram, no mínimo, bastante
parecidos com encontros —, Hermione estava praticamente fora de si. Ela chegou até a
chamar Ginny para ajudá-la a se arrumar, para enorme diversão da amiga ruiva.
— Eu realmente não sei por que estou aqui — resmungou a bruxa em questão, de bom humor
—. Você não tem roupas planejadas para todas as ocasiões, por via das dúvidas? Se bem me
lembro, você me mostrou uma lista incrivelmente sem graça com todo tipo de código de cor e
anotação.
— Tenho — Hermione suspirou, pegando um dos dois vestidos que tinha separado e
segurando-o contra o corpo enquanto franzia o cenho criticamente para o próprio reflexo —,
mas nenhum dos conjuntos que eu montei naquela época serve por cima disso. — Ela
cutucou a lateral da barriga realmente muito protuberante. Um dos gêmeos escolheu aquele
momento para cutucá-la de volta.
— Agora ele está um pouco no caminho mesmo — Ginny riu, largando-se sem cerimônia na
cama de Hermione, ao lado do outro vestido —. Mas pelo menos você só tem dois para
escolher. Ou tem mais, e eu vou ter que fingir que tenho opiniões fortíssimas sobre todos?
— Não — Hermione hesitou, depois baixou os olhos, corando —, mas só porque eu não
quero usar um vestido que a Narcissa escolheu num encontro com o Draco.
— Imagino! — O riso de Ginny ficou escandalosamente mais alto. — E ele foi às compras
com você, então saberia.
— Ele provavelmente não se importaria, mas eu saberia. — Hermione fez uma careta. — Ia
ser esquisito.
— O quê? — Hermione se virou para encarar a amiga com apreensão. — O que aconteceu?
— Bem, ah… — Ginny fez uma careta e começou a beliscar as mangas rendadas do vestido
azul jogado na cama, espelhando o mesmo ato nervoso de Hermione da última vez em que o
vestido fora usado —. A mamãe recebeu uma carta dela. Eu só descobri hoje, por acidente,
quando passei na Toca para pegar uma coisa com o papai e vi a carta em cima da mesa. Ela
estava bem na defensiva e não me deixou ler de fato depois que viu quem tinha mandado,
então eu não sei do que se tratava. Desculpa.
— Não — Hermione jogou o vestido de lado para enterrar o rosto nas mãos, lembrando por
pouco de não esfregá-las no rosto porque já tinha passado maquiagem —. Chá de bebê. É
uma coisa trouxa em que as mulheres da vida de uma pessoa grávida se reúnem para celebrar
a gravidez.
— E isso é… ruim? — Ginny parecia ainda mais confusa diante do óbvio pavor de
Hermione.
— O que você acharia de ficar sentada num ambiente explodido em babados pastéis enquanto
todo mundo fica fazendo “ohhh” e “ahhh” para a sua barriga? — Hermione disparou. — Sem
contar que, tradicionalmente, é só para mulheres, então o Draco e o Harry nem poderiam ir.
— Ah, ponto muito bem observado. — Ginny estremeceu. — Parece um pesadelo puro.
Como é que uma debutante sangue-puro como a sra. Malfoy sabe disso, então? Você não
contou, contou? Ela é exatamente o tipo de pessoa que ia te obrigar a ter uma festa inútil
dessas.
— Claro que não! — Hermione gemeu. — A bruxa dona da boutique em que a gente foi em
Nice tem mãe nascida trouxa. Ela comentou que tinha um modelo que eu talvez fosse gostar
para o chá de bebê. A Narcissa ouviu e, bom… — Hermione fez um gesto frustrado,
englobando quão fúteis tinham sido suas tentativas de mudar de assunto.
— Ah, bom, então você está ferrada de vez — Ginny soou alegre demais diante do problema
de Hermione —, principalmente se ela envolveu a mamãe.
— É, e você também.
— O quê? — Ginny endireitou-se de vez e franziu o cenho para a amiga. — Por que eu
também estaria ferrada?
— Porque agora a sua mãe sabe que isso existe. — Hermione não conseguiu segurar o
pequeno, vingativo sorriso que lançou para a bruxa ao lado. — E o Harry quer ter filhos um
dia.
— Aham. — Hermione sorriu ainda mais e deu um empurrãozinho nela para tirar Ginny de
cima do vestido azul. — Então é bom você ser boazinha, ou eu vou contar para a sua mãe
todos os joguinhos idiotas que o pessoal às vezes faz em chá de bebê. Depois do meu, claro.
— Você é a pior — Ginny reclamou. — Escolhe logo um vestido para eu poder ir avisar o
Harry sobre as ameaças à sanidade da namorada dele.
Hermione mostrou a língua, depois suspirou para os dois vestidos. Ela gostava do azul, mas
tinha usado aquele no jantar com Theo e não queria que Draco achasse que ela só tinha um
vestido. O verde, no entanto, tinha exatamente o tom de verde da Sonserina, e ela não tinha
certeza se Draco conseguiria se conter de comentar.
Mas… Ele também talvez apreciasse o jeito como o vestido destacava o decote em expansão.
Ele definitivamente parecia gostar de dedicar um tempo exagerado a demonstrar apreço pelos
novos atributos elevados dela nas poucas vezes em que os dois tinham voltado para a cama
juntos.
Pondo com firmeza uma rolha no súbito fluxo de pensamentos nada puros envolvendo Draco
e todas as maneiras pelas quais ele demonstrava seu apreço, Hermione agarrou o vestido
verde e marchou, no seu andar mais rápido de pinguim, rumo ao banheiro para se trocar.
— Você está deslumbrante — Draco sorriu, os olhos cinzentos percorrendo a forma dela
coberta de verde assim que Hermione abriu a porta do apartamento —. Adorei a cor.
Hermione sustentaria que, sob a luz da loja, o tom parecia muito mais um verde-musgo do
que verde-Sonserina quando comprou o vestido, mas deixou o comentário passar com nada
mais que um revirar de olhos, porque ele tinha um ponto. Fazendo um gesto para que ele
entrasse, girou o corpo para abrir espaço, dando-lhe um beijo rápido nos lábios quando ele
passou. Ele também estava muito bonito, Hermione não pôde deixar de reparar: usava um
terno trouxa impecável de lã azul suave e uma camisa branca de colarinho aberto, sem
gravata. Também estava usando a colônia quente e especiada de que ela gostava, e Hermione
aproveitou a proximidade para inspirar de forma provavelmente indiscreta o aroma sedutor.
Felizmente, Draco não comentou o deslize, apenas a guiou até a sala de estar e se virou para
encará-la de frente.
— Tenho algo para você. — Draco sorriu, com só um tiquinho de travessura no olhar. —
Lembrei do Potter me dando uma bronca por carta sobre como me comportar num encontro
digno desse nome e vim preparado desta vez.
Hermione ficou confusa por um instante, até lembrar de Harry lendo a correspondência dela e
mandando algum tipo de alerta ridículo para Draco antes de eles irem ao Mama’s juntos,
numa época em que ainda estavam tentando descobrir se conseguiam se dar bem. O sermão
que Hermione aplicou a Harry depois disso o deixou suficientemente intimidado para não
fuçar mais na correspondência dela; e, mesmo que isso não tivesse bastado, depois que ela
contou a ele a ameaça de Draco de escrever um relato detalhado de como os gêmeos vieram a
existir, Harry prometera por tudo o que considerava sagrado nunca mais ler uma carta dela
sem permissão expressa.
Hermione achara uma pena que flores conjuradas não durassem muito antes de desbotar e
sumir, porque a que Draco lhe oferecera naquela noite fora uma obra de arte.
— Ah, é? — Ela umedeceu os lábios e sorriu para ele. — E o que você trouxe para mim?
— Ah, são lindas — Hermione estendeu a mão para aceitar o buquê, sorrindo em
deslumbramento para o arranjo elegante.
Flores nunca tinham sido algo em que Hermione colocasse muita fé como presente. Ela, é
claro, achava legal receber, mas nunca tinha pensado que fossem algo que merecesse grande
comoção. Aquele buquê, no entanto, dado com uma expressão tão terna, a deixou mais do
que um pouco aérea.
— Desculpa. — Draco afastou os lábios dos dela para apoiar o queixo no topo da cabeça de
Hermione. — Você tem razão, vou acabar fazendo a gente se atrasar.
Draco olhou para baixo, confuso, e em seguida explodiu em gargalhadas. Hermione fingiu se
ofender por um instante, depois se rendeu ao próprio riso. Logo os dois estavam rindo sem
controle no meio da sala de estar por causa do absurdo que era precisar mover a barriga de
lado para conseguir dar um beijo decente.
— Vou pôr as flores na água para você. — Draco ainda ria, soltando Hermione com um
empurrãozinho suave na direção do quarto. — Você coloca algum sapato e a gente devia ir
andando, para não perder a reserva.
— Para onde a gente vai? — Hermione perguntou enquanto convocava suas sapatilhas
extremamente confortáveis e enfiava os pés nelas.
Não que tivesse vergonha do fato de que ela e Draco estavam realmente namorando agora,
por mais nada convencional que tivesse sido o começo. Ela não se importava muito se as
pessoas viessem a saber; a questão era que ela sabia que, assim que qualquer pessoa da
comunidade mágica descobrisse (ou desconfiasse) que eles estavam num encontro, seriam
bombardeados e provavelmente teriam que lidar com Rita Skeeter tentando conseguir o furo
antes do Dennis.
Ela realmente não tinha vontade de passar o que tinha tudo para ser um ótimo encontro
afogando um besouro na sopa.
— Não, achei que você preferiria ficar do lado trouxa. — Draco a tranquilizou, ajeitando as
flores no vaso. — Muito menos provável que a gente seja interrompido.
— Ou que leia um relato passo a passo no jornal de amanhã. — Hermione devolveu, amarga.
— Imagina as manchetes que a gente renderia. — Draco riu. — Ex-Comensal fisga Garota de
Ouro grávida para jantar!
— Não, isso não é nem de longe escandaloso o suficiente se for a Skeeter que descobrir a
história.
— Aí a gente só pode torcer para ser o Dennis, então. — Hermione vestiu a jaqueta e pegou a
bolsa.
— Hoje é sexta-feira 13. — Draco observou, com um sorriso enviesado. — Duvido que
tenhamos tanta sorte.
— Quem sabe a Skeeter não é a única que leva o azar? — Era o que dava para desejar, pelo
menos. O último artigo dela tinha incluído as palavras “vigilância da barriga” no título, e
Hermione não estava nem um pouco encantada com a invasão à sua privacidade.
— Acho que ela já levou, considerando que a gente vai estar no mundo trouxa, sem uma
única coruja levando fofoca até ela.
— Que Cristo seja louvado — Hermione bufou, o que fez Draco rir do alívio dela. — Mas
enfim, você não disse que vamos nos atrasar se não nos mexermos?
— Bem lembrado. — Draco ofereceu o braço e ainda roubou um beijo rápido quando ela o
aceitou. — Vamos?
— Vamos, então. — Hermione sorriu para ele e se preparou para aparatar. Não ia demorar
muito até que ela não pudesse mais usar aquele meio de transporte extremamente
conveniente, e ela já estava de luto antecipado pela perda temporária.
Draco os levou a um dos muitos becos desertos que o Ministério da Magia designara como
pontos seguros de aparatação, e a firmou quando ela vacilou um pouco devido ao centro de
gravidade alterado. Ele a segurou com delicadeza, depois a soltou para permitir que ela
retomasse o braço oferecido e a acompanhou, como um perfeito cavalheiro, no curto trajeto
até a porta da frente do restaurante que havia escolhido.
Ao passar pela entrada, Hermione teve vontade de rir um pouco para si mesma da afirmação
anterior de Draco de que o restaurante não era tão pretensioso quanto o nome “Mystique”
fazia parecer. Ela riu porque, para ser sincera, o lugar parecia exatamente tão normal quanto
qualquer restaurante trouxa que Draco escolheria. Em épocas passadas (caso ele sequer
aceitasse comer comida trouxa), isso talvez significasse, no mínimo, dezessete tipos
diferentes de garfo e garçons insuportavelmente esnobes servindo pratos afetados em porções
que não davam nem para uma mordida; mas o Draco que Hermione havia aprendido a prezar
tinha uma preferência bem clara por ambientes mais discretos.
Era, sem dúvida, mais sofisticado que o aconchegante clima de casa do Mama’s, mas
Hermione ficou aliviada ao notar a total ausência de lustres de cristal e de uma recepcionista
sorridente esperando para conduzi-los. O esquema de cores principal do restaurante era uma
variedade de roxos profundos e tons mais claros de bege, combinação que Hermione não teria
imaginado que funcionaria tão bem quanto funcionava. A iluminação era baixa e íntima,
criando uma ilusão de privacidade em torno de cada mesa, apesar de o restaurante em si ser
bem pequeno. Tudo era muito descomplicado, e Hermione gostou do lugar imediatamente.
— Boa noite — Draco cumprimentou a recepcionista, que usava calças pretas de pernas
largas, daquelas elegantes, e uma blusa branca de gola drapeada. — Mesa para dois, em nome
de Black.
A mulher levou um instante para conferir uma lista sobre o balcão com uma das unhas
pintadas de vermelho escuro e então ergueu os olhos com um sorriso.
— O quê? — Hermione ficou um pouco confusa com o comentário, até perceber que a
mulher estava avisando que podiam fazer ajustes por causa das restrições alimentares da
gravidez escancarada ali à mostra. — Ah! Certo, obrigada.
Draco pareceu um pouco desconfortável com a casualidade da mulher, mas puxou a cadeira
de Hermione com um educado:
— É uma idade fofa — Hermione comentou, contendo uma risadinha diante do olhar quase
suplicante por ajuda que Draco lançou enquanto se sentava.
— Uma idade sapeca. — A recepcionista riu. — Já mando o Martin, que vai atendê-los hoje,
vir até aqui. Se precisarem de qualquer outra coisa, meu nome é Jess, e vocês podem falar
comigo lá na frente se o Martin não estiver por perto.
Hermione perdeu completamente a batalha contra as risadas quando viu o modo como Draco
(quase) relaxou na cadeira assim que ficaram a sós. A simples afrouxada na postura sempre
impecável e o olhar levemente repreensivo que ele lançou em direção ao menu usado como
escudo de risadas bastaram para mostrar que, apesar de toda a pose de charme e confiança,
ele estava tão nervoso quanto ela com esse encontro.
— Então… como foi o trabalho? — Draco perguntou num tom estranhamente engessado,
depois de os pedidos terem sido feitos.
— Ah, foi bom — Hermione deu um gole nervoso na água e umedeceu os lábios —. O de
sempre, tentando salvar o mundo, um formulário chato de cada vez.
— Ah, isso é… — Ele se interrompeu, e os dois ficaram se encarando, meio sem graça, por
um instante, até Draco pigarrear para abafar uma risadinha.
O que, obviamente, desencadeou o riso de Hermione, e logo os dois estavam rindo alto
demais para o ambiente intimista do restaurante. Um casal mais velho numa mesa próxima
lançou um olhar que era parte divertido, parte irritado, e ambos tiveram que desviar o rosto
um do outro para engolir a vontade de rir ainda mais.
— Como é que isso ficou tão constrangedor? — Hermione disse, ainda em meio a risadinhas,
enxugando debaixo dos olhos, só para garantir que não havia borrado o rímel. — A gente
janta junto o tempo todo!
— Eu não faço ideia. — Draco resfolegou, passando a mão pelo cabelo cuidadosamente
arrumado, com um sorriso envergonhado. — Talvez porque, desta vez, os dois sabem que é
um encontro de verdade?
— Ugh. — Hermione ergueu as mãos num gesto de rendição. — Provavelmente você tem
razão. Desculpa se estou deixando tudo esquisito.
— E por que você está se desculpando? — Draco arqueou a sobrancelha. — Os dois estão
fazendo isso, então eu assumo pelo menos metade da culpa.
Hermione deu um sorriso agradecido e relaxou conscientemente os ombros. Era bobo deixar
os nervos tomarem conta, principalmente porque ela realmente não queria chorar de novo
nesse encontro e seu controle sobre os hormônios andava, no máximo, capenga. Chorando de
repente em um encontro já bastava; se fizesse isso de novo não ia ter paz nunca mais.
— Justo — ela admitiu. — Mas sim, o trabalho foi bom. O Barnabus tem sido bem
compreensivo em me deixar trabalhar no meu próprio ritmo de novo, então eu finalmente
voltei à velocidade normal. Eu já estava ficando entediada com “tarefas leves” e talvez tenha
dito algumas… coisas para ele a respeito.
— Ai, não. — Draco riu. — Espero que você não tenha assustado o coitado demais.
— Não! — Hermione fingiu indignação, em parte porque Harry e Ginny tinham feito a
mesma pergunta. — Eu fui extremamente educada. Só comentei que, embora estivesse muito
agradecida, eu não precisava mais da consideração extrema que ele estava tendo. Ele foi bem
compreensivo e nós acertamos um meio-termo aceitável.
— Entendi. — Draco ainda estava com aquele sorrisinho presunçoso, e Hermione sentiu uma
leve vontade de arrancá-lo dali com um beijo. Ou talvez um tapa. Bem leve.
— Quase esqueci de te contar. — Ela enfiou a mão no bolso e lançou um muffliato discreto,
só por precaução, caso precisassem mencionar algo mágico. — Sua mãe entrou em contato
com a Molly.
— Ai, Merlin. — O gemido de Draco saiu alto o bastante para Hermione se sentir ainda mais
grata por ter conjurado o feitiço de abafamento, nem que fosse só para poupá-los de mais
olhares escandalizados das mesas próximas. — Sobre o quê?
— O chá de bebê — Hermione respondeu, pesadamente. — O que significa que agora não
tem como escapar.
Engolindo uma risada pelo humor negro, Hermione deu tapinhas na mão dele.
— Pelo menos você pode se livrar da parte prática do chá. A Martine comentou por alto que,
tradicionalmente, é algo só de mulheres.
— Eu ainda vou ter que aguentar a minha mãe tagarelando sem parar sobre isso. — Draco fez
uma careta azeda. — Mas, se ela andou mandando coruja para a Molly, isso provavelmente
explica a carta que recebi hoje.
— Ela, ah… ela perguntou se eu tinha o contato da sua mãe. — Um leve rubor subiu às
bochechas de Draco, e ele não encarou Hermione nos olhos. — Ela provavelmente queria
envolver sua mãe no planejamento também. Formar uma espécie de trindade profana de
bobagens temáticas de bebê.
Draco, atento como era, ergueu os olhos rapidamente ao ouvir a inspiração trêmula dela e se
inclinou meio para fora da cadeira, alarmado.
— Está tudo bem — Hermione ergueu as mãos para acalmá-lo e heroicamente tentou conter
as lágrimas, o que só pareceu piorar a situação —. Só me pegou de surpresa.
— Me desculpa. — Draco voltou a se recostar, com relutância, mas estendeu a mão por cima
da mesa, num gesto de súplica. — Eu devia ter percebido que isso ia te deixar desconfortável.
Posso garantir que minha mãe não tem nenhuma intenção ruim, mas vou dizer a ela para não
se meter. Ela vai entender por que você não gostaria que a gente conhecesse seus pais agora.
— Não é isso. — Hermione se esforçou para manter a voz firme. — Não é que eu não queira
te apresentar a eles, é que eu não posso.
— O quê? — Draco pareceu genuinamente confuso por um instante, antes que uma expressão
de horror completo surgisse no rosto dele. — Mas eu pensei que eles… Nunca ouvi nada
sobre eles estarem…
Sabendo o que ele devia estar imaginando — afinal, ele crescera cercado por gente que
considerava caçar trouxas um esporte —, Hermione agarrou a mão dele e apertou com toda a
força que pôde.
— Ah. — Draco murmurou, fraco, de alguma forma ainda mais pálido que o normal.
Ela nunca tinha realmente falado sobre aquilo, nunca tinha precisado falar. Contara uma vez
ao Harry e ao Ron, lá naqueles dias duros, na estrada, em que parecia que o mundo fora da
barraca tinha desbotado no nevoeiro inglês, mas depois disso nunca mais trouxera o assunto à
tona. Se julgava que alguém precisava saber, como a Molly e o Arthur, pedia ao Harry que
contasse enquanto ela encarava o nada. Era uma lista bem curta de pessoas que sabiam o que
ela fizera e, até então, ela tinha conseguido evitar ser ela mesma a derramar dor além de uma
menção muito breve.
Foi justamente aquela aceitação simples que quebrou a represa, e as palavras começaram a
transbordar.
— Naquela época havia tanto perigo para os pais de nascidos trouxas. — Hermione olhou
para as mãos entrelaçadas, dedicando um breve pensamento ao quão improvável era o
conforto que aquele gesto lhe proporcionava —. Quando os primeiros ataques começaram, a
Ordem montou algumas proteções em torno de quem não podia se proteger sozinho. Os meus
pais estavam, compreensivelmente, bem preocupados, mas pareciam lidar de forma
relativamente tranquila com a ideia de que precisavam tomar mais cuidado. Mas daí… — Ela
puxou o ar com força e se obrigou a continuar, xingando-se por não ter contado a Draco ao
menos parte daquilo antes, nem que fosse para isso não surgir num encontro. — Mas daí tudo
ficou tão pior, tão de repente, que ninguém mais tinha tempo nem magia sobrando. Talvez eu
pudesse tê-los mantido em segurança sozinha, mas eu não podia ficar. Não se quiséssemos ter
alguma chance de vencer.
Draco a observava em silêncio, o polegar acariciando o dorso da mão dela, a expressão séria
e cheia de culpa.
— O Harry precisava de mim, e eu precisava que ele vencesse para poder viver a minha vida.
Então eu tive que fazer uma escolha. Eu escolhi… — Hermione engoliu em seco. — Escolhi
esconder os dois. Escondi tão bem que… que eles nem sabem mais que um dia tiveram uma
filha.
Outro aceno miserável de cabeça, e a voz de Hermione voltou a travar na garganta. Ela
percebia, vagamente, que não tinha lançado um feitiço ofuscador junto com o muffliato e que
a comida devia estar para chegar, mas a maior parte da consciência dela girava num vendaval
de luto e culpa.
Quase todo mundo que ouvia a história perguntava se ela tinha tentado reverter o feitiço,
sendo Bill Weasley o único familiar o bastante com Obliviações para simplesmente abraçá-la
e não emitir opinião nenhuma. Draco foi o segundo a não fazer a pergunta, e Hermione se
perguntou se era porque ele sabia que uma Obliviação tão profunda não deixava nada para ser
revertido, ou se era simplesmente a sensibilidade arduamente aprendida dele, reconhecendo
que perguntar agora seria a pior coisa a se fazer.
Em vez de fazer a pergunta para a qual Hermione se preparava, Draco inclinou-se por cima
da mesa e beijou a mão dela com toda a doçura de que ela precisava naquele momento.
— Você quer ficar? — Ele perguntou em voz baixa, oferecendo-lhe compreensão quanto aos
limites e, ao mesmo tempo, uma escolha. — Ou quer que eu peça para eles embalarem nossa
comida e a gente comer como bárbaros em cima da mesa de centro da minha sala?
Enxugando as lágrimas, Hermione sentiu um peso enorme rolar de seus ombros. Esse gesto
simples — deixar que ela escolhesse entre ficar ou ir embora, entre continuar falando ou
deixar o assunto para depois — encheu o peito dela com uma emoção que era, ao mesmo
tempo, apavorante e empolgante.
Era muita coisa para encarar naquele instante, complicada como estava pela culpa que
sempre vinha à tona quando pensava nos pais.
Guardando firmemente todo esse emaranhado para depois, junto com a conversa mais
profunda que, inevitavelmente, eles teriam que ter, Hermione respirou fundo para se
recompor e deu a Draco um sorriso de verdade.
— Vamos ficar. — Ela puxou a mão dele de volta, aproximando-a, e retribuiu o beijo com um
dela.
Chapter 26: Semana Vinte e Oito – parte 2
Diante da insatisfação óbvia dela com a vida, a mão que vinha acariciando a tal barriga
interrompeu as carícias, e uma risada, áspera de sono, aqueceu seu ombro.
Hermione permitiu que ele a apoiasse enquanto erguia o próprio corpo pouco cooperativo
para fora da cama. Mexer-se sempre era mais difícil de manhã e, por mais teimosa que fosse,
até ela podia admitir que precisava de ajuda — ainda que apenas em segredo, dentro da
própria cabeça.
Draco se espreguiçou atrás dela, na cama, enquanto Hermione seguia na direção do banheiro
da suíte, estendendo o braço preguiçosamente até o estrado da cabeceira para alongar as
costas.
— Não vai ser tão ruim assim, é só… — Draco começou a dizer, mas ela não ouviu o resto
porque fechou a porta entre os dois.
Depois de cuidar do que precisava e lavar o rosto, Hermione roubou o roupão pendurado na
parte de trás da porta e foi descendo as escadas com cuidado para se juntar a Draco na
cozinha para o café da manhã. Ele já tinha uma caneca fumegante de chá esperando por ela,
preparada exatamente como ela gostava.
— Você decidiu onde a gente vai primeiro? — Hermione perguntou, enquanto ele lhe
entregava um prato de torradas e ovos pochê.
— Decidi, achei melhor irmos nas lojas trouxas antes de enfrentar o Beco Diagonal ou
Hogsmeade — Draco franziu os lábios. — Assim a gente ganha pelo menos um tempinho
sem ser perturbado antes de ter que lutar nosso caminho no meio de hordas de ninfas-nariz-
de-borboleta enxeridas.
Quando Hermione, de má vontade, admitira que era hora de parar de procrastinar e realmente
começar a comprar coisas para os bebês, Draco a encarara com surpresa e dissera que tinha
planejado resgatar alguns móveis antigos de bebê dos cofres da família. Hermione ficara um
tanto atônita e soltou, de supetão, que móveis de bebê antigos pareciam perigosos e que ela
preferia não usar algo que podia desabar e sufocar as crianças. Draco ficara um pouco
emburrado diante da veemência dela, e os dois passaram uns bons dois dias pisando em ovos
um em torno do outro, até finalmente sentarem para conversar direito. Surpreendentemente,
com um pouco de reflexão, Draco acabou totalmente a favor de comprar tudo novo.
Hermione tinha quase certeza de que a nova consciência de Draco quanto à possível falta de
confiabilidade dos móveis herdados tinha menos a ver com o desabafo dela e mais com a
“aula de pai” a que ele fora no intervalo. Enquanto Hermione sequer tinha olhado os folhetos
coloridos sobre cursos de preparação para pais que a Curandeira Agg lhes entregara, Draco se
inscrevera com bastante entusiasmo numa aula voltada para futuros pais. Voltou da atividade,
de nome divertido “Beer ‘n’ Bubs”, com certo gingado nos passos e um bloquinho cheio de
estatísticas que ele citava ao menor pretexto.
Hermione podia tolerar que ele exibisse o novo conhecimento, se isso significasse que os
filhos dela não iam dormir em móveis que a fariam viver preocupada com a possibilidade de
carregarem alguma maldição anti-nascidos trouxas bem desagradável.
— Pela lareira, depois é uma corrida curta de táxi. — Draco tomou um gole de chá, sorrindo.
— Aí eu aparato tudo o que a gente comprar de volta antes de retornar para você, e então
vamos para o Beco pegar o que faltar por lá.
Ela já sabia de tudo isso, sabia mesmo; o problema era que Hermione achava comprar coisas
para os gêmeos tão… definitivo. Eles obviamente estavam a caminho, a barriga avançando
sobre a vida cotidiana de um jeito que tornava a reviravolta iminente da existência dela difícil
de ignorar. Mas Hermione ainda tinha muita dificuldade em, de fato, fazer alguma coisa a
respeito. Em vez de se derreter com roupinhas de bebê e planejar o berçário perfeito, ela
continuava encontrando motivos para adiar.
Mas, como finalmente fora obrigada a admitir quando teve o primeiro susto com o que se
revelou serem contrações de Braxton Hicks, e não trabalho de parto de verdade, os gêmeos
viriam de qualquer jeito, estivesse ela pronta ou não.
— Certo — Hermione murmurou, sorvendo um gole do chá. — Vou estar pronta depois que
tomar banho.
A única resposta de Hermione foi um olhar fulminante por cima da borda da caneca. O efeito
foi um pouco arruinado pelo rubor dela e pelo jeito como os lábios insistiam em querer se
curvar num sorriso, mas ela não se importou.
–
Duas horas depois, Hermione estava parada diante de um berço absolutamente perfeito e
sentiu mais um peso acomodar-se sobre os ombros.
— O que é que há de errado com esse? — Draco perguntou. — Você está olhando para ele
como se fosse pessoalmente responsável por cada mal do mundo.
— Porque não vai caber. — Hermione desabou um pouco, uma mão na barriga e a outra nas
costas doloridas.
Eles estavam circulando aquela loja havia menos de uma hora, Draco empurrando o carrinho
ainda vazio enquanto Hermione vagava pelas prateleiras intermináveis cheias de itens de
bebê bonitos (e visivelmente caros). Ela parara aqui e ali, mas ainda não tinha chegado a
levantar a mão para tocar em coisa alguma. Draco parecia tranquilo com o ritmo dela, mas
vinha ficando cada vez mais preocupado conforme todo o ser de Hermione se tornava mais e
mais apático à medida que eles avançavam por corredores de carrinhos e roupinhas
adoráveis.
— Bem, eu achei que compraríamos dois desses. — Ele lançou um olhar para trás, na direção
dela. — Não é melhor assim? Assim eles não ficam se acordando o tempo todo.
— É pior — Hermione virou as costas para o lindo berço branco, com entalhes delicados e
altura perfeita. — Nunca vou conseguir botar dois desses no meu apartamento.
— Ah. — A compreensão aflorou no rosto de Draco, que se endireitou com uma expressão
solidária. — O que é que está passando nessa cabeça, Hermione?
— Eu vou ser péssima nisso — Hermione admitiu, baixinho. — Eu não comprei nem uma
única meia minúscula ainda, quanto mais tudo o que eles vão precisar.
— Não tem problema, Hermione — Draco passou um braço em volta dela, num abraço de
apoio, puxando-a para perto. — Ainda temos um tempo até eles chegarem. Dá para deixar
tudo pronto.
— Mas a Curandeira Agg disse que provavelmente eles vão nascer antes. E se eu entrar em
trabalho de parto e ainda não tiver descoberto como enfiar os dois no meu apartamento? —
Hermione sentiu a respiração começar a acelerar e escondeu o rosto no peito de Draco. — Eu
simplesmente não faço ideia do que estou fazendo. E se eu for uma mãe horrível?
— Shh — Draco a acalmou com um afago gentil. — Você vai ser ótima, eu sei.
— Como? — Hermione respirou de modo entrecortado. — Como é que você pode saber
disso? Tudo o que eu fiz foi evitar pensar neles. Eu nem terminei todos os livros sobre
criação de filhos que a gente comprou!
— Mas você terminou a maioria — Draco beijou o topo da cabeça dela. — Vamos ficar bem,
Hermione. Eu também estou morrendo de medo, mas, mesmo se a gente não acertar tudo,
vamos amar esses bebês o suficiente para chegar perto.
— Você talvez — Hermione fungou. — Você já pensa neles como gente, mas e eu? Mal
reconheço a existência deles, a não ser para reclamar. E se eu não amar os dois? E se eles
nascerem e eu não sentir nada? Eu vou ser um fracasso completo nisso, devia ter aceitado sua
primeira sugestão e simplesmente ter deixado os dois com você.
— Isso não é verdade. — Draco se afastou um pouco para erguer o queixo dela com os
dedos, obrigando Hermione a encará-lo. — Eu vi o seu rosto quando vimos os dois no
ultrassom. Não era o rosto de alguém que não ama os filhos. Mas… — Ele hesitou,
engolindo com força. — Se você realmente achar que não quer mais isso, eu vou entender.
Foi como se ele tivesse jogado um balde de água gelada sobre ela. Normalmente Hermione
apreciava a compreensão infinita de Draco, mas naquele momento percebeu que o que
esperava era bem diferente. Era estúpido, aquele sentimento de traição por ele ter oferecido
uma saída em vez de imediatamente lutar para que ela nunca mais voltasse a insinuar algo
assim.
— Se isso fosse o que você realmente quisesse — Draco respondeu com uma voz que soava
quase morta, tão parecida com a neutralidade cuidadosa que ele assumira quando os dois se
viram enfiados nessa confusão pela primeira vez —, eu sei que isso jogou pela janela tudo o
que você achava que seria a sua vida. Mas, se eu achasse que tinha a menor chance de fazer
você mudar de ideia, eu tentaria. Por Merlin, eu usaria todo truque sorrateiro e inescrupuloso
de Sonserina que conseguisse imaginar, se isso fizesse você querer ficar comigo e com os
bebês.
Hermione murchou, todo o medo tenso escapando dela num suspiro pesado, perigosamente
próximo de um soluço.
— Eu prometo, Hermione, você vai ser incrível — Draco garantiu, encostando um beijo na
testa dela. — Não há mais ninguém no mundo que eu quisesse que fosse a mãe dos meus
filhos. Ninguém com um coração como o seu.
— De verdade, eu juro. — Draco a beijou de leve e sorriu. — Mal vejo a hora de conhecer
nossos bebês CDFs, e mal vejo a hora de você me dizer que estou segurando eles todo errado.
— Se chegar a esse ponto, tenho certeza de que ela vai ficar radiante em te mostrar como faz.
— Draco riu. — Pelo que ouvi falar, é mais provável que a gente tenha dificuldade de fazê-la
ir embora do que de pedir ajuda.
— Você provavelmente tem razão — Hermione também não conseguiu segurar o riso,
sabendo perfeitamente que Molly já tinha planos para depois do nascimento dos gêmeos. —
Eu só… só não sei quando virei essa pessoa.
— Chorona? Imagino que tenha sido por volta da época em que os meus filhos começaram a
fazer uma zona com os seus hormônios.
Draco fez cena de esfregar o peitoral atingido, franzindo levemente o cenho enquanto
pensava. Então inclinou a cabeça para o lado e apertou os lábios.
— O quê? — Hermione arregalou os olhos para ele. — Por que eu deixaria alguma coisa por
fazer?
— É claro que estou fazendo o meu trabalho, Draco! — Hermione se desvencilhou do abraço
dele, lançando-lhe um olhar fulminante. — Eu estou grávida, não morta.
— É mesmo — os lábios de Draco se curvaram num sorriso pequeno. — E fico feliz que
você consiga entender. Você tem dificuldade para se conectar com a ideia de ser mãe, eu
entendo. Mas sempre esteve mais à vontade com fatos concretos do que com coisas sem
resposta definitiva. Você passou a vida inteira precisando de provas, precisando de respostas
para as suas perguntas. Às vezes, foi literalmente questão de vida ou morte que você
acertasse essas respostas.
— E ser mãe não tem um certo e errado absolutos — Hermione suspirou.
— De jeito nenhum. Mas, com a Bruxa Mais Inteligente da Sua Geração do meu lado, estou
otimista de que vamos conseguir descobrir o caminho. — Draco abriu um sorriso
convencido. — Sem mencionar que Molly Weasley e a minha mãe, sem dúvida, vão ficar
mais do que felizes em nos aconselhar até a gente ficar completamente enjoado das duas.
