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Roteiro "CORA": Drama e Música nos Anos 60

O roteiro 'CORA' é um drama melancólico ambientado nos anos 60, que explora a opressão feminina e a busca pela vocação artística através da história de Cora, uma jovem pianista. A narrativa segue seu relacionamento com uma cantora ousada, enquanto enfrenta a pressão familiar e as expectativas sociais. A música original, desenvolvida ao longo da trama, simboliza o crescimento e a dor de Cora, culminando em uma apresentação que representa sua escolha entre amor e carreira.
Direitos autorais
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Roteiro "CORA": Drama e Música nos Anos 60

O roteiro 'CORA' é um drama melancólico ambientado nos anos 60, que explora a opressão feminina e a busca pela vocação artística através da história de Cora, uma jovem pianista. A narrativa segue seu relacionamento com uma cantora ousada, enquanto enfrenta a pressão familiar e as expectativas sociais. A música original, desenvolvida ao longo da trama, simboliza o crescimento e a dor de Cora, culminando em uma apresentação que representa sua escolha entre amor e carreira.
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🎬 Mapeamento Completo — "CORA"

🎞 Gênero e Estilo

• Drama melancólico e poético


• Ambientado nos anos 60
• Referências: A Vida Invisível, Whiplash, La La Land, Retrato de uma Jovem em
Chamas
• Tema: opressão feminina, sexualidade, amor proibido, vocação artística

👩‍🎹 Personagens Principais

Cora

• Jovem pianista promissora


• Reservada, intensa, determinada
• Ama profundamente a música
• Vive com os pais e a irmã mais nova

A Cantora (nome a definir)

• Livre, ousada, segura de si


• Mora sozinha, tem uma banda (rock/blues da época)
• Expressiva, vive a arte como forma de resistência

Professora

• Severa, mas visionária


• Exige dedicação absoluta de Cora
• Apoia o relacionamento de Cora, mas cobra foco na carreira
• Representa a ruptura com os modelos tradicionais da mulher

Irmã mais nova

• Curiosa, doce, confusa com o que vê


• Descobre o relacionamento, mas protege a irmã

Pais
• Tradicionalistas, especialmente o pai
• Esperam que Cora “siga o caminho certo” (casar, filhos, família)

🧱 Estrutura Narrativa e Cenas Principais

ATO I – A Promessa

1. Cena Inicial:
Cora toca uma música clássica no piano da sala. A câmera passeia pela casa,
mostrando a rotina doméstica. Transição para ela tocando a mesma peça com
a professora. Surge o título do filme.
2. Apresentação de Cora:
a. Rotina de treinos, exigência da professora
b. Refeições em família, relação distante com os pais
c. Laço forte com a irmã mais nova
3. Professora cobra:
a. Frases como: “Você quer ser como todas as outras? Casar, sumir?”
b. Cora fica em silêncio, pressionada

ATO II – O Encontro

4. Descoberta:
Cora sai tarde do ensaio, ouve música num bar/clube, entra, vê a cantora pela
primeira vez. Encantamento silencioso.
5. Retorno no dia seguinte:
A cantora está lá novamente. Ao fim da apresentação, Cora elogia timidamente.
A cantora sorri, diz para ela vir assistir os ensaios.
6. Início da amizade:
a. Conversas descontraídas
b. Encontros espontâneos
c. Compartilham discos, ideias, sensações
7. Primeira carta:
Cora começa a escrever. Narração em off enquanto cenas mostram os
encontros. Poético, melancólico.
8. Beijo:
Em um ensaio íntimo, ambas se aproximam. Um beijo demorado, seguido de
silêncio. A relação começa a mudar.
ATO III – As Rupturas

9. Conflito interno de Cora:


a. Distrações nos treinos
b. Professora percebe: “Você está dividida.”
c. Cora se afasta da cantora lentamente
10. Descoberta da irmã:
• Vê um beijo escondido
• Não entende, mas ama a irmã
• Promete não contar — mas isso pesa sobre Cora
11. Mais cartas:
Agora carregadas de melancolia. Declarações contidas, amor sufocado.
12. Convite do Conservatório:
• Professora avisa sobre uma vaga em um prestigiado conservatório na Inglaterra
• Cora fica em conflito: é seu sonho, mas significaria o fim do relacionamento
13. Conversa com os pais:
Eles desaprovam a viagem: “Você vai sozinha? Pra tocar piano?”
Mais pressão.
14. Diálogo com a cantora:
Ela quer fugir com Cora: “A gente pode tocar por aí. Só nós duas.”
Cora não responde. Está em pedaços.

