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O Destino de Jiyeon: A Lâmina Adormecida

H h bnnin

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chagbinhafan
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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CAPÍTULO 1 — O Nascimento da Espada Adormecida

A casa estava silenciosa demais para um nascimento.

Era madrugada em Quioto, o inverno do lado de fora espalhava neve como cinzas
caindo do céu. Dentro da casa tradicional dos Seo, as lanternas tremulavam com um
brilho fraco, como se tivessem medo de iluminar o que estava prestes a acontecer.

A mãe de Jiyeon gritava baixinho — não por fraqueza, mas por disciplina. Naquela
família, até a dor precisava de controle. O pai observava de longe, rígido, como se o
nascimento da própria filha fosse um evento militar, não um momento de vida.

Quando o choro finalmente cortou o ar, não veio fraco ou instável.


Veio profundo, firme, quase feroz.

O monge que acompanhava a família por tradição aproximou-se do berço e olhou


para o bebê com um silêncio estranho, como se visse algo que ninguém mais
enxergava.

— Os olhos dela não parecem de um recém-nascido — murmurou.

E era verdade.

Mesmo segundos após vir ao mundo, Jiyeon tinha olhos escuros e intensos, atentos,
como se já estudassem o ambiente. Como se já entendessem a existência antes
mesmo de aprenderem a respirar sozinha.

A mãe sorriu, cansada.


O pai não sorriu.

— Crianças que nascem olhando assim… — continuou o monge, passando o dedo


pela testa da bebê — …carregam mais do que deveriam.

O pai interrompeu:

— Basta de superstição. Ela será moldada como deve ser.


2

Ele estava certo em parte — Jiyeon seria moldada.


Mas não por ele.

E sim pelo destino.

**

Quando a neve parou de cair, o monge se aproximou da janela e observou o luar


refletindo nas folhas congeladas do jardim. Sentiu o ar pesado. Denso.

— Vocês a chamaram de quê? — perguntou ele.

— Jiyeon — respondeu a mãe, aconchegando o bebê contra o peito. — Significa


“sabedoria e calma”.

O monge fechou os olhos lentamente, como quem escuta uma profecia sendo
sussurrada pelo vento.

— Ela não terá uma vida calma.

Virou-se, encarou o pai, depois a mãe, depois o bebê.

— Mas terá um propósito que nenhum de vocês pode imaginar.

O bebê abriu os olhos.

E pela primeira vez desde que nasceu, não chorou.


Apenas ficou ali, observando o monge com um foco que não era humano.

Ele deu um passo para trás.

— Há algo adormecido dentro dela — disse em voz baixa. — E um dia… alguém


terá de ensiná-la a controlar.

Ninguém respondeu.
3

Ninguém acreditou.

Mas anos depois, quando Jiyeon completou doze anos e desapareceu sem deixar
rastros, fugindo da casa em silêncio absoluto, como uma sombra treinada desde o
nascimento —

— o monge seria o único que não ficaria surpreso.

Naquela noite de seu nascimento, enquanto todas as lanternas tremulavam com


medo, ele já tinha certeza:

Seo Jiyeon não era apenas uma criança.


Era uma lâmina esperando para ser forjada.

E o mundo, cedo ou tarde, sentiria o corte.


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CAPÍTULO 2 — O Silêncio que Ensina

A infância de Jiyeon nunca foi leve — mas também nunca foi violenta.
Era apenas… silenciosa demais.

Os pais falavam pouco.


A casa tinha regras demais.
E Jiyeon, desde cedo, aprendeu a existir sem ocupar espaço.

Aos quatro anos, ela já caminhava sem fazer barulho.


Aos cinco, sabia observar antes de perguntar.
Aos seis, percebia mudanças de humor nos adultos antes que eles percebessem em
si mesmos.

Mas foi aos sete que algo estranho começou.

Naquela idade, crianças costumam tropeçar, esbarrar nas coisas, errar o tempo
todo. Jiyeon não. Ela desviava instintivamente. Escapava de quedas sem pensar.
Caía sempre de forma perfeita, como se fosse treinada desde o berço.

E ninguém entendia.

— Ela é diferente — comentou a mãe certa noite, dobrando roupas no tatame.

— Ela é disciplinada. Só isso — respondeu o pai, sem tirar os olhos do jornal.

Mas não era só isso.

**

A primeira demonstração do que dormia dentro dela aconteceu no pátio.

O chão estava coberto de folhas outonais. Jiyeon brincava sozinha, girando um


galho entre os dedos, imaginando-o como uma espada.

Foi então que três meninos do bairro entraram no pátio sem permissão. Eram mais
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velhos, barulhentos, provocadores. Eles gostavam de incomodar a “garota que


nunca falava nada”.

— Ei, fantasma — disse um deles, chutando as folhas perto dela. — Você não sabe
brincar?

Jiyeon o olhou. Um olhar parado. Assessando. Observador.

— Ela é muda? — perguntou outro, rindo.

O terceiro tentou puxar o galho da mão dela.

O mundo ficou lento.

As folhas suspenderam no ar como se o vento tivesse parado de respirar.


O braço de Jiyeon se moveu sozinho, instinto puro — não infantil, não humano — e
o galho girou entre os dedos dela, desviando da mão do menino.

Nenhum dos garotos entendeu o que aconteceu.


Jiyeon também não.

Mas o monge que visitava a casa naquele dia entendeu perfeitamente.

Ele estava parado na varanda e viu tudo:


o reflexo rápido, a postura firme, o movimento limpo como de um guerreiro treinado
há anos.

— Aquilo não é habilidade — murmurou para si. — É memória.

Os meninos recuaram, assustados.


Não pela reação — mas pelo olhar da garota.

Ela não parecia com raiva.


Nem com medo.
Parecia… calma demais.
6

**

À noite, enquanto Jiyeon dormia, o monge chamou os pais.

— Vocês precisam entender — disse, com voz grave. — Ela nasceu preparada para
algo que ainda não compreendem. E se não for ensinada… será destruída pelo
próprio dom.

O pai, rígido, rebateu:

— Nada disso existe. Minha filha será educada como qualquer outra.

O monge suspirou.

— Ela não é “qualquer outra”.

A mãe hesitou.
Ela tinha visto aquilo nos olhos da filha: aquela calma assustadora, aquela força
silenciosa que não combinava com a idade.

— O que devemos fazer? — perguntou, insegura.

O monge a encarou com um peso que deixou o ar mais frio.

— Cuidem dela. Mas lembrem-se:


há coisas que dormem porque não devem ser acordadas cedo demais.

Ninguém entendeu a gravidade daquelas palavras.

Ninguém imaginou que, poucos anos depois, aquela criança que desviava de mãos
agressivas com a precisão de um monge… fugiria.
Sem deixar rastros.
Sem dizer adeus.

Uma criança de doze anos.


Sozinha.
7

Na neve.

E que o mundo — todo ele — sentiria o impacto disso.

Mas por enquanto, naquela infância silenciosa, Jiyeon apenas observava.


Aprendia.
Registrava.

A lâmina ainda estava sendo moldada.

Mas já começava a brilhar.


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CAPÍTULO 3 — A Primeira Fenda na Gaiola

O inverno daquele ano chegou mais cedo que o esperado.

O jardim da casa dos Seo, geralmente vibrante com bordas de bambu e lanternas
vermelhas, estava cinza, silencioso, coberto por uma camada fina de gelo. Jiyeon,
agora com nove anos, observava tudo da varanda. Ela não se intimidava com o frio.
Aliás, parecia que o corpo dela suportava temperaturas mais baixas do que deveria.

A respiração dela formava pequenas nuvens brancas.


O silêncio era quase confortável.

Mas havia algo… errado.

Nos últimos meses, a casa estava mais tensa do que o normal. Os pais cochichavam
à noite. O monge, antes um visitante tranquilo, agora chegava com expressão
pesada, como quem carregava notícias que ninguém quer ouvir.

E Jiyeon sentia.
Ela sempre sentia antes dos adultos falarem.

Naquela manhã, enquanto a mãe preparava chá, o monge se aproximou da varanda


e sentou ao lado da garota. Por um momento, nenhum dos dois falou; pareciam duas
presenças que existiam na mesma frequência.

— Seus olhos mudaram — disse ele, finalmente.

Jiyeon virou o rosto devagar.

— Como mudaram?

O monge sorriu, um sorriso triste.

— Estão mais atentos. Mais pesados. Como se você carregasse algo que ninguém
mais vê.
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Ela não respondeu.


Porque ela também sentia isso.

Desde o dia no pátio, quando desviara instintivamente dos garotos, uma estranha
consciência vinha crescendo dentro dela. Uma sensação física — como se houvesse
outra força dentro de sua pele, adormecida, mas inquieta.

Às vezes, ao errar um passo, o corpo ajustava sozinho.


Às vezes, ao sentir medo, o peito esquentava, como se alguém acendesse uma
chama por dentro.
Às vezes, ao se machucar, a dor sumia rápido demais.

Ela nunca contava a ninguém.

Mas o monge parecia saber.


Ou quase saber.

— Jiyeon — ele disse, olhando para o jardim —, você já sentiu como se… tivesse
que ser forte mesmo quando não quer?

Os olhos dela, escuros e quietos, baixaram para as mãos.

— Sempre.

O monge respirou fundo, como quem já esperava aquela resposta.

— Há coisas que nascem conosco. E há coisas que nos escolhem.

Antes que ele pudesse continuar, a porta atrás deles se abriu de repente.

O pai.

— Chega. — A voz era dura, quase um golpe. — Não fale isso para ela.

O monge não se moveu.


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— Ela precisa entender sua natureza.

— Ela precisa de disciplina, não de superstição — rebateu o pai, aproximando-se da


menina. — Jiyeon, vá se trocar. Temos visitas a receber.

Ela levantou-se.
Andou para dentro.
Mas algo nela hesitava.

Naquele gesto seco do pai, naquela interrupção brusca, havia mais do que irritação.
Havia medo.

E medo de quê?

**

Meses depois, a primeira fenda na “gaiola” apareceu.

Era noite. Chuva fina.


Jiyeon dormia quando escutou algo — um som fraco, mas suficiente para acordá-la
como um soco no peito. O coração disparou, não de pânico, mas de alerta.

Levantou-se no escuro.

Desceu os degraus descalça, silenciosa como sempre.


Passou pela sala.
E viu pela brecha da porta da cozinha:

Seu pai discutindo com um homem vestido de preto.


Um homem que ela nunca tinha visto antes.

— Ela não pode ficar aqui — disse o homem, em voz baixa. — A criança carrega
algo que não sabe controlar. Isso é perigoso.

O pai apertou os punhos.


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— Ela é minha filha.

— Não, Sr. Seo. — O homem se inclinou para frente. — Ela pertence a um destino
que vocês não podem impedir.

O monge estava ali também. Em silêncio. Olhando para o chão.

A mãe… estava chorando.

Foi a primeira vez que Jiyeon viu a mãe chorar.

O mundo, na cabeça da menina, pareceu rachar.


Pais que nunca demonstravam emoção.
Um monge que sempre parecia seguro.
E agora todos tremiam… por causa dela.

Um frio percorreu a espinha da garota.


Não de inverno.
De verdade.

Ela recuou, voltou para o quarto, mas não conseguiu dormir.


Não naquela noite.
Nem nas próximas.

**

E foi assim que, aos doze anos, quando o inverno chegou novamente e a tensão se
tornou insuportável, Jiyeon tomou a decisão mais silenciosa e mais definitiva de sua
vida:

Fugir.

Não por rebeldia.


Não por medo.

Mas porque ela entendia, mesmo tão jovem, que a presença dela trazia algo que
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nem os pais — pessoas rígidas e controladas — conseguiam enfrentar.

Ao amanhecer daquela noite, o tatame onde ela dormia estava vazio.


Os cobertores dobrados.
A janela aberta.

Sem barulho.
Sem rastros.

Como se tivesse desaparecido no ar.

Mas ela não desapareceu.


Ela apenas encontrou uma estrada.

E o destino, que sempre esperou por ela, finalmente sorriu.


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CAPÍTULO 4 — A Montanha que Não Esquece

A neve cobria os telhados como uma manta pálida quando Jiyeon deixou a casa pela
última vez.

Ela não correu.


Não tropeçou.
Não olhou para trás.

Seus passos eram pequenos, precisos, quase ritualísticos — como se a fuga não
fosse um desespero, mas um chamado antigo, algo que ela sempre soube que teria
de fazer.

O ar cortava a pele como lâminas de gelo.


Os dedos tremiam dentro das mangas do casaco fino.
Mas Jiyeon caminhava com uma calma que nenhuma criança de doze anos deveria
ter.

Ela seguiu para onde o instinto a puxava:


para o norte.
Para as montanhas.

Dizia-se que ninguém subia até lá sozinho.


Dizia-se que quem tentava… não voltava.

Mas Jiyeon não acreditava em assustar-se.


Talvez porque ainda não entendia o que era medo — ou talvez porque a coisa
dentro dela, aquela força silenciosa, a empurrava para frente.

**

Horas depois, quando a cidade ficou para trás, a estrada se transformou em floresta.
As árvores eram densas, negras contra o branco da neve acumulada nos galhos. O
vento gemia entre os troncos como vozes antigas, e a lua fina parecia observá-la de
cima.
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A trilha ficava mais estreita.


Mais íngreme.
Mais perigosa.

Mas o corpo de Jiyeon… ia.

Movia-se como se sempre tivesse conhecido aquele caminho.


Como se houvesse memórias escondidas nos músculos, guias invisíveis que
ajustavam cada passo.

Quando o sol começou a nascer, fraco, tingindo o horizonte de cinza e rosa, Jiyeon
finalmente viu.

Um templo.

Ou o que restava de um.

Construído entre rochas, quase engolido pela neve, com esculturas antigas e
bandeiras rasgadas que tremulavam como fantasmas.

Ela sentiu, pela primeira vez, algo dentro dela se mexer.


Como se reconhecesse aquele lugar.

E foi quando ouviu a voz.

— Não devia estar aqui.

Jiyeon se virou.

Um homem velho, com cabelos brancos presos em um coque alto, roupas simples e
olhos tão afiados quanto neve recém-quebrada, estava parado alguns metros atrás
dela.

Ele não parecia surpreso por vê-la.


Parecia… aguardando.
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— Você não tem idade para subir essa montanha — disse ele, caminhando devagar
até ela. — Mas subiu. E sem morrer.

Os olhos dele estreitaram.

— Isso confirma o que eu já sabia.

Jiyeon deu um passo para trás.

— Quem é você?

O monge sorriu levemente.

— Apenas alguém que esperou muito tempo por você.

A frase ecoou na cabeça dela como um sino quebrado.

Ele se aproximou mais, e Jiyeon percebeu algo estranho:


mesmo pisando na neve, ele não fazia som.

— Por que… esperaria por mim?

Ele olhou fundo nos olhos dela, como se procurasse algo por trás da íris escura.

— Porque você nasceu carregando uma força que não entende.


— E porque, se ninguém ensinar você a domá-la… — ele inclinou a cabeça — ela
vai devorar você por dentro.

O vento soprou forte naquele instante, arrancando neve dos galhos.


Jiyeon sentiu o corpo reagir — a respiração ficou curta, mas controlada.

— Eu não sei de que força você fala.

O monge respirou fundo, como quem já esperava essa resposta.


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— Ainda não.
— Mas saberá.

Ele apontou para o templo.

— Entre. O frio não te incomoda, mas a estrada… é só o começo.


— Se você quer sobreviver ao que nasceu para ser, terá que enfrentar coisas que
crianças não enfrentam.

Jiyeon hesitou.

Era estranho:
aquele homem não parecia gentil, mas também não parecia ameaçador.
Parecia inevitável.

Como o destino.

— E se eu não entrar? — perguntou ela.

O monge ergueu uma sobrancelha, como se a resposta fosse óbvia.

— Então você morrerá como todas as outras crianças que vieram antes de você.

Jiyeon arregalou os olhos.

— Outras… morreram?

Ele assentiu lentamente.

— Porque não eram você.

O coração da garota bateu forte, não de medo — de reconhecimento.


Algo dentro dela apertou, como se finalmente encontrasse o lugar onde se
encaixava.

Sem dizer nada, ela entrou.


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O monge a seguiu, fechando a porta pesada do templo atrás deles.

E o mundo — o dela, e o que viria a conhecer — mudou para sempre.


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CAPÍTULO 5 — O Treinamento Proibido

O interior do templo não era como Jiyeon imaginava.

Não havia ouro, nem estátuas brilhantes, nem incenso perfumado.


Era úmido.
Frio.
Construído de pedra escura, com corredores estreitos que pareciam espirais de uma
serpente gigante.

O monge caminhava à frente, sem olhar para trás, como se soubesse que ela viria
mesmo assim. Jiyeon seguia em silêncio, seus passos ecoando levemente pelas
paredes.

Cada sala que passavam parecia contar uma história que ninguém tinha coragem de
dizer em voz alta:
armaduras douradas quebradas, máscaras rachadas de cerimônias antigas, armas
penduradas em suportes enferrujados, livros escritos em línguas que Jiyeon não
reconhecia.

Algo ali estava morto.


Mas algo ali também esperava.

Finalmente, chegaram a uma sala circular, iluminada apenas pela abertura no teto,
por onde descia um feixe de luz pálida.

O monge parou no centro.

— Vamos começar.

Jiyeon franzou a testa.

— Começar o quê?

Ele a observou por alguns segundos, como se testasse a resposta dela.


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— O que você veio buscar.

Ela sentiu o peito apertar.

— Eu… não vim buscar nada. Fugi de casa.

O monge inclinou a cabeça.

— Uma criança de doze anos não sobe uma montanha assassina porque “fugiu”.
— Você foi chamada.

A palavra atravessou Jiyeon como gelo.

— Chamada… por quem?

O monge apontou para ela.

— Por si mesma.

O silêncio que seguiu foi tão pesado que parecia empurrar o ar para fora dos
pulmões.

— Há uma força dentro de você — continuou ele. — Uma força antiga. Indomável.
Você a sente desde pequena, mas nunca soube nomear.

Jiyeon hesitou.

Porque ele estava certo.

Ela sentia. Sempre sentiu.

— Isso não é habilidade, nem talento. — Ele deu um passo à frente. — É uma
maldição.

Jiyeon recuou um passo.


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— Eu não pedi por isso.

— Ninguém pede pelo que nasce com ele.

O monge abriu uma caixa de madeira no canto da sala. Lá dentro havia uma faixa
vermelha, desbotada, mas ainda vibrante como sangue fresco.

Ele jogou a faixa no chão diante dela.

— Coloque.

— Por quê?

— Porque, a partir do momento em que vestir isso… — ele respirou fundo — deixa
de ser criança.

Jiyeon engoliu seco.

Suas mãos tremiam — não de medo, mas de algo que ela nunca sentira antes:
consciência.

Ela ajoelhou.
Pegou a faixa.
A textura era áspera, fria, pesada.

Amarrou ao redor da cintura.

O monge sorriu.

— Agora sim.

Ele levantou o bastão de madeira que carregava e bateu no chão. O som reverberou
pelas paredes, acordando algo no templo — como se o próprio lugar estivesse
despertando com eles.

— Primeira lição — disse ele. — Controle.


21

Jiyeon ergueu o olhar.

— Controle de quê?

Ele sorriu de maneira quase cruel.

— De você mesma.

**

O treinamento começou imediatamente.

Não havia aquecimento.


Não havia explicações longas.

O monge movia-se como vento, rápido, preciso, atacando com o bastão sem avisar.
Jiyeon, instintivamente, desviava. Não sabia como. Apenas sabia que precisava se
mover antes do golpe chegar.

E cada vez que desviava, sentia aquela força dentro dela vibrar, como se
despertasse aos poucos.

— De novo — dizia o monge. — Mais rápido.

Horas se passaram sem pausa.

Jiyeon já não sabia se era suor ou neve derretida escorrendo pelo rosto. O corpo
ardia, mas a mente… estava estranhamente quieta. Focada. Como se finalmente
tivesse encontrado algo que fazia sentido.

Quando finalmente caiu no chão, exausta, o monge parou diante dela.

— Isso foi ruim — disse ele sem dó. — Mas foi melhor do que qualquer criança que
já passou por aqui.
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Jiyeon levantou os olhos.

— Outras… vieram antes?

O monge desviou o olhar.

— Algumas.

— E onde elas estão?

Ele demorou três segundos para responder.

— Mortas.

Jiyeon ficou rígida.

— Por quê?

O monge se aproximou, ajoelhou-se ao lado dela e colocou a mão em seu ombro.

— Porque essa força dentro de você… se não for domada… — ele abaixou a voz —
mata o corpo que a carrega.

A respiração de Jiyeon falhou.

— Então… eu posso morrer por causa disso?

— Se não aprender a controlar, sim.

Ela engoliu em seco, mas não chorou.


Não pediu para ir embora.
Não pediu ajuda.

Apenas encarou o monge com um olhar escuro, duro, decidido.

— Me ensina.
23

O monge sorriu de verdade pela primeira vez.

— É por isso que você chegou até aqui.


— E é por isso que você não vai morrer.

Ele se levantou.

— A partir de hoje, Seo Jiyeon…


a montanha é sua casa.
E eu… sou seu mestre.

Lá fora, a neve começou a cair mais forte.

Como se o mundo reconhecesse a promessa que acabara de ser feita.


24

CAPÍTULO 6 — A Primeira Derrota

Acordar no templo era como nascer de novo todos os dias — frio, doloroso,
silencioso.

A luz filtrava pela abertura no teto, criando um círculo pálido no chão de pedra.
Jiyeon despertou ali, sentindo o corpo inteiro latejar como se tivesse sido quebrado e
remontado durante a noite.

O monge estava sentado diante dela, imóvel como uma estátua.

— Dormiu demais — disse ele, sem emoção. — Isso deixa a mente lenta.

Jiyeon piscou, sem entender.

— “Demais”? — murmurou. — Eu nem dormi direito.

— Então aprenda a dormir menos.

Ele se levantou de forma fluida, sem esforço. Jiyeon, ainda dolorida, levantou-se
devagar, lutando para não demonstrar fraqueza.

Mas o monge viu.


Ele sempre via.

— Força física é fácil, Jiyeon — disse ele, caminhando em círculos ao redor dela. —
Qualquer adulto pode treinar até ficar forte. Você não está aqui para isso.

Ela franziu o cenho.

— Então… para quê?

Ele parou atrás dela.


A voz veio baixa, mas pesada como pedra:

— Para sobreviver ao que vive dentro de você.


25

Um arrepio percorreu sua coluna.


Não de medo — era como se a força adormecida reagisse às palavras dele,
vibrando sob a pele.

— Hoje — continuou ele — você vai aprender o que acontece quando essa força
desperta sem controle.

Jiyeon engoliu seco.

Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o monge bateu o bastão no chão.
A parede atrás dele deslizou, revelando um corredor estreito e escuro.

— Entre.

Ela hesitou apenas um segundo.


Depois entrou.

O corredor era sufocante. As paredes quase tocavam seus ombros; o teto era baixo.
A única iluminação vinha de tochas fracas, acesas de forma irregular. O ar cheirava
a pedra molhada.

Quando chegou ao final, encontrou uma sala circular — menor que a de treino, mas
mais opressora. No centro, havia um pedestal de pedra com um símbolo gravado.
Parecia uma espiral com dentes de lâmina nas extremidades.

— Toque — disse o monge, parado atrás dela na entrada.

Jiyeon virou o rosto.

— O que é isso?

— O começo da verdade.

Ela respirou fundo.


Estendeu a mão.
26

E tocou o símbolo.

A pedra estava fria… até não estar mais.

Um calor violento atravessou seu braço, subindo pela pele como fogo líquido. Jiyeon
engasgou de dor, recuando um passo, mas era tarde demais.

A sala inteira pareceu girar.

As tochas estalaram.
As sombras nas paredes se contorceram.
A espiral no pedestal brilhou por um segundo — um vermelho profundo, quase vivo.

E então veio a voz.

Não uma voz humana.


Não uma voz da sala.
Uma voz dentro dela.

“Finalmente.”

Jiyeon caiu de joelhos.


As mãos tremiam.
A respiração ficou pesada, barulhenta, incontrolável.

As sombras da sala começaram a se mover — não como reflexos, mas como


criaturas alongando-se, aproximando-se dela, cercando-a.

Ela tentou levantar.


Tentou gritar.
Tentou respirar.

Mas a força dentro dela — aquela que sempre vibrou silenciosa — agora estava
acordando completamente.

E era selvagem.
27

— Mestre! — gritou ela, a voz falhando. — O que está acontecendo?!

O monge não entrou.


Apenas observava da porta.

— Não lute — disse ele. — Sinta.

As sombras tocaram seu corpo.


Não eram sólidas, mas pesavam.
Pesavam como dor.
Pesavam como memória.

E então veio a sensação mais assustadora da vida dela:

O corpo… não obedecia mais.

Uma força enorme, quente, brutal, explodiu de dentro do peito dela, atravessando
músculos, ossos, pele — como se quisesse sair, como se quisesse rasgar o corpo
para ser livre.

— AAAAAAAAAH!

A sala tremeu.
Pedras caíram do teto.
As tochas apagaram ao mesmo tempo.

E pela primeira vez na vida, Jiyeon sentiu aquilo:

Medo.
Medo dela mesma.

Ela caiu de lado no chão, arfando, enquanto a força dentro dela pulsava furiosa,
tentando tomar o controle, tentando quebrá-la por dentro.

O monge finalmente entrou.


28

Segurou o rosto dela.


Forçou seus olhos a encontrarem os dele.

— Lembra do que você me pediu, Jiyeon?


— “Me ensina.” Lembra?

Ela apertou os dentes, lutando para não perder a consciência.

— ENTÃO APRENDA! — rugiu ele, aproximando o rosto do dela. — Isso dentro de


você não é seu inimigo! É sua lâmina! Sua arma! Seu destino!

A visão de Jiyeon ficou borrada.

A força explodia, tentando romper.


O corpo dela tremia como se estivesse quebrando.

— Controle… — sussurrou o monge. — Controle não é vencer.


— Controle é… aguentar.

Um último impacto atravessou o peito dela — e tudo ficou escuro.

**

Jiyeon acordou horas depois, deitada no chão frio, o corpo suado e febril, o peito
queimando como se tivesse engolido fogo.

O monge estava sentado ao lado dela.

— Morri? — ela murmurou.

— Não.
Mas quase.

Jiyeon respirou fundo, a voz quebrada, os olhos ainda assustados:


29

— O que… era aquilo?

Ele olhou para a escada que levava para cima, para o templo.

— A primeira derrota — disse calmamente. — A primeira de muitas.

Ela fechou os olhos.

E entendeu que, naquela montanha, nada — absolutamente nada — seria fácil.


30

CAPÍTULO 7 — O Corpo Começa a Aprender

Quando Jiyeon acordou na manhã seguinte, o templo inteiro parecia respirar


diferente.

O ar estava mais denso.


As paredes, mais estreitas.
Os sons, mais nítidos — cada gota de água que caía no chão ecoava dentro do peito
dela como se fosse parte de seu próprio coração.

Ela se sentou devagar.


O corpo tremia por dentro, não por dor… mas por impacto.
Como se algo tivesse se soltado, mas ainda não tivesse encontrado seu lugar.

O monge apareceu na porta, segurando uma tigela de sopa fumegante.

— Beba — disse ele. — Acordar depois do despertar parcial é como acordar depois
de morrer.

Jiyeon fez uma careta.

— Então eu não morri?

— Ainda não — respondeu ele, simplesmente.

Ela tomou a sopa. O sabor era estranho, amargo, mas o calor espalhou-se pelo
corpo, acalmando a vibração que ainda pulsava sob a pele.

O monge sentou-se ao lado dela.

— O que aconteceu ontem — disse ele — foi apenas a primeira rachadura.

— Isso acontece com todos? — Jiyeon perguntou.

— Não. Com a maioria… é pior.


E com muitos… é fatal.
31

Ela ficou em silêncio.

— O que desperta dentro de você — continuou o monge — é algo que deveria


permanecer adormecido para sempre. Mas em você… ele acorda. E acordará de
novo.

— Por que?

O monge ergueu o olhar para ela, sério:

— Porque você nasceu com um espaço vazio que só essa força pode preencher.

As palavras ficaram ecoando na mente dela.

Espaço vazio.
Força.
Destino.

Termos que ninguém deveria dizer para uma criança — mas Jiyeon já não se sentia
criança havia muito tempo.

**

O treino daquele dia não esperou ela se recuperar.

O monge a levou para uma parte externa do templo — um terraço estreito preso à
encosta da montanha, onde o vento batia forte, capaz até de empurrar uma pessoa
para trás.

Jiyeon teve de fincar os pés no chão para não ser levada.

— Hoje — disse o monge — vamos ensinar ao seu corpo o que sua mente ainda
não entende.

Ele apontou para a frente.


32

Havia pedras distribuídas pelo chão do terraço — redondas, polidas, mas pesadas
como concreto.

— Levante uma.

Jiyeon tentou pegar a menor delas.


A pedra parecia colada ao chão.

Ela tentou de novo.


E nada.

O monge cruzou os braços.

— Força não vem do músculo.


Vem do foco.

Jiyeon bufou.

— E você acha que foco levanta pedra?

— Acho. E você vai provar isso.

Ele esperou.
Silencioso.
Inabalável.

O vento cortava o rosto de Jiyeon, deixando a pele ardida.


Ela respirou fundo, lembrando do que o monge dissera antes:

A força dentro dela não era inimiga.


Era lâmina.

Então fechou os olhos.

Sentiu o frio entrando pelos pulmões.


Sentiu o vento empurrando seu corpo.
33

Sentiu o chão vibrando sob os pés.

E sentiu… aquela coisa dentro dela.

Latente.
Assustada.
Mas viva.

Jiyeon abriu os olhos.

Abaixou-se.
Segurou a pedra.
E puxou.

O chão rangiu.

A pedra levantou do solo como se fosse mais leve.

Jiyeon ficou ofegante, não pelo esforço — mas pela sensação.


Como se a força tivesse atravessado os braços dela sem pedir permissão.

O monge observava, atento.

— De novo — disse ele.

Jiyeon levantou outra pedra.


Depois outra.

Com cada repetição, a vibração dentro do corpo dela crescia.

Mas com ela vinha algo perigoso:

o calor.

Um calor intenso, acumulando-se no peito, subindo pela garganta, pressionando por


dentro como se quisesse estourar.
34

O monge percebeu.

— Pare.

Mas Jiyeon não conseguia parar.


O corpo continuava se movendo sozinho, como se tivesse finalmente encontrado
uma forma de libertar a força.

— JIYEON! PARE!

Ela soltou a pedra.

Mas tarde demais.

O calor explodiu dentro do peito — um pulso vermelho que atravessou o corpo como
um impacto invisível.

O vento ao redor dela mudou de direção.


As bandeiras penduradas se esticaram.
A neve no terraço levantou-se como uma pequena tempestade.

O monge fechou o punho.

— Ela está acelerando — murmurou. — Não tão cedo…

Jiyeon caiu de joelhos, segurando o peito, ofegante.

— O que é isso?! — ela gritou, a voz quebrada. — POR QUE ISSO NÃO PARA?!

O monge veio até ela e segurou suas mãos.

— Porque seu corpo está aprendendo rápido demais.

— Isso é… bom?
35

Ele a olhou com seriedade profunda:

— Não.
Isso é terrível.

O vento parou de girar.


A vibração diminuiu.
A respiração de Jiyeon voltou ao normal… devagar.

Ela olhou para o mestre.

— Diga a verdade — murmurou. — O que você tem medo que aconteça comigo?

Ele demorou para responder.

Quando respondeu, foi simples:

— Que você deixe de ser humana antes de entender o que significa ser.

Jiyeon não soube o que dizer.

Mas entendeu perfeitamente.

Naquela montanha… ela não estava apenas ficando forte.

Ela estava mudando.

E ninguém sabia até onde essa mudança iria.

Nem mesmo ela.


36

CAPÍTULO 8 — As Noites em que a Montanha Sussurra

A montanha parecia viva à noite.

Não viva como um animal, nem como uma pessoa.


Era algo maior, antigo demais, pesado demais para ser compreendido.

Jiyeon aprendeu isso na primeira semana.

Depois que o sol se escondia atrás das rochas escuras, o vento mudava de tom.
Não era mais o sopro frio cortando o ar — era um murmúrio.
Baixo.
Consistente.
Quase… humano.

Ela tentava ignorar.


Tentava dormir.
Tentava esquecer o calor que, às vezes, pulsava dentro do peito como se quisesse
acordá-la.

Mas não conseguia.

E naquela noite, especialmente, o sussurro era mais claro.

Ela abriu os olhos devagar.


O teto de pedra estava coberto de sombras agitadas pela chama da lamparina.
O ar cheirava a incenso queimado — não o doce, mas o amargo, usado para afastar
espíritos.

Ela sentou-se lentamente.

O monge estava lá fora.


Sempre estava.

Mas os sussurros…
37

"Jiyeon…"

A voz era baixa, mas ríspida, como vento passando por metal.
Ela respirou fundo.
Não respondeu.

"Você já sente, não sente?"

A garota apertou a faixa vermelha amarrada à cintura.


O tecido tremia levemente, como se reagisse à presença daquela força.

Não havia ninguém na sala.

Mas a voz estava lá.

Ela fechou os olhos.


E foi quando viu —

não paredes,
não chão,
não o templo.

— mas um campo vazio, iluminado por uma luz azulada como luar filtrado em água.
A superfície era lisa, infinita, como se estivesse dentro de um espelho sem reflexo.

E ao longe…
uma silhueta.

Alta.
Humana.
Mas distorcida pelas sombras.

A figura não se aproximava.


Apenas observava.

Jiyeon deu um passo para trás.


38

— Quem é você? — perguntou.

O silêncio respondeu.

Mas então —
algo brilhou nos olhos da figura.

Vermelho.

— Não tenha medo — disse a voz.

Jiyeon sentiu o corpo tremer.

— Eu não tenho medo — ela respondeu.

A figura deu um passo.


E, com isso, o mundo tremeu junto.

— Mentira.
— Mas você vai aprender a usar o medo.

Ela tentou recuar, mas a superfície do chão se moveu como água sólida sob seus
pés, prendendo-a.

— O que você é? — sussurrou.

A figura inclinou a cabeça.


Os olhos vermelhos pareciam atravessar a carne dela, como se olhassem direto
para algo que ela ainda não conhecia completamente.

— Eu sou o que você será… se sobreviver.

Jiyeon sentiu o sangue gelar.

— E se eu não sobreviver?
39

A figura sorriu.
Um sorriso impossível, como um corte na escuridão.

— Então eu tomo o seu lugar.

A cena se despedaçou como vidro quebrando.

Jiyeon despertou de repente — o coração correndo como se estivesse lutando há


horas.

Ela estava sentada no tatame.


O suor escorria pelo rosto.
As mãos tremiam.

O monge entrou na sala tão rápido que parecia já saber.

— O que você viu? — perguntou.

Jiyeon levantou a cabeça.


Os olhos dela ainda tinham um brilho estranho — como se tivessem sido tocados por
outra luz que não existia ali.

— Eu vi… alguma coisa.

— Alguma coisa… ou alguém? — o monge insistiu.

Jiyeon ficou em silêncio.

O monge respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— Jiyeon… a montanha está testando você.


Ela está despertando o que deve e o que não deve ser despertado.

A garota finalmente falou:


40

— Mestre…
eu vi… uma sombra.
Com olhos vermelhos.
E ela disse que vai me substituir… se eu não sobreviver.

O monge fechou os olhos como quem escuta um presságio confirmado.

— Então começou.

— O quê?

Ele se ajoelhou ao lado dela.

— Os sussurros.
As visões.
As sombras com olhos vermelhos.

Jiyeon engoliu seco.

— Isso já aconteceu antes?

— Sim — disse ele.


— Mas nunca tão cedo.
— E nunca… tão claro.

Ele segurou o ombro dela.

— Você precisa entender, Jiyeon:


o que você viu não é um espírito, nem um inimigo.
É a parte mais perigosa de você.
É o que existe dentro dessa força.
É o que ela quer ser… se você não controlá-la.

Jiyeon tremeu.

— Você está dizendo que… isso pode tomar o meu lugar?


41

O monge assentiu.

— Se você deixar, sim.


— E se não deixar…
— então será você quem controla o que a montanha despertou.

A chama da lamparina oscilou.


O vento lá fora mudou de tom.
E Jiyeon finalmente entendeu:

O perigo não estava nas pedras.


Nem nos treinamentos.
Nem nos segredos do monge.

O verdadeiro perigo tinha a sua própria voz.


Sua própria forma.

E vivia dentro dela.


42

CAPÍTULO 9 — O Teste dos Três Dias

O templo esteve inquieto naquela manhã.

O vento não parava.


As bandeiras não descansavam.
E até as pedras do chão pareciam vibrar sob os pés de Jiyeon.

O monge esperava por ela no terraço, olhando para o horizonte branco de neve. As
mãos estavam cruzadas atrás das costas. A expressão… era de uma seriedade que
Jiyeon nunca tinha visto antes.

Quando ela se aproximou, ele não virou o rosto.

— Está na hora.

A garganta de Jiyeon secou.

— Hora de quê?

Ele finalmente olhou para ela.

— Do teste.

A palavra caiu como peso de pedra no peito dela.

— O "Teste dos Três Dias"? — ela perguntou, quase sem acreditar. — Você disse
que isso era para…

— Alunos mais velhos. — ele completou. — Eu sei.

Jiyeon sentiu o estômago apertar.

— Mas você também disse que… que alguns…

— Morrem — disse ele, sem suavizar. — Sim. Morrem.


43

— Os que sobrevivem, porém, renascem.

Ela apertou os punhos.

— Por que eu? Agora?

O monge respirou fundo, como quem carrega uma verdade pesada demais.

— Porque seus sussurros começaram cedo.


— Porque a sombra dentro de você já acordou.
— E porque, se você não enfrentar isso agora, ela vai crescer mais rápido que você.

A neve começou a cair outra vez.


Grossa.
Pesada.

Jiyeon engoliu o medo.


Ele não parava, mas… ela aprendeu a escondê-lo.

— O que eu tenho que fazer?

O monge fez um sinal com a mão.

E uma porta de pedra, que antes era apenas parte da parede da montanha, se abriu
lentamente — revelando uma entrada estreita que descia para a escuridão total.

Um ar gelado escapou dali de dentro.


Não era o frio comum.
Era o tipo de frio que parecia puxar algo da alma.

— Você ficará lá dentro por três dias — disse o monge.


— Sem fogo.
— Sem comida.
— Sem luz.
— Sem companhia.
44

Jiyeon sentiu o corpo estremecer.

— E o que tem lá?

O monge ficou em silêncio por longos segundos.

Depois respondeu:

— Você.

Ela olhou para o portal escuro.

— Meu corpo?

— Sua mente.
— Sua força.
— E a coisa que tenta tomar o seu lugar.

Ele se aproximou dela, colocando as mãos em seus ombros.

— Dentro daquela escuridão, você enfrentará três coisas:

1. O medo.

2. A memória.

3. A sombra.

O coração de Jiyeon bateu mais rápido.

— "A sombra"… aquele… aquele ser que eu vi?


45

O monge desviou o olhar.

— Não é um ser.
— É um reflexo.
— É o que você pode se tornar se não dominar o que carrega.

Jiyeon tremeu.
Mas não recuou.

— E se eu perder?

O monge não respondeu imediatamente.

Ele respirou fundo.


E então disse:

— Perder, Jiyeon… não significa morrer.


— Perder significa deixar que outra versão sua viva no seu lugar.

A boca dela ficou seca.

Ele continuou:

— E essa versão… não é humana.

O silêncio pesou entre os dois.

Mas Jiyeon apenas levantou o queixo — como alguém que já sabia, profundamente,
que nunca teve escolha.

— Eu vou entrar.

O monge a observou com olhos que carregavam ao mesmo tempo orgulho… e


medo.

— Lembre-se — disse ele. — A sombra sempre mente.


46

— Mas o medo, não.

Ela respirou fundo.


E deu o primeiro passo para dentro da escuridão.

A porta de pedra começou a fechar atrás dela.

— Mestre… — disse ela, antes que o portal se fechasse de vez. — Se eu não


voltar…

Ele respondeu com a voz firme, sem hesitar:

— Você vai voltar.


— Porque você nunca foi uma criança comum.
— E porque a montanha não te chamou para morrer.
— Te chamou para ser forjada.

A porta se fechou.

Tudo apagou.

E o Teste dos Três Dias começou.