— Elas vão mesmo, não vão? — Hermione suspirou. Se havia uma coisa que sabia sobre
criação de filhos, é que todo mundo tinha uma opinião. Até Rosemary Brown lhe mandara
várias cartas através do marido, cada uma lotada até a borda com conselhos bem-
intencionados e palavras de incentivo.
Draco assentiu e a virou, de forma que os dois ficassem olhando para o berço perfeito, o
braço dele um peso tranquilizador sobre os ombros dela. Hermione se encostou no calor dele,
deixando a conversa se acomodar na mente.
Era estranha a sensação que a disposição quase relutante de Draco em deixá-la ir provocava
nela. Por um lado, ela apreciava o reconhecimento de que não tinha planejado nada daquilo,
de que engravidar da forma como engravidara era a última coisa de que precisava naquele
momento da vida. Por outro lado, ouvir que ele lutaria pelos três se achasse que ela não
estava totalmente certa de querer ir embora… bem, isso enchia Hermione de um tipo de
brilho apavorante.
Ele podia ser altruísta o suficiente para deixá-la partir, se entendesse que era o que ela
realmente precisava, mas só faria isso se achasse que não havia qualquer chance de mantê-la
por perto.
— Eu ainda não sei como isso ia caber — Hermione suspirou por fim, estendendo uma mão
hesitante, cheia de desejo, para apoiar sobre a grade delicadamente curva. — Vamos procurar
um de tamanho mais adequado.
— Ou — Draco pousou a mão por cima da dela, antes que Hermione pudesse soltá-lo —
existe a outra opção.
— A casa da cidade — o meio sorriso de Draco beirava o ar de triunfo. — Ou outra casa que
você escolher.
— Nada disso — Draco a apertou contra o lado dele e levou a mão até a barriga distendida.
— Se você não consegue aceitar por você, pensa nos bebês. Eu não vou deixar você se
estressar com isso se não precisar, Hermione. — Ele se inclinou para observar o berço a partir
da altura dela. — Só pensa a respeito. A gente pode transformar o quarto de hóspedes ao lado
do escritório num berçário, com um desses encostado em cada parede e uma poltrona de
balanço combinando entre eles, para você. Você pode pintar as paredes da cor que quiser, e a
gente constrói uma estante para cada um dos dois antes mesmo de completarem um ano.
A imagem que ele desenhava era bonita. Hermione quase sentiu o sol batendo na cadeira, do
jeito certo, se ela se sentasse ali para embalar um bebê. Conseguiu ver o creme suave com
que pintaria as paredes e as duas estantes que iriam flanquear a porta. Era tão fácil imaginar a
transformação do quarto de hóspedes estéril num espaço perfeito para dois bebês.
Ela não sabia disso. Tinha parecido que, depois que Hermione começara a visitar a casa da
cidade, Draco já estava sempre lá, com exceção de uma ou duas ocasiões em que chegara
logo depois dela. Hermione, na verdade, assumira que ele passava, pelo menos, metade do
tempo no casarão e metade na casa.
— Ela poderia ser a sua casa — Draco fez uma pausa, e um lampejo de incerteza passou
pelos olhos cinzentos —. Ou a nossa casa, se isso for algo que você queira.
— Draco… — Hermione começou, apenas para a voz falhar quando percebeu que não sabia
o que dizer.
— É com você, eu prometo — Draco garantiu. — O que você decidir, eu aceito. Eu te disse
no dia depois do Natal: não vou te pressionar, e isso não vem com nenhuma corda amarrada.
Só quero que você saiba que essa opção existe.
Mais um olhar para o berço perfeita e absolutamente perfeito, imaginando dois deles no
quarto banhado de sol, e Hermione tentou permitir que parte das inseguranças desenfreadas
fosse embora.
— Tudo bem — ela murmurou, apoiando a cabeça no ombro dele. — Eu vou pensar a
respeito.
Chapter 27: Semana Vinte e Nove
Hermione só tinha ficado genuinamente nervosa por uma reunião com Barnabus Brown uma
única vez, e foi quando fez a entrevista para o cargo no departamento. Ela não tinha certeza
do que esperar do pai de sua falecida colega de quarto: se ele ficaria zangado porque ela
sobrevivera à Batalha e Lavender não, se iria culpá-la por não ter lançado um feitiço em
Greyback a tempo de salvar a filha. Ou, talvez pior, se iria recebê-la com aquela adoração
servil de herói que ela e Harry detestavam com paixão ardente.
Mas agora, estava nervosa outra vez. Caminhar pelo corredor em direção ao escritório dele
parecia incrivelmente intimidador, já que, mais uma vez, iam discutir sua situação de
trabalho. Hermione sabia que Barnabus vinha dando indiretas sobre como ela planejava
seguir depois que tivesse o filho (os filhos, como a maioria ainda não sabia) e estava um
pouco apavorada com a possibilidade de ele dizer que não poderia manter o cargo dela
enquanto estivesse de licença. Ela sabia que ele era gentil o suficiente para tentar, e já fizera
isso por outras bruxas que queriam voltar ao trabalho, mas isso não significava que ela
pudesse contar com tal garantia. Infelizmente, o mundo bruxo não tinha uma licença-
maternidade codificada em lei.
Para se acalmar, Hermione lembrou a si mesma de que trabalhava duro, levando até as partes
mais entediantes do cargo tão a sério quanto as partes mais interessantes. Ela estava ali havia
pouco tempo, especialmente se comparada com muitos dos outros funcionários, mas podia ao
menos esperar que a ética de trabalho e a qualidade do que entregava compensassem o fato
de ter só um pouco mais de um ano de casa.
Reunindo coragem para o que viesse, Hermione ergueu a mão para bater na porta de madeira
decorada com uma placa dourada anunciando o escritório do Chefe de Departamento.
— Não, não! — Barnabus a convidou com um gesto jovial, conjurando rapidamente um copo
d’água para pousar diante da poltrona vaga. — Madame McKinnon vai participar desta
reunião conosco.
— Olá — cumprimentou Madame McKinnon, com um sorriso largo que combinava com o
de Barnabus. — Que bom ver você de novo.
— Ah, não se preocupe se não se lembrar de mim — a bruxa riu de modo agradável. — Nós
só nos vimos rapidamente no elevador, alguns meses atrás.
A compreensão veio, e os ombros de Hermione relaxaram. Ela se lembrava, sim: Agatha era
o nome que a bruxa tinha dado quando correu atrás dela no elevador. Fora a primeira pessoa a
dizer que não julgava Hermione, depois daquela travessia pelo átrio, que estivera fervilhando
quase exclusivamente de fofoca sobre sua gravidez. Outras pessoas — principalmente
colegas de trabalho mais próximos — também tinham expressado esse sentimento, mas
Agatha fora a primeira a dizê-lo, e a única completa desconhecida.
— Não posso reclamar — Agatha lhe abriu um sorriso cheio de dentes. — Correndo o risco
de soar clichê, você está literalmente radiante.
Normalmente, o comentário faria Hermione fazer careta — ela ouvia aquilo umas sete vezes
por dia, com exatamente as mesmas palavras, e achava que o suposto “brilho” era o jeito
delicado das pessoas dizerem que ela parecia exausta —, mas a curiosidade venceu a reação
habitual, e ela apenas agradeceu.
— Certo — Barnabus sorriu. — Agora, conhecendo você, Hermione, imagino que esteja se
perguntando o que está acontecendo.
— Um pouco, sim — Hermione abaixou a cabeça com um pequeno sorriso. — Eu sei que
entreguei os formulários da licença na semana passada, então suponho que tenha algo a ver
com isso?
— De certo modo. Madame McKinnon aqui… — Barnabus indicou Agatha, que acenou com
os dedos — é uma antiga colega do meu irmão. Eu a encontrei por acaso no Beco Diagonal
no fim de semana, e ela perguntou por você. Comentou que tinha se encontrado com você
recentemente, e que vinha acompanhando a sua carreira com certo interesse.
— A fama das suas habilidades anda bem espalhada — Agatha deu de ombros, fazendo os
colares tilintarem à luz. — Eu vinha torcendo para que um dia pudesse roubar você do
Barnabus aqui.
— Eu sabia que o nosso encontro tinha sido conveniente demais — Barnabus soltou uma
risada, arrancando um sorriso completamente desavergonhado de Agatha.
Agatha parecia bem simpática, mas qualquer reconhecimento pessoal já bastava para fazer
Hermione se contorcer internamente.
O que não teria sido pouca coisa. Muito pelo contrário, tiraria um peso enorme do peito saber
que poderia regressar ao trabalho. À medida que a data prevista para o parto se aproximava,
ela pensava cada vez mais nos próprios planos, embora frequentemente entrasse em pânico
assim que se lembrava do quão pouco compreendia sobre aquilo em que estava se metendo.
Nas reflexões menos desesperadas, ela rapidamente chegou à conclusão de que, embora
quisesse definitivamente passar o máximo de tempo possível com os filhos, enlouqueceria se
tentasse ser dona de casa em tempo integral. Ela simplesmente não era o tipo de pessoa que
se contentaria com isso, embora respeitasse mulheres como Molly Weasley por fazerem o
que era certo para elas.
— Claro que, se isso não for algo que você deseje, vou ficar mais do que feliz em recebê-la
de volta aqui quando estiver pronta — disse Barnabus, gentil. — Eu seria tolo se não fizesse
isso. Mas, na minha opinião, você deveria ao menos pensar na proposta da Madame
McKinnon.
— Espero que pense mesmo — Agatha se inclinou para dar um tapinha na mão de Hermione.
— Esse trabalho lhe daria bastante flexibilidade e, se um dia decidir seguir outro caminho,
bem, Departamento de Mistérios sempre fica lindo num currículo.
— De que forma? Se não for incômodo perguntar — Hermione fez uma careta diante da
própria pergunta vaga. — Quero dizer, que tipo de flexibilidade ele oferece? Entendo
perfeitamente por que ter o Departamento de Mistérios no currículo é bom.
— Boa pergunta — Agatha iluminou-se. — Bem, nós obviamente lidamos com muito
material sigiloso, coisas que não podem sair das áreas seguras do Ministério. Mas também
temos um acúmulo de serviço que provavelmente vai me enterrar. — Ela soltou um riso
resignado. — Só as traduções rúnicas levariam pelo menos uns três anos para uma equipe
bem coordenada terminar, e mais material chega a cada hora. Então resolvemos permitir que
parte das coisas menos sensíveis seja feita fora do departamento, ou pelo menos saia do nível
nove para ser trabalhada. É aí que eu espero que você entre. A professora Babbling, de
Hogwarts, na verdade mencionou você pelo nome quando a procuramos para fazer algumas
traduções. Ela me disse que a sua proficiência em Runas é a maior de qualquer aluno que já
ensinou, e eu queria saber se você estaria disposta a trabalhar nesse projeto.
— Talvez ambos. Ou talvez possamos acertar algo em que você trabalhe, em casa, em parte
das traduções gerais que podem sair do Ministério, e só as devolva quando estiverem prontas.
Assim você poderia ir voltando aos poucos, em vez de tentar retomar tudo de uma vez. —
Agatha assentiu na direção da barriga de Hermione, realçada pela saia-lápis que Martine
fizera para ela. — Sem pressão, é claro, mas o Barnabus achou que talvez fosse algo que lhe
interessaria.
— Vocês confiariam isso a mim? — Hermione ficou boquiaberta. A ideia de levar para casa,
mesmo que fossem trabalhos não confidenciais, algo ligado ao Departamento de Mistérios
era chocante. Pelo que sabia, até os próprios Inomináveis eram submetidos a feitiços de
travamento de língua para impedir que falassem sem querer sobre o que faziam.
— Com algumas precauções, sim — disse Agatha, esticando a mão para pegar um
pergaminho grosso na mesa de Barnabus. — Esta é uma lista do que estamos procurando,
junto com essas tais precauções. Fique à vontade para levar com você e me dar uma resposta
quando quiser. A proposta vai ficar de pé praticamente por tempo indeterminado, só para
constar.
Hermione recebeu o pergaminho com os dedos sem firmeza, enquanto Barnabus lhe dirigia
um sorriso orgulhoso, quase paternal.
Draco parou no meio do passo ao sair da lareira dela, os olhos cinzentos girando em choque
na direção dela.
— Você o quê?
— Eu recebi uma proposta de emprego — repetiu ela, torcendo os dedos sobre a barriga. —
Para trabalhar com runas no Departamento de Mistérios. Eu ficaria encarregada de traduções
não confidenciais, aparentemente o acúmulo de serviço ficou tão ruim que começaram a
repassar coisas para fora.
— Uau — Draco abriu um sorriso, passando a mão pelos cabelos. — Isso é fantástico! É só
até os bebês nascerem, ou é algo contínuo? Você já aceitou, ou está esperando?
— Por que eu estaria? — Draco franziu o cenho. — Eu sei que você ama o seu trabalho com
Criaturas, mas você lê runas por diversão. Achei que estaria nas nuvens.
— É uma boa oportunidade — Hermione concordou, com um suspiro. — Uma daquelas que
eu imaginava considerar daqui a uns anos.
— Mas…?
— Eu não sei — ela se remexeu, desconfortável, evitando olhar para ele. — Eu só imaginei
que você talvez… quisesse que eu ficasse em casa com os gêmeos.
— Ah. — Draco veio se sentar ao lado dela no sofá, puxando-a contra o próprio ombro e
encostando um beijo no topo da cabeça dela. — Acho que entendi agora. Eu é que devia ter
deixado mais claras as minhas intenções e planos antes. Só não achei que você estivesse
pronta para ouvir, então fiquei adiando.
— Eu provavelmente nunca vou estar pronta para nada disso — Hermione admitiu, num
suspiro. — Mas a verdade é que precisamos resolver essas coisas. Então me conta: quais são
os seus planos?
— Bem, se você se lembra, eu inicialmente estava oferecendo cuidar das crianças sozinho. E
depois fiquei mais do que feliz em trabalhar com você na coparentalidade.
— Sim? — Hermione franziu a testa. — Mas com certeza isso mudou agora que nós
estamos… — ela abaixou um pouco o queixo, ainda meio sem jeito de dizer em voz alta —
juntos. Quer dizer, ainda vamos estar coparentando, mas é um pouco diferente do que eu
tinha proposto lá no início.
— Hmm, verdade. Tenho que admitir que estou bem mais satisfeito com a situação atual do
que com a de antes. Vantagens de todos os tipos — ele ergueu as sobrancelhas de forma
sugestiva, e só escapou de mais beliscões em meio a risadas ao se contorcer para longe dos
dedos dela. — Ei! Brincadeiras à parte, quando a gente se encontrou para tomar café eu já
tinha tudo planejado, caso você tivesse perdido o juízo e decidido aceitar a minha oferta. Eu
vou estar quase terminando a minha especialização quando os gêmeos nascerem, e já pedi
para diluir as últimas bancas, em vez de apresentá-las num bloco só. Eu imaginava, mesmo
na época em que falávamos em guarda compartilhada, que seria eu a ficar em casa com os
gêmeos.
— Sério? — Hermione se endireitou para encará-lo, e foi recebida por um meio sorriso que a
fez corar.
— Sério. No começo eu provavelmente não vou ter a menor ideia do que estou fazendo, mas
também provavelmente vou ter muita ajuda da minha mãe, quer eu queira, quer não. E
descobri que gosto da ideia de não fazer outra coisa além de correr atrás das crianças
enquanto crescem.
— Eu ainda vou terminá-la, só vai levar mais um mês ou dois — Draco ergueu uma
sobrancelha e tentou puxá-la de volta para o peito, mas ela resistiu, chocada demais. —
Mas…
— Mas… — Hermione gaguejou — e o que você vai fazer com isso depois? Vai terminar e
então… nada?
— Bem, por enquanto, sim. — Draco deu de ombros, claramente se divertindo com o horror
dela diante do conceito. — Quando as crianças estiverem maiores, talvez eu faça alguma
coisa com isso. Mas, Hermione, quando comecei a especialização eu nem tinha planos
firmes. Eu só precisava de algo para me manter ocupado, e sempre fui bem em Poções.
Hermione era o tipo de pessoa que sempre tinha Planos, com “P” maiúsculo. Sempre tinha
sido. Ela gostava de pensar à frente e normalmente não lidava bem quando alguém
atrapalhava os seus esquemas meticulosamente traçados. A prova disso eram os tombos
sucessivos que levava toda vez que tentava imaginar um futuro concreto em que os gêmeos
não estivessem mais dividindo o corpo com ela.
A ideia de que Draco embarcara numa especialização inteira simplesmente para ter o que
fazer era algo que escapava completamente à compreensão de Hermione.
— Não é só porque eu sou nascida trouxa — apontou Hermione. — Tem muitas mulheres
trouxas que ficam em casa com os filhos.
— Justo. Mas você é você, e eu não consigo imaginar você feliz se eu tentasse prendê-la em
casa quando você quisesse trabalhar. — Draco sorriu de forma suave. — Se isso for o que
você quiser, então eu vou, obviamente, fazer tudo o que for preciso para apoiar a sua decisão,
mas jamais exigiria isso de você.
Hermione não pôde evitar imaginar, por um instante, como essa conversa teria sido com Ron,
se o plano dele tivesse dado certo, do jeito que ele queria. Não havia a menor chance de que
ele aceitasse de bom grado mandá-la trabalhar enquanto ele ficava em casa. Ele teria exigido
que ela fosse como a mãe dele e nunca entenderia que aquilo que fazia Molly se sentir plena
só serviria para esvaziar Hermione de sua identidade.
— Você ficaria mesmo feliz em ficar em casa com os gêmeos? — Hermione perguntou,
cautelosa.
— Honestamente, isso me apavora — Draco soprou o ar, num riso curto. — Mas acho que
vou gostar. — Ele fez uma pausa, apertando os lábios como se avaliasse se devia dizer aquilo.
— Não deve ser exatamente uma grande surpresa saber que Lucius Malfoy não foi lá um
modelo de pai. Acho que… gosto da ideia de fazer melhor do que ele.
— É — Draco disse, num tom carregado. — Eu sei que isso pode soar meio bobo ou
birrento. Mas eu realmente falo sério quando digo que quero estar presente na vida dos meus
filhos.
— Certo — Hermione decidiu, de impulso. — Vamos tentar isso, depois que minha licença
terminar. Se eu aceitar a proposta de trabalho, vou ter muito mais flexibilidade de qualquer
maneira.
— Mesmo? — Draco pareceu surpreso com a prontidão da resposta. — Você confiaria eles
em mim?
— Bem, a gente vai ter quase um ano para ajustar tudo antes — Hermione deu de ombros. —
E, neste momento, acho que eu estou mais perdida do que você.
— Só até a semana que vem, de qualquer forma — Draco parecia quase radiante, e Hermione
percebeu que ele realmente queria ser o principal cuidador.
Hermione sentiu o mesmo afundamento interno que a tomou quando Narcissa descobriu o
que era um chá de bebê.
Hermione e Draco eram as pessoas mais jovens na turma para pais de primeira viagem, por
quase uma década, e Hermione se sentia desconfortavelmente deslocada em comparação com
o resto da sala. Eles, junto com outros nove casais, estavam sentados em cadeiras dobráveis
bambas, dispostas em um grande círculo, ouvindo uma enfermeira pediátrica extremamente
experiente cumprimentá-los e fazer uma breve introdução à aula. Alguns dos olhares
lançados na direção deles eram curiosos, mas havia alguns que eram francamente hostis.
Eles não tinham começado como párias; no início estava tudo indo bem. Houve um pouco de
vai-e-vem antes de a aula começar de fato; algumas interações desajeitadas, um pouco de
conversa fiada sobre datas previstas de parto e assim por diante. Hermione até tinha
começado a relaxar depois de tanto se preocupar com a possibilidade de todos perceberem o
quão despreparada ela estava. Engatar uma conversa razoavelmente interessante com outra
futura mãe, sobre o pavor mútuo em relação aos vindouros chás de bebê, fizera maravilhas
pelos nervos dela.
Nos últimos meses, Draco vinha sendo tão gentil e amável com ela. Vinha controlando e
acalmando, com tanta paciência, as emoções dela, às vezes completamente fora de controle,
que ela acabara esquecendo por completo que ele ainda era Draco Malfoy.
E Draco Malfoy não tinha muita paciência com idiotas, nem segurava a língua quando se
sentia ofendido.
Ela não podia exatamente culpá-lo, não totalmente, pelo fato de ele ter mostrado o lado mais
afiado da própria língua. Hermione não tinha certeza absoluta de por que o companheiro da
mulher com quem ela estava conversando antes do início da aula achara apropriado fazer
uma piada de que a situação de Hermione ensinaria a todos ali a tomar cuidado com a
contracepção da próxima vez. O fato de ele insistir e reforçar o quão obviamente jovens eles
eram certamente não caiu bem nem para Hermione, nem para Draco. Nem para a parceira
horrorizada.
Draco poderia, talvez, ter segurado alguns dos comentários mais ferinos a respeito da
educação do homem? Provavelmente. Mas o sujeito grosseiro realmente tinha pedido por
aquilo, então Hermione apenas deu uns tapinhas no ombro de Draco, suspirando, quando as
outras pessoas da sala começaram a perceber a bronca pública.
Na verdade, aquilo foi estranhamente um alívio para Hermione. Ela mesma tinha se atiçado
tanto com a ideia de ser julgada que, agora que de fato acontecera, simplesmente se pegou
dando de ombros para os olhares e prestando atenção na enfermeira explicando o que fariam.
Talvez fosse porque bastara menos de uma frase para que ela descartasse o homem que fizera
o julgamento como um tolo de impossível burrice, mas também pode ter sido porque ela
notou alguns olhares fulminantes sendo dirigidos a ele, em vez de a eles dois.
Além disso, ouvir Draco — com seu sotaque impecavelmente aristocrático e seu título de
lorde literal — dar uma lição de boas maneiras em um homem quase vinte anos mais velho
era, francamente, um pouco engraçado. O evidente choque do outro e o resmungo sobre
respeitar os mais velhos tornava tudo ainda mais cômico.
Por motivos óbvios, nem Hermione nem Draco davam a mínima para a ideia de respeitar
alguém só porque a pessoa viveu mais tempo. Ambos tinham aprendido muitas lições, em
diferentes graus de severidade, sobre dar respeito a quem o merecia.
— Desculpe — murmurou Draco para ela, ainda com os olhos na instrutora —, eu não devia
ter perdido a calma.
— Tudo bem, foi ele quem começou. — Hermione deu um tapinha na mão dele e se
endireitou quando percebeu que a instrutora estava terminando o discurso de boas-vindas. —
Eu não estou brava — acrescentou, num sussurro.
— Certo! — Anne Burton, a animada instrutora deles naquela noite, bateu palmas, sorrindo.
— Essa foi a parte do roteirinho. Agora, antes de seguirmos em frente, acho que todos nós
devíamos nos apresentar — ela fez um gesto abrangente, indicando a sala com um dar de
ombros. — Eu sei que todo mundo odeia essa parte, então vou manter simples. Só o nome,
com quantas semanas você ou seu parceiro está, e… — ela levou um dedo aos lábios
franzidos — ah, que tal dizer o que a gente faz da vida. Trabalho ou hobby, tanto faz. — Ela
lançou um olhar esperançoso ao redor. — Alguém quer se voluntariar?
Houve um momento prolongado em que todos evitaram encarar o outro, e então Draco
suspirou e ergueu a mão. Hermione arregalou os olhos para ele, mas ele lhe lançou uma
pequena careta, como quem diz “é melhor acabar logo com isso”.
— Eu começo — ele exibiu o sorriso mais encantador que possuía, para perplexidade de
alguns dos que tinham se incomodado com o desentendimento de minutos atrás. — Um
prazer conhecer todos. Eu sou Draco Malfoy, e estamos esperando gêmeos em algum
momento nas próximas dez semanas. Disseram-me que a data prevista é um pouco mais
incerta com gêmeos, mas supostamente é 29 de junho. — Ele lançou um olhar em volta e
recebeu um sorriso encorajador de Anne. — Atualmente estou fazendo uma graduação em
um ramo um tanto esotérico da ciência, mas, quando não estou nisso, administro a
propriedade da minha família.
— Maravilhoso — Anne sorriu com a gratidão genuína de quem viu a bola começar a rolar.
— Vamos seguir no sentido horário?
Isso significava que Hermione era a próxima, e ela deu por si endireitando a postura como se
tivesse sido chamada para responder uma pergunta por algum professor em Hogwarts. A
mudança súbita, e totalmente instintiva, não passou despercebida por Draco, que precisou
disfarçar uma risada com uma tosse. O sorriso dele, quando Hermione lhe lançou um olhar
aborrecido, foi tão afetuoso que ela decidiu que iria perdoá-lo pela provocação. Desde que ele
implorasse o suficiente mais tarde e, talvez, providenciasse lasanha da Mama’s.
— Ahm, oi — Hermione acenou de forma desajeitada, nem de longe tão hábil quanto Draco
para esconder o desconforto. — Meu nome é Hermione Granger e, como o Draco disse,
estamos esperando gêmeos para 29 de junho. Ahm, eu trabalho com conservação ambiental
para o governo. Ah, e… talvez eu comece em breve um trabalho com tradução de línguas
antigas. — Ela lançou um olhar desesperado em volta, depois encolheu de volta na cadeira,
murmurando: — É… isso.
Felizmente, a maioria dos outros parecia tão desconfortável quanto Hermione na hora de se
apresentar. Com exceção, previsivelmente, do homem que Draco tinha repreendido. O nome
dele acabou sendo Connor, mas Hermione imediatamente decidiu pensar nele como Cormac,
devido à semelhança com o fanfarrão que ela levara ao Baile de Natal do Slughorn por pura
birra. A apresentação dele foi de longe a mais longa e incluía o seu trabalho (um cargo em
consultoria financeira tão enrolado que ele descreveu em um jargão absolutamente
indecifrável) e seus muitos hobbies (mencionou várias vezes que com certeza poderia ter
jogado no Manchester United se não tivesse escolhido outro caminho). Quando Anne
finalmente conseguiu cortá-lo da forma mais diplomática possível, vários risinhos ecoavam
pela sala, e Hermione se perguntava se ele não era, na verdade, um parente trouxa há muito
perdido da família McLaggen.
A parceira dele, Phoebe, estava coradinha quando descreveu, de forma muito mais sucinta, o
próprio trabalho (era professora de crianças com necessidades especiais), e Hermione até se
pegou amolecendo um pouco em relação a Connor quando o viu sorrir, orgulhoso, enquanto
ela falava. Talvez ele estivesse se comportando de forma grosseira por puro constrangimento.
Então Hermione o viu revirar os olhos diante da fala animada da próxima mulher, que
descrevia o hobby de fazer bolos, e voltou à opinião original. Decidiu que iria simplesmente
ignorá-lo, mesmo que gostasse bastante de Phoebe.
— Certo — Anne bateu palmas. — Agora fomos todos. Bem, eu sei que essa turma é para
pais de primeira viagem, mas quantos de vocês têm experiência com crianças pequenas?
Bebês na família, filhos de amigos, esse tipo de coisa?
Algumas mãos se ergueram, a maioria de forma hesitante. Anne olhou em volta e assentiu
com ar sábio.
— Cerca de metade de vocês — ela entrelaçou as mãos no colo e se inclinou para a frente. —
E quantos se sentem confiantes para cuidar de um recém-nascido?
Todas as mãos caíram, e uma risada irônica percorreu o grupo. A própria Hermione deu uma
risadinha de alívio, de repente se sentindo menos sozinha. Nem mesmo o excessivamente
confiante Connor mantivera a mão levantada, e quase todos trocavam olhares que refletiam
um alívio igual ao dela. Pelo que Hermione havia entendido enquanto todos circulavam antes
da aula começar, ela não era a única que vinha devorando um número enorme de livros sobre
criação de filhos; e agora sabia que também não era a única que se sentia completamente
perdida, apesar de todo aquele conhecimento teórico (frequentemente contraditório).
— Isso é normal — garantiu Anne. — Posso dizer, sem medo de errar, que tive meu primeiro
filho depois de ter trabalhado cinco anos como enfermeira pediátrica, e mesmo assim senti
que não fazia ideia do que estava fazendo. — Ela puxou os lábios de lado, numa careta
autodepreciativa. — Sabem qual foi a primeira coisa que eu disse quando colocaram minha
filha nos meus braços? “Mas eu não sei o que fazer com o meu próprio bebê.” Achei que
minha mãe fosse dar risada até passar mal.
Espalhou-se um riso geral, e era como se um cobertor físico de preocupação tensa tivesse
sido arrancado da sala. De repente, todos respiravam melhor, agora que sabiam que até a
experiente Anne havia se sentido um pouco fora de profundidade.
Os vinte minutos seguintes foram tomados por uma quantidade impressionante de variações
de maneiras de segurar um bebê. Hermione ficou espantada de haver tantas e rabiscava
freneticamente anotações sobre elas no pequeno caderno que trouxera especificamente para
isso. Tentou esboçar alguns dos jeitos, mas desistiu rapidinho, vendo que aquilo ia dar em
nada, e voltou a fazer tópicos sobre os supostos benefícios de cada posição. Por um instante,
pensou em arrumar uma penseira para rever a aula antes de os gêmeos nascerem, depois se
repreendeu por estar sendo ridícula.
Pensando bem, talvez valesse a pena perguntar a Draco se a família dele tinha uma. Mal não
faria estar preparada.
Anne fez questão de mencionar que, contanto que o bebê estivesse apoiado, eles podiam
segurá-lo como funcionasse melhor; mas Hermione se sentia extremamente cética quanto à
própria capacidade de descobrir, sozinha, alguma coisa que “funcionasse”. Decidiu que ia se
certificar de que Molly estivesse lá para corrigir qualquer tentativa de improviso que ela
ousasse fazer.
Depois da demonstração, Anne voltou à caixa e começou a distribuir bonecos para todos.
Hermione ficou um pouco grata por o da instrutora ser o único que parecia tão real — era
francamente assustador o quanto se parecia com uma criança de verdade.
Quando passaram o boneco para que ela e Draco praticassem, Hermione ficou totalmente
atônita com o quanto ele parecia pequeno. Bebês não podiam ser realmente tão pequenos
assim, podiam? Talvez fosse porque havia dois deles chutando a coluna dela o dia inteiro,
mas era impossível que saíssem tão minúsculos quanto aquele serzinho de plástico em suas
mãos.
Como acontecia com muitas das pequenas anedotas que Draco contava sobre Narcissa,
Hermione não tinha certeza se acreditava. Simplesmente não combinava com a imagem que
tinha da bruxa severa. Mas, pensando que Narcissa não tinha sido muito mais velha do que
ela própria quando teve Draco, talvez não fosse tão absurdo assim.
— O quão furiosa ela vai ficar por você ter me contado isso? — Hermione murmurou,
experimentando outra maneira de segurar o boneco, que, felizmente, pareceu bem mais
natural.
— Ah, muito — Draco riu, sem arrependimento. — Até eu explicar que foi tudo em nome de
tranquilizar você. Ela me perdoa por causa dos netos.
Anne vinha circulando pela sala enquanto todos experimentavam as posições, parando em
cada dupla para tirar dúvidas e ajudar a deixar todos mais à vontade com a sensação daquilo
que era tão desconhecido. Ela ia contornando o círculo devagar, rindo e repetindo que, na
verdade, não existiam tantas “regras” assim, que era só seguir o que fosse melhor para cada
um. Ressaltou que a cabeça precisava estar apoiada, mas o resto ficava a critério do conforto
do bebê e do adulto.
Quando chegou em Hermione e Draco, estendeu o boneco mais realista que segurava,
sorrindo.
— Eu devia ter dado dois para vocês logo de cara — disse ela. — Gêmeos podem ser um
pouco… interessantes, de equilibrar no começo, então vamos acostumar vocês a isso desde
já, certo?
Hermione ficou boquiaberta até que Anne se abaixou para ajudá-la a ajeitar o corpo de modo
que coubesse um bebê em cada braço. Ela ficou sentada rígida, mal ousando respirar, olhando
para o rosto do boneco que acabara de receber.
Ele tinha um cabelo loiro-claro na cabecinha, e ela não pôde evitar olhar para os próprios fios
sedosos de Draco.
— Você está ótima — ele sorriu, quando percebeu que ela o observava.
— Estou com cara de que vou derrubá-los — Hermione engoliu em seco, arrancando risadas
de Draco e de Anne.
— Você vai se sair muito bem — tranquilizou-a Anne, agachando-se para ajudar Hermione a
acomodar os bonecos. — Como eu disse, todo mundo se preocupa no começo. Se estiver
mesmo com muito medo, tenho certeza de que sua parteira vai adorar ajudar.
Hermione pensou em Healer Agg, e um pedaço considerável da preocupação se dissolveu.
Ainda mais do que Molly, Healer Agg provavelmente ficaria feliz em instruí-la com todos os
detalhes sobre como evitar derrubar seus recém-nascidos na primeira tentativa de pegá-los no
colo. A bruxa tinha aquela aura de competência absoluta e, provavelmente, sabia ao menos
dezessete maneiras diferentes de aparar um bebê no ar se um pai desajeitado o escorregasse.
— Pelo menos, com dois bebês, ela e Molly podem segurar um cada — Hermione reprimiu
um sorriso. — Menos briga por causa deles, espero.
Hermione riu quando ele se mostrou tão nervoso quanto ela ao segurar dois bonecos
inanimados.
Ele ficou imóvel como se estivesse petrificado, quando os bonecos foram cuidadosamente
transferidos para os braços dele — manuseando-os como se fossem bebês de verdade.
Hermione tinha absoluta certeza de que ninguém mais na sala seria capaz de notar o
nervosismo dele; para qualquer pessoa que não o conhecesse, devia parecer, no máximo,
moderadamente interessado no processo. Mas Hermione o conhecia, então a coluna
impecavelmente reta e o leve estreitar das sobrancelhas o denunciavam para ela.
— Está indo bem — Anne se endireitou com um aceno orgulhoso. — Vou deixar vocês em
paz. Gritem se precisarem de mais ajuda.
Depois que todos tiveram tempo de se acostumar com os bonecos, Anne anunciou um
intervalo curto e disse que aprenderiam a trocar, vestir e enrolar os bebês em cueiros depois
do chá. Hermione aceitou a ajuda de Draco para se levantar e foi direto na bandeja de
bolachas. Ela tinha notado um pacote de Oreos americanos e queria pelo menos um.
— Eles parecem tão minúsculos — murmurou para Draco, já com o biscoito na mão. — Eu
me sinto enorme agora, mas eles vão ser tão pequenos quando nascerem.
— Eu sei! — Phoebe surgiu ao lado deles, com um Connor visivelmente mais contido ao seu
ombro. — Eu nunca segurei um recém-nascido antes, mas a Anne disse que aqueles bonecos
são do tamanho médio.
Ela parecia um pouco receosa quanto à recepção, mas determinada a tentar. Hermione ficou
grata pela iniciativa, porque, de outro modo, provavelmente não teria tido coragem de ir
puxar assunto com nenhum dos outros casais.
