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O autor discute como a ciência e a tecnologia são influenciadas pelo colonialismo, destacando a desigualdade entre países do Norte e do Sul global. Ele enfatiza a necessidade de uma educação crítica em ciência e tecnologia que enfrente essas desigualdades e promova a cidadania ativa e consciente. O texto critica a visão tradicional da ciência como neutra, propondo uma análise dos conceitos utilizados na educação científica para revelar suas implicações políticas e sociais.
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Aqui o autor lembra que ciéncia e tecnologia também
carregam aS marcas do colonialismo:
Paises ricos (Norte global) ainda dominam o
conhecimento e as tecnologiass
Paises periféricos (Sul global) sao dependentes e tém
menos voz5
Dentro dos préprios paises ha diferengas de poder e
exclusdo social,
A educagao CTS precisa reconhecer e enfrentar essas
desigualdades,
WW EG Educacio cientifica é politica
“Neste momento histérico... realgar a natureza politica da
educacio cientifica e tecnolégica é uma necessidade...”
0 texto termina afirmando ques
A educagao cientifica nado é neutra nem apenas técnica
— ela é politicas
Ensinar ciéncia é formar cidadaos conscientes, capazes
de agir por um mundo sustentavel e justos
+ Todos, mesmo quem nao Sera cientista, devem entender
seu papel na preservagao da vida e na sustentabilidade
do planeta.
WE) 0 qe é “problematizar® na
educagao cientifica e tecnolégica
“Muito do que se tem realizado no campo da Educagao
cientifica e tecnolégica em perspectiva CTS esta alicergado
em conceitos utilizados de forma naturalizada...”
0 autor comega dizendo que, na educagao cientifica etecnolégica, mesmo nas abordagens modernas (como CTS —
Ciéncia, Tecnologia e Sociedade), ainda ha muitos conceitos
que Sao uSados de forma automatica, como se fossem
neutros e indiscutiveis.
© Ele chama isso de “conceitos naturalizados”, ou seja,
ideias que as pessoas repetem sem pensar criticamente Sobre
seu Significado — por exemplos desenvolvimento, progresso,
inclusdo, inovagao, cidadania, etc.
0 autor quer “desnaturalizar” esses conceitos, ou seja,
reabrir o debate sobre o que realmente significam e mostrar
que eles carregam visées politicas, sociais e ideolégicas
especificas,
WB Por que é importante discutir esses
conceitos
“Importa discutir suas imbricagdes com percepgées de
realidades de atores alinhados a distintas orientagdes
teédricas, politicas e ideolégicas.”
Aqui ele explica que essas palavras nao tém um nico sentido:
+ Cada grupo Social (cientistas, politicos, empresas,
movimentos Sociais, comunidades) entende e usa esses
conceitos de maneira diferente,
+ Dependendo de suas visdes de mundo, interesses e
ideologias.
© Portanto, para entender de verdade o papel da ciéncia e
da tecnologia na Sociedade, é preciso analisar o sentido
politico e social dos conceitos usados — e nao trata-los como
“neutros” ou “universais”.
WB) Os pares dicotémicos — ideiasopostas que estruturam o pensamento
*so08 pertinente discutir aSpectos de pares dicotémicos
significativos em abordagens sobre questées Sociotécnicas,
Sociocientificas e Sociopoliticas...”
0 autor introduz um ponto essencial:
Na nossa forma de pensar e de ensinar, ha pares opoStos
(dicotomias) que moldam a maneira como interpretamos o
mundo,
Ele cita alguns exemplos que vai desenvolver:
+ Desenvolvimento / Subdesenvolvimento
+ Inclusdo / Exclus3o
© Esses pares sdo importantes porque mostram como as
ideias se organizam em hierarquias;
o “desenvolvido” é visto como “melhor”, o “subdesenvolvido”
como “atrasado”s
0 “incluido” é 0 “normal”, o “excluido” é o “marginal”.
Essas oposicées revelam relagées de poder e influenciam as
politicas de ciéncia, tecnologia e educacao.
WW EY 0 qe o autor quer fazer com esses
pares
,oapresento alguns efeitos de sentido cabiveis aos pares
dicotémicos desenvolvimento/subdesenvolvimento e inclusao/
exclusao que sustentam percepgbes de sustentabilidade...”
