0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações17 páginas

Política Comercial e Exportações no Brasil XIX

O artigo analisa a divergência no desempenho das exportações de café e açúcar do Brasil no século XIX, destacando que a política comercial estratégica europeia favoreceu o café, enquanto o açúcar enfrentou barreiras tarifárias e subsídios à produção de beterraba. O café se beneficiou de condições de mercado mais favoráveis, resultando em sua ascensão no mercado mundial, enquanto o açúcar estagnou e entrou em crise. O autor argumenta que a diferença nas políticas comerciais e nas condições de demanda foram determinantes para o sucesso do café e o fracasso do açúcar.

Enviado por

joaozangrandii
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações17 páginas

Política Comercial e Exportações no Brasil XIX

O artigo analisa a divergência no desempenho das exportações de café e açúcar do Brasil no século XIX, destacando que a política comercial estratégica europeia favoreceu o café, enquanto o açúcar enfrentou barreiras tarifárias e subsídios à produção de beterraba. O café se beneficiou de condições de mercado mais favoráveis, resultando em sua ascensão no mercado mundial, enquanto o açúcar estagnou e entrou em crise. O autor argumenta que a diferença nas políticas comerciais e nas condições de demanda foram determinantes para o sucesso do café e o fracasso do açúcar.

Enviado por

joaozangrandii
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Tutorial - Política Comercial e Crescimento da

Exportação no Séulo XIX


Guilherme Coutinho
29 de outubro de 2025

Parte I
Política Comercial Estratégica
Europeia e Crescimento das
Exportações Brasileiras Durante o
Século XIX
Resumo
Até o boom da borracha na Amazônia, a cana-de-açúcar e o café eram
os dois produtos de exportação mais importantes do Brasil durante o século
XIX. Apesar das diferenças inerentes nos métodos de cultivo, tanto o açúcar
quanto o café se beneficiaram e sofreram com as características da dotação
de fatores do Brasil em terra, trabalho e capital. No entanto, esses dois
produtos de exportação demonstraram padrões de crescimento divergentes
ao longo do século XIX. A diferença não era na produtividade relativa e,
portanto, na desvantagem da competitividade de preços, mas na natureza
imperfeitamente competitiva do mercado internacional para cada mercado-
ria. Os governos europeus praticavam ativamente uma política comercial
estratégica para transferir lucros de empresas estrangeiras para empresas
domésticas ou coloniais. Essas distorções de mercado eram exógenas, im-
postas pelos mercados consumidores, e tomaram a forma de preferências ta-
rifárias coloniais europeias e subsídios à produção doméstica. O café sofreu
menos com a concorrência imperfeita, permanecendo mais lucrativo para os
produtores agrícolas brasileiros no longo prazo.

