0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações17 páginas

A Lição de Ionesco: Personagens e Cenário

A Lição, uma peça de Eugène Ionesco, coloca em cena um professor e sua jovem aluna em um gabinete de trabalho. À medida que a lição avança, a dinâmica entre o professor e a aluna evolui, revelando uma transformação inquietante da aluna, passando da vivacidade à passividade e à depressão. A peça explora temas de poder, educação e comunicação, utilizando um cenário simples e personagens simbólicos.

Traduzido por

ScribdTranslations
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações17 páginas

A Lição de Ionesco: Personagens e Cenário

A Lição, uma peça de Eugène Ionesco, coloca em cena um professor e sua jovem aluna em um gabinete de trabalho. À medida que a lição avança, a dinâmica entre o professor e a aluna evolui, revelando uma transformação inquietante da aluna, passando da vivacidade à passividade e à depressão. A peça explora temas de poder, educação e comunicação, utilizando um cenário simples e personagens simbólicos.

Traduzido por

ScribdTranslations
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Ionesco

A lição
PERSONNAGES
O PROFESSOR, 50 a 60 anos: MARCEL CUVELIER.
A JOVEM ALUNA, 18 anos: ROSETTE ZUCHELLI.
LA BONNE, 45 a 50 anos: CLAUDE MANSARD.

La Leçona été représentée pour la première fois au théâtre de Poche le 20 février 1951.
A direção foi de Marcel Cuvelier.

DÉCOR

O gabinete de trabalho, que também serve como sala de jantar, do velho professor.
À esquerda do palco, uma porta que dá para as escadas do edifício; no fundo, à direita do palco, uma
outra porta levando a um corredor do apartamento.
No fundo, um pouco para a esquerda, uma janela, não muito grande, com cortinas simples; na borda externa de
a janela, vasos de flores banais.
Devemos avistar, ao longe, casas baixas, com telhados vermelhos: a pequena cidade. O céu é azul-acinzentado.
À direita, um buffet rústico. A mesa também serve como escritório: ela está localizada no meio da sala. Três
cadeiras em volta da mesa, duas outras de cada lado da janela, tapeçaria clara, alguns raios com uns
livres.

Ao levantar do pano, o cenário está vazio, ele continuará assim prévenir.


bastante tempo. Então ouvimos o sino da O ALUNO
porta de entrada. Ouve-se a: Obrigado, senhora.
Ela s’sente-se perto da mesa, de frente para o público; ao seu
VOZ DA BOA, nos bastidores. esquerda, a porta d’entrada; ela vira as costas para a’outro
Sim. Já vou. porta pela qual, sempre se apressando, sai a
Precedendo a própria boa, que, após ter Boa, quem chama:
desceu, correndo, as escadas, aparece. Ela A BOA
Ela é forte; tem de 45 a 50 anos, avermelhada, cabelo arrumado. Senhor, desça, s’por favor. Seu aluno é
camponesa. chegada.

A BOA entra de repente, faz estalar VOZ DO PROFESSOR1, b a s t a n t e m a g r a .


atrás dela, a porta da direita, se enxuga as mãos em Obrigado. Eu desço... em dois minutos...
son tablier, tout en courant vers la porte de A Bonne saiu; o Aluno, puxando sob ela seus
esquerda, no entanto, ouvimos um segundo golpe jambes, sua toalha sobre os joelhos, espera,
de sonnette. Paciência. Estou a caminho.(Ela abre a porta. gentilmente; um pequeno olhar ou dois na sala, sobre
Apresenta-se a jovem aluna, com 18 anos. Avental os móveis, no teto também; então ela puxa de sua
cinza, pequeno colarinho branco, toalha debaixo do braço.) Olá, toalha um caderno, que’ela folheia, depois para
senhorita. mais longtemps em uma página, como para repetir a
O ALUNO lição, como para dar um último olhareo sobre
Olá, senhora. O Professor está em casa? seus deveres. Ela tem a’ar d’uma menina educada, bem criada,
A BOM mais bem viva, alegre, dinâmica; um sorriso fresco
É para a lição? nos lábios; durante o drama que se desenrolará,
O ALUNO ela diminuirá progressivamente o ritmo rápido de seus
Sim, senhora. movimentos, de sua aparência, ela deverá se reprimir; de
A BOA alegre e sorridente, ela se tornará progressivamente
Ele está te esperando. Sente-se um instante, eu vou lhe triste, morosa; muito viva no início, ela será de
cada vez mais cansada, sonolenta; perto do final do O ALUNO
O drama em seu rosto deverá expressar claramente um Não deve, senhor. Não há nenhum mal,
depressão nervosa; sua maneira de falar s’senhor.
ressentir, sua língua ficará pastosa, as palavras O PROFESSOR
revirão dificilmente em sua memória e Minhas desculpas... Você teve dificuldade para encontrar a
sairão, tão difícil, de sua boca; ela casa?
aura l’ar estava vagamente paralisada, início de’aphasie;L ’ÉLÈVE
voluntário no início, até’a parecer agressiva, De jeito nenhum... De maneira nenhuma. E então eu perguntei. Tudo o
ela se tornará cada vez mais passiva, até não mais o mundo o conhece aqui.
ser que’um objeto macio e inerte, parecendo inanimado, O PROFESSOR
entre as mãos do Professor; de tal forma que quando Faz trinta anos que eu moro na cidade. Você não está lá.
este terá chegado a realizar o gesto final, não faz muito tempo! O que você acha?
l’A aluna não reagirá mais; insensibilizada, ela não terá O ALUNO
mais reflexos; apenas seus olhos, em uma figura Ela não me desagrada nem um pouco.’é uma cidade bonita,
imóvel, expressarão um espanto e um medo agradável, um belo parque, um internato, um bispo, de
indicíveis; a passagem de’um comportamento para o outro belas lojas, ruas, avenidas2...
deverá acontecer, evidentemente, insensivelmente. O PROFESSOR
O Professor entra. C’é um velhinho com barba É verdade, senhorita. No entanto, eu gostaria tanto
blanche; ele tem óculos de meio relâmpago, um capuz preto, ele usa vivre autre part. A Paris, ou au moins à Bordeaux.
uma longa bata preta de mestre de escola, Você gosta de Bordeaux?
calças e sapatos pretos, gola falsa branca, gravata O PROFESSOR
noir. Excessivamente educado, muito tímido, voz Eu não sei. Eu não conheço.
assustado pela timidez, muito correto, muito O ALUNO Então você conhece Paris?
professor. Ele está sempre esfregando as mãos; O PROFESSOR
de tempos em tempos, um brilho libidinoso nos olhos, rápido Não também, senhorita, mas, se você me deixar
reprimida. permissão, poderia me dizer, Paris, é o
Durante o drama, sua timidez desaparecerá chefe - lugar de... senhorita?
progressivamente, insensivelmente; os clarões A ALUNA busca por um instante, então, feliz com
lubrificantes de seus olhos acabarão se tornando uma saber.
chama devoradora, ininterrupta; de aparência mais Paris é a capital1da França?
qu’inoffensivo no início do l’ação, o Professor O PROFESSOR
se tornará cada vez mais confiante, nervoso, Mas sim, senhorita, bravo, mas c’est très bien,
agressivo, dominador, até’a se jogar como ele c’est perfeito. Minhas felicitações. Você conhece
plaira de son élève, devenue, entre ses mains, une sua geografia nacional na ponta dos dedos
pobre coisa. Evidentemente a voz do Professor Suas capitais.
deverá ela também se tornar, de magra e esquelética, de mais O ALUNO
em mais forte, e, no final, extremamente poderosa, Oh! eu ainda não os conheço todos, senhor, este
brilhante, clarim sonoro, enquanto a voz de n’est pas si facile que ça, j’ai du mal à les apprendre.
l’O aluno se tornará quase inaudível, muito claro e O PROFESSOR
bem timbrada que’ela estará no início do drama. Oh, isso vai chegar... Coragem... senhorita... Eu...
Nas primeiras cenas, o Professor gaguejará, peço desculpas... de la paciência... devagar,
muito levemente, talvez. calma... Você verá, vai chegar... Está bonito
hoje’hui... ou plutôt pas tellement... Oh ! si quand
O PROFESSOR mesmo. Finalmente, não está muito mau, c’é o
Olá, senhorita... C est vous, c está bem você, principal... Euh... euh... Não está chovendo, não está nevando
’ ’

não é, a nova aluna? pas também.


