Raízes de Números Complexos e Euler
Raízes de Números Complexos e Euler
Praciano-Pereira, Tarcisio ∗
22 de abril de 2021
preprints da Sobral Matemática
no. 2021.06
Editor Tarcisio Praciano-Pereira
tarcisio@[Link]
Resumo
Vou fazer uma breve introdução dos números complexos, apresentar a fórmula de Euler-De Moivre
e calcular a raiz quarta do número complexo a + bi. Termino comparando este cálculo fazendo uso da
fórmula de Euler-De Moivre que é a forma polar dum número complexo.
palavras chave: fórmula de Euler-De Moivre, números complexos, raiz quarta do número complexo
a + bi.
I will briefly introduce complex numbers together with Euler-De Moivre’s formula and then calcu-
late the 4th root of the complex number a + bi, using Cartesian formulation. I will finish by comparing
the use of Euler-De Moivre’s formula to have the same root calculated.
keywords: 4th root of the complex number a + bi, Euler-De Moivre’s formula, complex numbers.
∗ tarcisio@[Link]
1 Números complexos
Número complexo é um número da forma
a + bi; a, b ∈ R (1)
Estes número surgem quando se tenta resolver uma equação do segundo grau usando a fórmula de Bhas-
kara.
Os números complexos são uma construção relativamente fácil como pares ordenados de números
reais, na verdade são a construção algébrica que consiste em adjuntar um elemento a um corpo, no caso
o elemento i com a propriedade
√
i2 = −1 ou equivalentemente que i = −1; (2)
um tal elemento não existe no corpo dos números reais mas eu posso criar uma nova estrutura com
elementos da forma
a + bi; a, b ∈ R; i2 = −1 (3)
e agora trabalhar com os objetos com esta forma como se fossem polinômios. O resultado é um novo
corpo e sua propriedade fundamental é que todo polinômio de grau n tem exatamente n raı́zes conside-
radas as multiplicidades das raı́zes.
Na próxima seção eu vou descrever este novo conjunto, o conjunto dos números complexos e nas
seções seguintes vou discutir algumas propriedades terminando com o cálculo das raı́zes dos números
complexos.
O que me inspirou neste trabalho foi a fórmula da raiz quadrada de a + bi que encontrei em [2,
página 103]. É um cálculo simples que está feito na última seção, mas o que é interessante é comparar
a dificuldade que existe de passar da fórmula de Euler-De Moivre, que são as coordenadas polares dum
número complexo para as coordenadas cartesianas como Penrose formula a raiz quadrada sem dar uma
pista de como se a calcula. Claro, [2] está cheio de exercı́cios, como Penrose caracteriza.
a + bi; a, b ∈ R (4)
Estes número surgem quando se tenta resolver uma equação do segundo grau usando a fórmula de Bhas-
kara.
√
−b± b2 −4ac
ax2 + bx + c = 0 ⇒ x = 2a
(5)
∆ = b2 − 4ac < 0 ⇒ x ∈
/R (6)
√ √
−b± b2 −4ac −b± ∆
x= 2a
== b2 − 4ac;
2a
;∆ (7)
√
p p √
∆ < 0 ⇒ −∆ > 0 ⇒ ∆ = ±i |∆| = ±id; d = ± |∆|; i = −1 (8)
∆ < 0 ⇒ x = −b±id
2a = −b d
2a ± i 2a = a + bi; (9)
√ √
x2 − 3x + 5 = 0 ⇒ ∆ = −11 ⇒ ∆ = ±i 11; (10)
√ √
x2 − 3x + 5 = 0 ⇒ x ∈ { 3+i2 11 , 3−i2 11 }; (11)
√ √
a + bi ∈ { 32 + i 211 , 23 − i 211 }; (12)
2 OS NÚMEROS COMPLEXOS 2
√ √
Quando ∆ < 0 se define ∆ = i −∆ confira equação (eq.8) fazendo aparecer os números com o
formato a + bi; a, b ∈ R, na equação (eq.11) ou ainda na equação (eq.12).
