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Calvino e a Consciência Missionária

João Calvino, frequentemente acusado de não ter uma mentalidade missionária, na verdade, demonstrou preocupação com a divulgação do evangelho e a necessidade de pastores durante sua vida. Embora não tenha escrito tratados missiológicos, suas cartas e comentários bíblicos refletem uma consciência da missão da igreja e da salvação universal. Calvino também fundou a Academia de Genebra, que se tornou um centro importante para a formação de líderes cristãos e a promoção da fé reformada.

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Andre Gomes
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Calvino e a Consciência Missionária

João Calvino, frequentemente acusado de não ter uma mentalidade missionária, na verdade, demonstrou preocupação com a divulgação do evangelho e a necessidade de pastores durante sua vida. Embora não tenha escrito tratados missiológicos, suas cartas e comentários bíblicos refletem uma consciência da missão da igreja e da salvação universal. Calvino também fundou a Academia de Genebra, que se tornou um centro importante para a formação de líderes cristãos e a promoção da fé reformada.

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A Consciência Missionária

de João Calvino
Antonio Carlos Barro
Introdução
João Calvino, o reformador do século XVI, freqüentemente tem sido acusado
por muitos historiadores de ter sido totalmente inoperante quanto ao
mandato missionário dado à igreja de fazer discípulos de todas as nações. O
propósito deste trabalho é oferecer uma reflexão com o fim de demonstrar
que esta não é a verdade acerca do reformador. Podemos encontrar em
Calvino elementos missiológicos reveladores de que ele possuía consciência
de que o evangelho deveria ser anunciado em outros lugares e para outros
povos.
I. Calvino é acusado de não possuir uma mente missionária
"Que Calvino e os seus seguidores de Genebra no século XVI não possuíam
nenhum interesse em missões é freqüentemente tomado como axiomático,
porque eles não enviaram imediatamente missionários para a Índia, África
ou China quando introduziram a Reforma em Genebra."( 1) Será que essa
afirmação é verdadeira em tudo o que representa? Podemos aceitar a idéia
de que João Calvino foi um completo fracasso em missões e que nada fez
para contribuir para o avanço do evangelho no mundo?
Durante os dias da Contra-Reforma, o cardeal Roberto Bellarmine incluiu
entre as dezoito marcas da verdadeira igreja a sua atividade missionária. Ele
disse: "Os heréticos nunca converteram pagãos ou judeus à fé, mas apenas
perverteram cristãos. Neste mesmo século os católicos converteram muitos
milhares de pagãos do novo mundo."( 2) Essas palavras foram ditas com o fim
de demostrar que os reformadores eram hereges. Colocar a atividade
missionária como marca da igreja verdadeira foi apenas um subterfúgio para
afirmar isso. Foi também o historiador católico e professor de missões Joseph
Schmidlin, de Münster, que afirmou que os reformadores não estavam
conscientes da idéia de fazer missões e assim não mostraram nenhuma
atividade missionária.(3) Como nós podemos ver, o pensamento de que
Calvino e os outros reformadores não possuíam nenhuma consciência
missionária teve início entre os católicos romanos, com o propósito de
enfraquecer o movimento reformado ante a opinião pública da época.
Tempos depois, a mesma idéia foi esposada pelo protestante Gustav
Warneck, quando afirmou:
Nos reformadores não encontramos nenhuma ação missionária, bem
como a idéia de missões, no sentido em que entendemos missões
hoje. O novo mundo de pagãos, que foi descoberto além mares, estava
fora do alcance dos reformadores. Ainda que isto tenha algum peso, a
razão fundamental que os bloqueou era mais teológica do que
qualquer outra coisa. Essa razão teológica impediu que os mesmos
tivessem uma atividade missionária e também uma direção
missionária.(4)
William Hogg afirmou que "os reformadores não evidenciaram nenhuma
preocupação com missões ultramarinas aos não cristãos."( 5) A mesma linha
de pensamento é encontrada em Frank Littel quando diz que "a teologia de
Calvino, com seu ativismo inerente, sua preocupação com a extensão do
reino, e sua ênfase sobre a responsabilidade do eleito para com a
humanidade e a sociedade, tem muitas implicações missionárias, mas
Calvino não associou essas coisas com a obrigação missionária."( 6) Ainda que
Littel seja mais complacente do que Hogg quando reconhece que a teologia
de Calvino tem implicações missiológicas, ele conclui dizendo que "as
evidências irrefutáveis e bem conhecidas demonstram que os reformadores
não possuíam qualquer reconhecimento da dimensão missionária da
igreja."(7)
Mais recentemente, vimos o historiador e missiologista Ralph Winter afirmar
que "a despeito do fato de que os protestantes ganharam no fronte político,
e, em grande medida, alcançaram a capacidade de reformular sua própria
tradição cristã, eles nem mesmo falaram sobre missões, e aquele período
terminou com a expansão católica européia nos sete mares, tanto política
como religiosa."(8)
As opiniões formuladas até agora foram e têm sido questionadas por outros
estudiosos. Missiologistas e teólogos de renome como Schlatter, Ernst
Pfisterer, Walter Holsten, Samuel Zwemer, Stanford Reid, J. van den Berg,
James Mackinnon, R. Pierce Beaver e David Bosch têm apontado para uma
outra perspectiva e afirmado que podemos encontrar nos reformadores
aquilo em que eles têm sido acusados de serem falhos.