Aqui ele mostra Seu objetivos
Ele quer analisar os significados ocultos nesses pares e
mostrar como eles afetam o modo como entendemos
sustentabilidade, problemas sociais e educagao CTS.
© Ele quer usar essas analises para discutir outras relagdesimportantes:
problema / nao-problema > o que é considerado um
problema Social ou ambiental e o que é ignorado3
+ verticalidade / horizontalidade > se o conhecimento e
as decisées vém “de cima para baixo” (vertical) ou sao
construidos coletivamente (horizontal).
Tudo isso faz parte da proposta de uma educagao CTS critica,
ou Seja, capaz de questionar estruturas de poder e ampliar a
participagao Social.
WW GB) EducagSo CTS e cidadania critica
“Como esses pares dicotémicos asSociados ao tema da
educagdo CTS estado relacionados 4 formagao para uma
participagao social ampla nos processos decisérios...”
Aqui o autor liga tudo a ideia de cidadania,
Ele diz que, Se queremos uma educagao cientifica e
tecnolégica que forme cidadaos criticos, precisamos
repenSar o que significa Ser cidadao,
& Porque a nogio tradicional de cidadania — apenas “ter
direitos e deveres” — nado é Suficiente para os desafios de
hoje.
O mundo mudou, especialmente com?
As novas tecnologias de comunicagao3
A globalizagao da informagao3
+ ES impactos Sociais e politicos que isso trouxe,
Entdo, a cidadania precisa incluir a capacidade de pensar
criticamente, participar ativamente e discernir informagdes
verdadeiras de falsas,
WW GA cidadania afetada peladesinformagao e pelo poder tecnoldgico
*.00a Cidadania tem Sido profundamente afetada por fake
News... @ outras que influenciaram as eleicgSes no Brasil
produzindo rupturas e violéncias Sociais...”
Aqui 0 autor traz o tema para o contexto atual e concreto,
Ele mostra que a tecnologia da comunicagao (internet, redes
Sociais, algoritmos), embora tenha potencial para fortalecer
acidadania, também tem sido usada para manipula-la,
As fake news (noticias falsas) distorcem a realidade e
influenciam opinides e eleigées3
0 negacionismo cientifico faz as pessoas duvidarem da
prdpria ciénciag
E tudo isso gera divis6es, conflitos e até violéncias
Sociais.
& Em outras palavras, a tecnologia — que poderia unir e
informar — esta Sendo usada para controlar e desinformar, o
que enfraquece a democracia e a cidadania critica,
WW EO grande sentido dessa parte do
texto
Essa Secao inteira esta dizendo ques
A educagio cientifica e tecnolégica precisa ensinar as
pessoas a pensar criticamente Sobre os préprios
conceitos e discursos;
E preciso entender o que ha por tras das palavras
bonitas (como “progresso”, “incluso”,
“desenvolvimento”) e perceber quem ganha e quem perde.
com essas ideias;
E que formar cidadaos de verdade hoje significa formarpessoas capazes de reconhecer manipulagées,
desigualdades e injustigas, especialmente aquelas
sustentadas por discursos cientificos e tecnolégicos
aparentemente neutros,
% 0 que o autor esta dizendo
0 autor comega falando sobre “indicadores” — dados e
ndmeros que Servem para medir alguma coisa (como
desmatamento, consumo de energia, fome, emissdes de
poluentes etc,), Ele diz que analisar esses indicadores é
importante para entender quais aspectos devem ser levados
em conta na educagao cientifica e tecnolégica (CT), porque
isso pode mudar a forma como ensinamos ciéncia e tecnologia.
Segundo ele, normalmente a educagao cientifica tradicional
(a que ele chama de “hegeménica”) forma pessoas que apenas
reproduzem o que ja esta estabelecido, sem questionar.
Nessa visdo tradicional, a ciéncia é tratada como algo
neutro, separado de questées Socials, politicas e culturais.