47

CAPÍTULO 10 — Dia 1: O Medo Encontra um Nome

Jiyeon sempre acreditou que conhecia o silêncio.

Mas ali dentro… ela descobriu que não conhecia nada.

Quando a porta de pedra se fechou, o som do mundo desapareceu como se tivesse


sido arrancado.
Não havia eco.
Não havia vento.
Não havia o som da própria respiração — apenas o peso sufocante da escuridão.

Era tão completa que parecia líquida.


Pesada.
Quase viva.

Jiyeon deu um passo.

O chão soou como oco.


Frio.
Molhado.

Ela respirou fundo, mas o ar parecia denso demais, como se estivesse respirando
dentro de uma caverna que não queria que ela estivesse ali.

— É só escuridão — ela murmurou para si mesma. — Só isso.

Mas ela sabia que era mentira.

Porque, mesmo sem ver, ela sentia:

Algo ali dentro já sabia o nome dela.

**

Ela caminhou devagar, arrastando a mão pela parede úmida para não perder a
48

direção. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O espaço parecia… maior
por dentro, como se se expandisse com cada movimento.

Depois de algum tempo — minutos? horas? — a mente começou a perder a noção


de tempo.

E foi quando o primeiro sussurro apareceu.

"…Jiyeon…"

Ela congelou.

O som não veio da frente.


Nem de trás.
Veio de todos os lados.
Como se o ar falasse.

Ela respirou fundo.


Forçou-se a continuar andando.

"Você não devia estar aqui…"

Jiyeon apertou os dentes.

— Cale-se.

O sussurro riu.
Uma risada baixa, fraca, mas familiar — como se fosse uma memória antiga,
distorcida.

"Você tem medo, Jiyeon."

Ela parou.

As mãos suavam.
A garganta apertava.
49

O coração batia rápido demais.

Ela queria negar.


Ela queria mentir.

Mas ali dentro… mentir para si mesma não funcionava.

— Eu não tenho medo — ela sussurrou.

A escuridão pareceu engolir as palavras.

E então a voz mudou.


Ficou mais nítida.
Mais fria.

"E então por que está tremendo?"

Jiyeon olhou para as mãos — invisíveis — mas sentiu os dedos trêmulos.

Não.
Ela não ia ceder.

Ela colocou uma mão no peito e respirou profundo, tentando lembrar do mestre:

"Medo não é o inimigo.


Medo é o que mostra o caminho."

Ela caminhou.
Forçou-se a continuar.

Depois de muito tempo andando na escuridão — ou o que parecia muito tempo — o


sussurro mudou de tom:

"Você sabe…
que eles tinham medo de você."
50

Jiyeon parou.

"Seus pais."

A respiração falhou.

"Você viu.
Você ouviu.
Você sentiu."

A voz era suave demais.


Quase carinhosa.
E isso tornava tudo pior.

"Você acha que fugiu porque quis?


Ou porque sabia que estava deixando-os… aliviados?"

Jiyeon apertou o punho ao ponto de doer.

— Cale. A. Boca. — ela disse, a voz baixa e carregada.

O chão tremeu levemente — como se a própria montanha reagisse.

A sombra — aquela presença sem forma — riu outra vez.

"Primeiro dia…
e você já está quebrando."

Jiyeon fechou os olhos.


Respirou fundo.
E decidiu enfrentar a escuridão de frente.

— Quem é você? — ela perguntou.

Agora a voz não riu.


Ficou séria.
51

"Eu sou o que mora dentro de você desde o nascimento."

O estômago de Jiyeon se revirou.

"Eu sou o medo que seus pais viram.


Eu sou a força que seu mestre teme.
Eu sou a lembrança que você tenta esquecer."

A temperatura caiu bruscamente.


A visão, mesmo sem luz, pareceu ficar mais escura.

"Eu sou a primeira parte do teste."

Jiyeon não recuou.

— E qual é seu nome?

A voz ficou em silêncio por um segundo.

E então respondeu, em um tom que soou como lâmina sendo desencaixada:

"Meu nome… você já sabe."

Jiyeon sentiu algo às suas costas.


Algo perto demais.
Algo respirando.

Ela deu meio passo para frente.

— Você… é o medo.

A voz sorriu.

"Sim.
E até o fim do primeiro dia…
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você vai me conhecer melhor."

A escuridão se fechou em volta dela como um abraço gelado.

E o Dia 1 do teste continuou.


53

CAPÍTULO 11 — Dia 1: A Voz da Criança Esquecida

A escuridão já não parecia apenas ausência de luz.


Parecia ter forma.
Parecia ter intenção.

Parecia observar.

Jiyeon caminhava devagar, guiada apenas pelo instinto — porque ali dentro, instinto
era a única coisa que não podia ser falsificada.

Foi quando ela ouviu o som.

Um choro.

Baixo.
Quebrado.
Inconfundível.

O choro de uma criança.

O coração de Jiyeon disparou.


Ela sabia que aquilo não era real.
Sabia que era o teste, a montanha, a sombra — qualquer coisa — brincando com
sua mente.

Mas o som…
tocava algo nela que nunca cicatrizou.

Ela deu um passo.

O choro ficou mais perto.

Outro passo.

O choro virou soluço.


54

Até que, finalmente, a escuridão pareceu clarear só um pouco — não luz, não cor,
apenas… forma.
Como se alguém tivesse desenhado contornos no meio do nada.

Jiyeon piscou.

Havia algo no chão.

Um corpo pequeno.
Encolhido.
Tremendo.

Uma criança de uns cinco anos.

Jiyeon se aproximou devagar.

E quando a criança levantou o rosto…

… era ela.

Ela mesma.
Com cinco anos.
Com o mesmo corte de cabelo que a mãe fazia.
Com as mãos pequenas segurando os próprios joelhos.
Com os olhos cheios de lágrimas — olhos que ela nunca admitiu ter tido.

Jiyeon parou.

O ar sumiu de seus pulmões.

A versão infantil dela olhou direto em seus olhos e perguntou:

— Por que você me deixou aqui sozinha?

O corpo de Jiyeon travou.


55

Ela tentou responder, mas a voz não saiu.

A criança levantou-se.
Cada movimento dela parecia um espelho distorcido do passado — leve, frágil, mas
carregando uma dor que Jiyeon achava que tinha enterrado.

— Você sempre foi forte… — a menina sussurrou. — …mas eu não.

Jiyeon tremia.

— Isso não é real — ela murmurou.

A criança a olhou com tristeza.

— Então por que dói?

Jiyeon ficou em silêncio.

Ela lembrava daquela idade.


Lembrava do frio.
Do silêncio da casa.
Dos olhares do pai.
Dos cochichos da mãe.
Das visitas do monge.

E lembrava do pior:

A sensação constante de ser… demais.


Demais para os outros.
Demais para ser amada.
Demais para ser normal.

A criança deu mais um passo.

— Você me deixou — repetiu.


56

Jiyeon respirou fundo, engolindo a culpa como se fosse vidro.

— Eu não deixei você — ela disse, a voz baixa. — Eu… eu fiz o que precisava fazer.

A menina balançou a cabeça.

— Você fugiu e me abandonou.

Jiyeon fechou os olhos, sentindo algo que nunca permitia sentir:


fraqueza.

Quando voltou a olhar, a criança estava perto demais — perto o suficiente para
Jiyeon sentir o calor tremido do seu choro.

— Se você é tão forte… por que me deixou sofrer sozinha?

Jiyeon caiu de joelhos.

A dor emocional era tão real quanto dor física.


Talvez pior.

— Eu não sabia o que fazer — ela sussurrou.

A criança a encarou.

— Você sabia sim.

A escuridão ao redor delas pulsou.


Como um coração.

— Você sempre soube — a menina disse. — Você só não me quis.

Jiyeon sentiu uma faca invisível perfurar seu peito.

— NÃO! — ela gritou, pela primeira vez perdendo completamente o controle. — Eu…
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eu te quis! Eu só… não consegui te proteger!

A menina ficou silenciosa.

A escuridão esperou.

Jiyeon tremia como se estivesse congelando por dentro.

— Eu… — ela respirou fundo — eu não sabia como te salvar.


— Eu não sabia como ser normal.
— Eu não sabia como ser filha.
— Eu não sabia… nada.

A criança a olhou com olhos vermelhos de choro.

E então… sorriu.
Um sorriso pequeno.
Triste.
Mas real.

— Então por que você nunca disse isso?

A visão começou a desfazer-se — como fumaça levada pelo vento.

A criança desaparecia.

E antes de sumir completamente, sussurrou:

— Eu te perdoo.
— Agora vá.

A escuridão voltou.
Pesada.
Densa.
Silenciosa.
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Mas algo dentro de Jiyeon havia mudado.

A sombra que observava — aquela presença sem rosto — falou pela primeira vez
desde o encontro:

"Primeiro medo superado."

Jiyeon se levantou devagar.


Os joelhos tremiam.
Os olhos ardiam.

Mas ela estava de pé.

E viva.

O Dia 1 continuava.
Mas a primeira ferida… estava cicatrizando.
59

CAPÍTULO 12 — Dia 1: Quando a Montanha Mostra o Que Nunca Aconteceu

Depois do encontro com a criança, o silêncio voltou.

Mas não era o mesmo silêncio de antes.

Era um silêncio… que observava.


Que esperava.
Que respirava junto com ela.

Jiyeon caminhava devagar, sem saber quanto tempo havia passado dentro da
escuridão. Podia ser uma hora. Podiam ser dez. Podia ser um dia inteiro.

Ali dentro, tempo não tinha forma.

A montanha controlava tudo.

Ela seguiria até encontrar a próxima parte do teste.

E encontrou.

De repente, o chão ficou mais firme.


O ar menos denso.
A escuridão se abriu — não em luz, mas em forma.

Como se o mundo tivesse sido desenhado com sombras mais claras.

Jiyeon piscou.

Agora ela estava em… sua casa.

A casa dos Seo.


A sala onde passara a infância.
Cada detalhe igual:
o tatame impecável,
as portas de correr,
60

a mesa baixa,
as lanternas penduradas.

Mas tudo… parado.


Como se ninguém respirasse ali há anos.

Jiyeon deu um passo hesitante.

A sala não desapareceu.

Ela apertou os punhos.

— Isso não é real.

Nenhuma resposta.

Ela caminhou para o corredor.


Um frio atravessou sua coluna.
Mas ela continuou.

E então viu algo que fez o coração dela parar.

A cozinha.
A mãe.

Viva.

Não chorando.
Não desesperada.
Não quebrada.

Mas… sorrindo.

Preparando chá.
Cantando baixinho — uma música de ninar que Jiyeon mal lembrava, mas que
reconheceu imediatamente, mesmo tantos anos depois.
61

A mãe virou-se.

E sorriu.

— Jiyeon, querida… venha comer.

A voz era suave.


Quente.
Maternal.

Jiyeon congelou.

Não.
Isso não.
Isso era cruel demais.

— Isso não aconteceu. — ela disse, a voz trêmula. — Você nunca… me chamou
assim.

A mãe se aproximou.

Tocou seu rosto com carinho.

— Eu sempre te amei, minha pequena.

Jiyeon recuou como se tivesse levado um golpe.

— Não.
Pare.
Isso não é real.
Minha mãe… nunca… me olhou assim.

A figura não desapareceu.

Pelo contrário.
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Ela aproximou-se mais, como se quisesse envolvê-la.

— Nós fizemos tudo errado, Jiyeon — disse, com voz embargada. — Devíamos ter
te protegido. Devíamos ter te ouvido. Devíamos ter sido pais melhores.

O estômago de Jiyeon revirou.


As pernas ficaram fracas.

— NÃO — ela murmurou. — NÃO DIGA ISSO.

A mãe chorou.
Lágrimas reais — ou parecendo reais — escorrendo pelo rosto.

— É culpa nossa.
— Você fugiu porque nós te machucamos.
— Você foi embora porque não te demos amor.

Jiyeon apertou a cabeça com as duas mãos.


O coração batia tão forte que ela mal conseguia pensar.

— Isso não aconteceu… — ela repetiu, quase sem voz. — Isso nunca… nunca
aconteceu…

E então, atrás da mãe, uma segunda figura apareceu.

O pai.

Não ríspido.
Não frio.
Não distante.

Mas com o rosto quebrado de arrependimento.

— Jiyeon — ele disse, ajoelhando-se diante dela. — Eu falhei com você. Eu falhei
como pai. Me perdoe.
63

Ela deu um passo para trás.


Outro.
Outro.

— PAREM! — gritou, finalmente. — VOCÊS NÃO SÃO MEUS PAIS!


— Eles nunca foram assim!

As figuras continuaram se aproximando, repetindo:

— Perdoe a gente…
— Por favor…
— Não vá…
— Não nos deixe…
— Volte para casa…

O som começou a distorcer.


As vozes se sobrepunham.
Os rostos tremiam, desfazendo-se como tinta correndo na água.

Jiyeon sentiu o coração rasgar dentro do peito.

Ela queria correr.


Queria fechar os olhos.
Queria desaparecer.

Mas ela lembrou daquilo que o mestre sempre dizia:

"A montanha mente."

Ela respirou fundo.


Levantou o rosto.
E encarou as figuras quebradas.

— Vocês não são meus pais — disse.


64

— Vocês são o que eu queria ter tido.


— Mas não o que eu tive.

As figuras congelaram.

A mãe sussurrou:

— Então… você não nos quer?

Jiyeon fechou os olhos.


Uma lágrima escorreu — silenciosa, quente, solitária.

— Eu queria vocês — ela murmurou. — Mas vocês não existiram.

A sala inteira começou a rachar — como vidro quebrando por dentro.

O pai tentou agarrá-la.

— JIYEON!
— NÃO NOS DEIXE MORRER DE NOVO!

Ela deu um passo para trás.

— Vocês nunca viveram.

E então —
tudo desabou.

A casa sumiu.
As figuras desapareceram.
O chão se abriu.
E a escuridão engoliu tudo como se estivesse faminta.

Por um instante, Jiyeon ficou caída no nada absoluto.


Respirando fundo.
Tremento.
65

Viva.

A voz da sombra finalmente se manifestou.

"Segundo medo superado."

Jiyeon fechou os olhos, exausta.

Mas forte.

Muito forte.

O Dia 1 ainda não tinha terminado.


Mas ela… estava de pé.
66

CAPÍTULO 13 — Dia 1: O Primeiro Confronto com a Sombra

A escuridão demorou alguns segundos para se condensar novamente depois de


desmoronar a ilusão da casa. Jiyeon ficou ajoelhada no chão áspero, respirando
como se tivesse corrido por horas, embora não tivesse dado um único passo.

Era isso que a montanha fazia:


cansava a mente para depois atacar o corpo.

Ela levantou devagar.


As pernas tremiam — mas ela se forçou a ficar firme.
Respirou fundo.

A escuridão… respirou de volta.

Não era como antes, quando parecia apenas um véu denso cobrindo tudo.
Agora, a escuridão tinha peso.
Tinha presença.
Tinha intenção.

Jiyeon deu um passo à frente, tentando entender o novo espaço.


Mas não havia espaço.
Ela não estava em um corredor, nem em uma sala, nem em uma memória distorcida.

Ela estava em um vazio vivo.

E nesse vazio, algo se moveu.

Primeiro, um ruído.
Baixo.
Quase imperceptível.
Como unhas arranhando pedra.

Depois, outro.
Mais perto.
67

Jiyeon estreitou os olhos, preparando a postura de luta.

— Apareça — disse ela, com a voz firme, mesmo que o peito doesse.

A resposta foi um sussurro —


não vindo de um ponto,
mas de todos ao mesmo tempo.

"Você quer mesmo me ver, Jiyeon…?"

A voz era dela.


A voz era da criança.
A voz era da mãe falsa.
A voz era a do monge.
Todas… e nenhuma.

Um borrão emergiu da escuridão.


Alto, magro, contorcido.

Jiyeon ergueu os punhos.

O borrão deu dois passos — e então tomou forma.

Era ela.

Ela mesma.

Mas distorcida.

Jiyeon congelou.

A réplica tinha seu corpo, mas mais alto, mais longo, mais curvado.
A pele parecia rachada, como porcelana quebrada segurando sombra dentro.
Os olhos eram dois vazios negros, profundos, famintos.
68

E quando abriu a boca, não havia dentes.


Só escuridão.

"Você correu a vida inteira", disse a criatura.


"Mas nunca de mim."

Jiyeon sentiu o coração acelerar — não por medo, mas por reconhecimento.

Ela sabia o que era aquilo.

Sua Sombra.

Não metáfora.
Não simbolismo.
Literalmente a energia proibida que os monges comentavam — a parte do poder que
ela nunca controlou, que cresceu, se alimentou e criou consciência dentro dela.

A sombra deu mais um passo.

Cada movimento dela era uma versão errada, torcida, exagerada dos movimentos
reais de Jiyeon —
como um reflexo em um espelho quebrado e afogado na escuridão.

"Eu nasci com você."


"Eu cresci quando você fugiu."
"Eu fiquei forte quando você lutou."
"Eu fiquei faminta quando você venceu."

Jiyeon cerrrou os dentes.

— Eu não vou fugir agora.

A sombra inclinou a cabeça suavemente — um movimento que Jiyeon reconheceu


como seu próprio tic de observação, algo tão íntimo que a fez estremecer.

"Eu sei."
69

"E por isso você vai morrer aqui."

A criatura atacou.

Não com um rugido.


Não com gritos.
Mas silenciosamente — como Jiyeon atacaria.

Rápida.
Precisa.
Mortal.

Jiyeon desviou na última fração de segundo, sentindo a fumaça escura passar pelo
seu ombro como uma lâmina gelada.

Ela recuou dois passos.

A sombra repetiu exatamente os mesmos dois passos —


como um espelho atrasado.

Jiyeon franziu o cenho.

— Você imita.
— Mas não entende.

A sombra sorriu — um sorriso que parecia rasgar o rosto.

"Eu entendo você melhor do que você mesma."

A criatura avançou outra vez.


E dessa vez, não esperou.
Foi direta na garganta.

Jiyeon segurou o braço dela — ou o que parecia ser um braço — e sentiu a textura
quebradiça, como segurar carvão prestes a virar pó.
70

A sombra inclinou a cabeça, estudando-a.

"Forte… mas quebrada."

Jiyeon empurrou a criatura para longe.


Preparou a postura.
Respirou fundo.

Ela não poderia lutar como sempre lutava.


A sombra aprenderia.
Copiaria.
Melhoraria.

Era isso o teste.

A montanha queria saber:

Jiyeon sabia lutar contra si mesma?

A sombra disse, com a voz dela misturada à de centenas de outras:

"Eu sou tudo que você não quer admitir."

E avançou novamente.
71

CAPÍTULO 14 — Dia 1: Lutar Contra o Próprio Corpo

A sombra avançou sem som, sem pausa, sem respiração — como se o próprio ar
estivesse colapsando na direção de Jiyeon.
Não era como lutar contra uma pessoa.
Era como lutar contra um eco que já sabia o fim do movimento antes dele começar.

Jiyeon girou o tronco, desviando do golpe que mirava seu pescoço, mas a sombra
ajustou a trajetória no mesmo instante, como um reflexo perfeito.

Um reflexo impiedoso.

O impacto veio no peito.


Seco.
Gelado.
Forte o suficiente para empurrá-la três passos para trás.

Ela cravou os pés no chão e respirou, ignorando o ardor que se espalhava pela
caixa torácica.

A sombra inclinou a cabeça — exatamente como Jiyeon fazia quando analisava


padrões de um inimigo.

"Você não aprendeu nada fugindo."

A voz dela, mas com um peso que Jiyeon nunca teve.

— Eu não fugi — Jiyeon rosnou. — Eu sobrevivi.

A sombra avançou outra vez.

Jiyeon bloqueou com o antebraço.


O impacto fez sua pele arder como se estivesse sendo congelada por dentro.
Ela desviou o segundo golpe e tentou contra-atacar, mas…
a sombra já estava um passo à frente.
72

Era impossível.

Cada postura que Jiyeon conhecia — caratê, muay thai, krav maga, karatê
kyokushin, taekwondo, jiu-jitsu, aikido, sanda —
a sombra também conhecia.
Refletia.
Aprimorava.

Tudo era um espelho de pesadelo.

Jiyeon recuou quando percebeu isso.


Não por medo.
Mas por estratégia.

A sombra seguiu.

Sempre a mesma distância.


Sempre o mesmo ritmo.
Copiando o recuo.

Era como lutar contra a versão dela que nunca hesitou, nunca se feriu, nunca se
cansou.
A versão dela criada daquilo que ela reprimia.

Finalmente, Jiyeon entendeu.

— Você não está copiando meus movimentos… — ela murmurou, limpando o


sangue que começava a escorrer do canto da boca. — Está copiando meus instintos.

A sombra sorriu — um sorriso fino, doentio, com a boca cheia de escuridão viva.

"Sim."

Ela avançou.

Desta vez, Jiyeon não tentaria lutar de igual.


73

Seria derrotada em segundos.

Então ela fez o impossível:


mudou sua postura para uma que nunca dominou por completo.

Capoeira.

A sombra hesitou por meio segundo — e meio segundo era o bastante para alguém
como Jiyeon.

Ela girou o quadril, o corpo fluindo de maneira improvisada, usando leveza e ritmo —
duas coisas que não combinavam com seu corpo forte, e que portanto a sombra não
tinha como prever.

O pé de Jiyeon acertou o queixo da criatura.

A sombra cambaleou.

Pela primeira vez.

Jiyeon aterrissou no chão, o coração disparado.

A sombra tocou o próprio queixo — a escuridão recuando e se recompondo.

"Então você quer jogar assim…"

E fez algo novo.

A sombra começou a rasgar o próprio corpo — abrindo fissuras profundas que


revelavam um vazio ainda mais negro.
Das fendas, mãos surgiram.
Patas.
Armas.
Formas que não pertenciam a coisa alguma conhecida.

Jiyeon arregalou os olhos.


74

Não era mais um reflexo.

A sombra havia aprendido o suficiente para criar um novo corpo.

— Ótimo — Jiyeon rosnou, cerrando os punhos. — Parou de imitar.


— Vamos ver quem fica de pé.

A sombra sorriu, agora com três bocas.

"Eu."

Ela atacou com três direções ao mesmo tempo.

Jiyeon bloqueou o primeiro.


Desviou do segundo.
Rolou por baixo do terceiro.

O chão tremeu.
A escuridão se torceu.
E a luta virou algo que não podia mais ser descrito como humano.

A criatura era rápida, irregular, imprevisível.

Jiyeon era humana.

Mas humana treinada para sobreviver ao impossível.

A sombra avançou pelas paredes, pelo teto, pelo chão —


movendo-se como líquido vivo, cercando-a, testando aberturas, procurando
fraquezas.

Jiyeon percebeu que não podia vencer pela força.

Precisava vencer pela lógica.


75

E lembrou do que o monge sempre dizia:

"Toda sombra só existe porque há algo mais brilhante projetando a luz."

Então, ela fez algo impensável:

Parou de lutar.

Baixou os braços.
Abaixou a guarda completamente.

A sombra congelou.

Três bocas sorriram ao mesmo tempo.

"Desistiu?"

Jiyeon levantou o rosto.

Seus olhos — tão escuros quanto o vazio — brilharam com algo que a sombra não
tinha.

Calma.

— Não — ela disse. — Só estou te mostrando que você não manda em mim.

A sombra rugiu.
Um rugido rasgado, vindo de mil lugares ao mesmo tempo.

Ela saltou sobre Jiyeon —

E atravessou.

Como fumaça.

Como nada.
76

A escuridão explodiu atrás dela, se desfazendo em pedaços que se dissipavam no


ar.

A voz da montanha ecoou, profunda, orgânica, viva:

"Terceiro medo superado."

Jiyeon caiu de joelhos, exausta.

A sombra recuou para dentro dela —


não como vitória,
mas como aceitação.

O vazio ficou leve por um instante.

Não iluminado —
mas menos hostil.

Dia 1… ainda não tinha acabado.

Mas ela tinha vencido a pior parte.


77

CAPÍTULO 15 — Dia 1: O Julgamento da Mente

Por alguns segundos — ou talvez minutos — Jiyeon ficou de joelhos na escuridão,


tentando recuperar o ar que a sombra havia arrancado dela.
Seu corpo tremia.
Suas mãos latejavam.
A cabeça pulsava como se alguém a comprimisse por dentro.

Mas ela não se levantou ainda.


Sabia que não podia.

A montanha esperava isso.

O chão abaixo dela era frio, quase gélido, mas a temperatura não era o que mais
incomodava.
Era a sensação.
Aquela sensação que vinha desde a infância, desde antes de fugir, desde antes de
ser treinada:

A sensação de estar sendo observada.

E finalmente, a montanha falou.

Não em voz humana.


Não com som real.

Mas dentro da mente dela — como um pensamento que não era dela.

"Você superou o reflexo."

Jiyeon ergueu o rosto lentamente, as pupilas dilatadas.

"Agora deve superar… o peso."

Ela engoliu seco.


78

— O peso de quê?

A resposta veio como um trovão silencioso:

"De existir."

A escuridão se moveu.

Não para criar ilusões.


Não para criar monstros.
Mas para abrir um espaço que não era físico —
uma clareira mental.

E quando Jiyeon pisou nela, percebeu que não havia chão.

Apenas memória.

Ela estava em um vazio onde as lembranças flutuavam como fragmentos de vidro:

a primeira vez que ela treinou com o monge;

o dia em que roubou comida para sobreviver;

o momento em que uma senhora deu a ela pão sem perguntar nada;

a noite em que dormiu sob a chuva, tremendo, sozinha;

o olhar de desprezo do pai;

a frieza indiferente da mãe;

o som do portão fechando quando ela fugiu.

Cada memória girava ao redor dela — como se o passado tivesse se cortado em


pedaços e agora a montanha a obrigasse a tocá-los.
79

Jiyeon estendeu a mão para uma das memórias — a dela treinando aos 15 anos.

Assim que seus dedos tocaram o fragmento, ela foi puxada para dentro.

**

Ela estava lá —
jovem, magra, faminta, exausta.

O monge dizia:

— Sua mente é frágil porque você nunca a enfrentou.


— Sempre correu dela.

A Jiyeon mais jovem tentava se defender:

— Eu fiz o que precisei para sobreviver.

O monge olhou profundamente nos olhos dela.

— Sobreviver não é viver.

Jiyeon observou a si mesma, anos atrás, e sentiu uma dor que não esperava.

Ela queria tocar aquela garota.


Dizer que estava orgulhosa.
Dizer que ela tinha sido forte demais para sua idade.

Mas a memória não ouvia.

Era apenas o passado, imóvel, cruel.

A montanha falou novamente — agora dentro da memória:

"Você carrega culpa pelo que não deveria.


80

Carrega falhas que não são suas.


E carrega pesos que outros colocaram em você."

A cena se partiu.
Fragmentos se contorceram.
A paisagem virou uma tempestade de lembranças.

— Basta… — Jiyeon murmurou. — Eu já sei quem eu fui.

"Mas não sabe quem é."

O vazio se rompeu —
e Jiyeon caiu.

Por longos segundos, ela caiu para dentro de si.

E quando finalmente parou, estava de pé no centro da própria mente.

Era um espaço branco infinito.


Calmo.
Frio.

E no centro dele, havia uma pequena mesa.


E sobre ela:
um espelho.

Jiyeon caminhou até ele.

Devagar.
Sem pressa, sem tremor.

Ela olhou seu reflexo.

Só que não era o normal.

Era o reflexo verdadeiro —


81

não físico,
não emocional,
não espiritual.

O reflexo que mostrava quem ela era quando ninguém estava olhando.

E não era bonito.

Seus olhos estavam pesados.


Seu rosto tinha cicatrizes invisíveis.
O cansaço era profundo.
E havia um vazio no lugar onde deveria haver tranquilidade.

Jiyeon encarou aquilo sem desviar.

— Então é isso… — ela murmurou. — Esse é quem eu sou?

A montanha respondeu:

"É quem você se tornou…


carregando o peso de tudo sozinha."

Jiyeon apertou os punhos.

— Eu não tinha opção.

"Tem agora."

A superfície do espelho começou a rachar.

Primeiro como pequenas linhas.


Depois como fraturas profundas.

Até que o vidro explodiu —


e o reflexo se tornou algo novo.
82

Era ela.
Mas diferente.
Mais forte.
Mais serena.
Mais inteira.

A versão dela que ainda não existia —


mas podia existir.

A montanha falou pela última vez:

"Para chegar ao Dia 2…


você precisa decidir."

Jiyeon respirou fundo.

— Decidir o quê?

"Se quer… realmente viver."

A luz estourou ao redor dela.

E o episódio terminou.
83

CAPÍTULO 16 — Dia 1: O Peso de Continuar Viva

A luz explodiu ao redor dela, mas não era uma luz quente.
Era uma luz branca, fria, quase clínica.
Tão pura que fazia o peito apertar — como se ela estivesse sendo analisada,
dissecada, exposta.

Quando os olhos de Jiyeon se acostumaram, ela percebeu que estava de pé em um


espaço completamente vazio.
Sem chão real.
Sem paredes.
Sem teto.

Apenas nada.

Um nada que pesava.

Ela tentou respirar — e até isso parecia difícil, como se o ar estivesse preso dentro
de si.

A montanha não falou dessa vez.

Nada.
Nenhum som.
Nenhuma voz.
Nenhuma ordem.

Só o vazio.

O tipo de vazio que não dá respostas.


Que não diz o caminho certo.
Que não protege.

O tipo de vazio onde a mente humana se perde, se quebra, se dissolve.


84

Jiyeon ficou ali, imóvel, por tempo demais para conseguir contar.

Minutos.
Horas.
Talvez dias.

Nada acontecia.

E era isso o teste.

Ela começou a sentir o ar faltar.


Não porque o lugar estivesse sem oxigênio —
mas porque o silêncio se transformava em opressão.

A sensação de existir…
começou a ficar pesada.

Muito pesada.

E então, finalmente, a montanha falou.

Mas não foi com voz séria.

Nem com voz mística.

Foi com a voz dela mesma —


fria, cansada, exausta:

"Por que você insiste em continuar viva?"

A pergunta caiu como um golpe no estômago.

Jiyeon piscou, confusa.

A voz repetiu:
85

"Por quê?"

E pela primeira vez desde que chegou ali, a resposta não veio pronta.

Ela abriu a boca.

E percebeu que não fazia ideia do que dizer.

Era verdade.

Por que ela continuava viva?

Ela nunca tinha se permitido pensar nisso.

Ela só… seguia.

Sobrevivendo.
Lutando.
Vagando.
Respirando por obrigação, não por vontade.

A voz continuou:

"Não existe ninguém esperando por você."

Jiyeon fechou a mandíbula.


Quis reagir — mas não podia mentir para si mesma.

A montanha continuou:

"Você não tem casa."

As mãos dela tremeram.


Mas permaneceu em silêncio.

"Você não tem família."


86

O peito dela se apertou, como se os ossos estivessem se quebrando por dentro.

"Você não tem um futuro definido."

A respiração ficou curta.

"Você não tem ninguém que precise de você."

E então, a pergunta final:

"Então por que não desiste?"

Jiyeon sentiu a garganta fechar.

O silêncio respondeu primeiro.

Depois… veio a voz dela.

— Porque… — ela murmurou, sem conseguir completar a frase no início. — Porque


eu ainda… respiro.

A montanha não respondeu.

— Porque eu ainda estou aqui. — ela continuou, um pouco mais firme. — E se eu


ainda estou aqui… então tem alguma coisa… alguma coisa esperando por mim.

Uma brisa leve — leve demais para fazer sentido — passou ao redor dela.

Era a montanha ouvindo.

Jiyeon respirou fundo.

— Eu não tive nada. — ela continuou. — E mesmo assim… sobrevivi.

Um segundo de silêncio.
87

— Então eu quero ver o que eu posso ter.


— Eu quero ver o que existe além do que me deram.
— Eu quero… viver.

A luz ao redor dela tremeu — como se tivesse sido tocada.

Então a montanha perguntou:

"Você quer viver… por si mesma?"

Jiyeon fechou os olhos.

E pela primeira vez desde que tinha 12 anos…

Ela disse:

— Sim.

O chão finalmente apareceu sob seus pés.


O peso diminuiu.
O ar voltou.

A luz se recolheu.

E ela despertou de pé na escuridão original da montanha — ofegante, trêmula, mas


intacta.

O primeiro sinal de aprovação chegou como um sussurro profundo, quase orgânico,


vindo das paredes:

"Quarto julgamento superado."

Jiyeon limpou a testa — estava suada, embora fizesse frio.

Ela respirou fundo.


88

— Então… — murmurou. — O Dia 1 ainda não acabou.

E seguiu em frente.

Com passos firmes.

Com um coração que finalmente sabia por que batia.


89

CAPÍTULO 17 — Dia 1: A Coroa de Medos

A escuridão ao redor de Jiyeon começou a se mover de forma diferente quando ela


deu o primeiro passo adiante.
Não era mais um vazio estático.
Era algo vivo, que se afastava quando ela caminhava, como se respeitasse seu
espaço após ouvi-la afirmar que desejava viver.

Mas esse respeito não significava suavidade.

A montanha estava apenas preparando o terreno.

O ar ficou pesado como fumaça densa.


As paredes invisíveis pulsavam como um coração gigante.
A temperatura caiu a ponto de a respiração de Jiyeon virar neblina diante de seus
lábios.

Ela sabia intuitivamente:

O próximo teste seria o mais antigo de todos.


A raiz de todos os medos.
O medos dos próprios medos.

E quando a escuridão se abriu diante dela, Jiyeon viu algo que a fez parar.

Era um trono.

Mas não um trono real, ou de pedra, ou de madeira.

Era um trono construído de fragmentos do Dia 1:

pedaços da casa falsa

restos da criança distorcida

estilhaços do reflexo quebrado


90

vultos da sombra

memórias da mente vazia

a voz do monge, não como pessoa, mas como sensação

o som do pai

o silêncio da mãe

as frases que a montanha disse

Tudo isso formava um trono de medo, pulsante, vivo, respirando.

Jiyeon encarou aquilo sem piscar.

O trono tremeu.

E então, uma figura começou a se formar sentada nele.

Uma figura que… não tinha definição.

Ela era muitas coisas ao mesmo tempo:

um vulto

uma criança

um adulto

ela mesma

a sombra
91

um monge

um animal

ninguém

todo mundo

A figura mudava a cada segundo, como um caleidoscópio amaldiçoado.

E o pior:

Ela emanava familiaridade.

Jiyeon se aproximou devagar.

A figura falou — com mil vozes, mil tons, mil verdades.

"Finalmente."

O trono tremeu.

"Você chegou até mim."

Jiyeon estreitou os olhos.

— Quem é você?

A figura sorriu — ou tentou.

"Eu sou o que existe no centro de tudo que você teme.


Eu sou o que governa seus medos."

Ela não recuou.


92

— Você é só mais uma ilusão.

A figura inclinou a cabeça.

"Eu sou todas."

E então, com um movimento brusco, ela se transformou em algo estável.

Algo que fez o estômago de Jiyeon virar.

Ela mesma.

Mas desta vez, não era a sombra.


Não era uma versão distorcida.
Não era um reflexo exagerado.

Era ela, exatamente como era aos 12 anos, no dia em que fugiu.

A mesma roupa suja.


O mesmo olhar desesperado.
A mesma fome.
A mesma sensação de abandono.

A Jiyeon de 12 anos levantou do trono.


Os pés descalços tocaram o chão frio.
Os olhos — os mesmos olhos intensos e escuros — olharam para a mulher que ela
se tornou.

A criança deu alguns passos até ficar a um metro de distância dela.

E então perguntou:

"Por que você me abandonou?"

O impacto emocional foi tão forte que Jiyeon sentiu o corpo estremecer.
93

Ela tentou responder:

— Eu… não abandonei…

Mas a criança a cortou:

"Por que você me deixou sozinha naquela noite?"

A memória atingiu com força.

Chuva.
Frio.
Medo.
Escuridão.
O portão se fechando atrás dela.

A criança continuou:

"Por que você nunca voltou para me buscar?"

Jiyeon sentiu as mãos tremerem.

Não era medo.


Era culpa.

A culpa antiga.
A mais profunda.
A mais secreta.

Jiyeon tentou falar:

— Eu não podia… voltar…

Mas a criança deu um passo para frente.

"Você me deixou lá.


94

Eu dormi na rua.
Eu passei fome.
Eu chorei sozinha.
Eu quis morrer."

As palavras eram facadas lentas, precisas.

Jiyeon cerrou os punhos.

— Eu fiz o que pude…

A criança gritou:

"VOCÊ ME ABANDONOU!"

A montanha inteira ecoou a palavra.

E o trono começou a se desfazer, como se estivesse esperando a resposta certa.

Jiyeon respirou fundo.

Baixou a cabeça.

E disse a única verdade que nunca tinha dito nem para si mesma:

— Eu não te abandonei.
— Eu sobrevivi por nós duas.

A criança parou.

Jiyeon continuou, agora com a voz firme:

— Eu lutei.
— Eu sangrei.
— Eu tremi.
— Eu quase morri tantas vezes…
95

Os olhos da criança tremeram.

— Mas eu nunca te abandonei — Jiyeon disse, com lágrimas silenciosas caindo. —


Eu carreguei você comigo todos os dias.
— E eu ainda carrego.
— Eu só… sobrevivi do único jeito que consegui.

A criança respirou fundo.


E pela primeira vez, não parecia zangada.

Parecia…

Aliviada.

A pequena Jiyeon deu um passo para trás.


O trono começou a se dissolver.
O solo tremeu.

A criança tocou a mão da Jiyeon adulta.

— Obrigada… por não deixar a gente morrer.

E então, desapareceu.

Evaporou como neve no sol.


Silenciosamente.

A montanha falou, agora com voz profunda, quase orgulhosa:

"Quinto julgamento superado."

Jiyeon enxugou as lágrimas com o antebraço.

— Falta mais? — perguntou, cansada, mas de pé.


96

"Sim."

A escuridão se abriu, revelando um túnel estreito.

"O teste final do Dia 1 te espera."

Jiyeon respirou fundo.

E entrou.
97

CAPÍTULO 18 — Dia 1: O Coração do Medo

O túnel era estreito demais para ser natural.

Jiyeon teve de entrar de lado, o braço raspando nas paredes úmidas e frias.
Cada passo parecia forçado — não porque o caminho fosse difícil, mas porque algo
invisível empurrava contra ela, como se a montanha estivesse tentando impedi-la de
avançar.

Era estranho.

Todos os outros testes haviam sido claros, diretos, violentos.


Mas este… este era silencioso demais.

Quando ela deu mais três passos, o túnel se abriu.

E Jiyeon emergiu em um espaço completamente diferente de tudo que já tinha visto


ali dentro.

Uma sala circular, enorme, silenciosa.


O teto era alto, perdido na escuridão.
O chão tinha um padrão de círculos concêntricos gravados em pedra, como um selo
antigo.

No centro da sala…

Havia uma mesa baixa.

E sobre ela, um objeto envolto em tecido vermelho.

Jiyeon não se aproximou imediatamente.


Circulou a sala, estudando cada símbolo gravado nas paredes.

E percebeu algo:

Todos os símbolos eram representações de medo humano.


98

solidão

escuridão

dor

morte

abandono

perda

desespero

impotência

angústia

vazio

Era isso.

Esta era a sala que continha o significado do Dia 1.

O coração do medo humano.

Quando finalmente se aproximou da mesa, o tecido vermelho pareceu pulsar —


como se tivesse vida própria.

Jiyeon não hesitou.

Ela puxou o tecido.

E viu.
99

Era um coração.

Um coração humano — forte, firme, perfeitamente preservado, como se ainda


estivesse vivo.
Ele batia devagar, com um brilho escuro a cada pulsação.

Jiyeon sentiu o estômago revirar.

— O que é isso…?

A montanha respondeu.

"É o coração do medo."

A voz vinha de todos os lados, profunda, densa, ancestral.

"Cada ser humano carrega um.


Um ponto onde tudo o que teme nasce, cresce, respira."

Jiyeon encarou o coração, fascinada e desconfiada ao mesmo tempo.

"Para concluir o Dia 1…


você precisa tocar."

Ela engoliu seco.

— É um teste espiritual?

"É um teste de verdade."

O coração pulsou mais forte.

PÁ.
PÁ.
PÁ.
100

Jiyeon sentiu o ar pesar.


O chão tremer.
Seu peito apertar.

— E se eu tocar… e não aguentar?

"Então você morre."

Simples assim.

Sem metáforas.
Sem enigmas.

Morre.

Jiyeon fechou os olhos por um instante.

Ela sabia que não podia recuar.