Quando Calvino e os reformadores são acusados de não possuírem uma
mentalidade missionária, o que é que isto realmente significa? Qual é o
padrão pelo qual eles estão sendo julgados? É certo que Calvino não
escreveu, entre os seus muitos livros, nenhum tratado missiológico, mas
também é certo que ninguém virá a encontrar algo que tenha escrito contra
a idéia de missões. O ponto que queremos ressaltar aqui é que se Calvino
não escreveu sobre missões, isso não é motivo suficiente para afirmar que
ele não reconheceu a dimensão missionária da igreja.
Quando Winter reconhece que a expansão católica romana se deu política e
religiosamente em todos os cantos da terra, ele mesmo se esquece de
analisar em quais circunstâncias esta expansão veio a ocorrer. Naqueles dias
a Igreja Católica estava intimamente ligada ao poder dos governantes. Em
1493, o Papa Alexandre VI escreveu um documento afirmando a soberania
da Espanha e concedeu-lhe a possessão de todas as terras descobertas,
tanto passadas como futuras, no ocidente. O Tratado de Tordesilhas
regulamentou em 1494 as novas descobertas, quando determinou-se o que
seria da Espanha e o que seria de Portugal.
O preconceito contra os reformadores pode ser ainda encontrado em K. S.
Latourette, historiador batista, quando diz: "Nenhum dos príncipes
protestantes estava profundamente preocupado em saber se os povos não
cristãos poderiam ser ensinados sobre a fé cristã, como estavam
preocupados os monarcas de países católicos como Espanha e Portugal."( 9)
Essa declaração é duvidosa e deve ser questionada, porque hoje nós
sabemos muito bem que os reis da Espanha e Portugal estavam tão somente
interessados nos bens e riquezas do novo mundo. Pouco interesse havia
pelas almas dos seus habitantes.
Uma outra pergunta que deveríamos fazer é por que tão somente Portugal e
Espanha estavam interessados na divulgação da fé cristã? Por que os outros
países europeus não manifestaram o mesmo interesse naquele período da
história? Quanto a isto o próprio Latourette responde: "Em algumas terras,
como na França, os católicos romanos estavam por demais absorvidos na
luta contra o protestantismo para vir a ter energias ou pensamentos quanto
a missões estrangeiras."(10)
Essa declaração é muito interessante e merece reflexão. Latourette, que é
um historiador sério e protestante, encontra como desculpa para os católicos
franceses não estarem envolvidos em missões o fato de que eles estavam
absorvidos em lutas contra o protestantismo. Por que então o mesmo
argumento não pode ser usado para os protestantes? Eles também estavam
absorvidos lutando contra os católicos franceses para sobreviverem. Se os
católicos franceses não tinham energias, por que teriam os protestantes? Se
a desculpa é valida para um lado, também deve ser válida para o outro! A
não ser que o preconceito do historiador o impeça de declarar essa verdade.