Ainda um outro exemplo
√ √
6± 36−40 6± −4 6±2i
x2 − 6x + 10 = 0 ⇒ x = 2
= 2
= 2
=3±i (13)
x ∈ {3 + i; 3 − i} (14)
em que se vêm os números a ± bi; a = 3; b = 1 aparecendo como soluções de uma equação do segundo
grau. Você pode criar uma infinidade de exemplos deste tipo partindo do final da questão: escreva
monte de volta uma equação do segundo grau que terá os números complexos a+bi; a−bi como solução,
para todos os pares de números a, b que você tiver selecionado. √
Foi feita uma invenção em cima das contas que eu fiz na equação (eq.6), −1 = i. Até então, antes
desta invenção, se tinha uma regra com uma exceção:
√ √ √
ab = a b ⇐ a > 0; b > 0; (16)
A exceção sendo que “a regra deixava de valer se algum dos números, a ou b, fosse negativo”. Agora
a regra é, simplesmente, √ √ √
ab = a b (17)
para quaisquer que sejam os os números reais mas o resultado pode ser um “número” que não pertença
ao conjunto R e assim apareceu um novo conjunto de números. Por exemplo,
√ √ √ √ √ √ √
−3 = ± −1 3 = ±i 3; −4 = ± −1 4 = ±2i; (18)
x2 + 1 = 0 ⇒ x2 = −1 ⇒ x = ±i (20)
a solução é um número imaginário puro. E aqui estou cedendo ao preconceito, mas não há como alterar a
História, apenas se deve vencer o preconceito dando-se conta de que se trata dum preconceito e se divertir
com os nomes errados com que a Ciência tem que conviver.
Ainda um outro exemplo
√ √
6± 36−40 6± −4 6±2i
x2 − 6x + 10 = 0 ⇒ x = 2
= 2
= 2
=3±i (21)
x ∈ {3 + i; 3 − i} (22)
3 CONJUNTO DE NÚMEROS 3
em que se vêm os números a ± bi; a = 3; b = 1 aparecendo como soluções de uma equação do segundo
grau. Você pode criar uma infinidade de exemplos deste tipo partindo do final da questão: escreva
monte de volta uma equação do segundo grau que terá os números complexos a+bi; a−bi como solução,
para todos os pares de números a, b que você tiver selecionado.
Com a criação dos números complexos as equações do segundo grau passam a ter sempre solução
apesar de que, cuidadosamente, se acrescente a observação, “raı́zes imaginárias ” quando ∆ < 0. que é
quando a solução escapa do caso real para o caso complexo.
Isto mostra que a invenção do i tem sentido e que nada têm de imaginários os números complexos
que, além do mais, aparecem em fórmulas de eletricidade.
O teorema fundamental da Álgebra, no caso real, dizia que toda equação do grau n tinha no máximo
n raı́zes, agora o teorema fundamental da Álgebra fica completo, toda equação do grau n tem n raı́zes,
mas permanece a limitação concreta de achar as raı́zes quando n > 4.
E para caracterizar este novo conjunto eu vou dar-lhe um nome que é o conjunto dos “números com-
plexos”, C.
Sem querer manifestei o meu preconceito colocando aspas em torno da expressão, números comple-
xos, traduzindo um sentimento de que não são “números” como os outros, naturais, racionais ou reais.
resultando na regra para somar números complexos que é uma direta aplicação das regras usadas para as
expressões algébricas. Você poderá ver que fazer operações algébricas com os números complexos nada
mais é do que fazer operações com expressões do tipo
Está no momento da dar um nome adequado às componentes do “número complexo” a + bi. Observe
que a soma se processou da mesma forma como se faz com polinômios considerando aqui “i” como
se fosse uma variável. Se somam os “termos independentes” de cada um deles, e depois se somam os
coeficientes de i. A definição é a seguinte:
Definição 1 Parte real e parte imaginária
Dado um número complexo u = a + bi = (a, b) se designa
• parte imaginária Im(u) = b ∈ R
• parte real Re(u) = a ∈ R
4 REPRESENTAÇÃO GEOMÉTRICA 4
Observe que Re, Im são duas funções definidas em C e tomando valores em R são projeções do
R2 = C em R.
De forma semelhante ao caso da adição, sempre usando as regras operatórias das expressões algébricas,
agora usando o caso da multiplicação de polinômios, posso efetuar:
que você pode ver, esquematicamente, na figura figura (fig 5), página 8,
a + bi
c + di
O interessante é que posso fazer interpretação geométrica dos números complexos mostrando que
eles nada tem de imaginário e, muito pelo contrário, até são geométricos.
