METODOLOGIA DO ENSINO DE
FILOSOFIA
AULA 1
Prof. Rui Valese
CONVERSA INICIAL
ELEMENTOS DO ENSINO DA FILOSOFIA
Pensar o ensino de filosofia é posicionar-se, bem como explicitar uma
determinada perspectiva epistemológica, pedagógica, ética e política. Nesta
aula, abordaremos os seguintes temas: afinal, filosofia ou filosofias? Ensinar
filosofia como um problema epistemológico. O argumento como componente do
ensino de filosofia. Ensinar filosofia ou ensinar a filosofar e a função da filosofia.
Trata-se de apresentarmos alguns pressupostos filosóficos e
epistemológicos para, a partir destes, refletirmos sobre o ensino de filosofia na
perspectiva de construção da autonomia dos sujeitos e da razão.
TEMA 1 – FILOSOFIA OU FILOSOFIAS
Ao iniciarmos os estudos de uma determinada área do conhecimento
humano, surge-nos alguns questionamentos iniciais tais como: Que área é essa?
Qual o seu objeto? Qual a sua relevância? Entre outras.
No caso da Filosofia1, não é diferente. Porém, diferente das demais áreas,
além de se explicar, a Filosofia, também precisa se justificar, se legitimar e
legitimar-se, por exemplo, como necessária e relevante dentro dos currículos
escolares, tanto na Educação Básica como na Educação Superior.
Ao procurar se definir e se legitimar, a Filosofia faz de forma filosófica e
não poderia ser diferente: em vez de dar uma resposta objetiva – a Filosofia é...
– o mais das vezes, o mais comum é problematizar à maneira socrática, o que
é, como também, o que não é filosofia.
Buscando referência em diversos autores e de períodos distintos, uma
primeira constatação a que chegamos é de que não existe uma definição de
Filosofia, mas diversas. Assim, ao estudarmos filosofia, o mais apropriado é
falarmos de filosofias, no plural. Conforme nos diz Cossutta: “toda obra filosófica
– esta é uma característica do gênero – elabora ou pretende elaborar as
condições de sua própria validade, e, portanto, enuncia as próprias regras da
1
A título de esclarecimentos, sempre que utilizarmos a palavra filosofia em seu sentido
substantivo, ela será escrita com inicial maiúscula. Uma vez que, uma das características da
Filosofia e que a diferencia das demais áreas de conhecimento humano, é que ela é sujeito e
objeto de si mesma.
2
leitura que se pode fazer dela” (2001, p. 3). E, se cada obra filosófica possui suas
próprias regras de leitura, é porque são distintas, únicas.
Desta forma, ao iniciarmos as nossas primeiras reflexões sobre o ensino
de filosofia, essa é uma de nossas primeiras conclusões: a multidiversidade da
filosofia. E, se a Filosofia é questionar, problematizar, provocar (do latim
provocare: pro + vocare – que significa provocar, estimular alguém para que
tenha algum tipo de reação, criar, recriar e ressignificar conceitos, precisamos
problematizar a origem e o próprio conceito de filosofia cristalizado na e pela
tradição filosófica indo-europeia.
Nos últimos anos, têm sido publicados vários trabalhos sobre essa
temática, e um ensino de filosofia que se pretende filosófico necessariamente
precisa participar desse debate2.
Estudar/aprender filosofia deve ser algo que incomode as pessoas, que
as faça deixar sua zona de conforto e pensar o mundo e as coisas/seres de
formas que nunca antes haviam pensado. Como nos diz Merleau-Ponty “a
verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo” (1999, p. 11).
Se “Todos os homens3, por natureza, tendem ao saber” (2002, p. 3), como
afirma Aristóteles no início da Metafísica, nem todos o fazem da mesma maneira.
Dessa forma, cada sociedade, em cada momento histórico, buscou compreender
os problemas e as coisas de maneiras diferentes. Porém, o que tinham em
comum era o fato de buscarem explicações que fugiam à mera opinião (doxa,
como diziam os gregos), para produzirem/construírem um saber verdadeiro,
verificado, testado (episteme).
