Ministério Público e Racismo no Brasil
Ministério Público e Racismo no Brasil
O Lixo Vai Falar: Racismo, Sexismo e Invisibilidades do Sujeito Negro nas Narrativas
de Direitos Humanos..................................................................................................... 125
Ciani Sueli das Neves
Direito de viver sem violência: proteção e desafios dos direitos das mulheres
indígenas no Sistema Interamericano de Direitos Humanos...................................... 417
Julia Natália Araújo Santos e Felipe Rodolfo de Carvalho
Resumo
** Promotor de justiça do MP/BA, mestre This article aims to analyze the racial profile of the Public Ministry of Bahia,
em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela as well as to identify the dynamics of access to spaces of power, within the
UFBA, mestrando em raciocínio probatório
pela Universidade de Girona/ES, professor de
institution, by black prosecutors. It is verified how the racial profile of the
processo penal convidado da pós-graduação institution can interfere in its commitment to the defense of fundamental
lato sensu em Ciências Criminais da Universi- rights. The hypothesis is that the Public Prosecutor’s Office in Bahia de-
dade Católica de Salvador (Ucsal). Associado
velops its constitutional activities under the illusion of a racial democracy,
do Instituto Baiano de Direito Processual Penal
(IBADPP). E-mail: mattossaulo@[Link] which would exist both inside and outside the institution, which distances
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
it from real social demands. In this article, multidisciplinary analysis (dogmatic, history and critical racial
theory) connects with the intersectional perspective of race and gender (black feminism). Theoretical fra-
meworks are the concepts of structural racism, anti-blackness, quilombism and amefricanity. With a hypo-
thetical-deductive methodology, with an analytical bias, bibliographic research, document analysis (posses-
sion speeches and press news) and quantitative data collection on race and gender at the Public Prosecutor’s
Office of Bahia were used, with emphasis on dome bodies ( Attorney General and Internal Affairs). When
analyzing the modern conception of the Public Ministry, historically located in the period of the French
Revolution, from where the conceptual abstraction Rule of Law arises, it was concluded, through the men-
tioned concepts, that the Public Prosecutor’s Office in Bahia is immersed, institutionally and socially, in
an anti-black environment, which weakens the exercise of its constitutional attributions. The approach is
original due to the absence of a specific study on the racial profile of the Bahia Public Prosecutor’s Office,
which is committed to an analysis qualitatively marked by racial criticism.
Keywords: Public Prosecutor; Racial Profile; Anti-blackness.
1 Introdução
Defender e garantir direitos fundamentais é uma das composições vocabulares mais expressivas do texto
constitucional. A Constituição de 1988 entrega essa ação de promoção da dignidade da pessoa especialmen-
te ao Ministério Público (art. 127/CF), sem que com isso sejam anulados outros programas normativos
direcionados às demais instituições, direta ou indiretamente, ligadas aos direitos humanos positivados no
ordenamento jurídico.
Essa montagem discursiva constitucional, sinteticamente apresentada como promoção da dignidade hu-
mana, é também a base normativa e axiológica da democracia brasileira. A democracia deve existir para
que todos (as) consigam ter, com preservação de seus direitos fundamentais, uma existência digna. É uma
definição mínima e teleológica de democracia, e que se encontra bem estabilizada na doutrina1, embora, às
vezes, com alguns adjetivos que criticam a solidez da democraticidade brasileira: tardia, incompleta ou em
vias de concretização.
No âmbito jurídico, as discussões constitucionalistas, como regra, estão focadas em realizar um desfile
de momentos históricos do cenário político brasileiro — democracia e hiatos ditatoriais ou, noutro formato,
1
Valendo-se de uma Teoria Política Purista, essa definição de democracia é adotada por José Afonso da Silva, um dos precursores
da doutrina constitucional brasileira. Cf. SILVA, José Afonso da. Comentários contextual à Constituição. 2ªed. São Paulo: Malheiros, 2006.
