Psicologia, Direito Civil, Estatuto da Pessoa com Deficiência e Direito
da Infância e Adolescência
7.1. Capacidade Civil e o Estatuto da Pessoa com Deficiência
O Código Civil de 2002 definia incapacidade plena e relativa com base em critérios de
idade e saúde mental. Com o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015),
houve grande mudança: pessoas com deficiência passaram a ser presumidamente
capazes, e a curatela foi restrita a situações excepcionais.
A lei criou a tomada de decisão apoiada, garantindo autonomia. Também foram
alterados artigos sobre prescrição, decadência e obrigação de indenizar, reforçando
que cada caso deve ser analisado individualmente. A pessoa com deficiência agora
pode:
Testemunhar;
Casar-se e formar família;
Exercer guarda e adoção;
Votar e ser votada, com garantias de acessibilidade.
7.2. Direito de Família, Criança e Adolescente
O Direito de Família é o campo mais ligado à psicologia, pois envolve vínculos, afetos
e conflitos.
A psicologia atua em perícias psicológicas, guarda, adoção, divórcios e alienação
parental, oferecendo subsídios técnicos ao juiz. O perito psicológico deve ter
conhecimento técnico, seguir normas éticas e apresentar laudos formais. O CPC de
2015 valorizou o papel do perito, exigindo transparência, cadastro e especialização.
A alienação parental ocorre quando um genitor influencia o filho contra o outro,
causando danos emocionais graves. A psicologia tem papel essencial em identificar e
prevenir esse fenômeno.
A adoção, segundo o ECA, concede ao adotado os mesmos direitos de um filho
biológico. É precedida de estágio de convivência e é irrevogável. O acompanhamento
psicológico é indispensável.
7.3. Adoção por Pares Homoafetivos
O STF reconheceu em 2011 a união estável entre pessoas do mesmo sexo, abrindo
caminho para a adoção homoafetiva. O principal critério é o melhor interesse da
criança, e não a orientação sexual dos adotantes.
A psicologia afirma que o desenvolvimento emocional da criança depende do afeto e
cuidado, não do gênero dos pais. Funções “materna” (acolhimento) e “paterna”
(limites) podem ser desempenhadas por qualquer pessoa.
A evolução da família mostra a ampliação dos modelos familiares (monoparentais,
homoafetivos, reconstituídos).
O preconceito ainda é o maior obstáculo, mas o Poder Judiciário tem avançado no
reconhecimento de direitos.
A Resolução 175/2013 do CNJ tornou oficial o casamento civil entre pessoas do
mesmo sexo no Brasil.
7.4. Abandono Afetivo
O abandono afetivo ocorre quando há negligência emocional dos pais, mesmo com
presença física ou sustento material. A Constituição e o ECA reconhecem o dever de
convivência, amor e cuidado como essenciais ao desenvolvimento infantil. A questão
central é se a falta de afeto gera dano moral indenizável. Há divergência na
jurisprudência:
Parte dos tribunais entende que não cabe indenização por “falta de amor”.
Outros (como o STJ em 2012) admitem indenização quando há omissão do
dever de cuidado, sob o princípio de que “amar é faculdade, cuidar é dever”
(Min. Nancy Andrighi).
O tema ainda é debatido, e há projeto de lei (PL 4294/2008) para incluir o abandono
afetivo como causa de indenização por dano moral ou psicológico. A psicologia
jurídica contribui ao esclarecer o impacto emocional do abandono e diferenciar dano
moral de dano psicológico.
Síntese Final
O capítulo destaca a integração entre Direito e Psicologia, mostrando como o afeto, a
autonomia e a dignidade humana transformaram a interpretação das leis civis e
familiares. A ênfase recai sobre:
Respeito à capacidade e liberdade da pessoa com deficiência;
Proteção integral da criança e do adolescente;
Reconhecimento da diversidade familiar;
Valorização do afeto como valor jurídico essencial às relações humanas.