2 Para um maior aprofundamento sobre as origens não gregas da filosofia, é interessante
consultar as produções de Marcien Towa, Luis Thiago Freire Dantas (tese de doutorado), Renato
Noguera, Henry Odera Oruka, Mogobe Ramose, Enrique Dussel, George James, Sheikh Diop,
Theóphile Obenga, Molefi Asante e José Nunes Carreira, apenas para ficarmos com alguns
autores que tratam dessa problemática. Da mesma forma, precisamos pensar a partir de
filosofias não androcêntricas. Nesse caso, conhecer as pesquisas, trabalhos e o pensamento de
mulheres como Ruth Hagengruber, Aspásia, Diotima, Juana Ines de La Cruz, Émilie du Châtelet,
Hipátia de Alexandria, Simone De Beauvoir, Márcia Tiburi, Hannah Arendt, Agnes Heller, Marie
Pauline Eboh, Sobonfu Some e muitas outras.
3
No original, a expressão é “πάντες ἄνθρωποι τοῦ εἰδέναι ὀρέγονται φύσει”. Que, na tradução de
Giovanni Reale foi “Todos os homens, por natureza, tendem ao saber”. Porém, cabe observar
que, a palavra “ἄνθρωποι” tanto pode ser usada no neutro, no masculino, como no feminino.
Porém, como Aristóteles compreende as mulheres como seres inferiores aos homens ou como
homens incompletos. Para ele, as mulheres não seriam seres que tenderiam ao conhecimento,
ao saber, a tradução não está equivocada. Na realidade, expressa o pensamento do estagirita e
de grande parte das pessoas de sua época. Isso porque vários pensadores gregos pré e
contemporâneos de Sócrates, inclusive este, tiveram várias aulas com mulheres, como é o caso
de Pitágoras, Sócrates e Platão, por exemplo.
3
Assim, a título de uma síntese do que afirmamos até aqui sobre o que é a
filosofia, podemos deduzir que, seja do ponto de vista das sociedades e seus
momentos históricos, seja do ponto de vista dos(as) pensadores(as), o mais
adequado é falarmos de filosofias. Assim, passemos a ver e refletir sobre alguns
conceitos de filosofia e suas implicações.
1.1 Filosofias nos tempos antigos
Primeiramente, veremos o seu significado em determinadas
sociedades/culturas e tempos históricos e, posteriormente, tomaremos alguns
autores como referência. Ao fazermos isso, estamos nos situando para além dos
cânones tradicionais da historiografia, que situam o nascimento da reflexão
filosófica entre os gregos, por volta do século VII a.C.
Ainda que afirmem essa data deixando subentendido que teria surgido em
Atenas, conhecida como o berço da democracia, em realidade, a filosofia grega
não surgiu em seus centros urbanos mais conhecidos, mas em suas colónias,
mais especificamente nas colônias da Ásia Menor. Como reflexiona Obenga,
ainda que esteja referenciado sobre outra questão, mas que se aplica aqui
também:
Pode-se lembrar aqui o que Immanuel Kant (1724-1804) chamou de “o
preconceito do prestígio da multidão”, isto é, a suposição de que o que
todo mundo diz deve ser verdade. Nas ciências humanas, os círculos
“científicos” frequentemente fazem afirmações que não se baseiam em
nenhum motivo objetivamente verificável, mas apenas nesse tipo de
preconceito. (2004, p. 3)
Uma dessas afirmações é a de que a reflexão filosófica surgiu na Grécia
Antiga e de lá espalhou-se pela Europa. No máximo, chegou até os Estados
Unidos da América.
Mas vamos até onde os registros disponíveis podem afirmar, teria surgido
a reflexão filosófica por primeiro: Egito Antigo, por volta de 3.400 a. C. Conforme
Obenga: “A noção básica de filosofia no antigo Egito referia-se precisamente à
síntese de todo aprendizado e também à busca da sabedoria e da perfeição
moral e espiritual” (2004, p. 4).