L’ÉLÈVEse retourne vivement, l’ar muito limpo O ALUNO
jovem menina do mundo; ela se levanta, avança em direção ao Seria bem surpreendente, pois estamos no verão.
Professor, estende a mão para ele. O PROFESSOR
Sim, senhor. Bom dia, senhor. Você vê, eu Peço desculpas, senhorita, eu’vous allez le dire...
vim para a’hora. Eu não’eu não quis me atrasar. mas você aprenderá que se pode’esperar por tudo.
O PROFESSOR O ALUNO
C’está bem, senhorita. Obrigado, mas não era necessário Evidentemente, senhor.
não se apresse. Eu não sei como me’desculpar-se de O PROFESSOR
desculpe por t fazer esperar... Eu estava acabando... Não podemos ter certeza de nada, senhorita, em
não é, de... Peço desculpas... Você este mundo.
desculpar-me-ão... O ALUNO
A neve cai’inverno. L’inverno, é uma das quatro para a sua idade. E qual doutorado você deseja fazer?
estações. Os outros três são... hum... a prim... Ciências materiais ou filosofia normal?
O PROFESSOR O ALUNO
Sim? Meus pais ficariam felizes, se você achar que isso
O ALUNO o mais possível em tão pouco tempo, eles gostariam
... tempos, e depois a’verão... e... uh... que eu complete meu doutorado total.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Começa como automóvel, senhorita. O doutorado total?... Você tem muito de
O ALUNO coragem, mademoiselle, eu a felicito sinceramente.
Ah, sim, o outono... Nous tâcherons, mademoiselle, de faire de notre
O PROFESSOR melhor. Além disso, você já é bastante sábia. A um
C’está bem isso, senhorita, muito bem respondido, em tenra idade.
é perfeito. Estou convencido de que você será uma O ALUNO
boa aluna. Você fará progressos. Você é Oh, senhor.
inteligente, você me parece instruída, boa O PROFESSOR
memória. Então, se vocês me permitirem, meus
O ALUNO desculpas, eu diria que’é preciso se pôr a trabalhar.
Eu conheço as minhas estações, não é, senhor? Não temos muito tempo a perder.
O PROFESSOR O ALUNO
Sim, mademoiselle... ou quase. Mas isso Mas ao contrário, senhor, eu aceito sim. E
virá. De qualquer forma, c’está bem. Você mesmo eu lhe imploro.
você vai conhecê-las, todas as suas estações, os olhos O PROFESSOR
fechados. Como eu. Posso então pedir que se sente... ali...
O ALUNO Você me permitiria, senhorita, se você
É difícil. não vejam inconvenientes em me sentar à sua frente
Oh, não. Basta de’um pequeno esforço, do bom de você?
vontade, senhorita. Você verá. Vai chegar, O ALUNO
tenha certeza disso. Certamente, senhor. Por favor.
O ALUNO O PROFESSOR
Oh, eu gostaria, senhor. Estou com uma sede de Muito obrigado, senhorita.(Eles se sentam um ao lado do outro)
m’instruir. Meus pais também desejam que de frente para o outro, à mesa, de perfil para a sala.) Aqui está.
j’aprofundasse meus conhecimentos. Eles querem que eu Você tem seus livros, seus cadernos?
me especializo. Eles pensam que’uma cultura simples O ALUNO, saindo dos cadernos e dos livros do seu
geral, mesmo que seja sólida, já não é suficiente, para toalha de mesa
nossa época. Sim, senhor. Claro, eu tenho tudo o que é necessário aqui.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Seus pais, senhorita, têm razão perfeitamente. Perfeito, senhorita. Está perfeito. Então, se isso não
Você deve se dedicar mais aos seus estudos. Peço desculpas por você. não se preocupe... podemos começar?
dizer, mas é uma coisa necessária. A vida O ALUNO
contemporânea se tornou muito complexa. Mais sim, senhor, estou à sua disposição,
O ALUNO senhor.
E tão complicada... Meus pais são bastante O PROFESSOR
fortunés, eu tenho sorte. Eles poderão me ajudar a À minha disposição ?...(Luz nos olhos rápido
trabalhar, para fazer estudos muito superiores. éteinte, um gesto, que’ele reprime.) Oh, senhorita,
O PROFESSOR c’sou eu que estou à sua disposição. Eu não sou apenas
E você gostaria de se apresentar... seu servidor.
L’ÉLÈVE O ALUNO
O mais rápido possível, na primeira competição de Oh, monsieur...
Doutorado. É em três semanas. O PROFESSOR
O PROFESSOR Se você quiser... então... nós... nós... eu... eu
Você já tem seu diploma de bacharel, se você me começarei fazendo um exame sumário de seus
permita-me fazer a pergunta. conhecimentos passados e presentes, a fim de poder
O ALUNO em desobstruir o caminho futuro... Bom. Onde está o seu
Sim, senhor, eu tenho meu bacharelado em ciências, e meu percepção da pluralidade?
bachot cartas. O ALUNO
O PROFESSOR Ela é bastante vaga... confusa.
Oh, mas você é muito avançada, até demais. O PROFESSOR Bom. Vamos ver isso.
Ele esfrega as mãos. A Boa entra, o que parece ela é dedicada a você. Ela gosta muito de você. C’est raro, os
de irritar o Professor; ela se dirige para o bufê, lá bons domésticos.
procura algo, demora-se.
LE PROFESSEUR O PROFESSOR
Vamos, senhorita, você quer que nós Ela exagera. O medo dela é estúpido. Vamos voltar aos nossos
façamos um pouco de aritmética, se você quiser... ovelhas aritméticas.
O ALUNO
Sim, senhor. Certamente, eu não peço O ALUNO
que isso. Eu o sigo, senhor.

O PROFESSOR O PROFESSOR, espiritual. Mesmo sentado!


É uma ciência bastante nova, uma ciência
moderna; a rigor, é mais uma O ALUNO, apreciando o trocadilho.
método que uma ciência... É também uma Como você, senhor.
terapêutica.(À la Bonne.)Marie, você está...
Você terminou? O PROFESSOR
A BOA Bom. Vamos fazer um pouco de aritmética.
Sim, senhor, eu encontrei o prato. Estou indo... O ALUNO
O PROFESSOR Sim, com muito prazer, senhor.
Depressa. Vá para a sua cozinha, por favor. O PROFESSOR
A BOA Você se importaria de me dizer...
Sim, senhor. Estou indo. O ALUNO
Saída falsa da Boa. De forma alguma, senhor, vá em frente.
A BOA O PROFESSOR
Desculpe, senhor, preste atenção, eu lhe Quanto é um mais um?
recomenda a calma. O ALUNO
O PROFESSOR Um e um fazem dois.
Você é ridícula, Marie, vamos lá. Não se preocupe. O PROFESSOR, maravilhado com o conhecimento de
pas. O Aluno.
A BOA Oh, mais c’est muito bem. Você me parece muito
A gente sempre diz isso. avanço nos seus estudos. Você terá facilmente
O PROFESSOR seu doutorado total, senhorita.
Eu não aceito suas insinuações. Eu sei O ALUNO
perfeitamente como me comportar. Eu sou bastante Estou muito contente. Ainda mais por ser você.
velho para isso. quem o diz.
A BOA O PROFESSOR
Justamente, senhor. É melhor você não Pushemos mais longe: quanto é dois mais um?
começar pela aritmética com a senhorita. O ALUNO
A aritmética cansa, irrita. Três.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Mais à mon âge. Et de quoi vous mêlez-vous ? Três e um?
É o meu negócio. E eu conheço. O seu lugar não é O ALUNO
não aqui. Quatro.
A BOA O PROFESSOR
Está bem, senhor. Você não dirá que eu não Quatro e um?
não avisei você. O ALUNO
O PROFESSOR Cinco.
Marie, eu não me importo com os seus conselhos. O PROFESSOR
A BOA Cinco e um?
É como o senhor quiser. O ALUNO
Ela sai. Seis
O PROFESSOR O PROFESSOR
Excusez-moi, mademoiselle, pour cette sotte Seis e um?
interrupção. Desculpe essa mulher... Ela sempre O ALUNO
medo que eu me canse. Ela teme pela minha saúde Set.
O ALUNO O PROFESSOR
Oh, c’est tudo desculpado, senhor. Isso prova que’ela Setembro e um?
L’ALUNO Você conta?
Oito. O ALUNO
O PROFESSOR Eu posso contar... até o infinito.
Sete e um? O PROFESSOR
L ALUNO

