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Consumo de Ansiolíticos no Brasil: Estudo 2010-2012

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 Sumário

 PDF 
 Atual

Artigo • Ciênc. saúde colet. 21 (1) Jan 2016 •
[Link]

COPIAR
Consumo de ansiolíticos benzodiazepínicos:
uma correlação entre dados do SNGPC e
indicadores sociodemográficos nas capitais
brasileiras

Consumption of anxiolytic benzodiazepines: a correlation


between SNGPC data and sociodemographic indicators in
Brazilian capitals

Ângelo José Pimentel de Azevedo

Aurigena Antunes de Araújo

Maria Ângela Fernandes Ferreira

Resumo
O objetivo do artigo é conhecer a distribuição e a frequência de consumo de ansiolíti-
cos benzodiazepínicos, bem como avaliar a correlação entre consumo e característi-
cas demográficas, epidemiológicas, econômicas e sociais. Estudo ecológico tendo
como unidade amostral as 27 capitais brasileiras. A coleta de dados foi executada
através do banco da Anvisa, para a dispensação do Alprazolam, Bromazepam, Clo-
nazepam, Diazepam e Lorazepam, de 2010 a 2012, do Censo Demográfico 2010
(IBGE), Datasus e da pesquisa Demografia Médica. A análise estatística descritiva e
a de regressão linear múltipla foram realizadas para análise dos dados. A região Nor-
te possui as capitais com menores médias de consumo desses medicamentos e o
Sudeste as mais elevadas. O consumo médio para a população de todas as capitais

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foi de 3,60 DHD. O Alprazolam é o mais dispensado pelas farmácias e drogarias par-
ticulares, com média de 2,00 DHD para as capitais. A análise de regressão linear
múltipla demonstrou que 76% da variância do consumo foi explicada pela variação da
densidade demográfica (β = 0,310 p = 0,045) e percentual de médicos (β = 0,507 p =
0,016). O consumo de ansiolíticos de meia vida curta vem crescendo ao longo dos
anos, principalmente nas capitais de maior densidade demográfica e concentração de
médicos.

Palavras-chave
Ansiolíticos benzodiazepínicos; Consumo; Capitais brasileiras; Sociodemográfica

Abstract
The scope of this article is to determine the distribution and frequency of consumption
of anxiolytic benzodiazepines and the correlation between consumption and demo-
graphic, epidemiological, economic and social characteristics. It is an ecological study
with a sample of 27 state capitals. Data collection was performed through the ANVISA
database for the dispensation of Alprazolam, Bromazepam, Clonazepam, Diazepam
and Lorazepam in 2010-2012, the 2010 Demographic Census (IBGE), DATASUS and
Medical Demographic Research. Descriptive statistical analysis and multiple linear
regression analyses were performed for data analysis. The northern region has capi-
tals with the lowest and the southeast has capitals with the highest average consump-
tion of these products. The average consumption for the population of all capitals was
3.60 DHD. Alprazolam is the drug most dispensed by pharmacies and private drugsto-
res with average 2.00 DHD for the capitals. Multiple linear regression analysis showed
that 76% of the variation was explained by population density (β = 0.310 p = 0.045)
and percentage of physicians (β = 0.507 p = 0.016). The consumption of short half-life
anxiolytics has been on the increase, mainly in the cities of greater population density
and concentration of physicians.
Saúde
Pública
Key words
Anxiolytic benzodiazepines; Consumption; Brazilian state capitals; Sociodemo-
graphics Ciência & Saúde Coletiva

Introdução
Os ansiolíticos benzodiazepínicos (BDZ) alcançaram grande popularidade entre os
membros da classe médica e na população nas décadas de 1970 e 1980, uma vez
que demonstraram tamanha eficácia no combate da ansiedade, insônia, agressivida-
de e convulsões, dentre outras ações, com menos efeitos depressores sobre o SNC
1
. Essa menor influência na inibição dos centros respiratórios propiciou uma sen-
sação de segurança e maior desinibição no momento de indicar ou fazer uso desses
medicamentos. Estima-se que os BDZ estejam entre os fármacos mais prescritos nos

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países ocidentais. Além disso, existe ainda uma média em que cada clínico teria por
volta de 50 pacientes dependentes de benzodiazepínicos, e que destes, 50% dese-
jam descontinuar o uso e 30% acreditam que os médicos chegam inclusive a estimu-
lar o uso da medicação 2 .