1
1 Introdução
Este artigo propõe uma questão central para o desempenho exportador e desenvol-
vimento econômico do Brasil no século XIX: por que a indústria de café brasileira
se expandiu até dominar o mercado mundial, enquanto o setor de açúcar, anteri-
ormente importante, estagnou e entrou em crise?
A resposta apresentada é que, enquanto o setor cafeeiro desfrutou de condições
próximas ao livre mercado em seus principais mercados consumidores durante a
maior parte do século, o açúcar brasileiro foi esmagado pela política comercial
estratégica implementada pelos seus principais parceiros comerciais europeus. Tal
política assumiu várias formas: esquemas de tarifas preferenciais que favoreciam
a produção colonial, subsídios e subvenções aos produtores domésticos europeus,
e imperialismo. Embora as condições do lado da oferta fossem importantes, foi a
política nos principais mercados consumidores que explica o momento da ascensão
do café e do declínio do açúcar de cana.
A ideia central da literatura sobre política comercial estratégica é que os gover-
nos podem intervir no mercado para transferir lucros e participação de mercado de
empresas estrangeiras para empresas domésticas. Tais estratégias podem incluir
subsídios à produção e exportação, tarifas de importação que favorecem exporta-
dores domésticos ou a indústria nascente, e subsídios à pesquisa e desenvolvimento.
Uma das premissas centrais desta literatura é que a natureza da concorrência nos
mercados internacionais de commodities é imperfeita, constituída por empresas
com poder monopolístico ou oligopolístico.
Historicamente, a política comercial estratégica tem sido uma característica
chave. O colonialismo foi a forma última de política comercial estratégica, sendo
por natureza discriminatório e baseado nos benefícios ao bem-estar imperial deri-
vados do monopólio de territórios e mercados. Nesse contexto, a política comercial
imperial concedia preferência às colônias, excluindo grande parte da concorrência
internacional, frequentemente em detrimento do consumidor doméstico. O mer-
cado britânico de açúcar de cana no século XIX é um exemplo clássico. Posterior-
mente, a política assumiu a forma de subsídios diretos e indiretos à produção de
substitutos de produtos tropicais nos mercados europeus. Países fora do âmbito
imperial, como o Brasil, sofreram com as externalidades negativas dessa prática.
O argumento central deste artigo é que os desempenhos divergentes de café
e açúcar de cana foram resultado dessa política comercial estratégica europeia.
Ela serviu para excluir o Brasil de mercados importantes de açúcar e deprimir o
preço internacional a um nível que retardou a expansão da indústria açucareira
brasileira.
Inicialmente, o açúcar brasileiro foi barrado da Grã-Bretanha por preferências
que favoreciam a produção de cana das Índias Ocidentais Britânicas. A emancipa-
ção dos escravos quebrou esse monopólio, e a crise de oferta associada pressionou

2
pela entrada de açúcar não colonial (Sugar Act de 1846). Contudo, os produtores
de beterraba da Europa continental também responderam, e o mercado logo foi
inundado por beterraba alemã pesadamente subsidiada, que derrubou os preços.
O café, por outro lado, não sofreu tal grau de discriminação. Após a abolição
da tarifa sobre o café em 1832, os produtores brasileiros desfrutaram de acesso
livre a um dos mercados de consumo de crescimento mais rápido do mundo: os
Estados Unidos. Assim, embora as barreiras do lado da oferta fossem consideráveis
para ambas as commodities, apenas as condições do lado da demanda explicam o
momento de expansão e declínio de cada indústria.

2 O desempenho das exportações brasileiras de café


e açúcar durante o século XIX
As trajetórias divergentes das duas commodities podem ser observadas na Figura
1.
[FIGURA 1: Quantum (Q), preço (P) e estimativas de custo unitário de pro-
dução de açúcar e café, Brasil, 1821-1913.]

3
No caso do açúcar, o rápido crescimento nas décadas pós-independência foi
interrompido pelo fechamento do tráfico transatlântico de escravos em 1850. O
crescimento retomou no final da década de 1860, atingiu seu pico em 1884, antes
de declinar rapidamente e virtualmente desaparecer da composição de exportações
do Brasil às vésperas da Primeira Guerra Mundial.
Para o café, o crescimento também foi rápido no período pós-independência até
meados do século, desacelerou dos anos 1850 até os anos 1880, antes de aumentar
dramaticamente na última década do século, resultando na crise de superprodução.
Esse desempenho comparativo reflete-se na composição das exportações e na
participação no mercado mundial. O açúcar caiu de 31% do valor das exportações
do Brasil em 1821-50 para 2% em 1890-1913, enquanto o café subiu de 35% para
60%. No mesmo período, a participação do açúcar de cana brasileiro no mercado
mundial caiu de 10% para 2%, e a do café subiu de 34% para 70%.
A rápida expansão do café e a contração do setor açucareiro sugerem uma
divergência nas taxas de lucratividade. A Figura 1 também exibe estimativas de
custo de produção. As estimativas para o açúcar indicam que o preço do açúcar
caiu definitivamente abaixo do custo de produção por volta de 1880. Os lucros,

