Destaque Rural Nº 350
12 de Novembro de 2025
INFRA-ESTRUTURAS AGRÍCOLAS EM 50 ANOS
DE INDEPENDÊNCIA: MOBILIDADE, PRODUÇÃO
E TRANSFORMAÇÕES NO ESPAÇO RURAL
MOÇAMBICANO
Yasser Arafat Dadá1
1. INTRODUÇÃO
Em 1975, o governo herdou infra-estruturas agrícolas limitadas e desiguais, orientadas
principalmente para atender aos interesses coloniais. Nos anos seguintes, adoptou-se um
modelo de economia planificada: a terra e empresas foram nacionalizadas e o Estado
assumiu um papel central na provisão de serviços e insumos agrícolas. Contudo, a guerra
civil (1977–1992) causou destruição de estradas, pontes, sistemas de irrigação e outras infra-
estruturas. Após a guerra, há cerca de 25 anos, Moçambique encontrava-se entre os países
mais pobres do mundo; a reconstrução exigiu investimentos em infra-estruturas básicas e
reformas económicas. A transição para uma economia de mercado nos anos 1990, trouxe a
liberalização da comercialização agrícola, o desmantelamento ou reforma de órgãos estatais
e a entrada de actores privados.
Cinco décadas após a independência, é importante analisar a evolução das infra-estruturas
agrícolas entre 1975 e 2025, com foco em estradas, irrigação e armazenamento. Utilizamos
uma abordagem histórica, recorrendo a dados empíricos de fontes secundárias.
A introdução apresentou o contexto e a relevância do tema. Em seguida, no enquadramento
teórico, discutem-se perspectivas sobre o papel das infra-estruturas no desenvolvimento
rural. Subsequentemente, as secções analíticas examinam separadamente: estradas vicinais,
sistemas de irrigação e armazenamento. Por fim, nas considerações finais, sumarizam-se os
principais achados e são delineadas recomendações de políticas públicas direccionadas a
actores governamentais, privados e não-estatais.
1
Economista e Mestre em Desenvolvimento e Cooperação Internacional pela Universidade de Lisboa. Doutor em
Estudos de Desenvolvimento. Director e Pesquisador do OMR.
1
2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
O desenvolvimento rural está intrinsecamente ligado à expansão e melhoria das infra-
estruturas básicas, como estradas, sistemas de transporte, irrigação e electrificação2. Estas
infra-estruturas são consideradas catalisadores do crescimento agrícola e da inclusão
produtiva, pois facilitam o acesso a insumos, serviços e mercados, aumentando, assim, a
produtividade agrícola. Por exemplo, a expansão de estradas e vias-férreas em economias
agrárias permitiu integrar produtores anteriormente isolados em cadeias de valor mais
amplas, possibilitando-lhes escoar excedentes agrícolas e obter retornos monetários3.
Estudos empíricos demonstram que os investimentos em estradas rurais tendem a reduzir
os custos de transporte, diminuir a perda pós-colheita e elevar os rendimentos recebidos
pelos agricultores, além de aproximar as comunidades rurais de escolas, clínicas e outros
serviços essenciais4.
A disponibilidade e qualidade de infra-estruturas agrícolas são, portanto, vistas como
condicionantes estruturais da transformação rural. A falta ou precariedade de estradas,
irrigação e armazéns, constitui um entrave multidimensional: isola comunidades, aumenta
custos de transacção, limita a inovação agrícola e perpetua baixas produtividades e
rendimentos. É à luz dessas premissas teóricas que, nas secções seguintes, analisamos a
trajectória das infra-estruturas ao longo dos últimos 50 anos.
3. ESTRADAS VICINAIS E MOBILIDADE RURAL
Em 1975, à data da independência, Moçambique dispunha de cerca de 3.200 km de estradas
asfaltadas e 5.800 km de estradas de terra batida, concentradas em corredores estratégicos
que ligam centros urbanos, portos e zonas de produção agro-comercial de interesse
colonial5. As zonas rurais permaneciam praticamente isoladas6.