Aspectos sociais sabidamente são providos da capacidade de colocar alguns grupos


populacionais em desvantagem com relação à oportunidade de serem e de se mante-
rem sadios 3 . Muito embora a prevalência geral dos transtornos mentais pareça
não sofrer grande interferência do sexo, o mesmo não pode ser dito dos transtornos
menores ou mais comuns, tais como ansiedade e depressão 4 . Em estudo produzi-
do em uma das capitais da região Sul do Brasil, o consumo de ansiolíticos BDZ apre-
sentou o dobro da prevalência entre as mulheres, quando comparado aos homens
1 .

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precedidos
geograficamente a influência de fatores demográficos na prevalência de diversas ou-
Política de Privacidade. OK
tras condições de saúde mental. Assim, a ocorrência de correlação entre admissão
em urgências psiquiátricas e marcadores de pobreza, privação socioeconômica, frag-
mentação social, isolamento individual e proximidade de serviços de saúde justificou
a utilização de tais variáveis na busca por correlação com consumo de BDZ na Fran-
ça 5 . De forma semelhante, outros fatores, tais como idade 6 , 7 , mortes violen-
tas, índices de suicídio 8 e desemprego 5 , 6 , 9 têm demonstrado relevância
na tentativa de explicar o uso abusivo desses medicamentos ansiolíticos em regiões
distintas de outros países. Índices compostos regularmente também são utilizados
para melhor representar aspectos sociais complexos e distintos. O marcador de po-
breza material, por exemplo, constitui um fator em que o nível de desemprego, renda
e ocupação de moradia auxiliam na sua construção.

Nesse sentido, este trabalho objetiva conhecer a frequência e a distribuição do con-


sumo, nas farmácias e drogarias privadas, de ansiolíticos benzodiazepínicos nas ca-
pitais brasileiras e avaliar a sua relação com características demográficas, epidemio-
lógicas, econômicas e, sobretudo, sociais.

Método
Unidade de análise

Trata-se de um estudo ecológico em que Brasília e demais 26 capitais estaduais bra-


sileiras constituem as unidades de análise. Estas configuram o centro administrativo
e financeiro dos estados, historicamente foco de atração populacional, lugar de rele-
vância na formulação de políticas públicas e alocação de recursos. Dentro dessa
perspectiva, o IBGE 10 tem buscado agregar indicadores ao nível municipal com o
intuito de captar a extrema variedade de realidades sociais – historicamente presente
nesse país de dimensões continentais – e evidenciar o processo de mudanças.

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Variáveis e fontes

Neste estudo, foram utilizados apenas dados secundários. As informações referentes


às condições socioeconômicas e demográficas da população – razão de sexo, per-
centual de idosos, densidade demográfica, taxas de analfabetismo, IDH e taxa de de-
semprego – tiveram como fonte o Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de
Pesquisa e Estatística (IBGE). Já para os dados epidemiológicos, como o número de
óbitos por suicídio por cem mil habitantes, para o ano de 2010, originaram-se no De-
partamento de Informática do SUS (DATASUS). Também foram utilizados dados da
pesquisa Demografia Médica no Brasil 11 , mais especificamente a densidade de
médicos por mil habitantes nas capitais para o ano de 2011.

As informações referentes à dispensação dos medicamentos ansiolíticos derivados


de benzodiazepínicos (Alprazolam, Bromazepam, Clonazepam, Diazepam e Loraze-
pam), oriundos de drogarias e farmácias privadas, foram fornecidas pela coordena-
ção do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), em miligramas (mg) mensais de
cada princípio ativo para os anos de 2010, 2011 e 2012.

Análise estatística

Esses dados foram transformados em dose diária definida (DDD) por mil habitantes
por dia (DHD) para Brasília e demais 26 capitais brasileiras, por medicamento e total
de ansiolíticos (soma), de acordo com o sistema ATC/DDD 12 , como recomenda-
ção da Organização Mundial da Saúde (OMS) para estudos de utilização de medica-
mentos. Ainda foi realizada a média dos consumos das capitais ponderada pelas po-
pulações (média das médias).

Através do software SPSS Statistics 17.1, foi confeccionada a matriz de correlação


de Pearson. Foram consideradas aptas a entrar no modelo variáveis com p-valor até
o limite de 0,20 para correlação com a variável dependente. No modelo da análise de
regressão linear múltipla, permaneceram as variáveis com p-valor < 0,05, com exce-
ção das variáveis explicativas “percentual de idoso” e “taxa de analfabetismo” como
ajuste para o modelo. Utilizou-se o coeficiente de determinação (R 2 ) como medida
de ajuste para o modelo e o teste de Shapiro-Wilk para verificar a distribuição normal
dos resíduos, com limite de p = 0,05.