Assim, para os egípcios antigos, a busca pela sabedoria implicaria na
busca do aperfeiçoamento moral e espiritual. E, para tanto, a palavra de ordem
era a prudência, pois “O homem sábio (rekh ou sai) agarra em sua mente com
4
clareza e certeza o que é conhecido distintamente para ele” (Obenga, 2004, p.
5).
Já a Filosofia Chinesa tem seus primeiros registros entre os séculos XXI
e XVI a. C. Os principais temas estavam relacionados à ética e à política. A obra
de referência da Filosofia Chinesa é o I Ching (ou Livro das Mutações), que
surgiu por volta do ano 1000 a.C. A filosofia desse período tem como missão
buscar uma explicação e encontrar alternativas de saída para o caos vivido
naquele momento.
Já na América pré-hispânica, tem suas raízes ainda com os povos
olmecas por volta do ano 1200 a.C. Porém, uma sistematização veio a ocorrer
apenas com o rei e sacerdote Quetzalcoatl por volta do século IX d. C. Em seus
textos, é possível compreender uma cosmogonia e metafísica para explicar o
que são e a origem dos seres.
Fruto da mistura dos diversos povos que viviam na Região da
Mesoamérica, os astecas desenvolveram um pensamento filosófico mais
sistematizado que os anteriores. Além de questões metafísicas, chama a
atenção os problemas éticos, bastante distintos dos que foram desenvolvidos
pelos indo-europeus.
Propagada pelos tlamatinimes (aqueles que sabem alguma coisa), a ética
asteca defendia que a vida boa não estava ligada à felicidade. Entretanto, o
propósito de todos era viver uma vida que valesse a pena ser vivida. E, para
tanto, era necessário vivê-la em quatro níveis: corporal (cuidar do corpo), psique
(cuidar da mente e dos sentimentos), a comunidade e, por fim, a vinculação a
teotl, que nada mais era do que a própria natureza.
1.2 Filosofia segundo alguns filósofos
Para sermos coerentes com o que afirmamos até aqui, tomaremos o
conceito de filosofia de pensadores das respectivas sociedades/culturas
apresentadas anteriormente e o faremos por ordem cronológica. A primeira
definição de filosofia que temos no Egito Antigo é conhecida como a “inscrição
de Antef” (cerca de 1991 – 1782 a.C.).
Podemos deduzir o que é a filosofia a partir da definição de filósofo:
informar-se sobre o que é ignorado, ter agudeza de espírito, agir com
moderação, desvendar complicações (Obenga, 2004, p. 7). Assim, filosofar é ir
5
em busca da sabedoria daquilo que é substancial, agindo com prudência e
moderação, na busca da verdade.
Tomemos agora o termo Li, de Confúcio, filósofo chinês que viveu por
volta do século V a.C. Não podemos falar de um sentido literal desse termo, mas
pode ser entendido como equilíbrio, harmonia racionalizada entre e nas várias
dimensões da vida humana, tais como a familiar, a social e a organização
política.
Tomemos o conceito de filosofia para Sócrates, pensador grego que viveu
no século V a.C. Para ele, a filosofia tinha por objetivo a busca de verdades, que
são universais e são possíveis de serem alcançadas por meio do diálogo
maiêutico. Da mesma forma, essa busca começa por aquilo que a expressão
inscrita na entrada do Templo de Apolo e adotada por Sócrates propugna:
“Conhece-te a ti mesmo”. Afinal, como afirma o mesmo pensador: “uma vida sem
[...] exame não é digna de ser vivida” (Platão, 2003, p. 26).
Na Mesoamérica, podemos destacar alguns nomes que,
reconhecidamente, podem ser considerados tlamatinin. Entre eles, podemos
citar Quetzalcóatl (século IX d.C.), Tlacaélel (1397? – 1487?), Nezahualcóyotl
(1402 – 1472). Em comum, os três pensadores praticavam a filosofia como uma
forma de pensar sobre os problemas humanos como a existência, a morte e as
regras de ordenamento do viver.