4
medidos como a razão entre o preço de venda e o custo, já eram escassos desde
meados da década de 1840. O Brasil era um tomador de preços (price taker) no
mercado de açúcar.
Até a crise de 1890, o café, por outro lado, permaneceu um empreendimento
lucrativo. As estimativas de custo de produção mostram que a margem de lucro foi
considerável durante a maior parte do século. A posição do Brasil como principal
fornecedor mundial permitiu-lhe ocupar a posição de formador de preços (price
maker).
Em ambos os casos, as tendências de preços determinaram o nível relativo de
lucratividade. A questão que permanece é se a (in)capacidade de cada indústria
de se adaptar às tendências de preços se deveu à inflexibilidade do lado da oferta
ou às pressões do lado da demanda.

3 O lado da oferta da história


Contemporâneos, como Henrique Augusto Milet (1881), e grande parte da histori-
ografia culparam fatores do lado da oferta pela estagnação da produção de açúcar.
Milet argumentava que, para a imensa maioria dos senhores de engenho, os preços
obtidos nos grandes mercados consumidores não pagavam os gastos da produção.
Ele apontava: "Escassez de braços e de capitaes, falta de instrucção professional e
de credito, impostos exagerados e illogicos, carestia dos transportes".
A historiografia também levanta a escassez de trabalho e capital, custos de
transporte proibitivos, tributação excessiva, atraso cultural e institucional e au-
sência de inovação tecnológica. No entanto, o autor argumenta que nenhum desses
fatores serve como explicação convincente para o *momento* do desempenho di-
vergente do açúcar e do café.

3.1 Trabalho
Até a abolição em 1888, a produção de ambos dependia principalmente do tra-
balho escravo. O fechamento do tráfico na década de 1850 levou a um aumento
considerável no preço dos escravos. Muitos fazendeiros de açúcar, já com margens
apertadas, não tiveram escolha senão vender seus escravos para compradores no
sudeste.
O impacto da abolição diferiu. Em Pernambuco, os fazendeiros já haviam se
voltado para a exploração do trabalho livre pobre. Na Bahia, esse acesso não era
tão fácil, e a região sofreu mais. Em São Paulo, o trabalho imigrante (especialmente
italiano) serviu como um substituto, ainda que imperfeito, para o trabalho escravo
nas fazendas de café.

5
A diferença principal foi o contexto dos preços: a abolição atingiu a indústria
açucareira quando os preços já não remuneravam a produção, enquanto os preços
do café atingiam níveis elevados. A escassez de mão de obra e a redistribuição da
população escrava foram, portanto, sintomas do fraco desempenho do açúcar, não
suas causas.

3.2 Terra e Capital


A produção agrícola brasileira era extensiva em terra, mas o acesso era restringido
por altos custos de transporte. Embora ambos os setores tenham se expandido nas
décadas pós-independência, a introdução das ferrovias teve efeitos distintos. Os
fretes do café declinaram ao longo do período, mas para as plantações de açúcar,
os relatos contemporâneos sugerem que as taxas de frete continuaram a corroer as
margens de lucro, o que tinha mais a ver com a escassa margem de lucro do açúcar
do que com uma divergência no custo relativo do transporte.
Os impostos de exportação, embora altos, eram comparáveis para ambas as
commodities e também diminuíram ao longo do século. A taxa sobre o café no
Rio de Janeiro caiu de cerca de 22% em 1825 para 14% em 1890, enquanto sobre
o açúcar em Pernambuco caiu de 20% para 11% no mesmo período. Portanto, os
impostos não explicam a divergência.
Os custos de capital também eram altos e compartilhados entre os setores, com
taxas de juros frequentemente atingindo 10% a 15%. Isso levou ao surgimento
do "commissario"(fator), um intermediário que operava tanto na cadeia do café
quanto na do açúcar.