p.41. Seguindo essa linha purista, ao tratarem da complexidade social para a realização da democracia, Streck e Bolzan elencam a
escola, o consumo, os afetos e as relações jurídicas e jurisdicionais como fatores que integram o conteúdo da democracia; todavia,
nada registram sobre a questão racial brasileira. Cf. STRECK, Lenio Luiz; MORAIS, José Luís Bolzan de. Ciência política e teoria do
estado. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2019. p. 134-136. No mesmo sentido, Ayres Britto, apesar de o tom poético para definir
a democracia como um megaprincípio, se mostrou omisso sobre a importância de se debater a questão racial para a efetivação da
democracia brasileira. Cf. BRITTO, Carlos Ayres. Teoria da constituição. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p. 183. Ao abordarem noções
críticas sobre a participação social à luz de uma teoria democrática, Braulio Santos e José Magalhães não tratam da questão racial
brasileira. Cf. MAGALHÃES, José Luiz Quadro; SANTOS, Braulio Magalhães. Notas para um debate principiológico sobre participação à luz
de uma teoria democrática. Rev. Bras. de Políticas Públicas, Brasília, v. 1, n. 2, p. 1-30, jul./dez. 2011. Em sentido diverso, o constitucion-
alista Daniel Sarmento, abordando criticamente, a partir da lupa étnico-racial, o princípio constitucional da igualdade como forma de
implementação de uma democracia substancial, com considerações sobre discriminação de facto e teoria do impacto desproporcional.
Cf. SARMENTO, Daniel. Livres e iguais: estudos de direito constitucional. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2006. p. 143-147. Outra
perspectiva interessante e que, de forma propositiva, sugere justificado desvio da tradição constitucional purista, é a leitura histórico-
funcional proposta por Bruno Barros e Rita Albrecht, que concebem a historicidade da população negra brasileira, carimbada pela
discriminação racial, como terreno adequado para se sustentar a ideia de cidadania inclusiva, tão especial à noção de democracia escrita
na Constituição. Cf. BARROS, Bruno Mello Correa; ALBRECHT, Rita Mara. A discriminação racial no Brasil e a ascensão do povo negro:
um olhar a partir dos princípios constitucionais na luta pela cidadania inclusiva. Revista Brasileira de Políticas Públicas, v. 9, n.º 1, p. 14-33, 2019.
Ver, ainda, a brilhante dissertação de mestrado de Livia Vaz, intitulada Ações Afirmativas: aplicação às políticas de saúde para a população negra.
UFBA-2006 – 222p. Disponível em [Link] Acesso em: 10. ago. 2020.
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ditaduras e hiatos democráticos. Nesse desfile teórico de ideias, quase sempre os debates estão relacionados à
maior ou menor amplitude de direitos fundamentais que foram positivados na Constituição. Pouco se diz, no
entanto, quanto ao devir escravocrata que compõe a estruturação social e política do Brasil, e que, portanto, é
base sociológica fundamental para se pensar em efetivas alternativas à implementação de direitos fundamentais.
Impossível falar sobre direitos fundamentais sem debater e pensar em estratégicas político-jurídicas que
analisem a estrutura racista em que está imersa a sociedade brasileira e tende a se perpetuar no espaço in-
tergeracional. Opera-se com vigor uma transmissão de sesmarias de privilégios sociais entre pessoas que
integram um mesmo grupo étnico-racial: a branquitude e suas múltiplas personas que se refestelam entre si.
Regogizam-se em detrimento de outro grupo, a negritude2, assim designada pela “marca de ferro quente”
herdada durante o transcurso de uma contínua e multissecular opressão racial, que a exclui constantemente
do acesso a uma vida digna, mais leve, menos traumática, não tão tentadora ao suicídio, esquiva da ação
destrutiva em massa politicamente determinada pelo racismo estrutural.
Conforme enfatiza Silvio Almeida, o racismo estrutural deve ser lido com base na Teoria Social, de ma-
neira que não é um tipo específico de racismo, pois racismo é sempre estrutural enquanto elemento que or-
ganiza a sociedade em relações econômicas, políticas e de formação de subjetividades, formatando práticas
institucionais, sociais e estilos de pensar que têm como base a superioridade étnico-racial.3
Como a doutrina e dogmáticas constitucionais oferecem ferramentas conceituais que são manejadas
pelas instituições estatais, principalmente as do sistema de justiça, tem-se, como primeira reflexão, o fato
de que as instituições de justiça desempenham suas atividades, a partir de um conceito abstrato, quase fic-
cional, de democracia. Conceito que, distante das relações raciais assimétricas que caracterizam a sociedade
brasileira, se torna incapacitante de vidas. No Brasil, em especial no ciclo das elites medianas, o racismo é
tratado como assunto superado: ou nunca existiu ou foi resolvido pelo processo de miscigenação brasileira,
configuradora da fantasiosa democracia racial.
