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Medos e Transformações Pessoais

O texto explora a luta interna do narrador, Enol, com sua identidade e a Coisa que representa suas transformações e medos. Ele reflete sobre a inconstância humana, a busca por compreensão e a necessidade de expressar seus sentimentos através da escrita. Através desse processo, Enol busca se curar e encontrar um sentido para sua existência, reconhecendo suas lacunas e a força que a escrita lhe proporciona.

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Medos e Transformações Pessoais

O texto explora a luta interna do narrador, Enol, com sua identidade e a Coisa que representa suas transformações e medos. Ele reflete sobre a inconstância humana, a busca por compreensão e a necessidade de expressar seus sentimentos através da escrita. Através desse processo, Enol busca se curar e encontrar um sentido para sua existência, reconhecendo suas lacunas e a força que a escrita lhe proporciona.

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Porque sempre me esquivei da Coisa — com medo da transformação?

Eu, Enol que sou, sempre fugi do poder da Coisa. (Trecho do porque do nome “Enol”)
Mas Ela persistiu enquanto eu continuava me reduzindo e me anulando e me encolhendo
e me estrangulando — a Coisa nunca desistiu de mim.
Sempre tive medo do feroz julgamento
Os prantos furta-cor. Incertezas.
Estou fora de minha órbita antes absoluta mas que neste instante se mostra incapaz
de suportar as necessárias transformações de meu ser. Sou um ser mutável e em
constante ressignificação. Simplesmente não posso ignorar minha força humana que é
também força do ser vivo.
A lavagem faz parte da cura.

Somos inconstantes. A inconstância do ser humano desregula Os meus iguais nem


sempre comandaram o mundo. Já fomos subordinados às conjunturas das demais raças.
Mas há pouco conquistamos o poderio planetário e nos consideramos coordenadores do
mundo. E mesmo assim a todo momento destruímos a nós mesmos.

Terei de organizar meu pensamento. E não sei como fazê-lo. Tentarei deixar-me a
tempestade mental sobre o máximo do impossível, pois terei de torná-la absorvível
pela tua unicidade de pessoa diferente de mim e de gente munida de outra realidade
que não a minha. Tentarei escrever tornando palatável os sentimentos meus. E sem
corrompê-los visando à aceitação alheia.
Estenderei-te-me as mãos faiscantes de tanta esperança embora trêmulas e incertas —
não posso saber se tu as segurarás e caminharás junto de mim.
Partirei então do fato de que tu nada sabes de mim. Precisarei reformular meus
pensamentos e meus sentimentos para tu me sintas dentro de ti. Eu te darei feito
indesejável presente — eu te oferecerei os meus fragmentos de vida. E com tanta
desiludida esperança escreverei tentando sentir a tua participação em cada palavra
minha.
Recomporei minha alma sobre o papel. E com tanto sofrimento me organizarei e me
realocarei e me reorganizarei só para alcançar a tua compreensão.
Não quero que tu apenas entenda o que sinto, mas que tu também sintas tudo o que te
direi. E que ainda não sei. Oh eu nunca saberei.

Mas tu… tu não podes entender o poder de destruição que minha mente construíra. E
eu sem conseguir me derrotar.
O denso pudor, o silêncio, o segredo, o tabu — tudo isso me assustava e me
paralisava.

Depois daquele sonho percebi que há muito já me faltava alguma coisa. Mas num
primeiro momento não me importei porque essa falta
Pelo menos não ainda. Aquela carência não se manifestava dum modo grosseiro dentro
de mim e minha mente ainda não se atentava ao sentimento de que algo estava
faltando.
A lacuna grande demais.
Acontece que estou descobrindo: já nasci destituído de alguma coisa. E por nascer
com essa lacuna habitei-me a ela e junto dela sempre vivi. Mas aquilo se
transformava e de algum jeito nascia: a carência de algo se realizava em mim.
E agora te digo porque agora mesmo entendi: eu existia junto duma falta que de
tanto negar me sustentava com um eu-mesmo.
Estou entendendo, leitor, já consigo entender: aquela carência que de início não me
fazia mal estava cotidianamente a crescer. Progressivamente a lacuna primária se
fortalecia e se espalhava pelo meu corpo.
O meu temor e o meu assombro de mudar e de experimentar fizeram com que eu
desenvolvesse uma célula maligna. E esta crescera mas crescera tanto que o medo não
a nutria mais. Silenciosamente como se nada acontecesse o buraco se fortificara e
alcançara todas as arestas do meu corpo. E minha carne exauriu-se de mim. Meu
espírito cansou-se de mim. E minha mente definhou-se.
Bem poderia curar-me e preencher-me com verdades legitimas mas escolhi estufar-me
com a fajuta ação das ilusões. Oh e não preciso dizer-te que só mesmo enganei-me e
corroborei o desequilíbrio

Escrever-te, meu primo, dá-me uma força pragmática de vida. Estou sentindo que uma
potência está a se avivar. Estou no fundo sentindo o poder que nunca tive de dar
certo real sentido aos meus sentimentos. Mesmo longe de ti estou sentido o poder
extraterreno que é ter um corpo pulsante onde posso me recostar e respirar.
Escrever me sopra fresca brisa que me acarinha e sem me julgar me repreende dum
modo pedagógico.
Pode não parecer mas cada palavra escrita é um suspiro meu de puro alívio.
Revigoro-me sob a força expressiva do texto e a verdade de minha existência se
sobressai só para me realinhar a mim mesmo.

Descobri que minha existência nua sem influências ou predeterminações configura-se


como inalcançável crime. O eu-mesmo nasceu livre para sofrer. E é certo que
sofrerá.

A movimentação mansa: não quero ferir

As palavras antes mesmo de materializadas já modificam a minha verdade. Talvez por


isso continuo escrevendo para quem sabe alcançar o ínfimo instante em que
conseguirei apanhar do ar o átimo instantâneo de vida em que a minha mais singela
palavra pulsa junto do meu mais profundamente sutil existir.

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