Resultados
Durante a análise descritiva, observou-se ampla tendência de razões de sexo inferio-
res a um, uma média de 9,33% para o percentual de idosos, densidade demográfica
variando de 12,57 a mais de 7.700, valores médios para as taxas de analfabetismo e
IDH respectivamente de 7,92% e 0,776; além disso, das quinze piores taxas de de-
semprego, apenas uma não pertence às regiões Norte ou Nordeste. A razão de médi-

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cos por mil habitantes, dentre todas as capitais, foi de 3,77, e 9,76% foi o percentual
de pessoas que se autodenominam sem religião. A média de óbitos por suicídio den-
tre as capitais foi de 4,88 para cada grupo de cem mil habitantes.

O consumo, em conjunto, dos cinco importantes ansiolíticos benzodiazepínicos vari-


ou de apenas 0,24 DHD (Manaus) até 7,29 (Belo Horizonte), possuindo 3,04 como
média e 2,30 de desvio padrão. No Gráfico 1, observa-se com facilidade o menor
consumo para a média dos três anos, em todas as capitais da região norte do Brasil.

Com relação à evolução do consumo por medicamento, o único fármaco que se com-
portou diferente dos demais foi o Diazepam. Enquanto outros fármacos desta classe
demonstram elevação seguida na média ponderada do consumo nas capitais em to-
dos os anos, o mais antigo – e talvez mais famoso – segue um caminho diametral-
mente oposto, decaindo em número de DHD ano após ano (Gráfico 2). Não houve
alternância de posição entre os fármacos quanto ao consumo de DHD. O Alprazolam
manteve-se no topo, seguido por Bromazepam, Clonazepam, Lorazepam e Diaze-
pam. A média para os três anos foi de 2,00 DHD para o Alprazolam, de 0,74 para o
Bromazepam, 0,43 do Clonazepam, 0,11 para o Diazepam e 0,32 para o Lorazepam.
Dessa forma, a população das capitais consumiu em média, para os três anos, 3,60
DHD dos cinco ansiolíticos benzodiazepínicos, e apenas em duas vezes o Alprazo-
lam teve sua hegemonia maculada (em Belo Horizonte e São Luiz), e mesmo assim
somente no ano de 2010. Quando observada a evolução do consumo ano a ano, e
não mais a média dos três anos, tem-se o valor de 2,63 DHD em 2010, passando
para 3,66 em 2011 e chegando a 4,53 em 2012. A diferença do consumo entre os
anos de 2012 e 2010 representa um aumento de 72%.

Quando observados os valores na matriz de correlações de Pearson e/ou na regres-


são linear simples, a taxa de desemprego e o percentual sem religião apresentaram
p-valor superior a 0,2; os óbitos por suicídio, mesmo apresentando p-valor inferior no
limite da significância estatística, não tiveram correlação com o consumo de ansiolíti-
cos derivados de benzodiazepínicos (Tabela 1).

Ainda na análise de regressão linear simples, percebeu-se uma forte correlação posi-
tiva entre o percentual de idosos (0,800) e a densidade de médicos (0,791) com a
média do consumo. Enquanto isso, a correlação da razão de sexo e da taxa de anal-
fabetismo demonstrou sinal negativo, denotando redução do consumo de ansiolíticos
com o aumento dessas variáveis explicativas.

Em modelo construído a partir da análise de regressão linear múltipla, foi possível


explicar 76% da variância do consumo desses ansiolíticos. Nesse modelo, a densida-
de de médicos por habitantes, assim como a densidade demográfica das capitais,
mantiveram significância estatística mesmo após o ajuste para o percentual de idosos
e taxa de analfabetismo da população. Os coeficientes de regressão encontrados es-
tão na Tabela 2.

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A análise desse modelo revelou uma distribuição normal dos resíduos estandardiza-
dos com valor de significância superior a 0,05, na estatística de Shapiro-Wilk e Kol-
mogorov-Smirnov. Além disso, todos os pontos possuem distribuição aleatória no en-
torno do zero, caracterizando variância nula dos erros e também se apresentando
dentro do intervalo de três desvios padrão positivo ou negativo, denotando ausência
de valores discrepantes (outliers). São Paulo se destacou em tal análise ao ser a úni-
ca capital a se aproximar desse limite, superando negativamente os dois desvios pa-
drão.