Nos primeiros anos pós-independência, a extensão da rede de estradas e "caminhos de
acesso" nas zonas rurais, fez-se por mobilização comunitária e brigadas de construção,
coerentes com a filosofia de desenvolvimento rural socialista da época (MHN, 2021).
Contudo, a guerra civil teve efeitos negativos: pontes foram dinamitadas, estradas
2
Ahmed, R., e Hossain, M. (1990). Developmental impact of rural infrastructure in Bangladesh. International Food
Policy Research Institute.
3
World Bank. (2021). Mozambique Economic Update: Getting Agricultural Support Right. World Bank Group.
4
Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO). (2022). National Investment Plan for the
Agrarian Sector 2022–2026 (PNISA II). FAOLEX.
5
Mozambique History Net (MHN) (2021). Transport - MHN: Roads.
6
Pode consultar o Mapa actual das estradas de Moçambique em
[Link]
6&utm_.com e o Mapa de 1983 em [Link]
2
secundárias tornaram-se intransitáveis devido à falta de manutenção e à colocação de minas
terrestres. Consequentemente, nos anos 1990, grande parte das estradas vicinais
encontrava-se degradada ou destruída, aumentando os tempos e custos de transporte.
Com a paz, em 1992, a reconstrução permitiu a reabertura de estradas rodoviárias
estratégicas7. Durante as décadas de 1990 e 2000, as estradas vicinais foram gradualmente
reabilitadas ou melhoradas, especialmente em áreas agrícolas de elevado potencial nas
províncias do norte e centro, como Nampula, Zambézia e Tete. Reconhecendo o seu papel
no escoamento da produção familiar.
Apesar desses avanços, os desafios de manutenção e a extensão territorial do país
dificultaram ganhos generalizados. Estimativas indicam que, mesmo após os investimentos,
só uma pequena proporção da população rural vive a curta distância (2 km) de uma estrada
transitável em todas as estações do ano. De facto, os mercados permanecem inacessíveis
para muitos pequenos agricultores devido às deficientes ligações viárias8. Em épocas
chuvosas, as vias de terra batida tornam-se difícil de transitar, dificultando/impossibilitando
o transporte de produtos perecíveis, acesso a fertilizantes e outros insumos e a venda da
produção9.
A escassez de estradas operacionais impacta negativamente nos preços agrícolas e na
rentabilidade das actividades rurais. Os agricultores isolados geograficamente tendem a
receber preços muito baixos pelos seus produtos à "porta da machamba". A falta de estradas
não é meramente um problema logístico, mas um entrave estrutural à comercialização e à
melhoria das condições de vida no campo10.
Importa salientar que, nos últimos anos, iniciativas específicas têm procurado mitigar este
problema. Por exemplo, o programa SUSTENTA, lançado em 2017, inclui componentes
robustas de investimento em infra-estruturas rurais, prevendo a reabilitação de estradas
vicinais críticas e a construção de pontes estratégicas para assegurar ligações Norte-Sul
permanentes11. Os desafios persistem: cerca de 31% da rede rodoviária é considerada
intransitável devido à sua precariedade12.
7
World Bank. (2005). Mozambique - Rural Rehabilitation Project.
8
World Bank. (2016). Measuring Rural Access: Using New Technologies.
9
Dadá, Yasser Arafat (2018). Estradas rurais em Moçambique. Destaque Rural. Observatório do Meio Rural, 36.
10
Um estudo do FMI ressalta que os défices de infra-estruturas, incluindo estradas rurais, comprimem os preços
recebidos pelos produtores e encarecem os bens de consumo nas zonas agrícolas. International Monetary Fund.
(1997). Mozambique: Economic Rehabilitation and the Poor. IMF.
11
World Bank. (2019). Mozambique - Additional Financing to the Agriculture and Natural Resources Landscapes
Management Project (SUSTENTA).
