Consumo de Ansiolíticos no Brasil: Estudo 2010-2012
Consumo de Ansiolíticos no Brasil: Estudo 2010-2012
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Artigo • Ciênc. saúde colet. 21 (1) Jan 2016 •
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Consumo de ansiolíticos benzodiazepínicos:
uma correlação entre dados do SNGPC e
indicadores sociodemográficos nas capitais
brasileiras
Resumo
O objetivo do artigo é conhecer a distribuição e a frequência de consumo de ansiolíti-
cos benzodiazepínicos, bem como avaliar a correlação entre consumo e característi-
cas demográficas, epidemiológicas, econômicas e sociais. Estudo ecológico tendo
como unidade amostral as 27 capitais brasileiras. A coleta de dados foi executada
através do banco da Anvisa, para a dispensação do Alprazolam, Bromazepam, Clo-
nazepam, Diazepam e Lorazepam, de 2010 a 2012, do Censo Demográfico 2010
(IBGE), Datasus e da pesquisa Demografia Médica. A análise estatística descritiva e
a de regressão linear múltipla foram realizadas para análise dos dados. A região Nor-
te possui as capitais com menores médias de consumo desses medicamentos e o
Sudeste as mais elevadas. O consumo médio para a população de todas as capitais
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foi de 3,60 DHD. O Alprazolam é o mais dispensado pelas farmácias e drogarias par-
ticulares, com média de 2,00 DHD para as capitais. A análise de regressão linear
múltipla demonstrou que 76% da variância do consumo foi explicada pela variação da
densidade demográfica (β = 0,310 p = 0,045) e percentual de médicos (β = 0,507 p =
0,016). O consumo de ansiolíticos de meia vida curta vem crescendo ao longo dos
anos, principalmente nas capitais de maior densidade demográfica e concentração de
médicos.
Palavras-chave
Ansiolíticos benzodiazepínicos; Consumo; Capitais brasileiras; Sociodemográfica
Abstract
The scope of this article is to determine the distribution and frequency of consumption
of anxiolytic benzodiazepines and the correlation between consumption and demo-
graphic, epidemiological, economic and social characteristics. It is an ecological study
with a sample of 27 state capitals. Data collection was performed through the ANVISA
database for the dispensation of Alprazolam, Bromazepam, Clonazepam, Diazepam
and Lorazepam in 2010-2012, the 2010 Demographic Census (IBGE), DATASUS and
Medical Demographic Research. Descriptive statistical analysis and multiple linear
regression analyses were performed for data analysis. The northern region has capi-
tals with the lowest and the southeast has capitals with the highest average consump-
tion of these products. The average consumption for the population of all capitals was
3.60 DHD. Alprazolam is the drug most dispensed by pharmacies and private drugsto-
res with average 2.00 DHD for the capitals. Multiple linear regression analysis showed
that 76% of the variation was explained by population density (β = 0.310 p = 0.045)
and percentage of physicians (β = 0.507 p = 0.016). The consumption of short half-life
anxiolytics has been on the increase, mainly in the cities of greater population density
and concentration of physicians.
Saúde
Pública
Key words
Anxiolytic benzodiazepines; Consumption; Brazilian state capitals; Sociodemo-
graphics Ciência & Saúde Coletiva
Introdução
Os ansiolíticos benzodiazepínicos (BDZ) alcançaram grande popularidade entre os
membros da classe médica e na população nas décadas de 1970 e 1980, uma vez
que demonstraram tamanha eficácia no combate da ansiedade, insônia, agressivida-
de e convulsões, dentre outras ações, com menos efeitos depressores sobre o SNC
1
. Essa menor influência na inibição dos centros respiratórios propiciou uma sen-
sação de segurança e maior desinibição no momento de indicar ou fazer uso desses
medicamentos. Estima-se que os BDZ estejam entre os fármacos mais prescritos nos
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países ocidentais. Além disso, existe ainda uma média em que cada clínico teria por
volta de 50 pacientes dependentes de benzodiazepínicos, e que destes, 50% dese-
jam descontinuar o uso e 30% acreditam que os médicos chegam inclusive a estimu-
lar o uso da medicação 2 .
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grau, análises que vocêsignificativamente
que correlacionam obtenha o consumo de ansiolíti-
uma melhor
cos BDZexperiência de navegação.
com determinantes sociais sãoLeia nossa por estudos que identificaram
precedidos
geograficamente a influência de fatores demográficos na prevalência de diversas ou-
Política de Privacidade. OK
tras condições de saúde mental. Assim, a ocorrência de correlação entre admissão
em urgências psiquiátricas e marcadores de pobreza, privação socioeconômica, frag-
mentação social, isolamento individual e proximidade de serviços de saúde justificou
a utilização de tais variáveis na busca por correlação com consumo de BDZ na Fran-
ça 5 . De forma semelhante, outros fatores, tais como idade 6 , 7 , mortes violen-
tas, índices de suicídio 8 e desemprego 5 , 6 , 9 têm demonstrado relevância
na tentativa de explicar o uso abusivo desses medicamentos ansiolíticos em regiões
distintas de outros países. Índices compostos regularmente também são utilizados
para melhor representar aspectos sociais complexos e distintos. O marcador de po-
breza material, por exemplo, constitui um fator em que o nível de desemprego, renda
e ocupação de moradia auxiliam na sua construção.