Ela podia até não culpar Draco pelo sermão que ele deu em Connor após o comentário sem
noção, mas isso tornava a ideia de se aproximar de alguém e começar uma conversa algo bem
intimidador.
— Os nossos provavelmente vão ser ainda menores — Draco comentou, lançando um olhar à
barriga de Hermione e depois a Phoebe, com um pequeno sorriso. Ele se esforçou para não
olhar diretamente para Connor, mas também não torceu o nariz para ele. — Nossa Hea…
doutora disse que eles estão medindo muito bem, mas gêmeos têm que dividir o espaço aí
dentro.
— Nossa, nem consigo imaginar! — Phoebe riu, passando a mão pela própria barriga. — Eu
sinto como se um só já fosse pesado o bastante.
— Eu não conheço outra realidade — Hermione deu de ombros. — Mas sei que minhas
costas estão sempre me matando.
— A Phoebe sempre precisa de uma boa massagem no fim do dia — Connor assentiu,
pomposo. — Fiz até um curso completo quando começamos a tentar. Foi bem útil quando ela
começou a se sentir péssima depois de passar o dia correndo atrás da turma dela.
Hermione não pôde evitar lançar um olhar para Draco e viu os olhos dele se estreitarem
levemente. Connor não parecia estar fazendo nada além de um pouco de autopromoção, então
ela deu uma cutucada de leve em Draco, pelo cotovelo, para que deixasse por isso mesmo. O
homem estava claramente tentando ser educado, sem dúvida depois de ter ouvido algumas
verdades ao pé do ouvido da adorável Phoebe. Diante disso, ela pediu em silêncio que Draco
não morder o anzol de um comentário que, ao que tudo indicava, nem fora feito com
intenção.
Felizmente, Draco pareceu pensar da mesma forma. Deixou passar com nada além de um
revirar de olhos quase imperceptível.
— É maravilhoso — Phoebe sorriu para o parceiro. — Uma massagem bem feita foi tudo o
que ele precisou para me convencer do nome que queria.
— Você já gostava do nome — Connor revirou os olhos, sorrindo. — E vocês dois? Escolher
dois nomes facilita ou dificulta?
— Ahm… — Hermione corou e desviou o olhar. Ela tinha tentado, de verdade, pensar em
nomes para os gêmeos, mas só tinha conseguido chegar aos nomes do meio.
Não era como a antiga recusa em lidar com qualquer coisa ligada a “bebê”. Era mais que ela
se sentia terrivelmente presa a uma ideia que surgira na noite depois do ultrassom, quando
descobriu que teria um de cada sexo. Ela soube imediatamente que queria dar aos gêmeos os
nomes originais dos pais, mas rapidamente chegou à conclusão de que não poderia usá-los
como primeiros nomes. Hermione desejava desesperadamente homenagear os pais, mas sabia
que não suportaria ficar chamando “Rose” ou “Hugo” o tempo todo.
— Bem, admito que já montei uma lista — Draco a encobriu, com naturalidade. — Só estou
aparando algumas opções antes de mostrar para a Hermione.
Isso não surpreendeu Hermione nem um pouco, e ela ergueu os olhos para ele, com uma
sobrancelha levantada.
— Tradição de família — Draco deu de ombros. — Draco é uma constelação, e é bem raro
alguém na família da minha mãe receber um nome que não seja assim. Pelo que dizem,
minha avó só conseguiu o que queria com o nome da minha mãe porque ela era a terceira
filha, e meu avô já tinha desistido de brigar com ela por causa disso nessa altura.
— Ah, entendi — Phoebe pareceu um pouco decepcionada por ser algo tão mundano quanto
tradição familiar. — Bem, tenho certeza de que vão ser lindos.
O The Fairies Garden era exatamente tão chique e sofisticado quanto Hermione se lembrava.
A mesma bruxa da primeira visita a cumprimentara e guiara Hermione e sua acompanhante
até o mesmo salão que Narcissa havia reservado da outra vez.
À distância, ela se perguntou se algum dia conseguiria aproveitar a adorável casa de chá sem
pensar em conversas altamente estressantes.
— Fleur adora este lugar — Molly lhe contou animada, enquanto elas serpenteavam por entre
as mesas em direção ao fundo da casa de chá. — Ela diz que é “inglês demais”, é claro, mas
vem aqui o tempo todo com as amigas.
— Sério? — Hermione perguntou, num fio de voz, deixando que a bruxa sorridente
entrelaçasse seus braços no caminho de volta.
Hermione tinha seriamente considerado cancelar aquele almoço — estar grávida vinha com
uma infinidade de desculpas convenientes para justificar por que alguém estaria indisposta
demais para sair de casa —, mas tinha uma leve desconfiança de que Molly e Narcissa
simplesmente se convidariam para ir ao seu apartamento se ela o fizesse.
A ideia de ser pega fingindo estar doente por duas das matriarcas mais intimidantes que
conhecia não era nada atraente.
— Ah, sim — Molly riu. — Você sabe como é a Fleur. Ela me disse que eu devia provar o
bolo de limão quando falei que viria, mas tentou fingir que não queria que eu levasse um
pedaço de volta pra ela.
Era fácil imaginar a conversa exata, e Hermione se perguntou quanto da “sugestão” de Fleur
era, na verdade, um pedido. Podia ser bem difícil perceber com a gentil bruxa francesa, e
Molly podia simplesmente estar interpretando demais uma recomendação sincera. Ou então
Fleur podia estar absolutamente morrendo de vontade de um pedaço do bolo de limão e
tentando pedir sem correr o risco de ofender a sogra, que podia, de fato, ser um tanto
suscetível se a sua habilidade culinária fosse colocada em questão.
— Acho que provei na última vez — Hermione admitiu, depois de vasculhar cuidadosamente
a memória. — Mas eu estava um pouco distraída, então não consigo lembrar de uma única
coisa do que comi.
— Não se preocupe, querida — Molly disse com um sorriso afetuoso, quando a porta do
salão privado foi empurrada para que entrassem. — Vamos garantir que você experimente
tudo o que quiser hoje.
— Sem dúvida — Narcissa se levantou da cadeira com a elegância de uma dançarina, o rosto
completamente impassível como de costume. — Que bom vê-la, Hermione; e a senhora
também, sra. Weasley. Obrigada por aceitarem o meu convite.
Nos últimos meses, Hermione tinha aprendido um pouco mais sobre como “ler” a mãe de
Draco. Não era fácil, nem de longe, mas ela começara a reconhecer os pequenos sinais nas
expressões de Narcissa. A covinha minúscula na lateral da boca era o mais óbvio, mas Draco
lhe dera a dica de observar a tensão nas sobrancelhas ou o peso nas pálpebras.
A não ser que Hermione estivesse muito enganada, a composta e régia Narcissa Malfoy
olhava para a acolhedora e calorosa Molly Weasley com uma boa dose de apreensão.
Não era preciso muita imaginação para supor o porquê. Ou talvez fosse preciso um bocado de
imaginação — destrinchar as muitas, muitas razões pelas quais as duas poderiam estar em
desacordo era uma tarefa e tanto. Reduzir isso a um único motivo seria um exercício de
futilidade para o qual Hermione não tinha qualquer paciência.
Houve um momento incrivelmente tenso em que Hermione rezou para que nenhuma das duas
puxasse a varinha, e então Narcissa assentiu com suavidade e indicou que Molly se sentasse.
— Oh, estou bastante animada — a bruxa quase sorriu, acomodando-se. — Um neto é uma
coisa maravilhosa de se esperar. — Ela olhou em volta para se certificar de que a porta estava
fechada antes de acrescentar: — Ainda mais dois.
— Ah, claro — ela assentiu na direção de Hermione com um pequeno sorriso. — Hermione
será uma mãe maravilhosa, não acha?
Hermione ouviu a pergunta carregada de intenção e decidiu manter-se bem longe de qualquer
coisa até que Molly e Narcissa estivessem mais acomodadas. Ela realmente tinha esperança
de que a correspondência aparentemente regular entre as duas, nas semanas anteriores ao
encontro, tivesse lhes dado tempo para resolver as coisas, mas, ao que parecia, ainda
precisavam de um pouco de espaço para “limpar o ar”. Hermione concluiu que o melhor seria
deixá-las tirar isso do sistema em vez de se colocar no meio.
Além disso, se elas conseguissem irritar uma à outra o bastante, talvez cancelassem o chá de
bebê.
Um pouco mais animada com essa possibilidade, Hermione pegou discretamente uma
madeleine e começou a beliscá-la enquanto as outras duas bruxas tinham o seu pequeno tête-
à-tête.
— Acredito que esteja certa — Narcissa concordou com um aceno solene. — Meu Draco é
bastante encantado por ela e vive me contar o quanto está empolgado com a chegada
iminente dos gêmeos, e boa parte disso parece estar ligada à expectativa que tem de ver a
Hermione como mãe. Tenho ficado muito feliz em vê-los se aproximarem tanto, mesmo sem
casamento ou um relacionamento romântico envolvido.
Hermione quase engasgou com a mordida que estava na boca e deu o melhor de si para
engolir discretamente, para não chamar atenção direta para si mesma.
— É mesmo? — Molly perguntou. — Não vejo o seu menino desde Hogwarts, então não
posso dizer nada a respeito.
A desaprovação no tom de Molly fez com que Hermione corasse, culpada. Ela teria mesmo
que providenciar um encontro adequado entre Draco e os Weasley, e logo. Molly claramente
achava que era Draco quem os evitava, não Hermione evitando tudo.
— Draco é uma pessoa muito reservada — Narcissa respondeu friamente, bem menos
disposta a deixar algo passar em branco se a insinuação atingisse o filho em vez dela. —
Tenho certeza de que ele e Hermione também têm estado bastante ocupados se preparando
para a maternidade e a paternidade. — Os olhos dela deslizaram até Hermione, que afundou
um pouco mais no assento, sem querer ser arrastada ainda mais para aquele conflito. — Ele
está determinado a ser um pai maravilhoso e, pelo que entendo, está igualmente decidido a
ser um parceiro e co-pai maravilhoso para a Hermione.
— E a senhora está de acordo com isso? — perguntou, erguendo o queixo num desafio
teimoso.
Suspirando delicadamente, Narcissa uniu as pontas dos dedos à frente do rosto e encarou
Molly, firme, do outro lado da mesa lindamente posta.
— Mas? — Molly instigou, com a intimidante paciência de quem criou sete encrenqueiros.
Molly pareceu genuinamente pega de surpresa e então ficou mais pensativa. Ela franziu os
lábios por um momento, e Hermione prendeu a respiração, esperando para ver se a
notoriamente explosiva bruxa continuaria a apertar o cerco agressivamente ou se deixaria
passar com aquela garantia vaga de que Narcissa não estava prestes a começar a discursar
sobre os netos serem “meio-sangue”.
Narcissa simplesmente esperou com paciência que Molly digerisse suas palavras, lançando a
Hermione um minúsculo sorrisinho de segurança, deixando claro que, pelo menos em parte,
estava preparada para um interrogatório. Era tão parecido com a expressão muitas vezes
presunçosa de Draco, quando ele se sentia no controle de uma situação, que Hermione teve
de conter um risinho.
— Entendo — Molly disse, por fim. — E se as coisas evoluírem entre a Hermione e o jovem
Draco?
— Quando meu filho me explicou pela primeira vez que ele e Hermione não planejavam se
casar, o que senti foi bastante… complicado — ela lançou um olhar saudoso para Hermione,
o azul dos olhos suavizado. — Por um lado, eu temia que a decisão de não entrar num
casamento adequado levasse Draco a ser afastado de seus filhos, o que seria devastador para
ele. Por outro… devo admitir que senti alívio.
Um pequeno som indignado escapou de Molly, mas um gesto pedindo paciência, vindo de
Narcissa, fez com que ela recuasse, o rosto contraído. Hermione sabia que Narcissa tinha
mais a dizer, mas estava incrivelmente nervosa com a possibilidade de a mãe do seu (meio)
namorado dizer que ainda se sentia aliviada por eles não estarem romanticamente envolvidos
— pelo menos, não que ela soubesse.
— Na época, devo confessar que achei que talvez o arranjo deles deixasse Draco livre para
cortejar uma bruxa que eu consideraria mais adequada — Narcissa suspirou delicadamente e
baixou os olhos para o colo. — Alguém que eu mesma teria escolhido para ele.
— Justamente — Narcissa voltou a olhar para Hermione, com um tipo de culpa suave. —
Achei que talvez eu pudesse ajudá-lo a encontrar uma senhora que lhe permitisse manter uma
relação superficial com o seu filho… perdão, seus filhos… e, ao mesmo tempo, satisfazer as
visões que eu tinha em relação ao futuro dele. Incluindo outros filhos para levar adiante o
nome da família do modo que fui criada para considerar “adequado”. Percebi que isso era
apenas… — ela suspirou de novo, baixinho — bem, errado, para falar bem francamente. Ao
longo dos últimos meses, percebi que Draco nunca seria feliz seguindo um roteiro decorado,
traçado gerações atrás. Além disso, percebi que Hermione representa muitas das qualidades
que eu desejaria para o meu filho e para a mãe dos meus netos. — Ela fez menção de
continuar, mas fechou os lábios com um pequeno cenho franzido.
— Ora, é claro — Molly falou com firmeza, assentindo como se Narcissa não estivesse quase
se remexendo na cadeira com as confissões. — Hermione é uma garota adorável, e devo
admitir que sempre sonhei que ela seria uma filha maravilhosa — para qualquer um, se não
desse certo com o nosso Ron.
Ela não culpava Molly pelas atitudes do filho, nem de longe, mas com frequência desejava
poder esquecer que a bruxa que ela via quase como uma mãe substituta era tão intimamente
ligada ao homem que achou uma ideia brilhante enganá-la para que ficasse grávida.
Ron não necessariamente merecia a proteção do silêncio dela, mas Hermione também não
queria complicar, nem por acidente, a relação com o restante da família Weasley — que se
tornara uma parte enorme da rede de apoio dela no mundo bruxo.
— E foi isso que acabei percebendo — os lábios pintados de rosa de Narcissa se curvaram no
menor dos sorrisos. — Tanto que estou mais do que disposta a simplesmente me sentar e
aproveitar os netos. Draco e Hermione vão fazer o que quiserem, e eu sou apenas uma
espectadora; aqui para mimar os filhos deles, que serão sem dúvida adoráveis, e nada mais.
— Eles serão lindos — Molly ponderou, com um sorriso próprio, liberando o resto da tensão
e acomodando-se com o ar de um gato doméstico satisfeito. — Espero mesmo que herdem os
cachos da Hermione.
— Não ficariam adoráveis com a coloração do meu Draco? — Narcissa concordou, com mais
veemência do que Hermione achava que o comentário exigia.
— Mas é evidente que não estamos aqui para especular sobre o cabelo dos meus netos —
Narcissa pegou um bule de chá e serviu três xícaras da infusão perfumada à mão. — Estamos
aqui para planejar um chá de bebê.
Quando Molly assentiu com entusiasmo, Hermione relaxou e decidiu que faria ao menos um
esforço para aproveitar o processo de planejamento. Se duas mulheres tão diametralmente
opostas podiam se unir por causa daquilo, talvez valesse a pena deixar de lado a sua birra e
permitir que elas simplesmente curtissem celebrar os gêmeos.
— Bem, vai ser pequeno — Hermione explicou a Draco naquela noite. — Eu não sou muito
de multidões, então a Molly me ajudou a conter os… hum… impulsos mais extravagantes da
sua mãe.
— Ela estava bem inclinada a convidar todo mundo que conhecia, mais todo mundo que nós
conhecíamos — Hermione estremeceu só de imaginar ser exibida na frente de todo mundo no
mundo bruxo. Parecia um pesadelo completo, e ela estava grata por Molly ter percebido o
desespero dela em escapar de tal destino.
— Ela não teria feito isso — Draco levou a mão para trás, dando um tapinha no pé descalço
de Hermione. — Não depois de perceber que você não quer tanto alarde.
Hermione ainda estava um pouco cética quanto a Narcissa perceber isso sozinha, mas apenas
sorriu para o namorado em vez de apontar isso.
Realisticamente, ela sabia que fora em grande parte ideia dela manter tudo tão rigidamente
em segredo. Draco estava a bordo, sendo extremamente protetor da própria privacidade, mas
ela era a força motriz por trás do quão poucas pessoas eles tinham contado. Onde Draco
parecia tranquilo com o fato de serem só os dois, feliz em fazer piadas sobre as pessoas
descobrirem que eles estiveram juntos o tempo todo quando já tivessem netos, o coração de
Hermione disparava, nauseado, só de pensar em mais gente fofocando sobre ela.
— Claro — Draco soltou uma risada seca. — Quer dizer, só me dá um pouco de aviso antes,
pra eu conseguir impedir qualquer plano de casamento instantâneo que ela comece a bolar,
mas nós vamos ter que contar em algum momento. Ela ficaria bem irritada comigo se a gente
simplesmente aparecesse casado um belo dia.
— Você quer se casar comigo? — Hermione ergueu os olhos, tímida. Não tinha
necessariamente pensado tão à frente, mas, como sempre, Draco parecia ser mais proativo do
que ela quando se tratava de planejar o futuro deles.
— Bem, ahm, sim. Eventualmente, imagino — Draco pareceu um pouco pego no flagra,
como se tivesse revelado muito mais do que pretendia. — Mas só se isso for o que você
quiser.
— Eu não sei — ela confessou, depois se sentou ereta de sobressalto quando o rosto de Draco
caiu. — Não desse jeito! — apressou-se em tranquilizá-lo. — Eu só… eu tenho aproveitado
tanto a gente simplesmente estar junto que não parei pra pensar em muito mais que isso.
— Graças a Merlin — Draco gemeu, fazendo Hermione rir. — Pensei que você estivesse
tentando me dispensar de forma gentil, por um segundo.
— Ah, isso — Draco fez um gesto melodramático de alívio, desabando teatralmente no colo
dela. — Bom, agora você sabe que eu penso dessa forma, e agora eu sei que você não é
totalmente contra. Simples o bastante.
— Por enquanto — Hermione sorriu, tímida. — Eu vou tentar não dar isso como garantido,
prometo. Não vou enfiar a cabeça na areia e deixar você fazer todo o trabalho; isso não seria
justo com você.
Hermione sabia exatamente como era ser a pessoa que carregava sozinha toda a carga
emocional de um relacionamento e percebeu que estava perigosamente perto de colocar esse
peso em Draco. Até agora, não tinha percebido o quão fácil era fazer isso, especialmente com
Draco constantemente deixando que ela escapasse impune.
Chegara a hora de ela parar de permitir que isso acontecesse e, por sorte, ela tinha uma ideia
bastante boa de como começar.
A verdade é que Hermione já sabia que, eventualmente, teria de aceitar a oferta de Draco de
uma moradia mais espaçosa. Ela não conseguira nem fazer caber, direito, os berços que
haviam comprado no próprio apartamento, e eles já estavam lá em cima, no quarto de
hóspedes do sobrado de Draco. Junto com praticamente tudo que tinham adquirido para os
gêmeos. Se isso não era um bom sinal de que estava na hora de se mudar, Hermione não
sabia o que seria.
— Você o quê? — Draco parecia completamente sem rumo diante da determinação súbita
dela e ficou ali encarando-a, as sobrancelhas erguidas num espanto total.
— O que trouxe isso à tona? — ele perguntou, um sorriso começando a puxar os cantos dos
lábios.
— Bem, acho que talvez eu tenha sido meio boba com algumas coisas — Hermione
confessou. — Tudo estava mudando, sem qualquer participação minha. Eu só… queria algo
familiar.
O sorriso provocador de Draco suavizou, e ele segurou as mãos dela, beijando os nós dos
dedos um por um.
— É claro — ele ergueu os olhos por debaixo dos cílios, com sinceridade. — Você tem todo
o direito de querer algo que possa controlar.
— Talvez, mas você parece feliz lá — Draco ponderou. — Às vezes as coisas simplesmente
funcionam assim.
— As estantes que eu pus no lugar do Ron ajudaram bastante com isso — Hermione
comentou, com um sorriso travesso. — Mas, de qualquer maneira, por mais que eu tenha
aprendido a amar o lugar, ele simplesmente não é grande o suficiente pra mim e dois bebês…
— Ela parou para reunir toda a sua famosa coragem. — Ou pra você.
— Quando digo que devo me mudar pro seu sobrado, quero dizer com você — Hermione se
recusou a piscar, sustentando o olhar chocado de Draco com cada grama de determinação que
possuía. — Se isso for algo que você queira.
Draco claramente queria, e muito. Assim que o choque passou, Hermione se viu com um
Draco Malfoy muito feliz, beijando-a até deixá-la completamente sem fôlego.
— Por Merlin, sim! — ele murmurou entre beijos quase eufóricos em qualquer parte dela que
alcançasse, enquanto os dois riam juntos. — Quando? Hoje?
— Me dá tempo pra fazer as malas! — Hermione protestou, arfando, quando Draco começou
a mordiscar a pele sensível do pescoço dela.
— Deixa os meus elfos domésticos cuidarem disso — ele deslizou uma mão exploratória até
o peito dela, silenciando na hora qualquer protesto de que ela podia fazer tudo sozinha. —
Eles vão ficar nas nuvens.
Hermione apenas revirou os olhos e deixou que ele continuasse com as atenções. Discutiria
com ele sobre isso depois; por ora, tinha coisas bem melhores para fazer.
Chapter 30: Semana Trinta e Dois
Hermione repetia para si mesma, vezes e mais vezes, que não era bom para os bebês ela ficar
tão nervosa o tempo todo. Constantemente. Ad nauseam.
Tudo o que isso conseguia era fazê-la se sentir ainda mais ansiosa por estar prejudicando os
gêmeos com sua catastrofização e seus humores fora de controle. Era um infeliz carrossel do
qual ela desejava desesperadamente conseguir descer. Mas já fazia tempo que ela se resignara
ao fato de que um dos sintomas dos hormônios enlouquecidos parecia ser sua personalidade
já ansiosa entrando em espiral muito além do controle.
Naquele momento específico, porém, ela sentia que estava muito, muito justificada em ter
vontade de sair correndo aos gritos para as terras selvagens.
Ao lado dela, no sofá, Draco estava sentado com a coluna rígida e uma fina máscara de
indiferença por cima da própria apreensão. Os dois observavam a Floo do sobrado como se
ela fosse explodir, de mãos unidas, úmidas de suor. Hermione continuava imaginando se não
haveria mesmo uma explosão até o fim daquele encontro, e sua mente rodava uma
apresentação constante de todas as maneiras como aquilo podia dar errado.
Ela tinha estado tão tranquila naquela manhã, os dois tinham. Draco carregara a última caixa
de livros dela para o escritório que ele havia designado como sendo dela no sobrado,
flexionando os braços dentro da camiseta e perguntando se fazer aquilo “do jeito trouxa” o
tornava irresistivelmente atraente. A pose dele lhe rendeu um riso debochado, e um aceno da
varinha dela desempacotou os livros antes mesmo de ele ter apoiado a caixa no chão de
verdade. O clima era leve, e eles tinham rido juntos enquanto os livros flutuavam até seus
lugares nas prateleiras, concluindo de vez a mudança de Hermione para o sobrado.
Bizzy, o elfo doméstico, tinha ficado por perto, observando a cena com um ar nitidamente
desaprovador por não ter sido autorizado a fazer toda a mudança.
Hermione tinha ficado um tanto hesitante, para dizer o mínimo, em aceitar a ajuda de um elfo
doméstico não liberto numa casa em que ela realmente ia morar. Quando os elfos da Mansão
o procuraram para falar sobre a mudança de residência, Draco não se deu ao trabalho de
discutir o assunto com ela; simplesmente deu permissão para Bizzy negociar diretamente
com Hermione.
Levou uma hora e vinte minutos até Hermione chegar ao compromisso de deixar Bizzy
encarregado da limpeza e de ajudar com os gêmeos durante o expediente, em troca de Bizzy
concordar em tirar um dia de folga por semana. Ela até ficou um pouco orgulhosa de não ter
cedido à ideia de ter uma equipe completa de elfos domésticos residentes quando Bizzy
passou de instruções severas a súplicas com olhos cheios de lágrimas.
Mas, no fim das contas, Hermione teve de admitir que Bizzy era bastante eficiente. Ela podia
valorizar isso numa pessoa ou elfo, e decidiu, em algum momento entre empacotar as
próprias peças íntimas e Bizzy desempacotá-las com um estalar de dedos, que encontraria um
jeito de trabalhar com ele em termos que satisfizessem ambos. Começando por deixar
Hermione cuidar de todas as próprias calcinhas sozinha.
Eficiência era bom, era ótimo. Significava que pelo menos o sobrado estava perfeitamente em
ordem enquanto Draco e Hermione esperavam para lançar mais uma bomba sobre a mãe dele
e os Weasley mais velhos.
Narcissa foi a primeira a sair pela Floo, pontual ao segundo. Usava elegantes calças palazzo
azul-safira e uma blusa de seda creme, o que fez Hermione ficar boquiaberta de choque ao
constatar que Narcissa Malfoy estava usando calças.
— Olá, Draco — ela assentiu para o filho, tirando o delicado chapéu de bruxa que combinava
com as calças. — Hermione, querida, como foi a mudança? Bizzy se colocou à disposição?
— Ah, sim — Hermione se sacudiu para sair do choque enquanto Draco pegava o chapéu da
mãe e beijava a bochecha que ela lhe oferecia. — Desculpe, seja bem-vinda, Narcissa.
— Obrigada, Hermione. Oh, não, por favor, não se levante. — Narcissa afundou em uma
poltrona com um pequeno suspiro. — Tenho de admitir que também preciso tirar meus pés
do chão. Passei a manhã inteira visitando um possível local para o chá de bebê.
— Sério? Achei que fosse ser na Toca — Hermione franziu levemente a testa. Tinha certeza
de que isso fora o que Narcissa e Molly haviam resolvido quando se encontraram para o chá.
— Ah, seria, mas recebi uma carta da sra. Weasley ontem à tarde explicando que algumas das
árvores do pomar deles caíram vítimas de uma infestação de fadinhas. — Narcissa
estremeceu delicadamente à menção das travessas pestinhas. — Então, para não termos de
tratar todas as suas convidadas por causa de mordidas, buscamos um outro lugar. Eu
pretendia lhe perguntar hoje se você teria algum local de preferência, agora que a Toca foi
descartada.
— Ah. Não, eu não tinha outro lugar em mente — Hermione disse, com uma pequena
pontada de tristeza.
A Toca tinha se tornado um lugar terrivelmente especial para Hermione ao longo dos anos,
do mesmo jeito que os moradores (a maior parte deles, pelo menos) tinham se tornado. Ela
tinha ficado realmente bastante encantada quando Molly sugerira que o chá de bebê fosse lá,
como se fosse o único cenário possível, e ficara bem satisfeita quando Narcissa concordou
sem pestanejar.
Ela certamente não conseguia se imaginar curtindo um chá de bebê sediado na Mansão, por
mais bonitos que fossem os jardins.
— Nesse caso, acho que você pode gostar do local que tenho observado — Narcissa disse
com um aceno. — O proprietário não está em residência, mas os elfos domésticos dele
adoram os jardins e praticamente têm tido carta branca neles desde o fim da guerra. Talvez
isso lhe interesse, se nada mais.
— Mãe — Draco a interrompeu. — Você está mesmo planejando o que eu acho que está?
— Se você quer dizer Nott Hall, então sim. — Os olhos de Narcissa se estreitaram
ligeiramente para o filho. — Você tem alguma objeção?
— Não, nenhuma. — Ele soou como uma criança repreendida. — Só estava confirmando.
— Joguei alguns dos nossos quadros lá também — Draco murmurou para Hermione, com um
sorriso nada arrependido. — A mamãe ainda está brava porque não a convidei para queimar o
retrato da minha bisavó. Ela aparentemente chamou minha mãe de “uma praga paliducha na
família” no casamento dela.
— Maravilha, vou informar a sra. Weasley quando ela chegar. — Narcissa conferiu um
pequeno relógio de pulso e então olhou ao redor da sala. — Sabe, querido, este sobrado
realmente foi um investimento muito acertado. Quando você insistiu em comprá-lo para
terminar sua condicional aqui, eu jamais teria imaginado que seria tão útil, especialmente
depois que você voltou para a Mansão. Já está tudo instalado?
— Certo, vou preparar o chá — Draco se levantou abruptamente, escapando do olhar que a
mãe lançava aos dois.
— Os Weasley já devem chegar — ela tentou não guinchar, sem muito sucesso. — Tenho
certeza de que a Molly vai ficar feliz por você ter encontrado um lugar tão bom.
— Claro, o local é tão importante — ela disse delicadamente. — Quase tão importante
quanto a companhia, pode-se dizer.
O sorriso que Hermione conseguiu em resposta deve ter ficado completamente insano, mas
felizmente ela foi poupada de mais constrangimento quando a Floo se acendeu e os Weasley
saíram dela.
— Molly! Arthur! — Ela se ergueu com esforço para cumprimentá-los. — Como vocês
estão?
Molly piscou algumas vezes, surpresa com a recepção entusiasmada de Hermione, depois
lançou um olhar desconfiado para o ponto onde Narcissa se levantava com graça.
— Ah, sim, nós tivemos uma consulta na quarta para discutir o plano de parto. Tudo parece
um pouco aterrorizante, pra ser honesta, mas a Curandeira Agg tem sido muito minuciosa em
garantir que eu tenha todas as informações. Você sabia que às vezes eles até precisam
recorrer a cesarianas? Eu sei que são bem mais fáceis de curar do que a versão trouxa do
procedimento, mas eu meio que esperava que a magia tornasse isso um pouco redundante. —
Ela estava tagarelando, mas simplesmente não conseguia parar. — Ah! E aparentemente os
bebês estão indo muito bem, com todas as partes certas e o número correto de dedinhos.
— Que ótimo, Hermione — Arthur deu a volta na esposa, que parecia dividida entre rir e
desconfiar de que Narcissa era a responsável pela ansiedade de Hermione, e beijou de leve a
bochecha da jovem. — Está chegando na parte pontuda agora, logo você vai olhar pra eles
correndo por aí e se perguntar aonde foi parar o tempo. Parece que em um piscar de olhos já
estão marchando para Hogwarts, pode apostar!
— Ou tendo filhos deles mesmos — Narcissa interveio com suavidade. — Sr. e sra. Weasley,
que prazer vê-los.
— Sra. Malfoy — Arthur a cumprimentou um tanto desajeitado, e então se virou para encarar
o bruxo que surgira hesitante da cozinha com uma bandeja de chá nas mãos. — E o jovem
Draco. Como vai, rapaz?
— Muito bem, sr. Weasley. — Draco pousou a bandeja e estendeu a mão para um aperto. —
Muito obrigado por terem vindo. — Ele se voltou para Molly e fez uma reverência educada.
— Sra. Weasley, muito obrigado por organizar o chá de bebê da Hermione. Sinto muito saber
do problema com o pomar.
— Uma confusãozinha — Molly pareceu um pouco atrapalhada com a cortesia dele, mas
logo se recuperou. — Obrigada por nos receberem. Fiquei contente que Hermione tenha
aceitado sua oferta, aquele apartamento dela não tinha nem de longe espaço suficiente pros
gêmeos.
— Ah, sim, eu fiquei bem feliz em poder ajudar — Draco disse, desajeitado. — Gostariam de
uma xícara de chá antes de Hermione lhes mostrar a casa?
— Obrigada, Draco — Narcissa voltou à própria poltrona com um gesto amplo na direção do
bule. — O que você escolheu para hoje?
— Hortelã e gengibre — Draco explicou, servindo uma xícara para cada um. — O favorito
da Hermione no momento.
— Sim, felizmente tem sido tudo bem simples. — Draco sorriu para Hermione ao se
acomodar entre ela e Arthur. — Ela tem lidado muito bem com tudo isso, então eu não
precisei fazer nada muito drástico em termos de poções.
Hermione não tinha certeza de estar lidando “muito bem” com a gravidez, mas apreciou o
comentário de Draco assim mesmo. Sorrindo por trás de um gole de chá, ela o observou
servir as figuras parentais presentes com seus modos antiquados em plena exibição. Molly
parecia um pouco encantada com a deferência dele, e Hermione soltou um pequeno suspiro
de alívio quando a bruxa ruiva lhe deu um sorriso genuíno de agradecimento pelo chá.
— Você pode simplesmente chamar de “telly”, Arthur — Hermione sorriu, satisfeita com a
previsibilidade da obsessão de Arthur por tudo que é trouxa. Ponha-o numa sala com
qualquer coisa eletrônica e você tinha um quebra-gelo garantido.
— Coisa maravilhosa — Arthur devolveu o sorriso. — Um dia você devia vir me ajudar a
descobrir como é que eles enfiam todas aquelas imagens lá dentro.
— Elas são transmitidas de outro lugar, mas talvez o George queira ajudar? — Hermione
sugeriu, já bem habituada a escapar de sessões no galpão. — Embora ele possa dar um jeito
de fazer o negócio jogar queijo em quem estiver assistindo.
— Aprendemos a não subestimar o George e o amor dele pela travessura — Molly suspirou.
— Da última vez foi o toca-discos. Ele se esgueirou até o galpão do pai e conseguiu fazer
com que só tocasse limericks indecentes. Pior, encontrou um feitiço que fazia eles grudarem
na cabeça, e nós não conseguimos parar de pensar neles por três dias inteiros.
— Entendo… — Narcissa, pela rara vez, ficou sem saber o que dizer, e se escondeu atrás de
um educado gole de chá.
Draco estava comprimindo os lábios para conter o riso, e Hermione o cutucou com força nas
costelas. Ele enrugou o nariz para ela, mas sossegou com um revirar de olhos.
— Falando em vizinhos — Molly pousou a xícara e virou-se completamente para o casal
mais jovem. — E a casa, já têm tudo o que precisam?
— Ah, sim — Hermione pigarreou e flexionou os dedos no colo. A tentação de agarrar a mão
de Draco era imensa, mas ela resistiu. — Hum, na verdade… já que estamos falando da casa,
temos algo pra contar pra vocês.
Dos três convidados, nenhum deles pareceu surpreso. Eles simplesmente esperaram enquanto
Hermione e Draco se remexiam.
— Certo, bem, vocês sabem que este sobrado, tecnicamente, é do Draco, não é? — Hermione
esperou que todos confirmassem com a cabeça antes de prosseguir. — Bem, ele o ofereceu
para mim no Natal, para mim e para os bebês, e eu fui um pouco teimosa no começo. Achei
que conseguiria fazer o meu apartamento funcionar, mas… ele não tem realmente espaço pra
crianças. E, além disso, houve algumas… mudanças no nosso, ah, no nosso
relacionamento… — A voz foi diminuindo. Todas as palavras do discurso que ela tinha
ensaiado enquanto Bizzy transportava seus pertences para o sobrado fugiram completamente.
Ela não conseguia formar uma frase coerente diante das expressões levemente expectantes
que encarava.
Notando o desconforto dela, Draco pousou a mão sobre a dela e ergueu o queixo, desafiador:
— O que a Hermione está tentando dizer é que eu também me mudei para o sobrado em
tempo integral e nós estamos juntos. — Ele engoliu em seco e perdeu um pouco da confiança
ao olhar para a mãe. — No sentido de que estamos romanticamente envolvidos para além do
nosso desejo de co-criar os gêmeos.