Essa é uma interpretação que pode ser extraída da ausência de discussão, em livros e congressos jurídi-
cos, sobre a questão racial brasileira. A temática racial tem sido debatida, como regra, apenas sobre aspectos
relacionados a cotas4 e o exercício de direito de propriedade referente as algumas comunidades quilombolas
remanescentes5. Ainda assim, a temática é enquadrada como uma conquista jurídica e ideológica de movi-
mentos negros, e não como a grande discussão a ser travada para a implementação da Constituição. Não
poderia ser diferente. Os escritores daqueles livros e os palestrantes daqueles congressos costumam integrar
o grupo social que entre si exerce o cúmplice silêncio que assegura os típicos privilégios da branquitude.
Como consequência, toda instituição jurídica que se vale, inadvertidamente, dessa concepção artificial de
democracia, que entende como realizada a democracia racial, multiplica, nas práticas do universo jurídico,
essa artificialidade conceitual que abrevia direitos e cancela projetos de vidas, para os quais se mortificam
2
Ao abordar as significações que podem ser atribuídas à negritude, que poderia ser uma palavra constantemente designada no
plural, Kabengele Munanga indica a existência de fatores históricos, linguísticos e psicológicos que interagem entre si na definição
de negritude. Considera que “a negritude e/ou a identidade negra se referem à história comum que liga de uma maneira ou de outra
todos os grupos humanos que o olhar do mundo ocidental ´branco´ reuniu sob o nome de negros. A negritude não se refere so-
mente à cultura dos povos portadores da pele negra, que de fato são todos culturalmente diferentes. Na realidade, o que esses grupos
humanos têm fundamentalmente em comum não é como parece indicar, o termo Negritude à pele, mas sim o fato de terem sido,
na história, vítimas das piores tentativas de desumanização e de terem sido suas culturas não apenas objeto de políticas sistemáticas
de destruição, mas, mais do que isso, de ter sido simplesmente negada a existência dessas culturas.” Cf. MUNANGA, Kabengele.
Negritude-usos e sentidos. 4ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 19.
3
Cf. ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Polén, 2019. p. 20 -21.
4
Uma abordagem interessante sobre o tema, com referências a teorias da justiça, se encontra em MINHOTO, Antonio Celso
Baeta. Refletindo sobre liberdade e igualdade dos negros: as ideias de Rawls e Walzer para um debate da ação afirmativa. Revista Brasileira de Políti-
cas Públicas, v. 3, n.º 1, p.105-117, 2013.
5
Neste sentido, denunciando o descaso estatal e social à compreensão dos modos de existir das comunidades quilombolas, vale
a pena conferir: MAGNAVITA, Andréa Costa. Invisibilidade pública: a história quilombola. Padê: Estudos em filosofia, raça, gênero e
direitos humanos, v. 1, n.º 1, p. 17-33, jan./jun. 2010
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dois objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade justa, livre, solidária
e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
de discriminação.6
Ainda assim, mesmo ao se afirmar, inicialmente, a existência de um racismo estruturante da sociedade
brasileira, deve-se pensar em outra chave analítica, que avança para uma compreensão mais crua e próxima
da realidade brasileira. Fala-se da antinegritude7. Por essa visão, “a antinegritude torna abjeto tudo o que é
supostamente ligado à negritude. A antinegritude torna não lugares todos os espaços marcados pela negri-
tude: espaços físicos, espaços metafísicos, espaços ontológicos, espaços sociais.”8
No Brasil, a questão racial não é só uma pauta que evidencia a segregação de grupos étnicos diferentes.
É uma segregação que, na raiz das existências intersubjetivas, destrói, sistematicamente, vidas negras, a
todo tempo. A cada dia, novas notícias da mídia sobre a morte de jovens e crianças negras moradoras das
comunidades. Como diz João Costa Vargas, “a morte negra não causa escândalo.9”
E essa marca não escandalizante, não espantosa, da morte negra é exemplo diário da antinegritude brasileira.
