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Superando Medos: A Jornada ao Mar

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Nadinny Ramos
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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


DEPARTAMENTO DE LETRAS E COMUNICAÇÃO

PROFESSORA: Cecília Moreira de Figueiredo


ALUNA: Nadinni Regina Viana Ramos da Silva
MATRÍCULA: 201728016-8

Trabalho final de Semiótica e Imagem e Representação


A menina olhava o céu azul enquanto sentia a brisa fresca do litoral tocar-lhe o
rosto. Deitada na areia macia e da costa ela apreciava as diversas sensações que iam
percorrendo seu corpo. O calor era revigorante, fazia com que os seus ossos estalassem
dando boas-vindas à nova ingestão de vitaminas. O vento era suave, esvoaçando-lhe os
fios do cabelo. A praia era convidativa, com ondas podendo ser ouvidas ao colidirem na
borda da areia, a espuma respingando no corpo da menina. O mar, uma mistura de tons
verdes e azuis tão profundos que era como olhar em um espelho. O mar reflete os segredes
de cada um.
Mesmo com uma paisagem e clima tão bons, a garota ainda permanecia com a
sensação sufocante de falta de ar. Esse pânico interno que a consumia só de estar ali, a
beira mar, se tornava insuportável de reprimir. A sua vontade era sair correndo daquele
paraíso, mas não podia.
Sua mãe e pai se entristeceriam com o surto. Ela não podia fazê-los testemunhar
mais uma crise de pânico. Com tanto que ela não entrasse naquela imensidão densa e
profunda, ela estaria a salvo. Era o que pensava. Mas o desespero ia aumentando a cada
batida de seu coração e mesmo que tivesse disponível todo ar do mundo ali, respirar era
difícil. E sempre foi quando ela se aproximava do mar.
Voltando-se para suas memórias, a menina tentava relembrar em que momento a
fobia deu início, porém suas lembranças eram muito embaralhadas para saber o começo
de tudo. Quando se sofre um trauma, o cérebro tende a recalcar qualquer recordação que
cause sofrimento ou tensão para o corpo, ou pelo menos é o que dizem. E ela gostava de
pensar que era protegida de si mesma. Na verdade, gostava de mentir para seu eu.
Quanto mais as horas se passavam mais o pânico crescia e a impressão de
sufocamento aumentava. Estar ali na praia era como morrer lentamente. Se afogar no
seco. Nunca se passou pela mente dela que retornar para a casa dos pais seria tão difícil.
Eram só malditas férias de verão e ela estava no auge de sua crise de pânico.
Tudo o que queria era ser comum, como todas as pessoas que gostam de aproveitar
a praia e o mar, sentir a água salgada quente ou fria em sua pele, sentir a areia molhada
sob seus pés. Nadar, mergulhar boiar... Fazer todo tipo de atividade recreativa naquele
ambiente tranquilo. Para a garota era impossível. O oceano tão imenso e convidativo para
alguns, era, para ela, um abismo no qual se caísse não iria conseguir sobreviver.

***

Deitada em sua cama, observando o teto escuro do quarto a garota se perguntava


o porquê ela não conseguia lidar com aquela situação de forma racional, e porquê ela
ainda enfrentava aqueles surtos de pânico mesmo no alto de seus 29 anos. Era frustrante.
O medo não era ligado apenas a água do mar ou entrar nele, mas era algo muito mais
interno. Era uma aversão a si mesma e o impedimento de se permitir ser feliz. A menina
achava que ela não conseguiria se livrar das frustrações interiores para se render a
imensidão do mar. O oceano era como a sua vida e ela não conseguia mergulhar nele.
Mesmo de longe era possível escutar o som das ondas do mar colidindo nas pedras
e areia. Era assustador e intrigante, fazia com que ela quisesse deixar de se importar e
avançar para um novo caminho, abandonando seu pânico e paranoias.
E foi o que ela fez...
Saindo do quarto determinada a se curar, a garota caminhou em direção ao mar.
Seu olhar fixo deixava bem claro que ela não voltaria atrás. A decisão estava tomada.
Assim, ela correu pela pequena rua de areia até a entrada da praia. Ela não se importava
se já era tarde, ela enfrentaria seus medos naquele momento. Não amanhã, nem depois.
Era naquela noite.
A praia estava calma e ao observar aquele horizonte ela não conseguia mensurar
onde terminava o mar e onde começava o céu. Tudo era tão pleno e gigantesco. Ela sentiu
a paz só de contemplar a natureza que tanto lhe causava dor. A sua pequenez comparada
a imensidão daquele lugar não a assustava. Era como um vácuo no profundo universo.
Não existia sufocamento, mãos suando, choros compulsivos, era somente ela e o mar. E
estava na hora de fazer as pazes.
À passos lentos e curtos a garota se aproximava de seu objetivo, com o olhar fixo
no oceano negro pela noite. Logo seus pés alcançaram a borda da água, onde as ondas
que chegavam para saudar a areia molhavam mais e mais seus pés e tornozelos. Num
momento de epifania ela se desesperou. Estática, suas mãos começaram a suar, sua
respiração já estava irregular e o coração queria sair pela sua boca. Não era fácil, ela
queria fugir mais uma vez.
Fechando os olhos e chacoalhando a cabeça a menina tentava espanar todos os
pensamentos macabros que a perseguiam, ela não queria desistir depois de chegar naquele
ponto. Ela iria avançar, custasse o que for.
Ao abrir novamente os olhos ela respirou profundamente e começou a andar em
direção ao fundo. A cada passo na areia molhada era uma nova sensação: curiosidade
aflorada de muitos anos atrás, medo de trombar em algo desconhecido, ansiedade para
abandonar aquele plano insano, expectativa de algo maravilhoso. Ela queria tudo.
Explorar todo o espaço com os pés e mãos, tocando e sentindo a areia e água gelada dando
boas-vindas a redescoberta.
De repente a menina constou que seus pés e mãos se moviam involuntariamente
e que já não era possível sentir o chão. Flutuando atônita no meio do oceano ela se deu
conta que jamais tinha ido tão fundo, e que jamais sentiu paz como naquele instante.
Tomada por uma força impulsionadora, a garota começou a nadar, de um jeito
desengonçado e espontâneo, aproveitando as sensações de adrenalina que sentia e
pedindo perdão a si mesma em todo o percurso.
A cura foi lenta, a menina não percebeu as horas passarem ao desfrutar de seu
mais novo amigo. Houve um momento em que boiando sobre as ondas suas lágrimas
começaram a brotar, lavando-lhe a alma e purificando seu espírito. O perdão estava
completo. A nova etapa de sua vida se iniciara. Finalmente ela estava livre de seu eu e de
todo medo e rancor.
Assim como as lágrimas estavam se misturando com a água marítima, o salgado
no salgado, ela estava se fundindo com o mar, tornando-se uma só com ele.
Transcendendo para algo acima do que ela jamais imaginou.
Mergulhando profundamente, afundando na densidade escura do mar, a menina
se tornou mulher.
Autora: Nadinni Ramos

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