Isso não é possível, senhorita.
Oito... bis. O ALUNO
O PROFESSOR Então, vamos até’aos dezesseis.
Muito boa resposta. Sete e um? O PROFESSOR
O ALUNO Isso é o suficiente. É preciso saber se limitar. Então conte,
Huitter. s’por favor, eu lhe suplico.
O PROFESSOR L’ÉLÈVE
Perfeito. Excelente. Sete e um? Um..., dois..., e depois de dois, há três...
O ALUNO quatro...
Oitoquatro. E às vezes nove. O PROFESSOR
O PROFESSOR Pare, senhorita. Qual número é mais
Magnífico! Você é magnífico! Você é grande ? Três ou quatro ?
exquisite. Eu lhe parabenizo calorosamente, O ALUNO
mademoiselle. Não há necessidade de continuar. Euh... três ou quatro? Qual é o maior? O
Para a adição, você é magistral. Vamos vê-la. maior de três ou quatro? Em que sentido o maior
subtração. Diga-me, apenas, se você não está grande?
não estou cansada, quanto é quatro menos três? O PROFESSOR
O ALUNO Existem números menores e outros maiores.
Quatro menos três?... Quatro menos três? Nos números maiores há mais d’unidades que
O PROFESSOR nos pequenos...
Sim. Quero dizer: retire três de quatro O ALUNO
L’ÉLÈVE ... Que nos pequenos números?
Faz... sete? O PROFESSOR
O PROFESSOR A menos que os pequenos tenham unidades menores.
Peço desculpas por ter que contradizê-lo. Quatro Se elas forem muito pequenas, pode ser que haja mais.
menos três não fazem sete. Você está confundindo: d’unidades nos pequenos números que em os
quatro mais três são sete, quatro menos três não são grandes... se for outras unidades...
não se trata mais de somar, é preciso
subtrair agora. O ALUNO
OS ALUNOS’esforce-se para compreender. Nesse caso, os pequenos números podem ser mais
Sim... sim... maiores que os grandes números?
O PROFESSOR O PROFESSOR
Quatro menos três dá... Quanto?... Quanto? É isso, senhorita, perfeito. Você me deixou muito
O ALUNO bem compreendido.
Quatro? O PROFESSOR
O PROFESSOR Deixemos isso. Isso nos levaria muito longe:
Não, senhorita, não é isso. saiba apenas que não existem apenas números...
O ALUNO há também grandezas, somas, há
Trois, alors. grupos, há montes, montes de coisas tais como
O PROFESSOR as ameixas, os vagões, as gansos, as sementes, etc. 1

Nem também, senhorita... Desculpe, eu preciso dizer... Suponhamos simplesmente, para facilitar nosso trabalho,
Isso não faz isso... minhas desculpas. que nós não’temos apenas números iguais, os mais
O ALUNO grandes serão aqueles que terão mais de’unidades iguais.
Quatro menos três... Quatro menos três... Quatro O Aluno
moins trois ?... Ça ne fait tout de même pas dix ? Aquele que tiver mais será o maior? Ah, eu
O PROFESSOR Entende, senhor, você identifica a qualidade com a
Oh, certamente não, mademoiselle. Mas ele não quantidade.
s’não se trata de adivinhar, é preciso raciocinar. Vamos tentar O PROFESSOR
deduzir juntos. Você quer contar? Cela est trop théorique, mademoiselle, trop
O ALUNO théorique. Vous n’avez pas à vous inquiéter de cela.
Oui, monsieur. Un..., deux... euh... Vamos tomar nosso exemplo e raciocinar sobre este caso
O PROFESSOR preciso. Deixemos as conclusões para mais tarde
Você sabe contar bem? Até’Quanto você sabe? générales. Nous avons le nombre quatre et le nombre
três, com cada um tendo sempre um número igual d’unidades; Vamos, pense. Isso não’est pas facile, je l’admite.
qual número será o maior, o número menor No entanto, você é bastante culta para poder fazer
ou le nombre plus grand ? l’esforço intelectual solicitado e conseguir
O ALUNO compreender. Então?
Desculpe-me, senhor... Qu entende-se por isso O ALUNO