Pela lupa da antinegritude, verifica-se a descartabilidade da negritude, de modo que pessoas negras “consti-
tuem o não ser que fundamenta as subjetividades não negras do mundo moderno10”. Mostrar-se-á como essa
lógica pode ser levada para uma nova leitura sobre as relações institucionais e sociais do Ministério Público.
Não há e nunca houve democracia racial no Brasil, situação que já foi denunciada por intelectuais negros
(as) há muito tempo, como Abdias Nascimento que, na década de setenta, em nenhum momento recuou
em seu pensamento para afirmar, com dados empíricos, no plano nacional e internacional, nas Conferências
Mundiais de Artes e Culturas Negras, que a democracia racial e o discurso da metarraça brasileira são meca-
nismos usados para a continuidade branca no poder. Com isso, Abdias Nascimento não somente denunciava
o processo de um racismo mascarado, apontava sobretudo para o fato de que esse racismo mascarado tem
provocado o extermínio sistemático da negritude, ao que se pode chamar de genocídio do negro brasileiro.11
A intelectual Lélia Gonzalez não deixou de registrar que, a respeito dessa democracia racial, a população
negra somente deteriora suas condições materiais e psicológicas, justamente o que aconteceu na década de
6
Em recente artigo, a constitucionalista Ana Paula Barcellos, ao apontar a desconexão do constitucionalismo brasileiro em relação
às novas ideologias constitucionais surgidas na América Latina, que abraçam o pluralismo jurídico, diz que o Judiciário brasileiro
combina supremacia constitucional com o monismo jurídico, e continua a valorizar uma concepção estadocêntrica como base
regulativa da ordem jurídica. A referida autora, buscando desenhar um novo cenário para o constitucionalismo brasileiro, apesar de
reconhecer as normatividades de origem indígena, passa ao largo da questão racial. C.f. BARCELLOS, Ana Paula Gonçalves Pereira
de. Constituição e pluralismo jurídico: a posição particular do Brasil no contexto latino-americano. Revista Brasileira de Políticas Públicas, v. 9, n.
2, p. 170-183, 2019.
7
A antinegritude, enquanto marco teórico, radicaliza a discussão racial, no sentido de colocar a condição de não-ser da pessoa
negra como fundamento ontológico da própria Modernidade. Nesse sentido, pode ser vista como uma superação da proposição
teórica trazida pelo racismo estrutural, e apresenta novo paradigma teórico, embora não negue a importância da concepção teórica
do racismo. Por isso, o uso conceitual da noção de antinegritude é feita, no presente artigo, em uma perspectiva dinâmica, como um
passo além da ideia de racismo estrutural, um estágio trágico da questão racial. Todavia, o autor João H. Costa Vargas não adota essa
linha de raciocínio, no sentido de que, para se identificar a antinegritude, primeiramente há de se verificar o racismo estrutural. A
própria antinegritude, pela ontologia que traz em sua formulação teórica, arrasta consigo o antagonismo estrutural, com nova díade
classificatória: negros/não-negros. Pela ótica racista, diferentemente, o mundo social está dividido em pessoas brancas e pessoas
não-brancas. VARGAS, João H. Costa. Racismo não dá conta: antinegritude, a dinâmica ontológica e social definidora da modernidade. Revista
Em Pauta: teoria social e realidade contemporânea, v. 18, n.º 45, p. 16-25, 2020.
8
VARGAS, João H. Costa. Racismo não dá conta: antinegritude, a dinâmica ontológica e social definidora da modernidade. Revista Em Pauta:
teoria social e realidade contemporânea, v. 18, n.º 45, p. 16-25, 2020.
9
VARGAS, João Costa. Por uma Mudança de Paradigma: Antinegritude e Antagonismo Estrutural. Revista de Ciências Sociais. Fortaleza,
v.48, n.º 2, p.83-105, jul./dez., 2017.
10
VARGAS, João H. Costa. Racismo não dá conta: antinegritude, a dinâmica ontológica e social definidora da modernidade. Revista Em Pauta:
teoria social e realidade contemporânea, v. 18, n. 45, p. 16-25, 2020.
11
NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2016. p.54.
Para uma visão do genocídio da população negra e o caráter rudimentar do direito internacional em relação a essa questão: FLAUZ-
INA, Ana Luiza Pinheiro. As fronteiras raciais do genocídio. University of Brasília Law Journal (Direito. UnB), v. 1, n. 1, p. 705, 2016.