Ficaremos com filósofos antigos, de cada uma das respectivas
sociedades, para ilustrar semelhanças e diferenças entre o filosofar nas
diferentes sociedades e por diferentes pensadores. Assim, podemos reafirmar o
que dissemos no início desse tópico: pensemos e filosofias e não em filosofia. A
pluridiversidade é uma característica da Filosofia e, com isso, ela deve ser
pensada.
TEMA 2 – ENSINAR FILOSOFIA: PROBLEMA E EPISTEMOLOGIA
Diferentemente das demais áreas de conhecimento humano que se
tornaram disciplinas curriculares, cujos objetos já estão, de certa maneira,
dados, com a Filosofia isso não se aplica tão facilmente.
Se o problema sobre o que ensinar em Filosofia não o localizamos, pelo
menos até o presente momento, nas demais sociedades, na indo-europeia, ele
tem início com as polêmicas entre Sócrates/Platão e os Sofistas (IV a. C.),
6
problematizado (o ensino de filosofia) por Kant (XVIII), por Hegel (XVIII/XIX) e
Deleuze (XX).
Para pensar de maneira filosófica esse problema (o ensino/aprendizado
de filosofia/filosofar), precisamos retomar algo que afirmamos no início: a
Filosofia é sujeito e objeto de si mesma. E o que significa isso, exatamente?
Um sujeito é um ser com capacidade autônoma, isto é, de agir sobre o
mundo, diferentemente do objeto, que sofre a ação de algo ou alguém (sujeito).
Assim, a Filosofia, primeiramente, é sujeito de si mesma, na medida em que é
capaz de pensar sobre e a si mesma. Da mesma forma, de pensar os problemas
que estão relacionados tanto ao mundo, como ao existir dos seres em geral.
Por ser o sujeito sobre si mesma, a Filosofia também pode ser entendida
como o objeto dessa ação. Porque, entre todos seres que a Filosofia pode se
ocupar, também está a própria Filosofia.
Vejamos, agora, a polêmica entre Sócrates/Platão e os sofistas que está
relacionada ao ensino e à própria Filosofia. Para a dupla Sócrates e Platão, antes
de nascermos, nossa alma contemplava todas as ideias no Mundo da Ideias.
Porém, ao nascermos, esquecemos destas e, ao longo da nossa vida,
precisamos relembrar aquilo que já sabíamos e esquecemos.
Porém, como vivemos em um mundo de representações, para não nos
enganarmos e tomarmos a aparência ou sombra das coisas como sendo a
verdade, precisamos nos dedicar à busca da sabedoria, ou seja, à Filosofia,
único antídoto para os males que são provocados pela mimesis. Assim, o ensino
é um relembrar aquilo que já se sabia e esquecemos.
De maneira diversa pensavam os sofistas. Para eles, era possível ensinar
qualquer coisa a quem quisesse. Os sofistas, antes de terem sido criticados por
Sócrates e Platão, eram pensadores prestigiados, pois ensinavam aquilo de que
se necessitava para viver na pólis. Outra diferença entre os sofistas e
Sócrates/Platão, segundo alguns historiadores, é o fato de que os primeiros
cobravam pelo que ensinavam. Dessa forma, somente quem tinha recursos
financeiros poderia aprender os conhecimentos necessários para se viver na
pólis, por exemplo, a retórica e a oratória, fundamentais para participar das
assembleias na ágora.
Outra crítica normalmente endereçada aos sofistas é o fato de que se
ocupavam em ensinar apenas a forma correta e bela de se fazer discursos para
7
que, na ágora, seus aprendizes fossem os melhores a argumentar,
independentemente do que quer que seja.
No entanto, essa crítica endereçada aos sofistas não é de toda justa, uma
vez que o principal objetivo deles era preparar os cidadãos para o exercício da
política, isto é, participar dos destinos da pólis. Conforme Vernant, “A arte política
é essencialmente exercício de linguagem” (1989, p. 54).
