CAPÍTULO 08
Aoey e eu temos morado juntas por dois meses. O tempo passou rápido. O calendário na
parede me lembrou disso. O livro de Aoey agora estava no processo de “re-edição” e deve
estar nas prateleiras nos próximos dois meses.
Aoey me disse que receberia o pagamento quatro meses depois que o livro já estivesse nas
lojas, mas eu não podia esperar tanto tempo. Pedi para minha mãe transferir o dinheiro mais
cedo porque eu queria que ela largasse seu emprego de meio período em uma loja de
conveniência. Ela deveria estar na faculdade a essa altura.
Aquele dia foi a primeira vez na vida dela que ela teve seis dígitos em sua conta bancária. Ela
olhou para o celular em descrença, como se estivesse em um mundo surreal.
“Meu primeiro pagamento tem seis dígitos, Gen.”
“Estou feliz por você. Você ganhou isso sozinha. Eu não conseguiria fazer isso.” Olhei para
minha amiga, que agora não conseguia para de sorrir. Então, eu disse a ela diretamente, “Você
deveria se envolver na faculdade agora. Não precisa mais trabalhar.”
“Como posso parar de trabalhar? Não significa que irei ganhar tudo isso de novo.”
“Você pode escrever outra história.”
“Pode não ser tão boa como essa.”
“Eu lerei primeiro, se está tão preocupada.”
“Você lê novels também?”
“Sim, eu até li a sua história publicada. Aquela em que o heroi era o príncipe que se
apaixonou pela heroína nascida de um ladrão.”
Aoey olhou para mim, surpresa, e cobriu sua cara agora vermelha, com timidez.
“Você realmente leu aquilo. Estou tão constrangida.”
“Por que?”
“Tem uma cena de amor, lá. Você deve pensar que tenho a mente suja.”
Eu sorri e olhei para ela adoravelmente. Era tão engraçado, porque ela postou isso na internet
para milhares de pessoas lerem, mas se sentia constrangida quando eu lia. Eu era apenas uma
leitora da publicação.
“É uma linda cena. Eu me pergunto o que você estava pensando quando escreveu isso.”
Aoey cobriu seu rosto e balançou a cabeça. “Não tire sarro de mim.”
“Eu estou dando a você um elogio.”
“Eu não sei por que me sinto desconfortável quando é com você.”
“Okay, eu não vou mais incomodar você.”
Nós nos olhamos nos olhos, em silêncio. Mas um som de notificação do celular de Aoey
quebrou o silêncio. Seus olhos suaves direcionaram sua atenção para o telefone antigo. Ela
franziu a testa quando leu a mensagem.
“Está tudo bem?” Eu perguntei, curiosa.
“Sim.” Aoey virou a tela de seu telefone para baixo. “Eu só preciso ser mais séria sobre sair
do meu emprego de meio período. O que devo fazer quando sair?”
“Escrever uma novel?”
“Vou pensar sobre isso.”
Aoey não concordou com minha proposta. Ela deixou o celular no mesmo lugar, entrando no
banheiro. Curiosa, eu peguei seu telefone para ver sobre o que era a mensagem, mas seu
telefone era tão antigo que merecia estar em um museu.
Devia ser um celular ¹descartável.
Minha curiosidade me venceu. Eu mexi para fazer o celular funcionar. A última mensagem
estava na tela e não estava aberta.
[Skyfall: Sinto sua falta. Por favor, venha trabalhar. Estou esperando por você.]
Eu fiquei brava de ler aquilo, mas eu podia dizer que a mensagem não deixou Aoey feliz. Ela
queria sair do trabalho.
Isso era do seu colega de trabalho. Mas por que fiquei brava? Desde que eu vi a mensagem,
não conversei mais com Aoey.
“Você irá deixar o trabalho hoje?” Eu percebi que meu tom estava muito sarcástico. Ela olhou
para mim, confusa, e perguntou o que estava errado.
“Não tenho certeza.”
“Se demita hoje.”
“Por que?”
“Por que eu disse.” Olhei-a profundamente nos olhos.
“Por que tenho que seguir suas ordens?”
“Faça o que eu te disse.”
“Você está sendo irracional. Não quero ouvir isso. Tomarei minhas próprias decisões.” Aoey
pegou suas coisas e saiu da sala.
Fui deixada sozinha e com raiva. Ninguém nunca me incomodou desse jeito antes. Mas ela
não estava nem aí. Eu deixei ela ficar aqui e publicar seu livro. Pedir a ela para sair de seu
emprego não era grande coisa.
Eu saí, ansiosa. Decidi seguir ela, eventualmente. Eu precisava saber em que franquia de loja
de conveniência ela trabalhava. Fiquei surpresa ao saber que o lugar que ela trabalhava era
tão próximo do condomínio. Eu não ia até a conveniência porque minha família cuidava de
tudo. Eles compravam tudo o que eu precisava e enviavam para mim.
Assisti ela trabalhando dentro da loja. Fiquei irritada quando notei muitos dos clientes
secando-a quando saíam, especialmente os homens.
Ela está mais bonita do que quando éramos jovens…
Ela tinha piolhos quando criança. Seu rosto era modesto, mas sua pele brilhava. Ela não
usava maquiagem- como ela parecia tão bem? Ser bonita desse jeito podia ser perigoso. Eu
deveria fazer algo para torná-la menos atrativa. Talvez, quando ela dormisse, eu pudesse
desenhar no seu rosto.
Mas isso poderia ser lavado, de qualquer maneira.
Eu imaginei tantas coisas enquanto observava ao redor da loja. Eu podia vê-la próxima do
balcão enquanto as pessoas saíam e entravam.