nome o maior? É aquele que é menos Je n’y arrive pas, monsieur. Je ne sais pas, monsieur.
pequeno que o outro? O PROFESSOR
O PROFESSOR Vamos pegar exemplos mais simples. Se você tivesse tido
É isso aí, Mademoiselle, perfeito. Você me fez muito dois narizes, e eu teria arrancado um de vocês... quantos
bem compreendido Você ainda teria algum agora?
O ALUNO O ALUNO
Então, são quatro. Nenhum.
O PROFESSOR LE PROFESSEUR Comment aucun ?
Qu’é isso que’ele é, o quatro? Maior ou mais O ALUNO
pequeno que três? Sim, é exatamente porque você não tem.
O ALUNO arraché aucun, que j’em tem um agora. Se você
Mais pequeno... não, mais grande. l’aviez arraché, je ne l’aurais plus.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Excelente resposta. Quantas unidades você tem de Você não entendeu meu exemplo. Suponha
três a quatro ?... ou de quatro a três, se você preferirque vocês não têm apenas’uma única orelha.
prefere? O ALUNO
O ALUNO Sim, depois?
Il n’y a pas d’unités, monsieur, entre trois et quatre. O PROFESSOR
Quatro vem logo depois de três; não há nada do Eu lhe acrescento uma, quantas você teria?
tudo entre três e quatro! O ALUNO
O PROFESSOR Dois.
Eu me fiz entender mal. É sem dúvida minha O PROFESSOR
faute. Je n’não foste claro o suficiente. Bom. Vou adicionar mais uma para você. Quantas em
O ALUNO auriez-vous ?
Não, senhor, a culpa é minha. O ALUNO
O PROFESSOR Três orelhas.
Aguarde. Aqui estão três fósforos. Aqui está mais um, O PROFESSOR
são quatro. Olhem bem, vocês têm quatro, J’Tira uma... Você tem... quantos d’orelhas?
j’en retire une, combien vous en reste-t-il ? O ALUNO
Não se vê os fósforos, nem qualquer um dos objetos, Dois.
d’outros lugares, dos quais se fala; o Professor se O PROFESSOR
levantará a mesa, escreverá em um quadro inexistente com Bom. Eu tiro mais uma, quantas vocês têm ainda?
uma giz inexistente, etc. ele?
O ALUNO O ALUNO
Cinco. Se três e um fazem quatro, quatro e um fazem Dois.
cinco. O PROFESSOR
O PROFESSOR Não. Você tem duas, eu levo uma, eu lhe...
Ce n’est pas ça. Ce n’não é isso de jeito nenhum. Você tem come uma, quantos você ainda tem?
sempre tendência a adicionar. Mas também é preciso O ALUNO
subtrair. Não se deve apenas integrar. É preciso Dois.
também desintegrar. É assim a vida. É assim a O PROFESSOR
filosofia. C’É isso a ciência. C’é isso o progresso, Eu como um... um.
a civilização. O ALUNO
O ALUNO Dois.
Sim, senhor. O PROFESSOR
O PROFESSOR Uma
Voltemos aos nossos fósforos. Então, eu tenho quatro. O ALUNO
Você vê, são bem quatro. J’em retira uma, ele Dois.
n’en reste plus que... LE PROFESSEUR
L’ÉLÈVE Une!
Eu não sei, senhor. O ALUNO
O PROFESSOR Dois!
O PROFESSOR 1; depois dois bastões, sob os quais ele faz o número 2,
Une !!! puis en dessous le chiffre 3, puis quatre bâtons au-
O ALUNO dessous desquels il fait le chiffre 4.)Vous voyez...
Dois!!! L’ÉLÈVE
Sim, senhor.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Une !!! São paus, senhorita, paus. Aqui,
c’é um bastão; lá estão dois bastões; lá, três
O ALUNO bastões, depois quatro bastões, depois cinco bastões. Um
Dois !!! bastão, dois bastões, três bastões, quatro e cinco
O PROFESSOR bastões, são números. Quando contamos alguns
Uma!!! bastões, cada bastão é uma unidade, senhorita...
Qu’O que eu acabei de dizer?
O ALUNO O ALUNO
Dois !!! Uma unidade, senhorita! Qu’eu vou
de dizer?
O PROFESSOR O PROFESSOR
Não. Não. Não é isso. O exemplo não é Ou números! Ou números! Um, dois, três,
convincente. Escute-me. quatro, cinco, são elementos da numeração,
O ALUNO senhorita.
Sim, senhor. A ALUNA, hesitante.
O PROFESSOR Sim, senhor. Elementos, números, que são
Você tem... você tem... você tem... bastões, unidades e números...
O ALUNO O PROFESSOR
Dez dedos!... À la fois... C’ou seja, em última análise, toda
O PROFESSOR l’a aritmética ela mesma está lá.
Se você quiser. Perfeito. Bom. Você tem, então, dez O ALUNO
dedos. Sim, senhor. Bem, senhor. Obrigado, senhor.
O ALUNO O PROFESSOR
Sim, senhor. Então, conte, se você quiser, usando
O PROFESSOR esses elementos... some e subtraia...
Quantos você teria, se tivesse cinco? O ALUNO, como para gravar na sua memória.
O ALUNO Os bastões são de fato números e os números, ...
Dez, senhor. unidades ?
LE PROFESSEUR O PROFESSOR
Ce não’não é isso! Hum... se é que se pode dizer. E então?
O ALUNO O ALUNO
Si, monsieur. Pode-se subtrair duas unidades de três unidades, mas
O PROFESSOR podemos subtrair dois de três? e dois
Eu digo que não! dígitos de quatro números? e três números de uma
O ALUNO unidade?
Você acabou de me dizer que eu tenho dez... O PROFESSOR
LE PROFESSEUR Não, senhorita.
Eu também lhe disse, logo em seguida, que você... O ALUNO
tinha cinco! Por que, senhor?
L’ÉLÈVE O PROFESSOR
Eu não’em vez de cinco, eu tenho dez! Porque, senhorita.
O PROFESSOR O ALUNO
Dez dedos!... Porque o que, senhor? Já que uns estão bem
Vamos proceder de outra maneira... Limitemo-nos aos números os outros?
de um a cinco, para a subtração... Espere, O PROFESSOR
madame, você vai ver. Eu vou fazer você É assim, senhorita. Não se pode explicar.
compreender. (O Professor começa a escrever a um Isso se compreende por um raciocínio matemático
quadro negro imaginário. Ele se aproxima de l’Aluno, que interior. Ou a gente tem ou não tem.
se vire para olhar.) Veja, senhorita. L’ÉLÈVE
(Ele finge desenhar, no quadro negro, um Paciência!
bâton ; il fait semblant d’écrire au-dessous le chiffre O PROFESSOR
Écoutez-moi, mademoiselle, si vous n’arrivez pas à A ALUNA, desculpe.
compreender profundamente esses princípios, esses Não, senhor.
arquétipos aritméticos, você nunca irá conseguir O PROFESSOR
fazer corretamente um trabalho de politécnico. Deixemos isso por enquanto. Vamos passar para outro
Ainda menos poderemos encarregá-lo de um gênero de exercício2...
curso na Escola Politécnica... nem na pré-escola O ALUNO
superior. Eu reconheço que não é fácil, é Sim, senhor.
muito, muito abstrato... evidentemente... mas como LA BONNE,entrando. Hum, hum, senhor...
poderia chegar, antes de ter se aprofundado bem O PROFESSOR, que não entende.
os elementos primários, a serem calculados mentalmente É uma pena, senhorita, que você esteja tão
quanto fazem, e isto é o mínimo que pouco avançada em matemática especial...
um engenheiro médio — quanto fazem, por exemplo, A BOA, puxando pela manga.
três bilhões setecentos e cinquenta e cinco milhões nove Monsieur ! monsieur !
cento e noventa e oito mil duzentos e cinquenta
e um, multiplicado por cinco bilhões cento e sessenta e dois O PROFESSOR
três milhões trezentos e três mil quinhentos e oito Temo que você não possa se apresentar ao
O ALUNO, muito rápido. concurso de doutorado total...
Ça fait dix-neuf quintillions trois cent quatre-vingt- O ALUNO
dez quatrilhões dois trilhões oitocentos e quarenta- Sim, senhor, que pena!
quatro bilhões duzentos e dezenove milhões cento O PROFESSOR
sessenta e quatro mil quinhentos e oito1... Ao menos se você...(À la Bonne.) Mas deixe-me,
O PROFESSOR, surpreso. Marie... Vamos, do que você está se envolvendo? A
Não. Eu não acho. Deve ser dezenove. culinária! À sua louça! Vamos! Vamos!
quintilhão trezentos e noventa quadrilhões O Aluno.) Nós nos esforçaremos para prepará-lo para o
dois trilhões oitocentos e quarenta e quatro bilhões pelo menos, do doutorado parcial...
duzentos e dezenove milhões e sessenta e quatro A BOA
mil quinhentos e nove... Senhor !... senhor !...
L’ÉLÈVE ... Ela o puxa pela manga.
Não... quinhentos e oito... O PROFESSOR, na Boa.
O PROFESSOR, cada vez mais surpreso, calcula Mais me soltem então! Me soltem! O que é que
mentalmente. Isso significa?...(Para o Aluno.) Eu devo, portanto, você
Oui... Vous avez raison... le produit est bien...(Ilenseigner, si vous tenez vraiment à vous présenter au
bredouille inintelligivelmente.) ...quintilhões, doutorado parcial..
quadrilhões trilhões, milhares milhões... O ALUNO
(Distinctement.) ...cent soixante-quatre mille cinq Sim, senhor.
cent oito...(Estupefato.) Mas como você sabe disso, O PROFESSOR
se você não conhece os princípios do ... Os elementos da linguística e da filologia
raciocínio aritmético ? comparada...
O ALUNO A BOA
C’é simples. Não podendo confiar em meu Não, senhor, não!... Não deve fazer isso!...
raisonnement, j’ai appris par coeur tous les résultats O PROFESSOR
possíveis de todas as multiplicações possíveis. Marie, você está exagerando!
O PROFESSOR A BOA
C’é bastante forte... No entanto, você me permitirá que Senhor, acima de tudo nada de filologia, a filologia
você admite que isso não me satisfaz, mène au pire...
mademoiselle, et je ne vous féliciterai pas : enA ALUNA, surpresa.
matemática e em aritmética especialmente, E o pior? (Sorrindo, um pouco bobo.) Aqui está um.
o que importa — pois na aritmética é sempre necessário história!
computador — o que importa é sobretudo que O PROFESSOR, na Boa.
compreender... É por meio de um raciocínio É muito forte! Saia!
mathématique, inductif et déductif à la fois 1, que A BOA
você deveria ter encontrado este resultado — assim como tudo Bem, senhor, bem. Mas você não dirá que eu
outra resultado. A matemática é a inimiga não te avisei! A filologia leva ao pior!
ardentes da memória, excelente por sua vez, EU SOU MAIOR, Marie!
mais nefasta, aritmeticamente falando !... Eu não sou O ALUNO
então não contente... isso não vai, mas de jeito nenhum Sim, senhor.
tudo... A BOA
É como você quiser! néo-espanhóis entre elas, que se chega a
Ela sai. distinguir, no entanto, graças aos seus caracteres
distintivos, provas absolutamente indiscutíveis de
O PROFESSOR l’semelhança extraordinária, que torna indiscutível
Continuemos, mademoiselle. sua comunidade d’origem, e que, ao mesmo tempo,
SIM, senhor. os diferencia profundamente — pela manutenção dos
LE PROFESSEUR traits distinctifs dont je viens de parler.
Vou então pedir que ouçam com a maior atenção O ALUNO
atenção meu curso, tudo preparado... Oooh ! oouuii, senhor !
O ALUNO O PROFESSOR
Sim, senhor. Mas não nos detenhamos nas generalidades...
O PROFESSOR A ALUNA, lamentando, seduzida.
... Graças ao qual, em quinze minutos, você pode Oh, senhor...
adquirir os princípios fundamentais da filologia LE PROFESSEUR
lingüística e comparada das línguas neo- Isso parece lhe interessar. Melhor ainda, tanto
espanhóis. melhor.
O ALUNO Sim, senhor, oh! O ALUNO
Ela bate palmas. Oh, sim, senhor...
O PROFESSOR, com autoridade. O PROFESSOR
Silêncio! O que isso significa? Não se preocupe, senhorita. Nós vamos lá
O ALUNO Desculpe, senhor. voltaremos mais tarde... a menos que não seja mais
Lentamente, ela coloca as mãos na mesa. De jeito nenhum. Quem poderia dizer isso?
O PROFESSOR L’ÉLÈVE,enchantée, malgré [Link], oui,
Silêncio !(Ele se levanta, passeia pela sala, senhor.
as mãos atrás das costas; de vez em quando, ele O PROFESSOR
para, no meio da sala ou ao lado do Aluno, Toda língua, senhorita, saiba disso, lembre-se
e apoia suas palavras de’um gesto da mão; ele você-enjusqu’à l’hora da sua morte...
pérore, sem exagerar; o Aluno o segue com o olhar O ALUNO
e às vezes, tem certa dificuldade em acompanhá-lo porque ela Oh! sim, senhor, até’à l’hora da minha morte...
deve girar muito a cabeça; uma ou duas vezes, não Sim, senhor...
além disso, ela se vira completamente.) Assim sendo, O PROFESSOR
senhorita, l’o espanhol é de fato a língua mãe ... e este é ainda um princípio fundamental, todo
d’onde nasceram todas as línguas neo-espanholas, língua n’est em suma que’uma linguagem, o que
não l’espanhol, o latim, o italiano, nosso francês, o implique necessariamente que ela se compose de
português, romeno, sardo ou sardanápale, filhos, ou...
l’espanhol e o neo-espanhol — e também, para O ALUNO
certos de seus aspectos, o turco ele mesmo mais Fonemas...
embora próximo do grego, o que é completamente O PROFESSOR
lógica, uma vez que a Turquia é vizinha da J’vocês vão dizer. Portanto, não exponha seu conhecimento.
Grécia e a Grécia mais perto da Turquia do que você e Escutem, antes.
oi : isso nest