Mas 0 autor critica isso — ele defende que aciénciaea
tecnologia nunca Sao neutras, porque Sempre estao ligadas
ao modo como as Sociedades se organizam, produzem riqueza
e exercem poder,
f2] Transformago do conhecimento
cientifico
0 texto diz que, com o tempo, novos parametros e variaveis
(coisas que antes eram ignoradas, como oS impactos Sociais
ou ambientais) comegam a Ser incluidos nos modelos
cientificos e tecnolégicos, o que transforma o préprioconhecimento, Ou seja, a ciéncia também muda quando passa
aconsiderar fatores Sociais, ambientais e humanos que
antes eram viStos como “nao cientificos”.
@ Os indicadores e os dois tipos de visdo
0 autor entao usa o exemplo de dados do site Worldometer,
que apresenta ndmeros Sobre meio ambiente, alimentacao,
agua e energia no mundo.
Ele mostra que oS meSmos dados podem ter interpretagSes
diferentes dependendo da visdo que se adotas
+ Vis&o hegeménica (dominante, capitalista):
+ Odesmatamento pode ser visto como necessario para
produzir alimentos e proteinas.
+ Aemissdo de CO, pode ser vista como prova de
crescimento industrial e econémico,
* Oalto consumo de energia e a grande extragao de
petréleo Sao interpretados como indicadores de
progresso,
> 0u Seja, tudo isso é considerado positivo, pois mostra
“desenvolvimento”.
+ Vis&o contra-hegeménica (critica):
+ Essa outra visdo, influenciada por movimentos Sociais e
estudos como os CTS (Ciéncia-Tecnologia-Sociedade),
Estudos Decoloniais, de Genero e Etnico-Raciais,
questiona esse tipo de desenvolvimento,
+ Em vez de ver o desmatamento e o consumo de energia
como progresso, ela enxerga destruigado ambiental,
desigualdade e exploragao,
+ Prope novas formas de pensar o mundo, inspiradas em
ideias como o bem-viver (viver em harmonia com anatureza e com 0S outros), decrecimento (produzir e
conSumir menos, mas com mais equilibrio),
ecofeminismo, direitos da Mae Terra e desglobalizagao
(reduzir a dependéncia do sistema capitalista mundial).
Y Amudanga de percepgio
0 autor explica que essas novas formas de ver o mundo fazem
com que a gente reinterprete o préprio conceito de
“natureza”,
Na visdo dominante, a natureza 6 um “recurso” ou “riqueza”
— algo que existe para ser explorado e gerar lucro,
Na visdo critica, a natureza é um “bem natural”, algo com
valor préprio, que precisa ser respeitado e cuidado.
© Conclus&o do trecho
Portanto, o autor quer mostrar que a forma como
entendemos e ensinamos ciéncia e tecnologia depende da
vis&o de mundo que adotamos,
Ele defende que a educagao em CT deve incentivar o
pensamento critico, questionar os indicadores e propor novos
sentidos para palavras e ideias que ja pareciam fixas, como
“desenvolvimento”, “progresso”, “natureza” e
Assim, podemos formar pessoas capazes de participar
ativamente das decisées Sociais e ambientais, e nado apenas
“riqueza”.
reproduzir o que o sistema dominante impée.
@ 1. 0 que é o “modelo de desenvolvimento
dominante”
0 texto fala do modelo de desenvolvimento capitalista, que é
© que domina o mundo hoje.Esse modelo se baseia na ideia de que crescer
economicamente é sempre bom, que o Ser humano esta acima
da natureza (antropocentrismo) e que existe uma dnica
forma “correta” de viver e produzir conhecimento — a
ocidental (isso 6 o que o autor chama de monoculturalidade).
Além disso, esse modelo é patriarcal, ou seja, reforca
estruturas de poder desiguais entre homens e mulheres e
valoriza hierarquias e dominagao.
0 problema, segundo Edgardo Lander, é que esse tipo de
civilizag&o foi construido sobre trés pilares destrutivos;
* Oantropocentrismo — coloca o ser humano como dono da
natureza, e nao como parte dela.
+ Amonoculturalidade — ignora a diversidade de culturas,
saberes e formas de viver, impondo um nico padrao
“universal”.
* 0 patriarcado — estrutura de dominagao, exploragao e
hierarquia.