Desta forma, os sofistas ensinavam os jovens cidadãos que não eram
dotados da arte da oratória a atingirem a excelência no falar em público. E, para
sair-se bem no debate público, fazia-se necessário saber argumentar. Como
também hoje, quem quiser se destacar social e profissionalmente, é necessário
saber argumentar. Porém, no ensino de Filosofia, ao trabalhar com os
estudantes a argumentação, não se trata de instrumentalizá-los para as falácias
ou o ludibriar, mas para posicionar-se de maneira crítica, cidadã e responsável.
Para que o jovem estudante latino-americano possa estudar Filosofia de
maneira coerente, autêntica, faz-se necessário, inclusive, que ele seja capaz de
estudar filosofia não pela perspectiva indo-europeia, mas desde a América
Latina, caso contrário, parafraseando Dussel (Valese, 2018), estaremos sendo
professores inautênticos, pois estaríamos ensinando problemas filosóficos de
outras realidades, que não a nossa. Como nos diz Alberdi, “Nossa filosofia tem
de sair de nossas necessidades” (Alberdi citado por Dussel, 1994, p. 38,
tradução nossa).
Isso não significa que não devamos estudar/aprender filosofias de outros
territórios. Porém, não devemos privilegiá-los em detrimento dos nossos
pensadores e problemas específicos.
TEMA 3 – ARGUMENTO COMO COMPONENTE DO ENSINO DE FILOSOFIA
No desenvolvimento e no estudo da filosofia, um dos elementos
importantíssimos é a argumentação. Quando apresentamos uma ideia, seja
escrita, falada ou imagética, o fazemos por meio do uso de proposições,
encadeando ideias, argumentos, juízos, objeções, com o objetivo de que esta
seja compreendida. Tal apresentação pode ser tanto a de uma ideia nova,
quanto ressignificar algo já apresentado, fazer uma análise crítica ou mesmo
contrapor uma determinada ideia ou tese.
O estudo sistemático da Filosofia nos coloca em contato com a obra e o
pensamento de diferentes pensadores. Da mesma forma, cada um deles
8
desenvolve ou desenvolveu estilos de escrita muito particularíssimos. De modo
que, ao ler um determinado texto filosófico, a depender do grau de conhecimento
que o leitor tenha de autores, é possível identificar somente pela escrita e
argumentação.
Ao longo da história e das sociedades, os filósofos fizeram uso de
diferentes gêneros e recursos linguísticos para apresentarem suas ideias:
poesias, diálogos, aforismos, ensaios, metáforas, analogias etc. Porém, em
comum, buscaram sempre apresentar suas ideias, ou críticas, de forma coerente
e lógica.
Uma das características da Filosofia foi muito bem resumida pelo
pensador brasileiro Dermeval Saviani: a reflexão filosófica deve ser rigorosa,
radical e de conjunto, para que seja “realmente uma reflexão sobre os problemas
que a realidade apresenta” (1996, p. 16). Assim, da mesma forma, uma
argumentação, para ser filosófica, também precisa ser radical – porque vai à raiz
ou raízes de um problema –, rigorosa – isto é, é sistemática, segue um método
que é rigoroso – e de conjunto – ou seja, não é nem superficial, muito menos
parcial, mas busca compreender/apresentar um determinado problema na sua
totalidade e integralidade.
Para a construção da argumentação, faz-se necessária uma série de
cuidados. Desde a utilização de termos adequados, bem como específicos para
um determinado tema/problema. Da mesma forma, a linguagem e a norma culta
devem ser observadas, sob risco de ser incompreendido ou mal-entendido.
Ao apresentarmos as proposições, faz-se necessário, também, cuidar
com as expressões que ficam no nível das aparências (doxa) como as opiniões
e esquecermos que um texto filosófico deve trabalhar com um saber que pode
ser verificado (episteme).
Da mesma forma, é importante distinguir e diferenciar os juízos de fato
dos juízos de valor. Cada um tem sua relevância, mas deve ser utilizado de forma
adequada. Os juízos de fato trabalham com aquilo que é concreto e pode ser
verificado. Já os juízos de valor são julgamentos que fazemos sobre determinado
tema ou análise feita por terceiros. Desta forma, são de caráter subjetivo, o que
não significa que devam ser superficiais e/ou inconsistentes.
