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A Criança Que Ouvia Sombras

Bh b h jm k

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chagbinhafan
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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A Criança Que Ouvia Sombras

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Capítulo 1 — A Criança Que Ouvia as Sombras

Quioto nascera fria naquela madrugada. A lua estava tão pálida quanto a pele do
bebê que veio ao mundo em silêncio — sem chorar, sem estremecer, apenas
abrindo os olhos escuros como se já conhecesse a escuridão.

Seo Jiyeon não parecia recém-nascida.


Parecia alguém que recordava.

Enquanto as parteiras murmuravam superstições de velhas montanhas, a mãe


segurou a criança com mãos trêmulas. Desde o começo, havia algo diferente
naquele olhar — um foco que não pertencia a um bebê, mas a um animal selvagem
tentando entender se o mundo era ameaça ou promessa.

O pai apenas observou, rígido, carregando nos ombros o peso de gerações


conservadoras.
Ele não gostou do silêncio.
Dizia-se na família que crianças que não choram trazem presságios.

Jiyeon cresceu escutando as paredes.


Havia algo na casa que respirava junto com ela — madeira antiga rangendo, vento
passando entre portas, o estalar quase imperceptível das vigas durante a noite.
Ela escutava tudo.
Ela aprendia com tudo.

E antes mesmo de aprender a falar, já sabia ficar em pé nas noites de chuva, com a
testa encostada no vidro da janela, assistindo relâmpagos como quem decifra um
idioma.

Com dois anos, desviava das mãos do pai como se o corpo já conhecesse o
caminho antes da ação.
Com três, ficava imóvel por meia hora, observando poeira cair.
Com quatro, passou a temer nada — nem escuro, nem trovões, nem gritos.

A primeira coisa que ela gostou foram raposas.


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A segunda, silêncio.

A terceira, ela aprenderia depois:


liberdade.
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Capítulo 2 — O Peso de Um Nome

Seo.
Um sobrenome que carregava tradição, regras rígidas, expectativas sufocantes.

Jiyeon cresceu como quem carrega correntes nos tornozelos invisíveis.


A mãe tentava ser afeto, mas era frágil demais para enfrentar o marido.
O pai via a filha como promessa — e ameaça.

Quando não obedecia, ficava de joelhos no corredor, imóvel até que o sol se
pusesse.
Mas Jiyeon nunca chorava.
Nunca se quebrava.

Aos sete anos começou a notar que as pessoas evitavam seu olhar — diziam que os
olhos dela eram “fundos demais”, “sérios demais”, “estranhos demais para uma
criança”.

Mas ela só queria entender o mundo.


E o mundo parecia querer engolir tudo o que ela era.

Foi nessa idade que ela começou a fugir para o jardim nos fins de tarde.
Ali, no bambuzal, o vento sussurrava histórias.
Ali, ela sentia que existia algo além da casa, algo que chamava seu nome com
paciência.

Algo que esperava que ela crescesse.

Algo que pertencia a ela — ou que ela pertencia.


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Capítulo 3 — A Casa dos Sussurros

A casa dos Seo era antiga, construída com madeira que guardava lembranças
secas.
Jiyeon cresceu dentro de corredores longos e tradicionais, onde cada passo ecoava.

Ela aprendia a caminhar sem som.

Aos nove anos, já atravessava a casa inteira sem fazer o piso ranger.
Aos dez, já ouvia conversas do outro lado da porta só pelo deslocamento de ar.

E um dia — naquele inverno duro — ouviu algo mais.

Um sussurro que não vinha de gente.


Um chamado que não vinha de lugar nenhum.

Era quase como uma nota musical longa, fina, distante.


Algo que parecia dizer:

"Venha."

Ela seguiu.

Desceu as escadas, atravessou o corredor proibido, abriu uma porta que nunca
deveria ser aberta.

Foi ali que encontrou o pai ajoelhado no tatame, segurando uma foto antiga da
família.
Ele chorava sem fazer barulho — e quando percebeu a filha ali, com aqueles olhos
que viam demais, a expressão dele mudou.

Não era vergonha.


Era medo.

Daquela noite em diante, algo se quebrou entre eles.


E algo em Jiyeon entendeu:
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ela não pertencia àquela casa.


Aquela casa tinha medo dela — e ela tinha fome de mundo.
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Capítulo 4 — As Primeiras Fendas

Aos 11 anos, o mundo de Jiyeon começou a rachar.

Seu pai queria moldá-la.


Corrigir sua postura.
Controlar seus silêncios.
Domar seu corpo grande demais para uma menina.

Sua mãe tentava protegê-la, mas o medo sempre vencia.


O lar se tornara uma sala de observação — e ela, um experimento.

Foi quando aconteceu a primeira explosão.

Não de raiva — ela nunca perdia o controle.


Mas de coragem.

O pai levantou a mão para bater nela por não responder a uma ordem.

E o corpo dela, como se fosse água desviando de uma pedra, se moveu sozinho.

Ela se inclinou para trás, rápido.


A mão dele passou no vazio.

O pai ficou parado, perplexo.


Ela também.

Algo no corpo dela sabia se defender — antes mesmo de ela tentar.

O pai chamou um médico.


A mãe disse que era coisa de criança.
Os vizinhos diziam que era talento.

Mas um monge, amigo distante da família, disse outra coisa:

— Há algo nela que não pertence ao comum.


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E foi nesse momento que Jiyeon descobriu:

O mundo a estava observando.


E ela não queria ser observada.
Queria ser livre.
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Capítulo 5 — A Fuga

Aos 12 anos, Jiyeon deixou a casa como sombra.

Levou apenas:
uma muda de roupa,
um casaco velho,
um livro gasto,
e a coragem silenciosa de quem não tem mais nada a perder.

Saiu pelas ruas de Quioto sem olhar para trás.


A cidade era fria, florescendo luzes artificiais nos becos.
Carros passavam.
O vento cortava seu rosto.
Ela caminhava como quem já conhecia aquele caminho, mesmo nunca tendo o
percorrido.

Dormiu sob pontes.


Comeu restos.
Observou gatos vadios como quem aprende uma língua secreta.

E sobreviveu.

Mas foi na terceira noite que tudo mudou.

Ainda estava acordada quando uma figura surgiu do escuro — um velho monge,
com roupas simples, passos silenciosos demais para um homem da idade dele.

Ele se aproximou devagar, sem ameaçar.

— Você cresceu.

Ela não o conhecia.


Mas ele a conhecia.
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— Seu corpo busca algo — ele disse. — Seu espírito sabe o que é. Mas você ainda
não.

E então ele fez a pergunta que mudaria tudo:

— Quer aprender a dominar o que já está despertando?

Jiyeon olhou o céu.


A lua era fina, pálida, forte.

Sim, ela pensou.


Mas não disse nada.

O monge sorriu.

— O silêncio também é resposta.


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Capítulo 6 — O Mosteiro das Montanhas Frias

Ele a levou para um mosteiro escondido nas montanhas, onde a neve nunca derretia
completamente.

Ali, o mundo parecia mais quieto — como se todas as distrações humanas tivessem
ficado no vale.
Ali, ela podia ouvir seu próprio coração.

O treinamento começou simples:


respiração, postura, equilíbrio.

Aos poucos, o corpo dela começou a despertar aquilo que sempre sentiu mas nunca
entendeu.

Reflexos impossíveis.
Força contida.
Foco absoluto.

— O corpo é apenas a casca — dizia o monge. — A lâmina está dentro.

E ela acreditou.

Mas havia algo mais.


Algo que ele nunca dizia diretamente.

À noite, quando todos dormiam, ele a observava treinar em silêncio.


E sempre murmurava:

— Essa criança vai além do permitido.

Jiyeon não entendia.


Ainda não.
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Capítulo 7 — As Técnicas Proibidas

Quando completou 15 anos, o monge finalmente revelou o que guardava.

Um pergaminho antigo, selado, nunca tocado por mãos comuns.

— Há técnicas que ninguém mais ensina — ele disse. — Porque podem destruir a
mente de quem não tem força… ou despertar poder demais em quem tem.

Jiyeon o encarou sem medo.

Ele abriu o pergaminho.

Dentro, havia apenas três palavras:

FORÇA
MENTE
SOMBRA

A partir daí, o treinamento deixou de ser físico.


Passou a ser cruel — não no corpo, mas no espírito.

Ficar horas imóvel na neve.


Segurar a respiração até o mundo ficar escuro.
Caminhar vendada entre árvores.
Ouvir sons imperceptíveis.
Controlar o próprio medo — até que ele morresse.

E em tudo isso, a mesma lição:

— A lâmina não corta o mundo.


O mundo é que se abre diante da lâmina.

Jiyeon abriu.

E o mundo se abriu com ela.


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Capítulo 8 — A Lâmina Interior

Aos 16 anos, ela já não era humana nos limites normais.

Seu corpo reagia antes da mente.


Sua mente via antes dos olhos.
Seus sentidos eram afiados demais.

Era forte, mas tinha algo mais perigoso que força:


calma.

Uma calma tão profunda que assustava até os monges que a treinavam.

Eles começaram a evitá-la.


Murmuros surgiam no corredor.
“Ela não deveria saber tanto.”
“Ela sente demais.”
“Ela não é como nós.”

O mestre sabia.
Mas não parou.
Ele via nela não ameaça — mas destino.

— Você tem algo que o resto de nós não tem — ele disse certa vez, enquanto ela
equilibrava uma tigela cheia d’água na cabeça, sem derramar uma gota. — Você
nasceu para o movimento, mas também para a quietude. Isso é raro.

Ela não se sentia rara.


Só se sentia… incompleta.

Faltava algo.
Ela sentia desde criança:
como se algo estivesse esperando por ela em algum lugar.

Ela só não sabia onde.


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Ainda.
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Capítulo 9 — A Primeira Missão

Quando completou 17 anos, recebeu a primeira missão.

Atravessar uma vila vizinha, encontrar uma criança perdida e trazê-la de volta.

Parecia simples.
Mas o monge advertiu:

— O mundo lá fora não é como aqui. Ele é barulhento. Ele é cruel. Ele tenta quebrar
o que não entende.