@ 2. Por que esse modelo esta em crise
Lander afirma que esse padrao civilizatério (baseado no
capitalismo e na dominagao cientifico-tecnolégica) esta em
colapso, porque ele:
+ Se sustenta na ideia de crescimento infinito, o que é&
impossivel num planeta com recursos finitos.
+ Transforma tudo em mercadoria — inclusive a vida, a
natureza, o tempo, oS Sentimentos,
+ std destruindo as bases que tornam a vida possivel (ar,
Agua, Solo, biodiversidade).
Por isso, ele diz que essa civilizagao “esta com os dias
contados”, pois o préprio modo como ela funciona mina(destréi) as condigdes que a Sustentam.
Ay 3. 0 risco n&o é $6 0 fim do capitalismo
— 60 fim da humanidade
Lander vai aléms ele diz que o problema nao é Saber se o
capitalismo vai sobreviver a crise, mas Se nds, como espécie,
Sobreviveremos,
Ele alerta que, se nao frearmos urgentemente essa
engrenagem de destruig&o, o colapso do capitalismo vira
acompanhado do colapso ambiental e social global, ameagando
a Sobrevivéncia humana.
Ou Sejas o sistema que criamos para gerar conforto e
riqueza esta agora colocando em risco a prépria vida no
planeta.
& 4. 0 texto conecta isso ao presente
0 autor do texto (que esta analisando Lander) lembra que
essa reflexao, feita ha alguns anos, é ainda mais relevante
hoje, porque a violéncia nas relagdes globais de poder
aumentou,
Ele cita como exemplo a exploragao intensiva de bens
naturais eScassos, como oS minerais raros usados em
celulares, computadores e carros elétricos — especialmente
as terras raras e o Coltan (uma mistura de columbita e
tantalita, extraida muitas vezes com trabalho escravo e
devastag3o ambiental na Africa).
Esses exemplos mostram que o modelo capitalista global
continua a explorar o planeta de forma predatéria,
agravando a crise.
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CornyO DIREITO NAS SOCIEDADES
PRIMITIVAS
Antonio Cantos WoLkmeER!
SUMARIO: 1. Introducio. 2. Formacio do Direito nas so-
ciedades primitivas. 3. Caractetisticas ¢ fontes do Direito area
co. 4. Fangées ¢ fundamentos do Direito na sociedade primit.
va. 5. Conclusio. 6, Referéncias bibliogriticas,
INTRODUCAO
Toda cultura tem um aspecto normativo, cabendo-lhe delimitar a
jstencialidade de padr6es, regras e valores que institucionalizam
a delos de conduta. Cada sociedade esforga-se para assegurar uma
emia ordem social, instrumentalizando normas de regulamen-
tagdo essenciais, capazes de atuar como sistema eficaz de controle
social. Constata-se que, na maioria das sociedades remotas, a lei é*
considerada parte nuclear de controle social, elemento material para
prevenir, remediar ou castigar os desvios das regras prescritas. A lei
expressa a presenca de um Direito ordenado na tradigao e nas praticas
costumeiras que mantém a coesao do grupo social.
1.
' Professor Titular de Histéria das Instituigdes Juridicas da UFSC. Doutor em Direito.