Não demorando muito, vi um homem com cabelos tingidos de loiro. Ele era mais feio do que
bonito. Ele deu a ela um grande sorriso de dentes tortos. Estava obviamente flertando com
ela. Eu queria jogar meu sapato direto lá de fora, mas pude apenas observar de longe. No
entanto, Aoey parecia desconfortável.
Aquele era ele, Skyfall - o cara da mensagem.
Ela tinha que tomar alguma atitude para esse cara deixá-la em paz.
Eu me surpreendi comigo mesma, sabendo que estava perdendo tempo espiando dentro da
conveniência onde Aoey trabalhava. E ainda tive que esconder isso dela. Apesar disso, eu
tinha algo mais a fazer… eu estava lá para…
Esperar…
Quase duas horas depois, quando o cara Skyfall veio para fora para fumar um cigarro,
respirei fundo e me recompus, antes de caminhar até ele com um grande sorriso.
“Desculpe.” O homem, que estava agora segurando um cigarro, olhou para mim surpreso.
Dei a ele um sorriso sedutor que o fez engasgar com o cigarro.
“Sim?”
“Eu queria lhe perguntar uma coisa.”
“Sim?” Ele jogou o cigarro no chão e pisou em cima para apagar o fogo. Ele limpou suas
mãos na camisa várias vezes, como se estivessem muito sujas.
“Você tem namorada?”
Minha pergunta direta fez o fez ficar super desconfortável. Eu flertei com ele como uma
profissional.
“N… Não.”
“Isso é bom.” Eu me endireitei e olhei para o rapaz que era mais baixo do que eu três
centímetros. “Se eu souber que você está tentando algo com Aoey, irei te machucar.”
Eu tinha o dom para ameaçar pessoas. Minha voz e meus olhos frios podiam hipnotizar as
pessoas e congelá-las, se eu estivesse com raiva. O homem na minha frente mudou de
surpreso para indiferente quando percebeu que eu estava ameaçando-o.
“O que você acha que pode fazer comigo se eu for atrás da Aoey?”
Ele passou de nervoso para abertamente me desafiar. Eu sinalizei para o capanga do meu pai,
a quem avisei mais cedo para esperar. Um grande cara apareceu perto do rapaz loiro enquanto
eu permanecia do outro lado.
“Acho que posso fazer o que eu quser. Você tem a opção de deixá-la em paz, ou não aparecer
na faculdade ou no trabalho por dois meses.”
Esse foi o fim. Skyfall prometeu que deixaria Aoey.
Agora que eu estava entediada esperando por ela, retornei para o meu apartamento e tirei um
cochilo. Eu acordei encontrando Aoey sentada perto de mim, na cama, me olhando.
“Você me assustou. Que horas você voltou?”
Aoey pressionou meu peito e me disse para continuar a cochilar.
“Um tempinho atrás. Eu estava assistindo você dormindo.”
“Huh?”
“Eu não me sinto bem brigando com você. Me desculpa.” Ela disse com uma expressão triste.
Eu tinha esquecido disso por estar prestando mais atenção no cara loiro. Assenti,
concordando.
“Você não tem que se desculpar. Eu estava sendo egoísta. Estava errada também. Não se
preocupe com isso.”
“Eu larguei o emprego.”
“Ah, que bom. Agora você terá tempo para estudar ou escrever uma novel. O que você quiser
fazer, irei te apoiar.” Sorri para ela e gentilmente toquei sua bochecha com as costas da minha
mão. Aoey segurou-a e olhou nos meus olhos.
“Vou gastar meu tempo escrevendo uma novel. Eu tenho a ideia de um novo roteiro agora.”
“Qual seria?”
“Vou deixar você ler. Escreverei apenas para você.”
“Okay, estarei ansiosa por isso.”
“Espere até que eu tenha coragem suficiente. Deixarei você ler. Prometo.” Que tipo de novel
precisa de coragem para ser escrita? Mas, que seja, eu vou esperar.
“Ah… Gen.”
“Sim?” Aoey levantou e me deu as costas enquanto respondia.
“Da próxima vez que vier me visitar, por favor, entre. É muito quente lá fora.”
Eu pulei quando ouvi isso. Ela se virou e me deu um sorriso. Meu rosto ficou vermelho
porque fui pega em flagrante.
“Você me viu?”
“Sim.”
“Por que você não disse nada?” Aoey me olhou e sorriu tão lindamente. “Eu queria saber
como você tinha planejado se reconciliar comigo.”
“Não, eu não estava lá para fazer as pazes com você.”
Eu estava lá para ver o cara que tentou flertar com você, e eu nunca fiz nada de errado. Eu
jamais teria que me desculpar com alguém.
“O que você fez me deixou tão tocada.” Ela virou-se e me deu um lindo sorriso por baixo de
seus óculos grossos. “Eu amo você, Gen.”
Ela disse isso casualmente, como se fosse uma frase normal. Eu congelei com essa frase e
respondi em uma controlada voz casual.
“Sim, porque sou uma pessoa amável. É difícil resistir.”
“E eu? Eu sou adorável também?”
Eu assenti. “Sim, você é.”
“Então você me ama?”
“Estou cansada. Preciso dormir.”
Colapsei novamente na cama e rolei, com minhas costas viradas para ela. Meu coração batia
tão rápido e senti a pressão de suas palavras.
Eu tinha apenas ficado do lado de fora de uma conveniência-
Por que ela estava me perguntando se eu a amava? Ele quer que eu confesse meu amor por
ela? Isso era loucura!
¹Celulares descartáveis são comuns em países como EUA, Coréia, Japão e Tailândia. Trata-se de celulares
simples e baratos, com funções resumidas apenas à chamadas e sms, geralmente usados por turistas ou em casos
de emergência. Uma marca de celular equivalente a esses, aqui no Brasil, seria os celulares Blu.