Aristóteles foi um dos primeiros pensadores a realizar estudos sobre como
conduzir o pensamento de forma lógica e coerente. Num conjunto de textos que
os estudiosos de seu pensamento chamaram de Organon, ele apresenta os
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meios e os modos de como devemos organizar o nosso pensamento. Ao
aprendermos essas orientações, da mesma forma, ficamos aptos a identificar
quando um pensamento é falso ou verdadeiro; coerente ou incoerente.
A lógica formal, como ficou conhecido esses estudos de Aristóteles, não
é a única forma de apresentarmos nossas argumentações. Temos, ainda, por
exemplo, a lógica dialética, cujos fundamentos epistemológicos são muito
diferentes. Na lógica formal, por exemplo, o ser é e o não ser, não é e não pode
ser. Já para a lógica dialética, assim como a analética, tanto o ser é como o não
ser também é. O não ser, na Totalidade indo-europeia, não existe, não é. Porém,
desde uma perspectiva das Filosofias da Libertação, o horizonte do ser não é a
Totalidade indo-europeia, mas a sua exterioridade.
Com isso, o estudo da Filosofia implica na compreensão dos argumentos
apresentados por um determinado pensador, analisarmos a coerência e validade
ou destes. Ao fazermos isso, não somente aprenderemos Filosofia, como
também como argumentar, construir nossos próprios argumentos, seja para
expor nossas ideias como para contrapor ideias estudadas e apreendidas.
TEMA 4 – ENSINAR FILOSOFIA OU ENSINAR A FILOSOFAR
O problema colocado por Kant ainda no século XVIII sobre se é possível
ensinar Filosofia ou a filosofar ainda é polemizado nos dias atuais. Nesse debate,
podemos identificar pelo menos quatro grupos distintos. Os que concordam com
Kant, os que concordam com Hegel (ensina-se filosofia), os que buscam uma
conciliação entre ambos e, por fim, aqueles que afirmam que essa é uma falsa
questão.
O filósofo de Königsberg coloca o problema do ensino de Filosofia ao
afirmar que, “Entre todas as ciências racionais (a priori) só é possível, por
conseguinte, aprender a matemática, mas nunca a filosofia (a não ser
historicamente): quanto ao que respeita à razão, apenas se pode, no máximo,
aprender a filosofar” (Kant, 2001, p. 672). Assim, para ele, não é possível ensinar
Filosofia, mas, tão somente, a filosofar.
O privilégio que Kant dá ao aprender a filosofar em vez de aprender
Filosofia está em coerência com o que o mesmo afirma em outro texto: Resposta
à Pergunta – O que é esclarecimento?, publicado do pela primeira vez em 1783,
dois anos após a primeira publicação de Crítica da Razão Pura, em que trata
dessa questão.
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Nesse texto, uma das principais questões abordadas por Kant é o conceito
de esclarecimento, que ele define como “a saída do homem de sua menoridade,
da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de
seu entendimento sem a direção de outro indivíduo” (Kant, 1985, p. 100). Assim,
não faria sentido dizer que o indivíduo tenha que viver sem a direção de outrem,
para ser autônomo e não ensinar o mesmo a pensar por si mesmo, a fazer uso
da própria razão.
Em outra passagem, na obra Theoretical Philosophy, Kant afirma: “Em
suma, o entendimento não deve aprender pensamentos, mas a pensar. Deve ser
conduzido, se assim nos quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de
maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar” (Kant,
1992, p. 2).
Kant se refere aqui à relação professor/estudante: o professor até pode
conduzir o estudante, porém nunca o carregar nos ombros. Ou seja, não deve
fazer por ele, mas fazê-lo caminhar com as próprias pernas e por si mesmo.
Orientando-o para que não tropece, nem desista.
Já para Hegel, aprender a história da filosofia é já aprender a filosofar.
Para ele, não se trata acumular uma série de informações sobre a história da
filosofia, mas de, a partir desta, exercitar o filosofar: “a filosofia não é um
sonambulismo, é antes a consciência mais desperta” (Hegel, 1991, p. 52).