3.3 Inovação e Comparação com Cuba


Poder-se-ia argumentar que o declínio do açúcar foi um fracasso em inovar. Con-
tudo, a literatura tradicional sobre café também aponta a ausência de inovação.
Além disso, a indústria açucareira recebeu apoio do governo para se modernizar,
com garantias de taxas de juros para investimentos em "usinas"(Engenhos Cen-
trais), que atraíram investimento estrangeiro.
Frequentemente, o açúcar brasileiro é comparado desfavoravelmente ao "su-
cesso"de Cuba. As usinas cubanas beneficiavam-se de efeitos de escala, pois o solo
e a topografia no nordeste brasileiro dificultavam o desenvolvimento de grandes
fábricas. As plantações cubanas rendiam de 10 a 60 toneladas de cana por hec-
tare a mais que em Pernambuco. No entanto, esta análise ignora que tanto Cuba
quanto o Brasil viram suas participações nos mercados de açúcar britânico e ale-
mão diminuírem. Além disso, pintar Cuba como "sucesso"ignora o fato de que o
setor cafeeiro cubano desapareceu rapidamente do mercado internacional.

6
Uma explicação alternativa, a "Doença Holandesa"(onde a receita do café valo-
rizaria o mil-réis, prejudicando o açúcar), é mencionada. Contudo, o autor sugere
que essa hipótese confunde o crescimento do açúcar de beterraba e o declínio do
açúcar nordestino com a valorização do mil-réis no mesmo período.

4 O lado da demanda da história


O século XIX testemunhou uma rápida expansão no consumo de café e açúcar. A
Figura 2 detalha as tendências de consumo per capita.
[FIGURA 2: Consumo per-capita em libras (lbs) de café (acima) e açúcar de
cana não refinado (abaixo), mundo e vários países, 1820-1913.]

O açúcar era a cultura economicamente mais importante. Em 1913, o consumo


mundial per capita era de 22,2 lbs de açúcar, contra 1,3 lbs de café.
Os Estados Unidos lideraram o aumento no consumo de café. No açúcar, o
Reino Unido foi o principal consumidor de açúcar de cana não refinado até os anos

7
1870, mas diminuiu seu consumo em favor das variedades de beterraba. O mesmo
ocorreu na França e na Alemanha. O único país que não registrou declínio no
consumo de cana foi os Estados Unidos.
Esse crescimento da demanda, impulsionado pela preferência e renda, foi con-
tudo distorcido por outros fatores. Vários estudiosos argumentam que a tendência
geográfica no consumo foi distorcida pelo sistema europeu de preferências coloniais.
Na Grã-Bretanha, até a década de 1850, as exportações brasileiras estavam
sujeitas a um sistema tarifário que favorecia os produtos coloniais. O diferencial
entre a tarifa colonial e a estrangeira para o açúcar era da ordem de 163% durante
os anos 1830 e 1840, enquanto o do café caiu de 150% nos anos 1820 para 50% em
1844. A França tinha um sistema semelhante até os anos 1860.
Outros parceiros comerciais, no entanto, não praticavam esse sistema. Os Es-
tados Unidos não tiveram tratamento preferencial até 1875. O café desfrutou de
status "duty-free"(livre de impostos) a partir de 1832. Da mesma forma, a tarifa
alemã sobre o café era muito mais baixa. No entanto, as taxas sobre o açúcar
bruto na Alemanha eram consideravelmente mais altas, alinhadas com a proteção
concedida à nascente indústria de açúcar de beterraba.
Como observou Alexandre Góes em 1902, a crise do açúcar de cana, assim como
a do café, devia-se ao excesso de produção. Mas com uma diferença essencial: "a
crise do café proveio da superproducção brazileira.. no caso do assucar, a super-
producção tem um origen europea". A competitividade da beterraba, segundo
Góes, era "artificial", favorecida por governos com prêmios e subsídios.
A beterraba não ultrapassou a cana em produção até os anos 1870, mas sua
disseminação sinalizou o fim da produção de açúcar de cana como uma atividade
de exportação lucrativa. As distorções no mercado de açúcar eram muito diferentes
daquelas do regime comercial do café.