Ela foi.

No caminho, enfrentou homens bêbados, um grupo de ladrões, e até um urso que


rondava a trilha.

Não lutou.
Apenas desviou.
O mundo se abriu ao redor dela, exatamente como o mestre dissera.

Encontrou a criança escondida em uma cabana antiga.


Trazê-la de volta foi fácil.

Difícil foi lidar com a forma como os olhos das pessoas a seguiam — com medo,
com admiração, com dúvida.

Ela não gostava de ser vista.


Sentia que o mundo queria algo dela — algo que ela não queria dar.

Ao retornar ao mosteiro, o mestre descansava ao sol da tarde.

— Viu como o mundo reage a você? — ele perguntou.

Ela assentiu.
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— Então comece a se preparar — ele disse. — Porque ele ainda não viu nada.
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Capítulo 10 — A Presença nas Sombras

As noites no mosteiro começaram a mudar.

Jiyeon sentia olhares que não existiam.


Sons que ninguém mais ouvia.
Movimentos que não eram do vento.

Algo a observava.

Certa noite, ao treinar sozinha, viu uma sombra atravessar o jardim — rápida demais
para ser humana.

Ela seguiu.
Dentro da floresta, as árvores pareciam fechar o caminho atrás dela.

E então, encontrou algo que nunca esqueceu:

Uma raposa pálida, com olhos quase humanos.

Ela a encarou.
A raposa inclinou a cabeça.

E sumiu.

O coração dela bateu mais rápido — não de medo, mas de reconhecimento.

O mestre apenas disse, quando ela contou:

— Espíritos não aparecem sem propósito.

Jiyeon não perguntou qual era o dela.


Talvez porque já soubesse:

Algo estava vindo.


Algo que mudaria tudo.
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Capítulo 11 — A Ruptura

A confiança entre Jiyeon e os monges começou a desgastar.

Alguns temiam sua força.


Outros desejavam controlá-la.

Certa manhã, durante um treino, um monge mais jovem tentou atacá-la pelas costas
— um golpe rápido, quase invisível.

Ela desviou.
E sem querer, quebrou o braço dele com um movimento simples.

Silêncio.

Os monges a olharam como se ela fosse uma tempestade.


Uma arma.
Um erro.

O mestre a defendeu, mas mesmo ele estava dividido.

Naquela noite, Jiyeon ouviu conversas no corredor:

“Ela é forte demais.”


“É perigosa.”
“E se um dia perder o controle?”
“Precisamos decidir o que fazer.”

Foi a primeira vez que sentiu algo parecido com… solidão.

Mas não chorou.


Não sabia chorar.

Apenas foi para a neve e ficou ali, sentada, observando o mundo.

O frio não a tocava mais.


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Nada tocava.
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Capítulo 12 — A Escolha

Aos 18 anos, o mestre a chamou.

— Eu sabia que esse dia viria — ele disse. — Você precisa partir.

Jiyeon não respondeu.

— Você aprendeu tudo o que podia aqui. Mas o mundo… o mundo tem algo
guardado para você. Algo que este lugar não pode oferecer.

Ela olhou o céu.


Havia nuvens pesadas, prontas para desabar.

— Vá — ele disse, com olhos tristes. — E lembre-se: sua força não é maldição. Só
se torna maldição quando usada sem propósito.

Ela não sabia qual era seu propósito.


Mas sentia que precisava encontrá-lo.

Partiu ao amanhecer, levando apenas as roupas do corpo e as marcas invisíveis do


treinamento proibido.

Os monges a observaram ir embora.


Alguns aliviados.
Alguns arrependidos.

O mestre… apenas orgulhoso.


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Capítulo 13 — O Mundo Além da Neve

As cidades eram barulhentas demais.


O cheiro era forte demais.
As pessoas, rápidas demais.

Jiyeon caminhava como quem analisava cada sombra, cada olhar.

Ela começou a tocar instrumentos nas ruas para ganhar dinheiro — violão, flauta,
taiko, tudo o que encontrava pela frente.

E descobriu que tinha talento.


Um talento natural, quase assustador.

As pessoas paravam para ouvi-la.


Mas ela não tocava por elas.
Tocava para si.
Para o silêncio dentro dela.

Viajou por meses.


Passou por Osaka, Sapporo, pequenas cidades.
Dormia onde dava.
Comia pouco.

Treinava diariamente, no escuro, sem testemunhas.

Mas algo ainda faltava.


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Capítulo 14 — O Roubo Que Salvou Uma Vida

Ela sobrevivia com pouco.


Mas às vezes, roubava.

Nunca por ganância.


Por necessidade.

Certa noite, em uma cidade pequena, viu um homem empurrando uma criança para
dentro de um carro.
O choro era abafado.
O medo, claro.

Jiyeon não pensou.


Agia antes de pensar.

Atravessou a rua em silêncio, arrancou a porta do carro com força suficiente para
assustar o homem, sem quebrá-lo.
Ele tentou sacar uma arma.
Ela torceu o pulso dele até a arma cair.

Pegou a criança e desapareceu no escuro.

A polícia encontrou o sequestrador desacordado mais tarde — jurando que fora


atacado por um demônio.

Ela devolveu a criança à família sem dizer palavra e desapareceu novamente.

O mundo começava a falar dela.


Rumores.
Lendas.
Histórias sobre uma menina alta, pálida, silenciosa, que aparecia e sumia como
vento frio.

Mas nada a tocava.


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Nada — até uma noite.


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Capítulo 15 — A Sombra Dentro do Espelho

Em uma hospedaria simples, Jiyeon notou seu reflexo no espelho.

Não parecia ela.


Parecia outra coisa vestindo o corpo dela.

Olhos fundos, intensos, calmos demais.


O corpo forte, definido, marcado pelo treinamento.
O dragão no pescoço — recém-tatuado, um símbolo que ela não sabia explicar.

Ela tocou o vidro.

— Quem eu sou? — murmurou pela primeira vez em meses.

E o silêncio respondeu, tão pesado quanto neve acumulada.

Foi quando sentiu algo ao seu lado.


A mesma presença que vira na floresta anos atrás.

A raposa.

Mas agora, não era só um espírito.


Era presságio.

Ela entendeu:

Algo grande se aproximava.


Algo que mudaria sua vida inteira.

Mas não sabia que esse algo tinha nome.

E esse nome era Ayame.


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Capítulo 16 — O Ano Das Sombras Longas

O mundo começou a apertar ao redor de Jiyeon.

Em becos, sentia olhares.


Nas ruas, passos que a seguiam.
Em sonhos, sombras que tentavam sussurrar seu nome.

Algum grupo — alguém — começara a persegui-la.

Talvez monges que temiam o poder dela.


Talvez criminosos que ouviram rumores.
Talvez algo mais antigo.

Mas ela seguia.

Fria.
Calma.
Unicamente ela.

Às vezes, tocava em pequenas casas de shows, escondida.


E o mundo começava a ouvi-la.

Mas era raro alguém encarar seus olhos.


E ainda mais raro alguém não desviar deles.

Até que um dia — finalmente — alguém não desviou.


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Capítulo 17 — O Sinal

Foi em Tóquio.

Uma noite de chuva fina, brilho de neon, ruas lotadas.

Jiyeon tocava violão na porta de um pequeno bar alternativo.


Notas lentas, graves, carregadas de ar.

As pessoas passavam.
Algumas paravam.
Nenhuma ousava se aproximar demais.

Até que ela sentiu.

Um olhar.
Intenso.
Caloroso.
Completamente firme.

Ela levantou os olhos devagar.

E viu —
pela primeira vez —
aquele que mudaria tudo.

Ayame Kurotsuki.

Cabelos negros com mechas prateadas.


Olhos delineados, intensos.
Postura firme, confiante, brilhante — como palco vivo.
Uma estrela abaixo do olho.

E um sorriso pequeno, quase secreto.

Ayame não olhou para o violão.


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Não olhou para as mãos.


Não olhou para o corpo forte, para as tatuagens, para o dragão.

Ela olhou dentro de Jiyeon.

Como se já a conhecesse.
Como se estivesse esperado exatamente por ela.

Como se sua alma tivesse encontrado o alvo que buscou a vida inteira.
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Capítulo 18 — O Encontro Que Partiu o Mundo ao Meio

Ayame deu um passo à frente.


Depois outro.
A chuva iluminava seu cabelo como prata líquida.

Jiyeon não se moveu.


Mas seu coração — tão treinado para ser pedra — falhou uma batida.

Ayame parou na frente dela.


Inclinou a cabeça.
Sorriu de um jeito suave, quase reverente.

E disse, com voz baixa e elétrica:

— Eu estava procurando você.

Jiyeon nunca acreditou em destino.


Mas naquele instante, o mundo pareceu dobrar ao redor das duas.

A chuva ficou mais lenta.


O ar ficou quente.
As sombras ficaram quietas.

E mesmo sem saber nada sobre aquela garota, Jiyeon soube:

A vida dela acaba de começar de verdade.


E nada seria igual.
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CAPÍTULO 19 — O Eco Mais Antigo do Mundo

A primeira vez que Jiyeon ouviu a voz de Ayame, não viu o rosto dela — viu apenas
a vibração.

A rua em Tóquio estava molhada pela chuva recém-passada, refletindo luzes em


tons de azul e prata. Jiyeon caminhava silenciosa, mãos nos bolsos, o dragão
tatuado no pescoço movendo-se como um sussurro cada vez que ela virava o rosto.
Vivia dias vazios, sobrevivendo com pequenos trabalhos e observando o mundo
como um fantasma disciplinado.

E então ela ouviu.

Uma nota.
Depois outra.
Depois uma linha inteira de melodia, tão grave e suave que parecia uma respiração
no escuro.

Ela parou no meio da calçada.


O coração — acostumado ao ritmo de luta, silêncio e disciplina — errou o passo.

A música vinha de um beco iluminado por lâmpadas penduradas, onde um bar


improvisado abria para músicos locais. Jiyeon não entrou. Ficou apenas na porta,
imóvel, como se a melodia fosse uma armadilha cuidadosamente montada para ela.