12
Agência de Informação de Moçambique. (2023). ANE precisa de 620 milhões de meticais para manutenção da
rede viária este ano.
3
4. SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO AGRÍCOLA
De acordo com o Programa Nacional de Irrigação (PNI), elaborado pelo Instituto Nacional
de Irrigação (INIR), Moçambique dispõe de cerca de 181.184 hectares infra-estruturados
para irrigação. No entanto, apenas aproximadamente 90.000 hectares estão efectivamente
em uso, o que corresponde a uma taxa de operacionalidade em torno dos 50%13.
Considerando o potencial nacional estimado em 3 milhões de hectares, a área actualmente
irrigada representa menos de 5% do total possível14 — revelando não só uma subutilização
do potencial hídrico do país, mas também fragilidades na manutenção e funcionamento dos
sistemas instalados.
Durante o período colonial, foram estabelecidos vários perímetros de irrigação, destacando-
se o Regadio do Chókwè, em Gaza, com cerca de 30.000 ha, tornando-se o maior sistema
de regadio do país15. Outros projectos menores também foram implementados em fábricas
de açúcar, como Marromeu e Mafambisse, e em plantações de arroz e hortícolas. No
entanto, até 1975, a área irrigada efectivamente beneficiava principalmente culturas
comerciais e empreendimentos estatais emergentes (World Bank, 2019a).
Após a independência, foram criadas empresas estatais, como a SIREMO (Sistema de
Regadio Eduardo Mondlane) para gerir os principais perímetros e incentivar a criação de
sistemas de irrigação em cooperativas e aldeias comunais. Entretanto, a guerra civil (1977-
1992) prejudicou este sector: muitos canais de irrigação foram abandonados ou destruídos,
bombas e estações de bombagem pararam por falta de manutenção ou sabotagem, e os
agricultores abandonaram as zonas de conflito (World Bank, 2019a). As cheias de 2000
agravaram a situação, destruindo diques e canais no Chókwè e Xai-Xai16.
A partir do final dos anos 1990, iniciou-se uma recuperação gradual. Houve progressos
visíveis em Chókwè e no perímetro do Baixo Limpopo (Xai-Xai), onde se restauraram canais,
estradas de acesso interno e sistemas de drenagem, permitindo retomar a produção de
arroz, hortícolas e cana-de-açúcar (World Bank, 2019a). Simultaneamente, incentivou-se a
instalação de bombas de água de pequena escala junto a rios e furos, para uso em hortas
familiares, especialmente em Nampula, Zambézia e Manica (World Bank, 2019a).
13
Instituto Nacional de Irrigação – INIR. (2016). Programa Nacional de Irrigação – PNI (versão resumida).
Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar.
14
World Bank. (2019a). In Mozambique, World Bank helps rehabilitate a vital infrastructure ensuring all-season
irrigation. World Bank Blogs.
15
Veldwisch, G. J., Beekman, W., e Bolding, A. (2013). Smallholder irrigators, water rights and investments in
agriculture: Three cases from rural Mozambique. Water Alternatives, 6(1), 125–141.
16
World Bank. (2019b). Climate-Smart Agriculture in Mozambique. World Bank Group.
4
Ainda assim, o aproveitamento do potencial de irrigação permanece modesto. Estudos
recentes indicam que apenas cerca de 90.000 ha têm um sistema de irrigação, de um
potencial estimado em 3 milhões de ha17. Mesmo nas áreas com sistemas de irrigação
implantados, há frequentes desafios de operacionalidade – muitos sistemas funcionam
abaixo da capacidade por falta de manutenção adequada, sedimentação de canais, custo da
electricidade ou avarias em bombas. A título de exemplo, o Regadio do Búzi, apesar de
reabilitado, nem sempre consegue irrigar toda a sua área devido a problemas de gestão da
água e recursos financeiros limitados dos agricultores para custear o serviço de água18.