Finalmente, encontramos nos escritos de G. Baez-Camargo, historiador
mexicano, estas palavras:
As condições especiais nas quais o movimento protestante estava se
desenvolvendo naquele tempo na Europa precisavam ser levadas em
consideração. As igrejas reformadas foram colocadas sob provações
severas na tentativa de preservar a sua própria existência contra uma
oposição crescente e perseguição cruel. Era o período em que a
consolidação local tinha que receber a suprema prioridade. O trabalho
expansionista, em particular as missões em terras distantes, com
meios de comunicação precários e perigosos , eram vistos não como
urgência imediata e provavelmente então vistos como secundárias ou
que o tempo ainda não era chegado.(11)
Uma outra questão interessante é se podemos chamar a conquista das
Américas, como atividade missionária. Os missionários católicos, com raras
exceções, estavam servindo muito mais aos tronos de Portugal e Espanha do
que à igreja. "Debaixo do manto da cristianização, uma exploração
inescrupulosa da população indígena e um genocídio sem paralelos foram
estabelecidos."(12) O historiador cubano Justo González, em seus escritos
sobre a história da expansão romana no nosso continente, oferece uma
descrição acurada do movimento missionário católico.( 13)
Calvino jamais teve o poder de um papa ou o de um rei dando-lhe apoio. A
verdade é que ele mesmo teve que ser um refugiado em Genebra para
escapar das mãos dos religiosos católicos. Ao invés de culpar Calvino por
não ter tido o mesmo sentimento missionário encontrado na Igreja Católica,
devemos agradecer a Deus por tê-lo preservado e não ter legado a nós esse
passado missionário de morticínio e dominação, que hoje é rejeitado por
grande parte dos teólogos católicos, especialmente os ligados à Teologia da
Libertação.
Outro aspecto a se ter em mente é que os reformadores são julgados com
base nos padrões do que se entende por missões atualmente. Ou seja, usa-
se um padrão contemporâneo para estabelecer se o que Calvino e os outros
reformadores fizeram era missão ou não. A primeira coisa a ser feita então é
definir o que é missão. Poderíamos aceitar que fazer missão é levar a
salvação de Cristo somente a povos que vivem em terras distantes?
Certamente esse é um dos aspectos da missão da igreja, mas a missão cristã
é muito mais abrangente. Donald McGavran, conhecido como o fundador do
Movimento de Crescimento da Igreja, afirma que missão "é a busca divina,
vasta e contínua."13 Afirma ainda mais:
Neste mundo, missão tem que ser o que Deus deseja. Não é uma
atividade iniciada por mãos humanas, mas a missio Dei, a missão de
Deus, que permanece no controle da mesma. Portanto, os problemas
da missão devem ser vistos à luz da vontade revelada de Deus. Sendo
o Deus que ele é e que foi revelado em Cristo, que tipo de missão ele
deseja? Isto é o que significa missão, tanto na sua essência como na
sua teologia.(14)
Devemos ter em mente que a idéia de missão em terras distantes é bíblica
(Mateus 28), mas, no contexto do século XVI, essa idéia estava também
intimamente ligada ao sentimento de superioridade encontrado no
cristianismo ocidental. O sentimento de conquista e dominação foi um
poderoso elemento motivador para as missões católicas. Zwemer está certo
quando afirma que "João Calvino viveu no século XVI e não no século XIX.
Nós não podemos esperar que ele tivesse uma visão mundial como aquela
encontrada em William Carey."(15)
A seguir, o nosso propósito é mostrar que Calvino possuía um conceito de
expansão da fé cristã.
II. Pensamento missiológico em João Calvino
João Calvino foi um escritor incansável. Foi autor não somente das famosas
Institutas, mas também de comentários de quase todos os livros da Bíblia,
bem como de centenas de cartas e sermões. Quando lemos as suas cartas e
os comentários bíblicos por ele produzidos, encontramos neles uma
preocupação com a divulgação do evangelho e com a falta de pastores para
as igrejas da época.
A. Cartas
O que nos impressiona quando lemos as cartas de Calvino é o tremendo
fardo que pesava sobre os seus ombros. Em carta escrita a Sulcer ele diz:
"Em todas as partes da França, os irmãos estão implorando a nossa
assistência."(16) De todas as partes surgiam cartas solicitando a Calvino que
providenciasse pastores e ele sempre procurava um modo de atender a
esses apelos. Ele escreveu, por exemplo, a M. de Passy sobre a necessidade
urgente de se tornar um ministro do evangelho: "O Monsenhor, Conde d’Eu,
e a igreja de Nevers, pediram-me para orar, exortar, convocar e, se preciso
fosse, conjurá-lo para que você cumpra com o seu dever para com aquele
pobre povo com o qual você está em débito."( 17) A favor da igreja de língua
italiana em Genebra, ele escreveu um carta a Pedro Mártir apressando-o
para vir a Genebra: "Quando os seus compatriotas compartilham comigo as
suas necessidades, perdoe se me coloco ao lado deles... é meu dever exortá-
lo para que venha em auxílio destas pessoas da sua nação..."( 18)
Ralph Winter chama este tipo de missão de Evangelismo E-2.( 19) Trata-se da
missão em que a pessoa cruza barreiras geográficas, mas não culturais, para
ministrar ao seu próprio povo. Esse tipo de missão Calvino já realizava há
muito tempo, mas o próprio Winter deixa de reconhecer essa verdade no
reformador quando afirma que ele não possuía consciência missionária.