ATO IV – Escolha e Silêncio

15. Cora aceita o convite


• Cena silenciosa, ela recebe a carta e apenas guarda
• Conversa final com a cantora: “Você vai?” / “Sim.”
A cantora chora, mas entende
16. Cora entrega convites
• Um para cada familiar
• Um para a professora
• Um escondido para a cantora (não mostrado, apenas sugerido)
17. Viagem para Inglaterra
• Cena de despedida muda
• Ela entra no quarto do conservatório
• Fade out
ATO V – A Música Final

18. 1 ano depois


• Auditório elegante
• Cora vai se apresentar com seu solo original
19. Cena paralela:
Uma moto atravessa uma estrada. Uma mão segura o convite. É a cantora.
20. Elas se veem
• Um olhar
• Silêncio
• A luz da plateia baixa
• Cora começa a tocar o solo
• O som preenche tudo
• FIM

🎼 Música Original
• Solo para piano criado exclusivamente para o filme
• Desenvolvido ao longo da trama, com variações nos ensaios
• Representa o crescimento e a dor de Cora
• Última cena é ela tocando essa peça por inteiro

Desvendando o roteiro:
ROTEIRO COMPLETO – "CORA"

Gênero: Drama / Musical / Romance Época: Anos 60, Brasil Duração: Longa-
metragem (~120 minutos)
CENA 1 – INT. SALA DE ESTAR – MANHÃ

Plano fechado nas mãos de CORA (17), tocando uma peça de piano clássica. A câmera
passeia lentamente pela casa: a mãe (LAURA) costura, o pai (ROBERTO) lê o jornal, a
irmã mais nova, LÚCIA (13), desenha no chão. A música continua fluida e emotiva,
criando contraste com a vida doméstica banal.

Os créditos de abertura surgem devagar: nomes, elenco, direção. Tudo com sutileza.

A câmera faz uma transição perfeita: sem corte, o cenário vai se transformando na...

CENA 2 – INT. CONSERVATÓRIO – TARDE

...SALA DE MÚSICA. CORA ainda toca a mesma peça. Agora está com a PROFESSORA
CLARICE (50s), rígida, de postura impecável, mas com olhar atento. Ao fim da música:

CLARICE

(severo, mas sincero)

Tem sentimento. Mas ainda falta domínio. Você acha que emoção compensa o
controle?

CORA

(nervosa)

Acho que... o que eu sinto sai pelas mãos. Às vezes não dá tempo de pensar tanto.

CLARICE

(senta-se ao lado dela)

Pensar não é o problema. É saber o que não pode falhar. Quando tocar o solo final, vão
te julgar por cada nota. Cada silêncio.

CORA

(baixa os olhos)

Eu quero esse solo. Mais que tudo.

CLARICE
Então prove.

CENA 3– INT. CASA DA FAMÍLIA – TARDE

Cora está sentada na sala, estudando uma partitura no piano antigo da casa. A luz é
quente, o ambiente é aconchegante, mas há um ar pesado no ar. Lúcia, sua irmã mais
nova, entra devagar, um pouco hesitante.

Lúcia: (com voz baixa) Cora... você vai ficar acordada até tarde de novo?

Cora: (sem tirar os olhos da partitura) Tenho que praticar. Você sabe que o recital tá
chegando.

Lúcia: (sentando no sofá, mexendo nas mãos) Eu sei... é só que eu queria falar com
você sobre uma coisa.

Cora: (finalmente olhando para a irmã) O que foi?

Lúcia: (engolindo seco) Eu... eu sei que você tem saído com aquela moça... a cantora.

Cora: (franze a testa, desconfortável) Quem te contou isso?

Lúcia: Ninguém contou, eu vi. Não fiquei bisbilhotando, juro... só aconteceu de eu


passar perto do clube e ouvir vocês conversando...

Cora: (suspira, toca o piano de leve) Lúcia, você sabe que isso não é fácil pra mim.
Você entende o que essa época espera de uma mulher, né?

Lúcia: Eu sei... mas eu não acho que seja errado, Cora. Eu só fico preocupada, sabe?
Com o que pode acontecer com você.

Cora: (com um leve sorriso triste) Você sempre foi minha melhor amiga, Lúcia.
Promete que não vai contar pra ninguém?

Lúcia: (segura a mão da irmã) Prometo. Eu só quero que você seja feliz, de verdade.

Cora: (olha fixamente nos olhos dela) Eu também quero... mas às vezes, ser feliz
significa abrir mão de muita coisa.

Lúcia: (abaixa a voz) Eu só quero que você saiba que eu tô do seu lado, mesmo que o
mundo não esteja.
As duas ficam em silêncio, a tensão e o amor entre elas pairam no ar. A câmera foca
nas mãos da Cora no piano, tocando uma nota suave, melancólica.