Quando a voz começou, Jiyeon sentiu que algo atravessava o peito — como se uma
porta antiga tivesse sido destrancada por dentro.

Ayame cantava sem esforço. Como quem nasceu com uma lâmina presa à língua e
um sol adormecido no peito.

Jiyeon não sabia quem era.


Mas soube — naquele instante — que precisava descobrir.
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CAPÍTULO 20 — A Estrela que Queima Devagar

Ayame estava de costas quando Jiyeon viu ela pela primeira vez.

Cabelos longos, pretos como tinta derramada, movendo-se como fumaça.


As mechas prateadas brilhavam na luz fraca, como faíscas metálicas.

Quando ela virou o rosto, o mundo ao redor pareceu desacelerar.

A pele pálida.
O delineado pesado.
A estrela preta abaixo do olho — pequena, elegante, marcante.

Ayame cantava como se cada palavra tivesse sido retirada do fundo do peito.

A plateia era pequena, mas completamente hipnotizada.

Jiyeon, porém…
ficou sem ar.

Não era paixão.


Não era desejo.
Era reconhecimento.

Como se a vida inteira dela tivesse sido uma longa caminhada para chegar até
aquele momento — e aquela pessoa.

Ayame abriu os olhos no fim da música, procurou alguém na plateia, e encontrou…


ela.

Por dois segundos, as duas ficaram em silêncio absoluto, mesmo com pessoas
falando ao redor.

Ayame sentiu a espinha vibrar.

Jiyeon desviou o olhar.


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Mas tarde demais: Ayame já tinha percebido.


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CAPÍTULO 21 — A Primeira Conversa Nunca é Só Uma Conversa

Ayame desceu do palco decidida.

Ela caminhou até Jiyeon com passos firmes, postura perfeita, a presença magnética
de quem nasceu para performer — mas não forçava nada. Ela simplesmente era.

“Posso sentar?”
A voz dela era mais suave do que a de palco, mas igualmente hipnotizante.

Jiyeon não respondeu com palavras — apenas inclinou a cabeça.

Silêncio.

Ayame esperava.
Jiyeon respirava.
As duas estudavam uma à outra como quem lê uma peça de arte.

“Você tem olhos de alguém que já viu coisas demais”, Ayame disse.

Jiyeon ergueu uma sobrancelha.

“E você tem olhos de quem vê coisas demais.”

Ayame sorriu — um sorriso pequeno, mas inteiro.

“Meu nome é Ayame Kurotsuki.”

Jiyeon hesitou.
Sentiu algo apertar a garganta, como se dissesse seu próprio nome quebrasse um
feitiço.

“Seo Jiyeon.”

Ayame repetiu o nome em voz baixa, como quem experimenta uma chave nova.
34

A partir daquele momento, estavam ligadas.


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CAPÍTULO 22 — O Peso do Silêncio, a Leveza da Voz

Jiyeon sempre teve facilidade para ler pessoas.


Destrinchava intenções em segundos.

Mas Ayame era diferente.

A menina sorria com a boca — mas também com os olhos.


Carregava uma energia elétrica, vibrante, como se estivesse sempre à beira de algo
grande.
E ao mesmo tempo… havia tristeza ali.

Jiyeon viu isso imediatamente.

Ayame percebeu o olhar, mas fingiu não perceber.

“A sua tatuagem…” Ayame começou, olhando para o dragão no pescoço.


“Muito bonita. Parece viva.”

“Ela é.”

Ayame sorriu, abrindo mais do que antes.

“Você é cheia de mistérios.”

“Não sou tão interessante assim.”

Ayame riu.
Jiyeon não entendeu por quê.

“Você é a pessoa mais interessante que eu vi em muito tempo.”

As palavras entraram em Jiyeon como faíscas, mas ela permaneceu firme, estoica.

Ayame adorou isso.


36

CAPÍTULO 23 — As Noites em Que Algo Muda

Nos dias seguintes, Jiyeon voltou ao bar sem planejar.


Ayame sempre estava lá.

E sempre que terminava de cantar, ia direto até ela.

Jiyeon não tinha o hábito de se aproximar de ninguém.


Mas o mundo parecia um pouco menos denso ao lado de Ayame.

As conversas eram curtas, mas intensas.


Uma pergunta simples virava reflexão.
Um silêncio virava conexão.

“Você sempre observa tanto?” Ayame perguntava.

“Eu sempre observo tudo.”

“Isso deve ser cansativo.”

“Às vezes.”

Ayame encostou o ombro no dela — um gesto pequeno, mas cheio de intenção.

“Eu posso ser o lugar onde você descansa, se quiser.”

Jiyeon prendeu a respiração.


Ayame notou.

E sorriu devagar.
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CAPÍTULO 24 — O Passado Também Observa

Enquanto Jiyeon começava a se permitir sentir algo, o passado dela se movia nas
sombras.

Um homem seguia seus passos pelas ruas de Tóquio.


Ele tinha uma cicatriz longa no rosto e um andar silencioso demais para ser alguém
comum.

Ele carregava um símbolo tatuado na nuca — o mesmo símbolo da ordem proibida


dos monges que treinaram Jiyeon.

Quando viu Ayame com ela, a expressão dele mudou.

Ele sorriu.
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CAPÍTULO 25 — A Arte de Fugir Sem Sair do Lugar

Ayame levou Jiyeon para conhecer o estúdio improvisado onde ensaiava com a
banda.

Jiyeon tocou um violão velho por cinco minutos.

Foi o suficiente para Ayame perder o fôlego.

“Você toca tudo?”


“Quase.”

“E por que nunca toca pra ninguém?”

“Porque ninguém precisa ouvir.”

Ayame se aproximou devagar, como quem chega perto de um animal selvagem que
não quer assustar.

“Eu quero.”

Jiyeon desviou o olhar, mas Ayame tocou no pulso dela.


Pela primeira vez, Jiyeon não recolheu a mão.

Ayame sorriu.
Jiyeon sentiu o estômago tremer — não de medo, mas de surpresa.
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CAPÍTULO 26 — Duas Forças Que Se Reconhecem Pela Primeira Vez

Aos poucos, o clima entre elas ficou mais intenso.

Não era romance explícito.


Era energia.
Era eletrecidade.

Ayame chegava perto demais.


Jiyeon não recuava.

Jiyeon observava demais.


Ayame não desviava.

Uma noite, Ayame segurou o rosto dela pelas duas laterais — com cuidado, como se
estivesse segurando algo precioso.

“Você não percebe, né?”


“Percebo o quê?”

“Que você me olha como se estivesse tentando me entender.


E eu olho pra você como se já soubesse.”

Jiyeon congelou.
Ayame riu baixinho e soltou.

“Um dia você vai entender.”


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CAPÍTULO 27 — O Primeiro Perigo Real

O homem da cicatriz decidiu se aproximar.

Seguiu Jiyeon até uma rua vazia.


Chamou-a pelo nome que ela não ouvia desde os 15 anos.

“Garota Dragão.”

Jiyeon parou.

“Você devia ter ficado onde sua morte era útil.”

Ele avançou.
Jiyeon reagiu antes mesmo de pensar.

A luta foi silenciosa, precisa, rápida — o estilo que os monges odiavam admitir que
tinham criado.

Mas o homem escapou.


Antes de ir, deixou um aviso:

“Ela vai pagar pelo que você abandonou.”

Ele falava de Ayame.


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CAPÍTULO 28 — O Peso de Proteger Sem Dizer Por Quê

Jiyeon sumiu por dois dias.

Ayame ficou desesperada.

Quando finalmente a encontrou — em um templo abandonado no meio da cidade —


Jiyeon estava meditando, o corpo tenso, as mãos manchadas de sangue seco.

“Aconteceu alguma coisa.”

“Eu resolvo.”

“Jiyeon… olha pra mim.”

Ela olhou.

Ayame tocou o rosto dela com cuidado.

“Não precisa me proteger do mundo sozinha.”

Jiyeon fechou os olhos como se as palavras doessem.

“Sim.
Preciso.”
42

CAPÍTULO 29 — A Voz que Rasga o Escuro

Mesmo com o perigo se aproximando, Ayame insistiu que Jiyeon fosse ao próximo
show.

“Preciso que você esteja lá”, ela disse.

Jiyeon foi.

E quando Ayame cantou, algo enorme aconteceu:


ela mudou a letra no meio da apresentação.

Transformou a música em uma confissão indireta.

Uma promessa velada.

Uma declaração silenciosa.

A plateia não entendeu.


Mas Jiyeon entendeu tudo.

Ayame cantava diretamente para ela.

Quando os olhos se encontraram, Jiyeon sentiu o coração bater como se fosse


quebrar as costelas.
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CAPÍTULO 30 — O Peso Que Segue Silencioso

Depois do show, Ayame puxou Jiyeon pela mão para fora, como se temesse que, se
a soltasse, ela desapareceria na multidão.
Lá fora, a chuva caía fina, delicada, quase tímida — mas Jiyeon sentiu cada gota
como um impacto.

As luzes brancas refletiam nas poças, distorcidas, como se o mundo tivesse sido
pintado errado.

Ayame respirava rápido.


Não de cansaço.
De algo mais profundo.
Algo que Jiyeon não sabia lidar.

— Jiyeon… — a voz dela tremia de emoção, não de medo. — Eu não sei o que está
acontecendo com você. Mas eu sei o que está acontecendo comigo.

Jiyeon ficou imóvel. A chuva escorria pelo seu rosto, disfarçando o que ela nunca
admitiria sentir.

Ayame deu um passo à frente e encostou a testa na dela — um gesto simples, mas
que pareceu desmontar todo o treinamento que Jiyeon teve para não sentir.

— Eu sinto que te conheço desde antes de existir.


— A voz dela era um sussurro, quente, sincero. — Eu sinto… destino.

“Destino.”
A palavra atravessou Jiyeon como uma lâmina.
Porque destino era exatamente o que ela tentava negar há semanas — desde que
os fragmentos da profecia começaram a se repetir na sua mente como um eco
impossível de calar.

Ela recuou um passo.


Não por rejeição.
44

Mas por medo.

Medo de que Ayame estivesse certa.