Os números complexos se infiltraram em nosso sistema cultural com duas apresentações:
que é equivalente a um número complexo. Os dois objetos matemáticos (a, b) e a + bi são equivalentes.
Um número complexo é equivalente a um ponto do plano.
A descoberta da representação geométrica para os números complexos, representa um salto quali-
tativo. Como eles têm uma representação geométrica, não podem ser tão estranhos como no começo
pareciam. Observe a figura (fig. 7), página 13, nela há alguns números complexos representados no
plano.
−3
+3
.6
i
2i
3+
3+i
−3+0i 3+0i
3−
2i
i
−3
−1
Mais simples e mais computacional muito fácil de ser enfiada num programa de computador para
construir uma calculadora para números complexos que também entenderia os números naturais, raci-
onais e reais. Uma grande unificação dos números. Experimente a minha calculadora, [3, calcula-
dora].
Você deve ter achado estranho que para a adição apresentei uma definição formal não o fazendo para
o produto de números complexos, a razão disto é que, avançando na interpretação geométrica mais um
pouco, vou poder apresentar uma fórmula para o produto muito simples que vai merecer o destaque de
uma definição.
O primeiro passo nesta direção é que os números tem módulo, como os reais, apenas muito mais
significativo. Como é um ponto do plano, o módulo de um número complexo sai direto como aplicação
do teorema de Pitágoras.
p
C ∋ a + bi 7→ (a, b) ∈ R2 7→ a2 + b2 = ka + bik; (32)
Na (eq. 31) você viu a equivalência entre a forma algébrica e a geométrica dum número complexo:
C ∋ v = a + bi ≡ (a, b) ∈ R2 , (33)
o par (a, b) é um ponto do plano e assim eu estou representando um número complexo com uma entidade
geométrica, um ponto.
Desta forma os números complexos trouxeram, para o reino dos números, os conceitos da geometria:
ângulo, módulo, direção e sentido, e a Fı́sica do século 20 lançou mão deles, com muito sucesso, mas já
vinha usando na eletricidade de uma forma subversiva.
A figura (fig. 3), página 6 descreve vários dos aspectos geométricos dos números complexos.
• Os dois números complexos, z, w têm mesmo módulo, no plano complexo isto significa que eles
se encontram num mesmo cı́rculo de raio 3, na figura (fig. 3). Para os números reais (ou racionais,
4 REPRESENTAÇÃO GEOMÉTRICA 6
arg(z) = α
|z|=|w|=3
z
β α
3
1
S
w
w+z = 0
arg(w) = β
1
S é o círculo trigonométrico
Figura 3:
ou inteiros) isto se resume à troca de sinais. Os números complexos oferecem mais opções na
expressão |z| = 3 . . .
• Os dois números complexos, z, w, tem sinais contrários e como nos reais, um é o inverso aditivo
do outro. Nos complexos isto significa estarem diametralmente opostos.
• Um número complexo tem um ângulo, relativamente ao eixo OX, na figura (fig. 3), o ângulo de z
é α e o ângulo de w é β. Não se chama “ângulo”, a palavra que se usa é argumento e a notação é a
que aparece na figura (fig. 3), arg(z) = α, arg(w) = β
• Deixe-me trocar de cı́rculo, considere na figura (fig. 3) o cı́rculo S1 de raio 1, o cı́rculo trigo-
nométrico. Faça um esforço de abstração, suponha que escala esteja correta, que você esteja vendo
o cı́rculo trigonométrico, então:
π
z = (cos(α), sin(α)); w = (cos(β), sin(β)); β = α + (34)
2
Na figura (fig 4), página 7, você pode ver o cálculo feito com uma calculadora que eu escrevi
em C++, [3, calculadora], com saı́da de dados para gnuplot. É possı́vel editar a saı́da de dados do
gnuplot para incluir num texto como eu fiz aqui. Com a calculadora eu obtive um desenho
básico que depois eu editei acrescentando mais informações.