Sabia que se hesitasse agora… todo o resto da montanha viraria uma prisão
interminável.

Respirou fundo.

E estendeu a mão.

Quando seus dedos tocaram o coração, tudo explodiu.

**

Ela não viu uma visão.


Não viu uma memória.
Não viu uma ilusão.

Ela sentiu.
101

Sentiu cada medo que já teve na vida — todos ao mesmo tempo.

Abandono.
Solidão.
Dor.
Frio.
Raiva.
Culpa.
Vergonha.
Fome.
Fragilidade.
Dúvida.
Perda.
Futuro.
Fracasso.
Desamparo.
Vazio.
Não ser suficiente.
Não ser querida.
Não ser amada.
Nunca encontrar um lugar no mundo.

O peso esmagou sua mente.


Seu corpo.
Sua alma.

Seu joelho tocou o chão.

Ela sentiu o coração dela parar por um segundo —


porque estava sentindo a dor de viver todas as vidas que não viveu.

A voz da montanha murmurou:

"Isso é a humanidade."
102

O chão tremeu mais forte.

"Isso é o que você tentou matar dentro de si para sobreviver."

A respiração de Jiyeon sumiu por completo.


Ela caiu com a mão no chão.

A dor era insuportável.

Como se o coração do medo estivesse sugando tudo de dentro dela.

Mas então —

Bem no fundo de tudo aquilo —


um único pensamento surgiu.

Fraco.
Quebrado.
Mas real.

“Eu não terminei.”

E esse pensamento, sozinho, queimou mais forte que qualquer medo.

Não foi esperança.


Não foi fé.
Não foi coragem.

Foi vontade.

A vontade de continuar existindo.


A vontade de aprender a viver.
A vontade que ela finalmente admitiu no capítulo anterior.

O corpo dela tremeu, mas ela levantou.


Devagar.
103

Aos poucos.
Como se carregasse uma montanha inteira nos ombros.

E então…
soltou o coração.

O objeto parou de pulsar.

Silêncio.

A montanha esperou um segundo.


Depois outro.
E então disse, com voz grave demais para ser humana:

"Você suportou."

Toda a sala tremeu — não como ameaça, mas como aprovação.

"O coração do medo te reconheceu."

A mesa sumiu.
O coração desapareceu.
A sala inteira se dissolveu como fumaça.

E Jiyeon foi deixada sozinha na escuridão novamente.

Mas agora… a escuridão não parecia inimiga.

Pela primeira vez, parecia respeitá-la.

"Último julgamento do Dia 1 te espera, criança das sombras."

Jiyeon respirou fundo.

— Vamos acabar com isso.


104

O chão se abriu.

E ela caiu para o último teste.


105

CAPÍTULO 19 — Dia 1: O Eco da Sua Morte

A queda não teve fim.

Jiyeon caiu, caiu, caiu pela escuridão — mas não sentia vento, não sentia
velocidade, não sentia o corpo se mover.
Era como cair para dentro de si mesma, em um poço sem fundo onde o tempo não
existia.

Quando finalmente tocou o chão, não machucou.


Mas ouviu algo.

Um som que nunca tinha ouvido — mas reconheceu imediatamente, com horror.

Era o som do seu próprio coração… falhando.

Um batimento fraco.
Depois mais fraco.
Depois quase inexistente.

Jiyeon se levantou devagar, tentando entender o ambiente.

E viu.

Estava em um lugar que jamais esperava encontrar na montanha.

Um campo de flores.

Lilases.
Brancas.
Azuis.

O céu era cinza claro.


Calmo.
Quase bonito.
106

Mas havia algo errado.

Não havia vento.


Nem cheiro.
Nem som.

Era uma morte bonita demais.

Um lugar que só existe entre a vida e o fim.

No centro do campo havia uma pedra lisa — como um monumento simples.

E sobre ela…

Jiyeon viu seu próprio corpo.

Deitada.
Imóvel.
Os olhos fechados.
A expressão tranquila, como se estivesse dormindo.

Mas não estava dormindo.

Estava morta.

Jiyeon não se mexeu por longos segundos.

Seu peito travou.


A garganta secou.
O mundo pareceu tremer.

A montanha falou — suave, baixa, quase triste.

"Este é o eco da sua morte."

Jiyeon engoliu seco.


107

— Por quê… mostrar isso?

"Porque você precisa ver o fim para entender o caminho.


Porque precisa ver onde sua estrada termina… para saber onde começa sua
vontade."

Jiyeon deu um passo.


Outro.
Mais um.

Cada passo em direção ao próprio corpo parecia pesar toneladas.

Quando chegou perto, ajoelhou-se.

Olhou para si mesma deitada ali — tão frágil quanto nunca se permitiu ser.

Os dedos dela tremeram quando tocaram a mão fria do corpo.

Era real.

Demais.

— Eu vou… morrer assim? — ela murmurou.

A montanha respondeu com brutal sinceridade:

"Se continuar negando quem é… sim."


"Se continuar fugindo… sim."
"Se continuar lutando sem propósito… sim."

Jiyeon fechou os olhos.

A visão do seu próprio rosto morto queimava como fogo.

Mas ela precisava ouvir aquilo.


108

O corpo imóvel parecia uma versão dela sem luta.


Sem alma.
Sem vontade.

A montanha continuou:

"Esta é a morte de quem vive apenas para sobreviver."


"A morte de quem nunca escolheu nada."
"A morte de quem respirou… mas não viveu."

O vento inexistente pareceu soprar.

"Esta é a morte que você estava destinada a ter."

Jiyeon sentiu algo apertar dentro do peito — não medo, mas raiva.

Uma raiva profunda, antiga, quase sagrada.

Ela se levantou devagar.

Olhou para o próprio corpo.

E disse:

— Esta… não é a minha morte.

O campo tremeu.

A montanha ouviu.

— Eu não vou morrer sem ter vivido.


— Não vou morrer sem ter amado.
— Não vou morrer sozinha.
— Não vou morrer… assim.
109

A luz começou a estourar ao redor dela.

Mas a montanha não estava satisfeita ainda.

"Então diga, Jiyeon…"

A voz agora vinha do céu, da terra, do corpo morto, dela mesma — de todos os
lados.

"O que é viver, para você?"

A pergunta que ninguém nunca fez.


A pergunta que ela nunca se permitiu responder.

Jiyeon respirou fundo.

A resposta veio sozinha.

— Viver é… continuar.
— Viver é… procurar o que eu nunca tive.
— Viver é… encontrar um lugar onde eu possa ficar.
— Viver é… não ser uma arma.
— Viver é… ter alguém que me veja.
— Viver é… ter um motivo para voltar.
— Viver é… ter uma vida que seja minha.

Silêncio.

Então, com a voz mais firme que já teve:

— Viver é… esperar que exista algo… ou alguém… que seja feito para mim.

O céu se quebrou.
Literalmente.
Como vidro estilhaçando.
110

A montanha disse:

"Você está pronta para o fim do Dia 1."

O corpo morto se dissolveu em pétalas.


O campo sumiu.
A luz apagou.

E Jiyeon ficou sozinha na escuridão, respirando rápido, mas viva.

"Último teste te espera."

O chão sob seus pés se transformou em pedra.


Um portão antigo surgiu à sua frente.
Gigante.
Selado com símbolos que brilhavam em azul profundo.

Era o portão do fim.

E do início.

Jiyeon colocou a mão sobre ele.

— Vamos acabar com isso.

E empurrou.
111

CAPÍTULO 20 — Dia 1: O Nascimento da Fera Interior

O portão se abriu com um estrondo que sacudiu a montanha inteira.

Não era um portão comum.


Era um portal entre mundos — o mundo interno e o mundo físico, o antigo e o novo,
o humano e o inumano.

A luz azul que o selava se dissolveu em poeira, e Jiyeon entrou sem hesitar.

Ela esperava outra sala, outra visão, outro teste psicológico.

Mas não.

Encontrou o vazio absoluto.

Um espaço completamente preto.


Sem chão.
Sem teto.
Sem paredes.
Sem fim.

Ela deu um passo.

O chão apareceu.
Acompanhou o movimento, como se o mundo estivesse sendo criado somente onde
ela pisava.

A montanha falou, finalmente revelando sua voz verdadeira:

"Bem-vinda ao centro do que você é."

Jiyeon girou o rosto para todos os lados, tentando identificar alguma forma, algum
sinal, qualquer coisa — mas era impossível.

Só havia ela.
112

E o nada.

E então, o mundo tremeu.

Um tremor pesado, profundo, vindo de dentro, não de fora.

Jiyeon sentiu algo puxando seu peito — um calor repentino, quase febril, como se
algo dentro dela estivesse tentando romper a carne.

Ela caiu de joelhos.

Uma pressão brutal se espalhou pelo corpo, do estômago às costelas, das veias aos
tendões.
Era doloroso.
Impossível.
Incontrolável.

— Aah…! — ela arquejou, apertando o peito.

A montanha murmurou:

"É o poder proibido que o monge selou em você.


Ele sempre esteve dormindo.
Mas agora… acordou."

Jiyeon mordeu o lábio até sangrar.

— O que… está… acontecendo comigo?

"Você está lutando contra algo que nasceu junto com você."
"Algo que cresceu cada vez que você lutou."
"Algo que aprendeu cada vez que você venceu."

O chão rachou sob ela.


113

A respiração falhou.

Um calor escuro subiu pela garganta.

E então a voz final veio — não da montanha, mas de DENTRO dela:

"ME DEIXE SAIR."

Era a sombra.

Mas não a sombra que ela enfrentou antes.


Aquilo era diferente.
Era mais antigo.
Mais profundo.
Mais agressivo.

Era a fera.

Jiyeon tentou se levantar, mas o corpo não respondia mais.


O poder escorria pelas veias como se fosse líquido queimando tudo.

— N… não… — ela arfou.

O vazio ao redor começou a ganhar forma.

Primeiro como um borrão.


Depois como uma figura.
Depois como um animal.

Uma criatura gigantesca, feita de escuridão pura, pareceu emergir do chão, com
forma de lobo, mas com olhos humanos — olhos negros, iguais aos dela.

A fera caminhou ao redor dela.

Circulando.
Cheirando.
114

Provocando.

"Você me escondeu."
"Você me prendeu."
"Você me negou."

— Eu… eu te enfrentei…

"Mentira."

A fera rosnou baixo, um som grave que fazia o ar vibrar.

"Você me temeu."

Jiyeon cerrou os dentes.

— Eu nunca… te temi.

A fera pulou sobre ela.

E atravessou.

Entrando.

Consumindo.

Jiyeon gritou — mas não foi dor física.


Foi como se sua alma estivesse sendo rasgada, expandida, incendiada.

Ela viu lampejos:

o monge olhando para ela com pena

seu corpo aos 15 anos brilhando com energia negra

noites em que ela lutou e sentiu força demais


115

momentos em que quase matou alguém sem querer

vezes em que pensou que estava ficando louca

o toque da sombra no capítulo 13

o coração do medo pulsando entre seus dedos

o eco da própria morte no capítulo 19

o olhar da criança que ela foi

o olhar da mulher que ainda seria

Tudo misturado.

Tudo queimando.

Até que…

Silêncio.

A fera falou dentro dela — suave, quase gentil:

"Eu não existo para te destruir."

Jiyeon respirou fundo, tentando estabilizar o corpo.

A fera continuou:

"Eu existo para te completar."

A luz negra se espalhou pelo corpo dela.


Subiu pela coluna.
116

Alcançou o peito.
Invadiu os olhos.

A montanha, pela primeira vez, quase pareceu orgulhosa:

"Agora entenda…
não existe luz sem sombra.
Não existe força sem dor.
Não existe você… sem ela."

Jiyeon abriu os olhos.

E pela primeira vez…

Eles brilharam.

Um brilho escuro.
Profundo.
Controlado.

Não era a sombra dominando ela.


Era ela dominando a sombra.

— Eu não sou uma arma.


— Eu não sou um monstro.
— Eu não sou uma vítima.
— Eu não sou uma criança fugindo.

Ela respirou fundo.

E disse a frase que encerrou o Dia 1:

— Eu sou Seo Jiyeon.


E este poder… é meu.

A montanha rugiu — um som que fez o chão estremecer e o vazio se abrir em luz.
117

"Dia 1 concluído."

A luz apagou o mundo.

O corpo de Jiyeon caiu na neve verdadeira, lá fora, com a respiração fraca, mas
viva.

E pela primeira vez em muito tempo…

Ela dormiu.

Um sono real.

Um sono humano.

Um sono de quem venceu.


118

CAPÍTULO 21 — Dia 2: A Montanha de Carne e Frio

O despertar não foi suave.

Foi um choque.

O vento cortou a pele de Jiyeon antes mesmo que ela abrisse os olhos.
Um vento afiado, tão frio que parecia ter lâminas escondidas no ar.

Ela inspirou — e o ar queimou dentro dos pulmões.

A neve ao redor brilhava com a luz fraca de um amanhecer cinzento.


Cinzas caíam do céu como pequenos flocos metálicos.
A montanha inteira parecia ter mudado de cor durante a noite:
agora era pálida, quase translúcida, como se estivesse morta.

Jiyeon tentou se sentar.

O corpo não respondeu.

Os músculos estavam rígidos, doloridos, quebrados pelo esforço do Dia 1.


Cada respiração doía como se algo prendesse seu peito por dentro.

Ela apertou os dentes.

E levantou mesmo assim.

O frio a golpeou de novo.

Era um frio vivo, um frio que parecia morder a pele, entrar nas roupas, tocar os
ossos.
Um frio que não queria congelar —
queria desistência.

O primeiro desafio do Dia 2 era simples:


119

Não morrer de frio antes de dar três passos.

Jiyeon deu o primeiro.

O vento cortou.

O segundo.

O joelho falhou.

O terceiro.

Ela caiu de joelhos na neve.

A montanha falou — agora com uma voz diferente.


Mais distante.
Mais real.

"Levante.”

Ela apoiou as mãos no chão gelado.


Os dedos tremeram.
A pele queimava.

O vento aumentou.

"Levante, Jiyeon."

Ela respirou fundo.


O ar parecia agulhas rasgando a traqueia.

Mas ela levantou.

Tremendo.
Lenta.
Com dor.
120

Mas levantou.

A montanha ficou silenciosa, satisfeita.

**

O caminho diante dela era estreito — uma trilha de neve batida, rodeada por
penhascos gigantes que formavam paredes naturais.

A neve vinha de todos os lados, fina e rápida, como poeira branca sendo soprada
por mãos invisíveis.

Jiyeon começou a andar.

O Dia 2 começara.

E a montanha não ia esperar.

**

Depois de alguns minutos de caminhada, ela ouviu algo.

Um som baixo.
Um arranhar.
Um estalo de gelo.

Jiyeon parou.

Seu corpo inteiro ficou alerta.

O som vinha de baixo.

Delicadamente, ela afastou a neve com a ponta do pé.

E viu.
121

Pegadas.

Pegadas estranhas.
Três dedos.
Profundas demais para um animal pequeno.
Largas demais para um animal comum.

E mais importante:

Recentes.

A montanha murmurou:

"Não está sozinha."

Jiyeon apertou o punho.

— O que é isso?

"A montanha de carne.


Criaturas que só o frio mantém vivas.
Elas sentem calor… muito melhor do que você sente perigo."

Um arrepio subiu pela nuca dela.

Ela tocou o chão com a ponta dos dedos.

Frio.

Frio.

Frio.

Até que —
122

Quente.

Muito quente.

Algo grande tinha passado ali.

E estava perto.

Ela levantou devagar, o olhar atento, o corpo inteiro preparado para lutar mesmo
exausto.

O vento cortou outra vez.

E então ela viu.

Lá na frente, na neblina branca…

Dois olhos vermelhos.

Baixos.
Brilhantes.
Se movendo devagar, como brasas dentro de fumaça.

Jiyeon ficou imóvel.

O frio bateu forte no rosto.

Os olhos se aproximaram.

E quando finalmente saíram da neblina, ela conseguiu ver a criatura.

Era um quadrúpede — mas disforme.


O corpo parecia coberto de placas duras de gelo, mas por baixo havia textura… de
carne.
Como se o gelo fosse pele.
E a carne fosse armadura.
123

A cabeça era estreita.


As patas longas demais.
O focinho afiado.
E os dentes…

Os dentes eram longos, irregulares, como lascas de gelo vivas.

Ele farejou o ar.

E rosnou.

Um vapor branco saiu de sua boca.

O vapor tinha cheiro de carne antiga, podre, congelada demais.

Jiyeon se colocou em postura de luta.

Mas percebeu imediatamente:

Seu corpo não tinha força para um combate longo.


Se aquela coisa atacasse… ela não poderia cometer um único erro.

A criatura deu um passo.

O chão afundou.

Jiyeon sentiu a sombra dentro dela se mexer — não com intenção de atacar, mas
com intenção de protegê-la.

Era algo novo.

E perigoso.

A criatura ergueu as placas do dorso como um porco-espinho congelado.


124

E atacou.

Jiyeon girou o corpo para o lado — mas o vento frio atrasou seu movimento meio
segundo.

O suficiente para a criatura passar raspando, cortando o braço dela.

Sangue quente.

Na neve branca.

A criatura enlouqueceu.

Rosnou mais alto.

E voltou correndo, mais rápida.

Jiyeon recuou, sentindo o corpo latejar.

A sombra se agitou dentro dela, como se pedisse:

Deixe-me sair.

Mas Jiyeon sabia que não podia.

Ainda não.

— Não. — ela sussurrou. — Eu preciso fazer isso com meu corpo.

A criatura saltou.

Jiyeon deslizou pelo chão, usando o gelo a seu favor.


Ficou por baixo dela.
E golpeou a barriga da criatura com a sola do pé — um chute ascendendo.

Um estalo.
125

A placa de gelo rachou.

A criatura gritou com um ruído metálico e orgânico ao mesmo tempo.

Mas não parou.

Ela voltou novamente — mais furiosa, mais rápida.

Jiyeon inspirou.

O frio queimou.

Ela ergueu o braço.


Deixou a criatura acertar.

O impacto doeu tanto que a visão dela ficou branca por um instante.

Mas a criatura prendeu as presas no braço, e era isso que Jiyeon queria.

Ela puxou o braço para trás com força.


A criatura avançou junto, desequilibrada.

Jiyeon usou o peso dela.

Puxou.
Girou.
E bateu a criatura inteira no chão.

O gelo rachou.

A carne afundou.

A criatura tentou se levantar.

Mas Jiyeon já estava com o joelho sobre o pescoço dela.


126

O vento uivou.

— Me desculpa. — ela murmurou. — Mas eu ainda não posso morrer.

E quebrou o pescoço do animal.

Silêncio.

A montanha falou:

"Primeira criatura.
Primeira vida tirada no Dia 2.
Primeiro passo."

Jiyeon respirou fundo.

O braço sangrava.
Doía.
O frio queimava.

Mas ela ficou de pé.

E continuou andando.

O Dia 2 tinha começado.

E seria longo.
127

CAPÍTULO 22 — O Corpo que Renascem

O frio ainda colava à pele de Jiyeon quando ela saiu do portão de gelo, mas algo
nela já não reagia como antes. A neve deixava de ser dor e se tornava apenas
sensação. O vento parava de ser inimigo e começava a parecer parte do ar que ela
respirava.

Ela não percebera ainda, mas a montanha, ao aceitá-la, havia permitido que seu
corpo mudasse.

O monge caminhou sem dizer palavra até o pequeno salão de purificação, perto da
base da montanha. Era um espaço antigo, feito de pedra escura e banheiras
profundas de água quente, onde alunos encerravam anos de treinamento.

— Entre — ele disse, apontando para o ambiente iluminado apenas por velas baixas.

Jiyeon tirou as botas.


Depois o casaco.
E então viu.

Pela primeira vez desde que chegara ao templo…


ela encarou o próprio reflexo.

Havia um espelho de bronze envelhecido na parede.


A superfície ondulada deformava levemente as formas, mas não escondia o
essencial.

Ela ficou imóvel.

O rosto era o mesmo — mas não era.


Os traços estavam mais definidos, mais adultos, mais afiados.
O olhar…
O olhar era profundo como água escura, como se refletisse alguma coisa antiga, que
sempre esteve ali e agora finalmente acordava.
128

O cabelo, antes mais longo, agora estava curto, cortado pelas próprias mãos durante
os meses de treinamento. Um corte masculino, bagunçado, com mechas negras que
caíam sobre a testa.

Seu corpo…

Não parecia o corpo de uma adolescente.

Era forte.
Grande.
Definido.
Construído não por vaidade — mas pela montanha.

Músculos marcavam as coxas, os braços, o abdômen. Não com exagero, mas com
uma firmeza que irradiava poder contido.

Ela ergueu o braço.


E então viu o que mais havia mudado.

Marcas.

Linhas finas, delicadas, quase invisíveis — como cicatrizes feitas de luz.


Veios azulados, tão sutis que desapareciam sob a pele quando ela respirava.

— Isso… — ela sussurrou.

O monge inclinou a cabeça.

— São sinais do ritual. Não são feridas. São caminhos.

— Caminhos?

— Da sombra.
Da energia que se integrou ao seu corpo.

Jiyeon passou a mão pelas marcas.


129

E sentiu — não dor, mas memória.


Como se aquela pele carregasse algo antigo.

O monge então colocou sobre a mesa uma caixa pequena.


Não era a caixa da lâmina — era outra.
De madeira escura, com símbolos gravados.

— Isto pertence a você agora — disse ele.

Jiyeon abriu devagar.

E, dentro dela, havia:

✔ agulhas grossas

✔ tintas feitas de carvão, sal e ervas raras

✔ e moldes antigos de tatuagens orientais.

— São ritos de passagem — o monge explicou. — Quando você dominar a si


mesma, poderá marcar sua pele. Não como ornamentação. Como promessa.

Ela tocou os moldes.

Um deles era um dragão.


Longo.
Elegante.
Posicionado para o pescoço.

O monge continuou:

— Essas tatuagens são feitas pelos próprios guerreiros. Dor física ajuda a controlar
dor espiritual. Você pode marcá-las quando sentir que está pronta.

Jiyeon engoliu seco.


130

Ela não se sentia pronta.

Ainda.

Mas algo nela sabia que estaria.

O monge se afastou, deixando-a sozinha no salão.

Jiyeon respirou fundo e mergulhou na água quente, deixando o corpo relaxar pela
primeira vez em anos. As luzes dançavam na superfície, refletindo seu novo rosto.

Quando saiu, horas depois, ela se sentia diferente.


Mais firme.
Mais inteira.
Mais real.

E naquele momento, entendeu uma coisa que não havia percebido antes:

Ela não tinha apenas treinado.

Ela tinha nascido de novo.

E, embora ainda não tivesse tatuagens ou piercings…

a estética dela já estava lá.


Viva.
Latejando.
Pronta para se completar no mundo lá fora.

Jiyeon se vestiu.
Prendeu o cabelo.
Guardou a caixa.

E se preparou para descer a montanha pela primeira vez como ela mesma.

A Jiyeon que encontraria Ayame.


131
132

CAPÍTULO 23 — A Cidade que Nunca Dorme, e a Mulher que Despertou

A descida da montanha levou dois dias.

Não pela distância, mas pela sensação — uma estranha impressão de que cada
passo afastava Jiyeon de quem ela tinha sido até aquele momento. O silencio da
neve, antes familiar, agora se tornava memória. E a sombra dentro dela… calma,
mas desperta.

Quando finalmente viu os primeiros prédios de Quioto, já era noite.

A cidade brilhava.

Letreiros de neon tremiam com a chuva fina.


Carros passavam rápidos, usando a pista molhada como espelho.
Pessoas se moviam como rios de luz, conversando, correndo, vivendo.

Era o oposto absoluto da montanha.

Jiyeon parou na calçada, imóvel por alguns segundos.

O reflexo dela apareceu na vitrine de uma loja fechada.

E, pela primeira vez, ela viu:


Era adulta. Realmente adulta.

O cabelo curto e negro grudado pela chuva, cortado rente na nuca e bagunçado na
frente.
A pele tão pálida que refletia a luz azul do letreiro.
O corpo grande, largo de ombros, forte.
A postura ereta, firme, impecável.
Os olhos…
Tão escuros que pareciam feitos de noite líquida.

A sombra observava junto.


133

“É assim que o mundo vai te ver.”

Jiyeon respirou fundo e caminhou.

A chuva batia no rosto, mas não incomodava.


A energia da cidade pulsava sob seus pés.

Ela precisava de um lugar para ficar.


Precisava de trabalho.
Precisava construir a si mesma.

E foi na madrugada seguinte, em um beco estreito perto de Gion, que ela encontrou
a primeira peça da própria identidade.

Um pequeno estúdio de tatuagem.


Luzes apagadas.
Porta entreaberta.
Sinal luminoso piscando: OPEN.

O tatuador era um homem calado, coberto de tinta dos pés à cabeça. Ele ergueu o
olhar quando Jiyeon entrou — e congelou por um segundo. Não de medo, mas de
reconhecimento.

— Você tem… — ele apontou para o pescoço dela — …marcas estranhas.

Jiyeon tocou as linhas azuladas na pele.

— Elas vieram de onde eu vim.

— Montanha? — ele chutou.

Ela assentiu.

Ele ficou silencioso por um tempo, analisando.

— Quer cobrir essas marcas?


134

Ela balançou a cabeça.

— Não. Quero… completá-las.

Ele entendeu.

Puxou um caderno com desenhos antigos — dragões, flores, serpentes, símbolos


orientais.

Nada impressionou Jiyeon.

Até que ela viu um desenho solitário, feito com tinta vermelha e pincel grosso:
um dragão sinuoso, elegante, que subia pelo pescoço como fogo.

Ela apontou.

— Esse.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— No lado direito do pescoço? É uma área sensível.

Jiyeon apenas disse:

— Eu sei.

O tatuador preparou tudo.


Ela se sentou.
E quando a agulha tocou sua pele, a sombra dentro dela reagiu.

Não com dor.


Com… despertar.

A dor era intensa.


Profunda.
135

Quente.

Mas cada segundo parecia encaixar algo no lugar.

Depois de longas horas, o tatuador afastou-se.

— Pronto.

Jiyeon se levantou e encarou o espelho.

O dragão parecia se mover.


Seguir a respiração dela.
Subir pela pele como se tivesse vida própria.

Ela tocou a tatuagem.


E sorriu pela primeira vez desde que deixou o templo.

“Agora você se parece com quem sempre foi.”

A sombra concordou.

---

Na noite seguinte, Jiyeon perfurou o lábio inferior.


Depois a sobrancelha.
Depois a orelha.
Depois a língua.

As agulhas brilhavam sob a luz azul.


A dor era familiar, quase bem-vinda.

Era como se cada piercing fosse uma forma de dizer:

Eu existo. Eu escolho. Eu comando.


136

E a cidade a acolhia — do jeito rude, frio e belo como só grandes cidades fazem.

---

Ao mesmo tempo, do outro lado de Tóquio…

Em um palco iluminado por luzes roxas,


uma jovem de cabelos longos e negros como tinta
cantava com intensidade suficiente para faze a plateia inteira prender a respiração.

Ayame Kurotsuki.

O destino já estava em movimento.

E Jiyeon, ainda sem saber disso, caminhava direto para ela.

O segundo arco estava oficialmente aberto.

O salão de purificação ainda exalava o cheiro quente das velas quando Jiyeon
deixou o recinto. A água escorria dos fios curtos do cabelo, gelando
instantaneamente ao tocar o ar congelado da montanha.

Era estranho:
o corpo dela ainda estava quente por dentro — muito quente — como se carregasse
um fogo invisível sob a pele.

Mas o ar ao redor estava frio


de um jeito que parecia querer apagá-la.

Era o começo da segunda parte do DIA 2.

O monge a observava com atenção.

— A transformação interna se completou — ele disse. — Mas agora o corpo precisa


sobreviver ao próprio renascimento.
137

Jiyeon piscou.

— O que isso significa?

— Significa que o frio vai tentar te matar com mais força agora.

A montanha mudara para ela.

Antes era inimiga, depois era prova.


Agora era predador.

Jiyeon caminhou para fora do templo, sentindo o vento bater forte contra o rosto.
O céu estava branco — não cinza, branco — como se estivesse se desfazendo.

A sombra dentro dela murmurou:

“Não pare. Se parar, você quebra.”

Ela obedeceu.

O monge não a acompanhou desta vez.


Apenas deu um último aviso:

— A segunda metade do Dia 2 é simples.


— Ele cruzou os braços.
— Caminhe. Respire. Sobreviva.

Jiyeon desceu os degraus de pedra.

E a montanha começou.

---

O vento a empurrou com uma força quase humana.


138

A neve batia no rosto como areia cortante.


Os dedos começaram a doer, depois a formigar, depois a perder sensibilidade.

Jiyeon respirava, mas o ar parecia agulhas.


A sombra apertava o peito dela de dentro para fora, tentando protegê-la.

Mas era um erro usar a sombra agora.


O monge havia dito:
“Use-a demais e ela toma o controle.
Use-a de menos e você morre.”

Equilíbrio.

Caminhou.

Os pés afundaram na neve alta, quase até as canelas.


Os músculos tremiam, e o corpo recém-transformado parecia lutar contra si mesmo.

A cada passo, era como se o mundo tentasse puxá-la para trás.

E então…
Um som.
Baixo.
Rastejante.

Jiyeon parou.

Os olhos escuros dela cortaram a neblina como lâminas.

Algo se movia atrás das árvores.


Pesado.
Rhythmado.

A sombra murmurou:

“Não é humana.”
139

Jiyeon fechou o punho.

O monge havia avisado sobre isso:


criaturas que só existiam no frio extremo, animais que nunca viram luz, que se
alimentavam de calor.

A neve ao lado dela afundou.

Alguma coisa estava se aproximando.

Ela girou o corpo em posição de defesa, sentindo o vento levantar o cabelo curto e
gelar sua pele.

Então viu.

Um corpo enorme, branco como gelo sujo, emergiu da neblina.


A mandíbula larga.
Olhos vermelhos.
Patas longas, deformadas como ossos quebrados e colados de novo.

Uma criatura que parecia ter sido feita pela montanha, não pela natureza.

Ela farejou o ar.

Farejou Jiyeon.

Farejou calor.

E correu.

Jiyeon saltou para o lado, sentindo as garras rasparem sua costela.


A sombra tentou assumir.
Ela segurou.

— Não! — gritou.
140

Desviou.
A criatura avançou de novo, abrindo a boca numa mistura de vapor e gemido.

Era rápida.
Muito rápida.

Jiyeon escorregou na neve, girou o corpo, e golpeou com o antebraço a lateral da


cabeça do monstro — apenas para sentir o impacto reverberar no osso.

A criatura cambaleou.

Mas não caiu.

Ela rosnou, levantando placas de gelo nas costas como espinhos translúcidos.

E saltou novamente.

Jiyeon esperou o último segundo —


um instante tão pequeno que até o vento pareceu pausar —

e passou por baixo do salto, deslizando no gelo com o corpo torcido.

Com a mão livre, agarrou uma pedra afiada do chão.

E cravou na garganta da criatura ao passar.

O monstro caiu na neve, retorcendo-se.


Jiyeon estava de joelhos, respirando forte, sentindo o sangue quente da criatura
respingar no braço.

A sombra dentro dela ficou… quieta.

Quase orgulhosa.

Ela se levantou devagar, limpando a respiração.


141

O vento soprou.

A montanha murmurou:

“Continue.”

E Jiyeon, manchada de sangue, corpo pulsando entre calor interno e frio cortante,
continuou a caminhar.

Ainda era o DIA 2.

E ele não tinha acabado.


142

CAPÍTULO 24 — Dia 2: A Fome que Rasga e o Sono que Mata

O corpo de Jiyeon já sabia que a montanha podia matar de maneiras que não
envolviam lâminas.
Havia uma fome que vinha do frio — não a fome de comer, mas a fome de calor, de
contato, de sangue. Era uma fome que corroía a sanidade com a mesma paciência
que o gelo corroía metal.

Ela continuou a marcha, um passo após o outro, cada movimento medido para
gastar o mínimo de energia possível. O braço ainda pingava sangue; a pele doía
onde a criatura havia arranhado; os dedos mal respondiam, como se já
pertencessem a outra pessoa. Ainda assim, seguia.

Quando a tarde morreu, veio o cerne mais traiçoeiro do Dia 2: o sono.

O monge havia alertado — e Jiyeon agora sabia que ele não brincava.

Dormir naquela parte da montanha era uma sentença quando o corpo não tinha
calor suficiente. O sono vinha com doçura: primeiro um tremor nos olhos, depois um
bocejo que mascarava o frio, depois uma vontade de deitar e fechar. E quando o
corpo se permitia, a montanha oferecia um sonho — e no sonho, a morte parecia
paz.

Jiyeon sentiu a cabeça cair por um segundo enquanto cruzava um trecho aberto. O
mundo latia de branco ao redor, e por um instante a tentação foi real: ela podia se
deitar ali mesmo, fechar os olhos e acabar.

Mas havia algo na sombra agora que pedia escolha: não por força bruta, mas por
insistência. A sombra lembrava-a de juramento, lembrava o toque da lâmina curva,
lembrava o monge. A sombra lembrava—como um fio de voz—que ela queria viver.

Ela forçou o corpo a continuar.

---
143

A fome tornou-se a próxima arma da montanha. À distância, algo se movia — não


com patas, mas com uma dunção longa, ondulante: uma coluna de criaturas
menores, mais escuras, que raspavam as rochas como dedos. Eram os que vinham
atrás do calor: pequenos predadores que atacavam em bando, famintos e velozes.

Eles detectaram Jiyeon pelo sangue que manchava sua pele. Em segundos foram
sobre ela.

A primeira feira foi um aviso: pequenas mordidas nos tornozelos, uma investida que
arranhou a perna, uma mordidela que puxou pele. Era doloroso, mas não fatal. O
segundo ataque, quando veio, foi mais organizado. Eles cercaram, tentaram morder
quando ela tropeçava, atacaram olhos, nariz, língua — onde houvesse
vulnerabilidade.

Jiyeon aprendeu rápido; respondeu rápido.


Pisou.
Girou.
Pontapeou.
Usou a lâmina curva presa na bota — uma lâmina pequena, porém afiada, presente
do monge — para cortar os corpos menores e afastar o enxame.

Quando tudo passou, ela estava sozinha no silêncio que vem após um vendaval de
dentes. O sangue misturava-se com a neve, e o calor da carne ferida evaporava em
fumaça. Seu corpo doía de novo, mas havia algo diferente: resistência.

O problema era o cansaço. A cada minuto a força diminuía, a visão escurecia nas
laterais. As pálpebras pesavam como portas de ferro. A tentação de fechar os olhos
vinha em ondas.

E a montanha sabia como empurrar.

Ela abriu um vale estreito — um bolso de neve entre rochas — onde o piso ficava
surpreendentemente plano. A visão parecia promissora para dormir. O ar ali era
menos cortante; as rochas faziam sombra, protegendo do vento. Era a armadilha
144

perfeita.

Jiyeon sabia disso. Todo instinto criado no templo dizia: não durma em terreno baixo;
não permita que a montanha te abrace na calmaria. Mas o corpo falhava. E o corpo
lembrava da sensação de um corpo que não necessita lutar — a sensação era
quase hipnótica.

Ela sentou. Encostou a lâmina na coxa. Fechou os olhos por apenas um piscar.

O mundo derrubou a cortina.

---

Ela não sonhou com a montanha. Sonhou com locais quentes — uma cozinha com
vapor, uma porta que se entreabria, passos conhecidos — imagens de calor que
apertavam o peito. Nos sonhos, a fome era saciada por velhas sensações
esquecidas. Era reconciliação com calor que nunca teve.

Então o sonho escureceu.

E dela saiu uma sombra — não sua sombra interior, mas uma sombra que a
montanha enviou: um sono que adormecia com veneno. Dentro do sonho, a morte
parecia carícia. Ela flutuava, leve, livre de dor, e havia um rosto ao lado, sorrindo,
pedindo que ficasse.

O monge apareceu no sonho e tentou falar com ela, mas sua voz era distante, como
se viesse por água. "Lembre do juramento", dizia ele. "Lembre do juramento."

Algo puxou a manta da realidade.

Jiyeon tropeçou entre sonho e vigília. Sentiu mãos — pequenas, afiadas — puxarem
sua pele. Uma criatura minúscula, quase invisível, estava tentando sugar o calor do
seu corpo. Eram parasitas de neve, silenciosos e mortais, que atacavam enquanto o
sono dominava.
145

Ela lutou. Mas a luta saiu viciada: os músculos não respondiam bem, os passos
tropeçavam, a lâmina parecia lenta demais. Só quando a sombra, com um esforço
interno que parecia herculano, empurrou sua vontade para cima, ela abriu os olhos
de vez.

A visão voltou: o vale, a neve, as criaturas ao redor. O ataque parou, porque a


sombra havia dado um pico de calor — um estalo de instinto — que reacendeu os
músculos. Ela sacudiu a letargia, cortou os parasitas, murmurou um juramento e se
levantou cambaleante.

O perigo passou, mas o aviso permaneceu: o sono e a fome eram armas reais. Eles
não vinham apenas para tirar sua força; vinham para enganar a mente, para fazer
esquecer o porquê do juramento.

---

Quando a noite finalmente caiu, Jiyeon havia matado pequenos bandidos de frio,
evitado armadilhas de neve e resistido a três episódios de sonolência que teriam
sido fatais. Estava exausta, mas viva.

Olhou para o céu enevoado.

— Ainda é Dia 2 — murmurou. — E ainda tenho que chegar ao fim.

A montanha, como resposta, enviou um uivo distante — como riso.

E a jornada continuou.
146

CAPÍTULO 25 — Dia 2: O Teste da Água Negra

A neve havia diminuído, mas o vento piorou.


Era o tipo de vento que parecia entrar nas frestas entre as costelas, como dedos
gelados procurando o coração.

Jiyeon caminhava com o corpo moído, sentindo as pernas pesadas, a respiração


irregular, a mente dividida entre vigília e sonolência — e isso era perigoso.
No Dia 2, um pensamento lento podia matar tão rápido quanto dentes.

O caminho estreitou-se até virar uma garganta de pedra.


E ali, escondido entre penhascos, surgia algo que ela não esperava:

um lago.

Negro.
Imóvel.
Profundo.

A superfície não tremia, mesmo com o vento.


Era como se o lago respirasse por baixo, silencioso e atento.

Jiyeon parou na margem.

A sombra murmurou dentro dela:

“Cuidado.”

O monge havia explicado — com poucas palavras, como sempre — que um lago
negro apareceria no Dia 2, e que atravessá-lo seria inevitável.

— A água é viva — ele dissera. — Não entre inteira. Não entre inocente.

Jiyeon tirou o casaco rasgado e deixou cair na neve.


Calçou melhor as sandálias reforçadas que o monge lhe dera para terrenos
escorregadios.
147

Depois tocou a superfície da água com a ponta dos dedos.

Um frio agudo subiu pelo braço tão rápido que pareceu cortar a pele.

A água reagiu.

Eletrizou.
Tremeu.
E então… abriu o centro como um olho.

Jiyeon recuou um passo.

Não era um lago.

Era uma provação viva.

A sombra dentro dela ficou inquieta.


Quente.
Quase hostil.

“Ele te reconheceu.”

Jiyeon testou a profundidade com o pé — não havia fundo nos primeiros passos.

Ela tinha duas escolhas:

voltar e enfrentar o vento assassino que crescia atrás dela

seguir e encarar a água negra

Jiyeon não era o tipo que voltava.

Ela entrou.
148

---

A água bateu no tornozelo, depois na panturrilha, depois no joelho.

O frio era tão violento que parecia atravessar o osso.


O corpo reagiu como se estivesse sendo eletrocutado.

A sombra avisou:

“Não finja ser forte. Admita o medo.”

Jiyeon respirou fundo.

— Eu tenho medo — sussurrou para si mesma.

E a água recuou um pouco.


Aceitou.

O lago queria uma confissão.


Queria verdade.

Ao chegar ao centro, algo tocou a sola de seu pé.

Rápido.
Ágil.
Gelado.

Ela congelou.

Depois veio outro toque no tornozelo.


Depois no quadril.

Criaturas nadavam por baixo.


Do tamanho da palma de uma mão, mas rápidas, silenciosas e com presas finas
como agulhas.
149

Uma delas emergiu — um olho branco, vazio, sem pupila — e encarou Jiyeon
através da água.

Depois mergulhou.

A água ficou vermelha.

Jiyeon olhou para o próprio braço.

Uma mordida.
Pequena.
Mas profunda.

— Droga… — murmurou, pressionando a pele.