Medo de que algo antigo demais estivesse se movendo ao redor delas.

Ayame não insistiu.


Não lutou.
Ela apenas sorriu — um sorriso pequeno, triste e bonito.

— Você vai entender um dia.

E antes que Jiyeon pudesse responder, Ayame se aproximou, levantou a mão e


tocou o lado direito do pescoço da guerreira — exatamente onde a tatuagem do
dragão começava.
Um toque suave.
Quase reverente.
Como se ela tivesse sentido algo ali. Algo que Jiyeon nunca contou a ninguém.

O gesto fez o ar ao redor parecer pesado demais.

Ayame então virou o rosto, cruzou os braços, respirou fundo, e antes de voltar para
dentro do prédio, disse sem olhar para trás:

— Só não demora a entender.

A porta fechou atrás dela com um estalo abafado.

E o silêncio caiu.

Jiyeon ficou ali, parada sob a chuva, sentindo o mundo se mover ao redor — como
se algo tivesse sido puxado dentro dela.
Um fio velho e tenso.
Um laço prestes a esticar até romper.

Quando finalmente abaixou a cabeça, percebeu que suas mãos tremiam.


45

Não de frio.
Mas porque Ayame tinha encostado exatamente onde a tatuagem do dragão
escondia o início da marca da profecia.

Aquela noite, pela primeira vez em anos, Jiyeon sentiu que não poderia continuar
fugindo.

Não de Ayame.
Mas do seu passado.

Então ela puxou o capuz, ajustou a lâmina presa sob a roupa e caminhou pelas ruas
escuras — sozinha, silenciosa, carregando o peso de um destino que ela finalmente
aceitava que precisava encarar.

Sem olhar para trás.


Sem permitir que o coração falasse mais alto do que deveria.
Ainda não.

A noite parecia esperar por ela.


E Jiyeon entrou nela como quem aceita um pacto.
46

CAPÍTULO 31: A Lâmina e a Fortuna

A noite estava particularmente silenciosa em Maruyama. Um silêncio denso, pesado,


como se a própria cidade segurasse a respiração enquanto Jiyeon caminhava pela
rua estreita, iluminada apenas por letreiros distorcidos em neon azul. Suas botas
batiam no chão molhado com um ritmo calculado, e ela sentia a vibração do metal
frio que repousava sob sua roupa — a lâmina de seu antigo mestre.

Não era mais apenas um instrumento.


Era um aviso.
Era um destino.

Depois de semanas decifrando fragmentos da profecia deixada pelo monge, Jiyeon


finalmente compreendia parte da maldição que carregava desde os 15 anos. Cada
batalha, cada sobrevivência improvável, cada sensação de “força além do corpo
humano” não era coincidência. Era uma dívida.
E dívidas sempre exigem pagamento.

Quando virou a esquina, encontrou o lugar que procurava: um prédio abandonado,


cinco andares, janelas quebradas, pintado por grafites que se contorciam como
serpentes na parede. Uma velha placa enferrujada pendia por um parafuso —
FORTUNE CLUB, um cassino clandestino desativado há anos.

Mas não estava vazio.

Uma luz fraca escapava pelas frestas.


Vozes abafadas vinham do subsolo.
E Jiyeon sentiu sua nuca arrepiar.

Ali começava a segunda etapa da profecia: buscar quem sabe do que ela carrega.

Respirou fundo, subiu o capuz e entrou.

O interior do prédio cheirava a cigarro velho, poeira e sangue seco — um perfume


familiar para quem vivia nas sombras. Jiyeon caminhou sem hesitar pelo corredor
47

principal, passando por máquinas de apostas quebradas e mesas tombadas. Cada


passo ecoava, denunciando sua presença, mas ela não recuou. Era melhor assim.
Ela preferia quando sabiam que ela estava chegando.

A escada que levava ao porão estava iluminada por um tom vermelho vibrante.
Jiyeon ouviu risadas, conversas rápidas e o tilintar de garrafas. Era quase irônico: o
lugar parecia um clube normal — mas ela percebia o subtexto.
Os homens ali não bebiam para relaxar.
Bebiam para esquecer o que faziam.

Quando desceu o último degrau, vinte rostos se viraram ao mesmo tempo. Homens
armados, olhares vazios, cicatrizes visíveis. Um deles — um gigante de quase dois
metros com um anel de ouro pesado no dedo — deixou a garrafa cair no chão.

— Seo Jiyeon…? — a voz dele rachou como madeira seca.

Ela não sorriu.


Não piscou.
Não demonstrou um único sinal de surpresa.

— Estou procurando Ele. — disse.

Um silêncio ofensivo se espalhou pela sala.

Todos sabiam quem era Ele.


O homem por trás das apostas ilegais, dos rituais, do tráfico de relíquias místicas.
O único que poderia saber como quebrar — ou liberar — a força proibida que Jiyeon
carregava.

O gigante engoliu seco e ergueu a pistola com as mãos trêmulas.

— Você não deveria ter voltado pra esse mundo.

Jiyeon respirou devagar, sem pressa.


E então, com a tranquilidade de quem estava cansada demais para ameaças, disse:
48

— Eu nunca saí.

E num piscar de olhos — um único movimento — a lâmina de seu mestre brilhou no


ar.

E o inferno começou.
49

CAPÍTULO 32: O Salão do Sangue

A lâmina riscou o ar com um brilho prateado, e a sala afundou no caos. Jiyeon


avançou como um raio, cada movimento calculado com precisão absurda — fruto
dos anos de treinamento proibido que ela passou tentando esquecer. O primeiro
homem caiu antes mesmo de entender de onde tinha vindo o golpe. O segundo
gritou algo que se perdeu no estrondo das mesas sendo viradas e garrafas
quebrando no chão.

A lâmina de Jiyeon não fazia barulho; ela cortava o ar como se ele fosse água.
Seu corpo se movia numa dança impossível — silenciosa, veloz, letal.

O gigante tentou recuar, arrastando os pés pelo chão de concreto, mas Jiyeon já
estava na frente dele. Ele ergueu a arma com as mãos tremendo, mas não teve
tempo. Ela o desarmou com um golpe seco, o metal voando e batendo na parede.

— Por que você quer encontrá-lo? — o homem balbuciou.

Jiyeon aproximou o rosto do dele, seus olhos escuros ardendo com uma fúria antiga.

— Porque ele sabe o que eu sou.

Ela o empurrou para o lado e atravessou o salão, deixando atrás de si um rastro de


silêncio. Os poucos homens ainda de pé encaravam sua figura como se ela fosse
uma criatura mística — não humana, não normal, não explicável.

Jiyeon empurrou a porta do fundo, que rangeu como se tivesse medo.


Um corredor estreito e mal iluminado se estendia diante dela. No fundo, uma porta
reforçada com símbolos talhados na madeira.

Símbolos que ela reconhecia.


Símbolos que seu mestre a proibira de tocar.

Seu peito apertou.


A outra metade da profecia.
50

A parte que ela fingiu por anos não existir.

Quando sua mão encostou na porta, a madeira pareceu pulsar — como se estivesse
viva.

E então, alguém tocou seu ombro.

Jiyeon virou rápido, pronta para matar, mas congelou.

Era uma menina.


Não mais que 14 anos.
Roupas sujas, olhar assustador… e um colar com os mesmos símbolos da porta.

— Ele… Ele te espera — sussurrou ela, os lábios tremendo.

Jiyeon segurou o queixo da garota com delicadeza rara.

— Qual seu nome?

— Hana.

— Quem colocou esse colar em você?

A menina engoliu seco.


E apontou para a porta.

— Ele.

O coração de Jiyeon martelou como um tambor de guerra.

E então ela abriu a porta.


51

CAPÍTULO 33: O Oráculo das Sombras

A sala atrás da porta era enorme — maior do que deveria ser para um porão.
Parecia ter sido construída violando as leis do espaço. O teto era tão alto que as
lâmpadas balançavam como estrelas mortas presas por fios enferrujados.

No centro, sentado numa cadeira de madeira torta, estava um homem magro, pele
pálida, cabelos longos e brancos. Seus olhos eram tão escuros que pareciam
buracos. Ele sorriu assim que viu Jiyeon, como um velho amigo recebendo uma
visita.

— Seo Jiyeon… demorou mais do que eu esperava.

Ela fechou a porta atrás de si.

— Quero respostas.

— Sempre quis. Mas nunca teve coragem de ouvi-las.

Jiyeon caminhou até o centro da sala, sua postura dura, a lâmina ainda marcada
com o sangue dos homens lá fora.

— Fale.

O homem inclinou a cabeça, como um professor paciente diante de uma aluna


impaciente.

— Você carrega o Legado do Dragão Silencioso. Uma força que não pertence ao
mundo físico. Uma energia que… devora. E se você não controlá-la até o “quinto
ciclo”… ela consumirá tudo ao seu redor.

Jiyeon manteve o rosto neutro, mas por dentro sentiu o peso.


Ela sempre soube que havia algo errado. Algo que a fazia sobreviver demais.
Resistir demais. Sentir demais.

O homem continuou:
52

— Seu mestre tentou impedir. Tentou selar parte dessa força em você. Mas selos se
desfazem. E o seu está ruindo.

Ele aponta para o peito dela.

— No seu coração.

Jiyeon respira fundo.

— Como eu paro isso?

O homem sorri — um sorriso triste.

— Você não para. Você escolhe.


Ou você se torna a arma final…
Ou se sacrifica antes de perder o controle.

Ela não piscou.

— Não existem outras opções?

— As opções sempre foram essas.

Um silêncio pesado dominou a sala. Jiyeon deu um passo atrás. Sua respiração
acelerou. Seu coração parecia bater perto demais da garganta.

— E… o que acontece com quem fica perto de mim?

O homem olhou para ela como quem carrega luto.

— Você já sabe, criança. É por isso que viveu fugindo.

A figura dela — alta, fria, tatuada, forte — pareceu diminuir por um instante.
Um instante mínimo.
Mas suficiente para fazê-la sentir algo que não sentia há anos:
53

Medo.

— Quem mais sabe disso?

O homem sorriu.