qu’uma ilustração de mais de’uma lei O ALUNO
linguística muito importante segundo a qual Bem, senhor. Sim, senhor.
geografia e filologia são irmãs gêmeas... Você O PROFESSOR
Pode anotar, senhorita. Os sons, senhorita, devem ser apanhados em voo
O ALUNO’uma voz apagada. Sim, senhor! par les ailes pour qu’eles não caem nas
O PROFESSOR orelhas dos surdos. Portanto, quando você
O que distingue as línguas neo-espanholas entre você decide articular, é recomendado, na
elas e seus idiomas de outros grupos medida do possível, levantar bem alto o pescoço e o
linguísticas, como o grupo das línguas menton, de você se elevar na ponta dos pés,
austríacas e néo-austríacas ou tenez, assim, você vê...
habsburgueses, assim como grupos L’ÉLÈVE
esperantista, helvético, monegasco, suíço, Sim, senhor.
andorrense, basco, pelota, assim como ainda que de O PROFESSOR
grupos de línguas diplomáticas e técnicas — isso Cale-se. Fique sentada, não ’não interrompa... E
quem os distingue, disse eu, c’é sua semelhança d’emitir os sons muito altos e com toda a força de suas
frappante qui fait qu’temos dificuldade em os pulmões associados aos de suas cordas vocais.
distinguir l’uma de l’outro — eu falo idiomas Como este: olhem: «borboleta», «eureka», «
Trafalgar », « papi, papai ». De cette forma, os sons língua, palácio, dentes...
encher d’um ar quente mais leve que o ar O ALUNO
environnant voarão, voarão sem mais arriscar Estou com dor de dente.
de cair nas orelhas de surdos que são os O PROFESSOR
véritables gouffres, les tombeaux des sonorités. Si ... lábios... Finalmente, as palavras saem pelo nariz, a
você emite vários sons a uma velocidade acelerada, boca, as orelhas, os poros, levando com eles
estes’agarrarão uns aos outros todos os órgãos que nomeamos, arrancados,
automaticamente, constituindo assim sílabas, de em um voo poderoso, majestoso, que não é outra
palavras, na rigidez das frases, c’ou seja, dos que se chama, impropriamente, a voz, se
agrupamentos mais ou menos importantes, de modulando em canto ou se transformando em um terrível
assemblagens puramente irracionais de sons, desprovidas orage sinfônico com toda uma procissão... dos
de todo sentido, mas justamente por isso capazes de se gerbes de flores das mais variadas, de artifícios sonoros
maintenir sans danger à une altitude élevée dans les labiais, dentais, oclusivas, palatais e outros
Ardis. Sozinhos, caem as palavras carregadas de ora carinhosas, ora amargas ou violentas.
significação, alheios pelo seu sentido, que terminam O ALUNO
sempre por sucumbir, s’desabar... Sim, senhor, eu estou com dor de dente.
O ALUNO O PROFESSOR
... nos ouvidos dos surdos. Continuemos, continuemos. Quanto às línguas
neoespanholas, elas são parentes tão próximas
umas às outras, que podemos considerá-las como
O PROFESSOR verdadeiras primas irmãs. Elas, aliás,
C’est ça, mais n’não interrompa... e na pior a mesma mãe: a espanhola, com umemuet. É
confusão... Ou por estourar como balões. Assim por que é tão difícil distingui-las uma da outra
Portanto, senhorita...(O aluno de repente o) ’ar de o outro. É por isso que é tão útil saber bem
sofrer.)Qu’Você tem então? pronunciar, d’evitar os defeitos de pronúncia. A
O ALUNO A pronúncia por si só vale toda uma linguagem. Uma
Estou com dor de dentes1, s e n h o r. má pronúncia pode lhe pregar peças.
O PROFESSOR a esse respeito, permita-me, entre parênteses, dizer-lhe
Isso não importa. Nós não vamos nos convite uma lembrança pessoal. (Leve relaxamento,