Os pequenos predadores estavam ficando ousados.

E então a água se mexeu sob ela.

Subiu numa onda.


Cercou sua cintura.
E puxou.

Jiyeon sentiu as pernas serem arrastadas para baixo.

Ela lutou — chutando, girando, rasgando a água com o antebraço — mas algo
agarrou seu tornozelo com força.

Uma corrente de água sólida.


Um braço líquido.
Uma mão que não deveria existir.

Ela afundou.

A sombra gritou dentro dela:


150

“NÃO DEIXE A ÁGUA ENTRAR!”

Jiyeon fechou a boca no último segundo.

O mundo virou preto.


O silêncio do lago era pior que o vento.
Pior que a fome.
Pior que os pesadelos.

Dentro d’água, a montanha tinha outra regra:

O que você vê é mentira.


O que você sente é verdade.

E ela sentiu…

Uma segunda mão pegar seu outro tornozelo.


Depois uma terceira.
Depois uma quarta.

Ela foi puxada para baixo, para um abismo que não parecia ter fim.

A escuridão tomou tudo.


E a sombra tentou assumir.

Jiyeon lutou contra ela.

Não era assim que ia vencer.


O monge havia ensinado:
usar a sombra para sobreviver era perder o teste.

No fundo, os dedos gelados puxavam, rasgavam, arrastavam.

O peito queimava.
O ar acabava.
O corpo pedia desistência.
151

Então algo brilhou.


Fraco primeiro.
Depois forte.

Não era luz externa.


Era o reflexo da própria força dela — sua própria energia — que começava a pulsar
sob a pele, como brasas vivas.

A água recuou, como se tivesse medo do calor de Jiyeon.

Ela abriu os olhos dentro do lago.

E pela primeira vez… viu.

O fundo não era profundo.

Era um espelho.

E nele, refletida na água negra, estava a versão dela que morreria ali — fria, pálida,
sem voz, sem sombra.

Jiyeon ergueu o braço.


E o reflexo ergueu também.
Mas com medo.

Ela percebeu a verdade:

O lago não queria matar.


Queria que ela identificasse a versão dela que perderia.
E escolhesse vencer.

Jiyeon uniu os punhos num movimento que aprendeu com o monge.


Dois punhos.
Duas forças.
152

E bateu no reflexo.

A água explodiu em luz.

---

Ela emergiu como se tivesse sido cuspida pelo lago.

Tossiu.
Gritou sem voz.
Caiu de joelhos na neve.

As roupas pingavam.
Os braços tremiam.
Mas ela estava viva.

A sombra murmurou:

“Você venceu a água.


Agora falta o fogo.”

Jiyeon respirou fundo e se levantou.

Ainda era o DIA 2.

E o pior ainda não tinha chegado.


153

CAPÍTULO 26 — Dia 2: O Fogo que Prova a Alma

A água ainda escorria da roupa de Jiyeon quando ela deixou a margem do lago
negro.
O frio, antes cortante, agora parecia… menor.
Não porque a montanha tivesse piedade — mas porque Jiyeon começava a mudar.

O lago havia retirado o medo de morrer.

Agora o fogo tiraria o medo de viver.

A neve ficou mais rasa conforme ela avançava.


O vento perdeu força.
E diante dela, emergiu algo impossível:

um vale quente.

A neve derretia ao redor.


O ar ondulava em ondas de calor.
Gotas d’água caíam dos galhos como chuva.

E no centro, erguia-se um círculo de pedras negras — todas queimadas, rachadas,


marcadas por chamas antigas.

Jiyeon sentiu imediatamente:

o chão estava vivo.

A sombra falou:

“Estamos no Coração Antigo.”

Ela lembrou das palavras do monge:

> “O fogo da montanha é mais velho que todos os templos.


Ele não queima pele.
154

Ele queima mentira.”

Jiyeon entrou no círculo.

O ar ficou espesso.
Pesado.
Sufocante.

O chão tremeu.

E então o fogo apareceu.

Não como labaredas.


Não como chamas comuns.

Mas como formas.

Cinco torrentes de luz alaranjada se elevaram do chão como cobras, sinuosas, vivas.
Cada uma tinha um movimento diferente, uma temperatura diferente, uma
personalidade diferente.

Elas rodearam Jiyeon lentamente, como criaturas estudando uma presa.

O calor era tão intenso que parecia arrancar camadas da alma.

A sombra se agitou dentro dela — inquieta, quase com medo.

Sim.
A sombra tinha medo do fogo.

Jiyeon estava completamente sozinha.

Uma das chamas se aproximou do rosto dela, tão perto que a ponta do nariz ficou
brilhante.
155

E então a chama murmurou — sem som, mas com intenção:

“Mostre.”

— Mostrar o quê? — Jiyeon perguntou com a voz rouca.

A chama se expandiu. A luz envolveu parte do círculo e projetou algo no ar:

imagens.

Primeiro, Jiyeon aos 6 anos.


Pequena.
Calada.
Olhando pela janela enquanto seus pais discutiam.
O fogo tocou a cena — e ela desapareceu.

Depois, Jiyeon aos 10.


Sozinha no quintal.
Treinando golpes que ninguém lhe ensinou.
E ninguém aplaudiu.
O fogo tocou — e a imagem sumiu.

Depois, aos 12.


A noite da fuga.
O frio.
A fome.
A coragem.
A culpa.

O fogo tocou — e dissolveu.

A sombra se contraiu, enfraquecida.

Ela entendeu.
156

O fogo estava queimando tudo que ainda doía.


Para que ela pudesse seguir sem carregar peso morto.

Mas então veio a última imagem.

A mais difícil.

Jiyeon aos 15.


Tremendo.
Sangrando.
Frente ao monge.

E a primeira vez em que a sombra tocou sua alma.

Jiyeon fechou os olhos.


Aquilo queimava mais que o fogo.

Ela sentiu o corpo tremer.


As pernas quase cederam.
A sombra dentro dela urrava:

“NÃO MOSTRE!”

A chama se ergueu mais alto, exigindo.

Jiyeon abriu os olhos.


E encarou.

A imagem mostrava ela — mas não exatamente ela.


Mostrava uma versão dela que poderia ter sido:

brutal,
cruel,
sem controle,
sem consciência.
157

A versão que a sombra queria que ela se tornasse.

Jiyeon respirou fundo.

E falou:

— Eu não sou isso.

O fogo pulsou.

A sombra se contorceu como um animal ferido.

— Eu aceito quem eu fui — Jiyeon disse.


— Mas eu escolho quem eu vou ser.

E então…

O fogo a tocou.

Encostou no ombro.
Depois no peito.
Depois nas costas.
Como se marcasse cada lugar onde existiam feridas invisíveis.

Mas não queimou carne.

Queimou dor.

Queimou medo.

Queimou destino imposto.

A dor emocional foi tão intensa que Jiyeon caiu de joelhos, com as mãos na neve
quente, respirando como se tivesse corrido quilômetros. A sombra, enfraquecida,
silenciou.
158

Quando ergueu o rosto, o círculo estava iluminado.


As cinco chamas a olhavam.
E uma delas fez algo que jamais acontecia:

se inclinou.
Em respeito.

Então desapareceram.

O ar esfriou.
A neve voltou a cair.

A sombra, ainda fraca, murmurou:

“Você passou.”

Mas Jiyeon sabia:

o Dia 2 ainda não tinha acabado.

O monge havia dito:

> “Depois do frio, da água e do fogo…


vem o Degrau Final.
Aquele que não depende de força.”

Ela se levantou, respirou fundo…

e caminhou para o último teste do segundo dia.


159

CAPÍTULO 27 — Dia 2: O Degrau que Quebra ou Completa

A neve voltou a cair, fina e silenciosa, como um véu macio cobrindo a montanha.
E, pela primeira vez em horas, Jiyeon não sentia dor.

Não era que o corpo tivesse parado de doer — ele doía, e muito — mas a dor
parecia… distante.
Como se fosse de outra pessoa.

Era o sinal.

O monge havia explicado, anos antes:

> “Quando o corpo já não te dói, quando o frio não corta e o fogo não arde,
cuidado.
Você está prestes a entrar no teste que mata mais discípulos.”

Jiyeon sabia qual era.


O Degrau do Silêncio.

A montanha abriu um caminho estreito diante dela.


Uma escadaria esculpida diretamente na pedra, tão antiga que os degraus estavam
quase completamente lisos, como se milhares de pés tivessem passado por ali — e
poucos tivessem voltado.

A sombra murmurou:

“Não suba rápido.”

Jiyeon tocou o primeiro degrau.

Nada aconteceu.

Ela respirou.
160

E subiu o segundo.

Silêncio.

O terceiro.

Silêncio.

O quarto.

Um eco respondeu a seu pé.


Mas o eco não veio de baixo.
Veio de trás dela, na neve.

Jiyeon girou.

E congelou.

Atrás dela, parada na escada, estava ela mesma.

Mas não a versão que a água havia mostrado.


Não a versão que o fogo havia queimado.

Era ela… hoje.


Com o corpo molhado.
Com arranhões nos braços.
Com o rosto firme, cansado e determinado.

A cópia sorriu.
Um sorriso pequeno demais.
Humano demais.
Quase carinhoso.

Jiyeon sentiu o estômago afundar.


161

Ela conhecia esse teste.


O monge havia alertado:

> “No Degrau, a montanha cria o que você mais confia.


E dá a essa coisa apenas uma missão:
fazer você parar.”

A cópia deu um passo para frente.

— Você já provou força suficiente — disse a falsa Jiyeon, com a voz exata.
— Já venceu frio, fome, água, fogo.
— Você sobreviveu. Isso devia bastar.

Jiyeon respirou fundo.

— Saia da minha frente.

A cópia inclinou a cabeça.

— Por quê?
— Para quê continuar?
— O que você está buscando tão desesperadamente?

Jiyeon apertou os punhos.

— Finalizar o dia.

A cópia riu, baixinho.

— Você não precisa.


— Olhe pra você.

Ela apontou para o braço de Jiyeon — o braço ferido, cheio de sangue seco,
tremendo levemente.
162

— Você não está mais forte.


— Você está quebrada.

O coração de Jiyeon vacilou, por menos de um segundo.

E isso foi o suficiente.

A cópia avançou.

Rápida.
Impossivelmente rápida.

E colocou a mão no ombro de Jiyeon.


A mão era quente.
Humana.
Real.

— Você pode parar — sussurrou ela.


— Eu te entendo mais do que qualquer um.
— Eu sou você.

Jiyeon fechou os olhos.

Sim.
O Degrau era isso.
Não era luta.
Não era dor.
Não era bravura.

Era a tentação de desistir… dita pela única voz capaz de convencê-la: a dela
mesma.

A sombra murmurou, muito baixo:

“Eu… não posso ajudar.


163

Esse teste é seu.”

Pela primeira vez, Jiyeon estava sozinha.


Completamente sozinha.

Ela abriu os olhos.

A cópia estava tão perto que Jiyeon conseguia sentir o cheiro da própria respiração
— frio, metálico, misturado com sangue seco.

— Você não vai chegar viva ao Dia 3 — continuou a cópia, firme.


— Pare agora.
— Ninguém vai te culpar.

Jiyeon respirou fundo.

E respondeu:

— Eu não estou fazendo isso para alguém me culpar.


— Eu estou fazendo porque fui feita para terminar.

A cópia franziu o cenho.

— Não há honra em morrer por orgulho.

Jiyeon sorriu.
Um sorriso pequeno, cansado, mas verdadeiro.

— Quem disse que eu vou morrer?

A cópia hesitou.

E foi nesse micro segundo…


apenas um piscar…

que Jiyeon deu um passo.


164

Não para trás.


Não para o lado.

Para frente.

Atravessando a cópia.

O corpo falso tentou segurar seu braço — mas a mão se desfez em fumaça.
O rosto se desfez.
O corpo se despedaçou em luz.

E o silêncio voltou.

Jiyeon subiu o degrau seguinte.

E outro.

E outro.

Até chegar no último.

No topo da escada, havia uma pedra alta — como uma mesa ritual.
Em cima dela, uma pequena tigela de metal, cheia de um pó cinzento.

As palavras do monge ecoaram na memória dela:

> “Quando você vencer o Degrau, suba até o topo


e toque o pó sagrado com a mão direita.
Se estiver pronta… ele ficará quente.”

Jiyeon colocou a mão.

O pó começou a brilhar.
165

A sombra dentro dela pareceu ser puxada pela luz, como se fosse testada também.

A pedra vibrou.

E então, uma frase ecoou pela montanha inteira, não dita por ninguém — mas
sentida como se fosse o mundo falando:

“DIA 2 CONCLUÍDO.”

Jiyeon caiu de joelhos.

O corpo cedeu.
A mente apagou.
Mas a respiração continuava firme.

Ela havia sobrevivido ao segundo dia.

E o mais terrível ainda estava por vir:

o Dia 3.
166

CAPÍTULO 28 — Dia 3: A Montanha se Levanta

Quando Jiyeon abriu os olhos, o mundo estava… diferente.

Não havia neve.


Não havia vento.
Não havia frio.

A montanha inteira estava muda.

Apenas um silêncio profundo, espesso, quase líquido — o tipo de silêncio que não
parece ausência de som, mas presença de algo maior que som.

Jiyeon levantou devagar.


O corpo ainda doía, mas de um jeito mais organizado, como se cada dor apontasse
para um lugar que precisava ser ouvido, não temido.

A sombra dentro dela estava… quieta.

Demais.

Era como se estivesse esperando permissão para falar.

E quando falou, foi quase um sussurro reverente:

“Ele acordou.”

Jiyeon sentiu a espinha gelar — não de medo, mas de reconhecimento.

Ela sabia quem era “Ele”.

A montanha.
A consciência.
O espírito ancestral que guardava os três dias desde antes dos primeiros monges
existirem.
167

A prova final jamais era feita contra criaturas, feras, frio ou ilusões.

Era feita contra o próprio espírito da montanha.

Jiyeon respirou devagar.

O ambiente parecia um sonho lúcido:


as árvores não tinham sombras,
o céu não tinha sol,
o chão não fazia som quando pisava.

E então, à distância, ela viu.

Um gigante.

Não um monstro.
Não um animal.
Não uma figura humana.

Era feito de pedra viva, neve compactada, vento solidificado.


Tenebroso e sagrado ao mesmo tempo.

E ele se levantou devagar, como uma montanha ganhando pernas.

Quando a criatura abriu os olhos, a luz azul que emanou deles foi tão forte que
Jiyeon teve de erguer o braço para proteger o rosto.

A sombra tremeu dentro dela:

“Não olhe direto.


Se ele entrar nos seus olhos, ele vê tudo.”

Jiyeon abaixou o braço, mas não recuou.

O gigante deu um passo.


168

E o chão inteiro tremeu.

Outro passo.

E a luz azul ficou mais intensa.

Ele não tinha boca, mas quando falou, o som veio de todos os lugares ao mesmo
tempo — do ar, da terra, do peito de Jiyeon.

“DISCÍPULA DA SOMBRA.”

Jiyeon respirou fundo.

— Estou aqui.

O gigante inclinou a cabeça, como se avaliasse o peso das palavras dela.

“VOCÊ TERMINOU O FRIO.


DOMINOU O FOME.
ENFRENTOU A ÁGUA.
SUPORTOU O FOGO.
E SUBIU O DEGRAU.”

O chão vibrou como um trovão debaixo dos pés dela.

“AGORA… ME MOSTRE O QUE VOCÊ REALMENTE É.”

Jiyeon abriu as pernas em posição de combate.

Mas o gigante levantou o braço, impedindo.

“NÃO É UMA LUTA.


É UM RETORNO.”

A sombra murmurou:
169

“Ele quer ver a origem.”

Jiyeon fechou os olhos.

E o mundo desapareceu.

---

Ela abriu os olhos e estava em…


Quioto.

Mas não a Quioto real.


Era uma versão quebrada, líquida, distorcida, onde cada rua parecia feita de
lembranças e não de pedra.

O vento carregava vozes antigas.


Os prédios respiravam como se tivessem pulmões.

E ali, na rua estreita, correndo sozinha com uma sacola nas mãos, estava…
uma menina.

Pequena.
De cabelo bagunçado.
De olhar silencioso.

Era ela mesma, aos seis anos.

A menina tropeçou.
Caiu.
Se levantou sem chorar.

Jiyeon deu um passo à frente.

Mas o mundo pulou.


Como um salto de filme.
170

Agora era Jiyeon aos nove anos, deitada no quintal, olhando o céu, contando
estrelas que nunca conseguia alcançar.

Outro salto.

Jiyeon aos doze, com a mochila nas costas, fugindo de casa pela primeira vez.
Sozinha.
Tremendo.
Mas decidida.

Outro salto.

Jiyeon aos quinze, ajoelhada no gelo, diante do monge.


Recebendo o primeiro toque da sombra.
Gritando sem som, suportando dor que ninguém deveria suportar.

Jiyeon adulta apertou o punho.

O gigante, fora da visão, falou:

“VOCÊ É FRUTO DE SUAS ESCOLHAS.


MAS CARGA DE SEU DESTINO.”

Jiyeon viu isso agora:

cada pedaço dela


— força, silêncio, disciplina, dor —
tinha uma raiz.

E a maior raiz estava naquela menina aos seis anos.

Sentada sozinha, observando o mundo com olhos que nunca aprenderam a serem
crianças.

Jiyeon caminhou até a versão pequena dela.


171

A menina olhou para cima.


Sem medo.
Como se reconhecesse Jiyeon antes mesmo de entender quem ela era.

A sombra murmurou:

“Fale com ela.


Mas a verdade.”

Jiyeon se ajoelhou.

E disse:

— Você não precisa ser forte agora.

A menina piscou.

— Eu sei — sussurrou ela.


— Mas se eu não for… quem vai ser?

Aquilo quebrou algo dentro de Jiyeon.


Algo que nem frio, nem fome, nem fogo, nem monstros haviam conseguido quebrar.

Ela apertou os próprios olhos, tentando não tremer.

A menina tocou a mão dela.

— Eu sobrevivi — disse a pequena Jiyeon.


— Agora é a sua vez.

O mundo explodiu em luz.

---
172

Jiyeon caiu de volta na montanha.

De joelhos.
Ofegante.
Com lágrimas ardendo nos olhos — as primeiras desde a infância.

O gigante a observava em silêncio.

E então falou, com a força de cem trovões:

“VOCÊ RESTITUIU SUA VERDADE.


VOCÊ TERMINOU O DIA 3.”

A luz azul encheu o vale.

A sombra dentro dela brilhou também — não com escuridão, mas com equilíbrio.

E então, a frase final ecoou por toda a montanha:

“A PROVAÇÃO TERMINOU.
VOCÊ ESTÁ LIVRE.”

A montanha inteira pareceu suspirar.

E Jiyeon desmaiou — mas com o coração em paz pela primeira vez.


173

CAPÍTULO 29 — A Descida da Montanha

Quando Jiyeon acordou, o silêncio era diferente.

Não era mais aquele silêncio profundo, ensurdecedor, carregado de presença.


Era apenas… silêncio.
Simples.
Natural.
O silêncio de um lugar que já tinha feito sua parte.

Ela abriu os olhos.

O céu estava azul.


Um azul que ela não via há anos.
Um azul que parecia quase ofensivo depois de tanta escuridão.

O vento bateu no rosto dela, suave — não frio, não cortante, apenas vivo.

E ela percebeu:

a provação havia acabado.

Seu corpo, porém, parecia outro.

Os músculos estavam rígidos.


A pele ardia em pontos específicos — braços, clavícula, costas — como se marcas
invisíveis estivessem sendo escritas ali, queimadas na carne.

A sombra, agora silenciosa e calma, murmurou:

“Você está completa.”

Jiyeon se sentou devagar.

A roupa estava rasgada.


A pele, ferida e marcada.
174

Os lábios rachados.
Os olhos — antes apenas escuros — agora tinham um brilho diferente:
um brilho fundo, intenso, que refletia cada trauma que ela virou força.

Ela respirou fundo, tocando o próprio peito.

O coração parecia… maior.

Não no tamanho, mas na presença.

Como se algo tivesse sido destrancado.

Ela se levantou.

E viu algo que não estava ali antes:

um cajado.

Largo, pesado, entalhado com símbolos antigos da Irmandade.


O monge sempre dizia:

> “Quando o discípulo completa o ciclo, a montanha devolve um presente.


Não é arma.
É reconhecimento.”

Jiyeon segurou o cajado.

Ele vibrou, como se a saudasse.

E então ela viu — ao final do vale — a trilha estreita que descia a montanha.

A sombra murmurou:

“Vá.”
175

---

A descida era longa.

Muito longa.

E, a cada passo, Jiyeon sentia uma memória se dissolver:

o frio do Dia 1

o desespero da fome

a água tentando afogá-la

o fogo vasculhando suas dores

o Degrau tentando quebrar sua mente

a visão da própria infância

o gigante da montanha

Nada desaparecia…
mas cada lembrança parava de doer.

Como se alguém tivesse passado a mão sobre elas e apagado a parte que
sangrava.

No meio do caminho, o corpo começou a reagir de maneiras estranhas:

A pele esquentava por dentro.


As veias pulsavam fortes.
A respiração era profunda demais para ser humana.
176

E então começou.

A primeira marca.

Uma ardência brutal correu pelo braço direito dela, desde o pulso até o ombro.

Jiyeon mordeu os dentes, segurando o tronco de uma árvore.

A sombra apenas murmurou:

“Aceite.
É a sua história escrevendo você.”

Ela não lutou.

E quando a dor passou, havia uma marca nova — uma linha longa, sinuosa,
levemente azulada, como se fosse feita de gelo e tinta misturados.

Parecia o rastro de uma serpente.

A trilha continuou.
E outra dor veio — desta vez no centro das costas, queimando como ferro quente.

Jiyeon caiu de joelhos.


Respirou fundo.
A sombra manteve-se firme.

Quando passou, uma nova marca surgiu:


um símbolo antigo do templo — um círculo dividido, como duas forças opostas se
encontrando.

Depois veio a dor da clavícula.


Depois da costela.
Depois atrás da orelha.
177

Cada marca era uma história gravada.


Cada dor era um dia vivido.

E então, no final da descida, quando o sol começava a se pôr, a montanha deu sua
última marca.

Sem aviso.

Sem piedade.

O pescoço dela queimou do lado direito — profundo, intenso, quase insuportável.

Jiyeon gritou — não de medo, não de fraqueza, mas porque aquela dor trazia tudo:

a criança rejeitada,
a fugitiva,
a discípula,
a sobrevivente.

A sombra abraçou a alma dela:

“Essa é a marca do seu domínio.”

Quando a dor se dissolveu, Jiyeon tocou o lado do pescoço.

E sentiu a textura levemente elevada da marca final:

a base do dragão que um dia se tornaria sua tatuagem —


a marca do renascimento.

---

A última etapa da descida levou-a até o pé da montanha.

E ali, sentado na pedra, como se a estivesse esperando há séculos, estava o monge.


178

O mesmo sorriso silencioso.


A mesma postura reta.
Os mesmos olhos que sempre viram mais do que mostravam.

Ele a observou por um longo tempo.

Depois disse:

— Agora você pertence a si mesma.

Jiyeon ficou imóvel.

Ele continuou:

— A montanha te devolveu inteira.


— Agora, desça para o mundo…
— e veja o que o mundo faz com alguém como você.

Jiyeon respirou.

Profundo.
Calmo.
Firme.

E deu o primeiro passo fora da montanha.

O Arco 1 tinha acabado.

E a vida real… finalmente começava.


179

CAPÍTULO 30 — O Mundo Encontra a Guerreira

A estrada que descia da montanha era estreita, cercada por árvores densas que
cortavam a luz.
Jiyeon caminhava devagar, não por cansaço — mas porque tudo ao redor parecia…
novo.
O cheiro da terra.
O som dos pássaros.
A textura do vento sem gelo.

Ela estava reaprendendo o mundo.

E o mundo estava prestes a vê-la pela primeira vez.

Depois de horas de caminhada, o templo desapareceu na neblina atrás dela, como


um sonho antigo que se fecha.
A trilha abriu para um vilarejo pequeno, onde casas de madeira se espalhavam entre
jardins simples.
Pessoas conversavam, trabalhavam, riam.

Jiyeon parou por um instante.

Ela tinha esquecido como era ouvir risadas humanas.

O primeiro olhar veio de uma criança segurando uma pipa.

Ele parou no meio do caminho, olhos arregalados, sem conseguir desviar.


E, lentamente, a pipa caiu das mãos dele.

Jiyeon percebeu por quê.

Era a primeira vez que via sua própria imagem refletida em um espelho natural —
uma janela limpa na casa ao lado.
E a imagem que olhou de volta era quase irreconhecível.
180

O cabelo estava curto, escuro, caindo de forma desgrenhada e estilosa sobre a


testa.
A pele permanecia muito pálida, marcada por sombras azuladas naturais — não de
frio, mas da nova energia dentro dela.
Os olhos… esses eram o maior choque.

Antes eram apenas escuros.


Agora eram profundos, luminosos, como se guardassem noites inteiras dentro deles.

E o corpo…

As marcas que a montanha deixara já começavam a tomar forma de tatuagens.

O rastro sinuoso no braço direito havia escurecido, transformando-se no início de um


dragão de estilo oriental — cabeça ainda por formar, mas o corpo já desenhado pela
pele.

O símbolo nas costas — o círculo dividido — parecia tinta negra recém-feita,


brilhante sob a luz.

As linhas na costela pareciam ondas.


As marcas atrás da orelha eram como runas antigas.

Cada dor do passado havia virado um traço.


Cada trauma, uma arte.
Cada sobrevivência, um desenho.

Ela respirou fundo.

E viu o que faltava.

A pele do pescoço — do lado direito — ardia levemente.


Ao se aproximar da janela, percebeu o contorno do dragão que um dia seria
completo: uma cabeça esboçada em marcas quase invisíveis, esperando ser
finalizada no futuro.
181

Seu corpo estava virando sua história.

Mas o vilarejo não sabia disso.

As pessoas apenas viam:

uma garota alta,


forte,
pálida,
com olhos de tempestade
e marcas na pele que pareciam ter sido esculpidas, não tatuadas.

Uma senhora suspirou alto ao vê-la.


Um vendedor de legumes recuou o passo.
Dois adolescentes sussurraram entre si.

Mas Jiyeon não se incomodou.

Ela havia acabado de enfrentar uma montanha viva.


Nenhum olhar humano seria capaz de feri-la agora.

---

Ela caminhou até a única construção maior da vila — uma pequena hospedaria com
letreiro de madeira escrito “Casa da Aurora”.

Ao entrar, o sino tocou.

O ambiente era simples: mesas de madeira, cheiro de chá forte, cortinas de linho.

A dona da hospedaria — uma mulher de meia-idade, cabelos presos e mãos


calejadas — olhou para ela por longos segundos.

Não com medo.


182

Não com julgamento.


Mas com reconhecimento.

Como se já tivesse visto alguém assim antes… há muito tempo.

— Você… veio da montanha? — ela perguntou.

Jiyeon apenas assentiu.

A mulher engoliu seco.

— Entre.
— A montanha só devolve quem tem algo para fazer aqui embaixo.

Jiyeon caminhou até o balcão.

— Preciso de água quente — disse.

A mulher sorriu de um jeito curioso.

— E de uma roupa nova, imagino.

Jiyeon olhou para si mesma: a roupa rasgada, suja, seca de sangue e neve
derretida.

— Sim.

A mulher chamou um rapaz da cozinha, murmurou algo em voz baixa, e ele saiu
correndo pelos fundos para buscar o que fosse necessário.

Quando a dona voltou, colocou uma tigela de água quente na frente de Jiyeon.

— Tome.
— E me diga uma coisa…

Jiyeon ergueu os olhos.


183

A mulher se inclinou um pouco.

— O que você veio buscar no mundo?

Jiyeon respirou fundo.

E disse a única verdade possível:

— O que ainda não encontrei.

A mulher sorriu de canto.

— Então o mundo vai ter que correr atrás de você.

Jiyeon não respondeu.


Mas a sombra murmurou dentro dela:

“E vai.”

---

Naquela noite, enquanto a vila dormia, Jiyeon ficou acordada.

Sentada na cama simples, observando o vapor da água quente bater na marca do


dragão no pescoço.

Aquele dragão incompleto.


Aquele símbolo destinado.

E, sem saber por quê…

uma sensação estranha percorreu seu peito.

Algo que não era dor.


184

Nem medo.
Nem saudade.

Algo que ela ainda não entendia.

Mas que o mundo chamaria, um dia, de destino.

E esse destino tinha o nome de:

Ayame Kurotsuki.

Mas isso ela só descobriria mais tarde.

Muito mais tarde.


185

CAPÍTULO 31 — Cidades Têm Olhos, e Jiyeon Também

A estrada de terra acabou no meio da tarde.

E quando Jiyeon saiu do vilarejo, encontrou pela primeira vez — em muitos anos —
algo que parecia provocação do mundo moderno:

uma rodovia.

O asfalto quente brilhava no sol.


Os carros passavam rápidos, barulhentos, com luzes fortes demais.
A fumaça deles carregava cheiros que ela não reconhecia: óleo, metal, velocidade.

Era estranho.
E… familiar de um jeito desconfortável.

Ela deu o primeiro passo na calçada.

E, imediatamente, o mundo urbano a notou.

O primeiro veículo a passar diminuiu a velocidade.


O motorista ergueu as sobrancelhas, impressionado com a figura alta, pálida e
marcada caminhando pela beirada da estrada.

O segundo carro buzinou — não de impaciência, mas de surpresa.

O terceiro reduziu tanto que a passageira até abriu a janela, tentando entender quem
ou o quê ela era.

Jiyeon seguiu em frente sem olhar para ninguém.

Para ela, era só mais um caminho.

Para o mundo moderno, era como ver uma lenda andando a pé.
186

---

O primeiro prédio surgiu no horizonte depois de horas de caminhada.

Depois vieram mais.


Prédios, lojas, semáforos, letreiros, vozes, cheiros, barulho — muito barulho.

A cidade era suçional, quase arrogante.


Tudo nela parecia correr, competir, brilhar.

E Jiyeon…
Jiyeon era calma demais para caber ali.

Quando entrou na primeira rua comercial, toda a vibração ao redor pareceu


desacelerar.
Pessoas viraram a cabeça.
Ciclistas diminuíram o ritmo.
Até o som dos passos pareciam mais lentos.

Ela não precisava tentar chamar atenção.


A aparência fazia isso sozinha.

— Nossa… — uma garota murmurou, puxando a amiga pelo braço.


— Olha aquela mulher…

— Caraca, ela é modelo? — outro perguntou, sem coragem de chegar perto.

— Ela parece saída de um filme — disse um terceiro, com os olhos quase brilhando.

Jiyeon ignorava tudo.


O olhar dela era focado, atento, cortante — como quem estudava uma selva nova.

E então viu um reflexo numa vitrine.

Parou.
187

Aproximou-se devagar.

O reflexo a encarou.

Era a primeira vez, desde que completou o Dia 3, que ela se via totalmente
iluminada.

E agora, com calma, ela pôde analisar:

✔ A pele extremamente pálida, agora com um brilho frio que não era natural

✔ O cabelo curto, escuro, cortado de forma irregular pela luta e pela neve — mas

surpreendentemente estiloso
✔ Os músculos definidos, fortes, compactos

✔ As marcas no braço transformadas em traços nítidos do dragão

✔ Os símbolos das costas se espalhando pelos ombros

✔ A linha azulada atrás da orelha parecendo quase luminosa

E, acima de tudo…

os olhos.

Negros.
Profundos.
E com uma intensidade que nenhuma pessoa normal possuía.

Ela pensou:

Eu não pareço alguém que pertence aqui.

A sombra murmurou:

“Então faça o mundo te pertencer.”


188

Jiyeon desviou o olhar e entrou na primeira ruazinha lateral que parecia


minimamente tranquila.

Ali, entre um café e uma loja de vinis, havia um pequeno estúdio de tatuagem.

O letreiro era escrito à mão:


HORIZONTE DE TINTA

A porta estava aberta.

E por algum motivo, Jiyeon entrou.

---

O interior cheirava a tinta, álcool e música baixa.


Luzes fluorescentes iluminavam paredes cobertas de desenhos.

Um homem alto, magro, com cabelo preso e óculos redondos, levantou os olhos
quando ela entrou.

Ele travou.

Literalmente travou.

Pegou a caneta que estava usando e deixou cair sem perceber.

A voz saiu baixa, quase reverente:

— Meu Deus…

Jiyeon ficou imóvel.

O homem parou na frente dela, analisando cada detalhe — mas não com medo.
Com fascínio.
189

— Eu nunca vi… ninguém… com marcas assim — ele murmurou, quase tocando o
próprio peito, como se quisesse conter a emoção.

Jiyeon ergueu o queixo.

— Pode completá-las?

Ele arregalou os olhos.

— Completar?
— Essas marcas são… naturais?

Ela não respondeu.

Ele respirou fundo.

— Sim.
— Sim… claro que posso.
— Sente-se.

Jiyeon se sentou na cadeira reclinável.

O tatuador preparou as tintas com mãos que tremiam de excitação contida.

— Qual o desenho? — ele perguntou.

Jiyeon virou o rosto e tocou de leve o pescoço.

— O dragão.
— Quero que apareça por inteiro.

Ele sorriu.

— Eu já imaginava.

A máquina ligou, vibrando suave.


190

E, enquanto a tinta começava a tocar sua pele, Jiyeon fechou os olhos.

A sombra murmurou:

“O mundo está escrevendo você de novo.”

Jiyeon respondeu:

— Eu deixo.

A agulha percorreu seu pescoço, delineando a cabeça do dragão — olhos intensos,


escamas elegantes, forma fluida.

O traço subiu para a nuca.


Desceu pela clavícula.
Correu pelo ombro.
E conectou-se perfeitamente às marcas queimadas pela montanha.

O tatuador recuou.

E sussurrou:

— É… perfeito.

Jiyeon abriu os olhos.

Na parede, um espelho mostrava sua nova imagem:


a cabeça do dragão no pescoço, feroz e majestosa, como uma criatura viva olhando
por cima do ombro dela.

Era como se sempre tivesse estado ali.

---
191

Quando saiu do estúdio, o sol estava se pondo.


Neon começava a acender pelas avenidas.
A cidade ganhava uma segunda vida.

E, no meio do barulho, Jiyeon sentiu algo.

Uma presença.
Distante.
Mas quente.
Magnética.
Inexplicável.

A sombra falou, quase com um sorriso:

“Está chegando.”

Jiyeon não perguntou o quê.

Ou quem.

Porque, mesmo sem saber por quê…

o coração dela respondeu antes:

Ayame.
192

CAPÍTULO 32 — Vozes da Cidade, Luzes da Noite

A noite caiu como um pano de veludo sobre a cidade.

Neons acenderam.
Motos rugiram.
Luzes refletiram nas poças da calçada.
E Jiyeon caminhava pelo meio disso tudo, como uma sombra viva entre lâmpadas
elétricas.

Era engraçado.

A montanha havia tentando quebrá-la em silêncio absoluto.

A cidade tentava quebrá-la com barulho.

E, ainda assim, Jiyeon parecia imperturbável.


Cada passo dela era firme, silencioso, calculado — um contraste brutal com o caos
ao redor.

Os olhares a seguiam.

Jiyeon não precisava tentar parecer intimidante.


Ela simplesmente era.

Alta, forte, pálida como lua, com a cabeça de um dragão perfeitamente tatuada no
pescoço.
E aquelas marcas estrangeiras na pele — linhas antigas, símbolos de força, curvas
que pareciam vivas.

As pessoas não sabiam se ela era uma lutadora profissional, uma modelo, uma
arma humana ou um problema esperando acontecer.

Ela também não sabia.

Mas aprenderia em breve.


193

---

A cidade cantava.

Música pelas ruas.


Carros passando.
Vozes de bares abertos.
Luzes piscando.
Pessoas rindo, debatendo, gritando.

Tudo era movimento contínuo.

E Jiyeon avançava por esse mar de sons como um navio em águas agitadas.

Ela virou à esquerda numa rua iluminada por letreiros roxos.


Havia cafés, livrarias, bares alternativos, lojas em ruínas e estúdios de piercing
clandestinos.

O olhar dela parou em um deles.

O letreiro piscava em azul:

MOONMETAL

A sombra murmurou:

“Entre.”

Jiyeon obedeceu.

---

Dentro do estúdio, o cheiro era de álcool, metal e incenso.


194

Luzes penduradas no teto davam um brilho suave aos móveis.


Fotos de clientes decoravam a parede — piercings, tatuagens, modificações, estilos.

Uma garota de cabelo roxo estava atrás do balcão, organizando agulhas


esterilizadas.

Quando levantou os olhos e viu Jiyeon…

Parou.

Congelou.

E depois riu — não por deboche, mas por incredulidade.

— Finalmente alguém com presença de verdade — ela disse, cruzando os braços.


— Eu sou Mika. Posso ajudar?

Jiyeon apontou para o próprio lábio inferior.

— Quero um piercing aqui.

Mika estreitou os olhos, como se analisasse uma obra de arte.

— Você combina com isso — disse.


— E com vários outros também, se quiser saber.

— Comece por esse.

Mika sorriu.

— Sentada aqui.

Jiyeon se sentou na cadeira acolchoada.

A garota preparou as ferramentas com perfeição — mãos ágeis, experientes, leves.


195

— Você tem uma energia… diferente — Mika comentou.


— Parece alguém que já lutou contra a vida e ganhou.

Jiyeon ficou em silêncio.

Mika riu.

— Tudo bem, não precisa responder.


— Só abra um pouquinho a boca.

Jiyeon obedeceu.

A agulha entrou limpa, rápida.


Um instante de dor — nada comparado ao que ela já tinha vivido.

Quando Mika colocou a joia, um aro prateado, simples e elegante, a expressão dela
mudou completamente.

— Uau…
— Você ficou perfeita.

Jiyeon se levantou e olhou no espelho.

A imagem era… intrigante.

O aro prateado no lábio realçava a estrutura forte do rosto.


A pele pálida.
O cabelo curto e bagunçado.
O dragão no pescoço.
Os músculos definidos.
As marcas antigas.
O olhar frio.

Era uma estética completa —


forte, marcante, silenciosa, fatal.
196

Mika perguntou:

— Quer fazer mais?

Jiyeon tocou a sobrancelha.

— Aqui.

Mika sorriu.

— Eu sabia.

O segundo piercing entrou com a mesma precisão.


Depois vieram os da orelha — três de cada lado, simples, prateados, mas alinhados
perfeitamente com o formato da cartilagem.

Por fim, Jiyeon tocou a língua.

Mika levantou as sobrancelhas.

— Esse é sério. Dói mais.

Jiyeon deu um leve sorriso — discreto, quase imperceptível.

— Eu aguento.

Mika riu, abrindo a bandeja.

— Eu nem duvido.

E, minutos depois, a última joia estava encaixada.

Jiyeon se levantou.

E, pela primeira vez, viu sua versão final


— a versão que o mundo conheceria para sempre.
197

Perfeita.
Magnética.
Assustadora.
Fascinante.

Uma força moldada pela montanha.


Um corpo moldado pela tinta.
Uma presença moldada pela sombra.

Mika olhou para ela com admiração pura.

— Você realmente não é daqui.

— Não sou — Jiyeon respondeu.

E saiu.

---

A noite estava mais viva do que antes.

E, conforme caminhava, algo mudou no ar.

Foi súbito.

Como uma nota longa de guitarra enchendo um ambiente silencioso.


Como um perfume quente perdido num vento frio.
Como uma melodia familiar que ela nunca ouviu na vida.

Foi… presença.

Uma presença que cortou o ar como lâmina de luz.

Jiyeon parou no meio da calçada.


198

Sentiu o coração mudar de ritmo.


Devagar.
Profundo.
Certeiro.

A sombra sussurrou — mas dessa vez, com algo quase emocionado:

“Ela está perto.”

Jiyeon olhou para a esquina à frente.

Luzes roxas de um bar.


Gritos animados.
Um palco improvisado.

E alguém cantando.

Uma voz grave, suave, hipnotizante — tão atraente que parecia chamar a pele, não
os ouvidos.

Era a primeira vez que Jiyeon ouvia a voz de Ayame Kurotsuki.

Ela não a via ainda.

Mas sentia.

Como um fio de destino que finalmente se esticava entre duas almas.

E Jiyeon deu o primeiro passo em direção ao som que mudaria tudo.


199

CAPÍTULO 33 — A Voz que Atrai Até Quem Não Pode Amar

A música escorria pelas paredes da rua como vinho derramado.