5 Rivalidade comercial internacional nos mercados


de café e açúcar
Uma inspeção dos parceiros comerciais do Brasil (Tabela 1) sugere uma razão para
o desempenho divergente.
[TABELA 1: Porcentagem de exportações de café e açúcar brasileiro para mer-
cados importadores e Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), marcos selecionados.]

8
As exportações de açúcar tornaram-se cada vez mais concentradas no mercado
britânico. O HHI (Índice Herfindahl-Hirschman) do açúcar aumentou de 0.13
em 1841/42 para 0.53 em 1913, indicando alta concentração. O café, por outro
lado, desfrutou de uma mistura mais diversificada de clientes; seu HHI exibiu
um V invertido, com um aumento inicial de concentração (nos EUA) seguido de
diversificação (HHI de 0.19 para 0.20 no mesmo período).

5.1 Análise de Participação de Mercado (Market Share)


As Figuras 3 (café) e 4 (açúcar) mostram a participação de mercado dos produtos
brasileiros em quatro mercados importantes.
[FIGURA 3: Participações de mercado de café nos principais mercados de
importação, médias de três anos.]

9
[FIGURA 4: Participações de mercado de açúcar nos principais mercados de
importação, médias de três anos.]

O crescimento do café brasileiro foi principalmente absorvido pelos Estados


Unidos. A participação do Brasil cresceu para uma média de três quartos das
importações de café dos EUA durante o resto do século. Esse crescimento ocorreu
às custas de Cuba, Porto Rico e Haiti. O aumento inicial do café brasileiro nos EUA
corresponde à redução e eventual abolição da tarifa de importação americana sobre
o café no período 1828-32. Uma tendência semelhante é observada no mercado de
Hamburgo ("Alemanha").
Os EUA e Hamburgo são casos interessantes de condições de quase-livre mer-
cado. Neles, a concorrência não foi distorcida por preferências coloniais. Isso
sugere um rápido processo de especialização, no qual o Brasil colheu os frutos da
saída de Cuba e Porto Rico do mercado de café (que mudaram para o açúcar,
especialmente após furacões destruírem suas plantações de café em 1844 e 1846).
Nos mercados de açúcar da Grã-Bretanha e da França, paradoxalmente, a par-
ticipação de mercado do Brasil cresceu mesmo durante o período de preferências
coloniais, embora permanecesse marginal. Isso sugere que as exportações brasilei-
ras eram competitivas mesmo em condições de discriminação.
Eventualmente, a participação de mercado dos produtores de açúcar de cana
(tanto coloniais quanto outros) seria gradualmente substituída pelos produtores
europeus de açúcar de beterraba, principalmente a Alemanha.

10
5.2 Competitividade de Preços
Os índices de competitividade de preços (Figura 5) sugerem que, na maioria dos
casos, o Brasil manteve ou aumentou sua competitividade. Valores acima de 1
indicam vantagem de preço relativa para o Brasil.
[FIGURA 5: Índices de competitividade de preços para café (acima) e açúcar
de cana (abaixo) em mercados de importação selecionados, 1821-1913.]

O café desfrutou de aumentos graduais na competitividade de preços em todos


os três mercados (EUA, Reino Unido, Alemanha). O açúcar brasileiro também
permaneceu marginalmente competitivo em preços nos EUA e no Reino Unido.
A conclusão desses indicadores é que a competitividade de preços (que é dire-
tamente afetada pela produtividade) não explica a ascensão do café e o declínio do
açúcar. As condições locais no Brasil têm utilidade limitada para entender os de-
sempenhos divergentes. Uma imagem completa requer a consideração da política
comercial estratégica europeia.