Método
Unidade de análise
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Variáveis e fontes
Análise estatística
Esses dados foram transformados em dose diária definida (DDD) por mil habitantes
por dia (DHD) para Brasília e demais 26 capitais brasileiras, por medicamento e total
de ansiolíticos (soma), de acordo com o sistema ATC/DDD 12 , como recomenda-
ção da Organização Mundial da Saúde (OMS) para estudos de utilização de medica-
mentos. Ainda foi realizada a média dos consumos das capitais ponderada pelas po-
pulações (média das médias).
Resultados
Durante a análise descritiva, observou-se ampla tendência de razões de sexo inferio-
res a um, uma média de 9,33% para o percentual de idosos, densidade demográfica
variando de 12,57 a mais de 7.700, valores médios para as taxas de analfabetismo e
IDH respectivamente de 7,92% e 0,776; além disso, das quinze piores taxas de de-
semprego, apenas uma não pertence às regiões Norte ou Nordeste. A razão de médi-
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cos por mil habitantes, dentre todas as capitais, foi de 3,77, e 9,76% foi o percentual
de pessoas que se autodenominam sem religião. A média de óbitos por suicídio den-
tre as capitais foi de 4,88 para cada grupo de cem mil habitantes.
Com relação à evolução do consumo por medicamento, o único fármaco que se com-
portou diferente dos demais foi o Diazepam. Enquanto outros fármacos desta classe
demonstram elevação seguida na média ponderada do consumo nas capitais em to-
dos os anos, o mais antigo – e talvez mais famoso – segue um caminho diametral-
mente oposto, decaindo em número de DHD ano após ano (Gráfico 2). Não houve
alternância de posição entre os fármacos quanto ao consumo de DHD. O Alprazolam
manteve-se no topo, seguido por Bromazepam, Clonazepam, Lorazepam e Diaze-
pam. A média para os três anos foi de 2,00 DHD para o Alprazolam, de 0,74 para o
Bromazepam, 0,43 do Clonazepam, 0,11 para o Diazepam e 0,32 para o Lorazepam.
Dessa forma, a população das capitais consumiu em média, para os três anos, 3,60
DHD dos cinco ansiolíticos benzodiazepínicos, e apenas em duas vezes o Alprazo-
lam teve sua hegemonia maculada (em Belo Horizonte e São Luiz), e mesmo assim
somente no ano de 2010. Quando observada a evolução do consumo ano a ano, e
não mais a média dos três anos, tem-se o valor de 2,63 DHD em 2010, passando
para 3,66 em 2011 e chegando a 4,53 em 2012. A diferença do consumo entre os
anos de 2012 e 2010 representa um aumento de 72%.
Ainda na análise de regressão linear simples, percebeu-se uma forte correlação posi-
tiva entre o percentual de idosos (0,800) e a densidade de médicos (0,791) com a
média do consumo. Enquanto isso, a correlação da razão de sexo e da taxa de anal-
fabetismo demonstrou sinal negativo, denotando redução do consumo de ansiolíticos
com o aumento dessas variáveis explicativas.
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A análise desse modelo revelou uma distribuição normal dos resíduos estandardiza-
dos com valor de significância superior a 0,05, na estatística de Shapiro-Wilk e Kol-
mogorov-Smirnov. Além disso, todos os pontos possuem distribuição aleatória no en-
torno do zero, caracterizando variância nula dos erros e também se apresentando
dentro do intervalo de três desvios padrão positivo ou negativo, denotando ausência
de valores discrepantes (outliers). São Paulo se destacou em tal análise ao ser a úni-
ca capital a se aproximar desse limite, superando negativamente os dois desvios pa-
drão.
Discussão
Embora os benzodiazepínicos sejam utilizados no tratamento de várias doenças psi-
quiátricas e não psiquiátricas e sejam geralmente seguros e bem tolerados, o poten-
cial para a utilização indevida e abusiva desses depressores do SNC é considerável
13
. Trabalhos relacionados ao consumo desses medicamentos são frequentes em
países desenvolvidos, mas escassos em países em desenvolvimento 1 . Parte des-
sa escassez deve-se à dificuldade, pelo menos relativa, em conseguir informações
referentes ao consumo, mesmo de medicamentos controlados. Até bem pouco tem-
po, o livro de controlados constituía a única forma de acesso a dados de forma relati-
vamente rápida para o desenvolvimento de um estudo local, mas simplesmente im-
pensável no âmbito nacional ou até mesmo regional.