— Ele.

Jiyeon estreitou os olhos.

— Quem é Ele afinal?

E antes que o homem respondesse, a porta atrás de Jiyeon EXPLODIU em uma


rajada de luz vermelha.

E alguém entrou.
54

CAPÍTULO 34: O Caçador de Círculos

Jiyeon virou instintivamente, levantando a lâmina. O ar da sala tremeu como se


tivesse ficado mais denso. A figura parado na porta era imponente — alto, vestido
com um casaco preto até os tornozelos, máscara metálica cobrindo metade do rosto.

Os olhos dele eram de um amarelo anormal.


Olhos famintos.
Olhos treinados para caçar.

— Seo Jiyeon — disse ele, sua voz abafada pelo metal. — Finalmente.

O Oráculo murmurou algo atrás dela.

— O Caçador de Círculos… Ele chegou antes do previsto.

Jiyeon não perdeu tempo.


Avançou.

Mas o Caçador desviou com uma facilidade insultante. Ele se moveu como se
soubesse com antecedência o ângulo de cada golpe. Como se estudasse Jiyeon
desde a infância.

Ele agarrou o braço dela, torceu, e a jogou contra a parede com força suficiente para
quebrar concreto. Jiyeon rolou pelo chão, recuperando-se rápido demais para
alguém normal. O Caçador sorriu por trás da máscara.

— Seu selo está mesmo se desfazendo… dá pra sentir daqui.

Jiyeon cuspiu sangue e levantou em silêncio.

— Quem é você? — perguntou ela, sem desviar o olhar.

Ele ergueu a cabeça, orgulhoso.

— Eu sou quem você deveria ter se tornado.


55

As palavras acertaram Jiyeon como uma lâmina invisível.

Ele continuou:

— Eu completei o Ritual do Quinto Ciclo. Eu abracei o que você tenta negar. Eu me


tornei o que você tem medo de ser.

Jiyeon apertou o punho em volta da lâmina.

— Eu não tenho medo de você.

— Claro que tem — ele respondeu — porque eu sou o futuro que você teme.

E então ele avançou tão rápido que o ar pareceu desaparecer.

A luta explodiu numa tempestade de golpes, metal, sangue e força bruta.


Jiyeon bloqueou três ataques, mas o quarto pegou de raspão, abrindo um corte
profundo no braço dela. Ela se forçou a ignorar a dor, usando o impulso do golpe
para girar o corpo e chutar a costela dele.

Ele tropeçou um passo.


Apenas um.
Mas suficiente.

O Oráculo gritou:

— Jiyeon! O círculo atrás de você! Use-o!

Ela se virou — no chão havia um grande círculo pintado em tinta antiga e escura,
pulsando como se estivesse vivo. O Caçador rugiu e correu para impedi-la, mas
Jiyeon começou a traçar com o pé o símbolo central do ritual que seu mestre lhe
ensinara quando ela era apenas uma adolescente fugindo da própria família.

O círculo brilhou.
A sala inteira tremeu.
56

E o Caçador foi empurrado para trás por uma barreira invisível.

Jiyeon ergueu a lâmina.

— Você não é meu futuro.

E o jogou contra a parede com a força de um vendaval.

A sala inteira apagou.


57

CAPÍTULO 35: O Olho que Vê o Futuro

Quando Jiyeon abriu os olhos, a sala estava diferente. O cheiro de poeira havia
sumido. O Oráculo estava de pé ao seu lado, segurando algo envolto em pano preto.

— Você despertou parte do que estava adormecido — disse ele, com a voz baixa. —
Mas isso tem um preço.

Jiyeon se levantou devagar. Estava fraca, o corpo tremendo, o corte no braço


ardendo até o osso.

— Onde ele está? O Caçador.

— Fugiu — respondeu o Oráculo. — Ele não esperava que você já soubesse ativar
um círculo sem completar o ritual. Isso o deixou… impaciente.

— Ele voltará.

— Sempre volta.

O Oráculo então retirou o pano, revelando um pequeno objeto — um olho esculpido


em jade e ouro, antigo, carregado de energia.

— Isto é para você — disse ele, entregando. — Seu mestre queria que você
recebesse apenas quando estivesse pronta.

Jiyeon segurou o objeto com cuidado. Assim que tocou a pedra, um arrepio
percorreu seu braço. A visão ao redor dela mudou por um segundo: viu sombras,
ecos, flashes de batalhas, movimentos que ainda não aconteceram.

O Oráculo sorriu.

— O Olho do Futuro. Ele não mostra tudo. Mas mostra perigo.


Mostra o que pode te ferir.
Mostra… quem pode te matar.
58

Jiyeon respirou fundo.

— O que eu faço agora?

O homem colocou a mão no ombro dela.

— Agora… você escolhe seu lado.

Ela o encarou por longos segundos.


Então guardou o Olho no bolso interno do casaco, apertou a lâmina e caminhou em
direção à porta destruída.

— Seja qual for meu lado — ela disse — ninguém vai me usar de novo.

E saiu.

Mas o Oráculo a observou ir embora com expressão sombria.


E murmurou para si:

— Que os deuses tenham piedade… porque você não terá.


59

CAPÍTULO 36: A Marca que Não Dorme

A noite havia caído completamente quando Jiyeon deixou o prédio abandonado. A


brisa fria da madrugada arranhava sua pele pálida enquanto ela caminhava pela rua
deserta, mas era outro frio que a inquietava: o frio interno, o arrepiante, aquele que
se instalava bem no centro do peito, onde o Oráculo afirmara estar o selo se
rompendo.

Ela apertou o casaco, tentando ignorar a dor que pulsava sob a pele, bem próximo
ao coração.
Era como um tambor.
Como algo batendo de dentro para fora.

O Olho do Futuro pesava no bolso, quente — quente demais.

Jiyeon sentiu-o vibrar, e quando ergueu o rosto, viu:


um vulto no topo de um prédio.
Rápido demais para ser humano comum.
Pesado demais para ser só sombra.

O Caçador?
Ou outro?

Ela levou a mão à lâmina — e travou.

O chão sob seus pés tremeu.


Não como um terremoto.
Como pulsação.
A mesma pulsação que sentia no peito.

A rua inteira escureceu por um instante, como se o mundo piscasse.

E então ela percebeu o que estava acontecendo.

Seu corpo estava reagindo ao despertar.


60

Não só a força.
A marca.

A marca proibida.

Jiyeon levantou o rosto para o céu.


A lua estava tingida por um tom vermelho pálido — um presságio que ela conhecia
desde criança, quando escutava conversas secretas pelas frestas da porta da casa
da família tradicional que a criou.

— O sangue está chamando…

Ela sussurrou isso para si mesma, e começou a correr. Não para fugir.
Para chegar antes que fosse tarde.

Porque uma coisa era certa:


se a marca estava despertando sozinha, outras pessoas também sentiriam.
Pessoas treinadas.
Pessoas perigosas.

Pessoas que queriam voluntariamente o que ela temia sem admitir.


61

CAPÍTULO 37: O Primeiro Suspiro da Fúria

A corrida de Jiyeon a levou até um dos poucos lugares de Maruyama que ainda
respiravam vida àquela hora: um mercado noturno, iluminado por lanternas
vermelhas e amarelas. O cheiro de comida quente, peixe fresco e óleo queimado
impregnava o ar.

Pessoas comuns.
Inocentes.
Alvos fáceis.

Ela sentiu o peito apertar.

Quando entrou na rua principal, o Olho começou a vibrar com tanta força que ela
quase o deixou cair. Uma luz dourada escapou pelas frestas dos dedos dela
enquanto segurava o amuleto.

E foi aí que ela viu.

Uma silhueta atravessando a multidão.


Rápida, sinuosa, como uma serpente entre corpos.

Alguém estava caçando.


E não era ela.

Jiyeon forçou o corpo, abrindo caminho com os ombros, sentindo o calor da marca
subir pelo pescoço até aproape queimar as tatuagens orientais que envolviam sua
pele.
Era como se o dragão desenhado nela estivesse acordando.

— Saiam da rua! — ela gritou, mas sua voz foi engolida pelos sons do mercado.

A figura finalmente parou.


No centro da rua, sob a luz trêmula de uma lanterna de papel.
62

Era uma mulher.


Cabelo escuro, curto, olhar vazio, como se algo antigo habitasse o corpo dela.

E o mais assustador:

Ela também tinha a marca.


Uma versão… incompleta, mas presente.
Tatuada como se fosse feita de fogo azulado.

A mulher ergueu o rosto, encontrando o olhar de Jiyeon — e sorriu.

— Finalmente achei você.

Jiyeon aperta a lâmina.

— Quem te enviou?

— Você mesma — respondeu ela.

O ar congelou.

— O que disse?

A mulher estalou o pescoço.


E a voz mudou.

Não era mais só a dela.


Era um coro.
Um eco.
Um sussurro vindo da marca.

— Nós somos o que você não permitiu nascer.

Jiyeon sentiu a espinha gelar.

A mulher avançou com um salto impossível — e Jiyeon ergueu a lâmina no instante


63

em que o choque aconteceu, criando uma onda de energia que apagou metade das
lanternas do mercado.

As pessoas correram.
Gritaram.
Derrubaram barracas e caixas.

E Jiyeon percebeu:
ela não estava enfrentando uma pessoa.
Ela estava enfrentando um fragmento.

Um pedaço da força que crescia dentro dela.

Um reflexo da versão que ela poderia ter sido — ou se tornaria, se não parasse o
selo de se romper.
64

CAPÍTULO 38: A Mulher da Marca Azul

A batalha explodiu entre corredores estreitos, mesas de madeira e fumaça quente de


fritura. Jiyeon girava, desviava, batia — mas a mulher parecia prever cada
movimento.

Cada golpe que Jiyeon dava, a outra replicava, copiava, espelhava.

Era como lutar contra sua própria sombra — mas mais rápida.
Mais selvagem.
Mais livre.

Jiyeon deslizou por baixo de um golpe e ergueu a lâmina em diagonal. A mulher


bloqueou com a mão nua — e a lâmina repeliu como se tivesse atingido pedra.