11
6 Emancipação Britânica dos Escravos e o Cresci-
mento do Açúcar Brasileiro
O Ato de Abolição da Escravatura de 1833 na Grã-Bretanha forneceu uma entrada
para produtores não coloniais no mercado britânico. A participação das Índias
Ocidentais Britânicas no mercado de açúcar caiu de 75% em 1821/23 para 32%
em 1848/50. Isso levou a um aumento rápido no preço do açúcar das Índias
Ocidentais, mas os preços brasileiros e cubanos não subiram na mesma medida.
Como resultado, as importações de açúcar do Brasil, Cuba e Índias Orientais
Britânicas cresceram rapidamente (Tabela 2).
[TABELA 2: Taxas de crescimento do quantum de importação de açúcar de
cana e participação no consumo doméstico de parceiros selecionados no mercado
britânico, 1821-65.]

Antes da liberalização, os produtores não coloniais enfrentavam barreiras quase


proibitivas. As preferências coloniais foram abolidas em 1855, seguindo as estipu-
lações do Sugar Act de 1846 e sua emenda em 1848. No espaço de três anos (após
1844), a tarifa sobre o açúcar estrangeiro caiu de 63/- para 20/-, uma redução
radical da tarifa efetiva de 227% para 70%.
O efeito imediato é claro na Figura 6.
[FIGURA 6: Importações britânicas de açúcar de cana brasileiro (acima), im-
portações americanas de café brasileiro (abaixo), e a taxa de tarifa efetiva (% do
preço), 1821-70.]

12
A queda nas taxas do açúcar britânico correspondeu a um aumento de quase
três vezes na quantidade de açúcar fornecida pelo Brasil. Antes disso, grande parte
do açúcar estrangeiro era destinado ao comércio de reexportação. Entre 1846 e
meados do século, a quantidade de açúcar estrangeiro retida para consumo cresceu
182% ao ano.
Isso sugere que os fornecedores não coloniais (Brasil, Cuba) eram particular-
mente sensíveis ao sistema de preferências e relativamente mais competitivos que
os fornecedores coloniais dominantes.
Em comparação, o mercado britânico de café era economicamente irrelevante.
O volume de importações britânicas de café brasileiro era ofuscado pelos Estados
Unidos. Foi o status "duty-free"do café no mercado americano a partir de 1832,
e a subsequente expansão dramática do consumo (Figura 6, gráfico inferior), que
serviram para alimentar o crescimento do café.

13
7 Subsídios alemães ao açúcar e o declínio do açú-
car brasileiro
A liberalização do mercado de açúcar britânico, que abriu a porta para o açú-
car brasileiro, também impulsionou o desenvolvimento da produção de açúcar de
beterraba na Europa Continental. O declínio eventual da indústria de cana se-
ria o resultado da competição avassaladora da indústria europeia de beterraba no
mercado britânico.
A Figura 7 mostra o impacto do aumento do consumo de beterraba.
[FIGURA 7: Importações de açúcar de cana e beterraba para o mercado bri-
tânico, milhões de hundredweights, países selecionados, 1870-1913.]

As importações de beterraba alemã cresceram 10% ao ano entre 1870-90, au-


mentando sua participação de mercado para cerca de um terço do total de im-
portações de açúcar não refinado. O declínio do açúcar brasileiro que ocorreu em
paralelo também foi sofrido pelas Índias Ocidentais Britânicas e por Cuba.

7.1 A Competitividade Artificial da Beterraba


Embora a beterraba fosse um substituto direto da cana (em sua forma refinada),
ela era menos competitiva em condições naturais. A cana contém mais açúcar por
peso e sua extração é menos custosa. A vantagem da beterraba era que sua polpa
podia ser usada para alimentar gado.
Estimativas contemporâneas (Tabela 3) mostram que o açúcar de cana era
geralmente mais produtivo (em termos de açúcar bruto por hectare) do que a
beterraba europeia, mesmo durante o período em que a beterraba alemã estava
inundando o mercado.

14
[TABELA 3: Rendimento de açúcar bruto por hectare, vários países, final da
década de 1880.]