Noutras regiões, pequenos regadios construídos por projetos-piloto acabaram por ficar
ociosos após o término dos projectos e retirado dos financiadores (World Bank, 2019).
A maioria dos cerca de 4 milhões de pequenos produtores permanece dependente das
chuvas, o que resulta em flutuações acentuadas de produção de ano para ano conforme o
clima. No corredor do Limpopo – zona particularmente propensa tanto a secas como a
cheias – a ausência de sistemas de irrigação resilientes tem perpetuado situações de
insegurança alimentar. Já no Vale do Zambeze, os riscos estão mais associados à ocorrência
de cheias periódicas, que afectam as infra-estruturas agrícolas e comprometem as colheitas..
Por outro lado, onde bem implementada, a irrigação mostrou impactos positivos: aqueles
com acesso à irrigação conseguem produzir durante a estação seca (ex.: hortícolas em zonas
peri-urbanas de Nampula e Maputo), gerar rendimento extra e abastecer mercados locais
de forma contínua (World Bank, 2019b).
Nos últimos anos, têm emergido parcerias público-privadas para reabilitar e gerir sistemas
de irrigação (por exemplo, envolvimento de empresas da China no regadio de Mopeia e no
Chókwè) (World Bank, 2019b). Adicionalmente, soluções de micro-irrigação e tecnologias
acessíveis – como sistemas de rega gota-a-gota de baixo custo, bombagem por energia
solar e técnicas tradicionais de retenção de água – são promovidas por ONGs e programas
de cooperação, visando beneficiar pequenos produtores (World Bank, 2019b).
5. INFRA-ESTRUTURAS DE ARMAZENAMENTO
Durante o período colonial, o escoamento da produção estava relativamente bem
estruturado para certas culturas de exportação, como algodão, sisal, chá e caju, com a
existência de armazéns nos centros de produção e infra-estruturas portuárias. Já no caso
dos alimentos básicos, como o milho, a mapira e o feijão, a cadeia de comercialização
17
Chilundo, M. (2017). More efficient irrigation and fertilizer management in Mozambique. Swedish University of
Agricultural Sciences.
18
Dadá, Yasser Arafat, Nova, Y., e Mussá, C. (2019). Investimento público na agricultura: O caso dos centros de
prestação de serviços agrários; complexo de silos da bolsa de mercadorias de Moçambique e dos regadios.
Observador rural. Observatório do Meio Rural, 81.
5
revelava um menor grau de desenvolvimento, reflectindo as prioridades da época, centradas
sobretudo nas culturas orientadas para o mercado externo19.. Com a independência, o
Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) continuou responsável pela compra e venda de
cereais e outros produtos alimentares. Durante o final dos anos 1970 e início dos anos 80, o
ICM, em conjunto com cooperativas e empresas estatais, operou uma rede de centros de
recepção de produtos agrícolas, garantindo mercado para os excedentes e abastecer as
cidades a preços controlados. Neste contexto, foram construídas de raiz infra-estruturas de
armazenamento, como Gurué (Zambézia), Angónia (Tete), Malema (Nampula) e Montepuez
(Cabo Delgado) (Coughlin, 200620; Almeida, 201921). Em simultâneo, o ICM procedeu à
adaptação e reabilitação de instalações herdadas do período colonial, como os armazéns de
Cuamba, Mocuba e Nacala, originalmente vocacionados para o escoamento de culturas de
exportação como o chá, o algodão e o sisal22.