Houve um momento de silêncio enquanto todos se encaravam. Então Molly se inclinou para
a frente e pegou um biscoito.
— Que coisa mais linda — disse ela, como se Draco tivesse apenas comentado sobre o clima.
— Hermione, espero que você não leve isso a mal, mas nem você nem meu filho são
particularmente sutis nas suas afeições — Narcissa disse com gentileza. — Não vou falar
pelos outros, mas eu sei já faz algum tempo.
Hermione corou até a raiz dos cabelos ao perceber que tinham sido apanhados em flagrante, e
muito bem apanhados.
— Meu Deus — murmurou Hermione. Ela achava que estava fazendo um bom trabalho em
manter a vida privada, bem, privada, mas aparentemente era tão transparente quanto vidro.
— Pra ser justa, a gente conhece você desde os onze anos — Molly sorriu, com um ar muito
parecido com o da filha quando Ginny tinha algo travesso em mente. — Os pais sabem certas
coisas sobre os filhos, como você mesma vai descobrir logo.
A mortificação lutou com a felicidade de ouvir Molly reclamá-la como uma das suas, e
Hermione sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ela as fungou para dentro antes que
derramassem e respirou fundo para esmagar qualquer vontade de chorar.
— Bem, acho que é isso então — ela disse, tão factual quanto conseguiu. — Nenhum de
vocês se importa?
— É a sua vida, querida — Molly disse com carinho. — Contanto que ele te trate bem, eu e o
Arthur não vamos nos preocupar.
— Eu vou, prometo — Draco declarou com sinceridade, e então se voltou para Narcissa. —
Mamãe?
— Meu querido, será que eu não deixei dicas suficientes de que gostaria de ter a Hermione
como nora? — Narcissa ergueu a sobrancelha, um sorrisinho muito à la Draco assombrando
seus lábios.
Hermione observou Draco tentar esconder a alegria evidente e sentiu como se o próprio
coração tivesse se enchido de luz. Ambos sabiam que Narcissa, e em menor grau Molly,
queriam que eles se casassem; mas nem Hermione nem Draco tinham de fato esperado uma
aprovação tão genuína.
Quando discutiram contar ou não às pessoas sobre aquela nova fase da complicadíssima
história deles, os dois tinham encarado aquela conversa específica com a mentalidade de
“arrancar o band-aid de uma vez”. Por isso decidiram contar aos três juntos, e nada tinha
acontecido como em qualquer um dos cenários que imaginaram.
Quando Narcissa expressou, durante o almoço de planejamento, que Hermione possuía
muitas das qualidades que ela teria valorizado numa esposa para Draco, Hermione não
percebeu o quão literal aquilo era. Também não tinha notado que a pergunta pontiaguda de
Molly sobre um possível relacionamento vinha carregada de um peso de conhecimento real
por trás.
As duas não estavam apenas se alfinetando por cima das belas louças do Fairies Garden —
estavam medindo o que a outra sabia.
Tomada por um afeto gigantesco por todos os presentes, Hermione virou o rosto e o escondeu
no ombro de Draco. Ele levou a mão até a cabeça dela, acolhendo-a, e Molly soltou uma
risadinha sábia.
Felizmente, Narcissa veio em socorro de todos antes que a coisa ficasse constrangedora
demais, mudando de assunto com toda a suavidade de uma bruxa que fora, durante anos, a
joia da coroa da sociedade mágica. Beliscando os biscoitos de Draco e tomando o chá
preparado por ele, conversaram sobre Nott Hall e suas virtudes como local para o evento até
Hermione se sentir pronta para exibir o quartinho dos bebês.
Ao contrário dos temores de Hermione, o dia tinha começado com leveza e risos, e terminou
do mesmo jeito.
Chapter 31: Semana Trinta e Quatro
Para surpresa de ninguém mais do que dela mesma, Hermione estava de fato gostando de seu
chá de bebê.
Talvez fosse porque ela tinha sido a principal fonte de Etiqueta de Chá de Bebê tanto para
Narcisa quanto para Molly e, portanto, tinha mais controle sobre o que elas sabiam para
planejar, talvez fosse porque as duas bruxas por algum motivo tinham se tornado mais do que
um pouco competitivas para ver qual delas conseguiria ser a mais atenciosa com ela.
Hermione honestamente não sabia o motivo exato de o chá de bebê ter desviado da coisa toda
frufru de seus piores pesadelos, mas qualquer que fosse a sorte cósmica que havia interferido,
ela era grata por isso.
Até a lista de convidados estava bem tranquila. Narcisa tinha deferido a Molly a lista de
convidados, e Molly tinha se saído muito bem. Fleur conversava amigavelmente com Gina
enquanto beliscavam alguns aperitivos, as gêmeas Patil discutiam animadamente algo
envolvendo o céu com Carina e Rosemary, Molly tomava chá com Minerva McGonagall e
Angelina Johnson, e até mesmo Andromeda Tonks tinha conseguido ir e olhava ao redor com
apenas o menor indício de constrangimento.
A própria Hermione conversava com Narcisa, Luna e o único convidado masculino (por ser o
anfitrião); Theo Nott.
Os jardins de Theo tinham se mostrado absolutamente tudo o que prometiam ser. Para uma
leitora ávida desde a infância como Hermione, tinha sido como entrar no País das
Maravilhas. Os jardins obviamente tinham sido dispostos de forma semelhante ao que ela
tinha visto dos terrenos dos Malfoy, com sua rigidez formal e simetria quadrada. Mas então
os elfos tinham recebido carta branca e tudo ganhara uma qualidade feérica que fazia o lugar
inteiro transbordar magia.
Sebes que tinham passado séculos sendo domadas em ângulos exatos e linhas severas agora
cresciam seus próprios caminhos, afastando-se bem devagar das restrições impostas sem
serem negligenciadas nem por um instante. Canteiros de flores que antes tinham sido
organizados para exibir cada flor como uma peça individual agora corriam desenfreados, com
seus habitantes originais crescendo de forma exuberante lado a lado com flores silvestres.
Gramados que tinham sido rigidamente monocultura e aparados a uma altura exata agora
estavam salpicados de trevo e tomilho rasteiro. Abelhas e outros polinizadores mais mágicos
mandavam no pedaço onde antes só borboletas eram toleradas.
Não havia outro jardim como aquele que Hermione já tivesse visto, e o encantador elfo
doméstico chamado Genno, que a tinha guiado no fim de semana anterior ao chá de bebê,
tinha estufado o peito de orgulho diante de sua reação maravilhada. Hermione tinha passado
uma tarde inteira percorrendo os jardins e os terrenos com Theo e Draco a reboque e tinha
bombardeado Genno com perguntas sobre absolutamente tudo enquanto o elfo mostrava,
empolgadíssimo, o orgulho e a alegria dos elfos Nott. A abundância deixara Hermione
maravilhada, e ela disparava de flores mundanas, porém bonitas, a raras ervas mágicas com
tanta rapidez quanto conseguia administrar em seu estado grávido. Draco parecia dividido
entre implorar que ela tomasse cuidado e um carinho divertido diante de suas perguntas
atropeladas, enquanto Theo simplesmente parecia francamente divertido.
Quando Genno lhes serviu chá na estufa exuberante, Hermione já tinha se apaixonado pelos
jardins, e aquele foi o momento exato em que ela começou a sentir empolgação de verdade
com o chá de bebê em vez de pavor.
— O quarto dos bebês está, na verdade, bem em branco por enquanto — ponderou Narcisa,
não pela primeira vez, trazendo a atenção de Hermione de volta à conversa. — Acho
interessante que Hermione e Draco tenham decidido decorar de acordo com a personalidade
das crianças. Passei tempo demais me atormentando com a decoração do quarto do Draco e,
quando ele tinha dois anos, eu estava bem contrariada porque não combinava nem um pouco
com o meu pequeno Dragão. Tive que mudar tudo, até a cor do carpete.
Hermione riu, em parte porque era estranhamente reconfortante sempre que os Malfoy faziam
referência às dificuldades de maternidade precoce da aparentemente imperturbável Narcisa,
mas também porque o quarto dos bebês tinha tons neutros e móveis simples porque era isso
que ela tinha preferido. Ela adorava os berços lindamente simples e a cômoda-trocador, e as
linhas limpas da cadeira de balanço de bétula com que Draco a tinha surpreendido a
acalmavam. Encher tudo aquilo de tralhas parecia um sacrilégio de algum modo.
Mas Molly e Narcisa, vindas de uma geração que adorava um bibelô independentemente de
qualquer divisão de classe, tinham decidido em comum acordo que a natureza esparsa do
cômodo tinha um motivo bem diferente. Diante desse mal-entendido, Hermione e Draco
simplesmente tinham sorrido e depois rido até não aguentarem mais assim que ficaram a sós.
— Vou ter que mandar alguns dos sifões de zumbum dos ouvidos do Papai — disse Luna,
sonhadora. — Tenho certeza de que Hermione não vai querer que os filhos dela fiquem com
as cabeças enevoadas. Com ela e Draco sendo tão inteligentes, o risco de uma infestação é
bem alto. Eles vão ficar lindos pendurados como um mobile.
— Ah, isso parece... legal — gaguejou Hermione, ignorando firmemente o jeito como Theo
tentava encontrar seu olhar com um sorriso maroto no rosto. — Falando em inteligência,
Theo, você precisa me contar como enfeitiçou os convites para permitir a entrada dos
convidados.
— Mesmo? — Hermione voltou-se para Narcisa, que pareceu um pouco surpresa por um
momento antes de voltar toda a sua atenção à conversa.
— Provavelmente eles não querem crianças bloqueando seções da escola a não ser que os
amigos delas tenham a pedrinha certa — comentou Luna vagamente. — Embora isso tenha
acontecido algumas vezes com o meu dormitório.
Hermione sorriu com simpatia para a bruxa loira. Luna tinha sido desagradada por muitos
anos por causa de sua personalidade estranha; até a própria Hermione demorara a se afeiçoar
a ela, e os colegas de classe de Luna tinham se encarregado de fazer questão de que ela
soubesse como eles se sentiam. Era revoltante saber que eles tinham mudado de atitude tão
rápido assim que Harry ficou amigo dela, e Hermione se alegrava, de certo modo, que Luna
nem tivesse notado as súbitas investidas de amizade que não passavam de tentativas
desesperadas de se aproximar do “Escolhido”.
Ela estava prestes a dizer mais alguma coisa sobre os feitiços em si e sobre a necessidade de
uma aula de feitiços mais corriqueiros em Hogwarts, quando percebeu que Narcisa estava
outra vez olhando para o lado.
Não era preciso ser um gênio para descobrir o que tinha chamado a atenção dela, e Hermione
disfarçou uma mudança de posição como um ajuste do volume dos gêmeos para poder
murmurar de forma mais discreta às bruxas mais altas.
— Você devia ir falar com ela — sugeriu, inclinando a cabeça na direção da mesa onde
Andromeda tomava seu chá com uma expressão pensativa no rosto.
— Talvez mais tarde, eu não gostaria de estragar a sua festa com o meu drama familiar.
— Você não vai — garantiu Hermione, pousando hesitante uma mão sobre o antebraço de
Narcisa. — Ela provavelmente também quer falar com você.
Por um momento, Narcisa nada disse. Então assentiu de leve e pousou a própria mão sobre a
de Hermione.
— Obrigada, Hermione — murmurou, e então deslizou até a mesa da irmã com uma graça
desafiadora.
As irmãs nem se olharam por um instante, a tensão de tudo o que tinha acontecido entre elas
se acomodando como um cobertor espesso. Então Andromeda disse algo com um gesto na
direção de Hermione, e Narcisa chegou até a dar um de seus raros sorrisos.
Elas ficariam bem, e Hermione abriu um largo sorriso ao se virar para lhes dar mais
privacidade. Provavelmente já estava na hora de “dar outra volta” pela festa mesmo.
Ela conversava com Molly e Rosemary sobre seus planos de fazer um jantar para Draco no
aniversário dele na semana seguinte, implorando pela receita Weasley de bolo de maçã
invertido (ou, na pior das hipóteses, por um bolo pronto), quando um dos elfos domésticos da
casa Nott apareceu ao seu cotovelo com um estalo brusco.
— Jolly sente muito estar interrompendo — disse o elfo doméstico, com uma reverência
nervosa —, mas tem um bruxo aqui pedindo para ver a srta. Granger. Ele tem um convite,
mas o mestre Theodore disse que não era para ter bruxo nenhum além dele na festa.
Hermione franziu a testa. Quem no mundo teria um convite e ainda não estaria ali? E ainda
por cima um bruxo. Talvez fosse Draco, ele parecia o mais provável de ter dado um jeitinho
de conseguir um convite para poder ver como as coisas estavam.
— Certo, vou lá ver o que ele quer — suspirou Hermione, dispensando com um gesto Molly
e Rosemary quando elas se ofereceram para ajudá-la a se levantar. — Provavelmente é só o
Draco. Ele anda meio superprotetor à medida que a data de parto se aproxima — explicou.
— Ah, todos ficam assim. O meu Barney teria me colado na cama se pudesse. Toda vez que
eu sequer me mexia ele já queria me levar para Mungo’s.
— Arthur foi assim com os primeiros dois — concordou Molly, com ar sábio. — Quando os
gêmeos nasceram ele já tinha relaxado um pouco.
Hermione sorriu o caminho inteiro até a sala de recepção, sentindo-se leve e feliz com o jeito
como a tarde tinha sido tão tranquila. Ela entrou pela porta no ambiente lindamente
mobiliado já com uma saudação a Draco nos lábios, esperando tranquilizar o namorado de
que estava bem antes de mandá-lo de volta. Então toda a felicidade murchou, e ela desejou
ter perguntado ao elfo quem era o bruxo.
Rony Weasley se remexia perto da lareira, a boca franzida num biquinho azedo enquanto
olhava ao redor da sala luxuosa. Ele não poderia estar mais deslocado se tentasse, embora
obviamente tivesse feito algum esforço para se arrumar. Hermione não lembrava de tê-lo
visto de camisa de colarinho a não ser quando ele era obrigado a usar uma em algum evento
de verdade, e as calças dele eram definitivamente de uma qualidade melhor do que as que ela
se lembrava de ele usar antes. Mas o desconforto visível fazia com que ele se destacasse
como um polegar dolorido em meio à elegância discreta do Salão Nott.
— O que você está fazendo aqui? — exigiu Hermione, cruzando os braços sobre a barriga.
Os olhos de Rony dispararam para ela e depois fugiram do jeito como o vestido bem cortado
acentuava sua barriga.
— A gente precisava conversar — resmungou ele, desajeitado. — Achei que você ia fazer
essa festa na Toca.
Hermione ia matar Gina por perder o convite e nem perceber. As bruxas Weasley tinham
chegado juntas, e o convite de Molly provavelmente tinha servido, sem querer, para as duas.
— Você precisa ir embora. — Ela apontou para a lareira atrás dele. — Isso é completamente
inapropriado, Rony.
— Eu sei, tá bom — ele encolheu os ombros, mas não fez menção de ir embora —, mas achei
que você preferiria isso a eu aparecer no seu trabalho.
— Você achou que eu ia querer que você aparecesse no meu chá de bebê? — Hermione
zombou.
— Bom, não, mas eu não sabia como mais te achar — ele deu de ombros. — Além do mais, é
só uma festa. Você odeia festas.
— Se tem alguma coisa que você precise dizer, podia ter mandado uma carta — Hermione
sacudiu a cabeça e engoliu a sensação crescente de lágrimas furiosas que ameaçavam
aparecer. Ela não era uma pessoa de festas, normalmente, mas Rony parecia gostar de pegar
qualquer coisa que a celebrasse e transformá-la em algo sobre ele. — Mas, a não ser que seja
um pedido de desculpas de verdade pelo que você fez, então eu não quero ouvir.
— Isso é parte disso, eu juro — Rony ergueu as duas mãos num gesto apaziguador, dando um
passo à frente que ele desfez quando a mão de Hermione foi em direção à varinha. — Eu
pensei em tudo desde que te vi no jogo, muito, e sei que fui completamente idiota. Nunca
devia ter feito aquilo, devia ter conversado com você sobre o que eu estava sentindo. Eu só...
— Rony passou a mão pelos cabelos ruivos, soltando o ar num sopro trêmulo. — Depois que
a gente perdeu o Fred eu senti que tinha que fazer tudo antes que fosse tarde demais. Ele era
tão novo, mas mesmo assim... mesmo assim morreu. Eu só ficava pensando: e se isso
acontecer comigo, sabe?
— E você acha que isso desculpa ter tentado me prender com um filho seu? — cuspiu
Hermione. — Você realmente acha que qualquer coisa poderia desculpar me dar uma poção
contra a minha vontade?
— Bom... — Rony deu de ombros, desconfortável. — Eu não sei, Mione. Eu só senti você
escapando de mim e entrei em pânico.
— Nós... — ela apontou com ênfase entre os dois, o gesto afiado de irritação — estávamos
nos afastando porque a gente não conseguia encontrar nenhum tipo de meio-termo, Ronald.
Eu tentei, Deus sabe como eu tentei, mas você nunca parecia achar que era o bastante! Cada
coisa que eu queria fazer por mim mesma, você fazia um escândalo até conseguir o que
queria. — Ela o encarou com um olhar frio que faria até Filch orgulhoso. — Nós somos
mágicos, Rony, vivemos muito. Se eu quisesse esperar até os vinte e cinco anos para me casar
para pelo menos começar a me estabelecer na minha carreira, então você devia pelo menos
ter conversado comigo sobre isso.
— Não conversou! — retrucou Hermione. — Você mencionou uma vez que queria se casar
nos próximos dois anos e, quando eu disse que meados dos vinte me parecia bom, você ficou
amuado por duas semanas! Aí, menos de um mês depois, você saiu simplesmente anunciando
para todo mundo que a gente ia se casar sem mais nenhuma discussão!
— Bom, eu achei que você ia dizer sim! — berrou Rony, o temperamento fino como uma
folha de papel cedendo. — Achei que a gente ia ficar junto de qualquer jeito, então por que
você não diria?
— Sério, Rony? — Ela ergueu o queixo num meneio de desdém que parecia tanto com Draco
nos dias mais irritados que até o surpreendeu. — Você realmente acha que eu teria dito sim,
ou você anunciou no meu aniversário como se eu já tivesse dito porque sabia que eu não diria
e estava esperando que eu ficasse envergonhada demais para te contradizer na frente de todos
os nossos amigos?
A expressão no rosto de Rony era notavelmente parecida com a que ele tinha exibido quando
ela lhe mostrou o frasquinho de Razorano Pole pela primeira vez. Ele sabia que tinha sido
desmascarado e tentava decidir qual seria a melhor forma de sair daquela situação. Hermione
notou, com um tipo de interesse meio distante, que conseguia ver o exato momento em que
ele decidiu tentar causar o máximo de dano possível para desviar dos próprios erros.
— Bom, você parece bem feliz de estar se acomodando como dona de casa do Malfoy —
latiu ele. — Tanto faz aquela sua carreira, né?
A tensão feia se esticou entre os dois, vibrando com cada sentimento ferido de ambos os
lados, justificados ou não. Hermione se recusou a desviar o olhar e, fiel ao próprio caráter,
Rony era teimoso demais para perder um concurso de encarar. Eles simplesmente ficaram ali
parados, se encarando, as mãos fechadas em punhos e nenhum dos dois disposto a ceder.
Hermione tinha uma certa esperança de que Rony realmente pedisse desculpas em vez de
ficar só dando desculpinhas, de que ele pelo menos fosse embora para lamber as próprias
feridas bem longe dela. Mas os olhos de Rony se estreitaram naquela expressão familiar de
orgulho teimoso, e ela soube que provavelmente teria que pedir a Theo que o jogasse para
fora antes que ela o almadiçoasse com algo horrível e possivelmente ilegal.
Hermione soltou cada último resquício de ar dos pulmões, expulsando junto cada último
pedacinho dela que ainda esperava que Rony mostrasse sequer uma fagulha do garoto por
quem ela tinha estado tão desesperadamente apaixonada, num passado enevoado que ela mal
conseguia lembrar agora. Isso deixou uma parte dela oca e toda arranhada por dentro, mas
Hermione tinha certeza de que era o começo de ela conseguir se curar.
Ela sabia que Rony nunca acreditaria que ela simplesmente esquecera a poção — na verdade,
ela mal acreditava que tinha esquecido a poção. Então ela nem tentou convencê-lo, limitando-
se a lhe lançar um olhar desafiador.
— Valeu a pena me jogar fora por causa do seu próprio egoísmo, Ronald? — Ela repousou
uma mão sobre a curva da barriga e inclinou a cabeça. — Valeu a pena me violar daquele
jeito? Valeu a pena trocar minha poção contraceptiva por uma poção de fertilidade e destruir
cada última chance que a gente tinha de tentar resolver as coisas?
Rony abriu a boca para responder, com algo desagradável, pelo jeito da expressão, quando os
dois perceberam que já não estavam mais sozinhos.
— Você fez o quê?! — Molly Weasley tinha um grito maternal que poderia reduzir qualquer
um ao tamanho certo, e o rosto de Rony empalideceu tão rápido ao som da voz dela que
Hermione se surpreendeu de as sardas ainda terem qualquer cor.
Ambos os combatentes se viraram tão depressa que Hermione quase tombou, conseguindo se
segurar por pouco no encosto de uma cadeira. Molly estava parada na porta com o ar ao redor
crepitando de raiva. As bochechas estavam perigosamente vermelhas, e ela encarava o caçula
com uma mistura de decepção, descrença e fúria pura.
— Mãe! Não é o que você está pensando! — Rony tentou voltar atrás.
— Você trocou a poção contraceptiva dela? — sibilou Molly, a voz subindo a cada palavra.
— Não ouse mentir para mim, Ronald.
Hermione poderia simplesmente ter ido embora, deixado que eles resolvessem aquilo como
mãe e filho, mas de repente percebeu que não precisava mais proteger Ronald em nada. Tinha
estado poupando-o por algum motivo que provavelmente podia ser posto na conta da
sentimentalidade, mas por quê? Por que ela deveria continuar se retorcendo em nós quando
ele tinha feito aquilo com ela e nunca tinha demonstrado um fiapo de remorso genuíno que
não fosse por como aquilo o afetava?
— Ele fez — disse Hermione, em voz baixa. — Ele usou Razorano Pole, e ainda mandou
concentrar para eu não perceber que parecia diferente da minha poção normal.
— Achei que tinha te criado melhor do que isso — a voz de Molly tremia, e lágrimas de raiva
encheram seus olhos castanhos. — Nunca imaginei que um dos meus filhos fosse ser tão
cruel. — Ela olhou para Hermione e depois de volta para o filho, com o rosto se enrijecendo.
— Eu sabia que tinha alguma coisa por trás do que aconteceu entre vocês dois. O timing, o
jeito como Hermione mal conseguia olhar para você... Pensei, bem, não foi gentil o que eu
pensei no começo. Mas aí você insistiu que não tinha sido culpa da Hermione, que você é que
tinha feito alguma coisa. Achei que pudesse estar relacionado ao noivado de vocês, então
decidi deixar pra lá. Achei que vocês acabariam resolvendo e talvez até voltassem a ser
amigos.
— Você não tem o direito de dizer que tentou nada, Ronald — cortou Hermione, num silvo.
— Você não fez nada além de oferecer desculpinhas patéticas e basicamente exigir que eu
abrisse mão dos meus filhos e voltasse para você.
— Bom, se você não tivesse corrido direto para o Malfoy! — ele berrou.
— Eu não fiz nada disso! Depois que terminei com você, fui afogar minhas mágoas por causa
do que você fez comigo, e o Draco estava afogando um tipo completamente diferente de
mágoa. A gente cometeu uma burrice porque estava bêbado, mas... — Hermione apertou os
lábios, ponderando se devia dizer a próxima parte. Então a boca de Rony se abriu para dizer
algo sem dúvida horrível e ela disparou de uma vez: — Mas eu fico feliz que tenha sido com
ele.
— Você fica feliz que o fuinha tenha te engravidado?! — Ele se virou para a mãe. — Você
está ouvindo isso?
— Estou ouvindo tudo, Rony — prometeu Molly. — Tudo. Você não tem o direito de ficar
com raiva dela. Você precisa ir embora, e precisa deixar a pobre Hermione em paz. — Ela
puxou a varinha e a apertou com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos como
osso. — Vou falar com você quando voltar para casa, e é melhor você estar pronto.
Rony olhou da varinha da mãe para o rosto dela, a pele ficando quase esverdeada. Então
lançou a Hermione um último olhar cheio de ódio.
Hermione nem se deu ao trabalho de ouvir o resto, simplesmente o silenciando com uma
estocada furiosa de varinha.
Finalmente, ele foi. Marchando até a lareira e jogando o recipiente inteiro de pó de Flu lá
dentro, conseguiu se dessilenciar a tempo de gritar o Caldeirão Furado, desaparecendo sem
lançar mais um único olhar para trás.
Assim que ele se foi, a adrenalina escoou de Hermione, e ela se viu sendo amparada por
Molly quando os joelhos cederam. Foi guiada até uma cadeira e enterrou o rosto nas mãos,
soltando um soluço.
— Sinto muito, Hermione — consolou Molly, ela mesma soando um pouco engasgada. —
Sinto muito pelo que o Rony fez, e sinto muito que você tenha achado que não podia me
contar.
Hermione não sabia o que dizer e apenas chorou cada pedacinho de mágoa e traição que
vinha reprimindo.
Chapter 32: Semana Trinta e Cinco
— Você tem certeza de que está bem? — perguntou Gina, hesitante, com as mãos enroladas
em volta de uma caneca de chá quente e uma ruga preocupada franzindo a testa salpicada de
sardas. A ruiva vinha tomando conta de Hermione desde o café da manhã e, considerando
que já estava quase na hora do jantar, Hermione começava a sentir claramente que já estava
mais do que na hora de Gina voltar para o Largo Grimmauld.
Desde sua desatenção de não apenas perder o convite para o chá de bebê de Hermione, mas
também de esquecer de mencionar isso até permitir que Rony invadisse a festa, Gina estava
sendo tão insuportável em seu estado de vigia quanto o namorado. Hermione estava de fato
grata por tanto Gina quanto Harry terem empregos dos quais eles não podiam simplesmente
“faltar” sem um bom motivo, porque se tivesse que lidar com os dois em tempo integral
talvez tivesse, possivelmente, atordoado os dois e os escorado no sofá só para ter um
momento de paz. Infelizmente, eles também tinham empregos com horários rotativos, o que
muitas vezes deixava pelo menos um deles livre para encará-la, profundamente grávida e
profundamente irritada.
Draco era um cão de guarda irregular contra eles, na melhor das hipóteses, para grande
desgosto dela. Até uma semana antes, Hermione teria presumido que ele ficaria
completamente repelido de ter um Potter e uma Weasley rondando o sobrado o tempo todo.
Para azar de Hermione, a visitinha de Rony também o abalara, e, pela primeira vez, ele e
Harry estavam pensando com a mesma cabeça. Se Draco estava em casa, então podia muito
bem enxotar Harry e Gina dali com garantias ríspidas de que dava conta de cuidar dos seus;
mas se estava na Mansão, dando os retoques finais nas poções para o seu título de Mestre
antes de colocá-lo em hiato por causa da chegada dos gêmeos, então ele na verdade os
encorajava a ficar.
Ele tinha inclusive passado a deixar uma porção extra de almoço para qualquer intruso que
estivesse “de turno”. Traidor.
— Pela última vez, Gina — repreendeu Hermione, andando em círculos pela sala num
gingado desajeitado numa tentativa inútil de aliviar as costas travadas —, eu tive uma
contração de Braxton Hicks há mais de uma hora. Só estou com dor nas costas, e caminhar
ajuda.
— Sei não, pareceu bem ruim pra mim — disse ela, lançando um olhar na direção da lareira e
do pote de pó de Flu de Hermione. — Quer que eu use o Flu e chame o Harry? Ou o Malfoy?
— Se você sequer pensar em tentar, eu te jogo pela lareira sem o pó — resmungou Hermione
por entre os dentes. Em voz alta, disse: — Obrigada, mas eu estou mesmo bem. Eu prefiro
guardar a chamada de emergência pelo Flu para quando alguma coisa de fato acontecer.
— Tá bom — Gina fez uma careta, ainda olhando para a lareira de um jeito que deixava
Hermione nervosa, como se a amiga fosse convocar a cavalaria se ficasse sozinha.
— Você não tem treino hoje? — perguntou Hermione, levemente desesperada. — Ou talvez
precise dar um polimento na sua vassoura?
Gina pareceu um pouco culpada e parou de se inclinar na direção da lareira como uma
corredora esperando o tiro de largada.
Sentindo-se culpada também, Hermione foi gingando até lá e se abaixou para se sentar ao
lado de Gina.
— Eu sei que você e o Harry só estão preocupados, mas eu estou mesmo bem — ela pousou
a mão sobre a curva de sua barriga enorme, sentindo um pezinho pressionar de volta sob a
palma. — E eu, na verdade, não te culpo por o Rony ter invadido o chá de bebê. Sim, você
com certeza devia ter contado pra gente quando não conseguiu achar o seu convite, em vez de
simplesmente ir junto com o da sua mãe, mas eu entendo que simplesmente tenha escapado
da sua cabeça.
— Eu sei, eu sei — Gina fez uma careta. — Ainda não consigo acreditar que ele fez aquilo.
O que diabos ele achou que ia conseguir?
— Honestamente, eu não saberia dizer — admitiu Hermione, olhando para baixo com o
cenho franzido. — Eu costumava achar que conseguia prever tudo sobre o Rony. Mas,
olhando para trás, não tenho certeza se algum dia consegui. Os trouxas têm um ditado,
“twenty-twenty hindsight”; que significa que é sempre mais fácil enxergar as coisas quando
você não está no meio delas, e isso nunca fez tanto sentido pra mim quanto depois do que o
Rony fez. Eu percebi que grande parte do meu relacionamento com ele foi construída sobre
as minhas suposições de quem ele devia ser, em vez de quem ele realmente é.
— Quer dizer, eu entendo — Gina olhou, desconfortável, para a mão de Hermione onde ela
repousava em seu abdômen distendido. — Eu sei que já disse antes que o Rony é o tipo de
cara que poderia fazer uma coisa dessas, mas não acho que eu realmente acreditasse. Eu só
estava com raiva e queria sentir que não tinha sido totalmente pega de surpresa. Quer dizer,
eu sei que ele realmente fez aquilo, mas simplesmente não... parece real? Desculpa, eu sei
que isso não faz o menor sentido.
— Merlin, se ela tinha — Gina não conteve uma risada, ainda que meio murcha. — Ele nem
tentou voltar escondido pra casa até o dia seguinte, e ela já recebeu ele com ordens de marcha
na mesma hora.
— Ela recebeu? — Hermione engasgou. Ela obviamente sabia que Molly estava furiosa além
da conta com o filho mais novo, mas não achava que Molly chegaria a expulsar de bom grado
um dos filhos da Toca.
— Aham. Ele não é bem-vindo de volta “até perceber exatamente o que foi que fez”. — Gina
fungou, amarga. — Como se o Ronniekins um dia fosse admitir as próprias cagadas. Ele vai
ficar perambulando de um lado pro outro, amuado, jogando a culpa em você por não ter
voltado pra ele na mesma hora, e, quando decidir que já superou a situação, vai voltar se
arrastando e simplesmente assumir que todo mundo vai perdoar.
Se ela não odiasse tanto a ideia de sequer interagir com o ex-namorado alguma vez na vida de
novo, talvez considerasse mandar fotos dela e de Draco felizes com os filhos para esfregar o
erro de Rony na cara hostil dele.
Infelizmente para a partezinha minúscula e rancorosa dela que vibrava com essa ideia,
Hermione realmente não queria dar a Rony atenção nenhuma nunca mais. Na verdade, ela
também não queria que ele jamais visse o rosto de seus filhos inocentes.
— Bom, ele já tentou isso e tudo o que conseguiu foi me deixar mais inclinada a tascar um
amasso em um dementador do que perdoar ele — bufou Hermione. Ela mesma não tinha
certeza do quanto daquela frase era hipérbole.
Gina parecia estar firmemente a favor desse sentimento, e Hermione percebeu que o humor
da amiga estava prestes a oscilar de culpada-e-superprotetora para furiosa-e-em-modo-
discurso.
— Mas eu realmente não quero nem pensar mais nele — ela se apressou em intervir,
justamente quando a expressão de Gina se fixava num carrancudo carregado e as bochechas
começavam a ficar escarlates. — A gente pode, por favor, falar de qualquer outra coisa?
— Ah, sim, desculpa — Gina murchou, com um sorriso envergonhado. — Hã, que tal... —
Ela olhou em volta pela sala e por fim parou onde o casaco de Draco estava largado
descuidadamente sobre o encosto do sofá. — Ah! O que você planejou pro Malfoy amanhã?
— Hã, não muita coisa, pra falar a verdade — confessou Hermione, com não pouca culpa. —
Quer dizer, a gente está planejando sair pra jantar, mas não acho que ele queira transformar
isso em um grande evento. Talvez eu tente sugerir uma comemoração maior quando os
gêmeos estiverem aqui.
— Mas... ele vai fazer vinte e um! Ele sério que não quer torrar metade do cofre numa festa
maluca? — Gina parecia totalmente chocada. — Ele podia nadar em champanhe com realeza
cantando parabéns pra ele, sei lá!
— Tenho certeza de que ele teria que convidar metade da Europa pra chegar a arranhar o
cofre, Gina — Hermione riu. — Mas ele realmente prefere não chamar atenção hoje em dia.
— Bom, se eu não estava convencida de que ele tinha mudado antes, agora estou! —
exclamou Gina. Então o rosto dela se abriu num sorriso maroto e ela arqueou as sobrancelhas
para Hermione. — Eu sugeriria que você desse um presente especial pra ele, mas você já tem
problema o bastante só pra sentar, que dirá ajoelhar.
Hermione fez um protesto inarticulado e deu um tapa de costas no ombro de Gina. Ela
pretendia reclamar mais da piada grosseira, mas foi interrompida por uma névoa prateada
que, de repente, disparou através da parede e parou a um centímetro do seu nariz.
— Merlin, espero que isso funcione — surgiu da névoa a voz extremamente aflita de Dennis
Creevey. — Hermione, é o Dennis. Eu preciso falar com você com urgência. Se você receber
isso, por favor mande um Patrono de volta na hora me dizendo onde posso te encontrar. Em
algum lugar privado, por favor.
As duas bruxas trocaram um olhar. Hermione mantinha contato casual com Dennis por causa
do acordo deles sobre o Profeta, mas não conseguia pensar em nada que o deixaria tão
agitado.
— Isso não soa nada bem — disse Gina, devagar. — Quer que eu vá ver o que é?
— Não é uma má ideia — Hermione fez uma careta, erguendo a varinha para convocar a
chave de casa das profundezas da bolsa. — Eu iria, mas...