Cena 4– Sala de Música do Conservatório – Tarde

Cora está sentada no banco do piano, com a partitura aberta. Clarice entra, firme, com
uma postura séria. A sala tem aquele ar de austeridade típica de conservatórios
antigos. Clarice para ao lado da Cora e observa o piano, depois vira-se pra ela.

Clarice: (voz firme) Então é aqui que você passa suas horas, não é?

Cora: (olhando para o piano, meio tímida) Sim, professora. Eu quero melhorar, tenho
me dedicado bastante.

Clarice: (cruzando os braços) Dedicada? Isso é pouco para o que a música exige. Você
sabe o que a música exige?

Cora: (respira fundo) Sei. Sacrifícios.

Clarice: Exato. Sacrifícios. E você está disposta a fazer esses sacrifícios? Ou quer ser
igual a todas aquelas meninas que só servem pra casar, ter filhos e sumir no mundo?

Cora levanta os olhos, surpresa e um pouco magoada, mas firme.

Cora: Eu quero ser pianista. De verdade. Não quero ser como elas.

Clarice: (aproximando-se, olhando nos olhos dela) Então precisa se afastar dessas
distrações. Distrações?

Cora: (engolindo em seco) A senhora sabe do que eu tô falando?

Clarice: (dá um leve sorriso meio triste) Sei. E é por isso que eu sou a única que vai
apoiar você. Mas vou cobrar até o fim. Porque se você não se dedicar, tudo que você
quer vai se desfazer.

Cora fecha os olhos um momento, sentindo o peso da responsabilidade.

Clarice: (mais suave) A música é uma amante exigente, Cora. Ela não admite meio
termo.

Cora: (decidida) Eu sei. Vou me dedicar.

Clarice: (sorri, quase maternal) Bom. Agora vamos começar a aula. Quero ouvir você
tocar aquele solo que está escrevendo.
Cora respira fundo, coloca as mãos no piano e começa a tocar, a música preenchendo
a sala com uma melodia cheia de esperança e melancolia.

Cena 5 – Jantar com os pais (versão expandida e


ajustada)
LOCAL: Sala de jantar da casa de Cora
TEMPO: Noite
TRILHA: Nenhuma, som diegético dos talheres e pratos

A câmera está fixa em plano médio. Roberto, Laura, Cora e Lúcia estão sentados à
mesa. A luz é quente, amarelada. A comida no centro da mesa está quase intocada. O
clima é silencioso, quase tenso.

LAURA
(sorrindo, tentando puxar conversa)
Lúcia, e a escola? Como foi o teste de matemática?

LÚCIA
Acho que fui bem... A professora disse que a turma tá melhorando.
(olha pra Cora)
Mas não tão bem quanto a Cora nos concursos dela, né?

CORA
(sorrindo de leve)
Nem é tudo isso, Lúcia...

ROBERTO
(sem levantar o olhar do prato)
Você devia se orgulhar mais, Cora. Nem todo mundo tem talento com essas... coisas.

LAURA
Roberto...

ROBERTO
O que foi? Só tô dizendo que talento é uma coisa, mas talento sem rumo não vira nada.

Silêncio desconfortável. Lúcia para de mastigar. Cora finge não se afetar, mas mexe no
arroz com o garfo, sem comer.
LAURA
(olhando pra Cora)
E aquele professor lá... como é o nome? A mulher, na verdade.

CORA
Clarice.

LAURA
Isso. Ela continua pegando no seu pé?

CORA
Ela exige muito, só isso. Mas eu gosto. Aprendo com ela.

ROBERTO
(apoiando os cotovelos na mesa, direto)
E vai fazer o quê com isso tudo? Vai viver de música agora?

CORA
(pausa, firme)
Quero tentar.

ROBERTO
Tentativa é coisa de quem não tem plano.
(levanta o olhar)
Você acha que o mundo vai abrir as portas só porque você toca bem?

LAURA
Roberto, por favor...

ROBERTO
Não tô dizendo pra ela parar. Tô dizendo pra ela pensar. Ser boa nisso é uma coisa.
Fazer disso uma vida é outra.
(pausa)
A gente não criou vocês pra viver de sonho.

LÚCIA
Mas ela é mesmo boa, pai. Todo mundo fala isso lá na escola. Até a diretora foi ver a
apresentação dela no fim do ano.

CORA
(baixa os olhos, respira fundo)
Eu sei que não é fácil. Mas... pra mim, música é mais que um sonho. É o único lugar
onde eu consigo respirar.
Roberto não responde. Começa a cortar a carne novamente. Laura olha para Cora com
uma mistura de apreensão e carinho, mas não diz nada.