Entretanto, nos anos 80, dificuldades económicas e a guerra civil colapsaram grande parte
desse sistema. Com as reformas de mercado dos anos 90, o papel do ICM e de outras
empresas estatais de comercialização foi reduzido. A liberalização entre 1987 e 1994 abriu
formalmente espaço para comerciantes privados operarem nas zonas rurais; no entanto,
esse espaço nem sempre foi imediatamente ocupado. O contexto de insegurança, a
fragilidade institucional e a ausência de operadores organizados fizeram com que, na
prática, a função de escoamento da produção ficasse em aberto por um período. Já no pós-
guerra, vários programas procuraram apoiar o regresso de operadores privados ao comércio
rural, nomeadamente através do incentivo ao modelo de “cantineiro”, mas a resposta foi
limitada. Muitos dos beneficiários não tinham experiência directa ou motivação comercial,
o que dificultou a consolidação de uma rede comercial eficiente.. Em 1996, o ICM foi
reestruturado e deixou de intervir directamente na compra de produtos, focando-se mais
em regulação estratégica e manutenção de reservas alimentares (Coughlin, 2006).
Nas últimas duas décadas, a evolução tem sido mista. Por um lado, investidores privados e
algumas cooperativas/associações renovaram ou construíram infra-estruturas de
armazenamento ligadas a cadeias específicas de valor. Por exemplo, empresas de castanha
de caju reabilitaram armazéns nas zonas de produção para compra em volume;
estabelecimento de silos e depósitos em alguns distritos excedentários de milho, como
Angónia e Malema; a construção e reabilitação de complexos de silos em regiões com
19
Alves, V. E. L. (2011). A questão agrária brasileira e moçambicana: semelhanças e diferenciações. GEOUSP –
Espaço e Tempo, (29), 57–74.
20
Coughlin, P. (2006). Agricultural intensification Mozambique, infrastructure policy and institutional framework:
when do problems signal opportunities? EconPolicy Research Group
21
Almeida, A. D. N. (2019). Comércio internacional e o crescimento económico de Moçambique: o caso do
subsector dos cereais (Dissertação de Mestrado). Universidade de Évora.
22
World Bank. (1992). Mozambique: Agricultural Sector Memorandum. Washington, DC: World Bank.
6
potencial agroecológico23. Por outro lado, a maioria dos pequenos agricultores continua
sem acesso a estruturas adequadas para guardar a sua produção após a colheita. Estima-se
que perdas pós-colheita persistem – frequentemente citadas na ordem de 20–30% da
produção de cereais e hortícolas – devido a armazenamento inadequado, ataque de pragas
e deterioração, sobretudo entre a colheita e a comercialização (Popat et al., 2020 FAO,
2021)24.
Sem silos ou armazéns seguros, os agricultores são frequentemente obrigados a vender logo
após a colheita, quando os preços estão mais baixos, ou arriscam-se a ver os seus produtos
estragar-se. Isso contribui para a clássica situação do “paradoxo da colheita farta” – preços
baixos na colheita por excesso momentâneo de oferta local, mas que sobem
acentuadamente no período seguinte. Além disso, a falta de selecção e padronização nos
locais de origem, devido à ausência de infra-estruturas de triagem, limpeza e embalagem,
reduz a qualidade e competitividade dos produtos nos mercados (Popat et al., 2020).
No que toca à estrutura de mercados e escoamento, a cadeia de comercialização agrícola
moçambicana hoje assenta numa multiplicidade de actores privados de diferentes escalas.