Pesquisador nivel 1 do CNPq. Membro do IBHD - Instituto Brasileiro de Historia
do Direito. Autor e organizador de intimeros livros, dentre os quais: Direito e justiga
na América indigena: da conquista a coloniza¢ao. Porto Alegre: Livraria do Advo-
gado, 1998; Introdugao a Historia do Pensamento Politico. Rio de Janeiro: Renovar,
2003; Humanismo e Cultura Juridica no Brasil. Florianopolis: Fundagao Boiteux,
2003; Direitos Humanos e Filosofia Juridica na América Latina. Rio de Janeiro:
Lumen Jiris, 2004; Sintese de uma Historia das Ideias Juridicas. 2. ed. Floriané-
polis: Fundaciio Boiteux, 2008; Histéria do [Link] Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro:
Forense, 2009, ; :yr
ANTONIO CARLOS WOLKMER
Certamente que cada povo & cada organiza¢ao social dispdem de —_
um sistema juridico que traduz a especialidade de um grau de evoly. mc
cao e complexidade. Falar, portanto, de um Direito arcaico ou primi. 4 ou
tivo implica ter presente nao s6 uma diferenciacao da pré-historia e © ev
da histéria do Direito, como, sobretudo, nos horizontes de diversas
civilizagdes, precisar 0 surgimento dos primeiros textos juridicos com as
o aparecimento da escrita. re
Nao s6 subsiste um certo mistério, como falta uma explicagao cien- 2
tificamente correta e respostas conclusivas acerca das origens de grande
parte das instituigdes juridicas no periodo pré-historico. Entretanto, ain-
da que prevaleca uma consensualidade sobre 0 fato de que os primeiros
textos juridicos estejam associados ao aparecimento da escrita, nao se
pode considerar a presenga de um Direito entre povos que possuiam
formas de organizagio social e politica primitivas sem 0 conhecimento
da escrita. Autores como John Gilissen questionam a propria expres-
sio “Direito primitivo”, aludindo que o termo “Direito arcaico” tem
um alcance mais abrangénte para contemplar multiplas sociedades que
passaram por uma evolucio social, politica e juridica bem avangada,
mas que nao chegaram a dominar a técnica da escrita. Assim sendo, as
inumeras investigagGes cientificas tem apurado que as praticas legais de
sociedades sem escrita assumem caracteristicas, por vezes, primitivas,
-=¥ por outras, expressam um certo nivel de desenvolvimento.
Certamente que a pesquisa dos sistemas legais das populagdes
sem escrita nao se reduz meramente 4 explicacdo dos primérdios his-
toricos do Direito, mas evidencia, sobretudo, um enorme interesse em
curso, porquanto “milhares de homens vivem ainda atualmente, na se-
gunda metade do século XxX, de acordo com direitos a que chamamos
“arcaicos’ ou ‘primitivos’. As civilizagdes mais arcaicas continuam
a ser as dos aborigenes da Australia ou da Nova Guiné, dos povos
da Papudsia ou de Bornéu, de certos povos indios da Amaz6nia no
Brasil”.
Nao parece haver divida de que o processo contemporaneo de
colonizacdo gerou um surto de pluralismo juridico, representado pela
convivéncia e dualismo concomitante, de um Direito “europeu (com-
yt ob
ee ee
2 GILISSEN, John. Introducao historia do Direito. Lisboa: Fundagao Calouste Gul-
benkian, 1988, p. 33.yr
O DIRE : S 3
EITO NAS SOCIEDADES PRIMITIVA
s
mor ae a colgmias inglesas € americanas, direit
atts colénias) para os nao indigenas ec, mat vesE OS romanistas nas
evoltidos e outro, do tipo arcaico para as Preise os indigenas
* Tendo em conta essas assergdes iniciais aie $8 autoctones”?.
epectOS do Direito nas eociedades primitives pontualizar alguns
‘0, fontes e fungdes. como a formagao, ca-
racterizaga
2. FORMACAO DO DIREITO NAS SO
PRIMITIVAS CIEDADES
A dificuldade de se impor uma causa primeira e unica para expli-
car as origens do Direito arcaico deve-se em muito ao amplo quadi
de hipoteses possiveis e proposi¢des explicativas distintas. O Direito
arcaicO pode ser interpretado a partir da compreensao do tipo de so-
ciedade que o gerou. Se a sociedade pré-histérica fundamenta-se no
rincipio do parentesco, nada mais natural do que considerar que a
do juridico encontra-se, primeiramente, nos lagos de .
nas praticas de convivio familiar de um mesmo gru-
base geradora
consanguinidade,
po social, unido por crengas € tradigdes.*
E neste sentido que a lei primitiva da propriedade e das suces-
sées teve em grande parte sua origem na familia e nos procedimentos
que a circunscreveram, como as crengas, 0s sacrificios e 0 culto aos
mortos. Ninguém melhor que Fustel de Coulanges para escrever que
o Direito antigo nao é resultante de uma unica pessoa, pois se impés
a qualquer tipo de legislador. Nasceu espontanea e inteiramente nos
antigos principios que constituiram a familia, derivando “das cren¢gas
religiosas universalmente admitidas na idade primitiva desses povos ¢
exercendo dominio sobre as inteligéncias e sobre as vontades””.