parar por tão pouco. Continuemos... o Professor se deixa por um momento levar por suas
O ALUNO, que parecerá sofrer cada vez mais. lembranças; sua figura se suaviza; ele logo se recomporá.)
Sim, senhor. Eu era muito jovem, quase uma criança.
O PROFESSOR faisais mon service militaire. J’avais, no regimento, um
Chamo a sua atenção para as consoantes camarada, visconde, que tinha um defeito de
que mudam de natureza em ligações. As f tornam-se pronúncia bastante grave: ele não podia
Neste caso desv,lesddest,les g desket vice versa, pronunciar a letra f. Em vez de def, ele dizia f. Assim, ao
como nos exemplos que eu lhe indico: « lieu de : « fonte, eu não beberei da tua água », ele
três horas, as crianças, o galo ao vinho, l’nova idade disait : « fonte, eu não beberei da tua água ». Ele
aqui está a noite. pronunciava "fille" em vez de "fille", "Firmin" ao
L’ÉLÈVE lugar de "Firmin", "fanfarrão" em vez de "fanfarrão", "
Estou com dor de dentes. fichez-moi la paix" em vez de "fichez-moi la paix
O PROFESSOR », « fatras » em vez de « fatras », « fifi, fon, fafa » ao
Continuemos. lugar de « fifi, fon, fafa »j « Philippe » em vez de «
O ALUNO Phi-lippe » ; « vitória » ao invés de « vitória » ; «
Sim. fevereiro » ao invés de « fevereiro » ; « março-abril » ao
O PROFESSOR lugar de "março-abril", "Gérard de Nerval" e não
Resumindo: para aprender a pronunciar, é preciso de pas, como isso está correto, « Gérard de Nerval », «
anos e anos. Graças à ciência, nós Mirabeau » em vez de « Mirabeau »‘, « etc. » em vez
podemos chegar lá em alguns minutos. Para fazer de « etc. », e assim por diante « etc. » em vez de « etc.
então tire as palavras, os sons e tudo o que você », e assim por diante, etc. Apenas ele teve a sorte
quereis, saibam que é preciso caçar impiedosamente de poder esconder tão bem seu defeito, graças a
o ar dos pulmões, depois fazer isso delicadamente chapeaux, que não nos apercebíamos2.
passar, ao tocá-las levemente, nas cordas vocais que, O ALUNO
de repente, como harpas ou folhagens sob o Oui. J’ai mal aux dents.
vent, frêmit, s’agitent, vibrent, vibrent, vibrent LE PROFESSEUR,changeant brusquement de ton,
ou grasseyent, ou chuintent ou se froissent, ou d’uma voz dura.
sussurrante, sussurrante, colocando tudo em movimento: úvula, Continuemos. Vamos primeiro esclarecer as semelhanças.
para melhor entender, posteriormente, o que distingue mesma coisa? Estou com dor de dente.
todas essas línguas entre si. As diferenças não O PROFESSOR
são pouco compreensíveis para pessoas não avisadas. Absolutamente. Como poderia ser de outra forma? De
Assim, todas as palavras de todas essas línguas... De qualquer forma, você sempre tem o mesmo
O ALUNO significação, a mesma composição, a mesma
Ah sim ?... Estou com dor de dente1. estrutura sonora não apenas para esta palavra, mas
O PROFESSOR para todas as palavras concebíveis, em todas as
Continuamos... são sempre os mesmos, assim como línguas. Pois uma mesma noção s’exprime por um só
todas as desinências, todos os prefixos, todos os e mesmo palavra1, e seus sinônimos, em todos os países.
sufixos, todas as raízes... Deixe suas dentes.
O ALUNO O ALUNO
Les racines des mots sont-elles carrées ? Estou com dor de dente. Sim, sim e sim.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Quadradas ou cúbicas. Depende. Bem, continuemos. Eu digo continuemos... Como
O ALUNO dites-vous, par exemple, en français : « les roses de
Estou com dor de dente. minha avó é tão amarela quanto meu avô
O PROFESSOR pai asiático2 » ?
Continuemos. Assim, para lhe dar um exemplo que O ALUNO
n’é pouco que’uma ilustração, pegue a palavra frente... Estou com dor, dor, dor nos dentes.
L’ÉLÈVE O PROFESSOR
Com o que tomar? Continuemos, continuemos, digam mesmo!
O PROFESSOR O ALUNO
Com o que você quiser, contanto que você o faça Em francês?
pegue, mas acima de tudo não interrompa. O PROFESSOR
O ALUNO Em francês.
Estou com dor de dente. O ALUNO
O PROFESSOR Euh... que je dise en français : « as rosas de me
Continuemos... J’ai disse: « Continuemos. » Então pegue avó são...?
a palavra francesa frente. Você a pegou? O PROFESSOR
O ALUNO « Também amarelos como meu avô que era
Sim, sim, já está. Meus dentes, meus dentes... asiático... »
O PROFESSOR L’ÉLÈVE
A palavra frente é raiz em frontispício. Ela também o é Eh bem, dir-se-á, em francês, eu acho: "as rosas..."
dans effronté. « Ispice » est suffixe, et « ef» préfixe. avó
Eles são chamados assim porque não mudam. Eles çais ?
não querem. O PROFESSOR
O ALUNO Avó
Estou com dor de dente. O ALUNO
O PROFESSOR As rosas da minha avó também são... amarelas.
Continuemos. Rápido. Esses prefixos são de origem Em francês, diz-se « jaunes » ?
espanhol, espero que você tenha percebido isso, O PROFESSOR
não é? Sim, é claro!
O ALUNO Ah! o que eu...’ai mal aux dents. L’ALUNO
O PROFESSOR São tão amarelos quanto meu avô quando ele se
Continuemos. Você também pode ter notado fazia ficar com raiva.
que eles’não tinha mudado em francês. Bem, O PROFESSOR
mademoiselle, nada tampouco consegue fazê-las Não... « quem estava a... »
mudar, nem em latim, nem em italiano, nem em português, nem L’ALUNO
em sardanápale ou em sardanapali, nem em romeno, nem « ... ciática »... Estou com dor de dente.
em neoespanhol, nem em espanhol, nem mesmo em ! Agora, traduza a mesma frase em espanhol,
oriental : frente, frontispício, descarado, sempre oentão em neo-espanhol...
mesmo termo,euinvariavelmente com a mesma raiz, mesmo O PROFESSOR
sufixo, mesmo prefixo, em todas as línguas É isso.
enumeradas. E é sempre a mesma coisa para todos os
palavras. L’ALUNO
O ALUNO Eu estou com dor...
Dans toutes les langues, ces mots veulent dire la O PROFESSOR
Às dentes... tanto faz... Vamos continuar diversas, se diversas embora não se apresentem
O ALUNO que caracteres totalmente idênticos. Eu vou
as rosas da minha avó tentar lhe dar uma chave...
são tão amarelos quanto meu avô que era O ALUNO
asiático. Dor de dente...
O PROFESSOR O PROFESSOR
Não. Está errado. O que diferencia essas línguas não são nem os
O ALUNO palavras, que são absolutamente as mesmas, nem a estrutura
as rosas da minha avó da frase que é sempre a mesma, nem a entonação,
sont aussi jaunes que mon grand-père qui était asia que não apresenta diferenças, nem o ritmo do
tique ». linguagem... o que os diferencia... Vocês me ouvem?
O PROFESSOR O ALUNO
C’est faux. C’est faux. C’est falso. Você fez Estou com dor de dente.
o inverso, você tomou o espanhol por um LE PROFESSEUR
néoespagnol, e o néo-espanhol para o espanhol... Está me ouvindo, senhorita? Ah! Nós vamos
Ah... não... é o contrário... nos irritar.
L’ÉLÈVE
O ALUNO Você está me aborrecendo, senhor! Estou com dor de dente.
J’ai mal aux dents. Vous vous embrouillez. LE PROFESSEUR
Nome de um poodle com barba! Escutem-me!
O PROFESSOR O ALUNO
C’és você quem está me confundindo. Seja atenta e Bem... sim... sim... vá em frente...
anote. Eu vou lhe dizer a frase em espanhol, então O PROFESSOR
em neo-espanhol e, finalmente, em latim. Você repetirá O que as diferencia umas das outras, por um lado,
depois de mim. Atenção, pois as semelhanças são e do espanhol, com uma mudez, sua mãe, outra
grandes. São semelhanças idênticas. part... c’est...
Escute, preste bem atenção... A ALUNA, fazendo careta.
O ALUNO O que é isso?
Estou com dor... O PROFESSOR
O PROFESSOR C’é uma coisa inefável. Um inefável que o’em
... aos dentes. n’consegue perceber que, após muito tempo,
O ALUNO Continuemos... Ah !... com muito sofrimento e após um longo
LE PROFESSEUR experiência...
as rosas da minha avó são O ALUNO