A câmera se afasta lentamente enquanto o som dos talheres e pratos volta a dominar o
ambiente. Ninguém fala mais.

Cena 6– Aula com Clarice


LOCAL: Sala de piano do conservatório
TEMPO: Tarde
TRILHA: Apenas o som do piano, notas soltas, hesitantes

A sala é ampla, com janelas altas por onde entra a luz dourada do fim da tarde. Há
apenas um piano de cauda, uma estante com partituras e duas cadeiras. As paredes
têm isolamento acústico e há uma sensação de silêncio pesado no ar.

CORA está sentada ao piano. Toca um trecho de uma peça clássica — hesita numa
nota. A mão paira sobre as teclas, sem pressioná-las.

CLARICE, de pé, braços cruzados, observa.

CLARICE
(algo seca, mas não agressiva)
Você respirou antes de terminar o compasso.

CORA
(sem virar)
Eu sei. Me perdi por um segundo.

CLARICE
Com música, um segundo é uma eternidade.

Silêncio.

Cora recomeça. Toca com mais firmeza. Clarice caminha lentamente pela sala. Para
atrás de Cora.

CLARICE
(mais suave agora)
Você tem técnica. Disciplina. Mas às vezes... parece que está se escondendo atrás
disso.

CORA
(esfrega as mãos, sem olhar)
Não tô me escondendo. Eu só tô... tentando fazer direito.

CLARICE
Fazer direito é o mínimo.
(pausa)
Fazer com verdade é o que te coloca no palco.

CORA
(então vira, incomodada)
E o que é “verdade” pra você?

CLARICE
(pausa longa. A voz agora é mais baixa)
É quando eu ouço você tocar... e reconheço quem você é.
(se aproxima um passo)
Quem você é de verdade. E não quem tentam te fazer ser.

Cora abaixa os olhos.

CLARICE
(muda o tom, menos emocional)
Vai ter uma audição no fim do semestre. Convidaram professores de fora. Talvez até
da Inglaterra. Se quiser, posso te inscrever.

CORA
(demorando um pouco)
Eu... não sei.

CLARICE
(testa o limite)
Tem medo?

CORA
Tenho...
(pausa)
...de não ser o suficiente. De ser só uma aluna promissora que vai acabar tocando em
casamento ou dando aula de teclado pra criança rica.
CLARICE
Você tem mais medo de ser comum do que de fracassar.

CORA
E você não?

Clarice não responde. Anda até o outro lado da sala e pega uma partitura.

CLARICE
(seco de novo)
Leva isso pra casa.
(entrega a partitura a Cora)
É difícil. Mas se você conseguir deixar de tocar com as mãos e começar a tocar com o
peito... pode ser sua peça.

CORA
(olha pra partitura, o nome da peça não é revelado ainda)
Você acha que eu consigo?

CLARICE
(se vira de costas)
Acho que você já sabe que sim. Só não sabe se quer.

Silêncio. Cora coloca a partitura na mochila. Antes de sair, encara por um segundo o
piano, pensativa.

Cena 6 – Cora vê Rita cantando pela primeira vez


LOCAL: Barzinho pequeno, meio vazio, iluminação baixa, fumaça leve no ar
TEMPO: Noite, depois do ensaio da Cora no conservatório (ela sai tarde)
TRILHA: Som ambiente do bar e a voz da Rita cantando uma música soul/jazz suave e
expressiva

[CORA entra no barzinho meio distraída, cansada, segurando sua bolsa e um


casaco. Ela para por um instante perto da porta, observando o palco improvisado.]

No palco, uma banda pequena toca. No centro, uma voz feminina — Rita — canta com
uma entrega profunda, cheia de emoção, sua voz tem um timbre suave mas forte.
[CORA fica parada, completamente hipnotizada pela voz.]

CORA (V.O.)
(voz calma, quase um sussurro)
Nunca ouvi algo assim... não só uma música, mas um jeito de ser, uma alma falando.

Ela vai se sentando lentamente em um canto, sem querer perder um segundo do show.

A câmera foca no rosto da Rita enquanto canta, mostrando a expressão cheia de


sentimento.

Cora começa a mexer levemente o pé no ritmo, olhos fixos, os ombros relaxando


depois da tensão do dia.

[A música termina. O bar bate palmas moderadamente, algumas pessoas


conversam.]

Rita sorri para a pequena plateia, humilde, e se ajeita para a próxima música.

Cora ainda está meio fora do mundo, como se tivesse sido tocada por algo maior que
ela.

Ela solta um suspiro profundo e sorri para si mesma.