Posteriormente, num tempo em que inexistiam legislagoes escritas
| e codigos formais, as praticas primarias de controle sao transmitidas
oralmente, marcadas por revelagdes sagradas & divinas. Distintiva-
mente da énfase atribuida’a familia feita por Fustel de Coulanges, H.
Summer Maine entende que esse carater religioso do Direito arcaico,
Oe bee et
3 GILISSEN, John. Op. cit., p- 34.
-> 4 LUHMANN, Niklas. Sociologia do Direito. Rio de Ji
1983, v. 1, p. 182-184.
Ss COULANGES, Fustel de. 4 cidade antiga. S30 Paulo: Hemus, 1975, p. 68-150.
janeiro; Tempo Brasileiro 75,4 ANTONIO CARLOS WOLKMER
gorosas ¢ repressoras, permitiria que os sacer-
dotes-legisladores acabassem por ser os primeiros intérpretes e exe.
—> cutores das leis. O receio da vinganga dos deuses, pelo desrespeito aos
seus ditames, fazia com que 0 Direito fosse respeitado religiosamente,
Dai que, em sua maioria, OS legisladores antigos (reis sacerdotes)é
anunciaram ter recebido as suas leis do deus da cidade. De qualquer
forma, 0 ilicito se confundia com a quebra da tradi¢4o e com a infra-
\ gao ao que a divindade havia proclamado.
~ Neste aspecto, nas manifestagdes mais antigas do Direito, as san-
goes legais estao profundamente associadas as sangGes rituais. A san-
¢&o assume um carater tanto repressivo quanto restritivo, na medida
em que é aplicado um castigo a0 responsdvel pelo dano e uma repa-
racdo a pessoa injuriada.’ Para além do formalismo e do ritualismo, o
Direito arcaico manifesta-se nao por um contetido, mas pelas repeti-
gdes de formulas, através dos atos simbélicos, das palavras sagradas,
dos gestos solenes e da forga dos rituais desejados.
Os efeitos juridicos sao determinados por atos e procedimentos que,
envolvidos pela magia ¢ pela solenidade das palavras, transformam-se
num jogo constante de ritualismos. Entretanto, 0 Direito primitivo de
matriz sagrada e revelado pelos reis-legisladores (ou chefes religiosos
-legisladores) avan¢a, historicamente, para 0 periodo em que se impde
a forca e a repeti¢ao dos costumes. Dai que, no dizer de H. Summer
Maine, 0 Direito antigo compreende, claramente, trés grandes estagios
de evolugao: o Direito que provém dos deuses, 0 Direito confundido
—> com os costumes ¢€, finalmente, o Direito identificado com a lei.
Nas sociedades antigas, tanto as leis quanto os codigos foram ex-
pressdes da vontade divina, revelada mediante a imposigao de legisla-
dores-administradores, que dispunham de privilégios dinasticos e de
uma legitimidade garantida pela casa sacerdotal. Escreve H. Summer
Maine que algumas experiéncias societarias, ao permitirem o declinio
> do poder real ¢ o enfraquecimento de monarcas hereditarios, acaba-
imbuido de sangdes ri
© Sobre o papel dos antigos reis-sacerdotes, consultar: FRAZER, Sir James George. O
ramo de ouro. Sao Paulo: Circulo do Livro, [s/d], p. 32-33.