Retornando à equação (eq. 34) deixe-me convidá-la para mais um exercı́cios de abstração, esqueça-se
de que β = α + π2 . Considere dois argumentos quaisquer e deixe-me escrever esta equação assim:
−2
−4
−6 −4 −2 0 2 4 6
u = (3*cos(pi/4), 3*sin(pi/4))
v = (4*cos(pi/5), 4*sin(pi/5))
A soma de u = 2.12132 + 2.12132 i
com v = 3.23606 + 2.35114 i
é 5.35738 + 4.47246 i
Figura 4: A regra do paralelogramo em ação
em que estou exercendo o meu direito de entender um número complexo ora como um número, ora como
um ponto do plano. Estou também incluindo uma nova notação:
z = e(α); w = e(β)
associando cada um dos números z, w com o ângulo que eles terminaram sobre o cı́rculo unitário. Euler
deve ter trilhado este caminho quando descobriu a sua famosa fórmula e eu estou seguindo a trilha de
Euler. Mas neste momento
e(α); e(β); (37)
é “pura notação”, um sı́mbolo conveniente, e muita Matemática é feita, e foi feita, criando sı́mbolos
convenientes. Depois muitos se perdem e ficaram os que deram certo. O de Euler ficou, deu certo.
Deixe-me multiplicar os dois números, procure entender as contas, elas estão um pouco resumidas,
mas estou dizendo tudo:
e(α)e(β) = zw = cos(α) cos(β) − sin(α) sin(β) + i (cos(α) sin(β) + cos(β) sin(α)) (38)
zw = cos(α + β) + i sin(α + β) = e(α + β) (39)
Eu ainda não fiz uma definição formal da multiplicação, mas supere a dificuldade psicológica da coisa
nova e verifique que eu apenas apliquei as regras para multiplicar expressões algébricas. Agora leve em
conta a invenção √
i = −1 ⇒ i2 = −1; (40)
É esta invenção que justifica uma “certa troca de sinal que aparece na equação (eq. 38).
Também fiz na equação (eq. 38) a soma dos termos semelhantes. Depois eu reconheci o significado
da parte real e da parte imaginária de acordo com as fórmulas de soma de arcos do cosseno e do seno
que é o que aparece na equação (eq. 39) em que no final eu usei a notação que eu inventei. quem a inventou
foi Euler!
4 REPRESENTAÇÃO GEOMÉTRICA 8
que permitiu-lhe escrever a famosa fórmula que é também identificada como fórmula de Euler:
envolvendo os números, e, i, π, 0, 1 numa única fórmula, que é realmente uma obra de arte.
Observe o que eu disse, Euler inventou uma definição para a exponencial dos números complexos,
ele começou identificando os números complexos do cı́rculo trigonométrico porque ele sabia da fórmula
da soma de arcos.
A Matemática é um conhecimento em que inventamos fórmulas associando fórmulas antigas com
fórmulas novas. As invenções que dão certo, ficam!
Vou lhe propor uma aplicação prática dos números complexos, na memorização ou determinação das
fórmula de somas de arcos. Se você quiser lembrar-se das fórmulas cos(α + β), sin(α + β), tan(α + β),
use o produto de eiα eiβ = ei(α+β) . Depois traduza para as funções trigonométricas o resultado do
produto.
Vou lhe propor uma aplicação prática dos números complexos, na memorização ou determinação das
fórmula de somas de arcos. Se você quiser lembrar-se das fórmulas cos(α + β), sin(α + β), tan(α + β),
use o produto de eiα eiβ = ei(α+β) . Depois traduza para as funções trigonométricas o resultado do
produto.
Se eu multiplicar por um número positivo ρ um número complexo que se encontre no cı́rculo trigo-
nométrico vou obter qualquer outro número que se encontre no plano complexo, basta que ambos tenham
o mesmo argumento.