B. Comentários
Com respeito à Grande Comissão, Calvino menciona: "O Senhor ordena aos
ministros do evangelho que preguem em lugares distantes, com o propósito
de espalhar a salvação em cada parte do mundo."( 20) Mais de uma vez ele
afirmou esta convicção. Quando comenta 1 Tm 2.4 ele declara: "Nenhuma
nação da terra e nenhum segmento da sociedade está excluído da salvação,
porque Deus deseja oferecer o evangelho a todos e sem nenhuma
exceção."(21)
Quando nos familiarizamos com a teologia de Calvino, podemos concluir com
certeza que ele entendia perfeitamente que Cristo era a única esperança
para a humanidade. Exemplos disso podem ser encontrados nos seguintes
textos bíblicos: o evangelho é oferecido aos sábios e não sábios (Rm 1.14-
16); deve ser pregado em todos os lugares através da providência divina
(Rm 10.14); deve ser pregado consistentemente entre todas as nações (Rm
16.26); Cristo é o Senhor bem como o Salvador de todos (Is 2.4); na cruz de
Cristo, como num esplêndido teatro, a incomparável bondade de Deus é
manifesta diante do mundo (Jo 13.31), e agora sabemos que fora de Cristo
existe tão somente confusão em todo o mundo (Jo 12.31).
Por causa das circunstâncias da sua permanência em Genebra, Calvino fez
uso de outros elementos para divulgar a fé cristã. Um destes foi a imprensa,
que veio a se tornar o principal meio de comunicação nas mãos do
reformador. Em 1557 ele permitiu que os seus sermões fossem impressos.
Rapidamente, eles foram traduzidos para várias línguas como o alemão,
latim, francês, italiano, tcheco, inglês, espanhol, holandês e até mesmo o
grego. Apesar de não possuir um boa saúde e ser um homem muito
ocupado, Calvino fez o que pôde para divulgar a fé cristã e mostrar a sua
gratidão a Deus.
III. A prática missionária de João Calvino
Mostraremos agora que Calvino foi mais além do que escrever sobre a fé
cristã. A verdade é que ele foi um instrumento poderoso para deixar
alicerces que viriam a ser grandemente usados para a divulgação do
cristianismo.
A. A Academia de Genebra
Em abril de 1538, Calvino foi expulso de Genebra e procurou refúgio em
Estrasburgo, onde se tornou pastor de uma igreja de refugiados franceses.
Em setembro de 1541 ele retornou a Genebra e ali morou até a sua morte
em maio de 1564. Sob sua liderança, Genebra veio a se tornar uma cidade
de refúgio. Pessoas que eram perseguidas por causa da fé cristã
encontravam um lugar cristão e seguro naquela cidade.
