Eu me virei a noite toda, um lado e outro, entre parede e a minha noiva.
As 5:22 o alarme toca, eu olho pela janela e noto que por mais que suave, ainda reina no céu
um pedaço da escuridão, eu acordo ela para desligar o som irritante e alto, estranho, mas
então me lembro, o timer pro remédio dela.
Visto que o silencio impera eu tento me aprofundar de novo no pouco tempo de descanso que
me resta, mas foi só tentativa mesmo, as 6:30 em ponto eu estou de pé, desligando o alarme,
porque ela nunca acorda com ele, então na ponta ou não eu ainda preciso desligar.
Me sinto nublada, assim como o tempo, um cinza pesado, meio claro, meio escuro, mas sigo
pro banheiro, ficando puta como todo santo dia, quando o acento quebrado da privada
desencaixa, faço minha higiene matinal e me martirizo.
- Acordei amoada, com uma sensação estranha. – Digo alto o suficiente pra ela me ouvir.
- Ué alguma coisa em especial?
- Não sei. – Digo em voz baixa, mais pra mim mesma do que para ela.
A sensação me persegue o caminho todo, a autoestima de ontem foi toda pro fundo do poço, a
animação também, me pergunto de onde vem isso, essa coisa que fica no fundo do meu peito,
parece alojada atras do pulmão, fincada nas costas, mas que também atravessa o coração, uma
raiz crescente que se enrola no órgão e se desenvolve por todo o peito, até acumular na
garganta, fechando toda e qualquer passagem de ar, e na mesma crescente que vem... ela vai
embora, e o que eu penso que foram horas, na verdade são só segundos.
O dia se estende, na verdade se arrasta é a palavra mais correta, chimarrão e música de
manhã, pausa pro almoço, mais uma dose da sensação de raízes se alastrando a tarde um
cansaço mental, procuras de emprego, mais música, outro chimarrão, Isabela Boscov, e são 18
horas finalmente.
Ao longo do dia muitas coisas me irritaram, nenhuma com sentido, saindo eu me sinto menos
irritada, porém com uma dor lancinante no peito, uma dor muito além das raízes, é fixa, uma
pontada que atravessa, passa um segundo e ela volta, como se fincasse exatamente junto com
as batidas do meu coração.
No trem mais silencio, assim foi o dia, silencioso, exceto pelos barulhos da minha própria
mente, ela me pergunta algumas coisas, eu resmungo algumas de volta, pego meu fone
péssimo e tento me distrair, mas é claro que não rola, como nada tem rolado ultimamente.
Então minha mente ao invés de ajudar atrapalha, e os meus pensamentos voam até meus pais,
e como eles não deveriam ser pais.
A seguinte cena se desenrola na minha cabeça:
Um sofá e ambos sentados lado a lado, eu me encontro na frente deles de pé e exatamente
como sou hoje, e despejo tudo que rola na minha mente há muito tempo.
- Vocês me abandonaram. Não só vocês dois, eu digo todos vocês. - Eu olho pra eles como se
visse as almas, os rostos empalidecendo levemente e então continuo – Começou contigo –
aponto pro meu pai – fugindo quando eu era pequena, se ausentando, e quando voltou
começou esse joguinho de “to aqui...não to aqui mais”, tu só esqueceu que ta fazer isso, tinha
que realmente ter voltado.
Ele me olha, mas não como alguém que sente culpa, só como alguém que não pode evitar e
que já aceitou que não tem o que fazer mais, então eu olho pra minha mãe, e ela ta com
aquela cara presunçosa, de quem já sabe o que vem e não se abala com isso, então eu fecho
meu semblante e falo firme:
- E tu que tava aqui fisicamente, mas emocionalmente também me abandonou, a única
diferença entre vocês é que ele me abandonou pequena, e fisicamente, e tu me abandonou na
adolescência e emocionalmente – eu vejo aquele brilho de raiva que ela tem no olhar, mas a
essa altura do campeonato já não tenho mais nada a perder – eu só precisava de apoio, de
carinho e colo, e não ser manipulada, eu precisava de um tudo bem, eu precisava que tu
entendesse que eu não podia mais mudar quem eu era, mas não, tu me deixou sozinha pra
lidar com isso, pior, me manipulou e jogou com a minha cabeça, eu tinha a inocência de uma
criança que não sabe o que ta fazendo, eu queria que tu me ajudasse a descobrir – eu não
choro enquanto falo, não mais, essa fase já foi e isso ela notou, ela viu que eu cresci, pelo
menos nesse momento.
Silencio reina no ambiente enquanto cada um de nós digeri lentamente as palavras, e por um
segundo eu achei que ia ser isso, que eu podia seguir, mas ouço o riso contido de deboche.
- Eu nunca vou mudar, se isso não te agrada não tem o que eu fazer, aliás, não é tu a adulta? –
ela levanta e me olha do jeito que me olhava quando eu entrava pro meu quarto na
adolescência – então eu não preciso fazer mais nada, tu não vive mais embaixo do meu teto, e
eu fiz o que eu tinha que fazer.
E é isso, eu volto pra realidade e sinto duas lagrimas escorrendo, uma de cada olho.
Quando olho pra Lily ela cochila de cabeça baixa, e o telefone na mão, como sempre eu vou lá
e tiro o telefone dela, mas diferente das outras vezes eu só deixo ela ali e volto pro meu
mundo, vendo a paisagem passar lentamente, a chuva cair e o meu peito pesar cada vez mais.
Me dou conta de que vai ser sempre isso, eu sempre vou tirar o telefone da mão da Lily,
sempre vou repassar cada pedaço da minha infância e me sentir mal, a Lily vai ta sempre
doente, e eu sempre vou repetir esse dialogo com meus pais na minha cabeça, sempre vou
ajeitar a Lily no meu ombro, e mesmo que eu não queira, minha mãe sempre vai me ferir no
final.
E mesmo que nenhuma das coisas que eu falei acima tenha nenhuma relação aparente, elas
são todas as verdades que eu tento compreender e não remoer. Mas em dias como esse, dias
nublados e carregados, elas voltam como granizo no meu teto de zinco, fazendo barulho e
deixando marcas, mas assim como esse teto eu sou forte, pelo menos finjo muito bem ser, até
que venha um vendaval e me leve.