A marca azul da mulher BRILHOU, pulsando com a mesma frequência do selo de


Jiyeon.

— Você está perdendo — disse ela. — Porque está com medo.

— Eu não tenho medo.

— Tem sim. Tem medo de si mesma.

Jiyeon avançou com um rugido baixo e golpeou com uma precisão que partia mesas
ao meio. Mas a mulher desviou com facilidade, como se o mundo se movesse em
câmera lenta para ela.

O Olho vibrou.
Vibrou tão forte que o bolso da jaqueta de Jiyeon ficou quente.

E então ela entendeu.

O Olho não mostrava só perigo…


Ele amplificava reflexos.
Ele permitia ver intenção.
65

Ela o segurou firme, sentiu o mundo desacelerar, e então viu:

a mulher se movendo antes de realmente se mover.


Um segundo antes.
Um suspiro antes.

Jiyeon virou o corpo no ângulo perfeito, golpeando precisamente onde a mulher


surgiria — e acertou.

O impacto jogou a mulher contra uma pilastra de madeira, rachando-a ao meio.

A mulher cuspiu sangue.


Mas sorriu.

— Agora sim… você está começando a acordar.

Jiyeon caminhou até ela, lâmina em punho, expressão fria como gelo.

— Me diga quem te criou.

A mulher respirou fundo, e pela primeira vez, falou com a própria voz — fraca,
humana, aterrorizada.

— Ele me encontrou antes da marca te escolher completamente. Ele disse que eu


era… o ensaio.

O coração de Jiyeon despencou.

— Quem?

E antes que a mulher pudesse responder, uma sombra atravessou o teto, caindo no
meio das duas.

Pesada.
Letal.
66

Familiar.

O Caçador.

Ele olhou para Jiyeon como um predador faminto.

— Obrigado, Seo Jiyeon — disse ele, levantando a mulher com uma mão. — Eu
precisava ver até onde seu lado “selado” já tinha despertado.

A mulher tentou gritar, mas o Caçador torceu o pescoço dela com facilidade brutal.

Jiyeon arregalou os olhos.

— Não!

Ele largou o corpo no chão e sorriu por trás da máscara.

— Ela era só o primeiro teste.

E desapareceu pelas sombras do mercado antes que Jiyeon pudesse persegui-lo.


67

CAPÍTULO 39: A Noite em Retalhos

O mercado estava destruído.


Barracas queimadas, cacos de vidro espalhados, fumaça subindo em espirais lentas.
Jiyeon estava no centro do caos, ainda segurando a lâmina com força, o corpo
tremendo entre a adrenalina e o medo.

Medo não dela.


Medo por ela.

Em algum lugar, muito sutil, ela sentia a marca vibrar como se tivesse sido
alimentada pela luta.

Como se tivesse gostado.

Ela se ajoelhou diante do corpo da mulher da marca azul e fechou seus olhos com
respeito.

— Quem fez isso com você… vai pagar.

Quando se levantou, sentiu passos atrás dela.

Rápidos.
Leves.
Familiars.

— Jiyeon?

Ela se virou bruscamente.

Era Hana, a menina do cassino clandestino.


Suja de fuligem. Cansada. O colar brilhando fracamente.

— O Oráculo mandou você me seguir? — Jiyeon perguntou.

Hana balançou a cabeça.


68

— Não. Eu vim porque… Ele quer você. Ele quer te quebrar.


E você não pode ficar sozinha.

Jiyeon franziu o cenho.

— Eu sempre fiquei sozinha.

Hana se aproximou devagar, segurando o colar como se tentasse se proteger.

— Mas agora… você não pode.

A marca no peito de Jiyeon queimou como fogo.

Como se concordasse.

E isso era o que mais a assustava.


69

CAPÍTULO 40: O Peso de Dois Silêncios

O caminho de volta até o templo oculto parecia mais longo que qualquer estrada que
Jiyeon já percorreu. Talvez porque agora ela não estava sozinha — e estar
acompanhada sempre tornava tudo mais… frágil.

Hana caminhava um passo atrás, tentando acompanhar o ritmo de Jiyeon, que


nunca diminuía. O vento da madrugada levantava poeira e girava restos de papel do
mercado destruído, como pequenos fantasmas presenciando o rastro do que havia
acontecido.

A lâmina de Jiyeon ainda pingava sangue.


Ela não limpou.
Ela não falou.
Ela não olhou para trás.

Mas Hana olhava.

Para tudo.

As mãos da garota tremiam enquanto ela observava a postura rígida de Jiyeon —


ombros tensos, maxilar travado, a respiração silenciosa demais, como se ela
estivesse sustentando o próprio corpo apenas por controle mental.

— Jiyeon… — Hana chamou, suave, como quem tem medo de quebrar algo.

— Fale — Jiyeon respondeu, sem virar o rosto.

— Aquela mulher… a da marca azul… ela era uma de vocês?

Jiyeon parou.

Parou tão de repente que a garota quase esbarrou nela.

A rua estava vazia e silenciosa.


A lua vermelha fraquejava atrás de nuvens escuras.
70

Jiyeon girou devagar o rosto, e seus olhos — sempre escuros, sempre profundos —
estavam mais sombrios do que Hana já tinha visto.

— Não existe “uma de nós”. A marca não cria irmandade. Cria armas. E alguém a
usou nela antes que ela pudesse escolher.
— Jiyeon fechou a mão. — Ela nunca teve chance.

Hana engoliu em seco.

— E você… ainda tem?

O silêncio foi tão espesso que parecia matéria.

Jiyeon respirou fundo.

Ela não respondeu.

E isso já era uma resposta.


71

CAPÍTULO 41: O Templo Que Sabe Demais

Quando finalmente chegaram ao templo escondido entre montanhas, a noite já se


transformava em um roxo profundo. O terreno estava banhado em sombras que
escorriam como água. As pedras antigas pareciam respirar ao toque dos pés de
Jiyeon — como se reconhecessem a própria criação.

O Oráculo esperava na entrada.


Imóvel.
Com a expressão mais séria desde o começo da história.

— A marca despertou mais cedo do que deveria — disse ele, a voz grave ecoando
entre os pilares. — E não sozinha.

Jiyeon jogou o amuleto no chão, e ele rolou até parar bem diante dos pés do
Oráculo.

— O Caçador criou uma réplica — disse ela, fria. — Incompleta. Instável. Mas forte o
suficiente para destruir um mercado inteiro.

O Oráculo se abaixou, pegou o amuleto com cuidado, como quem segura algo vivo.

— Não foi uma réplica — ele murmurou. — Foi um fragmento.

Hana franziu o cenho.

— Fragmento?

O Oráculo levantou o rosto cuidadosamente enrugado, olhando para Jiyeon como se


ela fosse ao mesmo tempo uma benção e uma tragédia anunciada.

— Quando selamos sua marca, Jiyeon, tivemos de dividir seu potencial em partes…
para diminuir o risco.
— Ele suspirou pesado. — Alguém achou uma forma de roubar uma delas.

O chão pareceu tremer sob os pés de Jiyeon.


72

— Uma parte… de mim?

— Não de você.
— O Oráculo corrigiu.
— Da coisa que está dentro de você.

Hana recuou dois passos.

— Então o Caçador… está roubando partes da força da Jiyeon?

O Oráculo assentiu.

— Para recriá-la. Para liberar o que nós selamos. Para refazer a arma perfeita.

O peito de Jiyeon ardia.

— Ele quer… que eu me torne o que vocês impediram.

— Sim.

A lua vermelha passava lentamente atrás das nuvens.

— E se conseguir — o Oráculo concluiu — nada neste continente sobrevive.


73

CAPÍTULO 42: A Sala das Memórias Proibidas

O Oráculo caminhou para dentro do templo, e Jiyeon o seguiu sem dizer uma
palavra. Hana permaneceu próxima, embora tudo nela gritasse para recuar. Ela era
corajosa. Mas até a coragem tem limites.

O templo estava mais escuro que o usual. Velas antigas queimavam em fileiras,
espalhando sombras tremulantes pelas paredes. O chão de madeira velha rangia
sob cada passo determinado da ex-aluna do monge.

O Oráculo empurrou uma porta enorme, esculpida com símbolos taoístas que
brilhavam em um tom prateado.

— Jiyeon.
— Ele disse, imóvel diante da escuridão da sala. — Talvez esteja na hora de você
ver o que nunca deveria ter visto.

Hana arregalou os olhos.

— O que tem aí dentro?

— O passado — respondeu o Oráculo. — E a verdade sobre ela.

Jiyeon cruzou a sala antes mesmo que o Oráculo oferecesse uma vela. A escuridão
a reconheceu, abrindo caminho como se tivesse saudade.

No centro havia um pedestal.


E sobre ele… um pergaminho antigo, enrolado com cordas vermelhas e pretas.

Hana percebeu a hesitação do Oráculo antes de ele sussurrar:

— Este pergaminho foi escrito pelo monge que te treinou.


— Ele sabia que um dia você iria procurar respostas.

Jiyeon colocou as mãos sobre o pergaminho como quem toca uma ferida aberta.
74

As cordas se desfizeram sozinhas.


Como se o pergaminho estivesse esperando apenas por ela.

A tinta preta formava caracteres que pulsavam como se fossem vivos.

As primeiras frases brilhavam:

> "Seo Jiyeon não é uma garota comum.


Ela carrega o espírito do Dragão Sombriado, condenado a nascer apenas em corpos
que sobreviveriam ao impossível."

Hana cobriu a boca.


Jiyeon continuou lendo.

> "Se esta criança despertar por completo, o mundo terá duas opções:
ajoelhar-se…
ou arder."

O pergaminho queimou nas mãos dela assim que ela terminou a linha,
desaparecendo em cinzas que flutuaram pelo templo como poeira luminosa.

Hana deu um passo para trás.

— Jiyeon… você… você é—

— Eu sou eu.
— Jiyeon cortou, a voz firme.
— Nada mais. Nada menos.

O Oráculo aproximou-se, a expressão grave.

— O monge temia que um dia você descobrisse, Jiyeon. Ele acreditava que sua
75

grande força não estava na marca… mas na sua humanidade.