— Você está grávida demais pra aparatar — completou Gina por ela, pegando a chavinha
quando ela passou voando por cima da cabeça dela. — E vai saber se isso não é algum tipo
de armadilha.
— É — Gina assentiu, tendo passado tempo suficiente na Londres trouxa para conhecer o
ponto de aparatação conveniente que era usado principalmente por nascidos-trouxas. — Vou
pra lá agora, você manda uma mensagem de volta avisando que sou eu que vai encontrar ele.
Quando Gina saiu do cômodo com um estouro, Hermione convocou sua lontra prateada. Era
a primeira vez que fazia isso em um bom tempo, e ficou surpresa ao perceber que a primeira
lembrança em que pensou foi Draco se ajoelhando e murmurando “Olá, bebês” quando ela
deixou que ele sentisse sua barriga pela primeira vez no Boxing Day. O sorriso dele ao
acariciar o pequeno inchaço que, na época, parecia tão grande foi mais do que suficiente para
que o patrono-lontra brilhasse como uma constelação inteira enquanto nadava ao redor da
cabeça dela.
Com um giro da varinha, a lontra encolheu até virar um minúsculo ponto de luz e então
disparou pela mesma parede por onde a nuvem amorfa de Dennis tinha entrado.
Cinco minutos levemente ansiosos depois, Gina estava de volta com Dennis a reboque. A
chave permitia que eles atravessassem as barreiras direto para o ponto exato de onde Gina
tinha saído, e Hermione se ergueu do sofá com esforço para cumprimentá-los na mesma hora.
— Desculpa? O que está acontecendo? — Hermione olhou de Dennis, que parecia prestes a
chorar de frustração, para Gina, que parecia ainda mais assassina do que quando Hermione
contou a ela, pela primeira vez, o que Rony tinha feito com sua poção contraceptiva.
— Meu maldito irmão idiota se superou, é isso — rosnou Gina, estendendo um exemplar do
jornal com a mão que tremia levemente.
— O que significa que já tem exemplares do Evening Prophet por aí — suspirou Hermione,
sentindo uma dor de cabeça se aproximar enquanto sacudia o jornal para poder ver qual era a
bobagem que a Skeeter tinha aprontado daquela vez. — Tenho certeza de que não pode ser
tão gra...
As palavras simplesmente a abandonaram. A manchete poderia muito bem ter sido um feitiço
Silencio, de tão eficaz em arrancar-lhe a voz.
A Armadilha Dourada da Garota de Ouro!!!!!
por Rita Skeeter
A gravidez que prendeu a atenção da nossa nação: Hermione Granger grávida de Draco
Malfoy. Duas pessoas tão jovens e tão famosas por representarem ideais opostos em todos os
sentidos. Sangue-Puro e Nascida-Trouxa. Grifinória e Sonserina. Comensal da Morte
relutante e Orgulhosa integrante da Ordem da Fênix.
Todos nós acreditamos que, mesmo que eles insistissem em dizer que não estavam juntos de
forma romântica, este era o bebê que iria curar as divisões persistentes em nosso povo. Um
casal assim nos dava esperança de um futuro mais brilhante, um futuro em que os
acontecimentos devastadores de tão poucos anos atrás pudessem se tornar nada além de
uma memória distante. Parecia bom demais para ser verdade.
Caro leitor, lamento informar que era exatamente isso: bom demais para ser verdade.
Enquanto todos nós vibrávamos por esse casal improvável de aparente dupla de pais felizes,
havia algo mais sinistro escondido sob a imagem cuidadosamente cultivada de perdão e de
seguir em frente. Hermione Granger é conhecida há muitos anos por ser ambiciosa e por não
hesitar em usar os bruxos famosos de que se cerca para impulsionar sua própria imagem,
mas não acho que qualquer um de nós soubesse até onde ela estava disposta a chegar.
Meses atrás, eu mesma entrevistei o ex-namorado dela, Ronald Weasley, sobre o término do
relacionamento com a srta. Granger e, durante nossa conversa, ele afirmou ser o único
culpado pela separação. Na época, esta repórter ficou de coração partido por ele, mas o
aplaudiu por sua maturidade e graça ao tentar esclarecer os fatos. Mas, oh, como todos
fomos enganados. Sem que soubéssemos, o pobre sr. Weasley tinha sido manipulado e
pressionado até acreditar plenamente que era o responsável.
— Obviamente, eu não era rico o bastante pra ela [srta. Granger] — rosna o sr. Weasley,
socando a mesa com todo o seu justo ressentimento mal contido. — Ela correu direto pro [sr.
Malfoy] e ficou grávida. Ela devia se casar comigo! Quando comprei aquele Razorano Pole,
achei que ela fosse ficar feliz de estar tendo um filho meu. Aí, de repente, ela me aparece
dizendo que está grávida de um bebê do [Malfoy]. Como se eu fosse acreditar quando ela
disse que tinha sido acidente.
Isso mesmo, leitores: Razorano Pole. A poção de fertilidade legal mais forte do mercado.
Parece que a suposta “Garota de Ouro” é tão desprovida de coração que não apenas
planejou prender o solteiro mais cobiçado da Europa com um filho, como também fez com
que o noivo comprasse a poção que ela usou para isso.
— Eu já vi os dois juntos por aí — confirma uma fonte próxima à família Malfoy. — Ela fez
com que ele e a mãe dele a levassem para comprar um guarda-roupa todo novo sob medida
em uma das butiques mais disputadas da França. Eu achei que tinha alguma coisa esquisita
no jeito como ela ficou na defensiva quando perguntei de quantos meses ela estava, mas ela
fez questão de exagerar no papel de mocinha grávida indefesa pra o Draco correr em defesa
dela.
Hermione estava tonta demais para continuar lendo, e o jornal escorregou de seus dedos sem
força. Ela olhou para tudo, menos para as duas pessoas muito preocupadas que a observavam
com atenção. A sala de estar bem iluminada de repente pareceu ameaçadora e embaçada nas
bordas.
— Acho que preciso me sentar — foi tudo o que ela conseguiu dizer.
Então Gina começou a gritar quando os olhos de Hermione reviraram nas órbitas e ela
desabou no chão.
Chapter 33: Semana Trinta e Cinco, parte 2
— Você desmaiou, faz menos de uma hora — zombou Draco, lançando um olhar exasperado
para a bruxa que, mais uma vez, tentava explicar por que não precisava ficar confinada à
cama. — Então, por favor, só fica quieta, pelo seu próprio bem, Hermione!
— Mesmo? — Draco recostou-se na cadeira que tinha transfigurado a partir de uma caneta
para poder se sentar ao lado da cama enquanto a Healer Agg examinava Hermione. Estava
óbvio que ele não acreditava nela nem por um segundo, e Hermione quase conseguia ouvir a
observação sobre a “imprudência grifinória” queimando na ponta da língua dele.
— Odeio ter que te dizer isso, minha cara, mas o sr. Malfoy está certo hoje — disse a Healer
Agg com gentileza, olhando por cima dos óculos de armação de casco de tartaruga e
enrolando o pergaminho com as informações médicas com um estalo. — Eu preferia que
você ficasse em repouso na cama pela próxima semana ou algo assim, só por segurança. Mas,
como duvido muito que você vá me ouvir, você deve permanecer deitada, na horizontal, por
pelo menos as próximas doze horas. Não é só o desmaio que preocupa, srta. Granger; você
quase entrou em trabalho de parto prematuro. — Ela lançou um olhar severo à paciente. —
Você tem uma sorte extraordinária de o sr. Malfoy aqui já ter preparado um conjunto
completo de todas as poções de que você poderia possivelmente precisar e de ter conseguido
te dar uma Poção de Interrupção de Trabalho de Parto tão rápido.
— Ah… tudo bem — Hermione desistiu das tentativas de se erguer, com apenas um tantinho
de má vontade, finalmente reconhecendo que aquela não era uma briga que venceria.
Mais uma semana, e entrar em trabalho de parto seria tecnicamente considerado “seguro”,
mas, por ora, Hermione sabia que devia evitar provocar isso com qualquer atitude impulsiva.
Além do mais, as contrações aparentemente leves que tinha sentido ao acordar, com Gina em
estado de histeria e Dennis tentando descobrir o que fazer enquanto chamavam Draco
freneticamente com seus Patronos... Bem, basta dizer que ela preferia evitar piores pelo maior
tempo possível.
— Muito bem, então — Healer Agg esboçou um sorriso um tanto tenso, ainda visivelmente
preocupada depois de ter sido arrancada de St Mungo’s por uma Gina em pânico para atender
Hermione. — Não vejo nenhum efeito duradouro por enquanto, mas você deve tentar manter
o estresse no mínimo possível — o sorriso dela se transformou numa careta quando olhou
para o Evening Prophet, onde Draco o tinha largado depois que Gina lhe mostrara o que tinha
causado a queda de Hermione. — Ou pelo menos o mínimo possível, dadas as circunstâncias.
— Obrigada por ter vindo, Healer Agg — Hermione tentou se impulsionar para uma posição
sentada a fim de se despedir, mas deitou de volta no mesmo instante em que tanto a
curandeira quanto Draco avançaram para contê-la. — E desculpe todo esse transtorno.
— Sim, bom, a Granger prefere continuar fingindo que está acima dessas pequenas
limitações mortais — resmungou Draco, observando as próprias unhas com ar afetado.
As duas bruxas lançaram olhares pesados para ele, e então a Healer Agg suspirou e recolheu
o restante de suas coisas com um aceno de varinha.
— Bem, por favor, não hesite em me procurar se você se sentir nem que seja um pouquinho
“estranha”. Neste estágio, é definitivamente melhor prevenir do que remediar.
— Vou procurar, prometo — disse Hermione, e esperou até o som da ativação da lareira
anunciar que a curandeira tinha ido embora para então se virar para Draco. — O que foi
aquilo? — exigiu.
— O que foi o quê? — suspirou Draco, sem encontrar o olhar dela, ainda examinando
meticulosamente as próprias unhas.
— Não começa comigo, Malfoy. — Hermione se empurrou para uma posição sentada,
afastando com um tapa a mão instintiva que ele estendeu para impedi-la. Mesmo de mau
humor, ele estava claramente preocupado.
Ou apenas contemplando amarrá-la à cama do jeito trouxa, pelo olhar que lançou assim que
ela se ajeitou melhor, se aquilo servisse de indicação.
— Certo, quer saber? Certo. — Draco passou a mão pelos cabelos com um rosnado irritado.
— Eu estou morrendo de preocupação porque, quando recebi cinco malditos patronos
invadindo meu laboratório de uma vez, achei que você tinha morrido ou algo assim. — Ele se
levantou de um salto do assento transfigurado e começou a andar de um lado para o outro. —
E então, quando cheguei aqui, você estava tentando andar por aí como se nada tivesse
acontecido! Você ainda tentou argumentar que “não devíamos incomodar” os Curandeiros!
— Ele se virou para Hermione, avançando até pairar sobre ela. — Você tem ideia de quão
apavorado eu estava, Hermione? Alguma ideia?
— Nada disso é culpa minha! — retrucou Hermione, o próprio temperamento subindo rápido
para encontrar o dele. — Não ouse descontar em mim quando fui eu quem desmaiou porque
o meu ex-namorado canalha decidiu ser o mais rancoroso possível! Eu é que estou sendo
difamada como o pior tipo de pessoa nos jornais agora! Não você, e definitivamente não a
pessoa que de fato fez o que estão me acusando de ter feito!
A raiva escoou de Draco num só jorro assim que as palavras amargas saíram da boca de
Hermione, levando junto as forças dele. Ele se deixou cair lentamente de joelhos, bem ao
lado da cama, agarrou a mão dela com as duas mãos e a levou à própria testa com um suspiro
trêmulo.
— Me desculpa, Hermione. Você tem razão, eu estou descontando, e isso é a última coisa que
você merece. — Ele pousou um beijo fervoroso nos nós dos dedos dela, então ergueu as
mãos entrelaçadas até esconder o rosto da visão dela outra vez. Mas não conseguiu esconder
o brilho úmido nos cílios cerrados. — Me desculpa, é você que está sendo arrastada na lama à
vista do mundo inteiro, eu sei disso. É só que... — Ele interrompeu a frase com um arrepio,
apertando a mão dela com força o bastante para que ficasse quase dolorido. — Eu fiquei tão
apavorado.
Ele parecia um homem desesperado, procurando algo a que se agarrar. Mesmo através da
própria mágoa com a grosseria dele, Hermione conseguiu entender pelo menos um pouco. Se
estivesse trabalhando em paz e de repente fosse interrompida por uma série de mensagens de
Patrono gritando freneticamente que Draco tinha desabado, ela provavelmente ficaria meio
desequilibrada também.
Fazendo uma escolha consciente, Hermione puxou a maior quantidade de ar que os pulmões
conseguiam comportar (apertados como estavam pelos gêmeos) e expirou tudo. Deixou que
toda a irritação, muito justa, saísse junto, repetindo mentalmente, uma e outra vez, que
provavelmente teria descontado de forma parecida se os papéis estivessem invertidos. Não foi
fácil, mas depois de algumas respirações ela sentiu que não iria imediatamente arrancar a
cabeça dele se abrisse a boca.
— Obrigada — disse ela, levando a mão livre para afastar alguns fios de cabelo da testa dele.
— Sinto muito por ter te assustado.
Draco soltou uma risada incrédula, finalmente levantando o rosto com um balançar de
cabeça.
— Saco de Salazar, Hermione, você não tem absolutamente nada pelo que se desculpar. Sim,
eu estou um pouco irritado por você ter tentado seguir como se nada estivesse errado, mas
você tinha acabado de desmaiar porque levaram até você a pior espécie de choque. Acredito
que isso te dá uma certa margem quando o assunto é confusão.
Mordendo o interior da bochecha, Hermione desviou o olhar com um pico de fúria renovada
ao se lembrar do motivo da queda. Os olhos dela pousaram no jornal largado num canto, e o
pulso começou a latejar surdo nos ouvidos, como um tambor de guerra distante.
Antes da chegada de Dennis naquela noite, ela estaria perfeitamente disposta a continuar
ignorando a existência de Rony, deixando-o desaparecer de vista — e, com sorte, da memória
— até que se tornasse nada mais que uma pontada distante de raiva. Mas ele nunca deixava.
Parecia que, toda vez que ela começava a entrar em algum tipo de equilíbrio com a gravidez
ou com a vida em geral, lá estava ele para lembrá-la de como tudo tinha começado.
Havia uma linha, várias linhas, que ele poderia ter simplesmente respeitado: ele poderia ter
ido embora viver a própria vida sem que ninguém soubesse do que tinha feito. A cada vez
que ele cruzava uma dessas linhas, Hermione simplesmente deixava passar e desenhava
outra. No início, isso se devia aos laços sentimentais persistentes com o passado, àqueles dias
em que eles eram um trio, com Harry no centro. Ela ansiava por aquela simplicidade e tinha
uma dificuldade enorme em separar o garoto que se sacrificara numa partida de xadrez
literalmente mortal, aos onze anos, para que eles pudessem salvar o mundo, do homem que
via os planos dela para a própria vida como ameaça tão grande que tentou forçá-la a ter um
filho para o qual nenhum dos dois estava minimamente pronto.
Depois, quando ele tinha pulverizado de vez qualquer resquício de vontade que ela pudesse
ter de protegê-lo, ela simplesmente não queria que os filhos soubessem a história completa de
sua concepção. Rony tinha sido exposto completamente ao círculo íntimo dela, inclusive à
própria família, mas arrastar o nome dele ainda mais pela lama não tinha o menor apelo para
ela.
Só que ele enxergara a última linha de tolerância, e, em vez de fazer a coisa sensata e se
afastar depois do espetáculo no chá de bebê, decidiu correr até a Skeeter e despejar a história
com um viés maldoso que a transformava na pior espécie de pessoa. No tipo de pessoa que
ele próprio era. Talvez ela tivesse ficado satisfeita em deixá-lo em paz antes, mas agora
Hermione não tinha mais qualquer escrúpulo ou hesitação em fazer absolutamente todo
mundo saber o que realmente acontecera.
— Vamos ter que fazer alguma coisa — murmurou ela, voltando a olhar para o pai de seus
filhos.
— Concordo — ele se moveu até se sentar ao lado dela na cama. — Mas acho que é melhor
esperarmos o Potter chegar antes de tomarmos qualquer decisão concreta.
— A namorada dele mandou tantos cavalinhos fantasmagóricos pra ele quanto mandou pra
mim, e o cervo que ele mandou de volta, assim que ela avisou que eu estava aqui pra cuidar
de você, disse que ele tinha algo pra buscar antes de vir pra cá. — O sorriso de Draco foi o
mais cruel que ela tinha visto no rosto dele desde antes do sexto ano em Hogwarts. —
Digamos apenas que o Potter soava menos como se estivesse prestes a matar alguém e mais
como se estivesse prestes a matar alguém de fato.
Não era preciso muita imaginação para deduzir o que, ou quem, Harry estava caçando.
Hermione não conseguia imaginar muito que pudesse impedir Harry de ir correndo para o
lado dela; mas, se ele sabia que ela estava sendo cuidada, havia só uma coisa que pudesse ter
prioridade. A imagem de Rony sendo largado à frente da cama como um dos ratos que
Bichento costumava “presentear” Hermione lhe veio à mente, e ela não conseguiu sentir nem
um pingo de vergonha pelo quanto essa ideia a agradou.
— Bem — Hermione lançou um olhar para a porta, de onde se ouviam, ao longe, os ruídos
suaves de Gina e Dennis se movendo no andar de baixo. — Espero que ele deixe uns pedaços
pra mim.
— Eu também — Draco beijou a testa dela. — Agora, que tal eu fazer um chá enquanto a
gente espera?
Harry chegou antes mesmo de Draco terminar de esquentar a água para a caneca de
Hermione e, ao contrário do que esperavam, chegou sozinho. Draco largou o que estava
fazendo para levá-lo direto até Hermione, supondo corretamente que ela ia querer os dois
presentes para a discussão inicial.
— Eu teria pensado que você traria uma doninha ensanguentada como troféu — comentou
Draco, enquanto ele e Harry entravam no quarto onde Hermione os esperava, impaciente.
— Vou mandar a Bizzy para ajudar — Draco estalou os dedos e o elfo-doméstico apareceu,
fazendo uma reverência preocupada. — Bizzy, o Potter aqui tem um “convidado” na casa
dele. Cabelo ruivo, mau humor, extremamente socável, congelado no sofá. Você pode ir se
juntar ao elfo do Potter e garantir que o convidado não vá a lugar nenhum?
Bizzy olhou primeiro para Hermione, os olhos enormes avaliando. Era óbvio que o vínculo
mágico que tinha com os bebês Malfoy dentro dela havia avisado ao elfo que algo estava
acontecendo, porque a expressão dele se transformou em algo que Hermione só poderia
chamar de “ameaçador” quando ele voltou a encarar Draco.
— Claro, Mestre — Bizzy tornou a se inclinar, aparentando estar bem menos preocupado. —
Bizzy vai cuidar do… conforto do convidado do sr. Potter.
— Sou só eu, ou o Bizzy parecia um pouco como se estivesse prestes a enfiar a botina no
Rony?
— Eu não duvidaria — deu de ombros Draco, saindo do caminho da bandeja de chá que
flutuou porta adentro e pousou na mesinha de cabeceira de Hermione. — Ele anda meio
irritado por você não estar colocando ele para trabalhar até cair, então eu diria que está feliz
por ter alguém em quem descontar. E, além disso, ele já é bem protetor com os gêmeos.
Hermione ponderou aquilo um instante e chegou à conclusão óbvia. Entre o gosto por
distorcer a verdade e a habilidade ilegal de se transformar em um insetozinho, Rita Skeeter
não precisava de citações diretas. Harry e Hermione viviam em alerta para o zunido dela por
perto, normalmente Rony também; mas, se estivesse com raiva o bastante, Rony podia muito
bem ter escorregado e dito algo imprudente em algum lugar de onde aquilo chegaria aos
ouvidos (ou antenas) da “jornalista” venenosamente inescrupulosa.
— Ele disse mais alguma coisa? — ela perguntou a Harry. — Tipo que talvez tenha contado
pra alguém? Ou falado alguma coisa em algum lugar público... — Ela olhou de um para o
outro. — Em algum lugar onde, talvez, um inseto passaria despercebido?
Tanto Harry quanto Draco ficaram instantaneamente tensos. O rosto de Harry se contorceu
num cenho furioso, os punhos se fechando no colo enquanto ele visivelmente se esforçava
para não explodir em um incêndio de pura raiva. Draco, por outro lado, virou gelo sólido, tão
frio na postura que Hermione quase esperou ver cristais de geada se formando sobre seus
cabelos claros. Era um contraste interessante, bem indicativo do tipo de pessoa que cada um
deles era.
— Sabe, quando você sugeriu pela primeira vez que a gente trancasse ela em um pote de
geleia, eu disse não porque não queria arriscar você ser acusada — arrastou Draco,
recostando-se no batente da porta com os olhos semicerrados como se estivesse entediado. —
Mas agora, bem… eu tenho uns potes e frascos sobrando por aí — ele fez um gesto vago no
ar. — Coisa de quase-mestre em Poções, e tal.
— Ainda não é mestre coisa nenhuma — resmungou Harry, irritado o bastante, em geral,
para não deixar aquilo passar.
— O melhor que tenho é trazer o Rony pra cá e fazer ele dar uma entrevista de verdade
contando o que aconteceu para o Dennis. Aí a gente só precisa fazer aquele editor do Profeta
tirar a cabeça de dentro da traseira da Skeeter por tempo suficiente pra publicar. Talvez
consigamos obrigá-lo a rodar isso junto com uma retratação se ameaçarmos fazer escândalo
suficiente em cima de tudo isso. — Ela fez uma careta e apertou o maxilar. — E acho que
está óbvio que só ter o segredo da Skeeter já não é o bastante pra impedi-la de publicar
porcaria sobre a gente no jornal. Harry, você consegue registrar uma denúncia sobre ela ser
uma animaga não registrada quando for trabalhar amanhã cedo?
— Espera — Draco ergueu uma mão, fazendo os dois se virarem para ele, confusos. —
Concordo com quase tudo nessa frase, mas acho melhor a gente segurar a denúncia por
enquanto.
— Por que diabos eu faria isso? — Harry zombou, levantando-se e atravessando o quarto de
passos largos até se enfiar na cara de Draco, que apenas revirou os olhos. — Ela sabe que a
gente sabe, e isso não a impediu de tentar explodir a vida da Hermione! O único motivo de
não termos denunciado ela anos atrás é que ela sabia muito bem que tinha que manter nossos
nomes fora dos artigos. Ela sabe qual é o preço, então que pague.
— Eu fico imaginando por que ela decidiu, de repente, que não ia pagar esse preço — Draco
escorregou para o lado, passando por Harry, e veio se sentar na beira da cama, ao lado de
Hermione, pousando uma mão protetora sobre a barriga dela. — Ou ela tem certeza de que
isso vai descreditar tanto a Hermione que qualquer acusação que ela faça vai ser tratada como
delírio de uma bruxa vingativa, ou encontrou um jeito de se proteger. — Ele deu de ombros,
num gesto elegante, e sorriu de forma maligna. — De qualquer forma, eu preferiria muito
mais mostrar que ela nunca esteve tão enganada — do jeito lento, doloroso.
— Bem, eu digo que a gente tire tudo dela, pedacinho por pedacinho, antes de denunciá-la —
Draco passou o braço pelos ombros de Hermione. — Começando por esse cargo no Profeta.
— Aquele paspalho do Cubbins não vai demitir ela — resmungou Harry, agora menos
explosivo, já que sabia que Draco estava tramando nos mesmos termos que ele e Hermione.
— Ela dá um lucro absurdo pra ele com aquela sujeira que escreve.
— Ah, talvez se a decisão fosse baseada só em vendas, sim, ele se recusaria a demitir a
galinha dos ovos de ouro — Draco abriu um sorriso. — Mas me diga, Potter, você sabe quem
é o maior acionista do Profeta?
— Deixa eu adivinhar — zombou Harry, com acidez. — Ele é loiro, um completo idiota e
está neste exato momento sapateando no meu último nervo?
— Lisonjeiro, mas não. Os Malfoy costumavam ser, mas as nossas ações foram tiradas do
meu pai quando ele foi para Azkaban da primeira vez. Agora, só temos umas poucas ações
nominais, nada grande o bastante para forçar a mão de ninguém. — O sorriso de Draco se
alargou. — Mas, felizmente, as ações que costumavam ser nossas foram herdadas depois da
guerra por alguém que vai estar muito inclinado a nos ajudar.
— Vou te dar uma dica — Draco apertou o ombro dela. — Eu só tenho um amigo de verdade,
e ele precisa financiar todas aquelas viagens de algum jeito.
— O Theo?
Hermione nunca tinha muita certeza do que fazer de Theodore. Ele claramente significava
muito para Draco, mas os dois também pareciam mal se manter em contato (pelo menos
pelos padrões aos quais ela estava acostumada). Ele se movia com toda a graça entranhada de
um aristocrata nato, mas aparentemente ficava muito mais feliz vestido com roupas trouxas
um tanto desleixadas do que com vestes. Seu humor era atrevido, mas os olhos eram afiados.
Ele era a contradição personificada, e uma contradição muito encantadora, aliás. Hermione
percebeu muito rápido que ele também era incrivelmente leal e, por isso, não ficou surpresa
quando Gina chamou Harry e Draco para receber Theo na lareira meros dezesseis minutos
depois de Harry ter enviado o Patrono-cervo com uma mensagem rápida pedindo que ele
viesse ajudá-los. Aparentemente, estar em algum lugar em Portugal não foi o bastante para
dissuadir Theo de vir imediatamente em auxílio deles assim que ouviu as palavras:
“Hermione desabou. Ela vai ficar bem, mas o Draco precisa da sua ajuda assim que você
conseguir voltar.”
— Hermione! — Theo entrou no quarto dela logo atrás de Draco, com Harry fechando a
formação. O rosto dele estava tomado por uma preocupação que parecia mais adequada para
amigos de longa data, como Harry ou Gina, não para a namorada relativamente recente do
seu amigo.
Embora, ela estivesse grávida dos gêmeos do amigo dele e em repouso na cama depois de
desmaiar por causa de um choque repentino, então talvez aquela preocupação não fosse tão
deslocada assim.
— Oi, Theo — Hermione aceitou um beijo gentil na bochecha e esboçou um sorriso fraco. —
Obrigada por vir tão rápido.
— Claro — Theo se acomodou na cadeira transfigurada de Draco, deixando Draco sentar aos
pés da cama de Hermione e Harry permanecer junto à porta. — Me contem tudo — eu ajudo
no que for possível.
Como resposta, Hermione passou a ele o exemplar incriminado do Evening Prophet. Ela
ficou levemente surpresa de o jornal não explodir em chamas no instante em que o tocou —
seu estado emocional vinha oscilando rapidamente entre entorpecimento e uma fúria
ofuscante desde que acordara no chão da sala de estar. A mera visão daquele jornal nojento
bastou para reacender o pavio do seu temperamento de novo e ela teve que respirar fundo
algumas vezes para se recompor antes que isso levasse a melhor sobre ela.
Ela estava em repouso para evitar um parto prematuro, então provavelmente não seria muito
bem visto se saísse marchando até Grimmauld e até os escritórios do Profeta para lançar os
feitiços mais cruéis que conhecia em duas pessoas que mereciam aquilo com todas as honras.
Os olhos de Theo percorreram o jornal rapidamente, e ela pôde ver, nitidamente, o lorde
sangue-puro que tinham criado para ele surgir por baixo do hippie afável que ela estava
começando a conhecer. A coluna dele enrijeceu primeiro, sempre ereta, mas reforçando-se
com aço assim que ele registrou a manchete. Depois, o rosto esfriou, músculos se
rearranjando até cair numa expressão pétrea que lembrava muito Draco quando ele se
escondia atrás da máscara pública. As pernas mudaram de posição, tornozelos girando e
joelhos se alinhando até se recolherem de uma ligeira esparramada para algo próximo de uma
formação militar.
Quando terminou de ler o artigo, Theo parecia esculpido em pedra. Dobrou o jornal com
cuidado e o colocou na mesinha ao lado da cama, cruzando as pernas com elegância e
tamborilando os dedos da mão direita sobre as letras em negrito da manchete.
— Entendo — respirou fundo e soltou o ar devagar. — Bem, agora eu compreendo por que
vocês precisavam de mim o bastante para arriscar um cervo fantasmagórico entregando uma
mensagem quando eu podia estar perto de trouxas.
— Não tem problema. Eu não estava, então a questão é irrelevante. Além disso, mesmo que
estivesse, eu teria aceitado as consequências. — Ele apontou o queixo na direção de Draco.
— Isso aqui é mais importante do que pagar umas multinhas.
— Obrigado, de verdade — disse Hermione, baixo. — Eu não esperava que você chegasse
tão depressa.
— Mas é claro que eu viria — Theo pareceu levemente ofendido, por baixo das maneiras
aristocráticas ressuscitadas.
— Ele tem uma chave de portal que carrega consigo para emergências — explicou Draco, em
lugar do amigo. — Mas, ainda assim, obrigado, Theo.
— Não há de quê — Theo inclinou a cabeça para cada um deles. — Mas eu agradeceria se
vocês me explicassem o resto. Desde o começo, por favor.
Hermione lançou um olhar rápido a Draco e viu nos olhos dele o assentimento de que Theo
poderia ser confiado com os detalhes. Ela concordava, na medida em que conhecia Theo,
então voltou a encarar o bruxo que esperava pacientemente e organizou os pensamentos para
dar o melhor panorama possível.
— Certo, então... a poção de fato teve um papel nisso tudo, mas não de forma alguma
parecida com o que a Skeeter está alardeando. Eu... não sabia que estava tomando. —
Hermione se remexeu para ficar mais confortável, puxando uma respiração fortalecedora. —
Depois que recusei a desculpa esfarrapada de pedido de casamento que ele fez, o Rony trocou
a minha poção contraceptiva por uma dose altamente concentrada de Razorano Pole, porque
elas se parecem. Eu não percebi que o gosto estava diferente até já ter engolido pelo menos
um gole.
Theo se contraiu, os olhos se estreitando. Mas não mostrou mais nenhuma reação e apenas
esperou que ela continuasse.
— Eu terminei com ele quando percebi, obviamente, e então... — Ela soltou uma risada
amarga. — Fiz o que qualquer pessoa faz depois de um término horrível daqueles: fui para o
bar mais ordinário que encontrei, lancei um punhado de Feitiços de Privacidade e virei
alguma coisa perto de seis doses de uísque de fogo em uma hora. Talvez mais. — Ela
vacilou, odiando cada vez que precisava admitir o quão incrivelmente descuidada tinha sido
por causa daquele uísque de fogo.
— Eu encontrei com ela lá, porque estava afogando a minha própria leva de mágoas —
interveio Draco suavemente. — A princípio, eu ia arrumar briga, mas acabamos bebendo
mais juntos e, então, achei que seria uma ideia brilhante convidá-la de volta à Mansão para
terminarmos aquela garrafa de Rum Mami Wata da qual meu pai tanto se orgulhava. A partir
daí, as coisas... hm, progrediram como geralmente progridem.
— Então — os dedos tamborilantes de Theo pararam, e ele passou a encarar Hermione com
uma expressão dura — você dormiu com o Draco sabendo que estava sob efeito da poção de
fertilidade mais poderosa disponível no mercado?
— Eu entendo por que você pensaria isso — suspirou Hermione. — Mas eu estava
sinceramente tão bêbada que esqueci.
— Você esqueceu? Você? — A pergunta incrédula de Theo era dirigida a ela, mas ele olhou
para Draco em busca de confirmação.
— Eu acredito nela — disse Draco, inclinando-se para pegar a mão de Hermione. — Duvido
que alguém fosse capaz de fingir o horror que ela sentiu quando se lembrou, na manhã
seguinte.
Após um momento longo o suficiente para Harry começar a se endireitar numa postura de
prontidão, Theo rolou os ombros e suspirou.
— Não — ele fez um pequeno aceno de cabeça, na direção dela. — Desde que o Draco esteja
convencido, eu acredito em você.
Hermione não conseguiu evitar: olhou para Draco. Às vezes se perguntara se ele realmente
acreditava que ela não se lembrava, mas sempre empurrara aquele pensamento para um canto
porque simplesmente não podia se permitir ficar remoendo isso. Ele nunca dera qualquer
indicação de que duvidasse, mas ela tinha que admitir que parte do motivo de nunca ter
perguntado de novo era o medo de que ele dissesse que, na verdade, não acreditava.
Draco apenas sorriu e apertou a mão dela. Mostrou a confiança dele em silêncio, mas de
forma enfática, e Hermione sentiu as lágrimas de alívio brotando.
— Obrigada — disse ela, com a voz grossa, para os dois, antes de seguir adiante, ou corria o
risco de de fato desatar a chorar. — Hã, enfim... eu contei pro Draco assim que me lembrei, e
ele pediu pra eu avisar se eu estivesse realmente, bem...
— É, isso aí — Hermione fez uma careta de volta, engolindo em seco. — Quando eu contei,
ele aceitou muito melhor do que eu tinha imaginado, então perguntei se ele queria dividir a
guarda, em vez de um de nós ficar com eles completamente.
Por ter passado tanto tempo no mundo trouxa, Theo aparentemente já tinha esbarrado nesse
tipo de situação antes e, portanto, não pareceu precisar de maiores explicações. Ou então
estava esperando pelos detalhes mais importantes e faria perguntas depois. De qualquer
forma, ele fez um gesto para que ela continuasse quando ela fez uma pausa.
— Acabamos passando bastante tempo juntos, tentando nos conhecer fora do... nosso
histórico. — Ela sorriu de leve, ao lembrar deles, aos poucos, se aproximando de onde
estavam agora sem sequer perceber que estavam fazendo isso. — Estávamos tentando
aprender a ser amigáveis o suficiente pra sermos co-pais, mas nós... bem, acabamos virando
um pouco mais do que amigos.
— Hã, sim, bem mais — Hermione concordou, corando de leve, antes de franzir o cenho ao
se lembrar do cerne do problema. — O Rony, na verdade, achava que ele e eu eventualmente
íamos voltar, e já tivemos alguns enfrentamentos por causa disso. Quando ele invadiu o chá
de bebê, eu disse de modo bem definitivo que nunca mais queria ver ele e que estava feliz
com o Draco. A gente acha que, depois disso, ele foi pra algum lugar e ficou despejando tudo
que vinha à cabeça até a Rita ficar sabendo. Não sei se você conhece as, hm, táticas de coleta
de informação dela.
— Ah — Theo estalou a língua e olhou para Draco. — Eu tinha esquecido do hábito dela de
ficar zanzando por aí como inseto.
— Eu vinha usando o conhecimento disso a meu favor pra impedir que ela publicasse coisas
escandalosas demais sobre mim e o Harry — e, acho, sobre o Rony também, embora ela
sempre meio que ignorasse ele, de qualquer jeito — resmungou Hermione. — Mas, desde
que eu engravidei e comecei a dar exclusivas pro Dennis Creevey, ela anda ficando mais
ousada.