Na figura (fig. 5), página 8, você pode
(cos( α ) + i sin( α) ) identificar o cı́rculo unitário, quer dizer, o
conjunto dos números complexos de módulo
1, nele você pode ver o arco α determinando
r
1 α o número complexo
1
cos(α) + i sin(α); (45)
o ângulo α
determina no que foi multiplicado pelo número real posi-
círculo unitário
o número complexo (cos( α ) + i sin( α) ) tivo r determinando em algum ponto do plano
complexo o número complexo
Figura 5:
r(cos(α) + i sin(α)) = r cos(α) + ir sin(α) = reiα ; (46)
e eu vou acompanhar Euler e completar a fórmula de Euler com um detalhe que vou mostrar mais adiante
que foi uma das invenções mais significativas de Euler expandindo a definição da função exponencial ao
conjunto dos números complexos
Estas equações traduzem o que está expresso na figura (fig. 5) em que eu tracei um segmento de reta
da origem até um ponto do plano, cortando o cı́rculo trigonométrico.
5 9
Esta figura e as equações (eq.47) e (eq.48) mostram que qualquer número complexo pode ser expresso
com esta fórmula, z = reiα , que é chamada a forma polar dum número complexo e que também é usada
no plano R2 chamada então de coordenadas polares para um ponto do plano.
O número real positivo r é o módulo do número complexo. Mas esta descrição tem um defeito que
observei agora: e se o ponto estiver dentro do cı́rculo trigonométrico? Neste caso trace o segmento de
reta da origem até este ponto no interior do cı́rculo trigonométrico e depois prolongue o segmento até
“cortar” o cı́rculo trigonométrico. Agora r ≤ 1 e vale a igualdade se o ponto estiver sobre o cı́rculo
trigonométrico.
Então, agora é verdade que qualquer ponto P , do plano, determina de maneira única um representante
no cı́rculo trigonométrico da forma eiα e desta maneira ficam determinadas duas “coordenadas” de P :
r, α que são
• r o módulo de P ,
• α o argumento de P .
• r o módulo de z,
• α o argumento de z.
5
Se é verdade que há uma identidade entre pontos do plano e os números complexos, também é ver-
dade que pensar em números complexos tem um poder maior. Os números complexos são números, tem
propriedades algébricas e este o meu objetivo aqui. Estive sugerindo que C é equivalente a R2 e isto não
é verdade embora eu não vá entrar nesta questão aqui, mas fica a observação e lhe posso sugerir que leia
a respeito de funções complexas para encontrar onde o plano fica diferente dos números complexos.
Eu não sei da história da invenção de Euler que leva o nome de fórmula de Euler-De Moivre. Mas
certamente Euler, e aqui eu estou inventando a história na forma como me parece provável, verificou que
as duas fórmulas da trigonometria para sin(α + β), cos(α + β) justificavam com perfeição a invenção
desta fórmula
Eu voltar mais a frente a esta descoberta de Euler, e ele não esteve sozinho nesta descoberta. Um
francês, De Moivre, que se refugiou na Inglaterra protestante fugindo da perseguição religiosa na França,
onde viveu dando aulas particulares de Matemática em Londres, também descobriu esta fórmula apenas
de uma maneira extremamente complicada. E por favor, não coloque um tom pejorativo na invenção de
De Moivre. Ele apenas seguiu um caminho diferente do trilhado por Euler, ele pensou no binômio de
Newton e deve ter feitos horas e horas de contas até verificar que sua fórmula estava certa.
Dado z; z = a + bi posso calcular ρeiα e consequentemente também −α, ρ1 com o que escrevo o
inverso
1 z
= (64)
z kzk2
Para os números reais diferentes de zero é verdade que se kzk < 1 então k z1 k > 1 e facilmente
deduz-se da fórmula do inverso que esta relação continua verdadeira para números complexos, apenas
agora a frase fica mais imponente: “se um número complexo z, diferente de zero, estiver dentro do cı́rculo
trigonométrico então o seu inverso z1 estará fora do cı́rculo trigonométrico” e vale a recı́proca, “se um
número complexo diferente de zero, estiver fora do cı́rculo trigonométrico então o seu inverso 1z estará
dentro do cı́rculo trigonométrico ”.