Densa.
Quente.
Cheia de uma emoção que Jiyeon não sabia nomear.

Ela se aproximou do bar, ainda escondida pelas sombras, como se o corpo


soubesse que cruzar aquela porta mudaria alguma coisa profunda demais — talvez
irreversível.

O neon lilás piscava sobre a entrada:

HANAMORI LIVEHOUSE
Bar alternativo.
Palco pequeno.
Luzes quentes.

O tipo de lugar onde almas quebradas encontram outras almas quebradas sem
precisar conversar sobre isso.

Assim que Jiyeon entrou, o cheiro de fumaça, álcool barato e perfume floral a atingiu
— suave, quase doce, absolutamente inesperado.

Mas nada disso importou.

Porque no centro do palco estava ela.

Ayame.

Pele morena iluminada pelas luzes âmbar.


Cabelo preto preso em um rabo de cavalo alto, com fios soltos que moldavam o
rosto.
Uma gargantilha escura no pescoço.
Camiseta larga de banda japonesa.
200

Calças rasgadas.
Olhos fechados enquanto cantava — como se cada palavra fosse uma confissão
particular cantada para quem estivesse disposto a ouvir.

E havia muita gente disposta a ouvir.

Mas ninguém no bar respirava como Jiyeon.

Ninguém no bar parecia sentir o chão vibrar com a voz de Ayame.

Ninguém no bar parou de caminhar como se tivesse visto um fantasma.

Ayame cantava com uma intensidade que parecia arrastar o ar, dobrar o ambiente,
suspender o tempo. Sua voz era quente, cheia, com um tom grave que arrepiava a
pele.

E Jiyeon…

Jiyeon não conseguia se mover.

O coração dela — tão treinado, tão protegido, tão frio até então — encontrou um
ritmo que nunca havia sentido.
Como se um tambor antigo estivesse despertando dentro de seu peito.

A sombra murmurou:

“O destino canta.”

Ela ignorou.

Ou tentou.

Mas não havia como ignorar Ayame.

---
201

Quando a música terminou, aplausos explodiram pelo bar.


Pessoas assobiaram, gritaram, vibraram.

Ayame abriu um sorriso rápido — lindo demais para alguém que parecia carregar um
cansaço antigo nos olhos.

Ela agradeceu com a cabeça, baixou o microfone e caminhou até o fundo do palco
para beber água.

E por um instante, seus olhos se moveram pela plateia.

Passearam.
Exploraram.
Deslizaram sobre rostos, mesas, corpos.

Até pararem.

Diretamente em Jiyeon.

O mundo diminuiu.

Luzes pareceram recuar.


Conversas ficaram distantes.
O som ambiente virou algo esticado e lento.

Ayame franziu o cenho, como se reconhecesse algo impossível nela.

E Jiyeon sentiu o estômago contrair de um jeito que nunca experimentara.


Não era medo.
Não era ameaça.
Era…

Era destino mordendo a borda da alma.

Ayame não desviou os olhos.


202

Não piscou.

Não corou.

Não sorriu.

Não fez nada que pessoas normais fariam.

Ela apenas encarou Jiyeon como se estivesse vendo alguém que esperou a vida
inteira para encontrar — sem saber que esperava.

Jiyeon sustentou o olhar.

Só isso.

Mas parecia que algo se partia ao mesmo tempo que algo se encaixava.

---

Um grupo de amigas puxou Ayame de volta para o backstage.


Ela desapareceu por trás da cortina preta.

E o bar voltou a respirar como antes.

Pessoas bebiam.
Riam.
Esbarravam umas nas outras.
A música ambiente voltou a tocar.

Mas Jiyeon estava imóvel.

Pronta para ir até a porta que Ayame atravessara.

Pronta para dar o primeiro passo rumo ao caos.


203

Mas então…

A sombra cortou o pensamento:

“Não agora.”

Ela cerrou o maxilar.

— Por quê?

“Ela ainda não está pronta. Você ainda não está pronta. E o destino não tolera
precipitações.”

Jiyeon odiava quando a sombra falava como se fosse dona dela.

Mas… ela sabia que era verdade.

Algo muito maior estava em movimento — e Ayame era uma peça central nele.

Jiyeon respirou fundo, desviou o olhar do backstage e caminhou até o balcão do bar.
Sentou, pediu água, encostou o cotovelo na mesa.

A mão tremeu.
Só um pouco.

Ela fechou os olhos, irritada.

— Eu não tremo. — murmurou.

O bartender riu sem entender.

E Jiyeon percebeu que havia acabado de mentir para si mesma pela primeira vez em
anos.
204

---

Enquanto isso…

Atrás do palco…

Ayame encostou a mão no próprio peito, tentando entender o que tinha acabado de
sentir.

— Ei, Ayame? Tá tudo bem? — uma amiga perguntou.

Ayame respirou fundo, ainda olhando para a cortina por onde tinha visto aquela
mulher.

— Eu…
— Eu senti alguma coisa estranha ali — disse.

— Estranha como? — a amiga insistiu.

Ayame mordeu o lábio — um gesto nervoso que ela raramente fazia.

— Como se eu tivesse encontrado alguém que eu não sabia que estava esperando.

E, sem perceber o próprio sorriso tímido, sussurrou:

— Ela tinha um olhar impossível de esquecer.

---

A primeira conexão estava feita.

Silenciosa.
Inconsciente.
Fatal.
205

E o destino — paciente como sempre — deu mais um nó no fio que ligava as duas.
206

CAPÍTULO 34 — Quando Dois Mundos Começam a Se Chocar

A chuva voltou a cair fina sobre Maruyama, escorrendo pelos telhados como fios de
prata. Jiyeon caminhava pela rua com o capuz baixo, mãos nos bolsos e passos
calculados. Por dentro, porém, a mente dela estava um caos silencioso.

Ela não deveria estar pensando em Ayame.


Não deveria lembrar da voz, dos olhos, da sensação estranha que a atravessou.

Mas quanto mais tentava ignorar… mais presente Ayame ficava.

O destino não tinha pressa.


Mas ele era insistente.

---

Jiyeon parou em frente a uma vitrine — um café 24h com luz quente e poucas
pessoas. Observou o reflexo no vidro, tentando ver algo no próprio rosto que
explicasse a fraqueza que sentia.

Mas encontrou apenas aquilo que sempre viu:

Rosto marcado pela frieza.


Olhos escuros como um lago profundo.
O corte de cabelo curto, ainda úmido da chuva.
A tatuagem do dragão subindo do pescoço para a nuca.
Os piercings brilhando sob a iluminação fraca.

Nada nela parecia alguém que pudesse ser mexida por uma voz.

E, ainda assim… Ayame mexeu.

— Ridículo — murmurou.

Mas a sombra respondeu:


207

“Você sabe que não é.”

Jiyeon ignorou e entrou no café.

---

Enquanto isso…
Do outro lado da cidade…

Ayame não conseguia dormir.

Sentada na cama, ainda com a gargantilha no pescoço e o delineado meio borrado,


ela encarava a parede escura do quarto como se a resposta de alguma coisa
estivesse ali.

O rosto daquela mulher — Jiyeon — insistia em voltar.


A postura.
O olhar.
A presença.

Ayame conhecia muita gente.


Encantava muitos também.
Mas aquilo não era encanto superficial.

Aquilo era… inexplicável.

— Você está estranha hoje — disse sua mãe da porta, com a voz calma de quem
vira centenas de shows e emoções.

Ayame olhou para ela.

— Mãe…
— Hoje eu senti algo que não deveria sentir por uma desconhecida.
208

A mãe riu baixo, suave.

— Ah, minha flor… Às vezes a vida decide nos apresentar alguém antes da hora.
— Às vezes, a alma reconhece primeiro.

Ayame arregalou os olhos.

Ela não tinha contado nada além de “estranho”.

— Como você sabe?

A mãe respondeu com um meio sorriso, quase triste.

— Porque eu reconheci o seu pai do mesmo jeito.

Ayame tremeu um pouco.

Algumas coisas eram grandes demais para serem coincidência.

---

De volta ao café, Jiyeon estava sentada no balcão.


Tomava um chá escuro de ervas — um hábito que cultivava como um ritual.
O vapor subia devagar, perfumado.

Mas a tranquilidade era falsa.

Ela sentia — como uma coceira na nuca — que Ayame ainda estava ligada a ela de
alguma forma.

E então aconteceu.

O sino da porta tocou.

Uma garçonete ajeitou o avental e foi até o balcão.


209

— Desculpa incomodar… você é nova na cidade? — ela perguntou, simpática.

Jiyeon ergueu os olhos devagar.

— Não.

A garçonete riu, sem graça.

— Ah, ok… É que… alguém deixou isso aqui pra você.

Ela colocou um papel dobrado no balcão.

Jiyeon apenas olhou.

— Quem? — perguntou.

— Não sei. Uma garota de cabelo preto, maquiagem glam… Ela só disse “entregue
a ela quando ela entrar”.
— Achei estranho, mas… enfim.

Jiyeon sentiu o peito puxar.

Devagar, abriu o papel.

Reconheceu a letra — elegante, firme, inclinada.

A letra de Ayame.

E na mensagem estava escrito apenas:

“Se você não veio me procurar, o destino trouxe você até mim.”

No canto, um símbolo pequeno:


uma meia-lua atravessada por uma estrela.
210

O símbolo de Ayame.

Jiyeon fechou o bilhete com força.


Quase amassou.
Quase jogou fora.

Mas não jogou.

Porque algo dentro dela queimou.

Algo que ela não entendia.


Algo que ela evitou por anos.
Algo que parecia vivo.

A sombra encarou o bilhete junto com ela.

“O destino anda rápido quando é forte.”

Jiyeon respirou fundo.

— Ela me viu? — murmurou.

A sombra respondeu:

“Ela te sentiu.”

O que era pior.

Porque Jiyeon também sentiu.

---

Do outro lado da rua, escondida sob a marquise de uma loja fechada…

Ayame a observava.
211

Sem que Jiyeon percebesse.

A respiração de Ayame era calma, mas o coração batia em ritmo de palco, como se
estivesse prestes a subir e cantar.

Não era medo.

Era reconhecimento.

Era pressentimento.

Era o começo de alguma coisa impossível de deter.

Ayame sorriu de canto.

— Até logo, mulher dos olhos impossíveis.

Virou e desapareceu na chuva.

---

E assim, no segundo dia da “Saga dos Três Dias”,


dois mundos começaram a se aproximar rápido demais.

Rápido a ponto de nenhum dos dois conseguir parar —


mesmo que quisessem.
212

CAPÍTULO 35 — Quando o Destino Começa a Grudar na Pele

A madrugada avançava como um animal lento e úmido.


A chuva tinha parado, mas a cidade ainda brilhava como se estivesse recém lavada.
Jiyeon caminhava sob as luzes trêmulas dos postes, o bilhete de Ayame queimando
dentro do bolso do casaco.

Ela tentava ignorar.


Tentava se convencer de que aquilo não significava nada.

Mas nada em sua vida tinha sido coincidência.


Nem o monge.
Nem a fuga.
Nem a maldição.
Nem a sombra que a acompanhava.

E Ayame…

Ayame não era coincidência.


O destino não trabalhava com acidentes.

---

Enquanto Jiyeon caminhava, as mãos profundamente enfiadas nos bolsos, a sombra


murmurava no fundo de sua mente:

“Ela toca algo que você não aprendeu a controlar.”

— Eu não preciso controlar isso — Jiyeon retrucou em voz baixa.

“Precisa sim. Porque ela mexe no ponto exato que você tentou enterrar.”

Jiyeon parou em frente a um cruzamento.


O semáforo piscava vermelho.
Poucos carros passavam.
213

— E o que exatamente eu enterrei?

A sombra respondeu com um silêncio pesado.

E Jiyeon soube.

Ela sabia.

Mas não admitiria.

Não agora.

---

Do outro lado da cidade, Ayame estava sentada na janela do próprio quarto, o rosto
iluminado pelo neon azul que vinha do prédio vizinho. Segurava um caderno no colo
— onde rabiscava letras, símbolos, palavras soltas que vinham como ondas.

Mas seus pensamentos estavam em Jiyeon.

Aquela mulher tinha algo… raro.


Algo que Ayame só conseguia comparar com um trovão silencioso.

Parecia força contida.


Parecia destino trancado.

E Ayame tinha uma sensibilidade estranha para esse tipo de coisa.


Não conseguia explicar.
Nunca conseguiu.

Mas ela sentia pessoas.


Lia pessoas.
Antes mesmo de ouvi-las falar.
214

E com Jiyeon…

Ayame sentiu um vazio quente.


Um buraco de significado esperando ser preenchido.

Um chamado.

— Quem é você? — ela sussurrou para o vidro da janela.

Seu reflexo não respondeu.


Mas sua pulsação sim.

---

Na rua, Jiyeon chegou à entrada de um pequeno beco iluminado por lanternas de


papel. Era um lugar que ela conhecia — um ponto neutro. Ali criminosos e artistas de
rua se misturavam sem conflitos, como um pacto silencioso de sobrevivência.

Ela pretendia apenas passar.


Mas algo chamou sua atenção.

Uma música.

Baixa.
Suave.
Vinda de uma caixa de som antiga apoiada no chão.

O tipo de voz que fazia a alma virar o rosto.

Jiyeon congelou.

Era Ayame.

A mesma voz do palco.


A mesma presença.
215

Só que agora… mais íntima.


Mais crua.
Mais verdadeira.

Uma gravação amadora — mas impossível de ignorar.

— Você está por toda parte… — Jiyeon murmurou, irritada com a própria fraqueza.

A sombra riu — algo que ela raramente fazia.

“É assim quando duas forças destinadas começam a se mover.


Uma puxa a outra sem avisar.”

Jiyeon fechou os olhos por um instante.

A música terminava com um suspiro — leve, como se Ayame encostasse a boca no


microfone.

E algo dentro de Jiyeon queimou de novo.

---

— Você gostou? — uma voz infantil perguntou ao lado.

Jiyeon virou-se.

Um garoto de uns oito anos, cabelo bagunçado, vendia CDs caseiros, chaveiros e
pequenos desenhos. Ele sorria com dentes faltando.

— Essa cantora aí é boa, né? A Ayame. — ele continuou, animado.


— Ela me deixa vender as músicas dela aqui, sabia? Diz que arte tem que circular…
mesmo que o mundo não esteja pronto.

Jiyeon franziu os olhos.


216

— Você a conhece?

— Uhum! — O garoto balançou a cabeça. — Ela vem aqui às vezes. Me traz pão
quente.
— Ah! E ela desenhou isso.

Ele pegou um cartãozinho e estendeu para Jiyeon.

No papel havia um desenho simples:

Uma lua preta atravessada por uma estrela.

O mesmo símbolo do bilhete.

Mas abaixo…
Havia algo novo.

Um rabisco rápido de olhos escuros — exatamente o olhar de Jiyeon visto do palco.


E ao lado, escrito:

“Quem é você?”

O coração de Jiyeon apertou.


Por um segundo, ela achou que fosse um ataque físico.

Mas não era.


Era pior.

Era vulnerabilidade.

O garoto continuou:

— Ela disse que precisava descobrir quem você era.


— Que você parecia… um começo.

Jiyeon fechou a mão ao redor do cartão.


217

Sentiu o papel amassar.

— Quanto? — perguntou.

O menino sorriu.

— Ela disse pra eu dar de graça se fosse pra você.

Jiyeon piscou.

A sombra murmurou:

“Ela te viu por dentro.”

— Isso é impossível — Jiyeon respondeu.

“Nada é impossível quando duas almas são feitas da mesma matéria.”

Jiyeon virou-se, pronta para ir embora.

Mas parou.

Porque atrás dela, do outro lado da rua…


Ayame passou.

Não viu Jiyeon.


Não olhou para o beco.
Apenas caminhou devagar, com a cabeça baixa, segurando a alça da bolsa, a
gargantilha brilhando sob o poste.

Como se estivesse sendo puxada também.

Jiyeon recuou um passo automático.

O ar entre as duas tremeu.


Como se o destino respirasse fundo.
218

E Ayame, mesmo sem olhar, franziu o cenho — sentindo algo.


Quase virou.

Quase.

Mas não virou.

O momento ficou suspenso ali, vibrando entre elas.

E Jiyeon murmurou, quase sem voz:

— Por que você me encontra até quando não me procura?

A sombra respondeu:

“Porque você também procura mesmo quando foge.”

---

O segundo dia continuava.

E o destino, finalmente, estava perdendo a paciência.


219

CAPÍTULO 36 — A Cidade Conspira (e o Destino Aperta o Cerco)

Maruyama tinha um jeito estranho de parecer maior quando duas pessoas estavam
tentando se evitar — e menor quando o destino estava tentando juntá-las.
Naquele segundo dia, a cidade parecia estar encurtando caminhos de propósito.

Jiyeon caminhava rápido, como quem tentava fugir do próprio pensamento, mas
cada esquina parecia cantar o nome de Ayame.
Cada vitrine refletia a tatuagem da lua negra.
Cada bar reproduzia uma melodia que lembrava a voz dela.
Cada passo a empurrava para mais perto daquilo que ela não queria — mas que sua
alma reconhecia.

A sombra ria baixinho dentro dela.

“Você pode escapar de muitas coisas, Jiyeon.


Menos do que foi escrito.”

Ela apertou o cartão com o símbolo de Ayame.


Queria rasgar.
Queria ignorar.
Mas guardou no bolso.

Porque o destino gruda.


E gruda sem pedir.

---

Ayame, por outro lado, caminhava sem rumo.


Sentia que precisava andar, mover o corpo, respirar o ar frio — mas a verdade é que
estava tentando entender o que acontecia dentro dela.

Desde o show, uma espécie de vibração morava no peito.


Não era ansiedade.
220

Não era medo.


Parecia… pressentimento.

E quanto mais andava, mais o mundo parecia conduzi-la para um lugar que ela não
sabia nomear — mas que sentia.

Suas botas molhadas faziam som na calçada iluminada pela luz amarela dos postes.
Ela segurava o casaco contra o corpo, perdida nos próprios pensamentos.

— Eu preciso ver ela de novo — Ayame sussurrou para si mesma, como se


confessasse um pecado.

E foi justamente quando disse isso que o vento passou mais forte — empurrando
uma folha de papel contra seu tornozelo.

Ela abaixou e pegou.

Era um panfleto antigo de um restaurante…

Mas atrás, alguém tinha desenhado às pressas um par de olhos escuros, profundos,
intensos.

Os olhos de Jiyeon.

Ayame gelou.
O coração bateu no pescoço.

Ela olhou ao redor procurando alguma explicação.

Mas não havia ninguém.

— Isso está ficando estranho… — murmurou.

E guardou o papel no bolso, sem saber que Jiyeon tinha passado por aquela rua
quinze minutos antes, observando aqueles mesmos cartazes velhos.
221

A cidade estava orquestrando encontros.

E Ayame, mesmo sem entender, já estava dentro da música.

---

Jiyeon atravessou uma rua larga e entrou em uma área mais vazia.
Antigas fábricas abandonadas.
Janelas quebradas.
Paredes com grafites profundos.

Ela gostava dali.


Era silencioso.
Cru.
Imparcial.

Mas ao virar uma esquina, encontrou algo novo.

Um mural gigante, pintado poucos dias antes, provavelmente por artistas de rua.

E no centro…

Uma figura feminina.

Cabelo escuro.
Olhos intensos.
Gargantilha preta.
Mechas prateadas.
Uma estrela pequena sob o olho esquerdo.

Ayame.

Pintada como uma aparição noturna.


Parte menina, parte estrela, parte tempestade.
222

Jiyeon ficou paralisada.

— Isso… não é possível — ela murmurou.

A sombra respirou dentro dela.

“Ela marca o mundo sem perceber.


E o mundo devolve o eco.”

Jiyeon tocou o mural com a ponta dos dedos.

A tinta ainda estava fresca.

Era como se Ayame tivesse sido capturada pelo olhar de alguém que a viu
profundamente — alguém sensível o suficiente para enxergar aquilo que ela tenta
esconder.

E naquele instante, Jiyeon sentiu algo inédito.

Medo.

Medo do que significava sentir tudo isso.


Medo do que aconteceria se ela não controlasse.
Medo de se tornar vulnerável.

E a sombra sorriu.

“O destino não está perguntando sua opinião.”

---

Enquanto isso…

Ayame estava a duas quadras dali, caminhando sem saber exatamente por quê.
Seus passos a levaram até uma rua grafitada.
223

E quando viu o mural…


Ela parou.

O coração perdeu o ritmo.

Porque ali estava outra pintura — mais simples, menor — mas reconhecível.

Olhos escuros como um abismo.


Sobrancelha marcada por um piercing.
A tatuagem do dragão subindo pelo pescoço.

Jiyeon.
Retratada em tinta preta e cinza.

Como se alguém tivesse visto


exatamente
o que Ayame viu no palco.

As pernas dela quase falharam.

Ayame tocou o desenho com a ponta dos dedos.

— Quem é você?
— E por que eu te sinto em tudo?

---

Naquele mesmo instante, em um ponto entre as duas…

O vento mudou.

E ambas, separadas por poucos metros de destino,


respiraram fundo ao mesmo tempo.
224

Sincronizadas.
Ligadas.
Chamadas.

O segundo dia estava chegando ao limite.

E no terceiro, o destino não seria mais paciente.

Ele exigiria o encontro.

Inevitável.
Forte.
Silencioso.
Fatal.
225

CAPÍTULO 37 — Quando o Terceiro Dia Começa (e o Fio Aperta de Vez)

O terceiro dia começou com um silêncio estranho.


Não o silêncio comum da madrugada — mas um silêncio que parecia construído,
como se a cidade estivesse segurando a respiração para algo inevitável.

Jiyeon acordou antes do sol.


Sentada na beira da cama, sentiu a tatuagem do dragão no pescoço pulsar
levemente, como se tivesse vida própria.
O corpo estava inquieto.
A mente, ainda pior.

Ela respirou fundo e passou as mãos no rosto.

— Terceiro dia — murmurou.

A sombra respondeu imediatamente:

“O dia em que tudo encontra tudo.”

Jiyeon percebeu, com irritação, que a sombra estava… animada.


Quase satisfeita.

— Você já sabia — ela acusou.

“Eu sinto o que você sente.


E você está perto demais do nó final para fingir que não sabe.”

Jiyeon levantou.
Vestiu a camisa preta.
A jaqueta escura.
Acendeu o abajur.

E então viu.

Na mesa, ao lado do cartão de Ayame, havia algo novo.


226

Um pedaço de papel dobrado, deixado ali como se tivesse sempre estado.

Com a caligrafia do monge.

O coração dela congelou por um segundo.

Ela abriu devagar.

“Quando três dias se alinham,


a força encontra sua origem,
o destino encontra seu eco,
e a alma encontra sua metade.
Mas tudo isso tem preço.”
— Mestre Shin

Jiyeon apertou o papel.


A sombra se remexeu, inquieta.

“Ele avisou.”

— Avisou nada.
— Isso não diz coisa alguma.

“Diz tudo. Você só não quer ver.”

Jiyeon respirou fundo.

Não estava pronta para admitir a verdade.


Nem para seu mestre morto.
Nem para a sombra.
Nem para si mesma.

Mas o terceiro dia tinha começado.

E a cidade já sabia.
227

---

Ayame acordou tarde.


Tinha dormido pouco — a cabeça cheia de desenhos, olhos escuros, uma presença
que ela não conseguia apagar da mente.

Levantou devagar, apoiando-se na janela.


A luz cinza da manhã iluminou o quarto, fazendo o delineado preto borrado parecer
uma sombra suave no rosto.

Ela passou a mão no pescoço, tocando a gargantilha.

— Eu preciso encontrar ela — disse em voz baixa.

E naquele exato instante, seu celular vibrou.

Uma mensagem.

De um número desconhecido.

“Hanamori Livehouse.
Às 18h.
Seu destino estará lá.”

Ayame franziu o cenho.

Primeiro instinto: pensar em alguém fazendo uma brincadeira.


Segundo instinto: sentir o corpo inteiro arrepiar.

Algo dentro dela…


sabia.

Sabia como se já tivesse vivido aquilo antes.


228

Ela olhou para o mural que tinha visto no dia anterior.


O mural de Jiyeon.
Os olhos dela.
A tatuagem.
A força.

Ayame engoliu seco.

— Seja quem for…


— Eu vou.

Mas no fundo, ela sabia exatamente quem era.

Ou melhor:

Quem chamava.

---

Jiyeon deixou o apartamento com passos firmes.


O ar da manhã estava frio, cortante, quase metálico.
A cada esquina, ela sentia a cidade vibrar — como se o chão estivesse ecoando
uma frequência que só ela podia ouvir.

A sombra caminhava com ela, silenciosa, mas presente.

Quando passou por uma banca de jornal, viu algo que a fez parar.

Na capa de uma revista local:

“AYAME KUROTSUKI — A NOVA VOZ NOTURNA DE MARUYAMA”

Uma foto dela.


Cabelo solto.
Olhar intenso.
229

Lábios ligeiramente abertos.

Jiyeon ficou imóvel.

Era quase como ser encarada de volta.

A sombra murmurou:

“Ela está chamando.”

— Não estou indo até ela — Jiyeon respondeu, irritada.

“Você está andando exatamente para onde ela vai estar.”

Jiyeon fechou o punho.

O destino tem senso de humor.


Péssimo humor.

---

Ayame passou o dia inteiro com uma sensação de que algo estava prestes a
acontecer.
Não conseguia cantar.
Não conseguia escrever.
Não conseguia comer.

A cada hora, o relógio parecia acelerar.

E, quando faltavam vinte minutos para as 18h, ela estava pronta.

Cabelos soltos.
Mechas prateadas reluzindo.
Lábios pintados com um toque escuro.
Jaqueta preta com detalhes metálicos.
230

A pequena estrela sob o olho esquerdo.

Ela parecia alguém indo ao palco —


mas desta vez, o palco era o destino.

---

Jiyeon, por outro lado, caminhava sem desviar.


Sem acelerar.
Sem hesitar.

Seu corpo escolhia o caminho.


Ela apenas deixava.

O Hanamori Livehouse apareceu no fim da rua, neon roxo piscando devagar.

O coração dela bateu mais forte.


Coisa que não acontecia desde os treinos mais cruéis.

A sombra sorriu.

“Chegou a hora.”

---

O relógio marcou 18h.

E no mesmo segundo…

Ayame abriu a porta do bar.

Jiyeon entrou pelo lado oposto.

E o mundo, por um instante inteiro, pareceu parar.


231

Como se Deus, destino ou o universo — quem quer que estivesse comandando —


tivesse prendido a respiração.

Os olhos delas se encontraram.

Sem música.
Sem luz.
Sem plateia.

Só duas forças,
duas almas,
duas histórias inteiras
batendo de frente pela primeira vez.

A respiração de Jiyeon falhou.


A de Ayame desapareceu.

O terceiro dia tinha acabado de colidir.

E nada seria igual depois disso.


232

CAPÍTULO 38 — O Encontro Que Reescreve TUDO

O ar dentro do Hanamori Livehouse ficou mais pesado do que qualquer fumaça.


Mais denso do que perfume.
Mais silencioso do que antes do primeiro acorde de um show.

Por um instante — um instante longo, elétrico e impossível —


Jiyeon e Ayame ficaram apenas se olhando.

Como se as duas estivessem finalmente diante da peça que faltava sem perceber
que faltava.

Como se algo dentro delas dissessem, ao mesmo tempo:

“É você.”

---

Ayame foi a primeira a se mexer.

Um passo.
Pequeno.
Cauteloso.
Mas decidido.

Seu olhar estava tão vivo que parecia luz própria.


A menina de 19 anos, com a estrela pintada sob o olho e a postura de palco,
respirou fundo como se estivesse entrando em uma música lenta.

— Você veio — ela disse.


A voz soava mais grave do que Jiyeon lembrava do palco.

Jiyeon, porém, continuou parada.

A jaqueta escura ainda pingava chuva.


233

O dragão tatuado no pescoço parecia se mover com a respiração.


Os olhos intensos estavam fixos em Ayame como se analisassem, estudassem,
absorvessem cada detalhe.

— Eu não vim por você — Jiyeon respondeu, firme.

Ayame sorriu.
Um sorriso pequeno, mas cheio de uma confiança natural, quase intuitiva.

— O destino discorda.

Jiyeon franziu o cenho.

Ela não entendia como aquela garota — uma cantora, uma artista, uma menina feita
de luz noturna — conseguia olhar dentro dela sem medo.

Ninguém olhava Jiyeon daquele jeito.


Ninguém ousava.

Mas Ayame não apenas ousava.


Ela parecia… se aproximar.

De novo, um passo.

— Seu nome — Ayame disse, suave. — Eu quero ouvir sua voz dizendo.

— Por quê? — Jiyeon perguntou.

Ayame inclinou a cabeça, os cabelos negros caindo sobre um ombro.

— Porque eu sinto que conheço o seu nome desde antes de ouvir.

Jiyeon respirou fundo.


O coração batia num ritmo estranho, irregular.

E a sombra murmurou:
234

“Você sabe que ela está certa.”

Jiyeon ignorou.

Ou tentou.

Mas Ayame estava ali, diante dela, viva, quente, real.

E Jiyeon sentiu — pela primeira vez em anos — medo de falar.

Mas falou mesmo assim.

— Seo Jiyeon.

Ayame fechou os olhos por meio segundo, como se saboreasse o som.

— Seo Jiyeon…
— Forte, direto, bonito.
— Combina com você.

O comentário veio sem hesitação, sincero, firme.

Jiyeon desviou o olhar por um instante — reação quase imperceptível, mas que
Ayame viu.

Porque Ayame via tudo.

---

— E você? — Jiyeon perguntou, de volta ao controle. — Qual é o seu nome?

Ayame deu um sorriso lento.

— Ayame Kurotsuki.
235

O sobrenome ecoou no ar.

Lua negra.

Jiyeon sentiu algo se encaixar só com aquelas duas palavras.

Como se tivessem sido escritas no mesmo dia, no mesmo livro, pelo mesmo destino.

— Kurotsuki — Jiyeon repetiu, quase sem perceber.

— Gosto de como você fala — Ayame disse.

A sinceridade era desconcertante, mas não invasiva.


Era natural.

Como respirar.

---

O bar estava vazio àquela hora.


Algumas poucas pessoas conversavam longe, distraídas demais para perceber a
tensão magnética entre as duas.

Ayame deu mais um passo.

Agora estavam a menos de um braço de distância.

A voz dela caiu para um tom mais baixo.

— No palco… quando eu cantei… eu senti você.

Jiyeon não respondeu.

Só ficou olhando.
236

Ayame continuou:

— E depois… quando você entrou no bar… foi como se o ar mudasse.


— Como se eu tivesse esperado você sem saber que estava esperando.

A sinceridade atingiu Jiyeon como uma lâmina.

Mas ela não recuou.

Não dessa vez.

— Você não me conhece — Jiyeon disse.

— Ainda não — Ayame respondeu imediatamente. — Mas quero.


— Quero muito.

A sombra dentro de Jiyeon quase sorriu.

“Ela fala o que você não admite.”

Jiyeon respirou fundo.

Não era lógico.


Não era racional.
Não se encaixava nas regras que ela vivia desde criança.

Mas Ayame…
Ayame era tudo o que escapava de regras.

— Por quê? — Jiyeon perguntou, finalmente.


A pergunta não era defensiva — era honesta.

Ayame se aproximou mais um centímetro.

— Porque quando eu vi você…


237

— Quando eu ouvi sua respiração no meio da multidão…


— Quando eu senti seus olhos no meu…
— Eu senti que te reconhecia.

Jiyeon ficou imóvel.


As pupilas contraíram.

Ayame sorriu — não provocando, mas acolhendo.

— Não tenha medo — ela disse. — Eu não quero nada de você.


— Só quero estar perto.

Aquilo mexeu em Jiyeon de um jeito que quase doeu.

Porque ninguém falava com ela assim.


Ninguém queria “estar perto”.

As pessoas queriam poder.


Ou proteção.
Ou medo.
Ou vantagem.

Mas Ayame queria apenas…

Ela.

Jiyeon.

A sombra murmurou:

“E isso é o que te assusta mais.”

E era verdade.

---
238

Ayame estendeu a mão devagar.


Não para tocar.
Não para segurar.

Apenas ofereceu.

— Posso? — ela perguntou, a voz baixinha.

O mundo parou por um instante.

Jiyeon olhou para aquela mão estendida.


Para os dedos finos, para as unhas pintadas de preto.
Para a pulseira de corrente leve no pulso.

Ela sentiu algo subir pelo peito.

Algo que sempre foi treinado a ser sufocado.

Mas o terceiro dia não permitia sufocar nada.

Então, lentamente…

Como se quebrasse uma lei que viveu a vida inteira respeitando…

Jiyeon tocou a mão de Ayame.

Não segurou.

Só tocou.

E o mundo inteiro pareceu respirar.

Ayame fechou os olhos, sentindo a energia subir pelo braço, quente, forte, inevitável.

Jiyeon sentiu a mesma coisa.


239

E nenhuma das duas conseguiu puxar a mão de volta.

Porque era tarde demais.

O encontro tinha acontecido.

E o fio do destino, finalmente, se fechou.


240

CAPÍTULO 39 — A Conversa Que Muda Tudo

As mãos ainda se tocavam — não entrelaçadas, não apertadas — apenas unidas


por um ponto pequeno, quente, real.
E esse único ponto parecia capaz de redesenhar o mundo.

Ayame foi a primeira a mover os dedos, deslizando suavemente a ponta do indicador


pela pele de Jiyeon, como quem confirma que aquilo não era um sonho.

— Você é… muito mais quente do que eu imaginava — ela comentou com um


sorriso leve.

Jiyeon recolheu a mão um centímetro, surpresa com a própria reação.


Mas não soltou.
Não afastou.
Não destruiu o momento.

— Eu não sou… — Jiyeon começou, mas a voz quase falhou.


Ela pigarreou. — Eu não sou alguém fácil de se aproximar.

Ayame inclinou a cabeça, analisando cada nuança do tom.

— Eu não quero fácil — ela disse.


— Eu quero verdadeiro.

Por um segundo, a respiração de Jiyeon se prendeu.

Ninguém nunca tinha falado com ela daquele jeito.


Ninguém nunca tinha pedido “verdade”, apenas força, proteção ou distância.

Ayame percebeu o impacto e suavizou o olhar.

— Você sempre parece pronta pra lutar com o mundo.


— Mas eu não sou o mundo.

A sombra se mexeu dentro de Jiyeon, como se concordasse.


241

“Ela vê você, não o que você carrega.”

Jiyeon engoliu seco.

— Eu não sei o que você acha que viu em mim…

Ayame riu baixinho.

— Não “vi”.
— Senti.

Ela aproximou um passo.


Jiyeon não recuou.

— Desde o palco — Ayame continuou.


— Quando eu cantei, parecia que minha voz estava… te chamando.
— E quando você entrou no bar, eu senti como se o ar tivesse mudado de cor.

Jiyeon respirou fundo, tentando manter o controle.

— Você não entende quem eu sou — ela disse, firme, mas não fria.

Ayame deu um meio sorriso.

— Então me explica.

Jiyeon abriu a boca para responder, mas nada saiu.


Como se não houvesse palavras possíveis.

Ayame continuou, sua voz suave como uma música lenta:

— Eu não quero te apressar.


— Não quero te invadir.
— Não quero quebrar nada que você não quer mostrar.
242

Ela ergueu a mão livre e tocou, com cuidado, o ombro de Jiyeon.

Um toque leve.
Respeitoso.
Íntimo sem ser invasivo.

— Mas eu quero te ouvir — Ayame disse.


— Quero saber quem é você de verdade.
— O que te assusta.
— O que te move.
— O que você está tentando fugir.
— E o que você está tentando proteger.

Jiyeon ficou totalmente imóvel.


Como se alguém tivesse finalmente encontrado a porta certa — aquela que ninguém
nunca viu, muito menos tentou abrir.

— Por quê? — Jiyeon perguntou, a voz quase num sussurro.

Ayame sorriu de um jeito pequeno, tímido, mas real.

— Porque quando eu olhei nos seus olhos…


— Eu senti que você era o tipo de pessoa que nunca foi escolhida.
— Só usada.
— Ou temida.

Jiyeon tremeu.

Invisivelmente.
Mas Ayame percebeu.

Percebia tudo.

— Eu não tenho medo de você — Ayame disse, aproximando-se mais.


— Eu tenho medo de não te entender.
243

Jiyeon desviou o olhar por um segundo — como se tentasse quebrar o feitiço.

Mas Ayame levantou a mão e, devagar, encostou dois dedos no queixo dela,
guiando o rosto de volta.

Suave.
Preciso.
Sem força.

— Olha pra mim — Ayame disse.

Jiyeon obedeceu.
Não por fraqueza.
Mas porque algo nela queria.

E quando os olhos se encontraram, Ayame viu além da força, além das sombras,
além das cicatrizes invisíveis.

Ela viu a verdade.

— Você é linda — Ayame disse.


Simples.
Direto.
Sem florear.

Jiyeon piscou, surpresa real estampada no rosto — algo que quase nunca aparecia.

Ayame completou:

— Linda do jeito mais perigoso:


— aquele que nem você percebe.

A sombra dentro de Jiyeon silenciou.


Como se tivesse sido desarmada por um elogio.
244

---

Silêncio.

Silêncio carregado, intenso, quase palpável.

Jiyeon respirou fundo, tentando encontrar as palavras que nunca aprendeu a dizer.

E finalmente falou:

— Você não deveria se aproximar de mim.

Ayame sorriu — o sorriso mais bonito que já deu naquela noite.

— Eu não vim pedir permissão.

Jiyeon ficou sem resposta.

Porque Ayame tinha o tipo de coragem que não era barulho.


Era calma.
Gravidade.
Destino.

Ayame deu um passo para trás — não para se afastar, mas para dar espaço.

— Anda comigo? — ela perguntou.


— Não precisa falar nada.
— Só… caminha ao meu lado.

Jiyeon hesitou.

A sombra murmurou:

“Se você recusar, estará mentindo para si mesma.”


245

E pela primeira vez em muitos anos…

Jiyeon aceitou o que queria.

— Tá — ela disse.
Baixo.
Simples.
Real.

Ayame sorriu.
Um sorriso que iluminava a alma.

— Então vamos.

E as duas saíram do Hanamori Livehouse lado a lado — não de mãos dadas, não
encostadas, mas ligadas por algo muito maior.

Algo que o terceiro dia finalmente revelava:

O destino não une pessoas por acaso.


Ele une quando duas almas são feitas da mesma matéria.

E agora que se encontraram…

Não havia mais volta.


246

CAPÍTULO 40 — Um Passeio que Vira Confissão

(E um Segredo de Jiyeon Quase Escapa)**

A noite em Maruyama parecia mais quente do que deveria.


Mesmo com o vento frio, havia algo vibrando no ar — algo que acompanhava Jiyeon
e Ayame enquanto caminhavam lado a lado pela calçada iluminada por lâmpadas
amarelas.

Nenhuma delas falava.


Mas o silêncio não era estranho.

Era confortável.
Cheio.
Como se as duas estivessem ouvindo uma música que só elas conseguiam escutar.

Os passos eram sincronizados.


A respiração também.

Ayame olhava de vez em quando para Jiyeon — aquela mulher de presença


absurda, olhar profundo, ombros largos, tatuagem de dragão subindo pelo pescoço…
e um silêncio que carregava histórias demais.

— Você sempre anda assim? — Ayame perguntou de repente.

Jiyeon virou o rosto levemente.

— Assim como?

— Como se estivesse… pronta. — Ayame respondeu, gesticulando com as mãos. —


Pronta pra lutar, fugir, encarar, carregar o mundo.
— Como se tivesse recebido uma profecia no café da manhã.

Jiyeon arqueou uma sobrancelha, quase sorrindo.

— É só… o jeito que eu aprendi.


247

Ayame analisou cada palavra.

— Quem te ensinou a andar como se não pudesse perder?

Jiyeon hesitou.
O ar ficou mais denso.

Ayame percebeu imediatamente.

— Desculpa — ela disse. — Não precisa responder se não quiser.

Jiyeon respirou fundo.


Olhou para o chão por um segundo.
E respondeu, muito baixo:

— Um monge.

Ayame piscou, surpresa.

— Isso não estava nem na minha lista de suposições.

Jiyeon deu um sorriso mínimo — quase imperceptível, mas real.

— A maioria das pessoas não esperaria isso.

Ayame arrumou a mecha prateada atrás da orelha.

— Você fala dele como se… ainda estivesse com você.

O coração de Jiyeon apertou — aquele tipo de aperto que vinha de memórias que
nunca cicatrizaram.