Existem grandes empresas e exportadores, como multinacionais comprando algodão,
tabaco e açúcar, ou trading companies exportando feijão bóer e gergelim. Contudo, para os
alimentos básicos do consumo interno, como milho, feijão e mandioca, o grosso do
comércio é feito por pequenos intermediários. A ausência de cooperativas fortes de
comercialização – apesar de tentativas de revigorá-las – e de sistemas de out grower deixa
os pequenos produtores numa posição de fraca organização colectiva. Alguns programas
de ONG e agências de desenvolvimento têm incentivado ligações directas entre produtores
e mercados institucionais, principalmente para hortícolas, como compras governamentais
para lanche escolar ou ligações com supermercados nacionais, mas estas iniciativas ainda
têm alcance limitado25. Programas como o Programa Mundial de Alimentação (PMA), como
o Purchase for Progress, introduziram armazéns comunitários e treinaram associações de
23
Os complexos de silos geridos pela BMM incluem unidades em Nhamatanda, Gorongosa, Lichinga, Mugema,
Ulónguè, Malema, Iapala e Cuamba, com capacidades variando entre 1.500 e 3.000 toneladas. Em Nhamatanda,
por exemplo, apenas os armazéns estavam em funcionamento até 2017, com os silos permanecendo inactivos
desde a sua inauguração em 2015. Problemas técnicos, como falhas na ventilação, manutenção deficiente e
sistemas de gestão de stock inoperacionais, foram identificados como obstáculos à plena utilização das infra-
estruturas. Veja por exemplo Dadá e Dilma (2017). Bolsa Mercadorias Moçambique (BMM): Objectivos e
Realidades. Destaque rural nº 23. Observatório do Meio Rural. Ou Dadá et. al (2017). Investimento público na
agricultura: o caso dos centros de prestação de serviços agrários; complexo de silos da bolsa de mercadorias de
moçambique e dos regadios. Observador Rural nº 81. Observatório do Meio Rural
24
Popat, M., et al. (2020). Postharvest losses at the farm level and its economy-wide costs: The case of the maize
sector in Mozambique. Journal of Agricultural Economics, 71(1), 1-15.
FAO. (2021). Post-harvest loss in Mozambique - Estimating maize loss in Manica and Zambezia provinces.
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
25
Benfica, R., Boughton, D., Mouzinho, B., e Uaiene, R. (2017). Food crop marketing and agricultural productivity
in a high price environment: evidence and implications for Mozambique. Food Security, 9(4), 1-16.
7
agricultores em gestão de stock e agregação de produtos. Também se têm criado feiras
rurais e mercados locais reabilitados, oferecendo espaços físicos para a troca comercial
regular em distritos rurais.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo dos 50 anos de independência, os progressos alcançados ficaram aquém das
necessidades de um sector agrícola maioritariamente de subsistência que ambiciona evoluir
para uma base mais produtiva e orientada para o mercado. O meio rural é fortemente
limitado por défices infra-estruturais estruturais. Grande parte da rede de estradas
secundárias continua em estado precário. A área com sistema de irrigação é exígua face ao
potencial hídrico e às necessidades de estabilização da produção perante secas e cheias
cíclicas. Por conseguinte, a agricultura permanece vulnerável às oscilações climáticas. As
infra-estruturas de armazenamento não evoluíram ao ritmo do aumento populacional, de
explorações agrícolas e da produção, resultando em persistentes perdas pós-colheita e em
dificuldades para garantir a qualidade e oferta continua de produtos alimentares.
Importa ressaltar que estas infra-estruturas estão interligadas e formam, em conjunto, o
ecossistema de suporte ao desenvolvimento rural. Por exemplo, a construção de um regadio
não surtirá efeito se não houver estradas para escoar a colheita. Portanto, a experiência dos
últimos 50 anos reforça a lição de que é necessária uma abordagem integrada de
desenvolvimento de infra-estruturas agrícolas.
Outro aspecto evidente é a influência do contexto político e económico na evolução das
infra-estruturas. O período socialista centralizado construiu certos activos (por exemplo,
armazéns, frotas de camiões, algumas estradas de penetração) mas não conseguiu mantê-
los operacionais; a abertura para mercados, atraiu capital privado, mas também deixou áreas
e comunidades menos comerciais desprovidas de apoio. Actualmente, o desafio é combinar
o melhor de ambos: promover o investimento privado e gestão eficiente, sem abdicar do
papel do Estado em garantir que infra-estruturas e serviços públicos essenciais sejam
providos adequadamente onde o mercado, por si só, não o faz.