Em 5 de junho de 1559 foi fundada a Academia de Genebra. Esta foi uma
das grandes realizações de Calvino e por essa academia ele demonstrava
um grande entusiasmo. Conforme aponta Mackinnon, "o estabelecimento da
academia foi em parte realizado por causa do desejo de suprir e treinar
missionários evangélicos."(22) Charles Raynal afirma: "Desde o princípio a
academia esteve cheia de estudantes. A maioria veio de outros países, e de
todos os lugares onde havia comunidade de língua francesa chegavam
pedidos de pastores e professores. O desejo de Calvino era preencher essas
necessidades e espalhar os princípios da Reforma."( 23)
Com o fim de cumprir o seu propósito, Calvino impôs uma rigorosa disciplina
acadêmica. Os estudantes recebiam uma educação humanista bem ampla,
com ênfase em línguas e efetiva comunicação escrita e verbal. A idéia de
Calvino "era de que, quando propriamente treinados, os estudantes
poderiam voltar a seus próprios países e espalhar o evangelho como
missionários. Nesse sentido, ele procurou tornar Genebra um centro
missionário para espalhar a Reforma e os seus ensinos por toda a Europa e
outras partes do mundo."(24)
Ao estabelecer a Academia, Calvino teve a oportunidade de suprir a
necessidade de pastores. Pedidos de auxílio eram constantes e chegavam de
vários lugares. No dia 6 de setembro de 1557, por exemplo, chegaram cinco
pedidos desse tipo. No dia 13 de julho de 1559, cerca de seis pedidos, e no
dia 28 de agosto do mesmo ano foram registrados mais seis pedidos.( 25)
De certa forma, existem muitas semelhanças entre a Academia de Calvino e
a Herrnhut de Zinzendorf. As duas eram lugares para refugiados, devotadas
a uma vida cristã autêntica e ambas tinham a intenção de preparar pessoas
para a evangelização; entretanto, sempre existe a tendência de diminuir as
conquistas de Calvino. A missão que a liderança da igreja de Genebra
possuía era a de suprir novas igrejas com pastores. Essa "era a missão que
foi colocada em suas mãos, e para a qual eles estavam preparados para
responder com todos os seus recursos, tanto materiais quanto
espirituais."(26)
B. Europa
Devemos voltar nossa atenção para a Europa e ver que tipo de influência
Calvino teve nesse continente. Os autores reformados concordam que a
responsabilidade primária dos reformadores era a Europa, e isso é verdade
quando falamos sobre Calvino. O nosso propósito aqui não é desenvolver
uma compreensão profunda da história da Reforma na Europa, mas sim
destacar alguns países aonde Calvino enviou pregadores, como forma de
mostrar que ele preocupou-se com a obra da evangelização.
Assume-se geralmente que dentre os países influenciados pelo Calvinismo,
principalmente na Europa, a Escócia é o que mais se destaca.( 27) Quando o
estudioso George Wishart, um discípulo de Calvino e de Zwínglio, foi
queimado na fogueira em 1546, o seu guarda-costas era John Knox, que
conseguiu fugir para Genebra e veio a tornar-se discípulo de Calvino. Mais
tarde, ele veio a ser o grande reformador protestante da Escócia.( 28)
O interesse de Calvino pelo progresso da fé na Inglaterra é bem conhecido.
Ele escreveu muitas cartas de encorajamento aos líderes cristãos quanto ao
trabalho de expansão do Evangelho. É também muito importante salientar a
influência da Bíblia de Genebra, publicada em 1560. Ela tornou-se a Bíblia da
família inglesa. Como Philip Hughes destaca, "apesar de Calvino não ter
participado na produção ou nas anotações da Bíblia de Genebra, ele deve
receber crédito pela existência e características da mesma. Pois não havia
outro lugar, a não ser Genebra, no qual uma Bíblia como essa poderia ser
produzida."(29)
A respeito da reforma na Hungria, citamos o testemunho de Kalman D. Toth:
Nos idos de 1550, quando a Reforma Helvética fez a sua primeira
conquista (1551-52) e se estabeleceu por volta de 1556, havia sinais
de crescimento da autoridade e reputação de Calvino. Ambrósio
Moibanus, um reformador em Breslau, em suas cartas datadas de 1º
de setembro de 1550 e de 24 de março de 1552, assegurava a Calvino
que o seu trabalho tinha sido recebido com muito entusiasmo na
Polônia e na Hungria. Em 26 de outubro de 1557, Gal Huszar, um
reformador húngaro, relatou a Heinrich Bullinger sobre a grande
popularidade do trabalho de Calvino na Hungria.( 30)
Outro país que Calvino influenciou significativamente foi a Holanda. Ele
enviou para aquele país o primeiro pregador calvinista do qual se tem
conhecimento. No final de 1554, solicitou a Pierre Brully para ir pregar em
Tournai e Vallenciennes. Conforme W. Robert Godfrey, "Brully estava
pregando na Holanda há somente três meses quando foi capturado e
queimado por causa de sua fé. Porém, seu trabalho corajoso em construir a
igreja visível iniciou uma penetração lenta mas constante do movimento
reformador no sudeste dos Países Baixos."( 31) Além de Brully, outros
pastores como Guido de Bres, autor da Confissão Belga, Peter Danthenus e
Peter Marnix van St. Agldegone eventualmente voltaram à Holanda para
pregar e freqüentemente sofreram perseguições por causa da fé cristã.