Discussão
Embora os benzodiazepínicos sejam utilizados no tratamento de várias doenças psi-
quiátricas e não psiquiátricas e sejam geralmente seguros e bem tolerados, o poten-
cial para a utilização indevida e abusiva desses depressores do SNC é considerável
13
. Trabalhos relacionados ao consumo desses medicamentos são frequentes em
países desenvolvidos, mas escassos em países em desenvolvimento 1 . Parte des-
sa escassez deve-se à dificuldade, pelo menos relativa, em conseguir informações
referentes ao consumo, mesmo de medicamentos controlados. Até bem pouco tem-
po, o livro de controlados constituía a única forma de acesso a dados de forma relati-
vamente rápida para o desenvolvimento de um estudo local, mas simplesmente im-
pensável no âmbito nacional ou até mesmo regional.

A partir da consolidação do SNGPC – para coleta, processamento, análise e trans-


missão das informações da dispensação dos produtos controlados –, obteve-se uma
maior agilidade na disponibilização de alguns dados relativos à prescrição e aquisi-
ção como sinônimos de consumo. A necessidade de aprimoramento deve ser contí-
nua, e fica patente na ausência de informações para algumas capitais, fato que levou
à exclusão tanto do ano de 2009, quanto da dispensação de medicamentos manipu-
lados do presente estudo. Quando comparado ao sistema utilizado por trabalhadores
franceses 5 – em que um cartão com chip registra e envia eletronicamente os da-
dos da compra e do usuário para o Seguro de Saúde Geral, impedindo inclusive a
aquisição de quantidades não justificadas –, vislumbra-se o quanto ainda é possível
avançar.

Estudos anteriores têm verificado a prevalência de uso de benzodiazepínicos sem


receita médica variando entre 3,3% 14 e 8,4% 1 . Tal achado é corroborado com
a identificação do descuido no preenchimento das notificações de receita ou até com
indícios de falsificação, como numeração repetida e número do Conselho de médico
já falecido 14 . Uma medida mais imediata talvez seja a interação entre os softwa-
res de controle de venda/estoque das farmácias e drogarias e o de transmissão
(SNGPC).

Torna-se relevante insistir na necessidade de aprimoramento do mecanismo de con-


trole, tendo em vista a correlação existente entre a aquisição sem receita e o uso in-
devido. Um estudo realizado entre jovens universitários americanos encontrou forte

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associação entre o consumo de benzodiazepínicos não prescritos com comportamen-
tos de risco, como bebedeira, tabagismo, uso de opioides, cocaína, estimulantes,
bem como dirigir ou pegar carona com alcoolizados 15 .

Passando a avaliar apenas os dados de consumo informado, sem levar em conta a


adequação do uso, chega-se ao total de 3,60 DHD para os cinco ansiolíticos deriva-
dos de benzodiazepínicos estudados. Ou seja, para cada grupo de dez mil morado-
res das capitais brasileiras, em média 36 fizeram uso de uma dose durante todos os
dias do ano. Comparativamente a outros países 9 , 16 – 19 , onde estudos nesse
sentido são realizados há mais tempo, a média das capitais brasileiras pode ser con-
siderada baixa. Na Sérvia, por exemplo, chegou a ocorrer um ápice de 133 DHD em
período pós-bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas
habitualmente oscila entre 3,7 e 20,4 DHD.

Esses dados se tornam um pouco mais preocupantes quando associados à informa-


ção de que na Itália, por exemplo, mais da metade dos usuários crônicos de BDZ
costuma utilizar dose inferior à meia DDD 9 . Se isso por um lado é positivo, por se
reconhecer que usualmente não ocorre superdosagem, tem-se também a percepção
de que o universo de usuários é subestimado pelo valor da DHD. O contexto negativo
advém da premissa de que não há comprometimento em usar a dose idealmente de-
finida de ansiolíticos, o mal está em fazer uso prolongado em uma parcela maior da
população, mesmo em subdoses.

Igualmente chama a atenção a possibilidade de aumento recorrente na taxa de con-


sumo desses fármacos. As capitais brasileiras passaram de um consumo de 2,63
DHD, em 2010, para 3,66 em 2011, chegando a 4,53 em 2012. Em termos absolutos,
foi acrescentado mais um usuário em cada grupo de mil moradores em cada ano que
passou. Não parece ser muito quando comparado ao crescimento espanhol de 2,78
DHD ao ano no período entre 1995 e 2002 16 ; contudo, no plano relativo, represen-
ta um aumento de mais de 70% em um intervalo de dois anos.