— Ele olhou para ela com algo próximo de tristeza. — E isso é exatamente o que o
Caçador quer arrancar de você.

A marca queimou.
Profundamente.
Como se uma resposta estivesse nascendo.

Hana tocou o braço de Jiyeon, hesitante.

— Você não está sozinha… não mais.

E naquele momento, pela primeira vez em muitas noites, a marca não latiu de raiva
ou poder.

Ela pulsou… suave.


Como se estivesse ouvindo Hana.
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CAPÍTULO 43 — A DOR QUE TREME NAS PAREDES

A madrugada parecia querer engolir o complexo onde Jiyeon e a garota estavam


escondidas. O vento empurrava as árvores com violência, como se a floresta
tentasse avisar alguma coisa, como se pressentisse a tempestade prestes a abrir a
terra ao meio. Jiyeon movimentava-se no silêncio: passos medidos, respiração como
um fio. A cada canto que ela observava, algo dentro dela vibrava — uma previsão
sombria, uma inquietação que não vinha do presente, mas do passado preso sob
camadas de poeira, sangue e neve japonesa.

Ao acordar, a garota encontrou Jiyeon encostada na parede, olhos baixos, as mãos


apertadas, como se segurassem algo invisível. A lua ainda atravessava o vidro
rachado, cortando seu rosto em duas cores — prata e sombra. A garota se
aproximou devagar.

— Você não dormiu… de novo.

Jiyeon demorou. Respirou. Parecia medir palavras como quem mede a lâmina antes
de usá-la.

— Dormir me deixa lenta. E se eu ficar lenta, algo te alcança antes de mim.

A garota se sentou ao lado dela, as pernas cruzadas, observando a expressão


imóvel de Jiyeon. Era estranho: ela nunca dizia ter medo — mas estava evidente
naquela rigidez silenciosa.

— Você acha que eles descobriram onde a gente está?

— Eles não acham — respondeu Jiyeon, finalmente erguendo o olhar. — Eles


seguem. Como sombras. Mesmo quando ninguém guia.

A garota encostou a cabeça no ombro dela, buscando calor. Jiyeon respirou fundo,
parecendo surpresa com o gesto simples, quase esquecida de como era ser tocada
sem violência.
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— Então vamos sair antes que o amanhecer entregue a gente, sugeriu a garota.

Jiyeon hesitou. Não por covardia — mas por cálculo. Seus olhos percorreram o teto,
as portas, as lascas de madeira no chão, o barulho distante dos galhos. Tudo virava
mapa, tudo virava probabilidade de morte.

— Tem outra coisa, ela disse baixa.

— O quê?

— Eles não são os únicos atrás de mim.

O silêncio ficou mais pesado que o vento batendo nas paredes.

— Como assim “não são os únicos”? — a garota perguntou, inclinando o corpo para
vê-la melhor.

Jiyeon fechou os olhos por breves segundos — um detalhe quase imperceptível,


mas que denunciava exaustão. Ao abrir, havia algo quebrado ali.

— O monge. Meu mestre.

A garota estremeceu. Aquele nome nunca tinha aparecido de forma tão direta na
boca de Jiyeon. Sempre envolto em lembranças frias, fragmentos de rituais
proibidos, silêncios que doíam mais do que palavras.

— Você nunca falou dele assim — ela disse. — Como se tivesse medo.

Jiyeon não respondeu imediatamente. A boca dela desenhou um quase sorriso —


não de alegria, mas de ironia amarga.

— Não tenho medo dele. Tenho medo do que ele me pediu pra ser.

A garota sentiu a respiração falhar. Havia algo enorme ali. Algo não dito. Algo que
vinha rastejando desde o Arco I e agora mostrava a ponta dos dentes.
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— Ele pediu o quê?

Jiyeon virou o rosto para ela. A lua iluminava apenas um lado — deixando o outro
completamente afogado em escuridão.

— Que eu não amasse ninguém. Que eu fosse perfeita. Fria. Intocável. Um corpo
sem destino. Uma lâmina viva.

A garota sentiu a garganta fechar.

— E você deixou?

Jiyeon riu. Um riso baixo que parecia mais um soluço contido.

— Eu tentei. Até você aparecer.

As palavras atravessaram o ar com força. A garota sentiu o corpo inteiro aquecer.


Mas antes que pudesse responder, Jiyeon se levantou — atenta, tensa, como um
animal que sente tremores no chão antes dos humanos.

Ela olhou para a porta.

— Eles chegaram.

O coração da garota despencou.

— Quem? — ela perguntou quase sem voz.

Jiyeon fechou os punhos.

— Todos.

A madeira vibrou.

O vento cessou.
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O silêncio ficou tão profundo que parecia pré-morte.

E então —

um estrondo.

A porta quase saiu do batente. Poeira caiu do teto. O vidro rachado finalmente
cedeu, espalhando estilhaços brilhantes.

— Jiyeon! — a garota gritou.

Mas Jiyeon já havia se posto entre ela e qualquer coisa que estivesse lá fora. O
corpo dela era uma fortaleza. A respiração, uma lâmina. Os olhos, duas brasas
prontas para incendiar a noite.

O segundo golpe veio ainda mais forte — madeira voando, o ar vibrando, e uma voz
que parecia feita de pedra arrastada pelo chão:

— Seo Jiyeon. Hora de voltar.

A garota congelou. O som da voz parecia cortar a espinha.

Jiyeon não se moveu. Não recuou. Não tremeu.

Mas algo nela… quebrou.

— Mestre… — ela murmurou, quase inaudível.

A porta explodiu na terceira investida.

E a figura entrou.

Silhueta imensa. Roupa preta rasgada pela chuva. O rosto marcado como pedra
antiga. Os olhos… vazios. Sem maldade — mas sem alma.

A garota prendeu a respiração. Não era um homem. Não era um monstro. Era algo
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entre os dois.

O monge.

Jiyeon deu um passo à frente, o corpo firme como uma promessa antiga.

— Você não vai tocar nela.

O monge inclinou levemente a cabeça, a sombra do capuz caindo sobre os olhos.

— Então você escolhe morrer como humana.

A garota engoliu seco.

Jiyeon respirou.

Lenta.

Profunda.

E o chão pareceu tremer.

— Não. Escolho viver como alguém que finalmente sente.

A luta começou antes mesmo que o vento voltasse a soprar.


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CAPÍTULO 44 — A LÂMINA E O SILÊNCIO

A luta começara como uma respiração contida — e então se transformou em


tempestade. Jiyeon avançou primeiro: pés deslizando no chão como se a gravidade
não fosse mais a mesma, como se ela lembrasse de um tempo em que não tinha
corpo, só movimento. O monge ergueu o rosto e, pela primeira vez, ela viu algo que
não reconheceu: um traço de desapontamento… ou orgulho.

Era impossível saber.

A garota, encurralada perto da parede, observava tudo como se estivesse presa


dentro de um filme silencioso. Cada golpe parecia mudar o som do ar, cada impacto
arrancava pequenas lascas das paredes. Jiyeon movia-se com precisão cirúrgica,
mas o monge — frio como gelo eterno — não parecia afetado.

— Você se tornou fraca — ele disse, segurando o punho dela com uma mão só.
— Eu me tornei viva — Jiyeon respondeu, escapando com um giro rápido e
chutando o peito dele.

O golpe ecoou como madeira rachando, mas o monge apenas inclinou o corpo,
recompondo a postura. Os olhos dele se ergueram como duas fendas escuras.

— A fraqueza é contagiosa.

Jiyeon sentiu a frase pousar nela como uma faca gelada. Mas algo dentro dela
queimou — algo que não vinha de ódio, nem de raiva, mas de amor feroz e
inegociável pela garota atrás dela.

— Então eu deixo que me contagie.

Pela primeira vez, o monge franziu a sobrancelha.

E então a luta mudou de tom.

Ele avançou como uma sombra se desfazendo — rápido demais para olhos
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humanos. Jiyeon defendeu por instinto, mas o impacto foi tão intenso que jogou o
corpo dela contra a estante ao lado. Livros, poeira e memórias falsas caíram junto.

A garota gritou seu nome.

O monge girou lentamente, como se a voz dela fosse um som distante.


Ele deu três passos — cada um mais pesado que o anterior.

Jiyeon levantou antes que ele pudesse chegar perto dela.

— Só toca nela passando por mim.

O monge parou.

— Não é você quem decide isso.

E então ele atacou novamente.

A noite rompeu na madeira.


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CAPÍTULO 45 — O SANGUE QUE ESCOLHE

A batalha se estendia como se o tempo tivesse sido rasgado. Jiyeon já havia levado
vários golpes — ombro deslocado, lábio partido, costelas latejando — mas a cabeça
dela se mantinha erguida. Os olhos ardiam como faróis numa costa devastada.

O monge, com a mesma calma de sempre, aproximou-se.

— Seu corpo já passou do limite.


— Eu passei do limite quando abandonei você. — Ela cuspiu sangue. — E não me
arrependo.

Ele inclinou a cabeça — um eco invertido do passado.

— Você era a minha obra. Minha lâmina.

— Eu nunca fui sua.

O monge respirou fundo. E pela primeira vez, Jiyeon percebeu: aquela respiração
era… pesada. Dura. Quase cansada.

O mundo parecia estremecer.

Ele avançou — e Jiyeon o encontrou no meio do caminho. Uma colisão explosiva de


dois destinos que sempre estiveram destinados a colidir. O impacto foi tão brutal que
rachou o chão sob os pés deles.

A garota, acuada, procurou algo, qualquer coisa, que pudesse ajudar.

E viu — no canto do cômodo — a arma.

Não uma arma comum. Mas a lâmina de treino cerimonial do monge, deixada ali
como um aviso antigo.

A garota atravessou o quarto correndo, ignorando o medo que parecia arrancar


pedaços de sua respiração. Jiyeon viu — e o coração dela quase parou.
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— NÃO! — gritou Jiyeon, ao perceber o que ela estava prestes a fazer.

Mas tarde demais.

A garota pegou a lâmina. E no mesmo instante, o monge olhou para ela.

O silêncio se tornou punhal.