E é consciência desperta de sua própria história, não como um acumular
de informações, mas um refletir, um filosofar a partir da apreensão desta. Tal
apreensão se faz por meio da mediação do professor, que “não é um reprodutor,
pois sua mediação não determinará como a história da filosofia deverá ser
compreendida” (Hegel, 2005, p. 147), mas quem possibilitará que o estudante
continue indagando.
Aparentemente, poderíamos pensar numa oposição entre o pensamento
dos dois filósofos. Porém, tanto Kant, em Crítica da Razão Pura, quanto Hegel,
em Sobre o saber filosófico, trabalham “com a ideia de que o trabalho da Filosofia
se dá por meio de conceitos” (Valese, 2013, p. 87). Tais conceitos são
construídos historicamente e podemos aprendê-los não para acumular, mas
para utilizarmos como ferramentas para compreensão do real. Nessa polêmica,
concordamos com o pensador argentino Guillermo Obiols:
se colocamos Kant um passo à direita e aceitamos que no aprender a
filosofar está incluída implicitamente a aprendizagem da filosofia e, se
colocamos Hegel um passo à esquerda e admitimos que a filosofia que
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se deve aprender significa necessariamente aprender a filosofar,
superamos uma falsa contradição e podemos afirmar que
aprendizagem filosófica é como uma moeda que tem em uma face a
filosofia e na outra o filosofar. (2002, p. 81)
E somente procedendo dessa forma deixaremos de formar, seja na
Educação Básica como no Ensino Superior, bons historiadores da filosofia e
passaremos a ensinar pessoas que são capazes de pensar por si próprias, a
partir das várias filosofias produzidas pelos seres humanos ao longo da história.
TEMA 5 – FUNÇÃO DA FILOSOFIA
Qual é a função da Filosofia? As indicações de qual é a função da Filosofia
são as mais diversas e, até mesmo, opostas. Para algumas pessoas, a Filosofia
tem o papel de moralizar os jovens, impor-lhes limites a partir dos estudos de
ética (entenda-se, as antigas aulas de OSPB e de Educação Moral e Cívica
impostas pelos militares à época do Regime Militar e resgatada pelos defensores
das escolas cívico-militares).
Já, para outros, a Filosofia tem o papel de salvacionista. Ao aprender
Filosofia, os jovens ficariam imunizados contra as tentativas de quaisquer tipos
de manipulações e tornar-se-iam cidadãos conscientes e atuantes na sociedade.
Para ambos os grupos, estas seriam as missões também da educação e escola.
Para um outro grupo, a Filosofia é algo perigoso, pois desvirtua os valores
tradicionais da sociedade, da família e da cultura. E, como tal, precisa ser
proibida, ou ao menos diminuída e controlada, para evitar tais malefícios. Esse
grupo, quase sempre, é composto também por pessoas que são conservadoras,
intolerantes a qualquer forma de diversidade.
Ao longo da história da educação brasileira, a Filosofia, enquanto
disciplina, viveu períodos e presenças e ausências dos currículos da Educação
Básica. Se em determinados períodos, essa ausência não tinha,
necessariamente, alguma oposição ideológica, a partir da Ditadura Militar
implantada em 1964, a exclusão passou a ser por razões ideológicas, ainda que
de maneira não explícita.
É o caso, por exemplo, da retirada e/ou diminuição da presença da
Filosofia, assim como da Sociologia, em detrimento do aumento de carga horária
de disciplinas como Português e Matemática, ou a inclusão de Educação
Financeira e Empreendedorismo propostos na Reforma do Ensino Médio
aprovada em 2017, por meio da Lei n. 13.415/2017.
12
Coincidentemente ou não, em 2015, durante as discussões sobre os
planos municipais de educação, aumentou-se a pressão de grupos religiosos
das mais variadas denominações pela retirada de qualquer expressão relativo
às questões de gênero nos respectivos planos.
Os argumentos iam desde questões de âmbitos individual – é direito da
família ou, discutir gênero é um pretexto para destruir a família tradicional – a,
até mesmo, questões de ordem política, como dizer que se tratava da imposição
de uma “ditadura comunista” e outros termos congêneres.