A sombra dentro dela murmurou:

“Você vai precisar contar uma hora ou outra.”


248

Mas Jiyeon ignorou.

— Ele me treinou — disse, finalmente.


— Quando eu era criança.

Ayame observou o tom.

Calmo.
Firme.
Mas carregado de dor escondida.

— E você… gostava dele? — Ayame perguntou com cuidado.

Jiyeon parou de caminhar.

Ayame também parou, um passo à frente, virando-se para ela.

A luz da rua iluminava metade do rosto de Jiyeon, deixando a outra metade na


sombra — ironicamente perfeito para alguém que vivia entre os dois lados do
mundo.

— Ele… — Jiyeon começou.

A voz falhou.

Ayame franziu o cenho, preocupada.

— Ei… tá tudo bem.


— Não precisa falar se for difícil.

Mas Jiyeon respirou fundo e decidiu continuar — surpreendendo até a si mesma.

— Ele acreditava que eu tinha um papel no mundo.


— Que eu fui feita pra algo maior.
— E me treinou como se… se eu não tivesse escolha.
249

Ayame sentiu o peito apertar.

— Isso parece solitário.

Jiyeon desviou o olhar.


Por mais que tentasse, não conseguia esconder tudo de Ayame.
Os olhos dela eram… penetrantes.

— Eu não sabia que era solitário até crescer — Jiyeon admitiu.

Ayame deu um passo à frente.


Suave.
Sem pressão.

— E agora?
— Ainda parece?

Silêncio.

Jiyeon olhou de volta para ela.

Olhos escuros encontraram olhos brilhantes.

E Jiyeon respondeu sem pensar:

— Não quando você está perto.

Ayame congelou por um instante.


Depois, sorriu.
Lento.
Profundo.
Como se aquele fosse o elogio mais precioso que alguém já lhe deu.

— Você fala coisas que… — Ayame riu baixinho, tocando o próprio peito. — Que
deixam o coração assim.
250

Ela bateu de leve no próprio peito, como se ele tivesse pulado uma batida.

Jiyeon tentou disfarçar o impacto que isso teve.

— Eu não falo muito — ela disse.

— Então quando fala… importa — Ayame completou.

Jiyeon respirou fundo.

Talvez pela primeira vez em anos, ela sentia vontade de… confiar.
De dividir.
De se expor — sem medo de ser usada.

Mas antes que pudesse dizer algo, Ayame mudou o tom, brincalhona:

— Agora… preciso perguntar uma coisa.

Jiyeon levantou o queixo, pronta.

— Por que você me seguiu ontem?

Jiyeon arregalou os olhos — só um pouco — surpresa.

Ayame riu.

— Ah, não tenta negar.


— Eu senti você atrás de mim em uma rua inteira.
— Você anda leve, mas não invisível.

Jiyeon ficou imóvel por dois segundos.

A sombra gargalhou suavemente.

“Ela te leu melhor do que você imaginou.”


251

— Eu… — Jiyeon começou, travando. — Eu só estava… passando.

Ayame riu mais alto.

— “Passando”, claro.
— Por três ruas seguidas.
— A mesma velocidade que a minha.
— Parando quando eu parava.

Jiyeon ficou em silêncio.

Ayame se aproximou, com aquele sorriso pequeno que escondia perigo e charme ao
mesmo tempo.

— Tá tudo bem — ela disse. — Eu gostei.

O rosto de Jiyeon ficou tenso.

— Gostou?

— Uhum.
— Saber que alguém como você… estava me observando…

Ela suspirou de leve.

— Me fez sentir segura.

Jiyeon não soube como responder.

Porque ninguém nunca tinha dito isso.


Ninguém nunca tinha sentido segurança por estar perto dela.
Normalmente sentiam o contrário.

— Você não deveria confiar em mim tão rápido — Jiyeon murmurou.


252

Ayame respondeu sem hesitar:

— Eu não confio rápido.


— Eu confio certo.

E isso atingiu Jiyeon de um jeito devastador.

A sombra murmurou, mais suave que nunca:

“Ela está quebrando você nos lugares certos.”

Jiyeon respirou fundo, tentando manter controle.

Mas Ayame, sem perceber o perigo, continuou:

— Me diz…
— Por que você parece sempre pronta pra lutar?
— O que você carrega nos ombros?

Foi aí que Jiyeon parou.

Imóvel.

A respiração dela mudou.


A atmosfera mudou.
O olhar mudou.

Ayame percebeu na hora.

Mas antes que pudesse se desculpar ou recuar, Jiyeon falou:

— Eu… carrego uma coisa que você não entenderia.

Ayame tocou o braço dela devagar.

— Tenta.
253

O ar ficou denso.

E, por um segundo, Jiyeon quase disse.

Quase.

— Eu carrego—

Mas algo a interrompeu.

Um estalo seco ecoou atrás delas.


Um som de pedra.
Um som de metal.

Jiyeon virou a cabeça imediatamente — reflexos treinados.

Ayame, assustada, deu um passo para perto dela.

— O que foi isso?

Jiyeon estreitou os olhos.

A sombra rosnou dentro dela.

“Estão chegando.”

Ayame não entendeu.

Mas Jiyeon entendeu perfeitamente.

A terceira noite estava longe de acabar.

E o destino não juntava duas almas…


sem chamar as sombras junto.
254

CAPÍTULO 41 — O Primeiro Perigo

E o Instinto de Proteção Que Jiyeon Não Consegue Esconder

O estalo ecoou novamente — seco, duro, metálico — como se algo tivesse sido
chutado ou quebrado no fim da rua.
Ayame virou o rosto na direção do som, instintivamente.

Mas Jiyeon agarrou seu pulso.


Não com força.
Não com violência.
Com precisão.

— Não olha — ela disse, firme, a voz baixa.

Ayame congelou.
O toque de Jiyeon era quente e decidido, mas o tom…
O tom era de alguém que já viveu aquilo muitas vezes.

— Jiyeon… o que foi isso? — Ayame perguntou, sentindo o coração acelerar.

Jiyeon não respondeu de imediato.


Seus músculos tinham mudado.
A postura tinha mudado.
O olhar tinha ficado mais escuro, mais fundo, mais atento.

Era como observar uma fera silenciosa despertando.

Ayame percebeu isso e engoliu seco.

— Não solta da minha mão — Jiyeon disse, agora mais suave, mas igualmente
imperativa.

Ayame obedeceu sem hesitar.


255

---

O beco à frente parecia normal.


A rua atrás delas, quase vazia.
Só duas lâmpadas piscando — intermitentes, como se anunciassem algo.

Jiyeon inclinou a cabeça levemente, ouvindo o silêncio entre os sons.


A sombra dentro dela rosnou baixo, como um cão farejando perigo.

“Eles não vieram por você.


Vieram porque o destino mexeu as peças cedo demais.”

Jiyeon apertou o maxilar.

— Fica atrás de mim — disse a Ayame.

Ayame deu um passo automático, obedecendo antes mesmo de registrar.

Mas algo cresceu dentro dela — algo quente, estranho, feroz.

— Você está… protegendo eu? — Ayame perguntou, com a voz um pouco trêmula.

Jiyeon não olhou para ela.


Olhos fixos na escuridão.

— Eu não protejo pessoas — Jiyeon disse.

Ayame abriu a boca para responder, mas Jiyeon completou:

— Mas com você é automático.

Ayame sentiu o corpo inteiro arrepiar.

— Por quê…? — ela sussurrou.

— Depois — Jiyeon murmurou. — Agora, silêncio.


256

---

Três figuras surgiram lentamente no fim da rua.

Homens grandes.
Capuzes.
Passos firmes.
Ritmo coordenado demais para parecer aleatório.

Ayame sentiu o estômago virar.

— Eles te conhecem? — ela perguntou, baixinho.

Jiyeon não respondeu.

Mas a sombra respondeu por ela:

“Eles conhecem a lâmina.


Eles conhecem a profecia.
Eles conhecem você.”

Ayame não ouviu a sombra, mas sentiu o clima mudar como se tivesse ouvido.

Jiyeon deu meio passo à frente, na frente de Ayame, o corpo inteiro tenso — não de
medo, mas de prontidão.

— Vocês estão no caminho errado — Jiyeon disse, voz firme.

Os homens riram.

— Você voltou pra cidade bem na hora, Jiyeon — disse o do meio.

Ayame arregalou os olhos.


257

— Eles sabem seu nome…

— Quietinha — Jiyeon murmurou, sem virar o rosto.

Mas Ayame sentiu o coração disparar.

---

O homem do meio deu dois passos para frente.

— Nosso chefe quer falar com você.


— Ele disse que você… tá em dívida.

Ayame olhou para Jiyeon.

Dívida?

Com quem?

Jiyeon manteve a postura firme.

— Eu não tenho mais nada com vocês.

— Tem sim — o homem respondeu, sorrindo. — Desde o dia em que você pegou o
que não devia.

O ar ao redor ficou mais gelado.

Ayame sussurrou:

— O que você pegou?

Jiyeon finalmente virou o rosto um pouco.


Olhou para Ayame, e havia ali um medo diferente.
Não medo dos homens.
258

Medo de ela descobrir demais cedo demais.

— Depois eu explico — Jiyeon disse.

Ayame tocou o braço dela rapidamente.

— Você não tem que me proteger sozinha — ela tentou.

Mas Jiyeon sorriu de um jeito triste e belo.

— Tenho sim.

E então, tudo aconteceu em um piscar de olhos.

---

Um dos homens avançou com um bastão metálico.

Ayame gritou:

— Jiyeon!

Mas Jiyeon já estava se movendo.

O corpo dela virou num giro preciso.


O braço subiu.
A mão encaixou no pulso do agressor.
E, num movimento limpo, rápido e elegante, ela torceu o braço dele para trás — sem
esforço aparente.

O homem caiu de joelhos, gritando.

Ayame ficou boquiaberta.


Era como assistir uma coreografia feita por alguém que treinou com deuses.
259

Antes que outro pudesse reagir, Jiyeon deu um passo lateral — uma dança
calculada — e atingiu o segundo homem na base do estômago.

Ele voou para trás, batendo contra a parede.

Ayame levou a mão à boca.

— Jiyeon…
— Você luta como se…
— Como se tivesse nascido pra isso.

Jiyeon não tirava os olhos do terceiro homem, o único que não tinha atacado.

— Eu nasci — ela respondeu.

O último homem deu dois passos para trás, levantando as mãos.

— Calma… calma…
— A gente só veio dar um recado.

Jiyeon estreitou os olhos.

— Então fala.

O homem engoliu seco.

— “A profecia está avançando.


O eco está perto.
E o destino vai cobrar.”

Ayame franziu o cenho.

— Que profecia?

Mas Jiyeon não deixou o homem continuar.


260

Ela deu um passo à frente, e o homem fugiu imediatamente, tropeçando, correndo


como se tivesse visto um fantasma.

Os dois caídos também fugiram, arrastando-se, desesperados.

Em segundos, o beco ficou vazio.

Silencioso.

Ayame ainda respirava rápido, o coração disparado.

Jiyeon virou para ela — o dragão tatuado parecendo viver na pele, o peito subindo e
descendo devagar.

— Você tá bem? — Jiyeon perguntou.

Ayame quase riu de nervoso.

— Eu tô bem?!
— Você derrubou três homens em vinte segundos!

Jiyeon desviou o olhar, tímida pela primeira vez na vida.

Ayame se aproximou.

— Jiyeon…
— Quem era aquele “chefe”?
— O que é essa “profecia”?
— Que “eco” é esse?

Jiyeon fechou os olhos por um instante.

A sombra murmurou:

“Diga.
Ela merece.
261

Mas não tudo.”

Jiyeon respirou fundo e respondeu:

— O eco…
— é você.

Ayame congelou.

— Eu?!

— Sim — Jiyeon murmurou.


— Eles te sentiram.
— O destino te marcou.
— E agora…
— querem te usar contra mim.

Ayame sentiu o chão sumir por um segundo.

Mas antes que pudesse desmoronar, Jiyeon deu um passo à frente e segurou seu
rosto com as duas mãos — firme, quente, protetora.

— Eu não vou deixar ninguém te tocar.


— Nunca.

Ayame respirou fundo, sentindo a pele tremer.

— Por quê? — ela sussurrou. — Por que eu?

Jiyeon respondeu a única coisa verdadeira que ela podia dizer naquele momento:

— Porque você mudou o meu destino.

E Ayame sentiu tudo.


O medo.
A verdade.
262

A promessa.

E o começo de algo grande demais para fugir.


263

CAPÍTULO 42 — O Refúgio Temporário

(E a Primeira Noite Que Elas Passam Jsozinh

O beco estava silencioso agora — silencioso demais.


Ayame ainda sentia o coração acelerado, o corpo quente, a respiração instável.
Mas não era só o susto.

Era Jiyeon.

A maneira como ela lutava.


A maneira como ela protegia.
A maneira como ela a tocou quando disse que não deixaria ninguém encostar nela.

Aquilo mexia em lugares que Ayame nunca tinha deixado ninguém tocar.

— A gente… precisa sair daqui — Jiyeon disse, avaliando o corredor escuro.

Ela soltou lentamente o rosto de Ayame, mas manteve a mão no pulso dela,
guiando-a com cuidado — como se qualquer distância fosse perigosa demais.

Ayame deixou.

Seu corpo seguia Jiyeon como se fosse natural, como se sempre tivesse sido assim.

---

Elas viraram a esquina, e Jiyeon acelerou o passo.

— Você tem onde ficar? — Jiyeon perguntou.

Ayame respirou fundo, ainda tentando organizar o caos dentro dela.

— Tenho, mas… — Ela mordeu o lábio. — Não quero ir pra lá agora.


264

Jiyeon parou.

O vento passou entre as duas, carregando o cheiro de chuva recente.

— Não quer? — Jiyeon repetiu, séria.

— Não — Ayame respondeu. — Não depois disso.


— Eu não quero ficar sozinha.

Jiyeon fechou os olhos por um segundo.


Sinceridade sempre foi uma arma contra ela.

— Então vem comigo.

Ayame piscou.

— Você tem um… lugar?

— Um apartamento. — Jiyeon respondeu. — Não é muito confortável.


— Mas é seguro.

Ayame deu um meio sorriso.

— Eu gosto de seguro.

Jiyeon respirou fundo, como se estivesse tentando se preparar para algo muito maior
do que pensou que enfrentaria naquela noite.

— Então vamos.

---

O prédio onde Jiyeon morava ficava em uma rua mais afastada, onde a cidade
começava a ficar silenciosa demais.
A fachada era simples, quase discreta.
265

O elevador era velho, fazia um barulho grave quando subia.

Ayame observava tudo.


Os detalhes.
A forma como Jiyeon apertava os botões com calma.
O corpo quieto, mas alerta.
O olhar sempre atento ao redor.

Era lindo.
De um jeito que Ayame nunca tinha visto em ninguém.

— Você sempre parece… pronta pra proteger o mundo inteiro — Ayame comentou
suavemente.

Jiyeon virou o rosto e a encarou.

— Eu não protejo o mundo inteiro.


— Só quem importa.

Ayame sentiu o peito aquecer.

— E eu… importo?

A pergunta ficou pendurada no ar como uma corda fina, frágil, prestes a se romper.

Jiyeon hesitou.

Mas não mentiu.

— Importa demais — ela disse.

A porta do elevador abriu naquele momento, como se o universo tivesse salvado


Jiyeon de confessar mais do que devia.
266

---

O apartamento era simples, mas cuidadosamente arrumado.


Uma lâmpada de luz quente iluminava a sala.
Livros empilhados em prateleiras improvisadas.
Instrumentos musicais apoiados nos cantos — violão, teclado, um shamisen antigo.

Ayame sorriu ao ver.

— Você toca tudo isso?

Jiyeon tirou a jaqueta, deixando o dragão tatuado no pescoço completamente à


mostra.

— É… um hábito que nunca perdi.

Ayame caminhou até o shamisen e passou os dedos pela madeira.

— Você é cheia de segredos — ela disse.


— E todos eles parecem… bonitos.

Jiyeon desviou o olhar.

— Nem todos.

Ayame se aproximou, devagar, como alguém que se aproxima de um animal


selvagem — não por medo, mas por respeito.

— Você pode me contar algum? Só um.


— Eu prometo que não vou fugir.

Jiyeon respirou fundo, apoiando as mãos na beirada da mesa.

— Ayame…
— Se eu te contar tudo, você pode se machucar.
267

Ayame tocou o braço dela — um toque pequeno, suave, mas firme.

— Eu já me machuco por coisas muito menos importantes.


— Prefiro me machucar por algo real.

O mundo de Jiyeon balançou.

Ninguém nunca disse algo assim na vida dela.

E o corpo dela cedeu um milímetro.

Só um.

Mas suficiente para Ayame perceber.

---

— Tá — Jiyeon disse, finalmente.


— Um segredo.

Ayame endireitou a postura, respirando fundo.

Jiyeon puxou a manga da camisa e revelou uma parte da tatuagem maior, escondida
no braço — linhas orientais, símbolos antigos, traços que lembravam selos proibidos.

— Isso aqui… — Jiyeon disse. — Não é uma tatuagem comum.

Ayame aproximou-se, quase tocando, mas esperando permissão com os olhos.

Jiyeon deu um pequeno aceno.

Ayame encostou a ponta dos dedos na tatuagem.

Jiyeon tremeu.
268

De leve.

Mas tremeu.

— Ahn… ela é quente — Ayame disse.

— É — Jiyeon respondeu.
A voz falhou um pouco.

Ayame olhou para ela, surpresa.

— O que isso significa?

Jiyeon respirou fundo.


Olhos fixos nos dela.

— Significa que…
— quando eu sinto perigo, emoção forte ou… algo que não posso controlar…
— ela reage.

Ayame engoliu seco.

— E agora ela tá reagindo por quê?

Jiyeon estava perto.


Muito perto.

Os olhos escuros ardiam como brasa.

E ela respondeu sem fugir:

— Por você.

Ayame ficou imóvel.


Completamente congelada por fora, fervendo por dentro.
269

— Jiyeon… — ela sussurrou.

Mas Jiyeon deu um passo atrás, respirando fundo, tentando recuperar o controle.

— Você não deveria saber disso.


— Eu não devia estar te deixando ficar aqui.
— É perigoso.

Ayame deu um passo à frente.


E outro.
E outro.

Até a distância sumir.

— Então eu fico — Ayame disse.


— Se é perigoso, eu fico.
— Se é difícil, eu fico.
— Se você tem medo, eu fico.

Jiyeon fechou os olhos, vencida.

— Você não sabe no que tá se metendo.

— Não sei — Ayame sorriu. — Mas eu quero saber.

Silêncio.

Jiyeon abriu os olhos.

— Você pode… dormir aqui — ela disse, por fim.


— No quarto.
— Eu fico no sofá.

Ayame franziu o cenho.

— Você vai me deixar dormir na sua cama enquanto você dorme dura no sofá?
270

— Isso não parece justo.

— Não é sobre justiça — Jiyeon respondeu. — É sobre… segurança.

Ayame deu um sorriso pequeno.

— Tá bom.
— Mas amanhã… eu quero outro segredo.

Jiyeon suspirou, derrotada.

— Veremos.

— Não. — Ayame corrigiu. — Eu quero.


— E quando eu quero, eu consigo.

Jiyeon desviou o olhar, mas o canto da boca quase traiu um sorriso.

— Boa noite, Ayame.

— Boa noite, Jiyeon.

Ayame entrou no quarto, deixando um perfume leve no ar.


E Jiyeon ficou parada na sala, olhando para a porta fechada, sentindo a tatuagem no
braço pulsar de novo.

A sombra sussurrou:

“Ela é o seu eco.


Seu destino.
Seu problema.
E seu lar.”

Jiyeon sentou no sofá.

E pela primeira vez em anos…


271

Ela não se sentiu sozinha.


272

CAPÍTULO 43 — A Manhã Que Muda Tudo

(E a Primeira Vez Que Jiyeon Sorri de Verdade)

O sol ainda nem havia nascido totalmente, mas um fio dourado escapava pelas
cortinas do apartamento, iluminando a sala silenciosa.
Jiyeon acordou antes de qualquer ruído externo — como sempre. A mente dela
nunca descansava por completo.

Mas algo estava diferente naquela manhã.

A casa cheirava a perfume suave de camomila e pele limpa…


o perfume de Ayame.

Jiyeon sentou-se devagar no sofá, os músculos protestando levemente. Havia


dormido ali por insistência própria, como uma muralha entre Ayame e qualquer coisa
perigosa — inclusive ela mesma.

Mas, quando abriu os olhos completamente, a muralha começou a rachar.

Ayame estava na cozinha.

Pequena, com o cabelo solto caindo pelos ombros, vestindo uma camisa enorme de
Jiyeon que parecia engolir metade do corpo dela.
E estava tentando fazer café.

Tentando.

Porque ela estava encarando a cafeteira como se fosse um inimigo de guerra.

Jiyeon observou em silêncio, com um tipo de ternura que ela não sabia que possuía.

Ayame suspirou, colocou os braços na cintura e murmurou:

— Ok, você ganhou… mas só essa vez.


273

Jiyeon pigarreou.

Ayame deu um pulo tão alto que quase derrubou a cafeteira.

— A-Ah! Você… acordou cedo.

— Sempre acordo cedo — Jiyeon respondeu, com a voz ainda rouca de sono.

Ayame piscou algumas vezes.

— Eu… tentei fazer café.


— Mas essa coisa me odeia.

Jiyeon se levantou, caminhando com passos lentos até a cozinha.


O chão de madeira fez um som suave sob seus pés, e Ayame a observou chegar
como se estivesse assistindo alguém se aproximar em câmera lenta.

Jiyeon pegou a cafeteira, ajustou o filtro, colocou a medida exata de pó e ligou a


máquina com um gesto simples.

Um silêncio breve caiu entre as duas.

— Você faz tudo parecer fácil — Ayame comentou, aproximando-se.

— Não é — Jiyeon respondeu. — Só… não penso muito.

Ayame inclinou a cabeça.

— Talvez você devesse pensar um pouco mais em você mesma.

Jiyeon desviou o olhar, mas Ayame continuou olhando para ela, firme e suave ao
mesmo tempo — como uma chama estável.

A cafeteira começou a chiar.

E Ayame, sem pensar, puxou a manga da camisa de Jiyeon para o lado, olhando a
274

tatuagem que havia pulsado na noite anterior.

— Ela tá… quieta hoje — Ayame murmurou.

— Porque eu estou controlada — Jiyeon disse.

Ayame ergueu o olhar lentamente.

— Você parece mais calma hoje.


— Ou é só impressão minha?

Jiyeon respirou fundo.

— Talvez seja… você.

O ar entre elas ficou quente.

Ayame sorriu — um sorriso pequeno, lindo, que iluminava a sala inteira.

— Eu gosto de ser isso.

Jiyeon sentiu o peito apertar.

E então Ayame percebeu algo.

— Espera… você tá sorrindo?

Jiyeon arregalou os olhos, surpresa consigo mesma.

Ela não sorria.


Ela quase nunca sorria.
E quando sorria, era sempre por dentro.

— Não estou — Jiyeon rebateu automaticamente.

Ayame cruzou os braços.


275

— Está sim.

— Não estou.

Ayame deu um passo pra frente.

— Jiyeon.

— O quê?

— Você está sorrindo.

Jiyeon suspirou, desviando o rosto, mas Ayame viu o canto da boca dela levantar de
novo — involuntário, pequeno, real.

E Ayame riu.
Um riso leve, suave, que entrou no peito de Jiyeon como luz por uma janela.

— Não é engraçado — Jiyeon murmurou.

— É sim — Ayame respondeu, chegando ainda mais perto. — Porque você fica linda
quando sorri.

Jiyeon ficou imóvel.

O coração dela vibrou como um tambor distante.


A tatuagem do braço esquentou um pouco — não como alarme, mas como um
chamado.

Ayame percebeu.

E, sem pedir permissão, esticou a mão, tocou o rosto de Jiyeon e disse:

— Você devia sorrir mais.


— Pelo menos quando eu estiver perto.
276

Jiyeon fechou os olhos por um instante.

— Isso é perigoso.

— O quê?

— Você.

Ayame deu um sorriso lento.

— E você…
chegou muito tarde pra me avisar isso.

---

O café terminou de passar, quebrando o silêncio que ameaçava virar algo maior.

Jiyeon serviu as duas, e as duas sentaram-se lado a lado na mesa.


Ayame bebia o café como se fosse um prêmio.
Jiyeon observava como se estivesse aprendendo um idioma novo.

Até que Ayame colocou a xícara na mesa e perguntou:

— Jiyeon…
— O que vai acontecer hoje?
— No segundo dia?

Jiyeon endireitou a postura, voltando ao modo calculado, preciso, perigoso.

— Hoje é o ponto de virada.


— O dia em que a profecia tenta se aproximar.
— O dia em que Ele dá o primeiro sinal.

Ayame sentiu a espinha arrepiar.


277

— Ele… quem?

Jiyeon olhou para a janela, onde a cidade começava a acordar devagar.

— O homem que sabe tudo sobre mim.


— O que criou os selos.
— O que controla metade da maldição.

Ela virou o rosto para Ayame.

Olhos escuros.
Firmes.
E pela primeira vez… com medo.

— E hoje…
— ele vai tentar me encontrar.

Ayame engoliu seco.

— E o que eu faço?

Jiyeon respondeu sem hesitar:

— Fica perto de mim.


— Não deixa ninguém te tocar.
— E não sai da minha vista.

Ayame assentiu.

— Eu fico.

Silêncio.

Profundo.
Carregado.
278

Ayame colocou a mão sobre a de Jiyeon.

— Eu fico com você.

Jiyeon encarou a mão dela, depois o rosto.

E respondeu, baixa:

— Então nada vai te acontecer.

---

Assim começava o segundo dia.


E nada — absolutamente nada — seria calmo.
279

CAPÍTULO 44 — O Primeiro Sinal Dele

(E o Dia em Que a Cidade Inteira Parece Observar Jiyeon)

A manhã avançou depressa demais.

Depois do café, Ayame tomou um banho rápido, trocou de roupa e prendeu o cabelo
com um elástico preto, deixando algumas mechas prateadas caírem sobre o rosto.
Jiyeon observava tudo em silêncio, encostada na parede, braços cruzados, a postura
perigosamente tranquila.

Mas seus olhos não paravam.

Ela estava em modo de alerta.

Ayame percebeu, mesmo sem entender completamente o que significava viver ao


lado de alguém que tinha tanta escuridão seguindo seus passos quanto luz tentando
salvá-la.

— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, ajustando a gargantilha com a lua


invertida.

— Ainda não — Jiyeon respondeu.


— Mas vai acontecer.

Ayame respirou fundo.

— O segundo dia da profecia…

Jiyeon assentiu.

E então, sem esperar, caminhou até Ayame, segurou o zíper da jaqueta dela e
puxou devagar, fechando até o pescoço.

Ayame congelou.
280

— Por quê? — ela perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.

— A rua hoje não está para exposições — Jiyeon respondeu, séria.


— Ele usa olhos. Muitos olhos.

Ayame engoliu seco.

— Olhos… humanos?
— Ou… piores?

Jiyeon demorou três segundos antes de responder — e esse silêncio foi mais
assustador que qualquer palavra.

— Piores.

---

A Caminhada Pela Cidade

Elas desceram do apartamento pouco depois das nove da manhã.

O corredor estava vazio. O elevador demorou mais que o normal. A luz do térreo
piscou três vezes quando chegaram.

Ayame sentiu a pele arrepiar.

Jiyeon colocou a mão no ombro dela e murmurou:

— Isso não é Ele.


— É só azar elétrico.

Ayame riu sem graça.

— Você tem certeza?


281

— Eu sei quando é Ele — Jiyeon respondeu.


— Ainda não é.

A porta do prédio se abriu, revelando a rua movimentada.

Mas Ayame sentiu imediatamente o ar diferente. As pessoas passavam rápido


demais. Os carros eram barulhentos demais. O vento parecia frio demais.

Ou talvez fosse só medo.

Jiyeon andava ao lado dela, firme, postura impecável, olhar calculado como um
caçador.

Ayame notou que algumas pessoas olhavam para elas — mas não como olhariam
para duas garotas bonitas.

Olhares demorados.
Olhares que acompanhavam.
Olhares que avaliavam.

Ayame se aproximou um pouco mais.

— Eles estão… desviando o olhar de você — ela percebeu.

— Eu faço isso com gente comum — Jiyeon respondeu.


— Eles sentem instinto.
— Não sabem o quê, mas sabem que não devem tentar nada.

— E comigo?

Jiyeon a olhou por alguns segundos.

— Com você, Ayame…


— Eles olham porque você chama atenção demais.

Ayame abriu um meio sorriso.


282

— Obrigada?

Jiyeon não sorriu de volta.

— Não é elogio.
— É uma preocupação.

Ayame abaixou a cabeça.

— Ah…

Jiyeon então completou:

— Mas também é um elogio.

Ayame levantou a cabeça na hora.

— Agora sim.

---

O Primeiro Sinal

Elas estavam indo em direção à pequena rua onde ficava o estúdio de ensaios da
banda de Ayame. Seria um dia de rotina — ou o mais perto disso que podiam ter.

Só que a rotina acabou quatro quadras antes do destino.

Foi sutil.

Uma sombra se movendo rápido demais no reflexo da vitrine.


Um gato preto correndo na direção contrária.
Um ciclista derrapando sem motivo.
283

E um velho, sentado na calçada, mexendo num rádio quebrado que não devia
funcionar.

Mas funcionou.

E do rádio velho, cheio de fios expostos, saiu uma voz metálica, distorcida,
impossível de ser um programa comum:

— Seo Jiyeon… o segundo dia chegou.

Ayame parou.
Jiyeon ficou imóvel.

— O coração acorda antes do corpo.


— E hoje você vai correr.
— Ou perder.

O velho continuou mexendo no rádio, como se nada tivesse acontecido.

Ayame sussurrou:

— Jiyeon… foi… Ele?

Jiyeon fechou os punhos, os músculos do braço marcando sob a jaqueta.

— Ele.
— Finalmente.

Ayame segurou o braço dela.

— O que isso significa?

Jiyeon respirou fundo.

— Significa que ele está perto.


— Observando.
284

— Testando.

— O que a gente faz?

Jiyeon virou o rosto para Ayame, baixando o tom da voz até que ninguém além das
duas pudesse ouvir.

— Agora, Ayame…
— a gente corre.

— Como assim correr?

Jiyeon puxou a mão dela.

— Você confia em mim?

Ayame nem hesitou.

— Sim.

Jiyeon a puxou pela rua com uma urgência calculada, não desesperada — o tipo de
urgência de quem sabe exatamente o que está prestes a acontecer.

E a cidade, como se tivesse vida própria, começou a reagir.

Um poste piscou.
Um carro buzinou sem motivo.
Um pássaro bateu na vidraça de uma loja.
Um homem deixou cair uma sacola cheia de revistas antigas com símbolos
estranhos nas capas.

E o rádio do velho continuou, sussurrando:

— O segundo dia é o dia da caçada, Jiyeon.


— E você já sabe quem corre atrás de você.
285

Ayame apertou a mão dela.

— Jiyeon… com quem estamos lidando?

Jiyeon murmurou:

— Com quem criou a maldição.


— Com quem sabe como quebrá-la.
— Com quem decidiu que eu sou o experimento perfeito.

Ayame sentiu o coração quase sair pela boca.

— E por que ele quer você?

Jiyeon respondeu sem olhar para trás:

— Porque eu sou a única que sobreviveu aos três dias.


— E ele quer saber por quê.

---

A rua ficou mais estreita.


O ar mais gelado.
O mundo parecia prender a respiração.

E então Jiyeon disse, sem diminuir o passo:

— Ayame.
— A partir de agora…
— nada fica perto de você que eu não permita.

Ayame olhou para ela, ofegante.

— Por quê?
286

Jiyeon respondeu:

— Porque no segundo dia…


— Ele tenta tocar quem eu amo.

Ayame parou por um segundo, o coração explodindo dentro do peito.

— Jiyeon… você…

Mas não deu tempo de terminar.

Uma voz ecoou atrás delas:

— Seo Jiyeon.
— Pare.

As duas se viraram ao mesmo tempo.

E ali, no fim da rua…


uma figura estava parada.

Imóvel.
Sombria.
E claramente humana — mas não completamente.

O segundo dia havia começado de verdade.


287

CAPÍTULO 45 — O Homem da Rua Estreita

(E a Primeira Ameaça Direta)

O ar ficou tão frio que parecia cortar a pele.

Ayame sentiu a mão de Jiyeon apertar a dela — e não era o aperto calculado e firme
de sempre. Era mais duro, protetor, quase… desesperado.

Dez metros à frente, a figura parada na rua estreita ergueu o rosto.

Ele não tinha pressa.


Não tinha medo.
Não tinha expressão.

Era um homem.
Mas algo nele estava errado.

Alto demais.
Magro demais.
A pele pálida como mármore rachado.
E os olhos…
os olhos eram duas fendas escuras que não refletiam luz alguma.

Ayame sentiu o estômago virar.

— Jiyeon… quem… é ele?

A voz saiu fraca.

Jiyeon respondeu sem tirar os olhos da figura:

— Ele é um Cobrador.

Ayame piscou.
288

— Cobrador…? De quê?

— De mim.

O homem deu um passo à frente.

Mas não fez som.

Não o som de passos.


Não o som de respiração.
Nada.

Ele simplesmente existia no espaço — como uma sombra que decidira vestir um
corpo.

Ayame segurou o braço de Jiyeon com força.

— Jiyeon… ele… não parece… humano.

Jiyeon respondeu, baixa:

— Porque não é completamente.


— Ele é… feito metade de carne…
— e metade da maldição.

A figura inclinou a cabeça para o lado — um movimento seco, quebrado, como se o


pescoço fosse um objeto articulado mal encaixado.

E então falou:

— Seo Jiyeon.
A voz era grave, arranhada, mas com um tom quase… monástico.
— Seu segundo dia está atrasado.

Ayame engoliu seco.


289

Jiyeon avançou um passo.

— Eu não sigo mais sua contagem.

O Cobrador sorriu — um sorriso fino, quase desenhado, que deixava tudo pior.

— A profecia segue você, Seo Jiyeon.


— Mesmo quando você tenta fugir dela.

Ayame sentiu um arrepio percorrer a coluna.

Jiyeon posicionou o corpo de forma imperceptível — meio passo à frente de Ayame.

Proteção total.

— O que você quer? — ela perguntou.

O Cobrador ergueu o braço.

Havia linhas negras subindo pela pele — como veias marcadas de tinta.

— Quero ver…
— se você ainda é digna.

Ayame tentou puxar Jiyeon de volta.

— Não deixa ele chegar perto!


— Jiyeon, por favor!

Mas Jiyeon estava imóvel.

Estátua viva.

Só os olhos dela se mexiam, calculando distância, vento, sombras, pontos de fuga,


pontos de ataque.
290

— Ayame — ela disse, sem olhar para trás.


— Se eu disser pra correr, você corre.
— Se eu disser pra fechar os olhos, feche.
— Se eu disser pra não se mover, não respire.

Ayame sentiu o coração parar.

— Eu não vou te deixar sozinha!

— Você vai fazer o que eu disser.

O Cobrador deu outro passo — silencioso, impossível, antinatural.

E então ele abriu a boca mais uma vez:

— Você trouxe alguém com você, Jiyeon.


Os olhos dele desceram lentamente até Ayame.
— Isso é novo.

Ayame sentiu um peso na alma, como se estivesse sendo puxada para dentro de um
poço.

Mas Jiyeon, antes que a sensação a engolisse, segurou a mão dela.

E só isso bastou para cortar a influência.

O Cobrador viu isso.


E sorriu.

— Interessante.
— Você encontrou uma âncora.

Jiyeon rangeu os dentes.

— Ela não é parte disso.


291

— Tudo que você toca passa a ser parte — o Cobrador respondeu, com a calma
cruel de quem fala uma verdade inevitável.
— Principalmente o que você deseja proteger.

Ayame corou levemente — um absurdo no meio do pânico.

Jiyeon percebeu.

E deu um micropasso à frente, tampa absoluta, como se pudesse impedir o universo


de tocar a garota atrás dela.

— O segundo dia — o Cobrador continuou —


— é o dia da caça.

A sombra ao redor dele se espalhou no chão como fumaça viva.

Ayame engoliu seco.

— Caça…? Quem caça?


— Ele… caça você?

O Cobrador respondeu.

— Não.
— Ela caça Ele.

Ayame arregalou os olhos.

— Ela? Quem?

Jiyeon respirou fundo.

— A Sombra…
— A que vive dentro de mim…

Ayame sentiu o corpo gelar.


292

O Cobrador ergueu o dedo.

— Hoje, Seo Jiyeon…


— você vai lutar contra aquilo que o monge tentou selar.
— E vai descobrir se consegue manter a garota viva…

Ele apontou para Ayame.

— …ou se a Sombra vai tomá-la primeiro.

Ayame recuou um passo.

Jiyeon avançou na mesma hora — como se estivessem ligadas por uma linha
invisível.

— Se você encostar um dedo nela…


— eu acabo com você.

O Cobrador inclinou a cabeça novamente.

— Vamos ver.

E então — ele desapareceu.

Não correu.
Não pulou.
Não virou fumaça.

Ele simplesmente…
não estava mais ali.

O vento soprou.
Um latido distante ecoou.
A cidade voltou ao normal.
293

Ayame ficou paralisada.

— Jiyeon… o que… o que ele quer dizer com “a Sombra tomar primeiro”…?

Jiyeon fechou os olhos, rígida.

— Significa…
— que hoje…
— eu posso perder o controle.

Ayame segurou as mãos dela, firme, decidida, corajosa, pequena e poderosa.

— Então eu vou te ajudar a manter.

Jiyeon abriu os olhos devagar.

— Ayame… você não entende o risco.

Ayame deu um passo pra frente — até seus rostos ficarem a poucos centímetros.

— Eu entendo uma coisa.


— Você me salvou.
— Agora eu salvo você.

A voz dela tremia — mas não de medo.

De determinação.

Jiyeon encostou a testa na de Ayame.

Um gesto pequeno.
Mas que parecia conter o mundo.

— Então vamos — Jiyeon disse, baixinho.


— A Sombra acordou.
— E a caçada começou.
294
295

CAPÍTULO 46 — Quando a Sombra Acorda

(E Jiyeon e Ayame Correm Daquilo Que Não Tem Rosto)

A cidade estava viva demais.

Os ruídos pareciam distantes e, ao mesmo tempo, próximos demais — como se o


mundo tivesse sido colocado sob um filtro estranho, onde cada som carregava um
subtexto de ameaça.

Jiyeon sabia o que significava.

A Sombra tinha acordado.

E quando ela despertava… a realidade não funcionava como deveria.

Ela apertou a mão de Ayame.

— Fique perto de mim.


— Se você se afastar, mesmo um passo, ela pode usar isso.

Ayame assentiu, embora seu coração parecesse prestes a estourar.

---

A Corrida

Sem aviso, Jiyeon puxou Ayame e começaram a correr.

Não como duas pessoas fugindo.


Mas como alguém que sabia exatamente de onde tinha que fugir — e para onde não
podia ir.

Passaram por uma travessa estreita.


Um carro buzinou atrás delas.
296

Uma mulher gritou do outro lado da rua porque seu cachorro, do nada, começou a
rosnar para o vazio.

Ayame sentiu um frio subindo pela nuca.

— Jiyeon… o que tá acontecendo?

— A Sombra está entre as pessoas.


— Mas elas não veem.
— Só sentem.

— E nós vemos?

— Não ver é pior.

A resposta fez Ayame gelar até os ossos.

---

O Beco Que Não Deveria Existir

Jiyeon virou outra esquina — mas quando Ayame olhou ao redor, percebeu algo
errado.

Muito errado.

— Jiyeon…
— eu nunca vi esse beco antes.

Jiyeon parou abruptamente.

Ayame bateu no ombro dela.

— O que foi?
297

O olhar de Jiyeon estava preso no concreto… que parecia respirar.


As paredes eram mais estreitas do que deveriam.
As sombras eram mais escuras do que o sol justificaria.

— Esse beco… — Jiyeon murmurou.


— …não existia antes.

Ayame sentiu a garganta secar.

— A Sombra… criou isso?

Jiyeon não respondeu.

O que, para Ayame, era ainda pior do que ouvir um "sim".

A tatuagem de dragão no pescoço de Jiyeon brilhou levemente, quase imperceptível


— um traço azulado sob a pele pálida.

Ayame tocou o braço dela.