Euler definiu a exponencial complexa depois do que definiu o logaritmo complexo e foi neste ponto
que Euler excedeu a De Moivre. Enquanto De Moivre descobriu a propriedade complicadı́ssima das
potências do números complexo de módulo 1
Euler viu que esta propriedade transformava somas em produtos que é o papel da exponencial e experi-
mentou, definiu e deu certo:
eiy = (cos(y) + i sin(y)); (66)
depois foi somente multiplicar por um número real eρ para obter
z = x + iy; (75)
w = ez = ex eiy ⇒ z = ln(w); (76)
ln(w) = ex eiy = ρeiy ; (77)
|ln(w)| = ex ; arg(ln(w)) = y; (78)
O logaritmo complexo merece um artigo a parte embora tudo esteja dito aqui, tem algumas sutilezas
geométricas e topológicas que merecem ser destiladas à parte. Por exemplo, porque o logaritmo real não
está definido para os números reais negativos? Tem uma bonita resposta quando se estuda o logaritmo
complexo e vou fazer isto em outro artigo.
z = ρeiα ; (79)
√ √ √ iα √ α
z = ρ e = ± ρei 2 (80)
E deixe-me fazer um comentário, se z estiver no cı́rculo de raio ρ as suas raı́zes quadradas estarão
√
no cı́rculo de raio ρ e se opõem diametralmente, a partir do ângulo α2 . No caso dos reais acontece o
mesmo, porém tudo acontece dentro da reta, e a oposição diametral é simples troca de sinal.
Mais divertido é calcular a raiz cúbica dum número complexo z
z = ρeiα ; (81)
√ √ √ √ α
3
z = 3 ρ eiα = 3 ρei 3 ; (82)
(83)
√
E agora vem um segredo escondido dentro da geometria dos números complexos, o número 3 z está
√
no cı́rculo de raio 3 ρ e tem argumento, o ângulo, α3 , e confira figura (fig 7), página 13, que obtive
editando uma figura anterior onde marquei o ângulo α3 e desenhei um triângulo equilátero inscrito no
√
circulo de raio 3 ρ √
De onde eu tirei que o argumento, arg( 3 z) é α3 ? Foi da fórmula de Euler na qual eu apliquei a
operação raiz cúbica que a inversa da terceira potência então o expoente na fórmula de Euler é α3 . Depois
√
desenhei um triângulo equilátero inscrito no circulo de raio 3 ρ com um dos vértices no ângulo α3 deste
cı́rculo. Este triângulo determina mais dois outros ângulos que são
α + 2π α + 4π
,
3 3
Agora os cálculos finais, depois dos quais vou fazer comentários.
z = ρeiα ; (84)
α α 2π 4π
3, 3 + 3 = α+2π α
3 , 3 + 3 = α+4π
3 ; (85)
√
r = 3 ρ; (86)
α α+2π α+4π
rei 3 , rei 3 , rei 3 ; (87)
α
(rei 3 )3 = r 3 eiα = ρeiα = z; (88)
α+2π
(rei 3 )3 = r 3 eiα+2π = z; (89)
i α+4π
(re 3 )3 = r 3 eiα+4π = z; (90)
z
(cos( α ) + i sin( α) )
1
ρS
1 α
α
3
1
1 3
rS ρ
o ângulo α
determina no
círculo unitário
o número complexo (cos( α ) + i sin( α) )
3. Na equação (eq.86) eu escrevi o raio do cı́rculo que vai conter as raı́zes cúbicas dum número que
√
tenha por módulo ρ, é o cı́rculo de raio r = 3 ρ.
4. Na equação (eq.87) estão os vértices do triângulo equilátero, escritos como números complexos.
São as três raı́zes do número complexo, z, dado.
5. Nas equações (eq.88), (eq.89), (eq.90) eu calculei a terceira potência das raı́zes encontrada na
equação (eq.87) o que resultou em z.
Você vê assim que as raı́zes cúbicas num número complexo z qualquer são obtidas no cı́rculo que
√
tem por raio a raiz cúbica do módulo de z, 3 ρ. Neste cı́rculo eu identifico a primeira raiz que determina
o ângulo α3 em que α = arg(z). Um triângulo equilátero tendo um vértice em cima desta primeira raiz
determina as outras duas.
O método é exatamente o mesmo para calcular qualquer que seja a raiz n−ésima do número complexo
z = ρeiα :
√
1. achar primeira raiz no cı́rculo com o raio r = n ρ.
2. inscrever um polı́gono regular convexo com n lados neste cı́rculo com o primeiro vértice determi-
nando o ângulo α
n
.