Na análise individual dos medicamentos, existe um revezamento dentre os mais po-


pulares da classe, dependendo tanto do local do estudo como da época. Em comum,
existe uma tendência mais atual de optar por medicamentos com meia vida curta, tais
como: Alprazolam, Bromazepam e Lorazepam 2 . Os médicos brasileiros parecem
estar seguindo tal tendência, uma vez que Alprazolam e Bromazepam figuram como
os mais prescritos e apresentaram aumento na dispensação, quando comparado aos
anos anteriores. O Diazepam contraria resultados que apontavam para elevado e
crescente consumo 19 , e demonstra seguir a tendência de, como benzodiazepínico
de meia vida intermediária, ser preterido 17 , provavelmente em benefício dos de
meia vida mais curta. Diferente ocorre com o Clonazepam que, mesmo possuindo
meia vida intermediária, foi o terceiro mais consumido e de forma crescente. Talvez
seja possível atribuir esse resultado à sua ação anticonvulsivante, fator que leva a
OMS a classificá-lo como anticonvulsivante derivado de benzodiazepínico, e não
como ansiolítico.

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Existe dúvida ainda de como essa tendência de redução de medicamentos com mai-
or meia vida vem ocorrendo, tendo em vista a inexistência de qualquer intervenção
educacional maior para os prescritores generalistas. Em estudo desenvolvido no Ca-
nadá, levantou-se a possibilidade tanto da difusão passiva da informação para os mé-
dicos quanto do aumento da disponibilidade de terapias comportamentais 20 .

Diferentemente dos resultados descritivos, a análise dos fatores intervenientes no


consumo de ansiolíticos apresentou bastante controvérsia, a começar pelo desem-
prego que em estudos realizados tanto com a população italiana 9 , como dos Paí-
6
ses Baixos , em que encontraram relação significante e positiva, mesmo em análi-
se múltipla, enquanto que para a população das capitais brasileiras nem mesmo uma
correlação simples existia. Fato semelhante ocorreu para suicídios, não confirmando
a influência demonstrada em outro estudo 8 .

Outra característica mais claramente relacionada aos grandes centros urbanos brasi-
leiros demonstra relevância na composição da variável resposta. A densidade demo-
gráfica figura como um dos pilares atuais da saúde urbana 21 , possivelmente per-
sonificando um conjunto de variáveis de difícil mensuração se não diretamente relaci-
onada à qualidade de vida, certamente determinante para o bem-estar dos habitan-
tes. Os atributos físicos e sociais (contexto) da cidade demonstram potencial para
afetar a saúde e muitas vezes encontram-se espacialmente associados 22 . Trânsi-
23 24
to caótico, sensação de insegurança , ambiente competitivo , grande apelo
25 26
consumista e baixa coesão social são algumas das características que
compõem o estilo de vida nas grandes cidades atuais, fato que se repete nos gran-
des adensamentos populacionais do Brasil. O desafio de sobreviver saudável a essa
realidade parece impraticável para uma parcela nada desprezível da sociedade.

Associado a essa realidade, tem-se a crença – reforçada através de prescrições pou-


co criteriosas – de que os ansiolíticos benzodiazepínicos desempenhariam o papel de
um tônico para saúde mental na ausência de tratamentos mais efetivos, sobretudo
para populações mais carentes 27 . Esse grupo de medicamento tem se demonstra-
do útil como sintomático para patologias psiquiátricas e não psiquiátricas. O que pre-
cisa ficar claro é a existência de alternativas igualmente eficazes para o controle de
sintomatologia ansiosa e que essas não passam necessariamente por terapia medi-
camentosa.

Tal posicionamento deve firmar-se como alternativa também ao modelo biomédico,


que exerce influência definitiva sobre os currículos das escolas médicas. Apesar do
sucesso logrado pela medicina com a incorporação da pesquisa experimental, biolo-
gia e pela especialização, sua associação à indústria farmacêutica produziu alguns
efeitos adversos 28 . A incorporação pelo médico da ideia do fármaco como o princi-
pal caminho – se não o único – para responder às demandas que lhe chegam consti-
tui uma política vantajosa para a indústria e preocupante para a saúde da população
29 .