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associação entre o consumo de benzodiazepínicos não prescritos com comportamen-
tos de risco, como bebedeira, tabagismo, uso de opioides, cocaína, estimulantes,
bem como dirigir ou pegar carona com alcoolizados 15 .
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Existe dúvida ainda de como essa tendência de redução de medicamentos com mai-
or meia vida vem ocorrendo, tendo em vista a inexistência de qualquer intervenção
educacional maior para os prescritores generalistas. Em estudo desenvolvido no Ca-
nadá, levantou-se a possibilidade tanto da difusão passiva da informação para os mé-
dicos quanto do aumento da disponibilidade de terapias comportamentais 20 .
Outra característica mais claramente relacionada aos grandes centros urbanos brasi-
leiros demonstra relevância na composição da variável resposta. A densidade demo-
gráfica figura como um dos pilares atuais da saúde urbana 21 , possivelmente per-
sonificando um conjunto de variáveis de difícil mensuração se não diretamente relaci-
onada à qualidade de vida, certamente determinante para o bem-estar dos habitan-
tes. Os atributos físicos e sociais (contexto) da cidade demonstram potencial para
afetar a saúde e muitas vezes encontram-se espacialmente associados 22 . Trânsi-
23 24
to caótico, sensação de insegurança , ambiente competitivo , grande apelo
25 26
consumista e baixa coesão social são algumas das características que
compõem o estilo de vida nas grandes cidades atuais, fato que se repete nos gran-
des adensamentos populacionais do Brasil. O desafio de sobreviver saudável a essa
realidade parece impraticável para uma parcela nada desprezível da sociedade.
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No Reino Unido, existe a recomendação de terapia não farmacológica inicial e, em
ocorrendo insucesso, a introdução de benzodiazepínicos de curta duração, ou Zopi-
clone. A terapia cognitivo comportamental, os inibidores seletivos da recaptação da
serotonina e mesmo os antidepressivos tricíclicos são preferíveis aos ansiolíticos
benzodiazepínicos para o tratamento da ansiedade 7 . Mesmo nos casos em que a
introdução dos BDZ revela-se necessária, os guidelines orientam a fazê-lo por perío-
dos de até três meses. O que parece óbvio, contudo, é a predisposição, por parte de
quem prescreve, em evitar confronto com os usuários crônicos, bem como o desco-
nhecimento sobre o potencial de dependência dos psicotrópicos. Em resultado de
avaliação, ficou evidente essa imprecisão por parte de médicos postulantes à resi-
dência, da insignificância do potencial de dependência dos antidepressivos quando
comparado aos ansiolíticos 1 , justificando o uso crônico indevido mesmo sob su-
30
pervisão médica .
Uma vez sendo o acesso ao médico fator decisivo para o consumo, como parecia
lógico e ficou evidenciado com o coeficiente de regressão significante e positivo, in-
vestir na disseminação desses conhecimentos dentre esses profissionais parece
igualmente racional como medida de desestímulo ao consumo. Outras medidas –
como o acompanhamento multiprofissional (médico, enfermeiro, farmacêutico e auxi-
liar de enfermagem) – demonstraram potencial para reduzir em mais de um terço o
consumo desses fármacos, mesmo diante de sua clientela mais fiel, ou seja, os ido-
sos institucionalizados 31 . A maior fiscalização e a limitação ao uso puramente, de-
monstra potencial ainda superior na redução do consumo, muito embora tenha provo-
cado, no início da década de 1990, na população de Nova York, uma escalada na
dispensação de fármacos menos apropriados 32 .
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veis quanto indesejáveis, durante a vida, e as duas possibilidades resultarão em certa
carga de estresse psicológico com consequências muito variáveis. Esses eventos
seriam componentes das vivências do indivíduo e irão interagir com fatores genéti-
cos, de personalidade, aptidão e também com as condições e estilo de vida individu-
ais 4 .
Parece claro ainda que, no caminho mais curto para se chegar ao denominador de
consumo otimizado, estariam a valorização da educação médica continuada e o estí-
mulo às parcerias multiprofissionais. A partir do atual estudo, também seria funda-
mental o direcionamento dos investimentos públicos no sentido de assegurar boas
condições de vida nas pequenas e médias cidades, na tentativa de desestimular o
crescimento das grandes cidades e enormes densidades demográficas.
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Datas de Publicação
» Publicação nesta coleção
Jan 2016
Histórico
» Recebido
03 Out 2014
» Revisado
15 Maio 2015
» Aceito
17 Maio 2015
This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution
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