Calvino também enviou uma carta para encorajar Lasco, Tricesius e outros
líderes no trabalho de tradução da Bíblia para o polonês.( 32)
A França foi o país no qual a influência de Calvino tornou-se mais
significativa. A maioria dos refugiados era da França e eles tinham muitas
coisas em comum com as pessoas de Genebra.
Os resultados do trabalho de Calvino não devem ser subestimados. Muito
mais pode ser dito sobre a influência de Calvino na Europa, mas o que foi
descrito acima nos dá uma idéia da sua importância no estabelecimento da
igreja naquele continente. Estas palavras de Reid são de grande valia:
Apesar das dificuldades da geografia física, dos obstáculos causados
por oposições políticas e da perseguição instigada pelas autoridades
da Igreja Católica Romana, o Calvinismo obteve sucesso na expansão
de sua influência e no alargamento de suas fronteiras, ao ponto de ser
considerado o inimigo número um do Catolicismo Romano e do
governo absolutista.(33)
C. Missão ao Brasil
A primeira tentativa missionária protestante é melhor sumariada por R.
Pierce Beaver em "A Missão Genebrina ao Brasil," escrito em 1967.( 34) Mais
recentemente temos o relato de Amy Glassner Gordon, "O Primeiro Esforço
Missionário: Por que Falhou?,"(35) no qual tenta explicar as causas do
fracasso da mesma. A seguir tentaremos mostrar que Calvino tinha
consciência missionária e que a mesma foi demonstrada nessa viagem ao
Brasil.
Em 1555, sob a liderança de Nicolas Durand de Villegaignon, um grupo de
600 franceses chegou à Baía da Guanabara, para estabelecer uma colônia
francesa no Brasil. Cheio de problemas com seus homens, Villegaignon
escreveu a Calvino em Genebra, pedindo que fossem enviados ministros
para estabelecer ordem e trazer religião aos colonos.( 36) Jean de Léry, que
eventualmente tornou-se um pastor, declarou: "A Igreja de Genebra
agradeceu imediatamente a Deus pela extensão do reino de Jesus Cristo a
um país tão distante, tão diferente, e entre uma nação inteira sem o
conhecimento do Deus verdadeiro."(37) Esse testemunho de Léry mostra que
a liderança em Genebra não estava cega ou surda ao mundo sem Deus.
A igreja enviou um grupo de ministros em 1556, acompanhados de colonos
calvinistas. Vários problemas surgiram na colônia e Villegaignon decidiu
expulsar os calvinistas do Forte Coligny, não sem antes matar vários deles.
Os ministros foram viver com os índios tupinambás, enquanto esperavam
por um navio para levá-los de volta à França. Quando um pequeno navio
chegou, arranjou-se lugar para quinze pessoas. O navio ainda estava na
costa quando afundou. Cinco calvinistas retornaram ao Forte Coligny e três
deles, Jean du Bordel, Mathieu Verneuil e Pierre Bourdon foram mortos por
Villegaignon. Este episódio ficou conhecido como o "Martírio da Guanabara."
"A curta missão," comenta R. P. Beaver, "não teve frutos em conversões.
Mas tem uma importância histórica. A Igreja de Genebra, quando desafiada a
fazer missão, respondeu imediatamente."(38) Amy Gordon declara:
Se a missão ao Brasil não obteve sucesso, pelo menos levantou sérios
questionamentos para os calvinistas, e mesmo para Calvino, sobre
assuntos que necessitavam ser tratados antes que as igrejas
protestantes se envolvessem em missões e desenvolvessem sua
vocação missionária. O episódio do Brasil, visto dessa perspectiva, tem
uma importância na história missionária protestante que vai além da
curta história da colônia em si.(39)
Se esse empreendimento tivesse obtido sucesso, a história das missões
poderia ter sido diferente em relação ao destino de alguns países. Não há
dúvida de que os países que foram colonizados pelos católicos estão entre os
mais subdesenvolvidos no mundo de hoje. A pergunta que permanece e que
não pode ser respondida é: Será que o Brasil seria hoje um país melhor se os
calvinistas tivessem permanecido aqui desde o começo?( 40)
Conclusão
Aqueles que concordam com a idéia de Warneck de que Calvino foi cego e
surdo quanto a missões, não podem negar a tremenda importância da sua
teologia e prática para o mandato missionário. [Link] den Berg diz
sabiamente sobre Calvino: "Nem sua teoria nem sua atitude prática sobre
missões foram realmente negativas; ao contrário, debaixo de uma superfície
de aparente desinteresse para com as missões, um potente fermento
missionário estava escondido."(41)
A paixão de trazer glória a Deus através do mandato missionário se tornou
evidente quando os calvinistas tiveram liberdade e condições de avançar.