CORA (V.O.)
(mais determinada)
Quero conhecer essa voz.

Cena 7 – Barzinho de Jazz – Noite

A rua está iluminada por postes antigos, a chuva cai fininha, molhando o
paralelepípedo. Cora sai do ensaio no conservatório, meio cansada, o cabelo
levemente preso, vestido simples. Ela anda devagar, mas para ao ouvir o som de um
piano e vozes num barzinho ao lado.

Ela se aproxima da porta aberta, iluminada por uma luz amarelada. Lá dentro, uma
banda toca uma música animada, com uma cantora jovem no centro, cabelos soltos,
sorriso confiante — Rita. Os amigos dela tocam guitarra, contrabaixo e bateria com
paixão.

Cora se encosta na parede, observando em silêncio. Rita canta, e a energia no bar é


contagiante. Cora fecha os olhos por um momento, absorvendo a música.

Rita: (cantando com paixão)


"When the moon hits your eye like a big pizza pie, that's amore..."

O público bate palmas. Rita termina o solo no piano, sorri para a banda.

Depois da música, Rita se senta num canto, toma um gole do copo, relaxada.

Cora está parada perto da porta, a respiração presa.

Rita percebe e sorri.

Rita: (com um brilho nos olhos)


Gostou, né?

Cora: (um pouco tímida, mas feliz)


Sim... Eu... Não sabia que tinha um lugar assim aqui perto. Você canta muito bem.

Rita: (fazendo sinal para se aproximar)


Chega mais. Quer ouvir de novo?

Cora: (hesitando, mas animada)


Eu adoraria.

Rita puxa Cora para dentro do barzinho. A banda começa a tocar outra música mais
lenta.

Rita: (baixinho)
Eu sou Rita.

Cora: Cora.

Rita: (sorrindo)
Cora... bonito nome. O que você faz por aqui?
Cora: (olhando em volta, nervosa)
Acabei de sair do conservatório. Eu estudo piano.

Rita: (interessada)
Sério? Piano? Que legal! Aqui é meu lugar favorito pra desligar da rotina. E você, por
que não vem aqui mais vezes?

Cora: (com um sorriso tímido)


Talvez eu venha.

Ambas sorriem. O clima é de descoberta, misto de fascínio e nervosismo.

Rita: (com tom provocativo)


Se quiser, posso te mostrar os ensaios. A gente se reúne quase todo dia.

Cora: (olhando para os olhos dela)


Eu ia gostar muito disso.

Elas se encaram por um instante, o barulho da banda fica distante, como se o mundo
ali fosse só delas.

A câmera foca nas mãos de Cora, que ficam inquietas, quase tocando as de Rita, mas
sem chegar a isso.

A música sobe devagar, fade out.

Cena 8 — Cora nos ensaios da banda de Rita, construindo a amizade

Local: Sala de ensaio do barzinho


Momento: Dias depois do segundo encontro, Cora começa a frequentar os ensaios da
banda, ainda timidamente.

(A banda toca um trecho instrumental. Rita vê Cora chegando e sorri, acenando


para ela entrar.)

RITA:
Oi, você veio de novo! Gostou da música?
CORA:
(sorrindo timidamente) Sim, achei muito legal. Vocês têm um som diferente.

RITA:
(sorrindo) A gente tenta manter isso. Quer ficar pra ouvir o resto?

CORA:
(pensa por um instante e aceita) Quero sim.

(Depois do ensaio, Rita e Cora conversam um pouco mais, sem exageros.)

RITA:
Tá ficando melhor em piano?

CORA:
(tímida) Estou tentando. É difícil, mas... gosto muito.

RITA:
É isso que importa, não?

CORA:
(sorri) É.

(Corta para cenas rápidas de Cora indo aos ensaios, aos poucos se soltando,
observando Rita com mais atenção, trocando olhares e sorrisos mais sinceros,
sem pressa.)

Cena 9 — As primeiras cartas

Local: Quarto de Cora


Momento: Cora lê uma carta de Rita.

(Cora senta na cama, abre uma carta. A voz de Rita é ouvida em off, suave e
calma.)

RITA (OFF):
“Cora, gostei de te ver por aqui hoje. Sinto que tem algo especial no jeito que você
escuta a música. Espero que a gente possa se encontrar mais vezes, sem pressa. Até
logo.”

CENA 10 – ENSAIO NA CASA DE RITA (TARDE)

INTERIOR – CASA DE RITA – SALA/ESTÚDIO – TARDE

Luz natural entrando pelas janelas abertas. Alguns pôsteres na parede. A banda de Rita
ensaia. Cora senta num canto, meio tímida, segurando um caderno no colo. Rita canta
algo com intensidade, rindo entre um verso e outro com os músicos.