— Jiyeon… você tá brilhando.

— É o selo reagindo.
— A Sombra está perto.

— Quão perto?

Jiyeon soltou a mão de Ayame.

A primeira vez desde o início do dia.

E isso dizia muito.

Ela deu um passo à frente.

O ar ficou mais pesado.


298

Como se alguém tivesse empurrado um cobertor molhado contra os dois.

Ayame mal conseguia respirar.

— Jiyeon… não me deixa… sozinha…

Jiyeon ergueu a mão e, sem virar o rosto, disse:

— Fique atrás de mim.


— Não toca nada.
— Não olha para as paredes.
— E não responde se ouvir alguém chamando seu nome.

Ayame congelou.

— Como assim alguém chamando meu nome?

Jiyeon respirou fundo.

— A Sombra imita vozes.

Ayame retrocedeu um passo.

— A minha… também?

Por um instante, o silêncio pareceu funcionar como uma resposta.

Mas, mesmo assim, Jiyeon disse:

— Sim.

Ayame sentiu o estômago afundar.

— E a sua?
— Ela pode imitar a sua voz?
299

Jiyeon finalmente olhou para ela — o olhar mais sério que Ayame já tinha visto.

— A que ela mais gosta de usar.

Ayame sentiu as pernas tremerem.

— Por quê?

Jiyeon respondeu com a voz baixa, quase um sussurro.

— Porque a minha voz… quebra você.

Ayame corou — mesmo no meio do terror absurdo que as cercava.

— Não quebra.

— Quebra sim.

— Não quebra—

— Ayame — Jiyeon interrompeu, a voz firme.


— Eu te digo "vem comigo" e você vem.
— Eu te digo "não olha" e você não olha.
— Eu te digo "corre" e você corre até perder o fôlego.

Ayame abriu a boca. Não saiu som.

Jiyeon completou:

— A minha voz tem poder sobre você.


— E a Sombra sabe disso.

O beco escureceu mais um pouco.

Como se concordasse.
300

---

A Primeira Interferência da Sombra

O som veio de trás das duas.

Baixinho.

Suave.

E absolutamente impossível.

— Ayame…

A voz era de Jiyeon.


Exatamente idêntica.
Tom. Respiração. Ritmo.

Ayame agarrou o braço de Jiyeon.

— Jiyeon, você ouviu isso?!

— Sim.
— E não olha pra trás.

A voz se aproximou.

— Ayame… por que você não olha pra mim…?

Ayame fechou os olhos com força.

— Jiyeon… eu tô com medo…

Jiyeon aproximou o corpo do dela.


301

Um gesto protetor, instintivo, feroz.

— Então respira comigo.

Ayame respirou.
Jiyeon respirou junto.

E o beco… reagiu.

As paredes pulsaram.
A sombra se espalhou como tinta negra em água.

E a voz — a voz falsa, a voz roubada —

— Ayame… eu preciso de você… olha pra mim…

Ayame agarrou a camisa de Jiyeon.

— Jiyeon, isso é muito ruim—


— Eu não consigo—
— Eu tô ficando tonta—

— Ayame — Jiyeon disse, firme.


— Me escuta.
— Escuta só a minha voz de verdade.
— Só a minha.
— A dela você ignora.

Ela ergueu o rosto de Ayame com uma mão — gesto suave, preciso, protetor e
íntimo.

— Me olha.
— Só pra mim.

Ayame obedeceu.
302

O beco estremeceu.

A Sombra odiava não ser obedecida.

---

A Primeira Aparição da Sombra

Foi rápido.

Um movimento na parede.
Um puxão de luz.
Uma distorção.

E a Sombra tomou forma.

Não tinha rosto.


Não tinha corpo definido.

Era uma figura escura — uma silhueta oscilante que parecia feita de fumaça e mãos.

E a voz voltou:

— Jiyeon… você vai perder…


— Ela é fraca…
— E você sabe… que eu quero ela…

Ayame recuou um passo.

Mas Jiyeon segurou o braço dela.

— Não.
— Fica comigo.

Ayame estava tremendo.


303

— O que ela quer de mim?!

Jiyeon respirou fundo.

E disse a verdade.

— O que você impede ela de tomar.


— O meu controle.

Ayame sentiu o peito gelar.

— Jiyeon…

— A Sombra nunca me viu tão perto de alguém.


— E ela odeia isso.

A Sombra ergueu os braços — como se fosse atacar.

Mas Jiyeon mudou a postura, o corpo inteiro ficando forte, tenso, preparado.

— Ayame.
— Quando eu disser, você fecha os olhos.
— E não abre até eu tocar você.

Ayame assentiu, mesmo sem enxergar saída.

E então, a Sombra avançou.

Rápida.
Violenta.
Feroz.

Ayame soltou um grito.

Jiyeon deu um passo à frente.


304

E o selo no pescoço dela explodiu em luz azul.

---

A Sombra recuou na mesma hora — como se tivesse sido queimada.

Ayame levou a mão à boca.

— Jiyeon… seu pescoço…

Jiyeon não tirou os olhos da criatura.

— Ela recuou.
— Porque agora eu estou acordada.

O beco tremeu.

A Sombra também.

E Jiyeon disse:

— Ayame.
— Fecha os olhos.

Ayame obedeceu.

E o mundo desabou em som e luz ao mesmo tempo.


305

CAPÍTULO 47 — A Primeira Luta Interna

(E o Selo Escolhe Ayame Pela Primeira Vez)

Ayame fechou os olhos no exato instante em que Jiyeon ordenou.


E o mundo — todo o mundo — pareceu ruir.

O chão vibrou sob os pés dela.


O ar ficou denso, pesado, como se estivesse respirando fumaça.
O som virou uma mistura caótica de vento cortante, metal arranhando pedra e algo
parecido com um rugido abafado — mas não de um animal.

De algo maior.
E infinitamente mais antigo.

Ayame apertou os olhos com força.


Ela não enxergava nada, mas sentia.

Sentia Jiyeon se afastando um passo.


E então outro.
Não porque quisesse.
Mas porque algo a empurrava de volta.

— Jiyeon?! — Ayame gritou, em puro pânico.

— Não olha! — veio a resposta, firme, rasgada, vibrando mais grave do que a voz
normal dela — um tom que Ayame nunca tinha ouvido.

Ayame sentiu o coração doer no peito.


Era como se a voz tivesse duas camadas:
a de Jiyeon…
e outra coisa por trás.

A Sombra.
306

---

A Batalha Invisível

Ayame, sem ver nada, só podia escutar.

Ouviu um impacto surdo.


Depois, o som de algo arrastando na parede — como garras afiadas.

Outro impacto.
Desta vez mais forte.

E a respiração de Jiyeon…
pesada.
Irregular.

Ayame começou a tremer.

— Jiyeon… por favor… você precisa de ajuda—

— Fica parada! — Jiyeon respondeu, e o som era tão cortante que Ayame parou na
hora.

O silêncio pesou por alguns segundos.

E então…

A Sombra falou.

Mas não como antes.


Agora, ela falava usando a voz real de Jiyeon — não a imitação.

— Ayame…

Ayame tropeçou para trás.


307

— Não… não… isso não é ela…

— Ayame… abre os olhos pra mim...

Era perfeita.
Precisa.
A voz que fazia Ayame ceder a qualquer comando.

E foi isso que começou a quebrar a garota.

— Eu preciso de você. Me olha.

Ayame levou a mão lentamente ao rosto, quase abrindo os olhos.

Mas aí — algo queimou.

Uma dor súbita, intensa, no pulso.

Ayame gritou e apertou o local, achando que tinha se machucado.

Mas quando tocou a pele… percebeu:

Seu pulso esquerdo estava quente.


Quente demais.

Como se algo estivesse brilhando debaixo da pele.

E Jiyeon, do outro lado da escuridão, percebeu também.

— Ayame! — ela gritou, mas dessa vez a voz era só dela.


— Não abre os olhos! Esse calor é o selo reagindo a você!

Ayame arfou.

— Mas… o selo é seu…


308

— É.
— Mas você…
— você virou um alvo.
— E o selo…
— está tentando te proteger.

Ayame ficou imóvel.

— Ele… me escolheu?

Jiyeon demorou dois segundos para responder, em meio ao caos ao redor.

— Sim.

O chão vibrou forte.


Ayame ouviu outro impacto — desta vez com o som nítido de algo sendo rasgado.

Mas ela não abriu os olhos.

---

O Momento Em Que a Sombra Erra

A voz de Jiyeon voltou — calma, porém carregada de energia, como se ela tivesse
lembrado de algo importante.

— Ayame…
— a Sombra quer te fazer olhar.

— Eu sei…

— Mas ela cometeu um erro.

— Qu–qual?
309

Jiyeon inspirou fundo.

Ayame ouviu o som do selo no pescoço dela acendendo — como uma brasa sendo
alimentada.

— Ela subestimou o que você é pra mim.

Ayame sentiu o corpo inteiro arrepiar.

— Jiyeon…

— Ela acha que eu vou perder o controle.


— Mas você…
— você é o que me segura.

Ayame pressionou a mão no coração.

E então, a respiração de Jiyeon mudou — ficou mais firme, mais presente, mais
humana.
Como se Ayame tivesse puxado a alma dela de volta com uma frase.

O som da Sombra recuando rasgou o ar.

Um rugido.
Denso.
Raivoso.

E depois: silêncio.

Ayame tremia da cabeça aos pés.

— Jiyeon?!
— O que tá acontecendo?!
— Fala comigo!

Passos.
310

Pesados.

Mas conhecidos.

Ayame sentiu a mão de Jiyeon tocar seu rosto.

— Pode abrir.

Ayame abriu os olhos devagar.

O beco estava diferente.


A sombra havia recuado para os cantos, como se observasse de longe.

E Jiyeon…

Jiyeon estava ajoelhada à frente dela, com a respiração forte, o rosto parcialmente
sujo de poeira negra — cicatrizes novas na pele, sangue escorrendo do lábio.

Mas os olhos dela…


os olhos estavam ali.

Jiyeon sorriu, fraco.

— Eu… tô aqui.

Ayame desabou nos braços dela.

— Eu achei que você ia sumir…


— Eu achei que…
— que ela ia te tomar…

Jiyeon abraçou Ayame com força, segurando-a como se fosse a coisa mais
importante no universo.

— Não enquanto você estiver comigo.


311

A Sombra estremeceu nas paredes.


Como se discordasse.

E Ayame, ainda agarrada ao pescoço de Jiyeon, perguntou:

— E agora?
— O que a gente faz?

Jiyeon se levantou devagar, puxando Ayame pela mão.

O beco inteiro tremia atrás delas.

— Agora…
— a gente sai antes que ela tente de novo.

— E depois?

Jiyeon apertou a mão dela.

— Depois…
— você vem comigo até o fim do segundo dia.

Ayame respirou fundo.

— E o terceiro?

Jiyeon mordeu o lábio, pensativa.

— O terceiro é o pior.
— Mas… eu não vou estar sozinha dessa vez.

Ayame sorriu — cansada, assustada, mas firme.

— Então vamos.
— Antes que ela descubra outro truque.
312

Jiyeon concordou.

E juntas, como se fossem uma só sombra — mas uma sombra viva, humana,
resistência contra o destino — elas saíram do beco.

Ao longe, a Sombra recuava.


Mas não desistia.

Porque no segundo dia…


tudo era apenas o começo.
313

CAPÍTULO 48 — A Cidade Começa a Rachar

(E o Selo de Jiyeon Reage à Presença de Ayame Pela Primeira Vez)

A rua parecia normal quando elas finalmente saíram do beco.

Normal demais.

Carros passavam.
O vento balançava as placas de neon.
Pessoas caminhavam apressadas com sacolas de supermercado.

Mas Ayame sabia.

Jiyeon sabia.

A normalidade tinha sido forçada ali — uma maquiagem barata tentando esconder
um ferimento profundo.
A cidade estava… errada.

Ainda assim, Ayame nunca tinha ficado tão perto de Jiyeon como agora — quase
colada ao braço dela, como se o contato físico fosse uma âncora.

E, pela primeira vez, Jiyeon não recuou.

Ela caminhava firme, postura ereta, músculos tensos, o olhar sempre procurando
pontos suspeitos. Mas, discretamente, mantinha Ayame encostada ao lado direito do
corpo.

Justo onde o selo brilhava sob a pele.

Ayame notou isso.

— Jiyeon… — sua voz saiu suave.


— O selo no seu pescoço está… quente.
314

Jiyeon tocou o local com dois dedos.

Sim.
Quente o bastante para queimar por dentro.
Mas não o bastante para marcá-la.

— Isso não é bom — Ayame murmurou.

— Depende — Jiyeon respondeu, séria.


— Ele reage a estímulos:
medo, perigo, proximidade da Sombra…
ou…

Ela não completou.

— Ou o quê? — Ayame insistiu, andando mais perto.

Jiyeon manteve os olhos à frente, mas respondeu:

— Ou… a você.

Ayame tropeçou num passo.

— E-eu?

— O selo reconheceu seu toque no beco — Jiyeon explicou.


— Ele te marcou como… segura.

Ayame corou.

— Então…
— perto de mim ele… acende?

Jiyeon respirou fundo.

— Sim.
315

Ayame colocou a mão sobre o braço dela.

O selo… pulsou.

Jiyeon fechou os olhos por um segundo — não de dor, mas como se estivesse
ouvindo algo pela primeira vez.

— Jiyeon… o que foi isso?

— Nada — Jiyeon afastou a mão de Ayame devagar. — Só… o selo reagindo de


novo.

— Reagindo como?

Jiyeon olhou para ela por um momento longo demais.

— Como se você fosse… necessária.

Ayame sentiu o mundo girar por um segundo.


Não de medo — mas de algo quente, profundo, irresistível.

— Necessária… pra quê?

Jiyeon passou a mão pelo rosto, exausta.

— Pra manter a Sombra longe.


— Pra controlar o poder.
— Pra acalmar o selo.
— Pra equilibrar meu corpo.

Ayame ficou imóvel.

— Então… eu… te ajudo?

Jiyeon desviou o olhar, constrangida pela primeira vez desde que Ayame a
316

conhecera.

— Ajuda demais.

O coração de Ayame deu um salto.

— Jiyeon…

Mas o momento foi quebrado — brutalmente.

---

A Primeira Rachadura na Cidade

Um barulho agudo cortou o ar.


Um som de vidro sendo estilhaçado — mas não havia vidro nenhum por perto.

As duas se viraram.

No fim da rua…
o asfalto estava…
trincado.

Como se uma força invisível tivesse pressionado o chão de dentro para fora.
Fendas negras subiam pelo concreto, criando linhas tortas que avançavam como
veias.

Ayame deu um passo para trás.

— Jiyeon… isso… é…

— A cidade está reagindo — Jiyeon murmurou, com a mandíbula tensa.


— A Sombra está tentando romper o limite.

— O limite do quê?
317

— Do segundo dia.

Mais fissuras se abriram.

Pedestres passaram ao lado das rachaduras sem perceber nada — como se fossem
cegos para aquilo.

Mas Ayame enxergava.

E Jiyeon também.

— Isso… isso não devia estar acontecendo, né? — Ayame perguntou, a voz
tremendo.

— Não nessa velocidade — Jiyeon respondeu.

A rachadura se abriu mais — e dela saiu um som baixo, abafado, quase como…

Um sussurro.

Ayame segurou o braço de Jiyeon.

— Jiyeon… tem alguma coisa… falando.

— Não escuta — Jiyeon segurou o rosto dela.


— Não tenta entender.
— Isso é a Sombra tentando te puxar.

Ayame fechou os olhos.

— Jiyeon… eu tô tentando, mas…


mas e se eu não conseguir?

Jiyeon encostou a testa na dela.


318

De novo.

Um gesto tão íntimo que fez Ayame esquecer o terror por um instante.

— Você consegue.
— Porque eu tô aqui.
— E ela não toca você enquanto eu estiver viva.

Ayame sentiu o corpo inteiro tremer — não de medo, mas de algo profundo, quente,
protetor.

E Jiyeon…

Jiyeon estava lutando contra o impulso de beijá-la naquele momento.


A respiração entregue.
O olhar fixo.
A distância mínima entre as bocas.

Ayame percebeu.

E se aproximou um pouco mais.

Mas antes que alguma delas pudesse quebrar a distância — algo explodiu ao longe.

---

O Mensageiro Dele

Um poste de luz cinco metros à frente caiu no chão — como se um gigante invisível
tivesse cortado a base.

Ayame gritou.
Jiyeon puxou-a para trás.

Do buraco escuro onde o poste antes estava, uma nova fenda abriu, e dela saiu…
319

um som.

Uma voz.

Mas desta vez, não era imitação da Jiyeon.

Era a voz dele.

— Seo Jiyeon…
— Vejo que encontrou uma distração.
— Interessante.

Ayame apertou o braço dela.

— Jiyeon… é ele…

Jiyeon ficou imóvel.


O rosto sem expressão.
Mas os olhos…
os olhos estavam queimando.

— Seu segundo dia está longe do fim.


— E ela só está viva porque eu permiti.

Ayame se encolheu.

— Jiyeon… ele sabe…

Jiyeon deu um passo à frente.

Feroz.
Glacial.

— Sai da minha cidade.


— Sai do meu dia.
320

— E sai da minha cabeça.

A voz riu.

— Vamos ver se consegue manter esse tom…


— quando a Sombra pedir o que é dela.

A rachadura fechou.
O poste parou de tremer.
O ar ficou normal.

Mas nada estava normal.

Ayame segurou a mão de Jiyeon.

— O que ele quer… comigo?

Jiyeon engoliu seco — e isso, mais que qualquer coisa, assustou Ayame.

— Ele quer descobrir por que…


— o selo te escolheu.

Ayame ficou em silêncio.

— Isso é bom ou ruim?

Jiyeon respondeu sem hesitar.

— Péssimo.

---

Mas Ayame não soltou a mão dela.

Não importava o que acontecesse depois.


321

As duas estavam presas no segundo dia.

E a cidade inteira começava a rachar.


322

CAPÍTULO 49 — O Lugar Onde Tudo Começou

(E Jiyeon Percebe Que Ayame Está Dentro da Profecia Sem Querer)

O silêncio depois da rachadura era quase doloroso.

Ayame ainda segurava a mão de Jiyeon — não só por medo, mas porque algo
dentro dela dizia que se soltasse… tudo ficaria pior.

Elas continuaram andando pela rua estreita, desviando das pessoas que,
estranhamente, nada percebiam. Carros passavam normalmente, lojas estavam
abertas, vendedores chamavam clientes — mas o ar estava pesado, quebradiço.

Era como se a cidade estivesse usando uma máscara para esconder o colapso.

E Jiyeon sabia exatamente o motivo.

— Ele está fechando o cerco — Jiyeon disse, baixinho.

— O que isso quer dizer? — Ayame perguntou, ainda olhando as rachaduras que se
fechavam lentamente no asfalto.

— Quer dizer que o segundo dia quer me levar ao mesmo lugar onde tudo começou.

Ayame se virou para ela.

— Onde?

Jiyeon respirou fundo, e a resposta saiu com uma mistura de peso e relutância:

— O templo.

Ayame arregalou os olhos.

— Mas o templo fica nas montanhas, Jiyeon… isso é impossível.


323

— Não para Ele — Jiyeon rebateu.


— Não quando é o segundo dia.
— E não quando a Sombra está solta.

Ayame ficou em silêncio enquanto caminhavam.

Até que ela percebeu uma coisa.

— Jiyeon… a gente não está indo pra casa.


— E eu não reconheço essa rua.

Jiyeon apenas apertou a mão dela.

— Eu sei.

Ayame olhou em volta.

E foi aí que percebeu o absurdo:

Os prédios pareciam… mais antigos.


As placas estavam escritas em kanji arcaico.
As janelas tinham molduras de madeira, não metal.

E o ar… estava mais frio.

— Jiyeon…
— a cidade…
— ela tá… mudando?

Jiyeon respirou fundo.

— Ele está puxando a realidade para perto do templo.


— Ele quer que eu volte.

Ayame sentiu a espinha gelar.


324

— Ele… quer te levar de volta ao lugar onde te treinou?

— Onde me quebraram.
— E onde me selaram.

Ayame segurou o braço dela.

— E ele quer que você vá sozinha?

Jiyeon finalmente olhou nos olhos dela.

— Ele quer que eu vá fraca.

Ayame parou no meio da rua.

— Eu não vou deixar.

E antes que Jiyeon pudesse responder, um vento cortante soprou por entre elas,
fazendo Ayame encolher os ombros. A temperatura despencou como se estivessem
subindo uma montanha.

Os prédios ao redor…
mudaram de novo.

Agora tinham teto inclinado, lanternas penduradas, painéis de madeira velha.

Ayame engoliu seco.

— Jiyeon…
— isso não é mais Tóquio.

Jiyeon deu mais um passo.

— Não.
— É o caminho de volta.
325

---

A Revelação Que Ela Nunca Esperou

Ayame correu para acompanhar Jiyeon.

— Mas por que eu estou aqui?


— Isso é entre você e Ele, não é?

Jiyeon não respondeu imediatamente.


Porque ela não queria dizer a verdade.

Mas Ayame insistiu, puxando o braço dela.

— Jiyeon!
— Por que eu estou dentro disso?!

Jiyeon parou.
Virou-se devagar.
E Ayame viu algo no olhar dela que nunca tinha visto:

Medo.

De perder.
De falhar.
De machucar.

— Ayame… — Jiyeon começou.


— Você não está… apenas envolvida.
— Você faz parte.

Ayame recuou um passo.

— Parte… da profecia?
326

Jiyeon respirou lentamente.

— O erro foi achar que a profecia era só minha.


— Ela nunca disse isso.
— Ela só dizia…
“o laço que desperta o selo aparecerá no segundo dia”.

Ayame ficou pálida.

— O laço… sou eu?

— Sim.

Ayame levou a mão ao peito, tremendo.

— Mas… eu não tenho poder.


— Eu não treinei com monge.
— Eu não tenho selo nenhum…

— Mas tem algo que nem Ele conseguiu prever — Jiyeon interrompeu.
— Você tem influência sobre mim.

Ayame piscou, confusa.

— Eu… influencio você?

Jiyeon se aproximou.

Muito.

O suficiente para Ayame sentir o calor dela no rosto.

— Sim.
— Você me acalma.
— Você me ancora.
— Você me impede de perder o controle.
327

— Você fez o selo reagir pela primeira vez em anos.


— E, principalmente…

Ela tocou o rosto de Ayame com a ponta dos dedos.

— …você é a única pessoa que a Sombra não consegue enganar completamente.

Ayame engoliu seco.

— Por quê?

Jiyeon olhou para a boca de Ayame por um segundo — um segundo que durou uma
eternidade.

— Porque você me conhece de verdade.


— E a Sombra não consegue imitar o que eu sinto.

Ayame sentiu as pernas fraquejarem.

Jiyeon continuou:

— Ele achou que você seria uma fraqueza minha.


— Mas você é a minha vantagem.

Ayame respirou fundo, tentando processar.

— Então…
— eu não sou um peso?

Jiyeon tocou o queixo dela, levantando o rosto com cuidado.

— Você é meu equilíbrio.

Ayame ficou vermelha até as orelhas.

E antes que pudesse responder—


328

O chão tremeu.

Um estrondo ecoou pelas paredes de madeira.


E de repente, a rua se alongou como um túnel distorcido.

Lá no fim…

uma sombra enorme esperava.

Não era o Cobrador.

Era algo maior.

Algo antigo.

Algo que conhecia Jiyeon.

Jiyeon deu um passo à frente.

— Ayame…
— o segundo dia está me levando ao Portão.

Ayame agarrou a camisa dela.

— O Portão do quê?

Jiyeon fechou a mão.

— Do templo onde eu quase morri.

Ayame olhou a sombra gigante no fim da rua.

— E a gente vai… entrar ali?

Jiyeon virou o rosto para Ayame.


329

— Não “a gente”.
— Nós dois.

Ayame corrigiu na hora:

— Nós duas.

Jiyeon respirou fundo.

— Sim.
— Nós duas.

E o Portão se abriu.

A história delas continuava ali.

No mesmo lugar onde o destino de Jiyeon começou.


Mas desta vez…

Ela não estava sozinha.


330

CAPÍTULO 50 — O Portão das Sete Vozes

(E o Segundo Dia Chega ao Fim Num Lugar Onde Nada Devia Existir)

O Portão se abriu como um corte na realidade.

Não havia dobra, não havia portas rangendo — ele simplesmente apareceu, imenso,
pesado, impossível de existir ali.
Ayame sentiu as pernas tremerem só de olhar.
Era maior do que qualquer estrutura que já tinha visto: uma entrada de pedra negra,
entalhada com símbolos antigos que se moviam quando ela piscava.

Sim. Eles se moviam.

Jiyeon suspirou, algo entre nervoso e resignado.

— Eu sabia que ele ia trazer isso de volta…

— Jiyeon… — Ayame apertou a mão dela — isso é… isso é real?

— Real o suficiente para matar — Jiyeon respondeu sem suavidade.


— Mas não real o bastante para durar.

Ayame engoliu seco.

— Então… isso é um pedaço do templo?

Jiyeon fechou a jaqueta, como se estivesse se preparando para entrar num inverno
profundo.

— É o Portão das Sete Vozes.


— A entrada do templo… e o lugar mais perigoso do segundo dia.

Ayame olhou para os entalhes — eram sete rostos, todos sem olhos, com bocas
abertas.
E das bocas…
331

saía algo.

Um sussurro.
Baixo.
Irregular.

— Jiyeon… por que ele se chama assim?

— Porque sete vozes falam ao mesmo tempo.


— E nenhuma delas está viva.

Ayame agarrou o braço de Jiyeon.

— A gente tem mesmo que entrar?

Jiyeon olhou para ela — e, por um instante, os olhos deixaram de ser os de uma
guerreira marcada por treinos e profecias.

Foram apenas… humanos.

— Ayame.
— Se eu não entrar, a Sombra te alcança antes do amanhecer.

Ayame sentiu o ar faltar.

— Então… vamos juntas.

Jiyeon hesitou.
Quase um segundo inteiro.

— Eu não devia te levar lá.

— Mas vai.

— Sim.
332

Ayame sorriu, nervosa.

— Então para de tentar me proteger de tudo e só… fica comigo.

Jiyeon desviou o olhar.


Corou de leve.
E isso, para Ayame, foi quase mais chocante que o Portão.

---

A Entrada

Jiyeon deu o primeiro passo.

O Portão reagiu.

Os entalhes estremeceram.
As bocas abriram um pouco mais.
E uma mistura de vozes — não exatamente palavras, mas sons formados com
intenção — ecoaram ao redor das duas.

Ayame se encolheu.

— Jiyeon… o que eles estão dizendo?

— Nada que valha a pena ouvir.

Ayame respirou fundo.

— Você já ouviu antes?

— Sim.
— Quando eu tinha quinze anos.

— E você entendeu?
333

Jiyeon respondeu com honestidade brutal:

— Eu entendi o suficiente pra quase perder a mente.

Ayame apertou a mão dela.

— Então eu te seguro agora.

Jiyeon mordeu o lábio.

— Ayame… isso vai doer.

— Em quem? — Ayame perguntou.

— Em mim — Jiyeon respondeu.


— E em você… se soltar minha mão.

Ayame segurou mais forte.

— Eu não solto.

O Portão tremeu.
Um vento frio passou entre elas.
E então…

Elas atravessaram.

---

O Outro Lado

A luz desapareceu.

A rua desapareceu.
334

A cidade desapareceu.

E Ayame se viu em um corredor estreito, iluminado por lanternas antigas… todas


apagadas.

Jiyeon respirava com dificuldade — como se o ar estivesse mais pesado ali.

Ayame tocou o braço dela.

— Jiyeon… você está pálida.

— Isso… é normal.

— Normal?!

— É o efeito do Portão.
— Ele suga parte da energia de quem entra.
— Mas… eu aguento.

Ayame queria protestar, mas algo chamou sua atenção.

As paredes do corredor… tinham sombras.

Muitas.
Mas nenhuma delas era delas duas.

E as sombras se mexiam sozinhas.

— Jiyeon…

— Não olha muito tempo — Jiyeon orientou.


— Elas tentam imitar você.

— Que ótimo — Ayame murmurou. — Só faltava isso.

Mas, apesar do humor nervoso, Ayame ficou mais perto ainda de Jiyeon.
335

E Jiyeon percebeu.

— Ayame.

— Hum?

— Você está tremendo.

— Sim. E você não? — Ayame perguntou.

— Eu tremo por dentro — Jiyeon respondeu, sem ironia.

Ayame corou.
Mesmo ali.
Mesmo com tudo aquilo.

Mas antes que pudesse responder, uma das lanternas acendeu sozinha — com fogo
azul.

Ayame deu um pulo.

— O que é isso?!

— Ele está dizendo que sabe que a gente chegou.

Ayame engoliu seco.

— “Ele” sendo… o homem da profecia?

Jiyeon parou.
A expressão ficou dura.

— O mestre das Vozes.


— O guardião da Sombra.
— O homem que me treinou.
336

— E o único que sabe como terminar o terceiro dia.

Ayame gelou.

— E ele está aqui?

— Ele está perto.

A chama azul aumentou — e as outras lanternas acenderam em sequência.

Uma.
Depois outra.
E outra.

Até que todo o corredor brilhou com luz espectral.

E, ao fundo, uma figura apareceu.

Silhueta masculina.
Alta.
Com um bordão de madeira.
E um manto velho de monge — preto, não branco.

Ayame agarrou a mão de Jiyeon com desespero.

— Jiyeon…

— Eu sei.

A figura ergueu o rosto lentamente.

E Ayame viu.

Não era o Cobrador.


Não era a Sombra.
337

Era pior.

Era humano.
E não era.

Era o antigo mestre de Jiyeon.

O homem que transformou uma menina de 15 anos na lenda das sombras.

Ele sorriu.

— Bem-vinda de volta, Seo Jiyeon.


— E… finalmente… conheço sua âncora.

Ayame congelou.

Jiyeon deu um passo à frente.

O segundo dia estava quase terminando.

E quando terminasse…
elas não saberiam mais quem era aliado.

Ou inimigo.
338

CAPÍTULO 51 — O Antigo Mestre

(E a Primeira Mentira Que Ele Conta a Ayame)

O homem à frente delas parecia esculpido pela própria noite.

O manto escuro arrastava pelo chão, absorvendo a luz azul das lanternas.
A pele era marcada por rugas profundas, como se cada uma carregasse um
segredo.
O bordão de madeira era alto — tão alto que quase tocava as lanternas penduradas.

Ayame engoliu seco.

Ela nunca tinha visto alguém tão… silencioso.

Não no sentido comum.


Esse silêncio era diferente.
Era como se o espaço ao redor dele tivesse sido desligado.

Nenhum som se formava perto dele.


Nem eco.
Nem respiração.
Nem vento.

Era um vazio que tinha aprendido a andar.

E Jiyeon o encarava como se estivesse diante de um fantasma que não deveria


existir.

— Você… — Jiyeon disse, a voz baixa. — Não devia estar aqui.

O mestre inclinou levemente a cabeça.

— Eu também achei que você nunca fosse voltar.

Ayame segurou a mão de Jiyeon com força.


339

— Jiyeon… quem é ele?

Ela esperava ouvir “meu mestre”, “o monge que me treinou”, “o homem que me
acolheu”.

Mas o que Jiyeon disse foi:

— Ele é… a razão de eu ter fugido.

Ayame sentiu o corpo esfriar.

— Fugido?

O mestre sorriu — um sorriso lento, quase sereno, mas que Ayame sentiu como
lâmina.

— Seo Jiyeon sempre teve dificuldades em aceitar a própria natureza.


— Você não tem culpa, criança.
— Sua força a assusta.

Jiyeon puxou Ayame para trás, instintivamente.

— Não se aproxima dela.

O mestre levantou um dedo.

— Não vou machucá-la.


— Aliás…
— fui eu quem pediu que ela fosse trazida.

Ayame arregalou os olhos.

— O quê?

Jiyeon arregalou os olhos também — um raro momento de surpresa verdadeira.


340

— Você… sabia dela?

O mestre apoiou o bordão no chão.

— Claro.

Ele virou o rosto para Ayame.

— Seu nome é Ayame Kurotsuki.


— Filha de artistas, nascida sob o signo lunar.
— Portadora de uma sensibilidade rara.
— Hipnotizante no palco…
— e extremamente perigosa para alguém como Jiyeon.

Ayame ficou paralisada.

— Eu? Perigosa?

O mestre deu um passo à frente — e Jiyeon, na mesma hora, deu um passo à frente
também, bloqueando-o.

— Ela não é um alvo — Jiyeon rosnou.


— E não participa do terceiro dia.

O mestre riu, suave.

— Ah, Jiyeon…
— você sabe que isso não é verdade.

Ayame apertou ainda mais a mão dela.

— O que ele quer dizer com “terceiro dia”?

O mestre se inclinou levemente, como quem explica algo para uma criança.
341

— Minha querida Ayame…


— o terceiro dia nunca foi sobre Jiyeon.
— Foi sobre vocês duas.

Ayame sentiu o chão sumir.

Jiyeon engoliu seco — e isso, para Ayame, foi pior do que qualquer sombra viva.

— Pare — Jiyeon disse, dura. — Não envolve ela nisso.

O mestre continuou como se não tivesse ouvido.

— O segundo dia é o dia da caça.


— Mas o terceiro…
— o terceiro é o dia da escolha.

Ayame tentou entender.

— Escolha de quê?

O mestre sorriu de novo.

Mas esse sorriso foi diferente.


Mais frio.
Mais calculado.

— De quem vive…
— e de quem sela a Sombra para sempre.

Ayame gelou.

— S-sela…?
— Alguém… tem que…?

O mestre ergueu as mãos.


342

— Alguém tem de ficar com ela.


— A Sombra precisa de um corpo, você entende?

Ayame recuou instintivamente.

— Um corpo…?
— Você quer dizer…

— Sim — o mestre disse, sem hesitar.


— Ou Jiyeon…
— ou você.

Ayame soltou a mão de Jiyeon sem querer, chocada demais para perceber.

O coração dela disparou.

— E-eu?

O mestre sorriu.

— Você é perfeita para isso.


— Sua alma é forte.
— Sua ligação com ela é profunda.
— O selo te reconheceu.
— A Sombra te deseja.

Ayame sentiu náusea.

— Eu… não… eu não…

Mas Jiyeon se colocou na frente dela de novo, o corpo inteiro tremendo — não de
medo, mas de fúria.

— Se você tocar nela — Jiyeon disse — eu acabo com você.

O mestre suspirou — como se estivesse desapontado.


343

— Jiyeon… Jiyeon…
— você sempre protege o que ama até a morte.
— Mas o destino não funciona assim.

Ayame sentiu o ar travar no peito.

— C-como assim… “o que ama”?

O mestre ergueu o braço.

O selo no pescoço de Jiyeon brilhou — intensamente.

E Ayame viu.

O mestre sabia.
A Sombra sabia.
O segundo dia sabia.

Todos sabiam.

Menos elas duas.

— Ayame — o mestre disse, com uma calma que doía. —


— Jiyeon não te trouxe para perto porque queria proteger você.

Ayame piscou.

O mestre sorriu — e completou:

— Ela te trouxe porque você é a única pessoa que ela não consegue deixar ir.

Jiyeon prendeu a respiração.

Ayame também.
344

O silêncio entre elas quebrou o chão.

— Isso é mentira — Jiyeon disse, cortando o ar.

O mestre deu um passo atrás.

— Não.

Ele olhou para Ayame.

Direto.
Profundo.

— Seo Jiyeon te ama.


— E é por isso que o terceiro dia vai machucá-la.

Ayame ficou sem ar.

Jiyeon congelou.

E ali…
naquele corredor, diante do mestre que moldou o destino de uma criança…

o segundo dia finalmente terminou.

A luz apagou.

E o terceiro começou.
345

CAPÍTULO 52 — O Terceiro Dia: Onde Tudo Começa a Ruir

O mundo escureceu.

Não como quando uma luz se apaga.


Mas como quando um eclipse cobre o céu — devagar, inevitável, silencioso.

Ayame não conseguia respirar.


Não pela Sombra.
Não pelo mestre.
Mas por uma única frase que martelava como um sino em seu peito:

“Seo Jiyeon te ama.”

Ela não sabia o que fazer com aquilo.


Não naquele momento.
Não enquanto algo antigo, vivo e faminto sussurrava dentro da escuridão que
engolia os corredores.

— Fiquem atrás de mim — Jiyeon disse.

Sua voz era baixa, firme… mas havia uma vibração nela.
Medo, talvez.
Ou algo próximo demais do medo.

O mestre colocou as mãos para trás, como um sábio prestes a observar uma
tragédia inevitável.

— O terceiro dia é sempre o mais cruel.

Ayame segurou o braço de Jiyeon.

— Por que ele disse aquilo? Por que—

— Não importa agora — Jiyeon respondeu rápido, sem olhar para ela.
— Ayame, escuta… aconteça o que acontecer, você corre. Não olha pra trás.
346

— Eu não vou te deixar aqui!

— Vai sim.

A Sombra começou a surgir pelas paredes.


Não como fumaça.
Não como sombra comum.

Era espessa.
Quase líquida.
Como tinta preta viva escorrendo pelo teto, pelas janelas quebradas, pelas
rachaduras do piso.

E ela chamava Jiyeon.

Chamava pelo nome dela.

Jiyeeeeeon…

Ayame recuou até encontrar a parede fria.

— Ela está… falando.

— Não escuta — Jiyeon avisou. — Não responde.

A voz continuava, arrastada, antiga, quase… familiar.

A criança marcada voltou… traga sua carne… traga sua alma… traga o que ama…

Ayame tremeu.

Jiyeon fechou os punhos — e os símbolos escuros começaram a tremer sobre sua


pele.

O mestre observava tudo com um silêncio irritante.


347

Quase… satisfeita.

Ayame olhou para ele.

— Você sabia de tudo isso?!


— Você deixou ela crescer com isso?!

O mestre suspirou.

— Eu apenas cuidei do que não podia ser destruído.

— Você é um monstro!

— Talvez — ele murmurou. — Mas sem mim, Jiyeon teria matado uma vila inteira
antes dos quatorze anos.

Ayame gelou.

Jiyeon virou o rosto devagar.

— Não escuta ele. Ele mente.

— Eu não menti uma única vez esta noite — o mestre disse, com calma perigosa.

E então Ayame viu.

O selo no pescoço de Jiyeon brilhando.


A Sombra avançando pelas paredes.
O corredor se distorcendo, como se a realidade fosse dobrada por mãos invisíveis.

O mestre ergueu o bordão.

— O terceiro dia começa agora.

A Sombra atacou.
348

Jiyeon moveu-se com velocidade impossível — puxando Ayame pela cintura,


desviando, chutando a parede para impulsionar o corpo, rolando pelo chão com ela
protegida nos braços.

Ayame nunca tinha visto Jiyeon lutar daquela forma.

Era…

Animal.
Instintiva.
Sobrenatural.

E completamente aterrorizante.

— Jiyeon… — Ayame sussurrou — você está… mudando.

O olho esquerdo de Jiyeon… não era mais humano.


A pupila se afunilava como a de um predador.
A íris brilhava em vermelho vivo.

— Não olha pra mim agora — ela disse, rouca.

Mas Ayame segurou o rosto dela.

— Eu vou olhar.
— Eu sempre vou olhar pra você.

A Sombra avançou como um mar negro.

O mestre bateu o bordão no chão.

E tudo congelou.

A Sombra ficou imóvel no ar — como se o tempo tivesse sido cortado.

Ayame respirou rápido.


349

— O que você fez?!

— Suspensão — o mestre respondeu. — A Sombra me escuta, por enquanto.


— Mas não por muito tempo.

Ele se aproximou de Jiyeon.

Ela deu um passo à frente, protegendo Ayame.

O mestre tocou o selo no pescoço dela — e Ayame viu o corpo inteiro de Jiyeon
estremecer.

— A verdade, criança — ele disse — é que esse selo nunca foi para controlar a
Sombra.

Ayame arregalou os olhos.

— O que…?

— Esse selo é para controlar você.

Jiyeon travou o maxilar.

— Eu sei disso. Desde os quinze.

— Mas Ayame não sabe — o mestre completou, olhando para ela.

Ayame sentiu a garganta secar.

— Q-quer dizer que…?

— A Sombra não está presa à marca — o mestre explicou, impassível.


— Jiyeon está.

O corpo de Jiyeon tremia.


350

Ayame olhou para ela — e viu não só medo, mas dor.

Dor antiga.
Dor guardada.
Dor que nunca cicatrizou.

