O conteúdo a seguir foi retirado originalmente do blog National Public Radio 13.
7: Cosmos and
Culture e foi traduzido do Inglês original por um serviço de tradução.
Marcelo Gleiser, “Por Que a Matemática é Incrível” NPR 13.7: Cosmos & Culture. 30 de março
de 2016, [Link]
Quem tem filhos ou se lembra da infância também lembra das dificuldades para entender por
que a matemática é importante.
“Quem se importa com tabuadas, frações, triângulos e álgebra? Por que eu preciso saber essas
coisas”?
O problema da matemática é que se você não olhar do jeito certo, você não percebe quão
difundida e abrangente ela realmente é. De algum modo, nos afastamos dos inúmeros padrões
que nos cercam, dentro ou fora do nosso corpo. Não contamos as batidas do coração (fazer isso
deixaria a maior parte das pessoas loucas, como você pode ver no programa incrível do
Radiolab, The Heartbeat). Também não associamos pinheiros com pinhas ou temos a tendência
de ficar analisando a simetria no rosto das pessoas – pelo menos conscientemente. Ainda
assim, todas as nossas máquinas e acessórios eletrônicos dependem do nosso entendimento e
habilidade de aplicar a matemática à diferentes materiais.
Em um nível mais complexo, muito das ciências naturais trata de identificar padrões na
natureza que, então, chamamos de “leis”. Essas leis normalmente possuem alguma expressão
matemática, como as Leis de Newton relacionadas ao movimento e gravidade, ou a lei da
conservação da energia. De fato, tais leis são tão essenciais para nosso entendimento do
universo que diversos cientistas acreditam que a matemática vai além da invenção humana,
sendo a linguagem fundamental da natureza.
Outros não estão tão convencidos e consideram a matemática uma invenção da mente
humana, e, até certo ponto, da mente de alguns poucos animais capazes de realizarem
operações matemáticas básicas. A questão aí, que vem sendo discutido há milênios, é se a
matemática foi descoberta (parte de uma linguagem universal) ou inventada (uma linguagem
da própria mente humana).
Essa pode ser uma dessas questões sem respostas. Um belíssimo documentário produzido pela
NOVA falando sobre esses assuntos, “The Great Math Mystery” (“O Grande Mistério da
Matemática”, em português), vai passar de novo hoje à noite. Qualquer um interessado nessa
pergunta ou em por que a matemática é importante deve assistir, e deve assistir com seus
filhos.
Se você segue Pitágoras, Platão e grande parte dos matemáticos de fato, a matemática está em
todo lugar: A Natureza é, de fato, uma rede gigante de expressões e padrões matemáticos,
mais ou menos como o programa que roda em um vídeo game. O físico ganhador do Prêmio
Nobel, Eugene Wigner, chamou isso de "a efetividade irracional da matemática”.
Outros não têm tanta certeza, e chegam até ao ponto de chamar todo esse conceito de algum
tipo de fé religiosa descabida (um livro maravilhoso do astrofísico Mario Livio sobre o tópico se
chama “Is God a Mathematician”, “Seria Deus um Matemático?” em português). Há diversos
tipos de matemática, e aquelas escolhidas para descrever os padrões na natureza ou usadas
para construir máquinas são apenas uma pequena parte. Podemos inventar todo tipo de
mundos matemáticos abstratos, como espaços em oito dimensões e suas propriedades, que
não são relacionadas à realidade.
O linguista George Lakoff da Universidade da Califórnia em Berkeley e seu colega Rafael Nuñez
propõe que a ideia de uma matemática universal é uma falácia: A matemática está implantada
na mente humana e é um produto resultado diretamente de como ele evoluiu em um conjunto
bem específico de circunstâncias. Cérebros similares, como extraterrestres evoluindo em um
planeta como a Terra, podem repetir algumas das descobertas matemáticas – mas isso é devido
a sua estrutura cerebral e não por causa de algum tipo de verdade universal sendo tirada de um
mundo divino.
Sendo assim, o debate continua. Não há dúvidas de que existem padrões matemáticos na
natureza, de espirais em furacões e girassóis às simetrias parecidas e movimentos periódicos
até às partículas elementares e galáxias. O número pi aparece em todos os lugares, de
estatísticas a movimentos de ondas e equações de relatividade gerais descrevendo o universo
em expansão e buracos negros. Nossos cérebros estão excepcionalmente atentos a identificar
tais padrões, uma habilidade que, sem sombra de dúvidas, ajudou nossos ancestrais a
sobreviverem em ambientes perigosos. Poderia nosso cérebro estar nos enganando para
acreditar que essa habilidade é maior do que nós?
Talvez a necessidade de associar a matemática com uma linguagem universal vem da forte
ressonância entre nossa habilidade de encontrar padrões e nossa propensão a acreditar em
algo maior que nós mesmos. Há uma catarse enorme em descobrir leis atemporais que são
maiores que nós. O fato de que algumas dessas leis descrevem a realidade incrivelmente bem
deve ser celebrado, mas o fato de que muitas das nossas tentativas falham ou não têm relação
nenhuma com o mundo também deve ser considerado.
Seja qual for a resposta, assim que passamos a ver a matemática como uma linguagem da
natureza, o modo como olhamos para ela deve mudar completamente. Não se trata mais de
tabuadas ou frações, mas de algo maior do que nós; de algo que construímos em nossas
cabeças. O que poderia ser mais incrível do que isso?
Marcelo Gleiser é um físico teórico e cosmólogo, além de professor de filosofia natural, física e
astronomia no Darthmouth College. Ele é co-fundador da 13.7, um autor prolífico de artigos e
estudos, além de grande divulgador da ciência para o público geral. Seu último livro chama-se
“The Island of Knowledge: The Limits of Science and the Search for Meaning” (“A Ilha do
Conhecimento: Os Limites da Ciência e a Busca pelo Significado”, em português). Você pode
seguir Marcelo no Facebook e no Twitter: @mgleiser.