RITA (cantando)
♪ "Why does the sun go on shining..." ♪

Cora sorri, encantada. Quando a música termina, Rita vai até ela, suada, radiante.

RITA
— Tá ficando repetitiva essa música, né? Mas a gente tá tentando um arranjo novo.

CORA
— Eu… eu achei linda. Fiquei com a melodia na cabeça desde a outra noite.

RITA (sorrindo)
— E você, dona pianista? Vai mostrar o que sabe quando?

CORA (rindo tímida)


— Eu só… só sei o que a partitura manda. Vocês… criam, inventam.

RITA (sentando ao lado dela)


— E você sente. Isso já é o começo de tudo.

As duas se olham por um momento. O som do resto da banda ainda ajustando


instrumentos preenche o fundo.
CENA 11 – MONTAGEM DE ENCONTROS E AFASTAMENTOS LENTOS

MONTAGEM
(Sem diálogo direto. Apenas a trilha e expressões.)

• Cora indo a outros ensaios, ficando cada vez mais confortável.


• Rita a ensinando a segurar um microfone, as mãos quase se tocando.
• As duas andando pela rua à noite, rindo.
• Cora olhando pra Rita enquanto ela conversa com outros músicos, parecendo
distante.
• Cora voltando pra casa, olhando pela janela do bonde, pensativa.
• Clarice apertando sua mão durante uma aula de piano: foco nos dedos
pressionando as teclas com força.

CENA 12 – PRIMEIRA CARTA DE CORA

INTERIOR – QUARTO DE CORA – NOITE

Cora escreve à luz fraca de um abajur. Voz em off acompanha a carta.

VOZ DE CORA (OFF)


"Querida Rita,
Acho que nem sei bem como começar. Talvez porque você me desconserte um
pouco… e eu nunca fui muito boa com sentimentos. Mas queria dizer que hoje, ouvindo
você cantar, senti um tipo de calma que não encontro nem no piano. Acho que estou
gostando de estar perto de você. Mesmo quando fico muda. Mesmo quando te olho
sem coragem de dizer tudo isso."

Corte para Rita lendo a carta, deitada de bruços, sorrindo, depois colocando a carta no
peito.

CENA 13 – CARTA DE RITA (COM VOZ EM OFF)

INTERIOR – QUARTO DE RITA – MANHÃ

Rita escreve sentada na cama, uma xícara de café ao lado.


VOZ DE RITA (OFF)
"Cora,
Você escreve como toca: delicada, mas firme. Sabe que é estranho? Nunca pensei
que uma pianista certinha, cheia de partituras, fosse me fazer sentir tanto. Quando
você chega nos ensaios, parece que a sala fica com outra cor. Eu adoraria te ver tocar
algo seu, algo que tenha a ver com o que você sente. Me promete isso?"

CENA 14 – ENSAIO DE PIANO + TENSÃO COM CLARICE (VERSÃO


REVISADA)

INTERIOR – CONSERVATÓRIO – SALA DE ENSAIO – TARDE

Cora está sentada ao piano. A luz da tarde entra pelas janelas grandes. Clarice
caminha lentamente pela sala. Cora toca, mas com hesitação. Erra uma nota. Para.
Recomeça, mas está tensa.

CLARICE (sem olhar pra ela, seca)


— Respira, Cora.

Cora fecha os olhos. Respira. Recomeça. Erra de novo. Para. Silêncio.

CLARICE (mais calma, agora olhando)


— A cabeça não tá aqui hoje.

Cora encara o teclado. Silêncio por uns segundos.

CORA (baixinho)
— Eu tô tentando.

CLARICE (mais suave)


— Eu sei. Mas tentar não é o bastante pra esse repertório. Você precisa entrar nele.
Viver dentro dele.

Cora fica em silêncio. Clarice se aproxima, ainda com calma.

CLARICE
— Tá acontecendo alguma coisa?

Cora hesita. Olha pra frente, engole seco.


CORA
— Eu conheci alguém. Alguém que… me faz pensar em coisas que não cabem dentro
dessas teclas.

Clarice faz uma leve expressão de compreensão. Não reage mal.

CLARICE
— E você acha que o piano não aguenta isso?

CORA (surpresa, olha pra ela)


— Não sei. Às vezes parece que se eu abrir isso, não vou conseguir mais fechar. E aí
não vou conseguir mais tocar.

CLARICE (sentando-se ao lado dela, mais direta, mas gentil)


— Cora… às vezes a gente toca melhor quando finalmente para de esconder o que
sente. Só não deixa de tocar. Por ninguém.