— Quem é esse tal de Creevey, afinal? — perguntou Theo. — Eu vi que ele escreveu alguns
artigos sobre você recentemente, mas, honestamente, nunca tinha ouvido falar dele.
— Você provavelmente passou por ele quando chegou — respondeu Harry, apontando com a
cabeça para fora do quarto. — Parece que acabou de sair de Hogwarts, loirinho. Era uns dois
anos abaixo da gente, em Grifinória.
Harry retribuiu o olhar, claramente nada satisfeito em deixá-la sozinha outra vez. Seguiu-se
uma batalha silenciosa de vontades, até que Hermione finalmente venceu com o que
considerou uma imitação bem decente da expressão eternamente pouco impressionada da
professora McGonagall.
Quando Harry saiu, todo desengonçado, Theo bateu com o dedo no jornal dobrado, com uma
expressão pensativa.
— Acho que tenho sido negligente com os meus deveres de acionista — comentou, então
ergueu os olhos para Hermione e Draco. — É por isso que vocês precisam de mim, não é?
— A gente ficaria muito agradecido se você pudesse ajudar com isso, Theo — disse
Hermione, com suavidade, grata por ele captar tão rápido o motivo pelo qual foi convocado.
— O Profeta não vem mantendo padrão nenhum de jornalismo há muito tempo, mas agora
está claro que virou nada além de um porta-voz para a Rita Skeeter despejar seus vários
rancores e agendas.
— Você definitivamente não está errada — concordou Draco. — É assim desde que o
Cubbins assumiu como editor, principalmente porque ele só conseguiu o cargo com a ajuda
da Rita. Pelo que parece, ela prefere ver o nome dela em letra impressa, então tratou de
instalar o capacho no lugar certo pra imprimir tudo que ela quisesse. — Ele esfregou o
queixo, pensativo. — É bem possível que esteja sendo especialmente venenosa com essa
campanha mais recente de difamação porque o Cubbins começou a favorecer o Creevey pela
capacidade de conseguir entrevistas de verdade com você e o Potter. Ela deve ter querido
lembrar a ele por que dá a cara do Profeta há tanto tempo.
— Você pode ter razão — murmurou, então se virou para Theo com o maxilar firmemente
definido. — Então, eu sei que pode ser pedir demais, mas você acha que daria pra ajudar a
colocar essa gente na linha?
— Vou fazer o que puder — Theo recostou-se e esfregou o queixo, pensativo. — O problema
é que, mesmo com as ações que o meu querido paizinho tirou — digo, comprou — dos
Malfoy, eu ainda não tenho influência suficiente pra simplesmente arrancar os dois de lá sem
uma briga bem feia. Não se eles conseguirem que os outros acionistas se unam pra impedir
isso, o que é bem possível se eles tiverem material de chantagem em quantidade.
— Com o que você tem hoje, o que dá pra fazer? — Hermione perguntou, agarrando-se à
esperança de que ele ainda pudesse, ao menos, fazer algo para calar a pena tóxica da Skeeter.
— Ou quantas ações a mais você precisaria? — Draco inclinou a cabeça. — Porque as ações
da minha família deveriam ser bem próximas do suficiente.
— Eu só vendi algumas, e sei que você ainda tem umas poucas — Theo ergueu os olhos,
pensativo. — Se conseguíssemos mais dois, talvez três dos outros acionistas ao nosso lado,
então daria pra resolver.
— Nomes? — perguntou Draco, num tom que lhe rendeu um aperto de advertência na mão
por parte de Hermione, por causa da grosseria. — Por favor, se não for pedir demais.
Theo pareceu se divertir, mas não comentou a correção bastante óbvia de Hermione nos
modos do namorado:
— Dos que podem nos ajudar e não estejam tão enfiados no bolso da Skeeter? Greengrass,
Longbottom, Flint, Slughorn, Macmillan, Shacklebolt, Selwyn, talvez até Abbott. — Ele
estalou a língua. — Qualquer dois desses e conseguimos forçar o Cubbins a abrir mão da sua
preciosinha inseto. Três, e conseguimos tirar ele também.
— Acho que a gente consegue isso — Draco sorriu de canto para Theo. — Topa vestir suas
vestes mais intimidantes e fazer papel de coruja?
— Uhú.
Quando Theo saiu para encontrar um traje adequado para visitar o lado mais sonserino da
lista, com cartas da parte de Draco, Hermione pediu que Harry subisse com Dennis até onde
ela estava presa na cama. Os dois entraram justamente quando ela estava lacrando a carta
para Ernie Macmillan, e ela fez um gesto para que Dennis se sentasse antes de se voltar para
Harry.
— Harry, eu preciso de um favor, por favor. Você poderia vestir suas roupas boas e entregar
essas cartas pra mim? — Hermione estendeu os pergaminhos destinados a Neville, Hannah
Abbott, Kingsley e o professor Slughorn (ela e Draco tinham escrito os dois ao velho mestre
de Poções, sem saber de qual deles ele estaria mais ansioso para “adicionar à coleção”). —
Pode se sentir à vontade pra parecer o máximo possível com o “Eleito”.
Harry pegou as cartas e conferiu os nomes escritos nelas, as sobrancelhas escuras se juntando
sobre os óculos enquanto ele tentava decifrar o significado daquilo.
— Por quê?
— Porque a gente tem quase participação suficiente no Profeta pra forçar a saída do Cubbins
e da Skeeter, e, se conseguirmos mais três famílias para se juntar a nós, vamos conseguir
fazer isso sem uma briga gigantesca — explicou Draco, com voz entediada. — Já mandei o
Theo com uma pilha de cartas para famílias que talvez ainda liguem demais para o
sobrenome Malfoy.
Dennis bateu na própria testa com um estalo alto.
— Era daí que eu conhecia ele! — exclamou, parecendo dividido entre impressionado,
satisfeito e um pouco revoltado. — Aquele era o Theodore Nott, não era? Ele tem uma fatia
enorme do Profeta, mas nunca faz nada além de recolher os dividendos.
— O Theo nunca teve motivo pra se incomodar com o Profeta — estreitou os olhos Draco.
— Pelo menos não até eles resolverem vir atrás dos meus herdeiros ainda não nascidos.
Parecendo um pouco apreensivo com o olhar fulminante no rosto de Draco, mesmo que não
fosse dirigido a ele, Dennis voltou a se focar em Hermione:
— Mas — interveio Draco, com um sorriso simplesmente perigoso — você pode achar
extremamente vantajoso aceitar.
— Sério? — Dennis piscou, surpreso por ser aparentemente parte central do plano. — Como
assim?
Hermione endireitou o corpo e tentou parecer o mais profissional possível, mesmo deitada.
— Bem, o que você acha da ideia de se tornar o maior nome em reportagem deste lado do
Canal?
— Sério mesmo? — A mandíbula de Dennis caiu. Depois, ele se recostou na cadeira com um
sorriso que ecoava o de Draco. — Eu diria “Porra, com certeza”.
Chapter 35: Semana Trinta-Seis
Uma coisa em que Draco e Hermione (e Harry, embora ele admitisse que na verdade não
tinha muita voz na questão) concordavam era que Ronald Weasley, sob hipótese alguma,
seria autorizado a pôr os pés no sobrado. A casa era deles, o lar da família nascente deles; o
que significava que os dois prefeririam convidar um erkling raivoso para vir fazer babá a
deixar o Rony invadir o espaço deles.
No que concordavam bem menos era se Hermione teria ou não permissão de pôr os pés em
Grimmauld Place para arrancar tiras do Rony por sua mais recente idiotice.
Draco e Harry estavam firmemente de acordo que ela deveria ficar confinada à cama até a
data do parto, à força (gentil e amorosa) mágica, se necessário. Mas Hermione tinha jogado
por terra os planos deles ao desarmar os dois e arrastar o corpo protestante escada abaixo. As
ameaças de usar a lareira se eles não chamassem um táxi fizeram ambos empalidecerem;
Harry reconheceu o olhar tresloucado nos olhos dela e cedeu imediatamente. Draco resistiu
um pouco mais, argumentando que tinham se passado apenas algumas horas desde que a
Healer Agg insistira em repouso absoluto, mas também capitulou diante da visão da
namorada grávida grudando os pés dele no chão (obrigada, Narcissa, pela ideia) e estendendo
a mão em direção ao pote de pó de Flu.
Quando não estava ocupado pairando à beira do pânico toda vez que Hermione sequer
respirava mais fundo, Draco olhava ao redor, curioso, para a decoração de Grimmauld Place,
por vezes com uma expressão de leve reconhecimento cruzando o rosto.
A própria Hermione estava sentada na poltrona favorita de Harry, com uma mão pousada na
barriga desconfortavelmente apertada e a outra enroscada em torno de uma xícara de chá de
folhas de framboesa que Kreacher trouxera com grandes exclamações de deleite por estar na
presença de Draco e dos gêmeos ainda não nascidos.
E Harry estava escoltando uma figura desgrenhada porta adentro, depois de resgatar seu
convidado do quarto de hóspedes em que Kreacher e Bizzy o tinham trancafiado.
Rony parecia péssimo, o cabelo ruivo em pé como se ele estivesse puxando nele, e os olhos
injetados num rosto abatido. Ele parou na entrada, tropeçando um pouco de meias quando
Harry lhe deu um leve empurrão no ombro. Um profundo cenho franzido contraiu-lhe os
lábios ao dar de cara com a postura protetora de Draco ao lado da poltrona de Hermione.
— O que é que ele... — começou Rony, exaltado, mas a boca dele se fechou num estalo e ele
enfiou as mãos nos bolsos com um abanar de cabeça derrotado. — Não, na verdade. Eu
entendi.
— Como é que é? — zombou Draco, sem apreciar o protesto instantâneo à sua presença.
— Fica tranquilo, eu não vou sair dando soco nem nada — murmurou Rony, olhando para o
chão. — Eu entendo que você está aqui por um motivo.
Hermione ficou genuinamente surpresa pelo fato de Rony não começar a disparar socos ou
feitiços, mas não teve tempo de responder antes de ele voltar o olhar diretamente para o rosto
dela.
— Hermione — ele mordeu o lábio com força e então deixou escapar um suspiro
estrangulado —, eu estou tão, tão arrependido.
— Bom, isso é novidade — Hermione não conseguiu deixar de retrucar, a paciência reduzida
a uma lâmina de papel por absolutamente tudo. — Quer se dar ao trabalho de elaborar
exatamente pelo quê você está arrependido? — Ela abriu as mãos num gesto sarcasticamente
expectante. — Por ter me drogado com uma poção de fertilidade sem meu consentimento?
Por ter transformado minha vida num inferno por oito meses por causa de algo que você
causou com o seu egoísmo absoluto? Ou você só está arrependido de não conseguir mais o
que quer?
— Não foi...? — Rony piscou para ela, a boca abrindo e fechando por um instante,
estarrecido.
— Absolutamente não — Hermione queria levantar e andar de um lado para o outro, mas
uma fisgada na pelve lembrou que isso seria uma péssima ideia. — Eu não consigo lembrar
de uma única vez, uma sequer, em todo o tempo em que estivemos juntos, em que você
realmente me tratou como uma parceira em pé de igualdade. Tudo o que eu queria, você se
comportava como se fosse uma afronta pessoal contra você. — Ela engoliu o nó na garganta
e forçou para longe as lágrimas raivosas. — Pensando bem, eu nem sei se você algum dia me
amou de verdade, Ronald!
— Como é que você pode dizer isso? — ele gaguejou. — É claro que eu te amei! Eu ainda te
amo!
— Não ama! — disparou Hermione. — Porque, se amasse, não teria passado tanto tempo
tentando podar cada parte de mim que faz de mim quem eu sou!
— Não, eu não... — Rony começou a argumentar, mas o tom dele perdeu firmeza de repente.
— Perdeu, sim — disse Hermione, sombria. — Lembra do seu chilique por eu querer voltar
pra Hogwarts?
— Ora, a gente tinha acabado de começar a namorar... eu não queria ficar longe de você —
defendeu-se Rony, carrancudo.
— Ah, por favor, nós somos mágicos. Sem contar que eu poderia facilmente ter conseguido
uma autorização da McGonagall pra sair — a gente podia se encontrar em Hogsmeade todo
fim de semana, sem esforço nenhum. — Hermione fez uma careta. — Que foi exatamente o
que fizemos, depois que o Harry fez a gente conversar no Natal, e eu tive que pedir desculpa
pra você por querer terminar meus estudos.
Atrás de Rony, Harry parecia desconfortável e desviou o olhar. Ele tinha sido o mediador
daquela briga, assim como de muitas outras entre os melhores amigos, e fizera o que achava,
na época, ser um trabalho imparcial. Toda essa situação fora necessária para que ele, e a
própria Hermione, percebessem que esperar que Hermione fosse a pessoa a se desculpar pelo
mau comportamento e pelo temperamento de Rony era ridículo.
— O que é que tem? — Rony pareceu genuinamente confuso. — Você gostou o bastante dele
pra ficar lá depois de me expulsar.
— Eu fiquei porque eu era a única que conseguia pagar o aluguel sozinha! — Hermione
sacudiu a cabeça. — E não interessa nem um pouco se eu eventualmente passei a gostar dele,
você se recusou até a considerar a minha opinião ou os meus desejos quando decidimos
morar juntos. Você não apenas me coagiu até eu ceder a um apartamento bem acima do que a
gente devia estar procurando, como não me deixou nem ter estantes de livros na sala.
— Elas pareciam bagunça — as orelhas de Rony estavam ficando cor-de-rosa, mas ele
claramente tinha percebido que não ia conseguir se defender. Talvez tivesse entendido o quão
feias as ações dele pareciam em retrospecto, mas Hermione tinha certeza de que ele estava só
cauteloso com o jeito como tanto Harry quanto Draco pareciam querer matá-lo.
Ela esperava que ele estivesse, sim, bem apreensivo com o temperamento dela também,
porque, dos três, ela era a que tinha o motivo mais sólido.
— Elas me faziam feliz — latiu Hermione, furiosa. — Do mesmo jeito que os pôsteres dos
Cannons e as tranqueiras te faziam. Eu nunca reclamei de eles estarem espalhados por todo
lado, reclamei?
— Exatamente. Vamos nem perder tempo entrando no assunto de como você se recusava a
fazer qualquer coisa trouxa comigo; ficaríamos aqui o dia inteiro. — Hermione cruzou os
braços e se recostou, tentando alongar as costas. — Na verdade, acho que já deixei o ponto
bem claro. Você não pode dizer que ama alguém quando trata essa pessoa do jeito que você
me tratou, Rony. Se você ama alguém, você quer que essa pessoa seja ela mesma, você quer
que ela seja, porra, feliz!
— Eu... eu queria — murmurou Rony. — Eu queria passar a vida com você. Uma vida feliz,
Hermione.
— Então você foi lá e comprou uma poção, esperando me enganar para eu ter seus filhos? —
A respiração de Hermione tremia de pura raiva. — Isso é amor, Rony?
— Eu juro que eu... — Rony fechou os olhos, cerrando as mãos em punhos, e então balançou
a cabeça, bem de leve. — Não.
— Tá bom! — rugiu Rony. — Eu fui à maldita Travessa do Tranco e paguei um sujeito pra
fazer uma garrafa de Razorano Pole concentrado porque eu sabia que parecia com a sua
poção contraceptiva! Eu achei que, se fosse parecida o bastante, eu podia trocar e você ia
tomar sem perceber a diferença. Se te engravidasse, então você ia concordar em casar comigo
e finalmente ficar feliz! — Ele ergueu as mãos e soltou um grunhido de derrota irritada. —
Eu sei que foi uma estupidez do caralho, tá bom?
— Você achou mesmo que eu algum dia seria feliz assim? — insistiu Hermione. — Que de
repente eu ia me virar e ficar radiante por abrir mão de toda minha carreira pra ficar em casa
e ser a sua dona de casa?
— Bom, pelo visto você tá de boa fazendo isso pelo Malfoy — zombou Rony.
— Na verdade, não está, não — replicou Draco, arrastado, em tom desafiador. — Eu é que
vou ficar em casa. A Hermione recebeu uma proposta de trabalho que vai acomodá-la como
mãe de primeira viagem e permitir que ela trabalhe no próprio ritmo. — Ele pousou a mão de
apoio no ombro de Hermione e lançou a Rony o seu melhor olhar de desdém. — E eu ficaria
feliz em apoiar a carreira dela mesmo que isso não tivesse acontecido.
Rony não poderia ter parecido mais chocado se Draco tivesse dado um soco nele, e ficou a
encarar os dois por um momento, boquiaberto, antes de se virar para Harry em busca de
confirmação.
— Ele está dizendo a verdade — afirmou Harry, severo. — Ele vai terminar a especialização
em Poções e depois vai ser “pai”, só isso.
— Mas nada — cortou Hermione. — Você não tem voz nenhuma em como o Draco e eu
vivemos nossas vidas. — Ela respirou fundo para se acalmar e se remexeu, desconfortável.
— Mas eu quero ouvir por que você foi atrás da Rita Skeeter de novo.
— Eu não fui! — protestou Rony, levantando a cabeça e franzindo o rosto num esgar irritado.
— Eu só dei aquela entrevista uma vez, há eras.
— Eu sei, sim — Hermione fixou o ex-namorado com um olhar fulminante quando ele
começou a se animar, esperançoso. — O que significa que eu estou plenamente ciente de que
você realmente disse aquelas coisas. Você pode até não ter marcado outra conversinha com
ela para abrir o bico, mas você estava dizendo aquilo em algum lugar. Só porque não foi atrás
dela ativamente não quer dizer que você não tem responsabilidade. Especialmente
considerando que, como você tão bem colocou, você sabe como a Skeeter é.
— E então? — apertou Hermione, fazendo uma leve careta de desconforto físico. — Onde foi
que você despejou essa pilha de besteiras?
— No White Wyvern — admitiu Rony, finalmente. — Eu fui lá pra encher a cara depois do
seu chá de bebê. — Ele encarou os próprios pés. — É bem provável que eu tenha dito tudo lá.
— Vai à merda, Malfoy — rosnou Rony, levantando a cabeça por um instante para lançar um
olhar de ódio ao bruxo loiro, antes de voltar a olhar para baixo quando se deu conta de que
Hermione estava o encarando.
— Então, você acha que estava de fato dizendo a verdade no pub? Ou estava bêbado demais
pra lembrar sequer o que saiu da sua boca? — Hermione ergueu a mão, interrompendo Rony
assim que ele começou a resmungar. — Eu quero a verdade agora, Rony. Eu sei que você não
quer dizer, mas eu preciso ouvir. Você contou pra todo mundo naquele pub o que realmente
aconteceu, ou contou uma versão que te fazia parecer melhor e me pintava como uma vaca
calculista e sem coração?
Harry suspirou, decepcionado, quando ficou claro que Rony ia se recusar a admitir, e aquilo
pareceu furar alguma coisa dentro do ruivo. Os ombros dele desabaram, e ele engoliu seco
diante do desagrado do antigo melhor amigo.
Hermione não conseguiu deixar de se sentir um pouco magoada por ser a desaprovação de
Harry, e não a fúria mais do que justificada dela, o fator decisivo para derrubar enfim a
resistência dele.
— Eu só... eu nunca disse que você era quem queria a poção — murmurou Rony, apertando
os olhos como se estivesse com dor física. — Mas... eu meio que, hã, sugeri que você sabia.
— Quão “sugestivo” você foi? — exigiu Hermione, sentindo a pressão sanguínea subir. Ela
sentiu a eletricidade se acumulando nos cachos e tinha quase certeza de que eles estavam
faiscando com a magia alimentada pela fúria absoluta que sentia por Rony.
— Só umas sugestões, eu juro! Nada direto! — guinchou Rony, depressa. — Eu só... eu
estava tão irritado porque você disse que estava feliz por o Malfoy ter sido o cara que te
deixou grávida... Digo, pelo amor de Merlin, Hermione, é claro que eu fiquei puto quando
você jogou na minha cara que acha o Malfoy melhor. — Ele gesticulou, exaltado, na direção
do bruxo em questão, como se aquilo provasse alguma coisa.
Pelo canto do olho, Hermione viu Draco se mexer. Se em preparação para uma briga ou por
puro orgulho ferido vindo à tona com Rony lembrando a todos que ela tinha dito, sem
rodeios, que ele era a melhor opção quando se tratava de pai para seus filhos, ela não sabia.
De qualquer forma, não se deu ao trabalho de verificar.
— Eu não sei por que você disse isso, Hermione — Rony ergueu as mãos. — Para me
machucar, eu acho?
— Pra te machucar? — Hermione riu, áspera. — Não, eu estava falando sério. Eu realmente
estou feliz que, se tivesse que ser alguém com quem eu acabasse nessa situação, que tenha
sido o Draco.
As palavras acertaram Rony como um golpe, fazendo-o recuar fisicamente. Não era a
primeira vez que Hermione lhe dizia aquilo, tanto pelas ações quanto pelas palavras, mas
parecia que alguma camada de delírio defensivo enfim tinha sido arrancada de Rony. As
bochechas sardentas empalideceram a um tom alarmante e os lábios se comprimiram numa
linha trêmula.
— Ah.
Dizer aquilo em voz alta acalmou algo dentro dela cuja dor Hermione nem tinha percebido
inteiramente. Alguma parte fraturada, espancada pelos golpes intermináveis da sua vida curta
e esfolada pela traição do bruxo com quem um dia ela sonhara em se casar, se juntou apenas
o suficiente para começar a cicatrizar. Como uma ferida antiga que ela meio que esquecera
que ainda estava lá, Hermione agora sabia que continuava aberta, mas também sabia que era
ela quem segurava a agulha e a linha para fechá-la.
E era tão, tão bom encarar aqueles olhos azuis e vê-lo realmente ouvir, talvez pela primeira
vez desde que ela dissera, aos onze anos, que ele tinha sujeira no nariz.
— Não faz tanto tempo assim que a gente passou por uma guerra lado a lado, Rony; e, antes
disso, você era um dos meus amigos mais próximos. Um dos meus primeiros amigos —
Hermione balançou a cabeça. — Por isso, eu vou ter a cortesia de te dar este aviso: é bom
você sumir daqui pra bem longe, pelo menos por um tempo. Um bom tempo.
— Ótimo.
Os escritórios de três andares do The Daily Prophet usavam ouro como o jornal usava
pontuação: profusamente e com pouquíssimo cuidado com o bom gosto. As portas eram
douradas, as molduras das janelas eram douradas, até os pés das cadeiras no saguão eram
dourados. Hermione se sentia meio cega com todo aquele “esplendor” antes mesmo de o
grupo chegar até a recepcionista instalada entre as duas alas da grande escadaria (também
com corrimãos dourados).
Embora, levaram bastante tempo para cruzar o piso de mármore. Estar grávida de oito meses
de gêmeos não é exatamente algo que favoreça se mover com qualquer tipo de pressa. Usar
vestes até o chão não ajudava, mesmo com o caimento impecavelmente confortável do
trabalho de Martine; Hermione tinha certeza absoluta de que ia tropeçar nos metros de
algodão verde-oliva se tentasse dar uma passada mais longa.
Draco a escoltava o caminho todo com uma mão em suas costas, na altura da lombar. Ele
vestia todo o aparato da elegância malfoyana, e Hermione ainda não tinha total certeza de
onde ele tinha tirado as vestes pretas caríssimas, considerando que hoje em dia fazia questão
de dar preferência às roupas trouxas. A postura dele estava tensa de raiva e de um tipo de
arrogância zombeteira que remetia aos primeiros anos em Hogwarts, temperada agora com o
peso de saber exatamente que tipo de poder a própria linhagem realmente continha, além de
uma visão mais cínica da vida. Só a expressão dele bastara para fazer três funcionários
diferentes se esgueirarem para fora do caminho antes mesmo de eles entrarem por completo
no prédio.
À frente deles, Theo avançava num varrer dramático de vestes azul-marinho que eram ainda
mais refinadas do que as de Draco, o que deixava Hermione com a estranha sensação de estar
olhando para uma pessoa totalmente diferente. Ele se encontrara com eles para o café da
manhã no sobrado, para ler o artigo que Dennis tinha escrito com tudo o que Hermione lhe
fornecera, vestido com as roupas casuais de sempre. E, imediatamente após o último gole de
chá, ele tinha assentido, aprovando o artigo, e desaparecido no quarto de hóspedes, surgindo
de volta parecendo cada centavo de um rico lorde dos Sagrados Vinte e Oito.
Harry fechava a retaguarda, as vestes de auror e a postura de “Eleito” envolvendo-o da
autoridade que raramente ele se importava em vestir. Ele ainda tinha convencido Draco a
domar o cabelo rebelde com um feitiço, penteando-o para trás de modo a revelar a cicatriz
famosa.
Nesse momento, Harry contornou o grupo com casualidade para se recostar no balcão. A
loira lançou a ele um olhar displicente e, em seguida, virou de volta tão depressa que os olhos
quase saltaram das órbitas quando percebeu quem estava olhando de volta.
— Ah, acho que não vou precisar de uma — disse Theo, cheio de pompa. — Seja um
amorzinho e diga a ele que Theodore Nott está aqui. — Ele deu um passo para o lado,
revelando os dois últimos membros do grupo. — Tenho certeza de que ele vai entender.
A bruxa acompanhou o gesto dele, empalidecendo ao perceber que não era só Harry Potter,
mas também Draco Malfoy e Hermione Granger lançando-lhe olhares fulminantes. Engoliu
em seco, forçando um sorriso doentio, e tocou a varinha para formar um aviãozinho de papel
que saiu voando escada acima.
— Claro, senhor Nott — ela assentiu com um movimento brusco. — Podem subir direto.
Subir as escadas estava absolutamente fora de questão para Hermione, tanto pela insistência
silenciosa de Draco quanto pela própria admissão dela, então Theo os guiou até um elevador
discretamente embutido (todo em ouro e nogueira polida, é claro). Saíram no terceiro andar, e
Draco os conduziu por um corredor, felizmente vazio, até um par de portas imponentes com
“Horatio Cubbins, Editor-Chefe” gravado numa enorme placa dourada.
— Hermione? O que foi? — Draco se virou para ela, imediatamente em estado de alerta,
tentando examiná-la.
Se Hermione achava que ele tinha sido contra ela ir a Grimmauld, aquilo não chegava nem
perto de quão veementemente ele protestara contra ela desfilar pelo Beco Diagonal e entrar
no Profeta. Cada olhar sujo que ela recebera do público em geral no caminho até ali fizera
Draco inflar como o seu homônimo protegendo o próprio tesouro, e Harry estava quase tão
ruim quanto.
Afastando as mãos dele com tapas leves, Hermione rolou os ombros o melhor que conseguiu:
— Eu estou bem. Só queria respirar um pouco.
— Tem certeza? — Harry se juntou à afobação. — Tem umas cadeiras aqui fora, se quiser
esperar.
— Eu não vou ficar esperando aqui fora enquanto vocês vão lá lutar minhas batalhas —
cortou Hermione. — O Cubbins e a Skeeter estão atrás de mim desde que eu tinha quinze
anos, então nem pensem em me tirar do golpe final.
Harry parecia prestes a argumentar, mas foram interrompidos quando a porta se escancarou,
revelando o próprio editor. Ele era bem baixo, com uma barriga que ameaçava estourar os
botões do colete de seda dourado e um topete postiço que não combinava exatamente com a
cor do cabelo nas laterais da cabeça. O rosto suado estava ruborizado e nervoso, e os olhos
castanhos vidrados corriam de um lado para o outro pelo grupo enquanto ele forçava um
sorriso trêmulo.
— Senhor Nott, bem-vindo — pigarreou, fazendo uma mesura ligeira para o grupo inteiro. —
Senhor Potter e Malfoy também! E, é claro, a adorável senhorita Granger... — Ele lambeu os
lábios. — A que devo o prazer?
A lombar de Hermione mandou um lembrete particularmente incisivo de que ela não estava
de humor para rodeios, e ela usou o próprio volume para empurrar o sujeitinho suado para o
lado com uma carranca dura.
— Vamos fingir que você não sabe — ela avançou pela sala e, felizmente, avistou uma
poltrona confortável onde pôde se acomodar com a ajuda de Draco. O fato de ser atrás da
mesa do editor era só um bônus.
Cubbins se aproximou aos passos curtos, lançando olhares desconfiados aos três bruxos que
estavam firmes em apoio a Hermione. Depois pegou a pasta das mãos dela com extremo
cuidado, olhando-a como se tivesse acabado de encontrar um nundu largado casualmente na
sua cadeira. O medo palpável acendeu em Hermione um agradável brilhozinho de satisfação,
que só aumentou quando ele leu a primeira linha do artigo e chegou a tropeçar para trás na
cadeira reservada às visitas.
— Não, eu não posso — ele arfou, horrorizado, com os olhos colados na manchete que
Hermione e Dennis tinham elaborado com deleite assim que ela acordara naquela manhã.
— Ah, meu caro — entoou Theo, aproximando-se com o seu próprio pequeno embrulho de
problemas —, acho que você vai descobrir que não tem escolha.
Draco sorriu de canto quando Theo começou a dispor as cartas uma a uma no topo da mesa.
— Isso é... Vocês não podem... — tartamudeou Cubbins, olhando para as cartas e para a pasta
com um rosto que rapidamente se aproximava de um tom “fantasmagórico” de pálido.
— Tecnicamente, podemos, sim — Draco riu, cruel. — Aliás, meu pai fez algo bem parecido
quando você e a Rita armaram aquele seu golpe, lá atrás.
— A gente deixou vocês em paz contanto que não imprimissem porcaria demais sobre nós —
rosnou Harry, fazendo Cubbins sobressaltar de susto. — Você devia ter entendido a deixa.
— Falando nela — Hermione tomou a mão de Draco e a usou como apoio para se erguer —,
vou deixar vocês rapazes explicando tudo direitinho ao nosso querido editor. Tenho uma
velha amiga para visitar.
Cubbins acompanhou com horror cada passo dela ao redor da mesa, cada linha do rosto
frouxo marcada pelo pânico. Hermione parou bem em frente à cadeira dele, com uma mão
pousada na própria barriga.
— Você cavou a própria cova quando mexeu com os meus filhos, Horatio — ela rosnou. —
Eu aconselharia você a prestar muita atenção no que os rapazes vão dizer, porque você
definitivamente não quer que eu tenha que voltar aqui para repetir a lição.
O brilho de satisfação vingativa foi combustível suficiente para levar Hermione até o fim do
corredor comprido, com apenas uma parada para descansar o corpo cada vez mais dolorido
diante de uma janela com uma linda vista do Beco Diagonal. O gabinete de Rita era o único
outro naquele andar, mas o corredor era bem mais longo do que tinha necessidade de ser. A
porta do escritório dela era tão imponente quanto a do próprio editor, e Hermione tinha quase
certeza de que a placa com o nome era um tiquinho maior.
Ela nem se deu ao trabalho de bater, apenas empurrou a porta com cuidado e se recostou no
batente.
Os cachos loiros enrijecidos atrás da escrivaninha se voltaram, e Hermione deu de cara com
os óculos de Rita Skeeter, flagelo de qualquer jornalismo decente. Choque furioso passou
pelo rosto da bruxa, antes de ser substituído por absoluto deleite quando percebeu quem
ousara invadir seu domínio.
— Senhorita Granger, que adorável vê-la — cantou Rita, entrelaçando os dedos em garras
numa alegria presunçosa. — Veio dar uma entrevista? Contar o seu lado dessa história
deliciosa?
— Não exatamente, Rita — Hermione retribuiu o sorriso com todo o charme de um tubarão
em caça. — Só vim avisar qual foi o resultado dos seus articlinhos.
— Oh, por favor, conte — Rita sorriu de lado, tão segura de si que chegava a ser insolente.
Hermione mal podia esperar para ensinar a Rita o verdadeiro significado de “A soberba
precede a queda”.
— Humm — Hermione manteve a postura o mais casual que conseguiu, o que não era pouca
coisa nas circunstâncias. — Você sabia que a única razão de o Harry e eu nunca termos
parado de vez o seu tipo de “jornalismo” era pura falta de vontade?
— Então vou levar um puxãozinho de orelha — o sorriso de Rita estava mais tenso do que
presunçoso. — O Horatio sabe muito bem qual é o meu valor.
Hermione saboreou o exato momento em que Rita percebeu que talvez tivesse cometido um
erro fatal. Na alegria de demolir Hermione, a repórter ignorara o fato de que estava também
mirando nos herdeiros ainda não nascidos de Draco Malfoy. O que, é claro, significava se
colocar sob o risco de encarar o peso muito mais tangível da enorme riqueza ancestral de
Draco, algo bem mais concreto do que uma coisa como a reputação de Harry.
Talvez Rita estivesse apostando que Draco não soubesse sobre o Razorano Pole e compraria a
versão venenosa dela a respeito do uso da poção por Hermione. Conhecendo o Draco mais
jovem, mais volátil e orgulhoso, ela podia ter achado que ele leria o jornal e, imediatamente,
jogaria Hermione na sarjeta, destruindo o pouco de credibilidade e segurança que ela ainda
teria depois do artigo.
— Ou, mais significativamente — Hermione fez uma pequena pausa para deixar claro que os
cofres Malfoy e a reputação de Harry não eram o pior da história —, a fortuna dos Nott.
A boca exageradamente pintada de Rita caiu aberta, genuinamente surpresa pela primeira vez
desde que Hermione entrara. A bruxa já se sentira desconfortável com a ideia de Draco usar
os galeões para defender Hermione e os filhos, mesmo achando que no fim não faria tanta
diferença; mas Rita estava envolvida demais com o Profeta para não saber quem tinha a
maior participação privada no jornal.
— O menino Nott? — Os olhos dela se esbugalharam por trás dos óculos ornamentados. —
Ninguém ouve falar dele há pelo menos um ano!
— Do que é que você está falando, Rita? — Hermione sorriu docemente, saboreando a
vitória. — Ele deu uma festa inteira em minha homenagem e dos meus filhos não faz nem
uma semana!
Tirando do bolso o pote que trouxera justamente para aquela eventualidade, Hermione sorriu
de canto:
O olhar que Rita lhe lançou foi adequadamente venenoso e, para grande prazer de Hermione,
carregado de medo.
— Então você veio exigir uma retratação? — cuspiu Rita. — Tudo bem, mas eu não vou
esquecer isso, garota.
— Uma retratação? Da sua pena envenenada? — Hermione riu na cara dela. — Não. A gente
veio informar o Cubbins de que você vai ser colocada na lista negra. Depois ele vai publicar a
retratação que o Dennis escreveu, incluindo citações diretas do Rony em que ele explica que
foi ele quem comprou a poção para me enganar e me fazer tomar, e que você o distorceu
descaradamente — incluindo um trechinho bem bonito sobre como você conseguiu essa
“fonte”. Assim que isso estiver bem impresso e circulando, o seu puxa-saco Cubbins também
vai estar fora.
— Sua vadiazinha! — explodiu Rita, levantando-se de um salto e batendo as mãos na mesa.
— Nem mesmo a parte dos Nott é suficiente pra tirar o Cubbins! Eu vou estar de volta em
menos de uma semana!
Rita começou a se lançar por cima da mesa, mas a varinha de Hermione a deteve no ato. As
duas bruxas respiraram fundo por um momento, embora Hermione fosse bem melhor em
esconder isso.