Porém, qual é, afinal, a função da Filosofia? Responderemos recorrendo
ao que afirma Agnes Heller, na obra Filosofia Radical: “Reflete sobre como deves
pensar, reflete sobre como deves viver, reflete sobre como deves agir” (Heller,
1983, p. 151). Nessa obra, Heller trata, entre outras coisas, dos diferentes modos
de recepção da filosofia.
Segundo ela, a filosofia pode ser recepcionada de três modos: recepção
estética, cuja única preocupação é com a forma dela mesma; a recepção do
entendedor, cuja preocupação é com o domínio de uma cultura filosófica e da
Filosofia apenas como um produto cultural, e a recepção filosófica, cujo objetivo
é, a partir de uma determinada filosofia, organizar uma forma de pensar, viver e
agir que é coerente com essa mesma filosofia. Desta forma, nessa última forma
de recepção podemos identificar, respectivamente, uma dimensão
epistemológica, uma dimensão ética e uma dimensão política.
NA PRÁTICA
Um dos materiais mais comumente utilizados em salas de aula da
Educação Básica para o ensino são os livros didáticos. Tais materiais podem ser
importantes instrumentos de trabalho do professor quando este não se torna um
manual a ser repetido mecanicamente pelo docente.
Com isso, selecione pelo menos cinco manuais de filosofia destinados ao
Ensino Médio e realize uma pesquisa sobre como se dá a proposta de ensino da
Filosofia: ensinar a filosofar, ensinar história da Filosofia ou uma mediação entre
essas duas possibilidades.
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FINALIZANDO
É famosa a passagem do romance de Lewis Carol, Alice no País das
Maravilhas, quando a personagem principal pergunta ao gato que caminho
deveria tomar. Em resposta, o gato lhe diz que depende de onde ela queria
chegar. Ao que Alice afirma que o lugar não importava muito. E o gato sentencia:
se não importava o lugar, qualquer direção conviria; desde que caminhasse
bastante, em algum lugar chegaria.
Essas palavras cabem muito bem para o ensino de Filosofia: quando não
sabemos o que queremos com o ensino, qualquer coisa que fizermos está
valendo. Porém, quando sabemos aonde queremos chegar, não vale qualquer
direção, muito menos qualquer definição do que é a Filosofia.
Por isso, começamos esta aula discutindo quê filosofia queremos
trabalhar: a tradicionalmente ensinada nas academias, indo-eurocêntrica, ou a
Filosofia que é uma produção humana, que foi pensada por diferentes culturas
e sociedades e em diferentes épocas?
Partimos do princípio de que não há Filosofia, mas filosofias. Se podemos
definir a atividade filosófica como um exercício da razão que, por meio de
conceitos, busca compreender o real, dando-lhe uma racionalidade, cada
pensador e sociedade o fazem (ou pelos menos deveriam fazer) a partir de suas
especificidades. Assim, ao pensarmos o problema do ensino de Filosofia e sua
epistemologia, não podemos perder de vista essa multidiversidade que é própria
da Filosofia.
Na discussão sobre se o que se deve fazer se é ensinar Filosofia ou
ensinar a filosofar, destacamos que esta pode ser uma falsa oposição, à medida
que o que talvez mais importe seja possibilitar que os estudantes saibam
trabalhar com argumentos lógico-racionais a partir de conceitos criados e/ou
apropriados por estes a partir do estudo da história da filosofia.
Desta forma, cremos, é possível fazer cumprir a função da Filosofia: como
nos diz Heller, nos ensinar a como pensar, viver e agir.
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REFERÊNCIAS
COSSUTTA, F. Elementos para Leitura dos Textos Filosóficos. São Paulo:
Martins Fontes, 2001.
DUSSEL, E. D. Historia de la Filosofía Latinoamericana y Filosofía de la
Liberación. Bogotá: Editora Nova América, 1994.
HEGEL, G. W. F. Introdução à história da filosofia. Tradução de Artur Morão.
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