tão amarelos quanto meu avô que era asiático Ah ?
As rosas da minha avó também são O PROFESSOR
amarelos que meu avô que era asiático. Sim, senhorita. Não podemos lhe dar nenhuma
Você percebe as diferenças? Traduza isso em... regra. É preciso ter faro, e então c’est tout. Mais
romeno. para tê-los, é preciso estudar, estudar e estudar mais
O ALUNO étudier.
« Les... » como se diz « rosas », em romeno ? O ALUNO
O PROFESSOR Dor de dente.
Mais « rosas », vamos. O PROFESSOR
O ALUNO Há, no entanto, alguns casos específicos em que as palavras,
Não é "rosas"? Ah, como estou com dor de dente... de uma língua para outra, são diferentes... mas não se
O PROFESSOR podemos basear nosso conhecimento nisso, pois esses casos são,
Mais não, mas não, visto que "rosas" está lá. por assim dizer, excepcionais.
rosas O ALUNO
espanhol "rosas", você entende? Em sardanapali Ah, sim?... Oh, senhor, estou com dor de dente.
« rosas »...
L’ALUNO O PROFESSOR
Desculpe-me, senhor, mas... Oh, como eu estou com dor Não interrompa! Não me deixe irritado! Eu
aos dentes... eu .não entendo a diferença. não responderei mais por mim. Eu estava dizendo... Ah, sim,
O PROFESSOR os casos excepcionais, chamados de distinção fácil... ou
É, no entanto, muito simples! Muito simples! A de distinção fácil... ou conveniente... se você gostar
condição de ter uma certa experiência, uma melhor... eu repito: se vocês gostam, porque eu constato que
experiência técnica e prática dessas línguas você não me escuta mais...
O ALUNO O professor lhe pega no pulso, o torce.
Estou com dor de dente. O ALUNO
LE PROFESSEUR Ai!
Eu digo então: em certas expressões, de uso O PROFESSOR
corrente, certas palavras diferem totalmente d’uma Tenez-vous Então tranquilo! Não diga uma palavra!
idioma à l’outro, tanto que a língua empregada é, O ALUNO, choramingando.
nesse caso, sensivelmente mais fácil de identificar. Eu Dor de dente...
dá-lhe um exemplo: a expressão neo-espanhola O PROFESSOR
célebre em Madrid: « minha pátria é a Néo-Espanha » A coisa mais... como eu diria? a mais
diventa in italiano: « la mia patria è... paradoxal... sim... é a palavra... a coisa mais
O ALUNO paradoxalmente, é que um monte de pessoas que faltam
A Néo-Espanha. completamente de instrução falam esses diferentes
O PROFESSOR línguas... você ouve? O que eu disse?
Não! "Minha pátria é a Itália." Diga-me então, por L’ÉLÈVE
Itália ... falam essas diferentes línguas! Qu’estou eu’ia
francês ? diga!
O ALUNO O PROFESSOR
Estou com dor de dente! Você teve sorte!... Gente do povo
O PROFESSOR falam espanhol, recheado de palavras neo-espanholas
C’é bastante simples: para a palavra "Itália", em que eles não detectem, enquanto acreditam que falam o
em francês temos a palavra "França" que é dela. latin... ou bien ils parlent le latin, farci de mots
Minha pátria é a França. orientais, acreditando que falam romeno... ou
França » em oriental: « Oriente »! « Minha pátria é o espanhol, recheado de neoespanhol, enquanto acredita
l’Orient. » Et « Orient » em português: « Portugal »! falar o sardanapali, ou o espanhol... Você me
A expressão oriental: « minha pátria é o Oriente » se entende?
minha pátria O ALUNO
é Portugal"! E assim por diante... Sim! Sim! Sim! Sim! O que você quer mais... ?
O ALUNO
Tudo bem! Tudo bem! Estou com dor... LE PROFESSEUR
O PROFESSOR Pas d’insolência, mignon, ou cuida-te...(Em
Às dentaduras! Dentes! Dentes!... Eu vou lhes raiva.) O cúmulo, senhorita, c’est que certains,
Arranca, meu! Mais um exemplo. A palavra « por exemplo, em um latim, que supõem espanhol,
capitale », « a capital » reveste, dependendo da língua que disent: «Eu sofro dos meus dois fígados ao mesmo tempo», em
l’fala-se, um sentido diferente. Ou seja, se um s’endereçado a um francês, que não sabe uma palavra
Espanhol diz: "Eu moro na capital", a palavra " d’espanhol; no entanto, este também o compreende bem
capitale » não quererá dizer de forma nenhuma a mesma coisa que se c’era sua própria língua. D’outro lugar, ele acredita que
o que entende um português quando lhe dizem também: c’é sua própria língua. E o Francês responderá, em
« eu moro na capital ». A mais forte razão, um français : « Moi aussi, monsieur, je souffre de mes
Francês, um neo-espanhol, um romeno, um latino, foies », e se fará perfeitamente compreender por
um Sardanapale... Assim que você ouvir dizer, l’Espanhol, que terá a certeza de que c’está em puro
mademoiselle, mademoiselle, eu digo isso por você! espanhol que’ele respondeu, e que’falamos
Droga então! Assim que você ouve a expressão: " espanhol... quando, na realidade, isso não’est ni de l’espanhol
eu moro na capital nem do francês, mas do latim ao neo-espanhol...
facilmente se é espanhol ou espanhol, do Fique tranquila, senhorita, não
néo-espanhol, do francês, do ’oriental, do romeno, remexa mais as pernas, não bata mais os pés...
do latim, pois basta adivinhar qual é a O ALUNO
metrópole à qual pensa aquele que pronuncia a Estou com dor de dente.
frase... no momento em que ele a pronuncia... mas O PROFESSOR
são mais ou menos os únicos exemplos precisos que eu Como é que se faz, falando sem saber qual
pudesse lhe dar... língua que eles falam, ou mesmo acreditando em falar cada um
O ALUNO outro, as pessoas do povo s’entender quando
Oh, lá, meus dentes... mesmo entre eles?
L’ÉLÈVE
O PROFESSOR Silêncio! Ou eu te quebro o Eu me pergunto.
crânio! O PROFESSOR
O ALUNO C’é simplesmente uma das curiosidades inexplicáveis de
Então tente! Presunçoso! l’empirismo grosseiro do povo — não confundir
com a experiência! — um paradoxo, uma falta de sentido, Qual sintoma? Explique-se! O que você quer?
uma das bizarrices da natureza humana, c’é dizer ?
o instinto, simplesmente, para dizer tudo em uma palavra O ALUNO’uma voz mole.
— c’é ele quem joga, aqui. Sim, o que você quer dizer?’ai dor de dente.
O ALUNO A BOA
Ha! Ha! O sintoma final! O grande sintoma!
O PROFESSOR O PROFESSOR
Em vez de ficar olhando as moscas voarem enquanto eu Tolices! Tolices! Tolices!(A Boa quer se ir)
me dê todo esse trabalho... seria melhor você se esforçar Não partam assim! Eu estava chamando vocês.
de ser mais atenta... não sou eu que me para ir me buscar as facas espanholas, neo-
presente no concurso de doutorado parcial... eu tenho espanhol, português, francês, oriental, romeno
passou, para mim, há muito tempo... incluindo meu sardanapali, latim e espanhol.
doutorado total... e meu diploma supra-total... Você A BONNE, severa.
não compreendem então que eu quero o seu bem? Não conte comigo.
O ALUNO Ela se vai.
Dor de dente!
O PROFESSOR O PROFESSOR, gesto, ele quer protestar, se
Malcriada... Mas isso não’ira não passa assim, não retém, um pouco desorientado. De repente, ele se lembra.
assim, não assim, não assim... Ah !(Ele vai rapidamente para a gaveta, descobre um grande
O ALUNO couteau invisível, ou real, conforme o gosto do diretor
Eu... estou... ouvindo... em cena, o agarra, o brandindo, todo alegre.) Aqui está
O PROFESSOR não, senhorita, aqui está uma faca. É uma pena
Ah ! Para aprender a distinguir todas essasque não haja outro; mas vamos tentar
diferentes línguas, eu te disse que’ele não’não há nada de nós usaremos isso para todas as línguas! Bastará que
melhor do que a prática... Vamos proceder por ordem. Eu vou vocês pronunciam a palavra "faca" em todas as
essayer de vous apprendre toutes les traductions du línguas, olhando o objeto, de muito perto, fixamente,
mot «couteau ». e você imaginando que ele é da língua que você
O ALUNO dites.
É como você quiser... Afinal de contas... O ALUNO J’ai dor de dente.