— Sabe — Hermione sorriu de canto, dando um giro displicente com as vestes até que elas
cobrirem completamente os pés —, a denúncia que fizemos no Ministério já devia ter sido
processada a essa altura. Que tal eu ser generosa e te dar uma pequena vantagem antes de os
aurores chegarem para te prender?
— Eu vou arrastar você comigo, sua sangue-ruimzinha imunda — cuspiu Rita, dando um
pulo quando Hermione mandou um feitiço de aviso que estilhaçou um dos prêmios
emoldurados na parede logo atrás do ombro dela.
De uma respiração para a outra, Rita encolheu-se até virar um besouro. Ela zuniu para fora,
passando rente ao rosto de Hermione, que mal conseguiu evitar um sobressalto.
Depois de contar até vinte em silêncio, Hermione permitiu-se relaxar um pouco e encostou a
testa no batente de madeira. Respirou com cuidado, puxando o ar pelo nariz e soltando pela
boca, tentando mandar a adrenalina embora das veias. A contagem até vinte não bastou, então
começou a contar de mil para trás.
— Não, só gritou um pouco e depois saiu zumbindo feito mosca — assegurou, a voz saindo
um tanto estrangulada. — O Harry pegou ela?
— Pegou, bem antes de ela chegar na janela que você deixou aberta. Ele vai largar ela no
Ministério e depois encontra a gente de volta no sobrado. — Draco se remexeu para
conseguir olhar melhor o rosto dela. — Tem certeza de que não se machucou? Você está
muito pálida.
— Machucada, exatamente, não — Hermione soltou uma risadinha engasgada, então afastou
as vestes para revelar o que tinha escondido tão cuidadosamente de Rita. — Eu acho que —
eu acho que talvez, ugh, precise ir pra São Mungo.
Draco olhou fixamente para a poça de líquido a seus pés, cercando a namorada ofegante, e
depois ergueu os olhos de volta para o rosto dela num solavanco.
— Tem certeza?
Uma contração brutal na barriga fez Hermione soltar um grunhido, os nós dos dedos ficando
brancos onde agarravam as vestes.
Hermione tinha lido os livros, tinha ouvido sua curandeira, tinha anotado extensamente tudo
o que lhe foi dito pelas mulheres que já tinham tido bebés antes.
Era um quarto bem bonito, levando tudo em conta. A magia permitia que tudo o que pudesse
deixar os ocupantes nervosos ficasse escondido até ser necessário; então (tirando o linóleo
ainda assim bem bonito no chão) o ambiente parecia mais um quarto de hotel luxuoso do que
qualquer tipo de sala cirúrgica. A cama era totalmente transfigurável e, no momento, estava
configurada como uma confortável cama queen, coberta com lençóis brancos impecáveis e
ocupada por um Draco bastante ansioso, sentado literalmente na beirada e tentando
convencer Hermione a fazer ao menos uma pequena pausa.
— Anda, Hermione — ele implorou —, eu sei que disseram que andar vai acelerar as coisas,
mas você também precisa descansar.
Hermione lançou a ele um olhar grosseiro, contendo-se por pouco para não acrescentar um
gesto igualmente grosseiro, e continuou resolutamente o seu vaivém.
— Eu estou bem — respondeu secamente, e então teve que parar e se agarrar à parede em
busca de apoio quando outra contração veio. — Ai, Deus, outra.
Draco levantou num salto e começou a esfregar a lombar dela. Ela considerou afastar a mão
dele, mas o calor era, honestamente, um pouco reconfortante.
— Uns trinta segundos — Draco tentou mais uma vez guiá-la com delicadeza de volta para a
cama —, e um pouco menos de quatro minutos desde a última.
— Hermione...
Draco ergueu as duas mãos em rendição imediata e voltou a sentar na cama sem dizer mais
nada. Fez, no entanto, uma grande encenação de como ela era confortável.
-
— O Potter está tendo um chilique na sala de espera — Draco comentou com um sorriso de
lado ao escorregar para dentro do quarto, com dois copos nas mãos. — Devo enfiar uma
poção calmante nele antes de deixar ele entrar?
Aceitando o copo com pedrinhas de gelo, Hermione se recostou nos travesseiros da cama, à
qual finalmente se rendera quando as contrações começaram a ficar mais intensas.
— Se ele quer me ver, então sim — ela suspirou, cansada. — Se formos esperar ele se
acalmar, vai ser tarde demais para deixarem ele entrar.
Draco riu dentro do próprio copo e saiu com um beijo rápido na têmpora e a promessa de
voltar depressa.
Promessa cumprida: menos de um minuto depois ele estava de volta com Harry, que ainda
parecia prestes a se desfazer em pedacinhos. Vindo atrás de Harry, cujo cabelo já tinha fugido
por completo dos feitiços de arrumação lançados de manhã, Draco ergueu um frasco de
poção vazio para demonstrar que de fato tinha enfiado algo calmante no melhor amigo dela, o
que fez Hermione se perguntar o quão frenético Harry tinha estado.
— Me desculpa, vim assim que deu — ele disparou de uma vez só, correndo até o lado da
cama de Hermione e agarrando a mão dela. — Eu queria simplesmente largar tudo assim que
recebi a mensagem, mas sabia que você provavelmente me mataria se eu não cuidasse da
Skeeter direito.
— Com certeza — murmurou Hermione, apertando a mão dele de volta com carinho. — Eu
estou bem, Harry. Passei a maior parte do tempo só andando de um lado para o outro no
quarto.
— Ela devia estar fazendo isso? — Harry se virou para Draco, de olhos arregalados. — Quer
dizer, não foi isso que fez ela, tipo, sabe... da outra vez?
— Entrar em trabalho de parto prematuro apesar de eu basicamente enfiar poções à força nela
para impedir? — Draco ergueu uma sobrancelha sardonicamente julgadora na direção da
namorada. — Foi isso que a Curandeira nos disse.
— Isso — Hermione lançou um olhar irritado aos dois. — Andar ajuda a fazer avançar os
estágios iniciais do trabalho de parto. Depois que a gente chegou aqui, já era um pouco tarde
demais para tentar segurar de novo.
— Ah — Harry voltou a encará-la com uma expressão preocupada. — Você está bem?
— Tão bem quanto dá, eu acho. A curandeira Agg passou aqui agora há pouco e acha que
não falta muito para as coisas começarem a acontecer de verdade.
— “Coisas” tipo, quando você... — Harry fez um gesto vago com as mãos, como se
empurrasse alguma coisa, e uma careta profunda de constrangimento. — Tipo, tiver os
bebés?
Hermione ficou olhando para o amigo com o pedaço de gelo derretendo entre os dedos.
— Bem, eventualmente — conteve o riso quando Harry corou e deu de ombros, impotente.
— Mas antes as contrações vão ficar mais intensas enquanto o meu colo do útero dilata para
que os—
Harry se levantou tão abruptamente que quase derrubou a cadeira, largando a mão de
Hermione para segurá-la. Ele ajeitou a cadeira por um momento e então pigarreou, fazendo
que sim com a cabeça e evitando encontrar o olhar dela. Hermione e Draco trocaram um
olhar, e ela teve que lembrar Draco, com um olhar firme, que ele próprio tinha ficado
exatamente tão atrapalhado e em pânico quando eles chegaram.
Imperturbável, ele ainda assim parecia satisfeito consigo mesmo e à beira de cair na risada
por causa de Harry.
— Certo, bem — disse Harry, a voz um tom mais agudo do que o normal —, eu, ah... A mãe
do Malfoy chegou bem na hora em que ele foi me buscar, então é melhor eu ir lá ver se ela
está bem acomodada. — Ele se inclinou para beijar rapidamente a testa de Hermione, num
gesto terno, mas ainda bastante agitado. — Já já eu volto para ver como você está. Vou estar
ali fora se precisar de mim!
— Está — ele retomou o lugar ao lado da cama dela. — Ela disse que vai ficar lá fora, a não
ser que você queira que ela entre.
Uma pontada de saudade cortante passou por Hermione à ideia de ter uma figura materna ali
no quarto. Mas essa pontada oca logo foi substituída por pontadas bem físicas de mais uma
contração. Ela procurou a mão de Draco às cegas, apertando-a com um gemido e se curvando
enquanto ele pousava a outra mão com gentileza na barriga dela, em consolo.
As contrações estavam ficando muito mais longas, e ela cerrava os dentes contra a sensação,
desejando (não pela primeira vez) ter optado por um hospital trouxa onde pudesse ter pedido
uma epidural.
No fim, passou, como todas tinham passado até então. Hermione desabou de volta, o ar preso
nos pulmões saindo num longo suspiro enquanto obrigava o corpo a relaxar.
Draco afastou delicadamente os cabelos do rosto dela, um sorrisinho torto puxando os lábios:
— A gente devia avisar a Ginny antes que eles comecem a falar em ter filhos.
— Eu sei — Draco estava logo atrás, o corpo inteiro envolvendo o dela em apoio, as mãos
sustentando a barriga para aliviar um pouco o peso. — Eu sei. Eu estou aqui, Hermione,
respira.
Ansioso para ajudar de qualquer jeito que fosse, Draco imediatamente recuou um pouco para
poder alcançar os músculos contraídos das panturrilhas dela, deslizando os dedos longos e
firmes para cima, massageando as coxas de um jeito que fez Hermione suspirar em gratidão.
Ele continuou enquanto a contração passava e beijou a omoplata dela quando o corpo relaxou
um pouco.
— Quanto tempo mais você acha? — Hermione ergueu o rosto, afastando o cabelo
desgrenhado da frente dos olhos.
— Não deve faltar muito agora, eu diria — avaliou, inspecionando o aro com atenção, antes
de dissipá-lo no nada com outro movimento de varinha. — Você está quase totalmente
dilatada, então provavelmente vamos te colocar na cama daqui a pouco.
— “Quase”? — Hermione choramingou, desolada. — Para mim aquilo parecia bem grande.
Segurando o sorriso, a curandeira Agg começou a ajudar Hermione a prender o cabelo num
coque, fixando-o com um feitiço para não se soltar como os dois anteriores.
— Você provavelmente não vai estar dizendo isso quando a coisa toda estiver acontecendo,
guria.
Com o cabelo fora do caminho, Hermione deixou a testa cair no colchão.
— Ah.
— Não se preocupe, você está indo muito bem, e os dois bebés já estão exatamente na
posição certa.
Isso era algo em que Hermione podia se concentrar para sentir gratidão. Ela tinha lido sobre
os feitiços usados para virar bebés pélvicos durante o trabalho de parto, e eles pareciam, no
mínimo, dolorosos. Como não era seguro usar magia diretamente no bebé, todo o feitiço se
baseava em fazer o útero da mãe massageá-lo até a posição correta. Hermione quase tinha
jogado o livro fora de horror quando leu pela primeira vez a descrição clínica de quais
músculos intensificar as contrações para virar um bebé.
— Você consegue, Hermione — disse Draco com doçura. — Eu estou aqui, para o que você
precisar.
— Você pode lançar um feitiço de impotência em si mesmo? — ela resmungou por entre os
dentes, sem realmente pretender que ele ouvisse, e sabendo que estava sendo um tantinho
injusta, considerando como os gémeos tinham sido concebidos.
— Não se preocupe, rapaz, eu ouço isso pelo menos duas vezes por semana — a curandeira
Agg deu uma risadinha diante da expressão que Draco evidentemente fez ao perceber o
pedido de Hermione. — Uma bruxa ameaçou o marido com isso em cada um dos quatro
bebés que tiveram, e está toda feliz grávida do quinto agora.
— Você está indo tão bem, Hermione — acalmou Draco enquanto ela arqueava para fora da
cama e esmagava a mão dele num aperto de nós dos dedos brancos. — Eu estou bem aqui, eu
prometo.
Depois de mais de doze horas de uma agonia cada vez pior, ela tinha a opinião bastante firme
de que o mundo bruxo realmente precisava investir mais em pesquisas sobre alívio de dor
que fosse seguro para mães em trabalho de parto e seus bebés. A curandeira Agg parecia
bastante progressista, talvez pudesse ser convencida a incluir epidurais na sua prática.
Inferno, Draco estava treinando para ser mestre de poções. Hermione tinha certeza de que
conseguiria convencê-lo a inventar alguma coisa.
Mas isso ficaria para depois. No momento, ela tinha preocupações maiores.
— Eu quero a minha mãe — admitiu numa voz pequena, virando o rosto para o lado,
envergonhada, quando a contração deixou o corpo dela e ela desabou, mole. — Eu estou com
medo e dói, Draco.
— Eu sei, eu sei. Eu traria ela pra cá num piscar de olhos se pudesse — Draco pressionou um
beijo delicado no topo da cabeça dela. — Se você quiser, eu até vou buscar o Potter pra você.
Hermione não conseguiu evitar soltar uma risadinha sem muita força com isso, imaginando
que Harry provavelmente desmaiaria na primeira vez em que ela gritasse. Por mais corajoso
que fosse quando era ele quem corria perigo, Harry nunca lidou bem quando era outra pessoa
que estava sofrendo.
— Viu? Fiz você sorrir — Draco riu baixinho. — Eu faço qualquer coisa que você quiser, é
só dizer.
Não houve oportunidade de responder, porque tudo o que saiu da boca dela foi um grunhido
estrangulado que rapidamente escalou para um urro gutural. Ela tentou não se contorcer
enquanto a curandeira Agg e Draco a guiavam, um em cada ponta da cama encurtada.
Hermione soluçou com a intensidade, mal registrando a exclamação animadora da
Curandeira sobre estar vendo uma cabeça. Tudo simplesmente doía demais para notar
qualquer outra coisa; ela sentia como se o próprio corpo estivesse se rasgando enquanto
segurava a mão de Draco num aperto esmagador e quase estilhaçava os dentes de tanto travar
o maxilar.
Por fim, a contração cedeu, permitindo que ela caísse de costas com um soluço exausto.
— Shhh — Draco afagou com cuidado o cabelo ensopado de suor dela, oferecendo o copinho
com pedrinhas de gelo. — Falta tão pouco, eles estão quase aqui.
— Um deles, pelo menos — o lábio de Hermione tremeu. Ela não sabia se era melhor ou pior
saber que os gémeos chegariam muito rápido um depois do outro. Não conseguia imaginar
passar por aquilo uma vez e, depois, decidir se virar e fazer tudo de novo voluntariamente.
Talvez ter um único trabalho de parto contínuo e ganhar dois bebés no fim fosse um negócio
melhor.
Ou talvez não, pensou, quando a tensão no abdómen começou a caminhar de novo rumo à
dor de outra contração. Ela também não tinha nada com o que comparar.
— E depois o outro — Draco riu. — Segredos de Salazar, eu nem consigo dizer o quanto
você é incrível. Eu te amo tanto.
A cabeça de Hermione virou tão rápido que a curandeira Agg sobressaltou e agarrou as coxas
dela, não fosse a mulher acabar despencando para fora da cama. Com certeza ele não podia
ter acabado de dizer aquilo. Mas bastou um olhar para a expressão levemente culpada dele, e
Hermione soube que ele de fato tinha acabado de soltar as Três Palavras Mágicas — bem ali,
no intervalo entre gritos, enquanto os filhos dele arrombavam a saída do útero dela.
— Você falou isso sério agora? — ela encarou, completamente atônita, ligeiramente distraída
do fato de que a Curandeira Agg estava agachada entre suas pernas nuas, pronta para aparar
os bebés.
— Bom, em minha defesa, eu já tinha planejado te contar antes dos bebés chegarem, de
qualquer forma.
— Ah, pelo amor de Deus — Hermione praguejou, meio por descrença, meio de dor quando
outra contração começou a tomar conta dela. — Você não pode simplesmente...
— Que tal a gente fingir que eu escolhi um momento melhor, tipo depois que eles estivessem
todos limpinhos e você parecendo maravilhosa segurando os dois? — Draco redirecionou
depressa, segurando-a enquanto ela fazia força e implorava para que os filhos finalmente
nascessem.
— Quase lá, senhorita Granger! Você está indo tão bem — elogiou a Curandeira Agg do seu
posto entre as coxas afastadas de Hermione. — Continue empurrando! Já vejo uma cabeça.
Hermione fez o que mandaram, um grito se rasgando de sua garganta enquanto ela empurrava
muito além do que achava que o corpo podia aguentar. Ela deixou escapar o deslize de Draco,
pelo menos por enquanto, enquanto colocava cada grama de determinação em não afrouxar
quando a contração começou a perder força.
Mesmo em meio à dor, Hermione teve o pensamento nítido de que a sensação de um cabeça
finalmente escorregando para fora do seu corpo era, de longe, a coisa mais estranha que já
tinha experimentado. O quão esquisito aquilo era a desconcertou o bastante para que ela
parasse de fazer força, arfando enquanto a Curandeira Agg a incentivava com suavidade a
empurrar só mais um pouquinho. Sem ter outra escolha, Hermione firmou ainda mais o
aperto na mão de Draco e usou os fiapos finais da contração para trazer o primogénito ao
mundo.
Não houve o choro imediato que Hermione tinha sido condicionada a esperar pelos filmes.
Apenas um momento de imobilidade em que toda a força que usara para expulsar o bebé a
abandonou, deixando-a se sentindo como uma massa amorfa sobre a cama, e uma sensação
desconfortavelmente escorregadia entre as pernas, que dava vontade de se encolher e fugir. A
Curandeira Agg começou a murmurar algo enquanto recuava um pouco e usava a toalha nas
mãos para limpar alguma coisa no colo.
Então, justo quando Hermione ia perguntar o que havia de errado, um chorinho rouco, de
ofensa minúscula, saiu das mãos da Curandeira Agg. A curandeira abriu um sorriso radiante
para eles, fazendo sinal para Draco sair um pouco do caminho ao se levantar com a pequena
criança enrugada aninhada com segurança em suas mãos experientes.
Hermione olhou, maravilhada, para a pequena criatura que arrastava o rostinho zangado pelo
peito dela. As mãos de Hermione se fecharam ao redor das costas dele, cobrindo toda a
extensão com sobra, e ela engasgou quando o choro dele se acalmou em grunhidinhos
descontentes. Ele era tão pequeno, ainda menor do que as bonecas que a tinham
impressionado com o tamanho minúsculo nas aulas para grávidas. Os membros finos se
enrolavam em si mesmos, sem perceber que agora havia espaço para se mexer, que ele já não
estava espremido no espaço finito do útero, compartilhado com a irmã.
— Castor — ela sussurrou, incapaz de desviar os olhos enquanto os dedos trêmulos de Draco
se juntavam aos dela, afagando o penugem molhado na cabeça do bebé.
— É um bebé saudável, já sabe que está seguro com vocês dois — a Curandeira Agg
irradiava ao olhar para os três, então virou-se totalmente para Draco. — Pronto para cortar o
cordão, papai?
— Sim, você — Hermione riu, cansada, embriagada de espanto e incapaz de tirar os olhos do
rostinho amarrotado do menino, enquanto ele expressava todo o desagrado com o mundo. —
Anda logo com isso, que eu quero que você pegue ele enquanto eu trago a irmã para fora!
— Certo! Sim! — Draco pareceu sair do transe de repente e tateou o bolso à procura da
varinha para lançar o feitiço necessário no cordão umbilical.
Depois que o cordão foi cortado e selado, a Curandeira Agg chamou a assistente para ajudar
Draco a pegar o bebé de Hermione bem na hora em que a próxima contração começava. Ele
se sentou numa cadeira o mais perto possível da cama dela, a camisa aberta e o pequeno
embrulho de seu primogénito encostado ao peito nu, incentivando Hermione enquanto ela
iniciava o processo de trazer a filha ao mundo. Ele parecia em êxtase com ela, completamente
pasmo e fascinado, os olhos indo de Hermione para Castor num vaivém rápido.
A Curandeira Agg retomou seu lugar entre as pernas afastadas de Hermione, a varinha
lançando uma série de feitiços que limpavam as mãos e preparavam outra toalha aquecida
para receber o próximo bebé.
— Certo — a Curandeira Agg ergueu o olhar para Hermione com um sorriso. — Ela ainda
não está bem pronta para descer, então, se você quiser, posso lançar um feitiço para ajudar a
trazê-la para o canal de parto.
Hermione, dolorida, exausta e desejando que tudo já tivesse acabado, mordeu o lábio com a
simples menção daquele feitiço temido:
— Não estamos em perigo — a Curandeira Agg fez surgir a esfera familiar de cores
giratórias sobre o abdómen dela. — A frequência cardíaca dela está boa, e ela não está em
nenhum tipo de sofrimento.
— Ok, isso é bom então — Hermione soltou o ar num sopro de alívio. — Vamos esperar.
— Claro — a Curandeira Agg assentiu, sábia, empurrando os óculos para cima com o ombro.
— Ainda assim, não acho que vamos esperar muito.
Não houve tempo para perguntar se ela tinha certeza, porque o corpo de Hermione decidiu,
com toda firmeza, que ela já tinha tido descanso suficiente para admirar a prole, e a contração
seguinte chegou brutalmente rápida. Draco tentou inutilmente encontrar uma forma de
segurar Castor e alcançar Hermione ao mesmo tempo, até que a assistente se aproximou para
levar o bebé para pesar e medir enquanto os pais estavam ocupados.
Mesmo no meio da contração, Hermione quis se erguer e arrancar o bebé de volta. Só não se
jogou para cima dele porque, de fato, tinha certeza de que o corpo não obedeceria naquele
momento. Felizmente, a medibruxa apenas usou a varinha para deslizar uma mesa escondida
para fora da parede, fazendo o trabalho de modo eficiente e bem à vista de Hermione.
— Pouco menos de dois quilos e meio — informou a bruxa num tom alegre. — E... trinta e
dois centímetros. Parabéns, ele está perfeito!
— Ótimo tamanho para um bebé um tiquinho adiantado, e gémeo ainda por cima — animou
a Curandeira Agg, sem tirar o olho de Hermione nem do orbe de cores que representava a
filha.
— Ótimo — Hermione sibilou pelos dentes, tentando arrancar um pouco mais de força do
corpo cansado antes que a contração acabasse.
Banindo a cadeira para o canto, Draco pairou sobre Hermione ao longo de mais cinco
contrações intermináveis. Ele alisava o cabelo dela e beijava-lhe a testa enquanto ela
soluçava o que parecia ser o último restinho de energia que tinha para dar. Quando a quinta
contração se dissipou, ela desabou para trás, a cabeça tombando de lado com um gemido
fraco.
— Senhorita Granger? — a Curandeira Agg se ergueu para espiar Hermione, lançando alguns
feitiços diagnósticos na bruxa lívida. — Como você está?
— Tão cansada — Hermione reuniu força suficiente apenas para murmurar. Ela estava um
trapo, a pouca energia que tinha recuperado quando colocaram Castor nos seus braços tinha
sumido como orvalho ao amanhecer.
— Certo, então acho que está na hora de começar a movimentar um pouco a sua pequena,
tudo bem? — a voz da Curandeira Agg era suave, mas carregava autoridade suficiente para
fazer Hermione assentir, exausta. — Ela está sendo um pouco teimosa, então vou mudá-la só
um pouquinho de posição para ajudá-la a sair, combinado?
— Ok — não havia muito mais que Hermione pudesse dizer, então apenas pressionou o rosto
contra o calor da palma que Draco passava em sua bochecha.
— Você está indo tão bem, amor — ele sussurrou. — Se doer demais, você pode me morder.
— Pronta? — a Curandeira Agg pousou uma mão quente sobre a barriga de Hermione e
apontou a varinha com cuidado. — Utero Vertere.
A sensação foi quase exatamente igual à pior de suas contrações, mas concentrada e
localizada num ponto logo abaixo das costelas esquerdas. Hermione arrancou um grito
estrangulado, arqueando as costas num esforço instintivo de fugir da varinha que estava
causando a dor.
— Vai passar, você está bem — a voz de Draco soou como se estivesse lutando para não
entrar em pânico, mas ele se manteve firme por ela. — Só mais um instante, e aí você
consegue trazê-la pra fora, eu prometo. O Castor está bem ali, esperando a irmã.
A dor viajou pelo abdómen até o quadril esquerdo, arrancando um guincho ferido de
Hermione, antes de desaparecer de repente quando a Curandeira levantou a varinha.
— Desculpe, guria — ela apalpou com dedos gentis, sentindo a barriga de Hermione para
verificar se o feitiço fizera o trabalho. — Maravilha, ela está direitinho agora. Devemos
conhecê-la na próxima ou na outra contração.
No fim, foram necessárias mais três contrações para que a filha deles resolvesse fazer sua
entrada, e ela veio ao mundo berrando como uma banshee. A Curandeira Agg deu uma
risadinha enquanto limpava o vérnix da bebé furiosa, antes de se levantar e deitá-la no peito
de Hermione, como fizera com Castor.
— Ela é tão linda — Draco passou um dedo leve pelo nariz enrugado da bebé e pela
bochecha. — Juro que ela já parece com você.
Polluxine era menor que o irmão, mas infinitamente mais barulhenta. Espremia o rostinho
contra o seio de Hermione, gritando com todas as forças e procurando algo para se acalmar
ao mesmo tempo. A penugem na cabeça amassada já começava a cachear um pouco, e o
queixo era, sem dúvida, igual ao da avó materna.
Um movimento na periferia do campo de visão fez Hermione erguer os olhos para Draco, que
se virava para pegar Castor de volta das mãos da medibruxa. O filho ainda resmungava
baixinho, mas seus chorinhos suaves eram completamente abafados pela indignação da irmã.
— Você pode começar pelo Castor, mas deixe que a gente pese sua menina antes de dar de
mamar para ela — orientou a Curandeira Agg com calma, mal interrompendo o trabalho
enquanto lançava sequências de feitiços que ajudariam o corpo de Hermione a fazer, em
poucas horas, o que normalmente levaria semanas para se recuperar.
A medibruxa avançou para pegar Polluxine, permitindo que Draco colocasse Castor com
cuidado no lugar dela. O menininho imediatamente virou o rosto para dentro, procurando o
mamilo de Hermione com muito menos ajuda do que ela tinha imaginado que precisaria dar.
— Está certo assim? — perguntou, nervosa, tentando posicionar Castor como nos diagramas
dos livros.
— Você pode segurar um pouquinho mais firme e tentar erguer o seio para empurrar o
mamilo em direção a ele — instruíu a Curandeira Agg, levantando as próprias mãos para
demonstrar rapidamente, sorrindo quando Hermione fez exatamente isso. — Perfeito. Parece
que sentiu ele pegar?
— E aqui está sua menina, Polluxine, não é? — a medibruxa cantarolou ao voltar do balcão
onde tinha tirado as medidas. — Dois quilos e duzentos, e vinte e nove centímetros.
Parabéns, dois bebés saudáveis.
Draco se aproximou para pegar a filha, cuja indignação pareceu se acalmar um pouco ao ser
transferida para os braços dele. Ela ainda resmungava e choramingava, punhinhos cerrados
tremendo, mas virou o rosto na direção do pai e fungou contra o peito ainda nu.
— Olá, querida — ele sussurrou, ao virar-se para levá-la até a mãe. — Eu estou tão feliz de
finalmente conhecer vocês dois.
Quando ele devolveu a filha ao peito de Hermione, para que tivesse a primeira refeição ao
lado do irmão, Draco beijou o topo das cabeças ainda úmidas antes de beijar com carinho a
têmpora de Hermione.
— Eu te amo — ele sussurrou, a voz embargada de lágrimas. — Todos vocês três.
Chapter 37: Semana Um
É com o coração pesado que nós, aqui no Profeta Diário, devemos admitir que fomos
induzidos ao erro — e, pior, por alguém da própria casa.
Por muitos anos, o mundo bruxo confiou na palavra da aclamada jornalista Rita Skeeter,
maravilhado com sua capacidade de conseguir furos e acreditando que ela fosse um baluarte
da integridade jornalística. Mas, como se descobriu, tudo não passava de fachada. Ficamos
arrasados ao constatar que, há anos, a Sra. Skeeter vinha deturpando descaradamente a
verdade e cometendo uma série de ilegalidades na busca de sua própria agenda.
Atividades que, por fim, a alcançaram, levando à sua escolta para fora de nossas instalações
por Aurores (incluindo o próprio Harry Potter) para interrogatório.
O que causou essa revelação? Bem, talvez devamos começar com um pedido sincero de
desculpas à Srta. Hermione Granger, pela “reportagem investigativa” publicada neste jornal
sob a assinatura da Sra. Skeeter.
Devido à confiança de longa data em Skeeter, a equipe editorial não julgou necessário
investigar de forma independente o artigo quando ela o apresentou. Depositou fé em uma
jornalista que todo o Reino Unido considerava inatacável e aceitou sua própria checagem de
fatos como suficiente para seguir com a publicação.
As alegações presentes no referido artigo — de que a Srta. Granger teria usado então
namorado Ronald Weasley para comprar uma poção de fertilidade a fim de ter o filho de
outro homem — revelam-se, na melhor das hipóteses, distorções grosseiras de natureza
verdadeiramente terrível. Na pior, falsidades completas.
Portanto, ao contrário do que foi publicado neste jornal, a verdade é que a Srta. Granger
não pediu, nem sequer sabia da existência da poção com antecedência. O Sr. Weasley
prosseguiu explicando que comprou a poção e planejou fazer com que a Srta. Granger a
tomasse sem saber, numa tentativa desesperada de levá-la a se casar com ele. Ele havia
pedido a mão da Srta. Granger em casamento, e ela recusara, declarando o desejo de
trabalhar o relacionamento antes de darem esse passo.
Em vez de aceitar o adiamento com graça, o Sr. Weasley escolheu um rumo assustador, que
selou o fim do relacionamento.
Em depoimento dado diretamente a um de nossos repórteres, a Srta. Granger declarou o
seguinte:
— Eu realmente queria poder manter esse assunto em privado, por mim e pelos meus filhos
ainda não-nascidos. Mas, frustrantemente, sinto que minhas mãos foram forçadas e que
preciso esclarecer os fatos. Só descobri a respeito da poção depois de já ter engolido a maior
parte. O frasco em que eu guardava a minha poção contraceptiva mensal havia sido
esvaziado e então recheado com a Razorano Pole, e deixado exatamente onde eu
normalmente o deixo. — Ela faz uma pausa para recompor-se. — Não demorou muito para
eu pesquisar e descobrir que poção poderia ser, depois que percebi que o gosto não tinha
nada a ver com o que deveria. Depois disso, eu soube que não tinha como continuar com o
Ron em nenhum tipo de relacionamento e terminei tudo imediatamente.
Quanto às demais alegações feitas pela Sra. Skeeter — de que a Srta. Granger teria usado a
poção para “prender” o rico solteiro Draco Malfoy —, ele próprio tem o seguinte a dizer:
— Não houve armadilha nem subterfúgio da parte da Hermione, apenas dois jovens bebendo
demais e esquecendo um pouco demais das próprias mágoas. Ela foi, na verdade,
extremamente franca comigo sobre a poção e sobre as circunstâncias em que acabou
tomando. Conversamos a respeito depois de tirar algumas semanas para pensar e decidimos,
mutuamente, tentar ser uma unidade parental coesa. — Ele ri baixinho, lançando um olhar
afetuoso à porta fechada do quarto onde a Srta. Granger está descansando. —
Honestamente? Embora eu nunca tivesse imaginado que as coisas seguiriam por esse
caminho, e embora deteste do fundo da alma o fato de a Hermione ter sido enganada para
tomar essa droga de poção, não posso dizer que me arrependa disso, do meu ponto de vista.
O Sr. Harry Potter, amigo de longa data tanto da Srta. Granger quanto do Sr. Weasley,
ofereceu um breve comentário quando o procuramos:
— Eu tenho conhecimento das ações do Ron há algum tempo; ele mesmo me contou em
várias ocasiões o que fez ao trocar as poções. Em determinado momento, achei que ele
estivesse realmente arrependido por ter feito isso com a Hermione, mas acabei percebendo
que ele só lamentava a forma como a situação o afetou. Eu nunca teria imaginado que o Ron
faria algo tão baixo, mas a falta de verdadeiro arrependimento ou de reconhecimento do que
fez me levou a reconsiderar nossa amizade. — Ele faz uma pausa, o olhar verde famoso
perdido ao longe por um momento. — O Ron foi meu primeiro amigo, alguém em quem achei
que pudesse confiar sem qualquer dúvida; mas considero a Hermione minha irmã, mesmo
que não dividamos sangue nenhum. Não posso apoiar alguém que tentaria prender qualquer
pessoa dessa forma, nem mesmo alguém que eu chamava de melhor amigo.
— Ela é tão linda — Harry sussurrou, maravilhado, embalando a minúscula forma enrolada
em cobertor de Polluxine. Ele não tinha tirado os olhos dela desde que Draco — só com uma
leve relutância — deitou o bebé adormecido em seus braços.
— Ambos são — concordou Narcisa, o rosto sem nenhum traço da habitual compostura
impenetrável enquanto sorria, com olhos marejados, para Castor em seus próprios braços. —
Draco, querido, ele está exatamente como você. Sinto como se estivesse olhando para o
passado.
Hermione teve de rir em concordância, porque a semelhança era um tanto impressionante.
Mesmo com menos de doze horas de vida, Castor puxava claramente o pai, enquanto
Polluxine tinha o rosto mais arredondado que remetia um pouco mais à mãe. Hermione não
tinha certeza se não estava apenas imaginando as semelhanças, mas elas a deixavam um
pouco mole por dentro ao pensar nelas.
Ouvir Narcisa dizer o mesmo foi reconfortante, e Hermione estava se deliciando com o fato
de que a bruxa tão estoica não conseguira parar de sorrir para os netos desde que entrara no
quarto.
— Granger foi maravilhosa — murmurou Draco, pairando logo acima da poltrona de Harry,
nitidamente apreensivo com a possibilidade de Harry derrubar de alguma forma o embrulho
precioso. — Eles são absolutamente perfeitos.
— É... — Harry respirou, passando o dedo pela bochecha macia do bebé. Ele parecia
completamente enfeitiçado, e Hermione sorriu consigo mesma, antecipando a reação do
amigo à pergunta que estava prestes a fazer.
— Hã, Harry — Hermione pigarreou para chamar a atenção do amigo, esperando até que ele
finalmente conseguisse desviar os olhos da bebé. — A gente tinha uma coisa que queria te
pedir enquanto você está aqui.
— Sim — Hermione endireitou um pouco a postura e compôs a expressão mais séria que
conseguiu. — O Draco e eu conversamos e decidimos que gostaríamos que você fosse
oficialmente o padrinho da Polluxine.
Atônito a ponto de quase perder a capacidade de falar, Harry levou bons cinco minutos
soluçando um “Claro!” sufocado contra o corpinho enfaixado de Polluxine.
Acusações de difamação, por si só, não seriam suficientes para levar alguém da estatura da
Sra. Skeeter a ser conduzida para interrogatório por Aurores de forma tão dramática. O que
nos leva à pergunta: por que ela foi presa dessa maneira?
Como se descobriu, o famoso faro da Sra. Skeeter para furos talvez não tenha tanto a ver
com qualquer habilidade investigativa, mas sim com espionagem e interrogatórios
flagrantemente ilegais.