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No Reino Unido, existe a recomendação de terapia não farmacológica inicial e, em
ocorrendo insucesso, a introdução de benzodiazepínicos de curta duração, ou Zopi-
clone. A terapia cognitivo comportamental, os inibidores seletivos da recaptação da
serotonina e mesmo os antidepressivos tricíclicos são preferíveis aos ansiolíticos
benzodiazepínicos para o tratamento da ansiedade 7 . Mesmo nos casos em que a
introdução dos BDZ revela-se necessária, os guidelines orientam a fazê-lo por perío-
dos de até três meses. O que parece óbvio, contudo, é a predisposição, por parte de
quem prescreve, em evitar confronto com os usuários crônicos, bem como o desco-
nhecimento sobre o potencial de dependência dos psicotrópicos. Em resultado de
avaliação, ficou evidente essa imprecisão por parte de médicos postulantes à resi-
dência, da insignificância do potencial de dependência dos antidepressivos quando
comparado aos ansiolíticos 1 , justificando o uso crônico indevido mesmo sob su-
30
pervisão médica .

Uma vez sendo o acesso ao médico fator decisivo para o consumo, como parecia
lógico e ficou evidenciado com o coeficiente de regressão significante e positivo, in-
vestir na disseminação desses conhecimentos dentre esses profissionais parece
igualmente racional como medida de desestímulo ao consumo. Outras medidas –
como o acompanhamento multiprofissional (médico, enfermeiro, farmacêutico e auxi-
liar de enfermagem) – demonstraram potencial para reduzir em mais de um terço o
consumo desses fármacos, mesmo diante de sua clientela mais fiel, ou seja, os ido-
sos institucionalizados 31 . A maior fiscalização e a limitação ao uso puramente, de-
monstra potencial ainda superior na redução do consumo, muito embora tenha provo-
cado, no início da década de 1990, na população de Nova York, uma escalada na
dispensação de fármacos menos apropriados 32 .

O modelo explicativo adotado no presente estudo resultou do teste de diversas outras


variáveis, a fim de explicar significativa parcela da variância do consumo de ansiolíti-
cos. A ausência de determinantes no modelo escolhido – não unânimes, mas recor-
rentes em outros estudos, tal como o gênero, representado pela razão de sexo –
pode ter motivação estatística. A amostra de quantidade limitada permite que apenas
poucos previsores, somente com os maiores efeitos, demonstrem significância no
modelo 33 .

Constitui limitação, também, sobretudo para efeito de comparação com o consumo


em outras regiões, a ausência dos demais membros da classe dos ansiolíticos ben-
zodiazepínicos e mesmo não benzodiazepínicos. Outra possível fonte de viés consis-
te na utilização de informações apenas oriundas de farmácias e drogarias particula-
res, muito embora se trate de medicamentos reconhecidamente baratos 14 .

Esses medicamentos largamente utilizados, marcadamente no Ocidente, representa-


ram um grande avanço no tratamento de diversas doenças, psiquiátricas ou não. Atu-
almente, seu consumo também pode ser interpretado como problemático, tendo em
vista a frequência de mau uso ou o consumo indiscriminado. É importante que fique
claro que as pessoas terão que passar por acontecimentos tanto positivos e desejá-

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veis quanto indesejáveis, durante a vida, e as duas possibilidades resultarão em certa
carga de estresse psicológico com consequências muito variáveis. Esses eventos
seriam componentes das vivências do indivíduo e irão interagir com fatores genéti-
cos, de personalidade, aptidão e também com as condições e estilo de vida individu-
ais 4 .

Uma questão que se destaca é a atual intolerância ao sofrimento. O ideal de perfei-


ção contemporâneo muitas vezes é conquistado através do consumo, até mesmo de
medicamentos 34 . Vale reiterar que os ansiolíticos são úteis, seguros, e devem ser
empregados quando bem indicados.

Diante do exposto, pode-se concluir que o aumento do consumo dos benzodiazepíni-


cos nas capitais de maior densidade demográfica e percentual de médicos se deve à
crescente medicalização da sociedade moderna, refletida na formação dos profissio-
nais médicos.

Parece claro ainda que, no caminho mais curto para se chegar ao denominador de
consumo otimizado, estariam a valorização da educação médica continuada e o estí-
mulo às parcerias multiprofissionais. A partir do atual estudo, também seria funda-
mental o direcionamento dos investimentos públicos no sentido de assegurar boas
condições de vida nas pequenas e médias cidades, na tentativa de desestimular o
crescimento das grandes cidades e enormes densidades demográficas.

Referências
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Datas de Publicação
» Publicação nesta coleção
Jan 2016

Histórico
» Recebido
03 Out 2014
» Revisado
15 Maio 2015
» Aceito
17 Maio 2015

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