6 RAIZ DUM NÚMERO COMPLEXO 14
√
z = a + bi 7→ kzk = a2 + b2 ; (91)
√
w = c + di = a + bi; (92)
c2 − d2 = a;
2 2 2 2
w = (c + di) = c − d + 2icd = a + bi ⇒ (93)
2cd = b;
( 2
b
d = 2c ⇒ c2 − d2 = c2 − 4c
b
2 = a;
b b2 2
(94)
c = 2d ⇒ 4d2 − d = a;
4c4 −b2
= a ⇒ 4c4 − b2 − 4ac2 = 0 = 4c4 − 4ac2 − b2 = 0;
4c2 (95)
q √ q √ q
2 +16b2 a+ a2 +b2
c = ± 4a+ 16a 1
p
8 = ± 2 = ± 2 (a + a2 + b2 ); (96)
q
c = ± 12 (Re(z) + kzk); (97)
b2
− d2 = a ⇒ b2 − 4d4 = 4ad2 ⇒ 4d4 + 4ad2 − b2 = 0;
4d2 (98)
q √
2 +16b2
q √
−a+ a2 +b2
q √
d = ± −4a+ 16a
8
= ± 2
= ± 1
2
(−a + a2 + b2 ); (99)
q
d = ± 12 (−Re(z) + kzk)); (100)
• Nas equações (eq.91) e (eq.92) eu coloquei o problema em termos da expressão cartesiana dos
números complexos z = a + bi e a sua raiz quadrada, w = c + di.
• Na equação e (eq.93) calculei o quadrado de w estabelecendo a igualdade com z o que me dá um
sistema de equações para determinar a parte real e imaginária de w.
• Na equação e (eq.94) eu eliminei, alternadamente d ou c. Obtendo formas quadráticas numa única
variável, que são equações biquadradas.
• Nas demais equações eu resolvi as equações biquadradas encontrando a expressão das raı́zes quar-
tas de a + bi.
Deixo que você faça você mesma os cálculos com a fórmula de Euler-De Moivre para se verificar que
é muito mais simples ver um número complexo z = ρeiθ . Em particular a fórmula na equação (eq.97)
ou na equação (eq.100) não me dão nenhuma pista sobre o módulo da raiz w = c + di, ao passo que a
√
fórmula de Euler-De Moivre me diz que uma das 4 raı́zes se encontra no cı́rculo de raio 4 ρ determinando
√ θ
nele o ângulo 4θ e as demais raı́zes são os vértices do quadrado tendo o primeiro vértice em 4 ρei 4 . Mas
também é trabalhoso retornar deste ponto para a expressão cartesiana das raı́zes.
Conceitos relacionados:
6 RAIZ DUM NÚMERO COMPLEXO 15
• Logaritmo complexo.
• forma polar dum número complexo.
• raı́zes da unidade.
Índice Remissivo
C, 3 números complexos, 5
i, 2
Im, 3 imaginária
Re, 3 raiz, 3
unidade, 2
calculadora imaginário
números complexos, 5 complexo, 2
complexa puro, 2
exponencial, 11
complexo logaritmo
ângulo complexo, 11, 15
argumento, 6
conjugado, 10 número
forma polar, 9, 10 complexo, 1
logaritmo, 11 número complexo
número, 1 forma polar, 15
produto, 10 parte imaginária, 3
representação geométrica, 4 parte real, 3
corpo, 1
parte imaginária
equação número complexo, 3
segundo grau, 1 parte real
Euler número complexo, 3
De Moivre, 14 Pitágoras
fórmula de, 8 teorema de, 5
Euler-De Moivre polares
fórmula de, 9 coordenadas, 9
exponencial
complexa, 11 representação
geométrica, 5
fórmula
de Bhaskara, 1 soma de arcos
figura fórmula, 8
cı́rculo unitário, 8
unidade
complexo
raiz, 15
conjugado, 10
produto, 4
números complexos
geometria, 6
raiz
cúbica, 13
regra
paralelogrâmica, 7
geometria
números complexos, 6
gráfico
REFERÊNCIAS 17
Referências
[1] David I. Bell Landon Curt Noll and other. Calc - arbitrary precision calculator. Technical report,
[Link] 2011.
[2] Roger Penrose. The Road to Reality - A complete Guide to the Laws of the Universe. 2004.