O PROFESSOR, ele chama a Boa. O PROFESSOR,


Marie ! Marie ! Ela não vem... Marie ! Marie !... cantando quase, melodia.
Vamos, Maria. (Ele abre a porta, à direita.) Maria Então: diga, "cou", como "cou", "teau",
!... como "teau"... E olhem, olhem, fixem bem...
Ele sai.
L’O aluno fica sozinho por alguns instantes, com o olhar em O ALUNO
o vazio, o’ar estúpido. C’O que é isso? Francês, de l’italiano, de
O PROFESSOR, voz estridente, lá fora. l’espanhol ?
Marie ! O que isso significa? Por que não
não venha! Quando eu peço para você vir, ele O PROFESSOR
tem que vir !(Ele entra, seguido de Marie.)’est moi qui Já não tem mais’importância... Isso não lhe diz respeito.
comando, você me’Entenda. (Ele mostra a’Aluno.)Diga: "pescoço".
Ela não entende nada, essa aí. Ela não entende.
Não! O ALUNO
A BOA « Cou. »
Não se coloque nesse estado, senhor, cuidado com a
fim! Isso vai te levar longe, isso vai te levar longe tudo O PROFESSOR « ... teau » ... Olhem.
isso. Ele brandiu a faca diante dos olhos de l’Aluno.
O PROFESSOR O ALUNO
Eu saberia parar a tempo. « teau »...
A BOA
Dizem sempre. Eu gostaria de ver isso. O PROFESSOR
O ALUNO Mais uma vez... Olhe.
Estou com dor de dente. O ALUNO
A BOA Ah, não! Droga então! J’já chega! E então eu’ai mal
Você vê, está começando, é o sintoma! aos dentes, j’ai dor nos pés, estou com dor de cabeça...
O PROFESSOR O PROFESSOR, saccadé.
"Faca"... Olhem... "faca"... Olhem... « Faca... » minha garganta...
« faca »... Olhem... O PROFESSOR
O ALUNO « Faca... faca... »
Você também está me machucando os ouvidos. Você tem O ALUNO
uma voz! Oh, qu’ela é estridente! « Faca... » meus ombros... meus braços, meus seios,
O PROFESSOR minhas ancas... « faca... faca... »
Diga: « faca... pescoço... faca... » O PROFESSOR
O ALUNO É isso... Você pronuncia bem, agora...
Não! J’ai dor nos ouvidos, j’ai mal partout... O ALUNO
O PROFESSOR « Faca... » meus seios... minha barriga...
Eu vou te arrancar, eu, suas orelhas, assim
elas não te farão mais mal, minha querida! O PROFESSOR, mudança de voz. Atenção...
O ALUNO não quebrem meus vidros... a faca mata...
Ah... é você quem me faz mal... O ALUNO, com uma voz fraca.
O PROFESSOR Sim, sim... a faca mata?
Olhem, vamos, depressa, repitam: "pescoço"... O PROFESSOR mata o’Aluno de’um grande golpe de
O ALUNO faca bem espetacular.
Ah, se você insiste... «corte... faca»...(Um instante Aaah! Olha!
lucido, irónico.) É do neo-espanhol... Ela também grita: "Aaah!" e então cai, desmorona em
O PROFESSOR uma atitude impudica em uma cadeira que, como
Se quisermos, sim, do neo-espanhol, mas apresse-se por acaso, estava perto da janela; eles gritam :
você... nós não temos tempo... E então, que’est-ce " Aaah ! " ao mesmo tempo, o assassino e a
que é essa pergunta inútil? Qu’será que vítima; após o primeiro golpe de faca, a’Aluno
você se permite? est afundada na cadeira; as pernas, muito afastadas,
A ALUNA deve estar cada vez mais cansada. pendurado dos dois lados da cadeira; o Professor se
pleurante, desesperada, tient debout, en face d'elle, le dos au public; après
ao mesmo tempo extasiada e exasperada. o primeiro golpe de faca, ele atinge o Aluno morto
Ah! de um segundo golpe de faca, de baixo para cima, na
O PROFESSOR suite do qual o Professor tem um sobressalto bem
Repita, olhe. (Ele faz como o cuco.) "visível, de todo o seu corpo.
Faca... faca... faca... faca...
O ALUNO O PROFESSOR, ofegante, balbucia.
Ah, j’ai mal... minha cabeça...(Ela toca levemente com a mão, Salope... É bem feito... Isso me faz bem... Ah!
como para uma carícia, as partes do corpo Ah! Estou cansado... tenho dificuldade para respirar... Aah
que ela nomeia.) ...meus olhos... !
O PROFESSOR, como o cuco. "Faca... Ele respira docilmente; ele cai; felizmente uma
faca... » a cadeira está lá; ele seca a testa, murmura algumas
Eles estão todos os dois de pé; ele, brandindo palavras incompreensíveis; sua respiração se
sempre com sua faca invisível, quase fora de si, normalizar... Ele se levanta, olha para sua faca à
gira em torno de’ela, em uma espécie de dança do couro cabeludo, principal, olha a jovem, então como se ele se
mas não se deve exagerar e os passos de dança do despertava
Os professores devem ser apenas esboçados; l’Élève,LE PROFESSEUR,pris de panique.
de pé, de frente para o público, se dirige, de costas, em Qu’será que eu’ai fez! Qu’está me’chegar
direção da janela, doentia, languida, agora! O que vai acontecer! Ah! lá! lá
enfeitiçada... ! Maldição ! mademoiselle, mademoiselle, levante-se
O PROFESSOR Ele está agitado, segurando sempre a faca na mão
Repita, repita: "faca... faca... faca..." invisível, do qual ele não sabe o que fazer.) Vamos,
O ALUNO Senhorita, a lição está terminada... Você pode
Estou com dor... minha garganta, "pescoço..." ah... meus ombros... partir... vocês pagarão outra vez... Ah! ela é
meus seios... "faca..." morte... mo-orte... É com a minha faca... Ela é
O PROFESSOR mo-orte... É terrível. (Ele chama a Boa.) Marie
« Faca... faca... faca... » ! Marie ! Minha querida Marie, venha então ! Ah ! Ah !
O ALUNO (A porta à direita se abre. Marie aparece.)
Minhas ancas... « faca... » minhas coxas... « pescoço... » Não... não venham... Eu me enganei... Eu não tenho
O PROFESSOR Pronuncie bem... "faca..." preciso de você, Marie... não preciso mais de você...
faca... » você me ouve ?...
O ALUNO Marie se aproxima, severa, sem dizer uma palavra, vê o
cadáver. Você disse: «no pior caso»!
A BOA
O PROFESSOR, com uma voz cada vez mais baixa É a mesma coisa.
assegurada. Eu não preciso de você, Marie... O PROFESSOR
A BOA, sarcástica. Eu tinha entendido mal. Eu achava que "Pior" c’é uma
Então, você está feliz com sua aluna, ela se saiu bem cidade e que você queria dizer que a filologia
aproveite sua lição? levava à cidade de Pire...
O PROFESSOR, ele esconde sua faca atrás A BOA
são dois. Mentiroso! Velho raposo! Um sábio como você não
Sim, a lição terminou... mas... ela... ela ainda está não se engane com o significado das palavras. Não venha com essa para mim.
lá... ela não quer ir embora... fazer.
A BOA, muito dura. O PROFESSOR está chorando. Eu não fiz por querer
De fato!... da morte!
O PROFESSOR, tremendo. A BOA
Ce n’não sou eu... Isto não’não sou eu... Marie... Não... Pelo menos, você se arrepende?
Eu te asseguro... não sou eu, minha pequena Marie... O PROFESSOR Oh, sim, Marie, eu lhe juro!
A BOA A BOA
Mas quem então? Quem então? Eu? Vous me faites pitié, tenez ! Ah ! vous êtes un brave
O PROFESSOR garçon quando mesmo ! Vamos tentar d’arranjar isso.
Eu não sei... talvez... Mas não recomece... Isso pode te dar
A BOA uma doença do coração...
Onde está o gato? O PROFESSOR
O PROFESSOR Sim, Marie! Qu’é isso’o que vamos fazer, então? LA
É possível... Eu não sei... BOM
A BOA Vamos lá’enterrar... ao mesmo tempo que os trinta e nove
E é a quadragésima vez, hoje L. E todos outros... isso vai fazer quarenta caixões... Vamos t
Os dias são a mesma coisa! Todos os dias! Você chamar as funerárias e meu amor, o
não tem vergonha, na sua idade... mas você vai se curé Auguste... Vamos encomendar coroas...
Deixar doente! Você não terá mais alunos. Isso O PROFESSOR
será bem feito. Sim, Marie, muito obrigado.
O PROFESSOR, irritado. A BOA
Não é minha culpa! Ela não queria Aliás. Não’est même pas la peine d’chamar
aprender! Ela era desobediente. Era uma Auguste, já que você mesmo é um pouco padre
aluna má! Ela não queria aprender! às suas horas, se acreditarmos na rumor público.
A BOA O PROFESSOR
Mentiroso!... Não são muito caras, as coroas. Ela
O PROFESSOR se aproxima sorrateiramente do(a) não pagou a sua lição.
Bom, a faca atrás das costas. A BOA
Isso não te diz respeito !(Ele tenta dar-lhe um Não se preocupe... Cubra-a pelo menos com
formidável golpe de faca; a Boa lhe agarrou o seu avental, ela é indecente. E então vamos
poignet ao voar, torce-o; o Professor deixa levar a melhor...
cair no chão sua arma.)...Desculpe ! O PROFESSOR
A BOA gifle, por duas vezes, Sim, Marie, sim. (Ele a cobre.) Podemos nos machucar.
com barulho e força, o Professor pinça... com quarenta caixões... Você se
que cai no chão, imagine... As pessoas ficarão surpresas. Se nos
sobre seu traseiro; ele choraminga. pergunta o que’o que há dentro?
Pequeno assassino! Safado! Pequeno nojento! Você A BOA
Você queria fazer isso comigo? Eu não sou uma de suas... Não se preocupe tanto. Vamos dizer que’eles
élèves, moi !(Elle le relève par le collet, ramasse la estão vazios. Além disso, as pessoas não pedirão nada,
calote que ela coloca na cabeça dele; ele tem medo de estar eles estão acostumados1.
mais uma vez agredido e se protege com o cotovelo como os O PROFESSOR Que mesmo.
crianças.) Coloque esta faca no seu lugar, vá! (O A BOA, ela tira uma braçadeira com um
O professor vai colocar no drawer do buffet, insígnia, talvez a suástica nazista2 .
volta.) E eu havia lhe avisado bem, no entanto, tudo a Toma, se você tem medo, coloque isso, você não terá
ainda a hora: a aritmética leva à filologia, nada mais a temer. (Ela lhe amarra a braçadeira
e a filologia leva ao crime... ao redor do braço)... C’é política.
O PROFESSOR O PROFESSOR
Merci, ma petite Marie; comme ça, je suis
tranquilo... Você é uma boa menina, Maria... bem
devotada...
A BOA
Está bem. Pode ir, senhor. É isso?
O PROFESSOR
Sim, minha pequena Marie.
pegam o corpo da jovem garota, l’uma por
ombros, l’outro pelas pernas, e se dirigem para a
porte à direita.) Atenção. Não faça mal a ele.
Eles saem.

Cena vazia, por alguns momentos. Ouvimos


tocar à porta da esquerda.
VOZ DO BEM
Logo, eu’chegar!
Ela aparece assim como no começo, vai em direção à porta.
Segundo toque de campainha.
A BOA, à parte.
Ela está bem apressada, essa aí!(Forte.)Paciência!
(Ela vai em direção à porta da esquerda, l’ouvre.)Bonjour,
Mademoiselle! Você é a nova aluna? Você
Você veio para a aula? O professor está à sua espera.
Eu vou lhe avisar sobre sua chegada. Ele desce tudo de
Entre! Entre, Mademoiselle3!

Junho de 1950.
CORTINA

* Em Paris, na representação, foi removido


1

as duas réplicas que se seguem, assim como o


braçadeira, para não atrasar o ritmo. (Nota
do autor.)
2
É a suástica.
3
À la représentation deLa Leçon,avant le lever du
cortina, ouvimos alguns golpes de martelo
sucedendo aos três golpes anunciando o
início do espetáculo e que continuam
alguns segundos enquanto a bandeja está vazia.
Então, quando, na primeira cena, a Boa se
precipita para abrir ao Aluno, ela coleta rapidamente,
sem interromper seu ímpeto, um caderno, um
pastas que estão na mesa e as joga em
um canto onde outros cadernos, etc., estão empilhados.
Finalmente, na última cena, ao ir abrir a
porte à nova aluna que se ouve tocar, a
Boa pega e joga, no mesmo canto, o caderno, o
cartão do aluno que vem de’ser assassinada;
quando a cortina cai, alguns golpes de martelo
podem ainda se fazer ouvir. (Nota do autor.)

Você também pode gostar