Aqueles que desejam se aprofundar mais sobre o assunto devem ler os
artigos de J. van den Berg e Samuel Zwemer. Vale a pena mencionar as
palavras de Zwemer, quando ele ressalta que "as igrejas de tradição
reformada, mais do que qualquer outro ramo da igreja, foram as pioneiras no
mundo islâmico."(42)
É óbvio que Calvino e o movimento que ele começou não foram perfeitos e a
história está aí para comprovar isso, mas a sua mensagem ainda é relevante
hoje. Seu amor a Deus e à sua Palavra também deve ser o nosso. Seu zelo
vindo da Reforma e o mandato missionário que se seguiu ainda permanecem
como desafio para as igrejas reformadas de hoje.
English Abstract
The main purpose of this article is to answer the charge usually made by
some missiologists that John Calvin had no missionary awareness. In the first
part, Barro attempts to refute the evidence brought by some authors,
especially the historian Gustav Warneck. One is that Calvin did not write
anything about missions. Other, that his theology produced a paralyzing
effect because of its emphasis on God’s sovereignty. Still other, that the
reformer did not follow consistently the missionary implication of his
theology. Barro shows that some of these charges are prejudiced or
represent a distortion of Calvin’s thought and actions. In favor of Calvin’s
missionary concern, he argues from Calvin’s letters and commentaries,
where samples of the reformer’s awareness are clearly stated. Then he goes
on to give some historical evidence of that awareness, such as the role of
Calvin’s Geneva Academy in preparing pastors and missionaries to supply
workers for distant places. Other evidence brought by Barro is Calvin’s
influence throughout Europe and his participation in the Brazilian missionary
enterprise in 1555. His conclusion is that Warneck and his followers cannot
deny the importance of Calvin’s theology and practice for the Church’s
missionary enterprise.
____________________
1 W. Stanford Reid, "Calvin’s Geneva: A Missionary Centre," The Reformed Theological Review 42:3
(1983), 65. Minha tradução.
2 Stephen Neil, História das Missões (São Paulo: Vida Nova, 1989), 226.
3 Samuel M. Zwemer, "Calvinism and the Missionary Enterprise," Theology Today 7:2 (1950), 206.
4 Gustav Warneck, Outline of a History of Protestant Missions (Nova York: Fleming H. Revell, (1901), 9.
Minha tradução.
5 William R. Hogg, "The Rise of the Protestant Missionary Concern, 1517-1914," em The Theology of
the Christian Mission, ed. G. H. Anderson (Nova York: McGraw Hill, 1961), 95. Minha tradução.
6 Frank H. Littel, "The Free Church View of Missions," em The Theology of the Christian Mission, ed. G.
H. Anderson (Nova York: McGraw Hill, 1961), 99. Minha tradução.
7 Ibid. Minha tradução.
8 Ralph D. Winter, "The Kingdom Strikes Back: The Ten Epochs of Redemptive History," em
Perspectives on the World Christian Movement, eds. Ralph D. Winter e Steven C. Hawthorne
(Pasadena: William Carey Library, 1981), 153. Minha tradução.
9 Kenneth S. Latourette, History of the Expansion of Christianity, Vol. III (Nova York: Harper and Row,
1939), 26. Minha tradução.
10 Ibid., 27. Minha tradução.
11 G. Baez-Camargo, "The Earliest Protestant Missionary Venture in Latin America," Church History
21:2 (Junho 1952), 138. Minha tradução.
12 David J. Bosch, Witness to the World (Atlanta: John Knox, 1980), 116-117. Minha tradução.
13 Justo L. González, Uma História Ilustrada do Cristianismo, 10 vols. (São Paulo: Vida Nova, 1980-
1996).