— Por isso — o mestre continuou — a Sombra não pode ser destruída.


— E por isso o terceiro dia exige um sacrifício.

Ayame recuou.

— Sacrifício…?
— Quem…?

O mestre sorriu.

— Uma vida para libertar.


— Ou duas para aprisionar.

Ayame engoliu seco.

— Duas…?

Jiyeon fechou os olhos.

— Ele está dizendo…


— que se eu e você morrermos juntas… a Sombra morre também.

Ayame ficou sem ar.

Jiyeon abriu os olhos — o vermelho ainda queimando — e disse, com a voz mais
calma da noite:

— Ayame…
— eu não vou deixar você morrer.
351

Ayame respondeu sem hesitar:

— E eu não vou deixar você morrer.

O mestre suspirou, paciente.

— Então escolham.
— Mas escolham rápido.

A suspensão se quebrou.

A Sombra avançou outra vez — maior, mais viva, mais faminta que antes.

E o terceiro dia finalmente começou.


352

CAPÍTULO 53 — A Verdade Sobre o Terceiro Dia

A Sombra caiu sobre elas como um mar vivo.

Dessa vez, não havia suspensão, aviso ou análise.


A escuridão simplesmente avançou, com dentes, garras e vozes que se
multiplicavam como ecos de gente morta.

Jiyeon empurrou Ayame para trás com tanta força que ela quase caiu.

— Atrás de mim!

Ayame não discutiu — mas também não recuou.

A Sombra se contorceu no ar, moldando-se em algo que lembrava vagamente um


corpo humano…
…mas sem rosto.
Sem forma definida.
Apenas pulsos de ódio, fome e destino.

E ela sussurrou:

“Você me deve.”

As palavras vibraram no corpo de Jiyeon como lâminas enfiadas por dentro da pele.
Ela rangeu os dentes, sentindo o selo queimar.

O mestre observava tudo com a expressão neutra de um homem que assiste um


ritual inevitável.

Ayame avançou um passo.

— O que ela quer?

— Ela quer… a parte de mim que ainda é humana — Jiyeon respondeu, sem tirar os
olhos da criatura.
353

A Sombra sorriu sem ter boca.

E Ayame, com seu coração batendo tão rápido que mal sentia os pés no chão,
sussurrou:

— Então ela não vai ter.

Jiyeon sorriu de canto — um sorriso pequeno, triste, mas inteiro.

— Eu não vou perder pra ela.

A Sombra avançou.

E desta vez, Jiyeon não desviou.


Ela foi ao encontro.

---

O impacto

O choque entre as duas partes — humana e monstruosa — fez a sala inteira tremer.
O chão rachou, as lâmpadas explodiram, a poeira subiu como tempestade.

Jiyeon girou no ar, usando o peso do próprio corpo como arma, chutando a Sombra
com força suficiente para explodir o concreto atrás dela.

A Sombra se refez como um líquido.

Ayame correu até o mestre.

— Faz alguma coisa!

— Eu já fiz demais.
354

Ayame agarrou a gola do kimono dele.

— Se Jiyeon morrer, eu juro que…

— Mate-me? — o mestre arqueou a sobrancelha.


— Se ela morrer… você morre também.

Ayame largou.

— O que…?

— O terceiro dia é claro — ele continuou.


— O laço criado por vocês duas cresceu forte demais.
— A Sombra sente isso.
— E quer usar isso.

Ayame olhou para Jiyeon — que lutava como se lutasse contra a própria alma,
desviando, atacando, sendo atingida, cambaleando e se levantando sem hesitar.

A Sombra sibilou:

“Você não pode viver e amar.”


“Escolha.”

— Ela quer que Jiyeon escolha entre mim e a própria vida? — Ayame sussurrou.

— Sim — o mestre respondeu.


— E Jiyeon… sempre escolhe os outros.

A Sombra acertou Jiyeon com um movimento rápido, lançando-a contra uma parede
com tanta força que rachaduras se espalharam em círculos.

Ayame sentiu seu corpo reagir antes de pensar.

Ela correu.
355

Saltou.

E se colocou entre Jiyeon e a Sombra no instante em que a criatura avançava para o


golpe final.

— AYA—! — Jiyeon gritou.

A Sombra bateu em Ayame como uma maré negra.

Mas não a atravessou.

Não a cortou.

Não a absorveu.

A escuridão recuou.

Recuou como se tivesse tocado fogo.

Ayame caiu de joelhos, segurando o peito enquanto o mestre apertava os olhos,


surpreso pela primeira vez.

— O que…? — Ayame arfou.

Jiyeon correu até ela, segurando o rosto dela com as mãos trêmulas.

— Ayame! Ayame, olha pra mim!

Ayame abriu os olhos devagar.

E Jiyeon congelou.

Porque a pupila dela estava… branca.


Não branca de cega.
Branca… iluminada.
356

O mestre estremeceu.

— É impossível…

— O que está acontecendo com ela?! — Jiyeon gritou.

O mestre deu um passo atrás — como se olhasse um presságio vivo.

— Ayame…
— Ayame não é apenas um catalisador.
— Ela é… a contramedida.

Jiyeon piscou.

— O quê?!

A Sombra hesitou — pela primeira vez desde que apareceu.

E Ayame, ainda de joelhos, murmurou:

— Eu não tenho medo.


— Você não pode me tocar.

A Sombra rosnou — e recuou mais uma vez.

Jiyeon olhou para Ayame como se estivesse vendo-a pela primeira vez.

E o mestre respirou fundo, derrotado.

— Ela… nasceu para equilibrar o que Jiyeon carrega.

— Equilibrar? — Jiyeon perguntou. — Como assim…

— Ela nasceu com luz suficiente para conter sua escuridão.

Ayame olhou para Jiyeon — e mesmo exausta, mesmo tremendo, mesmo quase
357

desmaiando — ela sorriu.

— Eu disse que fui feita pra você.

Jiyeon sentiu o mundo inteiro estremecer.

A Sombra chiou:

“Vocês não podem me destruir…”

Ayame se levantou com dificuldade.

— Mas podemos te negar.

Jiyeon tomou sua mão.

A Sombra avançou — desesperada.

E Jiyeon sussurrou:

— Juntas.

Ayame completou:

— Sempre.

As duas pisaram para frente ao mesmo tempo — e luz branca explodiu,


atravessando a sala como uma flecha.

A Sombra soltou um grito que parecia rasgar a própria estrutura do prédio.

E então…

Ela começou a derreter.

Não como tinta.


358

Não como fumaça.

Mas como algo que finalmente encontrou o repouso.

---

Quando a luz apagou, as duas estavam no chão, ofegantes, mãos ainda


entrelaçadas.

O mestre observou, sério.

— A Sombra não morreu — ele disse.


— Mas foi selada para sempre.
— Não nela.
— Não em você.

Jiyeon ergueu o olhar.

— Então onde?

O mestre inclinou a cabeça.

— No laço entre vocês duas.

Ayame respirou fundo.

— Isso é… bom? Ruim?

— É destino — o mestre respondeu.

Jiyeon apertou a mão dela.

— Então é bom.

O mestre virou as costas para elas.


359

— O terceiro dia terminou.


— Agora o que acontece…
— é escolha de vocês.

E saiu.

Sem olhar para trás.

Ayame encostou a testa na de Jiyeon, ainda suando frio.

— Jiyeon…

— Eu tô aqui.

— Eu tô com medo…

— Eu também.

Silêncio.

E então Ayame sorriu — um sorriso pequeno, quebrado, mas real.

— Mas eu ainda quero você.

Jiyeon fechou os olhos.

— Eu sempre quis você.

E as duas se abraçaram — exaustas, feridas, sujas de poeira e luz, mas vivas.

Vivas e unidas por algo que nenhum monstro, mestre ou maldição poderia quebrar.

Porque agora…
A Sombra também era parte delas.
360

Mas o amor também era.

E era mais forte.


361

CAPÍTULO 54 — O Peso do Depois

Quando o silêncio finalmente caiu sobre o prédio abandonado, Jiyeon percebeu que
odiava o silêncio.

Era estranho — ela sempre viveu nele.


Sempre o buscou.
Sempre se escondeu no que não precisava ser dito.

Mas agora…
Agora o silêncio deixava espaço demais para pensar.

Ayame sentou no chão, encostada em uma pilastra quebrada, respirando devagar,


ainda tentando se lembrar de como é existir sem a Sombra tentando arrancar sua
alma.

A luz branca já não brilhava nos olhos dela.


Mas Jiyeon conseguia vê-la.
Não literalmente.
Mas sentia algo ali.
Algo pulsando no fundo — leve, quente, constante.

— Ainda dói? — Jiyeon perguntou.

Ayame ergueu o olhar.

— Tudo dói. — Ela sorriu fraco. — Mas eu tô inteira.

Jiyeon sentou ao lado dela, sem encostar, apenas próxima o suficiente para sentir a
respiração dela.

Ayame a observou por um tempo.

— E você? Como tá?

Jiyeon olhou para as próprias mãos.


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As tatuagens — o dragão do pescoço, os símbolos nos braços, as linhas negras dos


punhos — pareciam mais escuras.
Mais definidas.
Como se tivessem despertado também.

— Eu… não sei — Jiyeon murmura. — Eu sobrevivi. Mas não sei o que mudou.

Ayame inclinou a cabeça.

— Você não sente?

— Sinto. — Jiyeon olhou para ela. — Sinto você.

Ayame engasgou, surpresa.

— Hã… como assim “sinto”?

Jiyeon corou — muito discretamente, mas corou.

— Eu posso… perceber a sua presença. O seu calor.


— É como… — ela hesitou, procurando palavras — como se alguma coisa dentro de
mim te reconhecesse.

Ayame virou o rosto, mordendo o lábio.

— Então é igual pra mim.

O coração de Jiyeon travou.

— O quê?

Ayame tocou o peito.

— Eu sinto quando você respira. É estranho. Não é nada sobrenatural… é… — ela


riu baixinho — é tipo saber quando a pessoa que você ama entrou na sala.
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Jiyeon ficou imóvel.

A palavra “ama” caiu entre elas como um segredo que sempre existiu, mas nunca
tinha sido dito.

Ayame percebeu.

— Digo, não que eu… — Ela gaguejou. — Quer dizer, eu—

— Ayame. — Jiyeon encostou um dedo nos lábios dela. — Não precisa consertar.

Ayame ficou corada.

— Você me deixa nervosa.

— Você me deixa viva.

Ayame sentiu o estômago revirar.

Antes que qualquer uma delas tivesse tempo para sentir outra coisa, passos
ecoaram pelo corredor.

Jiyeon se colocou de pé antes de respirar — posicionando-se à frente de Ayame


como um muro humano.

Mas não era inimigo.

Era o mestre.

Ele caminhava devagar, como se carregasse séculos nos ombros.

— Venham — ele disse. — Há coisas que precisam ser explicadas.

Jiyeon estreitou os olhos.

— Não vou ouvir nada até ter certeza que Ayame está segura.
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— Ela está mais segura agora do que nunca — o mestre respondeu, sem olhar para
trás.

Ayame se levantou, apoiando-se na parede.

— Jiyeon, eu consigo andar.

— Eu sei. — Jiyeon a segurou pelo braço. — Mas deixa eu fazer isso.

E Ayame deixou.

---

O Caminho até o Telhado

O mestre os guiou por um corredor estreito, subindo escadas metálicas até o terraço.

A cidade estava viva — carros, luzes, neon, prédios distantes — como se o mundo lá
fora não tivesse nenhuma ideia do que acontecera ali dentro.

Ayame se aproximou da borda, olhando para Tóquio como quem olha algo precioso.

Jiyeon ficou atrás dela, sempre.

O mestre parou diante das duas e cruzou as mãos.

— Existem coisas sobre vocês que precisam ser ditas agora.


— Antes que o terceiro dia deixe marcas permanentes.

Ayame se virou.

— Tá. Fala logo.

O mestre respirou fundo.


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— O laço entre vocês não nasceu hoje.


— Nem ontem.
— Nem quando se conheceram.

Ayame franziu o cenho.

— O que isso quer dizer?

— Quero dizer que a luz que repousa em você, Ayame — ele apontou com o queixo
— foi criada há dezenove anos.

Ela piscou.

— No meu nascimento?

— Antes.

Jiyeon arregalou os olhos.

— Não…

O mestre assentiu.

— Sim.
— Quando Jiyeon recebeu a marca, muitos anos atrás, um segundo selo foi criado.

Ayame tocou o próprio peito — onde a luz delirante tinha se manifestado.

— E esse selo… estava em mim?

— Não como maldição — o mestre disse.


— Mas como proteção.

Ayame sentiu as pernas ficarem fracas.


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— Eu fui feita… pra proteger ela?

O mestre sorriu — um sorriso triste.

— Não feita.
— Escolhida.
— A Sombra é destruição… mas não é burra.
— Ela não sobrevive em vazios.
— Ela precisa de equilíbrio.

Jiyeon deu um passo à frente.

— Isso significa… que estávamos destinadas?

— Destinadas é pouco — ele respondeu.


— Vocês são a metade que falta uma da outra.
— Em luz.
— Em escuridão.
— Em alma.

Ayame engoliu seco.

— Então… se isso é destino… o que acontece agora?

O mestre olhou para o horizonte.

— Agora… vocês escolhem.

Ayame franziu o cenho.

— Escolhem o quê?

O mestre se virou completamente para as duas.

— Se ficam juntas.
— Ou se se afastam antes que o laço fique tão forte que nenhuma das duas consiga
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sobreviver separada.

Jiyeon segurou a mão de Ayame.

Forte.

Como se o corpo dela já tivesse feito a escolha antes mesmo da mente.

Ayame apertou de volta.

Como quem responde.

— Eu já escolhi — Jiyeon disse.

Ayame sorriu — um sorriso cheio, honesto, brilhante sob o céu.

— Eu também.

O mestre fechou os olhos — e pela primeira vez, pareceu… aliviado.

— Então o terceiro dia terminou.


— E o caminho de vocês vai começar agora.

Ayame encostou a testa na de Jiyeon.

— Não importa o que venha… nós somos mais fortes juntas.

Jiyeon sorriu.

— Sempre fomos.

Ao fundo, a cidade brilhava.

Mas nada brilhava mais que o laço entre elas.

Porque agora…
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Não era profecia.


Não era destino.
Não era maldição.

Era escolha.

E amor.

E as duas estavam prontas para o que viesse.

Juntas.
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CAPÍTULO 55 — Depois do Fim da Profecia

A cidade nunca pareceu tão viva.

Não só porque os carros continuavam, e as luzes piscavam, e as pessoas existiam


como se nada tivesse acontecido.
Mas porque, pela primeira vez desde que nasceu, Seo Jiyeon estava viva também.

Viva de um jeito diferente.


Não pela sobrevivência.
Não pela luta.
Não pelas marcas que carregava.

Mas pelo simples fato de estar ao lado de Ayame.

---

A Manhã Depois do Terceiro Dia

Elas não voltaram para casa naquela noite.

Jiyeon levou Ayame até um pequeno hotel cápsula — discreto, barato, iluminado por
luzes azuis e rosa, com cheiro de tatame limpo e máquinas de refrigerante fazendo
barulho no corredor.

Ayame estava fraca demais para subir escadas sozinha.


Jiyeon a apoiou, braço envolto na cintura dela, e Ayame encostou a cabeça no
ombro dela sem vergonha alguma.

— Eu não acredito que tudo isso… acabou — Ayame murmurou.

— Ainda não acabou — Jiyeon disse, quieta. — Mas agora é diferente. Eu não tô
sozinha.

Ayame sorriu.
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— Nunca mais.

Dentro da cápsula, Ayame se encolheu entre os lençóis.


Jiyeon queria ficar de costas para dar privacidade, mas Ayame puxou sua camisa.

— Fica comigo.
— Eu não quero dormir sozinha hoje.

Jiyeon entrou.

As cápsulas eram pequenas — muito pequenas.


Então, inevitavelmente, seus corpos ficaram colados.

Ayame encostou a cabeça no peito dela.

— Consigo ouvir seu coração.


— Tá batendo muito rápido, Jiyeon.

— É porque você tá muito perto — Jiyeon respondeu, quase sussurrando.

Ayame riu baixinho.

— Eu gosto quando você fica tímida.

— Não tô tímida — Jiyeon rebateu, automática.

Mas o rubor no pescoço dela a entregou.

Ayame sorriu.

— Claro que não.

Elas dormiram assim: corpo contra corpo, respiração misturada, como se o silêncio
entre as duas não fosse mais um lugar de fuga, mas um lugar de descanso.
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E Jiyeon sonhou, pela primeira vez em anos, sem escuridão.

---

O Retorno de Ayame ao Mundo Real

Quando o sol finalmente tocou Tóquio, Ayame acordou antes de Jiyeon.

Ela ficou observando o rosto da outra — relaxado, suave, quase jovem demais para
tudo o que viveu.

Ayame tocou o dragão tatuado no pescoço dela.

— Você é tão bonita… — ela sussurrou.

Jiyeon abriu um olho.

— Você tá falando sozinha de novo.

Ayame quase caiu para trás.

— Meu deus, Jiyeon, você tava acordada?!

— Desde a parte do “bonita” — Jiyeon respondeu com um micro-sorriso.

Ayame enfiou o rosto no travesseiro.

— Me deixa morrer agora, por favor.

Jiyeon riu — e Ayame percebeu que era a primeira vez que ouvia aquela risada
limpa, autêntica, sem sombras.

Era linda.

Mas a paz durou pouco.


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O celular de Ayame tocou.

10 chamadas perdidas — YUNA (baterista)


7 chamadas perdidas — NANA (baixista)
5 mensagens — “AYAME PELO AMOR DE DEUS A GENTE TEM SHOW HOJE”

Ayame congelou.

— Merda!
— Eu esqueci completamente!

Jiyeon sentou-se, atenta.

— O que tem hoje?

— Meu retorno ao palco! — Ayame passou a mão no cabelo em desespero. — Eu


devia estar lá em duas horas!

Jiyeon ficou séria.

— Você consegue cantar depois de ontem?

Ayame respirou fundo.

— Eu tenho que tentar.


— Não posso deixar minhas garotas na mão.
— E… eu não quero que esse show seja o primeiro depois da minha morte que
quase aconteceu.

Ela olhou Jiyeon nos olhos.

— Eu quero que esse show seja o primeiro depois que eu vivi.

Jiyeon sentiu o peito apertar — de orgulho, de medo, de amor.


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— Então eu vou com você.

Ayame piscou.

— Você vai?
— Tipo… comigo?
— No camarim?
— Com a banda inteira surtando?
— Com fotógrafos?
— Com fãs?

Jiyeon respondeu, firme:

— Com você. Eu vou onde você for.

Ayame ficou totalmente sem reação por alguns segundos.

Depois sorriu como se tivesse ganhado o mundo inteiro.

---

Pré-show — O Caos da Banda

O estúdio estava em puro caos quando chegaram.

A banda inteira gritou ao mesmo tempo:

— AYAME!
— ONDE VOCÊ ESTEVE?
— A GENTE ACHOU QUE VOCÊ TINHA SIDO SEQUESTRADA!
— E QUEM É ESSA MULHER ABSURDAMENTE BONITA DO SEU LADO?

Ayame corou violentamente.

— G-Gente, calma…
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— Essa é a Jiyeon.

As três integrantes ficaram congeladas.

Jiyeon inclinou a cabeça, tímida, mas ainda impondo respeito com sua presença alta,
tatuada e marcante.

— Oi — ela disse, com uma voz baixa que fez todas as integrantes travarem.

A baixista sussurrou:

— Ayame… você nos deve explicações.

Ayame cobriu o rosto.

— Não é o que vocês tão pensando!


— Quer dizer… eu não sei o que vocês tão pensando…

Jiyeon colocou a mão no ombro de Ayame e murmurou:

— Respira.

A banda inteira fez um “ooooooh”.

Ayame quis derreter.

---

O Show Começa

A casa estava lotada.

Luzes violetas e prata iluminavam o palco.


A fumaça subia como névoa.
O público gritava o nome de Ayame antes mesmo do show começar.
375

Jiyeon ficou nas laterais, meio escondida, mas sempre com um olho em Ayame.

A vocalista segurou o microfone…


…respirou fundo…

…e começou a cantar.

A voz dela estava mais forte do que nunca.


Grave.
Hipnotizante.
Quente.

E cada palavra tinha um peso novo — como se tivesse sido polida pelas batalhas
internas que enfrentou.

A multidão vibrou.

Jiyeon sentiu algo bater muito forte dentro do peito.

Orgulho.
Admiração.
Encanto.
Amor.

Ayame no palco parecia feita de luz — não mística, mas humana.


Intensa.
Viva.

Ela olhou para onde Jiyeon estava.

E cantou olhando direto pra ela.

Jiyeon sentiu o mundo desaparecer.


376

---

Depois do Show

Quando Ayame desceu do palco, suada, elétrica, com os olhos brilhando, ela correu
direto para Jiyeon.

— Você viu?

— Vi.

— E?

Jiyeon segurou o rosto dela com as duas mãos.

— Eu nunca vi nada mais bonito.

Ayame ficou sem ar.

— Eu quero te beijar agora — ela confessou, sem filtro.

Jiyeon respirou fundo.

— Então beija.

Ayame sorriu e puxou Jiyeon pela camisa.

O beijo veio quente, urgente, cheio de vida e de tudo o que elas não puderam sentir
nos últimos três dias.

E, quando se separaram, Ayame apoiou a testa na dela.

— A gente venceu, Jiyeon.


— Sabe o que isso significa?

— O quê?
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Ayame segurou a mão dela.

— Que agora… a nossa história começa de verdade.

Jiyeon fechou os olhos.

— Então vamos viver ela.

E foi o que fizeram.

Mas ainda havia sombras no caminho.

Sombras que não tinham sido destruídas.


Sombras que observaram aquele show inteiro…
…e entenderam que tinham perdido Jiyeon para sempre.

E elas não costumavam aceitar derrotas sem lutar.


378

CAPÍTULO 56 — O Que a Sombra Deixa Para Trás

O som do público ainda vibrava nos vidros quando Jiyeon e Ayame deixaram o
backstage.
Luzes de neon refletiam nas poças da rua, misturando roxo, azul e verde numa
dança líquida que parecia viva.

Mas havia algo errado.

Muito errado.

Jiyeon sentiu primeiro — uma pressão invisível na nuca, um pulsar abafado, como
um músculo que ainda não aprendeu que está livre.
Um aviso.

Ela parou de andar.

Ayame percebeu na hora.

— Jiyeon? O que foi?

Jiyeon não respondeu.


Só virou lentamente o rosto, examinando a rua estreita, as sombras entre prédios, a
escuridão atrás do estacionamento.

Nada se mexia.
Nada fazia som.

E isso era exatamente o problema.

Tóquio nunca era tão silenciosa.

— Fica perto de mim — Jiyeon murmurou.

Ayame se aproximou sem hesitar.


379

— É a Sombra?

— Não. — Jiyeon respirou fundo. — É o que sobrou dela.

Ayame franziu o cenho.

— Como assim “o que sobrou”?

Jiyeon olhou para o chão, observando o reflexo quebrado de suas tatuagens sob a
luz da rua.

— Quando selamos aquela parte… outras partes ficaram soltas.


Fragmentos. Ecos.
Como… pedaços de um sonho ruim que não quer ir embora.

Ayame tocou o braço dela.

— Você tá sentindo isso agora?

Jiyeon assentiu.

— Tá perto. Observando.
Esperando que eu baixe a guarda.

Ayame respirou fundo.

— Então não baixa.

---

A Caminhada Silenciosa

As duas caminharam pela rua estreita, com Ayame segurando a mão de Jiyeon
como se aquela fosse a única coisa real no mundo.
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Jiyeon não desviava o olhar do que estava ao redor.

Cada sombra parecia mais escura do que deveria.


Cada ruído parecia distante demais.
E a presença silenciosa os seguia.

— Jiyeon… — Ayame sussurrou. — Você acha que ela pode voltar?

— A Sombra completa, não.


Mas os fragmentos…
Eles sempre tentam.

— Por quê?

— Porque eu fui o lar deles por muito tempo.

Ayame estreitou os olhos.

— Eles não têm mais lugar em você.

— Eles não entendem isso.

E continuaram andando.

Quando dobraram a esquina, viram uma figura parada ao lado de uma máquina de
bebidas.

Não era ameaçador.

Era apenas um homem.

Ou parecia ser.

Terno preto.
Mãos no bolso.
Cabelo preso num rabo baixo.
381

Olhos escuros demais para refletirem luz.

Ele sorriu — não com simpatia, mas com conhecimento.

— Seo Jiyeon.

Jiyeon parou.

O ar ficou pesado, mas não com o peso de monstros.


Era o peso de alguém que sabe demais.

Ayame agarrou a mão de Jiyeon com força.

— Quem é ele?

O homem inclinou a cabeça, como se analisasse Ayame.

— Você deve ser a luz.

Jiyeon deu um passo à frente.

— Não toca nela.

— Não preciso tocar — ele respondeu, calmo como quem conversa sobre o clima.
— O brilho dela já fala o suficiente.

Ayame se colocou ao lado de Jiyeon.

— Quem é você?

Ele sorriu, dessa vez com algo que lembrava orgulho — ou ameaça.

— Apenas um mensageiro.

Jiyeon estreitou os olhos.


382

— De quem?

O homem deu um passo para trás, pronto para desaparecer na rua escura.

— De algo… maior que a Sombra.

Ayame sentiu o estômago cair.

— Como assim maior?

O sorriso dele cresceu.

— A Sombra era só o início.

Jiyeon avançou um passo, pronta para atacar.

— Você não vai a lugar nenhum até falar o que precisa falar.

Mas quando ela deu o segundo passo, a figura já estava sumindo na escuridão —
como se tivesse se dissolvido no ar.

Ayame agarrou o braço dela.

— Jiyeon, espera!

Jiyeon parou, cerrando os dentes, os músculos tensos.


A raiva controlada.
A violência contida.

— Ele não é humano — ela sussurrou.

Ayame respirou fundo.

— Ele faz parte desses… fragmentos?

Jiyeon balançou a cabeça.


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— Não.
— Ele é diferente.
— Ele sabe sobre mim. Sobre você.
— Sobre o selo.
— Sobre o terceiro dia.

Ayame sentiu o peito apertar.

— Jiyeon… isso acabou?

Jiyeon olhou para ela.

Por um segundo, Ayame achou que veria medo.

Mas não.

O que viu foi força.

Determinação.

E algo que parecia perigoso demais para qualquer inimigo enfrentar.

— Não — Jiyeon respondeu com firmeza.


— Isso acabou de começar.

Ayame segurou a mão dela mais uma vez.

— Então a gente enfrenta juntas.

Jiyeon respirou fundo, o olhar firme, cortando a escuridão da rua como uma lâmina.

— Sempre.

---
384

No Alto do Prédio

Horas depois, Jiyeon não conseguia dormir.

A luz do apartamento cortava as tatuagens dela em sombras profundas.


O dragão do pescoço parecia vivo, como se se movesse junto à respiração dela.

Ayame dormia ao lado — tranquila, exausta, sonhando coisas leves.

Jiyeon tocou o selo no próprio pescoço.

Frio.

Quase silencioso.

Mas não morto.

Não totalmente.

— O que está tentando me dizer? — ela murmurou.

E então, pela primeira vez desde a luta, o selo pulsou.

Uma vez.

Depois outra.

Regular.

Ritmico.

Como se respondesse.

Jiyeon fechou os olhos.


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O mundo não tinha terminado com a Sombra.

Tinha apenas revelado o próximo inimigo.


386

CAPÍTULO 57 — O Homem da Sombra Branca

Acordar ao lado de Ayame era quase suficiente para Jiyeon esquecer que algo
terrível se aproximava.
Quase.

A luz fraca da manhã entrava pela janela, desenhando sombras suaves no rosto de
Ayame.
Os fios escuros de cabelo espalhados pelo travesseiro, a respiração profunda, os
lábios relaxados...
Parecia um retrato perfeito de paz.

Paz que Jiyeon sabia — com uma certeza incômoda — que não duraria.

Ela se levantou sem fazer barulho.

Mas Ayame acordou mesmo assim.

Sempre acordava quando Jiyeon se afastava.

— Ei… — Ayame murmurou, voz rouca de sono. — Já está levantando?

Jiyeon se virou para ela.

— Não consegui dormir muito.

Ayame sentou devagar, esfregando os olhos.

— Ainda pensando naquele cara?

Jiyeon não respondeu — o suficiente para Ayame entender que sim.

Ela puxou o cobertor e abriu os braços.

— Vem aqui.
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Jiyeon hesitou por meio segundo, mas Ayame insistiu com o olhar.

Jiyeon deitou ao lado dela, e Ayame a abraçou por trás, a cabeça apoiada entre o
pescoço e o ombro dela.

— Você não tem que enfrentar tudo sozinha — Ayame murmurou.


— Nem isso, nem ele, nem o que ele representa.
— Eu tô aqui. De verdade.

Jiyeon respirou fundo — e por um segundo, sentiu-se menos pesada.

— Eu sei.
— É por isso que eu tenho medo.

Ayame afastou o rosto, surpresa.

— Medo de mim?

— Medo… do que pode acontecer com você — Jiyeon corrigiu.


— Eu enfrentei a Sombra porque só dependia de mim.
— Mas agora… se tem alguém mirando em você…

Ayame segurou o rosto dela com ambas as mãos.

— Eu não sou frágil, Jiyeon.


— Você não precisa me carregar como se eu fosse quebrar.

Jiyeon desviou o olhar.

— Você quase quebrou ontem.

— E você me juntou de volta — Ayame respondeu.


— Sempre vai juntar.

Jiyeon não conseguiu responder — não sem desmontar por dentro — então Ayame
decidiu não forçar.
388

— Vem. — ela disse, levantando. — Vamos comer alguma coisa e pensar melhor.

---

O Café da Manhã que Não Aconteceu

Elas desceram até uma loja de conveniência na esquina.


O cheiro de café, pão aquecido e ramen instantâneo enchia o ar.
As luzes fluorescentes davam ao lugar uma sensação estranhamente segura.

Ayame pegou um pão quente e o entregou a Jiyeon.

— Se você não comer, eu te faço comer.

— Isso não faz sentido.

— Eu sei. — Ayame sorriu. — Mas funciona.

Jiyeon abriu a boca para retrucar — mas congelou.

Como um reflexo animal.

Ela virou bruscamente o rosto para a porta.

Ayame imediatamente ficou alerta.

— Ele está aqui?

— Não — Jiyeon murmurou.


— Algo… parecido.

Foi quando o sino da porta tocou.

Uma criança entrou.


389

Pequena, talvez seis anos.


Vestindo um casaco azul comprido demais.
Carregando um ursinho de pelúcia sem um olho.

Nada nela parecia estranho.

Mas Jiyeon ficou imóvel.


Os músculos travados.
A respiração curta.

Ayame segurou a mão dela sob a mesa.

— Jiyeon…?

A criança olhou ao redor, inocente.

Mas quando os olhos dela pararam em Jiyeon…

…mudararam.

Por uma fração de segundo, ficaram completamente brancos.


Sem íris.
Sem pupila.
Como o brilho que Ayame carregava — mas invertido.

E então a menina sorriu.

— Eu te encontrei.

A voz…
Não era a voz de uma criança.

Era grave.
Antiga.
Lenta demais.
390

Ayame ficou branca como papel.

— Jiyeon…

Mas Jiyeon já estava em pé, o corpo inteiro preparado para matar ou morrer em um
único segundo.

A menina inclinou a cabeça para o lado, curiosa, como um gato observando um


pássaro ferido.

— Ele mandou um aviso — ela disse, segurando o ursinho pelo pescoço.


— “Elas não deveriam ter vencido.”

Jiyeon deu um passo à frente.

— Quem é ele?

A criança piscou — e, ao piscar, seus olhos voltaram ao normal, como o de qualquer


garotinha comum.
Ela pareceu perdida, confusa, como se tivesse acabado de acordar.

— Onde… onde eu tô? — perguntou baixinho.

Ayame respirou fundo.

— Ela não sabe o que acabou de acontecer.

A menina começou a chorar.

— Cadê minha mãe?

Jiyeon olhou ao redor, os olhos varrendo o ambiente — e viu uma mulher entrando
correndo, desesperada.

— Hana! Meu deus, Hana, onde você estava?!


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A garota correu para os braços dela.

— Mamãe!
— Eu acordei… e tudo estava escuro… e eu achei você…

A mãe a abraçou forte, sem entender nada.

Ayame segurou o braço de Jiyeon.

— Isso… isso não era dela.

Jiyeon observou.

A menina não tinha ideia do que disse.


Nem do que era.

— Ele está usando pessoas — Jiyeon murmurou.


— Usando corpos.
— Usando vozes.

Ayame sentiu um arrepio que parecia atravessar a espinha.

— Ele… quem?

Jiyeon respondeu sem tirar os olhos da porta, onde a mãe e a filha desapareceram
na multidão.

— O homem da sombra branca.

---

O Estranho Sinal

As duas voltaram para o apartamento.


392

Assim que entraram, o selo no pescoço de Jiyeon pulsou de novo.

Uma vez.
Duas.
Três.

— Por que isso tá acontecendo? — Ayame perguntou, segurando o rosto dela.

Jiyeon respirou fundo.

— Ele está me chamando.


— Está chamando… o que restou dentro de mim.

— E você vai responder?

Jiyeon ergueu o rosto.

Os olhos dela estavam calmos, mas havia algo ali — uma certeza, uma decisão
silenciosa.

— Não.
— Dessa vez, não.
— Ele quer que eu o procure.

Ayame engoliu seco.

— E você não vai?

Jiyeon tomou a mão dela.

— Não enquanto você estiver com medo.

Ayame respirou fundo.

— Eu não tô com medo.


393

Jiyeon sorriu, suave.

— Ayame… você treme quando mente.

Ayame encarou-a.

— Então me ensina a não ter medo.

Jiyeon ficou em silêncio.

Não porque não tinha resposta.

Mas porque aquela frase…


tinha sido o pedido mais íntimo que Ayame poderia fazer.

E Jiyeon entendeu o que precisava fazer a seguir.


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CAPÍTULO 58 — O Ensinamento da Lâmina e da Luz

O apartamento estava silencioso.

Não o silêncio vazio que sempre acompanhou Jiyeon, mas um silêncio carregado de
propósito — como se o próprio ar esperasse pelo que viria.

Ayame estava sentada no tatame improvisado da sala, pernas cruzadas, mãos


apoiadas nos joelhos.
Parecia nervosa, mas determinada.
O cabelo caía solto sobre os ombros, alguns fios prateados refletindo a luz amarela
do abajur.

Jiyeon observou-a por alguns segundos antes de falar.

— Você tem certeza disso?

Ayame assentiu.

— Tenho.
— Se você acha que esse homem vai atrás de mim… então eu quero estar pronta.

Jiyeon foi até a janela, fechando as cortinas.


Depois apagou algumas luzes, deixando o ambiente mais escuro — não para
intimidar Ayame, mas para facilitar a leitura da aura.

Ela sentou na frente de Ayame.


Perto.
Mais perto do que normalmente ficaria de qualquer pessoa.

— Então vamos começar.

Ayame respirou fundo.

— Eu vou aprender a lutar?


395

— Não.

Ayame piscou.

— Não?

— Se eu quisesse te ensinar a lutar, começaria com técnicas básicas. Mas luta…


não é o que você precisa agora — Jiyeon explicou.
— Você precisa aprender a controlar aquilo que brilhou em você ontem.

Ayame engoliu seco.

— A luz?

Jiyeon assentiu.

— A sua luz.

Ayame abaixou o olhar, como se tentasse sentir algo dentro de si.

— Eu… eu não sei como isso funciona.

— Eu também não — Jiyeon admitiu.


— Mas eu conheço o suficiente sobre energia. Sobre equilíbrio. Sobre a Sombra.
— E o que você tem não é dela.
— É seu.

Ayame ergueu o olhar devagar.

— Então vamos achar essa luz.

---

O Primeiro Exercício
396

Jiyeon colocou as mãos sobre as de Ayame.

As mãos dela eram grandes, firmes, quentes.


Ayame sentiu a pele arrepiar instantaneamente.

— Fecha os olhos — Jiyeon disse.

Ayame obedeceu.

— Agora, respira.
— Lento.
— Sem pressa.

Ayame inspirou profundamente, o peito subindo devagar.


Jiyeon acompanhou o ritmo.

Por alguns segundos, tudo o que existiu foi o som de duas respirações
sincronizadas.

— Consegue sentir? — Jiyeon perguntou.

— Sentir o quê?

— O calor.

Ayame hesitou.

— De você?

— Não. — Jiyeon apertou levemente as mãos dela. — O seu.

Ayame franziu o cenho.

— Não… acho que não tenho nada especial.

— Tem sim.
397

— E eu vi.
— E eu senti.

Ayame respirou fundo, tentando achar algo.

Jiyeon inclinou o rosto para perto do dela.

— Ayame… a luz que você carregou ontem não veio do nada.


— Ela sempre esteve aí.
— Antes de mim.
— Antes de tudo.
— A diferença é que ontem… você deixou ela sair.

Ayame abriu os olhos.

— E se eu não conseguir de novo?

Jiyeon não hesitou.

— Você vai conseguir.

Ayame engoliu seco.

— Porque eu tive medo ontem.

— E mesmo com medo… você salvou nós duas — Jiyeon completou.

Ayame encarou-a por longos segundos.

— Então como eu encontro essa luz?

Jiyeon respirou fundo.

— Através de mim.

Ayame ficou surpresa.


398

— Como…?

— A sua luz desperta quando você luta por algo que ama. — Jiyeon disse, sem
desviar o olhar.
— Quando você sente.
— Quando você protege.
— Quando você vive intensamente.
— E eu… desperto isso em você.

Ayame corou, mas não desviou.

— Então você é… meu gatilho?

Jiyeon quase sorriu.

— Seu equilíbrio.

Ayame suspirou, tocando o peito.

— Eu quero te proteger, Jiyeon.


— Mesmo que você seja mais forte do que eu jamais serei.

— Não se trata de força física — Jiyeon disse.


— Se trata de presença.
— De intenção.
— De alma.

Ayame ficou quieta.

E Jiyeon percebeu que aquele era o momento.

Ela colocou a mão sobre o peito de Ayame — exatamente onde a luz tinha brilhado
no terceiro dia.

Ayame respirou fundo.


399

— Consegue sentir agora?

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Mas então…

Uma sensação quente subiu pelo corpo de Ayame.


Não uma chama.
Não uma explosão.
Mas um brilho interno — algo suave, como um pequeno sol nascendo dentro do
peito.

— Jiyeon… — Ayame sussurrou. — Eu… eu acho que…

A luz apareceu.

Fraca.
Tremulante.
Mas real.

Um brilho branco suave atravessou a pele do peito de Ayame, iluminando a


tatuagem do dragão de Jiyeon na penumbra.

Jiyeon ficou imóvel.

— É isso — ela murmurou. — Ayame, você está despertando.

Ayame olhou o brilho, surpresa, quase chorando.

— Eu… Eu tô fazendo isso?

— Sim.

— E você tá vendo?
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— Tô.

Ayame sorriu, emocionada.

— Então eu posso fazer de novo…

Mas o brilho apagou repentinamente, como uma lâmpada fraca.

Ayame murchou.

— Sumiu.

— Não sumiu — Jiyeon corrigiu, tocando o peito dela. — Você só não sabe controlar
ainda.
— Mas ele está aí.
— E vai crescer.

Ayame respirou fundo, recuperando o foco.

— Então continua me ensinando.

— Sempre — Jiyeon respondeu.

---

O Recado na Porta

Horas depois, quando Ayame saiu para tomar banho, Jiyeon foi até a entrada do
apartamento pegar algo para beber no corredor.

Mas assim que abriu a porta, encontrou um envelope no chão.

Não havia assinatura.


Não havia endereço.
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Só uma única palavra escrita na capa, com tinta dourada:

“EQUILÍBRIO.”

Jiyeon sentiu o selo no pescoço pulsar.

Uma vez.

Duas.

Três.

O mesmo ritmo da carta.

Ela levou o envelope para dentro, abriu-o com cuidado.

E dentro havia apenas um bilhete:

“Se a luz acordou, a Sombra também vai.”

Embaixo, havia uma segunda frase:

“Prepare Ayame.”

E no final, um símbolo que Jiyeon nunca tinha visto antes — um círculo dividido ao
meio, metade branca, metade preta.

Jiyeon olhou para a porta.

Para o corredor.

Para o silêncio.

E soube:

Aquilo não era um aviso.


402

Era uma contagem regressiva.

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