— Insolente — ele disse, começando a ir na direção dela.

Jiyeon se lançou à frente como um raio, interceptando-o, derrubando-o no chão com


um golpe desesperado. O mundo pareceu girar.

Ela se colocou entre ele e a garota novamente.

— Toca nela e eu acabo com você.

O monge a observou, finalmente imóvel.

— Então é assim. Você escolheu morrer como mortal.

Jiyeon ergueu o queixo.

— E você escolheu nunca viver.

O monge se levantou.

E pela primeira vez…

…o medo passou pelos olhos dele.


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CAPÍTULO 46 — O ÚLTIMO ENSINAMENTO

A chuva começou a cair do telhado rompido, gotas finas escorrendo pelas paredes.
O ar ficou mais frio — tão frio que parecia morder. Jiyeon e o monge circulavam-se
como duas feras ancestrais. A garota mantinha a lâmina cerimonial firme nas mãos,
apesar do tremor evidente.

O monge olhou para ela.

— Solte essa arma, menina.

Ela não respondeu.

Ele aproximou um passo.

E Jiyeon saltou contra ele, impedindo-o de avançar mais.

Os dois caíram no chão — rolando, golpeando, rasgando o ar com a força do


impacto. Jiyeon recuperou vantagem com um movimento inesperado, mas o monge
a prendeu com o antebraço contra o solo.

O corpo dela tremeu — mas ela não cedeu.

— Você nunca deveria ter deixado o templo — ele murmurou.


— Eu nunca deveria ter entrado.

O monge ergueu a mão para quebrar o pescoço dela.

A garota gritou:

— JIYEON!

Jiyeon reagiu com um impulso que não veio do corpo — mas de algo que sempre
tentou negar.

Ela quebrou a postura do monge com um golpe rápido no braço, escapou por baixo
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dele e o empurrou com força suficiente para derrubá-lo contra a parede.

A garota correu até ela.

— Jiyeon, você tá—


— Fica atrás de mim.

O monge se levantou, sangue escorrendo pela testa.

— Então é isso — ele murmurou. — A sua humanidade te destruiu.

Jiyeon respirou fundo.

— Foi ela quem me salvou.

O monge moveu-se tão rápido que a luz mal acompanhou — e então Jiyeon fez algo
que o monge jamais esperaria:

Ela recuou.

E ele vacilou.

Um único passo — mas suficiente para quebrar o destino.

A garota aproveitou.

E lançou a lâmina cerimonial exatamente no instante em que o monge ia perfurar


Jiyeon com as mãos nuas.

A lâmina se cravou no ombro do monge.

Ele parou.

Imóvel.

Os olhos se arregalaram — não de dor, mas de incredulidade.


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Jiyeon, ensanguentada e arfando, sussurrou:

— Eu ensinei ela.

O monge caiu de joelhos.

E a chuva fez o resto.


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CAPÍTULO 47 — QUANDO O CORAÇÃO ABRE

O corpo do monge tombou lentamente, como uma árvore milenar que decide,
finalmente, descansar. Jiyeon ficou olhando por alguns instantes — não com ódio,
nem com alívio. Mas com uma tristeza ancestral, uma despedida silenciosa de algo
que nunca deveria ter existido.

A garota se aproximou com cuidado.

— Jiyeon… ele…
— Acabou.

Ela fechou os olhos do monge com a ponta dos dedos, um gesto de respeito que só
alguém que já foi quebrado da mesma forma poderia oferecer.

A garota tocou o rosto dela.

— Você tá machucada.

— Eu já estive pior.

Mas o corpo dela dizia o contrário: cortes profundos, respiração irregular, costela
claramente trincada. A garota a envolveu pelos ombros, guiando-a para fora do
refúgio destruído.

Lá fora, a madrugada começava a nascer — lenta, pálida, tímida. Um céu que nunca
tinha visto testemunhas perde o medo de amanhecer.

A garota segurou o rosto de Jiyeon entre as mãos.

— Você lutou por mim.


— Eu matei por você também.
— Eu sei.
— Não devia saber — murmurou Jiyeon. — Não devia carregar isso.

A garota aproximou o rosto.


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— Eu escolhi carregar você. Isso já basta.

A respiração quente tocou a pele fria de Jiyeon.

E pela primeira vez em anos — ela tremeu.

Não de dor.

Mas de entrega.

— Eu tô aqui — a garota disse, encostando a testa na dela. — Não vou embora.

Jiyeon fechou os olhos.

Deixou o mundo entrar.

E o mundo, finalmente, não doeu.


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CAPÍTULO 48 — O PESO DA LIBERDADE

Os dias seguintes foram estranhos — como viver dentro de um sonho silencioso.


Elas encontraram abrigo em uma casa abandonada nas montanhas. Jiyeon
descansou pela primeira vez desde a infância, dormindo tão fundo que parecia que a
alma dela tentava se reconstruir.

A garota cuidava dos ferimentos. Preparava comida. Limpava o sangue seco do


rosto de Jiyeon com delicadeza quase devocional.

Às vezes, Jiyeon acordava no meio da noite, respirando forte, como se esperasse o


monge reaparecer diante dela. Mas ele nunca vinha.

— Ele se foi — a garota sussurrou certa noite, abraçando Jiyeon pelas costas, os
corpos moldando-se como se tivessem nascido assim. — Ele não volta mais.

Jiyeon segurou a mão dela, apertando forte.

— Eu não sei viver assim.


— Assim como?
— Livre.

A garota virou o rosto para ela.

— Então eu te ensino.

E beijou o ombro dela — um beijo suave, quieto, que atravessou toda a armadura
antiga que Jiyeon carregava.

Aos poucos, Jiyeon começou a reaprender gestos simples: sorrir com o canto da
boca, aceitar um carinho no cabelo, dormir sem a lâmina por perto, deixar alguém
lavar suas feridas.

Até que, uma tarde, olhando o horizonte, ela murmurou:

— Eu sempre achei que morreria sozinha.


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A garota entrelaçou seus dedos nos dela.

— Eu não vou deixar.

Jiyeon virou-se para ela. A luz da tarde batia no rosto da garota de um jeito que a
fazia parecer quase irreal.

— Eu… preciso de você. — A frase saiu como uma confissão arrancada do fundo do
peito.
— Eu sei — ela respondeu. — E eu não tenho medo disso.

Foi ali — naquele silêncio quente, naquela respiração compartilhada — que o futuro
começou a existir de verdade.
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CAPÍTULO 49 — O ÚLTIMO FANTASMA

Quando Jiyeon recuperou as forças, algo dentro dela mudou. Não era mais uma
arma carregando seu destino. Era alguém que queria escolher seu próprio caminho
— mesmo que ainda tivesse medo dele.

Mas havia algo pendente.

— Eu preciso voltar ao templo — Jiyeon disse.


— Pra quê? — a garota perguntou, alarmada.
— Pra apagar o que ficou lá. De vez.

A garota hesitou.
Depois assentiu.

— Então eu vou com você.

As duas seguiram pelas montanhas até os portões destruídos do antigo templo. A


neve cobria tudo — pura, branca, irônica. O templo parecia um cadáver de madeira,
restos de um lugar que já não pertencia ao mundo.

Jiyeon entrou primeiro.

A garota atrás, passos leves mas firmes.

Dentro, o ar era frio demais. O silêncio… espesso.

Jiyeon caminhou até o salão principal — o mesmo onde treinou, sangrou,


desmoronou tantas vezes.

E lá encontrou o último fantasma.

Um monge mais velho, sentado, imóvel. Não inimigo. Não aliado. Um sobrevivente.
Ele abriu os olhos ao vê-la.

— Você voltou.
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Jiyeon aproximou-se.

— Eu vim terminar o que começou.

Ele sorriu — um sorriso triste, quase cansado.

— Não há mais nada aqui para terminar, criança.

Ela parou.

— Você não vai me impedir?

— Não. Você sempre deveria ter ido embora. Nós só demoramos para entender.

Jiyeon respirou.

E pela primeira vez, não sentiu ódio. Nem vergonha.

Apenas… paz.

Ela acendeu uma tocha.

O monge fechou os olhos.

— Vá. Eu vigio as cinzas.

Jiyeon caminhou até a saída, a porta aberta para o vento e para a noite que
começava a cair.

A garota segurou sua mão.

— Acabou?

Jiyeon olhou para trás — para o passado sendo devorado pelo fogo, fumaça subindo
ao céu como uma alma libertada.
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— Finalmente.
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CAPÍTULO 50 — ONDE A HISTÓRIA RECOMEÇA (Final)

O templo queimou até virar memória. As chamas dançavam no horizonte enquanto


Jiyeon e a garota caminharam para longe — passo a passo, sem pressa.

Quando chegaram ao topo da montanha, a noite estava clara. As estrelas pareciam


mais próximas do que nunca. Jiyeon parou, olhando para o céu como se o visse pela
primeira vez.

— O que você vai fazer agora? — a garota perguntou.

Jiyeon pensou.

Longamente.

E então respondeu:

— Viver.

A garota sorriu.

— Só isso?

Jiyeon virou-se para ela com um brilho novo nos olhos — não feroz, não contido,
mas… humano.

— Viver com você.

A garota tocou o rosto dela, puxando-a com delicadeza.


Os dois mundos colidiram naquele beijo — suave, profundo, cheio de tudo o que
Jiyeon nunca pôde sentir.

Quando se separaram, Jiyeon apoiou a testa na dela.

— Promete que não vai me deixar voltar pra escuridão?


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A garota sorriu, os dedos deslizando pela nuca de Jiyeon.

— Eu te arrasto pro sol quantas vezes for preciso.

Jiyeon riu — um riso real, quente, leve.

— Então vamos.
— Pra onde?
— Pra qualquer lugar que não doa.

De mãos dadas, elas desceram a montanha.


A lua alta iluminava o caminho.
A brisa carregava o cheiro de futuro.

E pela primeira vez em toda a sua história —

Seo Jiyeon não estava fugindo.


Estava indo.

Indo ser alguém completa.


Indo amar alguém inteira.
Indo viver, finalmente, como quem tem um amanhã.

Fim.

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