13 Donald A. McGavran, Understanding Church Growth (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 24.
14 Ibid., 23. Minha tradução.
15 Zwemer, "Calvinism and the Missionary Enterprise," 207. Minha tradução.
16 Jules Bonnet, ed., Letters of John Calvin, [Link] (Nova York: Lenox Hill, 1972), 130. Minha tradução.
17 Ibid., 254-255. Minha tradução.
18 Ibid., Vol. III, 313-314. Minha tradução.
19 Ralph D. Winter, "The New Macedonia: A Revolutionary New Era in Mission Begins," em
Perspectives on the World Christian Movement, eds. Ralph D. Winter e Steven C. Hawthorne
(Pasadena: William Carey Library, 1981), 299.
20 João Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists Matthew, Mark, and Luke, Vol. III
(Grand Rapids: Baker, 1979), 384. Minha tradução.
21 João Calvino, Commentary on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon (Grand Rapids: Baker,
1979), 54-55. Minha tradução.
22 James MacKinnon, Calvin and the Reformation (Londres: Penguin Books, 1936), 195. Minha
tradução.
23 Charles Raynal, "The Place of the Academy in Calvin’s Politics," em Colloquium in Calvin Studies II,
eds. John H. Leith e Charles Raynal (Davidson, North Carolina, 1984), 101. Minha tradução.
24 Reid, "Calvin’s Geneva," 67. Minha tradução.
25 Mackinnon, Calvin and the Reformation, 196.
26 Reid, "Calvin’s Geneva," 66. Minha tradução.
27 Lestringant é de opinião que Calvino e os seus seguidores amputaram o sul da Europa como campo
de disseminação das suas idéias por ser idólatra e papista. Frank Lestringant, "Geneva and America in
the Renaissance: The Dream of the Huguenot Refuge 1555-1600," Sixteenth Century Journal 26:2
(1995), 289.
28 J. D. Douglas, "Calvinism’s Contribution to Scotland," em John Calvin: His Influence in the Western
World, ed. W. Stanford Reid (Grand Rapids: Zondervan, 1982), 219.
29 Philip E. Hughes, "Calvin and the Church in England," em Reid, John Calvin, 201. Minha tradução.
30 Kalman D. Toth, "The Helvetic Reformation in Hungary," em Reid, John Calvin, 167-68. Minha
tradução.
31 W. Robert Godfrey, "Calvin and Calvinism in the Netherlands," em Reid, John Calvin, 98. Minha
tradução.
32 Mackinnon, Calvin and the Reformation, 203.
33 Reid, "Calvin’s Geneva," 33. Minha tradução.
34 R. Pierce Beaver, "The Genevan Mission to Brazil," The Reformed Journal (Julho-Agosto 1967).
35 Amy Glassner Gordon, "The First Protestant Missionary Effort: Why Did it Fail?" International Bulletin
of Missionary Resarch 8 (Janeiro 1984), 12-18.
36 Ibid., 12.
37 Beaver, "The Genevan Mission to Brazil," 16. Minha tradução.
38 Ibid., 20. Minha tradução.
39 Gordon, "First Missionary Effort," 17. Minha tradução.
40 Uma posição contrária a esse empreendimento vem de John McGrath, quando afirma que "Crespin
e Léry, e aqueles autores que os seguiram, foram motivados por um desejo de glorificar a causa
calvinista. E enquanto o faziam eles tomaram a oportunidade de destruir a reputação de um indivíduo
[Villegaignon] que havia rejeitado sua teologia e que mais tarde lutou contra seu partido durante a
Guerra da Religião." "Polemic and History in French Brazil, 1555-1560," Sixteenth Century Journal 27:2
(1996), 396. Para McGrath é impossível detectar qualquer propósito religioso na missão de 1555 (p.
390), e o verdadeiro propósito da viagem foi a construção de um forte na Baía da Guanabara para
facilitar o comércio francês e seus interesses estratégicos no Brasil (p. 391). Para o historiador Frank
Lestringant o motivo da expedição ao Brasil foi imitar a Europa e implantar um centro de refúgio para
os huguenotes no Brasil. Ibid., 289.
41 J. van den Berg, "Calvin’s Missionary Message: Some Remarks About the Relation Between
Calvinism and Missions," The Evangelical Quarterly 22:1 (1959) 172. Minha tradução.
42 Zwemer, "Calvinism and the Missionary Enterprise," 214-15. Minha tradução.

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