Cora abaixa os olhos. Clarice se levanta e volta ao centro da sala.

CLARICE (já retomando o ensaio)


— Do início. Com o pedal mais leve.

CENA 15 – INTERIOR – CASA DE RITA – FIM DE TARDE

Som de risos abafados. Cora está sentada num canto da sala de Rita, enquanto a
banda dela ensaia. Ela observa tudo com atenção, mas principalmente Rita, que canta
algo suave e improvisado no microfone. Ao terminar, Rita sorri para Cora. A banda
começa a desmontar os instrumentos.

RITA (caminhando até Cora, animada)


— E aí? Sobreviveu ao caos?

CORA (sorrindo, tímida)


— Foi lindo. Certeza que isso não é uma banda famosa disfarçada?

RITA
— Ainda não. Mas quem sabe, né? Com você por perto talvez dê sorte.

Cora sorri, meio sem graça. Rita percebe e se senta ao lado dela.
RITA
— Você parece que vê o mundo como uma coisa delicada… mas é firme no olhar. Dá
vontade de ficar te olhando um tempão.

Cora desvia os olhos, envergonhada.

CORA
— Eu... não sei lidar com essas coisas.

RITA (rindo)
— Ótimo. A gente aprende juntas então.

CENA 16 – MONTAGEM DE ENCONTROS + VOZ EM OFF (CARTAS)

Música instrumental suave. Montagem com cenas silenciosas:

– As duas andando à noite pelas ruas vazias.


– Rita mostrando discos antigos pra Cora.
– Cora lendo uma partitura enquanto Rita deita com a cabeça no colo dela.
– Rita escrevendo uma carta com caneta-tinteiro.
– Cora lendo a carta deitada na cama. Voz de Rita em off:

VOZ DE RITA (OFF, lendo a carta)

“Cora, você toca o silêncio como se ele tivesse som. Quando fecho os olhos, ouço o
seu piano mesmo de longe. Espero que um dia a gente toque alguma coisa juntas. Ou,
quem sabe, só a vida mesmo.”

Corta para Cora escrevendo resposta. A voz de Cora em off:

VOZ DE CORA (OFF)

“Rita, às vezes penso que tudo isso é coisa da minha cabeça. Mas aí você sorri e me
puxa de volta. É estranho como a sua voz me acalma mais que qualquer sonata.”
CENA 17 – PRIMEIRO BEIJO (VERSÃO AJUSTADA)

INTERIOR – ESTÚDIO DA BANDA – NOITE

O ensaio acabou. Todos foram embora. Só Rita e Cora ficaram. O ambiente é íntimo,
com pouca luz, um abajur iluminando o espaço em tons quentes e suaves. O chão está
coberto de cabos e instrumentos espalhados.

RITA
(mexendo em alguns vinis, brincando)
— Os caras acham que têm senso de ritmo… hoje parecia que estavam correndo de
alguma coisa.

CORA
(rindo, mexendo num tamborim largado)
— Eu gosto do som que vocês fazem. Mesmo quando erram, ainda soa como vocês.

RITA
(olha pra ela por um segundo mais longo)
— Tu fala bonito.

CORA
(sorri de leve)
— Eu só falo o que sinto.

Um silêncio se instala, não desconfortável, mas denso. Cora passa os dedos por uma
corda solta de guitarra. Rita se aproxima, devagar. Elas estão perto, quase se tocando.
O mundo lá fora silencia.

Os olhares se encontram. Nenhuma palavra. Apenas respiração.

Cora fecha os olhos primeiro. Rita a beija. Um beijo delicado, calmo, cheio de algo
contido há dias. Não há pressa. É como se tudo ao redor desaparecesse.

Quando se afastam lentamente, ainda coladas uma na outra, só o som distante da


cidade respira com elas.

Rita vai até o canto da sala, tira o disco da capa, coloca no toca-discos. A agulha desce
— “The End of the World” começa a tocar baixo. Elas riem de algo, o som do vinil
chiando de leve. Depois o riso some. O clima muda. O beijo acontece. A música sobe.
A câmera começa a se afastar em câmera lenta, pela porta, pelo corredor vazio.
CENA 18 – INTERIOR – QUARTO DE LÚCIA – NOITE

Cora entra devagar no quarto da irmã. Está com uma carta da Rita nas mãos. Vai
guardar numa gaveta, mas Lúcia está ali, deitada, observando. Silêncio constrangedor.

LÚCIA (devagar)
— É dela, né?

Cora para. Fica imóvel.

CORA (sem olhar)


— Não era pra você ver.

LÚCIA (com carinho)


— Eu não vou contar nada. Mas... é verdade?