As acusações apresentadas contra nossa ex-repórter são tão chocantes quanto qualquer um
de seus artigos (todos agora em processo de revisão por uma equipe dedicada aqui no
Profeta). À frente delas está a acusação de ser uma animaga não registrada. Acontece, caros
leitores, que a Sra. Skeeter vinha “grampeando” qualquer conversa que bem entendesse.
Foi apresentada ao Profeta uma prova irrefutável de que a Sra. Skeeter vem usando sua
forma de animaga ilegal e não registrada — a de um besouro — para invadir a privacidade
do mundo bruxo. De se esgueirar para dentro de locais seguros, como o gabinete do Ministro
da Magia ou dormitórios de alunos em Hogwarts, a simplesmente seguir seus alvos sem que
estes tivessem como se defender, a Sra. Skeeter parece não ter nutrido qualquer escrúpulo
quanto a discrição, privacidade ou investigação adequada.
Isso talvez explique inúmeros furos impressionantes que Skeeter apresentou em seus artigos e
outras publicações, mas e quanto às suas entrevistas?
A mais famosa delas talvez tenha sido com a falecida Bathilda Bagshot, autora de vários
livros, incluindo o aclamado Uma História da Magia. Conduzidas ao longo de várias
semanas, pouco antes da morte de Bagshot, as entrevistas foram posteriormente
transformadas em um livro sobre a vida de Alvo Dumbledore, A Vida e as Mentiras de Alvo
Dumbledore. A obra trouxe diversas alegações que mancharam o legado do falecido diretor
e foi extremamente popular sob o governo de Tom Riddle (também conhecido como Lord
Voldemort ou Você-Sabe-Quem).
A Sra. Skeeter enviou um exemplar do livro à Sra. Bagshot quando este foi publicado,
incluindo um bilhete pessoal. O livro e o bilhete foram posteriormente encontrados por
Harry Potter, e diziam:
"Querida Batty, obrigada pela ajuda. Aqui está um exemplar do livro, espero que você goste.
Você disse tudo, mesmo que não se lembre. Rita"
O que, de fato, nos leva à pergunta: até que ponto a Sra. Skeeter afundou em sua busca por
sensacionalismo?
— Que coisinhas preciosas! — Ginny derreteu-se, segurando Castor com firmeza em mãos
bem treinadas por anos de Quaffles. — Olha só esses dedinhos e dedinhos dos pés! E esses
narizinhos! — Ela passou o dedo com carinho pelo dito cujo, fazendo umas caretas
verdadeiramente bizarras enquanto o fazia.
Sonolento demais, depois de uma boa mamada, para se incomodar com tanta atenção, Castor
abriu a boca num bocejo adorável, a linguinha cor-de-rosa se enrolando como a de um
gatinho.
— Bom, por enquanto — Theo pegara Polluxine e acalmara o pequeno resmungo dela com a
troca do colo de Hermione pelo seu com uma facilidade surpreendente e, agora, Hermione
estava sendo brindada com a cena muito divertida de Theo, novamente em suas roupas
hippies habituais, largado confortavelmente na poltrona do hospital com um bebé babando
por toda a sua camisa. — Mas parece que esse pobre diabinho vai ficar com o nariz do pai em
pouco tempo.
Hermione admitia para si mesma que provavelmente estaria igualmente inquieta com outras
pessoas pegando seus filhos no colo, se não estivesse tão exausta. Os últimos três dias tinham
sido uma curva de aprendizagem íngreme e, mesmo com a magia para ajudar o corpo a se
recuperar, ela se sentia como se tivesse sido atropelada. Especialmente os seios; ela vinha
chorando toda vez que os bebés abocanhavam para mamar. Feitiços de cura e de alívio só
conseguiam ir até certo ponto quando parecia que os filhos deviam estar nascendo com
dentes de tubarão cada vez que iam atrás de uma refeição.
— Bem, com sorte ele puxa o bastante da mãe para equilibrar — Theo sorriu de lado,
voltando a atenção para a menininha que ensopava firmemente sua camisa. — Essa aqui com
certeza puxou. Olha só esses cachinhos.
— Sabe, isso não é uma coisa muito gentil de dizer para o padrinho dele — Draco
resmungou. — Talvez eu devesse reconsiderar.
— Padrinho, Theo — Draco fingiu indiferença. — Tenho certeza de que você já ouviu o
termo.
— Você quer que eu seja padrinho deles? — a voz de Theo saiu bem mais aguda do que o
normal, e seus olhos pareciam suspeitosamente úmidos.
— Bom, só do Castor — Hermione interveio antes que Draco fosse longe demais provocando
o homem que segurava a filha dela. — O Harry é padrinho da Polluxine. A gente pediu
quando ele esteve aqui naquele primeiro dia.
— Ah! — Ginny riu, fazendo o possível para manter o tom baixo e não assustar o recém-
nascido que cochilava em seus braços. — Isso explica por que ele não parou de chorar
depois! Vou garantir que ele nunca esqueça disso.
— Bem — Draco arrastou a voz —, a Polluxine ainda precisa de uma madrinha. — Ele deu
de ombros, afetando descaso, escondendo o sorriso com maestria. — Talvez alguém ruiva e
com comprovada habilidade de aparar mulheres grávidas em queda?
— Sério?
— Claro, Ginny — Hermione riu ao ver os olhos da amiga se arregalarem numa alegria
absoluta. — Adoraríamos que você fosse madrinha da Polluxine, se você estiver de acordo.
— “De acordo”? — Ginny riu, incrédula, assustando o bebé em seus braços. Ela aproximou
Castor do peito e levantou-se com cuidado, fazendo Draco dar um passo apressado, como o
pai de primeira viagem em pânico que era. Ginny revirou os olhos para ele e marchou os
poucos passos até a poltrona em que Theo estava, lançando-lhe um olhar duro, desmentido
pelo sorriso largo que lhe esticava as bochechas sardentas. — Muito bem, hora da troca!
Preciso começar o quanto antes a ensinar minha afilhada que Artilheiro é a melhor posição,
antes que o padrinho encha a cabeça dela de bobagem sobre Apanhador.
Depois que os bebés foram trocados, ela tratou de fazer exatamente isso. Draco observou
com um meio sorriso e então se inclinou para murmurar no ouvido de Hermione:
— Será que ela esqueceu que eu também jogo como apanhador? — perguntou em um riso
baixo.
— Não — Hermione respondeu, igualmente baixa, entrelaçando os dedos aos dele —, tenho
quase certeza de que ela só não acha que você seja concorrência.
Theo lançou um olhar por cima da cabeça de Castor para os dois, um sorriso travesso no
rosto enquanto embalava o bebé choramingando com mãos gentis. Hermione se perguntou o
que Theo estaria ensinando a Castor enquanto Ginny e Harry disputavam a possível posição
de Quadribol da Polluxine, mas decidiu deixar esse problema para o Draco.
À medida que o véu vai sendo puxado cada vez mais para trás, percebemos que a resposta
para essa pergunta talvez seja que não havia limite para quão baixo ela podia descer.
— Infelizmente, devo admitir que tive, no mínimo, uma pequena parcela de culpa nos artigos
mais sensacionalistas da Sra. Skeeter sobre o Torneio Tribruxo — admite o Sr. Malfoy, com
um ar desconfortável, referindo-se à tentativa de reviver a antiga competição que terminou
de forma tão trágica em 1995. — Ela se aproximou de mim e de vários outros pouco depois
da seleção dos campeões. No começo, só pedia algumas palavras sobre o que os alunos
sentiam em relação à Taça, mas não demorou para começar a pedir coisas que... — Ele se
interrompe com uma careta. — Bem, digamos apenas que ela não se preocupava muito com
a verdade.
Quando questionado se também havia sido abordado, o Sr. Potter disse o seguinte:
— A Sra. Skeeter não “se aproximou” de mim, ela me trancou em um armário de vassouras e
me interrogou. — Ele franze a testa, irritado. — Supostamente era para a cobertura da
pesagem das varinhas, mas praticamente o artigo inteiro era uma grande baboseira. Fiquei
furioso e envergonhado com o quanto ela distorceu ou simplesmente inventou tudo o que eu
disse, então me recusei a cooperar com ela depois disso.
A recusa do Sr. Potter também se estendeu a seus amigos, especialmente à Srta. Granger, e
quando esta passou a expressar abertamente seu desprezo pelo sensacionalismo da Sra.
Skeeter em cima de seu amigo, ela se tornou o novo alvo preferido.
— A Hermione era uma grande amiga e não queria nada com a Rita porque sabia o quanto
eu estava irritado com o artigo — conta o Sr. Potter, sorrindo e soltando uma risadinha pelo
nariz. — Ela também não teve nenhuma vergonha de dizer isso à Rita. E, bem, a Rita não
gostou de ser repreendida. Então começou a publicar coisas realmente horríveis sobre a
Hermione, coisas que eu sei, e posso provar, que não são verdade.
Quando pedimos que esclarecesse o comentário sobre Pansy Rosier (née Parkinson), o Sr.
Malfoy solta um suspiro pesado:
— Quando éramos crianças em Hogwarts, ela odiava a Hermione e adorava espalhar boatos
sobre ela. A Rita pedir que fizesse isso por escrito foi como Natal antecipado. Ela chegou a
sentar com a Rita e admitir que estava inventando tudo. Não fez diferença para a Rita, que
publicou mesmo assim, sabendo que a Granger nunca tinha tido um namorado sequer, muito
menos vários ao mesmo tempo. — Quando perguntamos sobre o comentário de que “ainda
se empolga”, ele balança a cabeça, entristecido. — A Pansy e eu não conversamos de
verdade desde Hogwarts, além de cumprimentos rápidos em eventos. Infelizmente, ela parece
ter levado para o lado pessoal o fato de eu e a Hermione termos filhos juntos de uma forma
tão... pouco convencional. Ela esbarrou na gente quando estávamos por aí, cedendo ao amor
interminável da minha mãe por compras. Fez alguns comentários bem pouco gentis sobre a
barriga da Hermione e depois a insultou... bem, o que ela disse pode ser lido no artigo que a
Sra. Skeeter publicou. Eu sei que não é verdade, e sei que é só a Pansy provocando o mesmo
tipo de confusão que sempre provocou quando ficava com ciúmes da Hermione, mas isso não
torna as coisas menos dolorosas.
Convidada a comentar como testemunha, a Sra. Narcisa Malfoy foi muito clara em suas
opiniões.
— A Sra. Pansy Rosier disse coisas verdadeiramente imperdoáveis sobre meus netos. Tanto
que deixei muito claro que não frequentarei nenhum estabelecimento do qual ela faça parte.
— A imponente bruxa, famosa por ter protegido um Harry Potter vulnerável de Você-Sabe-
Quem, profere o veredito com uma desenvoltura que chega a inspirar respeito. — É uma
pena que ela nunca tenha amadurecido além da idade em que crianças mentem para causar
problema, mas não consigo sentir pena, dado que meus netos e a adorável mãe deles foram
os alvos. — Ela estreita os olhos e toma um gole de chá. — Quanto à Sra. Skeeter, já enviei
aos Aurores a carta que recebi dela na manhã anterior à sua prisão. É de espantar a audácia
da mulher em me pedir explicitamente que falasse mal de uma moça que sei ser
irrepreensivelmente honesta, mesmo quando isso pode prejudicá-la.
Todo mundo que tinha conhecido os gêmeos até então os segurara como se fossem artefatos
preciosos e quebradiços. Mesmo Narcisa, cujo filho adulto era prova viva de sua competência
com bebés, os embalara com delicadeza, mantendo-se firmemente sentada na poltrona.
Molly e Arthur, por outro lado, não tinham nenhuma dessas preocupações. Hermione achou
bastante divertido perceber que tanto ela quanto Draco estavam menos tensos ao ver Molly
andando pela sala com Polluxine encaixada sob um braço enquanto preparava uma xícara de
chá para os dois, do que haviam ficado com Harry sentado perfeitamente imóvel com o
mesmo bebé apertado contra o peito.
Embora isso talvez tivesse a ver com o fato de ambos estarem mais exaustos do que jamais
haviam estado na vida. O que, considerando tudo, não era pouca coisa.
— Veja só, Molly — Arthur riu por cima dos gritos furiosos de Castor, embalando o pequeno
e balançando o corpo em ritmo constante no meio da sala de estar do sobrado. — Não
demora nada para a gente pegar o jeito de novo, hein?
Hermione teria imaginado que o jeito como Arthur estava chacoalhando seu filho teria
provocado ainda mais indignação no bebé. Mas, para sua total surpresa, quanto mais tempo e
mais forte Arthur o embalava, mais os gritos iam diminuindo. Quando Castor silenciou,
soltando um último choramingo antes de cair direto no sono, ela trocou um olhar espantado
com Draco.
— Ele é um docinho, mas, Merlin do céu! Que pulmões! — Molly levitou uma bandeja de
chá completa na direção de Hermione e Draco, sorrindo ao ver a expressão atônita nos rostos
exaustos dos dois. — Me faz lembrar do nosso Percy. De todos os meus bebês, posso dizer
com segurança que era o que eu tinha certeza de que ia me deixar surda.
— Até os gêmeos começarem com a magia, isso é — Arthur riu, servindo-se de um biscoito
com a mesma facilidade com que continuava embalando Castor. — A primeira coisa que
aprenderam foi fazer as coisas explodirem.
— O mais alto possível — Molly comentou, com um sorriso triste para o marido. Em seguida
afastou a ponta de melancolia e concentrou-se nos novos pais, sentados atordoados no sofá:
— Agora que temos chá e dois bebés dormindo, como vocês dois estão se aguentando?
— Hã, bem? — Draco piscou para Castor, que dormia satisfeito pela primeira vez desde que
o tinham trazido para casa dois dias antes. — Desculpe, mas como, em nome de Merlin, o
senhor fez isso?
— Ah, isso aí é a experiência de sete filhos, rapaz. Todos eles tiveram cólicas em algum
momento — Arthur, sorrindo de orelha a orelha, fez um gesto com a cabeça para que Draco
se levantasse. — Venha, vou te ensinar a encontrar o ritmo do pequeno Castor. Cada bebé é
diferente, claro, mas acho que já peguei o jeito desse aqui.
Atônito, Draco obedeceu. Levantou-se e, com uma seriedade ainda maior do que dedicava à
sua especialização em Poções, começou a imitar os movimentos de balanço de Arthur.
Hermione caiu na risada mais ou menos na hora em que ele convocou uma almofada só para
poder fingir que estava segurando um bebé, enquanto Arthur explicava, num tom brilhante e
encorajador, como tinha descoberto tudo aquilo como pai de primeira viagem.
— Ah, Arthur... — Molly suspirou, lançando ao marido um olhar enternecido enquanto ele
descrevia a epopeia da primeira vez em que ficou responsável sozinho por Bill e Charlie.
— Obrigada pelo chá, Molly — disse Hermione com atraso, sentindo-se um pouco
envergonhada com sua completa falta de presença de espírito. — Desculpa não ter sido uma
boa anfitriã depois de vocês terem vindo de tão longe.
— Bobagem — Molly abriu um sorriso, voltando os olhos para a Polluxine, que roncava
suavemente. — Se tem alguém que vai entender o caos que bebés novos trazem, somos eu e
Arthur. Na verdade, você e o jovem Draco estão mais do que convidados a nos procurar
sempre que precisarem. Tudo o que pedimos em troca são alguns colinhos com os pequenos.
— Especialmente nessas horas — Molly se inclinou e pousou uma mão quente no joelho de
Hermione. — Você pode não ser oficialmente uma Weasley, Hermione Granger, mas é
família. Nós dois a consideramos uma das nossas, e isso vale para o Castor e a Polluxine. —
Ela inclinou a cabeça e abriu um sorriso que a fez se parecer tanto com Ginny que era até
chocante. — E para o Draco também, suponho.
Hermione precisou puxar o ar em um suspiro trêmulo para não desatar a chorar. Em parte
porque não queria acordar os gêmeos, abençoadamente adormecidos; em parte porque já
estava farta de cair em prantos por qualquer coisa. Tinha esperança de que as intermináveis
oscilações hormonais fossem sumir depois do parto, mas começava a se perguntar se não
seriam permanentes.
Ela chegou a chorar por uma hora inteira por causa de um cartão bastante genérico enviado
pelos colegas de trabalho. E isso era o suficiente para deixá-la surpresa pelo fato de Draco
ainda não tê-la mandado avaliar na ala Janus Thickney. Vinte e tantos recados do tipo
“Parabéns pelos bebés, boa sorte no novo emprego!” definitivamente não justificavam
tamanho drama.
Buscando uma distração, Hermione puxou sua mente fatigada para o outro motivo pelo qual
os Weasley — especialmente Molly — tinham sido convidados para conhecer os gêmeos.
— Obrigada, Molly — disse, com uma gratidão além do que seu vocabulário podia expressar
embutida naquelas palavras simples. — E, nesse sentido, o Draco e eu conversamos... e
queríamos te perguntar se você aceitaria ser madrinha do Castor. Tornar oficial que somos
todos família.
Molly pareceu surpresa por um instante, e então o rosto dela se derreteu em um sorriso ainda
maior do que o que mostrara ao ver os gêmeos pela primeira vez.
— Mas é claro que aceito. — Ela apertou o joelho de Hermione e se virou para sorrir na
direção de Arthur, que estava cuidadosamente passando Castor para os braços de um Draco
ligeiramente em pânico, sem interromper o balanço. — Mas você sabe que nós ficaríamos
felizes mesmo sem o título oficial.
— Ótimo — Molly assentiu, firme. — Agora, posso ser “Vovó”, ou devo ficar só no
“Molly”?
Hermione riu e enxugou uma lágrima sob o olho, pensando com uma pontada agridoce em
como sua própria mãe sempre declarara que “Vovó” era o único nome que jamais aceitaria,
caso Hermione resolvesse ter filhos.
— Você com certeza pode ser Vovó — Hermione respondeu, ainda rindo. — Sempre que
quiser.
A primeira dessas alegações foi a de que a Srta. Granger estaria iludindo tanto Harry Potter
quanto o Apanhador búlgaro Viktor Krum.
O Sr. Krum conseguiu falar brevemente com nosso repórter por chamada via Flu e também
negou as alegações da Sra. Skeeter.
— Essa Skeeter nunca esteve certa sobre mim e Hermione. A acompanhei a um baile, e,
embora eu tivesse interesse em algo a mais, Hermione foi muito honesta e preferiu
continuarmos amigos. Ela é uma boa amiga, mesmo quando não nos vemos pessoalmente
com frequência, e fico feliz por isso.
O Sr. Malfoy tem coisas ainda mais condenatórias a dizer sobre o primeiro artigo que
manchou o nome da Srta. Granger.
— As insinuações sobre poção do amor foram ideia [da Sra. Skeeter]. Quando ela veio até
nós, aqueles a quem já vinha arrancando boatos, incentivou que contássemos histórias cada
vez mais mirabolantes e, então — e isto é uma citação direta — disse: “Vocês não acham que
essa tal de Granger deve estar usando poções do amor em todos esses rapazes?” — O Sr.
Malfoy cerra os dentes e desvia o olhar. — Fomos rápidos demais em concordar e deixamos
que ela nos dissesse exatamente o que falar. Ela publicou tudo, mesmo sabendo que não era
verdade, e nunca mais parou.
Munida de novos conhecimentos sobre essa vingança pessoal, a equipe aqui do Profeta
conseguiu desenterrar uma quantidade lamentável de material que sustenta a alegação de
que a Sra. Skeeter pode ter usado nossa publicação para levar adiante um rancor mesquinho
contra uma adolescente. Pior: uma adolescente que teve papel significativo em nos salvar do
jugo de Você-Sabe-Quem com sua coragem e inteligência quando mal havia alcançado a
maioridade.
Retratações e pedidos de desculpas individuais à Srta. Granger (entre muitos outros) serão
publicados nas próximas semanas. Mas, por ora, precisamos dizer que nós, aqui do Profeta,
estamos profundamente arrependidos do dano que permitimos que fosse causado e das
mentiras que deixamos serem espalhadas sobre uma jovem que nada merece além de nosso
elogio — e de sua privacidade.
— O jovem Mestre está muito limpinho agora — anunciou Bizzy, orgulhoso, segurando um
embrulho enfaixado quase do tamanho dele —, e a jovem Senhorita está pronta para a
brincadeira de barriguinha para baixo, exatamente como os livros da Srta. Hermione querem.
Hermione sorriu, agradecida, e trocou o embrulho cheirosinho em seus braços por aquele que
Bizzy segurava. O elfo doméstico abriu um sorriso enorme e deu alguns passinhos até
colocar Polluxine com todo o cuidado sobre o tapete de atividades. A bebé começou a
resmungar na mesma hora, mas o elfo estava um passo à frente e fez surgir borboletas
luminosas com um estalar de dedos compridos.
Observando os olhos cinzentos enevoados da filha tentando focar nos bichinhos, Hermione
sorriu e ajeitou Castor na posição para mamar. Bizzy nem chegou a olhar em sua direção,
mas um estalo de dedos fez com que a musselina preferida da bruxa se ajeitasse sobre o seu
tronco no exato momento em que ele guiava uma borboleta para roçar as asas macias nas
bochechas de Polluxine.
Era exatamente como ela tinha imaginado. A tinta creme suave nas paredes do quarto infantil
amaciando o sol preguiçoso da tarde. Dois berços, lençóis já perfeitamente esticados por um
Bizzy felicíssimo assim que Hermione virara as costas, com uma estante de livros começando
a se encher aos pés de cada um. Hermione se recostou na cadeira de balanço sob a janela com
um suspiro satisfeito, ouvindo os grunhidinhos de Polluxine e o som suave de Castor
mamando.
Era paz, e silêncio, e mais do que ela teria achado possível naquela manhã aterrorizante em
que percebeu que tinha dormido com Draco no pior momento possível.
Como se fosse invocado por seus pensamentos, o pai dos seus filhos surgiu silencioso no
quarto, andando na ponta dos pés, e se juntou a Bizzy ao lado do tapetinho. Hermione abriu
os olhos e o viu acenando para que Bizzy ficasse, puxando a própria varinha com um pedido
educado para que o elfo o ensinasse a conjurar borboletas seguras para bebés.
— Ei, Draco?
Ele virou o rosto por cima do ombro, os olhos cinzentos captando o dourado do sol e um
sorriso tranquilo nos lábios:
— Sim?
— Eu te amo. — Ela disse as palavras pela primeira vez como se já as tivesse dito um milhão
de vezes, como se não as tivesse reprimido por, no mínimo, um terço da gravidez.
O sorriso de Draco se alargou até ofuscar o próprio sol, e ele se ergueu de joelhos para se
aproximar dela. Inclinou-se, atento a onde Castor mamava, e pousou um beijo em seus lábios.
Draco Malfoy passara boa parte da última década em um estado permanente de ansiedade.
Gostava de pensar que lidava com isso até bem, mas, a essa altura, a preocupação era
praticamente o ruído de fundo da sua vida.
Primeiro: durante a guerra. Era bem autoexplicativo por que alguém ficaria um tantinho
nervoso com um ditador megalomaníaco respirando no seu cangote, só esperando a menor
desculpa para acabar com você e com toda a sua família.
Segundo: de maneira bem mais agradável, ele teve um pequeno colapso nervoso no segundo
exato em que Hermione Granger deixou sua casa depois da noite em que eles tinham rolado
juntos na cama, bêbados, sob a influência de rum demais e de uma dose temporariamente
esquecida, tripla, de uma poção de fertilidade que agora estava (felizmente) rigidamente
controlada. Os oito meses seguintes foram uma mistura de torcer febrilmente para que
Hermione enxergasse além da sua enorme lista de pecados e deixasse que ele fizesse parte da
vida dos filhos, entrar em pânico com o quão péssimo ele seria como pai (sempre em
silêncio, onde Hermione não se sentiria na obrigação de lidar com suas inseguranças), e se
perguntar como diabos ela podia ter um coração tão bom a ponto de aparentemente gostar
dele de verdade.
Como tinham, de alguma forma, acabado se apaixonando no meio de tudo isso, Draco jamais
conseguira articular direito.
Terceiro: a criação propriamente dita das crianças. Que parecia incluir uma boa dose de
aflição e uma grande porção de pura frustração assim que as pequenas criaturas aprendiam a
se mover por conta própria. Era um tipo feliz de preocupação, pelo menos para Draco, e ele
definitivamente não mudaria absolutamente nada.
No geral, a vida de Draco desde que completara dezesseis anos tinha sido uma verdadeira
viagem.
Agora, porém, pouco mais de quatro anos depois de Hermione ter sorrido cansada para ele
enquanto os dois seguravam as duas coisas mais preciosas do planeta, Draco estava nervoso
de um jeito totalmente novo.
A maioria dos homens em sua posição estava. Era o tipo de antecipação eletrizante que fazia
o estômago querer se rebelar ao mesmo tempo em que os lábios não conseguiam parar de se
abrir em um sorriso absurdo. Ele estava em um terno trouxa, o mais bonito que já tinha
possuído (o que, diga-se, não era pouca coisa). Hermione sempre dizia que o adorava de azul,
então ele usava um tom particularmente favorecedor de azul-marinho, que ele achava que o
deixava bem atraente. Theo Nott estava ao seu lado, mal conseguindo conter as risadas às
custas do amigo e parecendo surpreendentemente bem-aprumado, pela primeira vez em
muito tempo, no próprio terno cinza.
Dispostos entre ele e as cercas-vivas do lindo jardim particular que ele e Hermione tinham
escolhido com todo cuidado para esse dia, um grupo de seus amigos e familiares mais
próximos se sentava em confortáveis cadeiras brancas. Metade deles parecia ter tanta
dificuldade quanto Theo para segurar o riso, mas Draco se recusava a reconhecê-los. Se ele
quisesse sorrir como um completo idiota, então hoje era, sem dúvida, o maldito dia para isso.
Ele se sentiu um pouco melhor em relação ao sorriso sem dúvida ridículo em seu rosto
quando avistou a mãe na primeira fileira. Narcisa Malfoy se orgulhava de nunca demonstrar
emoções indecorosas, mas, em suas melhores vestes, ela estava com um sorriso verdadeiro e
aberto, completo com lágrimas de alegria brilhando nos olhos. Do outro lado do corredor,
Molly Weasley já estava soluçando em um lenço fornecido pelo marido. As duas mulheres
lhe dirigiram sorrisos cheios de carinho quando perceberam que ele as observava, e Molly
esticou o braço para trás a fim de dar um tapa em George Weasley por qualquer piada que ele
tivesse feito, sem nem interromper os choros felizes.
Ele continuou a inspecionar os convidados, fazendo uma contagem mental de quantos deles
precisariam sofrer algum tipo de represália inofensiva por rirem dele (Ginny e George iam, se
tudo desse certo, aparecer com caras bem embaraçosas em várias fotos) e quantos ele
provavelmente deveria abraçar em agradecimento pelo apoio e alegria tão evidentes (Luna
Lovegood e Barnabus Brown pareciam prestes a levitar de pura felicidade). Antes que
conseguisse completar a contagem, porém, a música que Hermione vinha escolhendo
cuidadosamente havia seis meses começou a tocar e sua atenção foi arrancada de uma vez só
para a abertura entre as cercas-vivas, no fim do corredor.
Houve um momento sem fôlego em que a atenção de todos foi igualmente capturada e, então,
um murmúrio suave de encantamento percorreu o grupo quando duas pequenas figuras
surgiram na abertura, exatamente no momento certo.
Polluxine apareceu com o queixinho — tão parecido com o da mãe — erguido bem alto em
uma atitude de completa autoconfiança, tão parecida com o pai. Tinha sido o maior dos
desafios manter sua garotinha longe do vestido de daminha desde que ele chegara das mãos
de Martine, um mês antes, mas Draco perseverara. Agora ele podia ver o entusiasmo da
filhinha por finalmente poder usar o doce vestido azul-céu, repleto de babados e fitas, como o
sonho de uma pequena princesa. Os cachos loiros e fofos tinham sido puxados para trás, para
longe do rosto, com fitas brilhantes que combinavam com o vestido e estavam salpicados de
mosquitinho. Ela parecia a própria inocência personificada, doce e feliz o suficiente para
derreter Draco em uma poça completa e enrolá-lo irremediavelmente em torno de seu
dedinho delicado.
Castor parecia um pouco menos seguro de si, o nariz afilado se contraindo como costumava
fazer quando ele queria ir se esconder com um livro ilustrado. O colete e a calça combinavam
com o vestido da irmã, e ele agarrava a almofada de seda com duas alianças amarradas em
cima como se fosse um salva-vidas. Seus cachos loiros-arenosos eram, em geral, menos
exuberantes que os da irmã, e, penteados para sair do rostinho pequeno, ele parecia
assustadoramente com Draco: uma versão mais suave e gentil, mas ainda assim um eco que
muitas vezes fazia Hermione abafar um sorriso maroto sempre que o filho estava emburrado.
A expressão séria do menino arrancou risadinhas do público, e Theo comentou, em voz
baixa, que Draco precisava ensinar o filho a relaxar. Draco não ligou: o filho era perfeito.
Os gêmeos pararam, Castor por uma leve aflição de palco, e Polluxine por pura satisfação em
ser admirada, antes de virarem as cabeças ao mesmo tempo para reconhecer alguém que
ainda estava fora de vista. Instruções aparentemente recebidas, olharam um para o outro antes
de começar a caminhar pelo corredor na direção do pai à espera. Polluxine enfiou a mão no
cesto de vime e começou a jogar pétalas enfeitiçadas para os dois lados enquanto andava;
lançando-as com um floreio que arrancou nova rodada de risos dos presentes. Ela se
empolgou sob a atenção, banhando-se na sensação de ser o centro das atenções como só uma
filha de Draco Malfoy poderia.
Faltavam poucos passos entre os gêmeos e o altar onde Draco estava quando tudo saiu um
pouco dos trilhos. Polluxine provavelmente tinha esquecido que o irmão caminhava ao seu
lado, o comportamento sisudo dele contribuindo para que seguisse em silêncio enquanto ela
ria e interagia com a plateia. Então, quando finalmente se lembrou de que não estava sem
escolta, ela pareceu quase surpresa por um instante. Até que, pelo menos, olhou para baixo,
para os sapatos bem lustrados do irmão, exatamente a tempo de vê-lo pisar em uma única
pétala de rosa.
O grito inumano de indignação que a filha soltou faria qualquer banshee sentir orgulho, e,
num piscar de olhos, o resto das pétalas voava pelos ares quando Polluxine girou o cesto
como uma maça contra a lateral do irmão. Castor cambaleou para longe, o rosto corando e o
maxilar se cerrando de raiva diante do ataque repentino. Antes que a situação pudesse escalar,
felizmente, as duas bruxas mais próximas se lançaram para frente e agarraram um gêmeo
cada. Molly assumiu o comando de uma Polluxine aos prantos, calando rapidamente a furiosa
criança de quatro anos com um murmúrio firme em seu ouvido, e Narcisa puxou Castor para
o colo, onde ele pôde assistir à birra da irmã com os olhos semicerrados.
Draco ficou boquiaberto olhando para os filhos e, na sequência, fez uma careta diante da
completa previsibilidade da cena. Felizmente, seja lá o que Molly sussurrara para a filha, a
garotinha se acalmou num piscar de olhos, e Castor estava mais do que satisfeito em ser
abraçado pela avó. Crise rapidamente contornada, os convidados soltaram um suspiro de
alívio que se transformou em expectativa raptada quando a música mudou e mais duas
figuras surgiram no início do corredor.
Potter parecia... Potter. A gravata estava de algum jeito torta, apesar do número de pessoas
presentes que, sem dúvida, tinham tentado arrumá-la, e Draco definitivamente ia zombar dele
mais tarde pelo estado absolutamente deplorável do cabelo preto. Mas, na verdade, Harry
estava tão arrumado quanto Draco já o tinha visto — incluindo no próprio casamento com
Ginny, dois anos antes. O homem lançou um olhar na direção de Draco, os olhos verdes
cheios de um tipo de compreensão que nenhum dos dois jamais admitiria existir entre eles,
antes de voltar a atenção para a mulher que escoltava.
Hermione Granger era bonita até nos piores dias, e Draco brigaria com quem dissesse o
contrário (ele incluía, sim, o próprio eu adolescente idiota nessa categoria). Hoje, porém, ela
estava radiante. Draco jamais tinha visto algo tão deslumbrante quanto a mulher que, em
menos de uma hora, seria sua esposa. O vestido branco estava a anos-luz do que ele esperava
que a sempre simples Hermione usasse. Era uma fusão gloriosa entre alfaiataria bruxa e
trouxa; algo entre um vestido de baile trouxa e vestes tradicionais de bruxa. A saia volumosa
fluía sem esforço a partir de um corpete estruturado que lembrava os lindos trajes de gala das
bruxas de Beauxbatons, tantos anos atrás, no Baile de Inverno. A seda branca do corpete
fazia a pele bronzeada pelo sol de Hermione brilhar com uma luz própria, e a saia farta
cintilava entre azul e branco conforme ela caminhava. O cabelo estava arrumado de maneira
muito parecida com o da filha, apenas preso para sair do rosto, caindo em cachos selvagens
pelas costas, salpicado de raminhos de mosquitinho como espuma do mar.
Era, ao mesmo tempo, a versão mais polida dela que ele já vira, a mão da mãe dele evidente
em cada centímetro perfeito, e ainda assim a Hermione mais Granger que já tinha existido.
Ela parecia tão confortável no vestido, tão serena na maquiagem impecável. Parecia feliz,
perfeitamente satisfeita e gloriosa.
O coração de Draco estava apertado na garganta, batendo rápido demais e, ao mesmo tempo,
parecendo não bater nada, enquanto Hermione encontrava os olhos dele com um sorriso
ofuscante. Ela parecia boa demais para ele — um fato amplamente estabelecido, se você
perguntasse a praticamente qualquer pessoa na Inglaterra —, mas, de alguma forma, aquela
mulher maravilhosa tinha decidido, seis meses atrás, que queria, sim, passar o resto da vida
ao lado dele. Ele até tinha ficado um pouco irritado por ser ela a fazer o pedido em casamento
— por uns cinco segundos. Então a realidade do que estava acontecendo o atingira e ele
quase desmaiara de puro choque. Depois, recuperara o juízo o bastante para puxar a bruxa,
que ria às gargalhadas dele, para um beijo e aceitar o anel que ela lhe oferecia, convocando,
em seguida, o que ele guardava desde o primeiro aniversário dos gêmeos e insistindo para
que ela o usasse também.
Era como algo saído das suas fantasias mais piegas, vê-la se aproximar. Ela irradiava luz,
deslizava, avançava pelo meio da plateia adoradora como se não conseguisse imaginar
nenhum lugar melhor para estar do que ao lado dele.
Potter disse alguma coisa assim que chegaram ao altar, mas Draco jamais seria capaz de
lembrar o quê. Ele estava ocupado demais com a bruxa sorrindo para ele. Estava tão perdido
nela que nem sequer teve a presença de espírito de lançar um olhar de desdém a Potter
quando o bruxo deu um tapinha em seu ombro antes de tomar seu lugar ao lado de Hermione
como testemunha.