Em suma, decorridos 50 anos, a evolução das infra-estruturas não foi suficiente para
desencadear a transformação estrutural da agricultura familiar. Persistem gaps de
acessibilidade, irrigação e apoio institucional. Assim, propõem-se as seguintes
recomendações de políticas e acções, dirigidas aos diferentes actores envolvidos no
desenvolvimento rural em Moçambique:
8
● Instituições públicas: priorizar investimentos em infra-estruturas rurais básicas,
alocando recursos orçamentais e mobilizando financiamento externo para
reabilitação e manutenção contínua de estradas vicinais, pontes rurais e sistemas de
irrigação existentes. É recomendável institucionalizar mecanismos de manutenção
comunitária de estradas (por exemplo, brigadas locais remuneradas) para assegurar
a transitabilidade permanente. No campo da irrigação, desenvolver parcerias
público-privadas para expandir áreas irrigadas, sobretudo pequenos sistemas
geridos por associações, fornecendo treino em manutenção e gestão de água. Em
termos de comercialização, é crucial revitalizar o papel regulador e facilitador do ICM
para apoiar a criação de centros de comercialização rural, leilões agrícolas e feiras
sazonais que aproximem vendedores e compradores. Por fim, o governo deve
reforçar a coordenação intersectorial – envolvendo os ministérios das obras públicas
(estradas) e agricultura (irrigação earmazenagem) – para implementação integrada
das acções no meio rural.
● Sector Privado: recomenda-se que empreendimentos agrícolas de grande e médio
porte invistam em formas de inclusão de pequenos produtores, provendo-lhes
insumos, assistência técnica e garantia de compra – isto requer que as empresas
colaborem na implementação de pequenas irrigações e armazéns locais, integrando
camponeses na sua cadeia de valor. O sector privado deve investir em
processamento pós-colheita próximo das zonas produtoras: por exemplo, fábricas
de processamento (farinhas, óleos, sumos) que agreguem valor às matérias-primas
locais e reduzam perdas. Os operadores grossistas e redes de supermercados no país
são encorajados a desenvolver cadeias de abastecimento inclusivas, indo além das
cidades e estabelecendo centros de compra no campo ou contratos com associações
de produtores, o que demandará melhorias conjuntas em transporte e comunicação.
Em suma, o sector privado deve reconhecer que o seu envolvimento directo trará
ganhos mútuos.
● Actores não-estatais (sociedade civil, ONG e parceiros de desenvolvimento):
Recomenda-se que intensifiquem programas de formação em gestão e manutenção
de infra-estruturas rurais pelos próprios utilizadores – por exemplo, associações de
pequenos produtores do regadio – promovendo senso de propriedade comunitária
e sustentabilidade. Essas entidades podem também actuar como ponte entre
comunidades e autoridades, ajudando-as a identificar prioridades locais de
investimento e monitorar a execução de obras públicas, garantindo transparência e
qualidade. Os parceiros internacionais de desenvolvimento devem alinhar os seus
programas de apoio com as áreas críticas identificadas: por exemplo, financiar
projectos integrados que, num mesmo território, conjuguem estradas e irrigação em
vez de intervenções isoladas. Podem auxiliar na transferência de tecnologia – como
modelos de irrigação de baixo custo, sistemas de energia solar para bombagem.
Ademais, podem apoiar a criação de sistemas de monitoria e avaliação para infra-
estruturas, a fim de acompanhar o desempenho e informar ajustes nas políticas.
9
● Em nível macro, devem continuar a advogar por políticas inclusivas que assegurem
que regiões mais marginalizadas não sejam esquecidas nos planos de investimento.
Em conclusão, as recomendações acima exigem liderança, coordenação e persistência. O
Governo, como guia do interesse público, deve orquestrar estas iniciativas e garantir um
ambiente propício (políticas estáveis, incentivos adequados); o sector privado, mobilizando
capital e eficiência; e a sociedade civil, assegurando inclusão e responsabilização. Com
esforços convergentes, é possível que na próxima década Moçambique se assista a um salto
qualitativo nas condições de mobilidade, produção e comercialização.
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Maputo – Moçambique
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