Cora hesita, olha pra irmã com olhos marejados.

CORA
— Eu não sei o que é, Lu. Só sei que… quando eu tô com ela, eu respiro melhor.

LÚCIA (depois de uma pausa)


— Eu acho errado. Não vou mentir. Mas... tu é minha irmã. E eu te amo. Só cuida de ti,
tá?

Cora se aproxima, abraça a irmã. Longo silêncio.

CENA 19 – INTERIOR – SALA DE AULA – DIA

Cora toca seu solo. Clarice observa. Ao terminar, Cora para, sem olhar pra professora.

CORA
— Chegou uma carta do Conservatório da Inglaterra.

CLARICE (apenas ouve)


— E o que ela dizia?

CORA
— Me querem lá. Com bolsa. Por um ano.

Silêncio. Clarice caminha até ela, senta ao lado.


CLARICE (calma)
— E por que você parece tão triste com isso?

CORA (quebrando um pouco)


— Porque eu sei o que isso significa. Sei o que eu vou deixar.

CLARICE
— Você sabe o que quer, Cora?

CORA (quase sussurrando)


— Queria não querer. Mas quero.

Clarice segura a mão dela por um instante.

CENA 20 (REESCRITA) – INTERIOR – CASA DE RITA – INÍCIO DE NOITE

Cora chegou há pouco. Está sentada com a mochila no colo, nervosa. Rita percebe. Há
um clima estranho no ar.

RITA (encostada no batente)


— Tu tá parecendo que viu um fantasma.

CORA (desviando o olhar)


— Chegou uma carta. Da Inglaterra.

RITA (confusa)
— E o que tem nela?

CORA
— Me aceitaram no Conservatório. Bolsa integral. Um ano.

Silêncio. Rita se afasta um pouco, tentando entender. Senta no sofá, devagar.

RITA
— Um ano?

CORA
— É tudo que eu sonhei. Desde criança. O lugar, os professores, os pianistas de
verdade...

RITA (interrompe, amarga)


— E eu sou o quê? Um erro no caminho?

Cora se levanta, vai até ela.


CORA
— Não fala assim. Você é... o que eu nunca pensei que existia. Mas isso... isso veio
antes. Eu não esperava você.

RITA (baixa a cabeça)


— Eu não quero ser só uma surpresa bonita. Eu te amo, Cora.

CORA (segura a mão dela)


— Eu também. Mas isso... é a única coisa que eu sou. Se eu não for atrás, vou me
apagar.

RITA (quase chorando, tentando conter)


— Então vai. Mas saiba: amor também é escolha. E você escolheu o piano.

Cora começa a chorar. Se ajoelha perto de Rita.

CORA
— Eu escolhi não mentir. Eu escolhi não te prender. Mas se você estiver lá… no último
dia… se você ainda me ouvir… eu vou tocar pra você.

Rita não responde. A câmera foca em sua mão soltando devagar a mão de Cora.

Silêncio. Fade out.

CENA 21 – MONTAGEM DE DESPEDIDA + PARTIDA

Cora deixa pequenos envelopes pela casa: um para Lúcia, um para os pais, um para
Clarice. Em cada, um convite para a apresentação final no conservatório.

Ela guarda um envelope separado. Põe num envelope diferente. No fundo da mochila,
junto com as cartas de Rita.

Corta para ela caminhando com mala, sozinha. Ruas cinzentas. Um táxi. O som do
piano começa ao fundo.

CENA 22 – INTERIOR – QUARTO EM LONDRES – NOITE

Cora chega ao alojamento. Coloca a mala no canto. Silêncio. Senta-se na cama. Olha
para o teto. Fecha os olhos. Fade to black.
CENA 23 – 1 ANO DEPOIS – INTERIOR – SALA DE CONCERTO

Cora se prepara no backstage. Está com outro vestido. Cabelos presos. O som do
público se assentando. Clarice está na plateia. Lúcia também. Os pais, mais duros,
estão ao fundo. Mãos ansiosas.

Do lado de fora, uma moto para. Rita desce. Está diferente, mas carrega o convite nas
mãos. Entra no teatro discretamente.

Cora entra no palco. Caminha até o piano. A luz no público é baixa, mas os olhos dela
encontram Rita, sentada ao fundo.

Elas se encaram por alguns segundos. Um silêncio enorme.

Cora senta-se ao piano. Fecha os olhos. Começa a tocar. Longa tomada da música. A
câmera passeia entre os rostos da plateia, da irmã, de Clarice, dos pais… e por fim, de
Rita.

Cora toca com emoção. A música sobe. Não há aplausos ainda.

FIM.

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