Yi i 7 Cf RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. O Direito primitivo. In: Estrutura e fungGo na so-
fa ciedade primitiva. Petrépolis: Vozes, 1973, p. 262-263, 269. Para uma consulta direta a0
i texto classico, ver: “Social Sanctions” and “Primitive Law”. In: Structure and Function
in Primitive Society. Essays and Addresses. Routledge, 1952. Chapters Xle Xi.0 DIREITO NAS Soc
S SOCIEDADES
S PRIMITIY,
AS
5
> E ram por favorecer a emergéncia de aristocraci
jslativa, com capacidade de jul as, depositarias d;
Julgar e de resolver a produ-
confli
nflitos.’ Mas
| go lest aoe
oS | ste momento inicial de um Direito saint ;
E. 13 divindades, desenvolve-se na diregao d is € Titualizado, Somesias
)° | guetudinarias. Certamente que ainda nao se fae as normativas con-
r | porem deum Co disperso de usos, praticas - um Direito escrito,
or um Jongo periodo de tempo e publicamente oni Teiterados
. Ea época do
Pp ireito consuetudinario, largo periodo em que nao
E go da escrita, em que uma casta, ou aristocracia, ata ee
judicial era 0 Unico meio que poderia conservar, haa do poder
1 | costumes da raga ou da tribo’”. O costume apareve co ftir cata
: Jegalidade, de forma lenta e espontanea, saa ateac tee expressdo da
| go de atos, USOS ¢ praticas. Por ser objeto de respeito e tank ae aoe
> eT
assegurado por sang6es sobrenaturais, dificilmente o homem primiti
imitivo
| questionava sua validez e sua aplicabilidade.
‘A inversao e a difusdo da técnica da escritura, somada a compil:
pe : (2 % an
mes tradicionais, proporcionam os primeiros sea da =
Antiguidade, como 0 de Hammurabi, o de Manu, o de Solon e a Lei
das XII Tabuas. Constatam-se, destarte, que os textos legislad ‘
| pee Ih d itari irei ee
escritos “eram me: ores depositarios do Direito e meios mais eficazes
para conserva-lo que a memoria de certo numero de pessoas, por mais
2910
forga que tivessem em fun¢ao de seu constante exercicio
tanto no Oriente quanto no Ocidente, na ex-
| Esse Direito antigo,
plicagao de H. Summer Maine, nao diferenciava, na esséncia, a mes-
m tempos mais
clade prescrigdes civis, religiosas e morais. Somente ¢
fio é que se comega a distinguir 0 Direito da
avangados da civilizaga
( eito. 1 Certamente, de todos os povos antigos,
Direito avangou para uma autonomia diante
a0 de costu
lade desse processo
que outra regularid
brigagdes © dos
essiva evolucao das ol
El derecho antiguo: parte general. Madrid: Alfredo
|6 ANTONIO CARLOS WOLKMER
deveres juridicos da condigao de status (as obrigag6es sao fixadas
na sociedade, de acordo com 0 status que ocupam seus membros),
inerentes ao Direito primitivo, para 0 da relagao contratual depen.
dente da vontade e autonomia das partes, caracteristicas j4 do Direito
legislativo e formal.
3, CARACTERISTICAS E FONTES DO DIREITO ARCAICO
Pode-se distinguir, segundo as ligdes de John Gilissen, algumas
as do Direito nas sociedades_arcaicas. Primeiramente, o
—> caracteristic:
as populagdes ndo conheciam
Direito primitivo nao era legislado,
a escritura formal e suas-regras de regulamentagao mantinham-se e
conservavam-se pela tradi¢ao.) Um segundo fator de conhecimento
é que cada organizagao social possuia um Direito tinico, que nao se
confundia com o de outras formas de associagao. Cada comunidade
tinha suas proprias regras, vivendo com autonomia e tendo pouco
contato com outros povos, a nao ser em condigées de beligerancia.
Um terceiro aspecto a considerar ¢ a diversidade dos direitos nao es-
critos. Trata-se da multiplicidade de direitos diante de uma gama de
sociedades atuantes, advinda, de um lado, da especificidade para cada
um dos costumes juridicos concomitantes, de outro, de possiveis €
intimeras semelhangas ou aproximag6es de um para outro sistema pri-
mitivo. Além de apontar a inexisténcia de uma legalidade nao escrita,
da comunidade e, por fim,
de uma certa unicidade do juridico para ca
direitos nao escritos, Gilissen reconhece também
ico esta profundamente contaminado pela pratica
juéncia da religido sobre a sociedade e sobre as
ouco facil estabelecer uma distingao entre
9 preceito de natureza juridica. Na verdade,
te subordinado a imposigao de cren¢as dos
simbolico e a forga das divindades. Um
Java e integrava, no religioso, as regras de
0.13
historica ao Direito. Lisboa: Fundago Calouste