A vantagem competitiva europeia não foi alcançada na terra, mas sim através
de um complexo sistema de medidas protecionistas.

7.2 O Sistema Alemão de Subsídios (Bounties)


No caso alemão, um sistema de subsídios (bounties) serviu para aumentar rapi-
damente a produção. A partir de 1869, o imposto de consumo (excise duty) era
calculado sobre o peso das beterrabas. No entanto, o "drawback"(reembolso) na
exportação era calculado sobre o açúcar bruto final.
Isso incentivou os produtores alemães a aumentar o rendimento sacarino das
beterrabas. Como o imposto permaneceu fixo por um longo período, os produtores
passaram a desfrutar de um subsídio que lhes devolvia mais do que haviam pago.
Em vez de ajustar sua oferta aos preços do mercado britânico, os produtores
alemães "seguiram o subsídio".
A Figura 8 detalha o boom de exportações induzido pelo subsídio.
[FIGURA 8: Subsídios pagos, relação subsídio/preço, e importações de açúcar
de beterraba alemão, e preços de beterraba alemã e cana brasileira no mercado
britânico, 1871-91.]

15
Essa rápida expansão correspondeu à queda drástica do preço do açúcar no
mercado britânico. O preço médio caiu de £1.20 por cwt em 1870 para um mínimo
de £0.42 por cwt às vésperas da convenção de Bruxelas em 1902.
O subsídio era um incentivo considerável. Em 1887, constituía 17% do preço
de importação britânico. Em 1900, estimava-se que o subsídio alemão constituía
cerca de 40% do preço unitário.
A Convenção de Bruxelas de 1902 levou os países a eliminar subsídios diretos
e indiretos a partir de 1903. Embora os preços tenham se recuperado um pouco,
não o fizeram ao nível exigido pelos produtores brasileiros para cobrir os custos. A
produção de beterraba havia ejetado o açúcar brasileiro do mercado alemão, redu-
zido sua participação no mercado britânico e retardado severamente o crescimento
da indústria.

8 Conclusões
Este artigo fornece uma narrativa das condições do lado da demanda que determi-
naram os padrões de crescimento divergentes do café e do açúcar de cana brasileiros
durante o século XIX.

16
Apesar das imperfeições do lado da oferta (em mercados de fatores e canais de
distribuição), ambas as commodities permaneceram marginalmente competitivas
em preços nos principais mercados consumidores. Isso indica que a divergência não
se deveu à baixa produtividade das plantações brasileiras, uma explicação comum
para o declínio do setor açucareiro.
Em vez disso, as tendências são explicadas pela interação entre essas condições
de oferta e intervenções estratégicas dos governos europeus nos mercados de com-
modities, que criaram distorções do lado da demanda. Embora numerosas, este
artigo focou em duas: as preferências coloniais britânicas e os subsídios alemães
ao açúcar de beterraba.
Ambas as intervenções serviram para bloquear o açúcar brasileiro do mercado
consumidor mais importante do mundo: a Grã-Bretanha. A intervenção alemã, em
particular, foi o golpe de misericórdia não apenas para o setor açucareiro brasileiro,
mas para muitos produtores de cana na periferia pobre.
Numa perspectiva mais ampla, porém, há um lado positivo. Quando o Brasil se
tornou independente, o mercado internacional de açúcar estava repleto de monop-
sonia imperial, escravidão e política comercial "beggar-thy-neighbour"(empobrecer
o vizinho). No início do século XX, a monopsonia havia sido substituída pela ide-
ologia do livre comércio, a escravidão era história (pelo menos de jure), e o açúcar
foi o ponto focal do primeiro esforço multilateral para regular um mercado de
commodities (a Convenção de Bruxelas de 1902).
Com efeito, a política comercial estratégica europeia no século XIX não apenas
destruiu muitos meios de subsistência na periferia pobre; ela também gerou as
condições de sua própria extinção.

17

Você também pode gostar