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64 com o golpe militar, utilizando-se o negro como mão de obra baratíssima, perseguido pela polícia, tendo
que mostrar uma carteira profissional como indício de algum grau de cidadania.12
Lelia Gonzalez diz também como a afirmação da igualdade jurídica é puramente formalista, diante de
uma realidade social latino-americana, que apresenta um racismo sofisticado para deixar negros e índios em
cativeiros sociais, sendo explorados, ao máximo, na dinâmica do capitalismo e absorvidos pela ideologia do
branqueamento. Com razão, Lelia Gonzalez convoca a uma retomada consciente de um fato histórico — a
presença da “África” na América-Latina — para que, então, a negritude estabeleça um cotidiano afrocen-
trado. A referida pensadora estabelece a categoria político-cultural da Amefricanidade, a qual, ao lado dos
conceitos de racismo estrutural e antinegritude, integra o conjunto de demarcadores teóricos do presente
artigo.13
Feita essa contextualização, para exemplificar a importância de o Ministério Público ser compreendido
com base no enfoque das relações raciais no Brasil, escolheu-se o Ministério Público baiano como espaço
institucional de análise, já que está situado em um Estado, cuja população é predominantemente negra, com
percentual de 80% de pretos e pardos, conforme últimos dados apresentados pelo IBGE.14
Nesse sentido, a hipótese trabalhada neste artigo se refere à ideia de que o Ministério Público baiano
desenvolve suas atividades constitucionais, baseado na ilusão de uma democracia racial, que existiria tanto
dentro como fora da instituição, o que acaba por afastá-lo das reais demandas sociais. A partir dessa hipóte-
se, tenta-se identificar o perfil racial do Ministério Público baiano e pensar se esse perfil racial é uma variável
importante a ser considerada para a efetividade das atribuições constitucionais.
Analisa-se a dinâmica da antinegritude institucional, quando se verifica, por meio de retrospectiva histó-
rica do fluxo de carreiras da instituição, a real possibilidade de promotores (as) negros (as) assumirem po-
sicionalidades de liderança institucional, e qual o reflexo disso na própria concepção de Ministério Público.
Como substrato histórico, desenvolveu-se raciocínio crítico quanto à Revolução Francesa (1789), que,
apenas com a proclamação de ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, não conseguiu garantir a forma-
ção de um Estado de Direito, que se afastasse da opressão aos mais vulneráreis. Contrapõe-se a Revolução
Francesa à Revolução do Haiti (1791-1804), cujos efeitos positivos se mostraram assustadores à França.
Realiza-se uma crítica racial à Revolução Francesa, indicando-se como, de fato, ela não foi pensada para
todos.
Essa crítica, que se libera de uma visão linear do fluxo histórico da humanidade, se revela importante, na
medida em que o Ministério Público brasileiro guarda suas raízes modernas nessa época dita como procla-
madora de direitos universais. A luminosidade constitucional do Ministério Público tem como base histórica
as concepções iluministas do século XVIII. A não linearidade histórica mostra como o século das luzes não
proporcionou uma iluminação tão potente para os novos fatos históricos que lhe seguiram.
Escolhida a metodologia hipotética-dedutiva, de viés analítico, foram analisados dados quantitativos re-
ferentes à composição racial do Ministério Público da Bahia, desde o quadro geral de promotores de justiça
até a Administração Superior, considerada, ainda, a variável gênero. As informações foram solicitadas, por
e-mail, à Secretaria-Geral do Ministério Público, que conseguiu, por meio do Sistema Integrado de Gestação
de Informação (SIGA), passar um panorama quantitativo sobre a composição racial da instituição.
Todavia, nem todas as solicitações foram atendidas, diante da natural dificuldade de compilar, em pouco
tempo, dados que envolvem uma instituição organicamente complexa. Por isso, neste artigo, apresentam-se
12
GONZALEZ, Lélia. O golpe de 64, o novo modelo econômico e a população negra. In: GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos
Alfredo. Lugar de negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982. p. 11-18.
13
GONZALEZ, Lelia. A categoria política-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. N. 92/93 (jan./jun). Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1988 p. 69-82.
14
Informações disponíveis em [Link]
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os primeiros dados obtidos sobre o perfil racial do Ministério Público baiano, cuja complexidade se intensi-
fica quando se pensa no cruzamento desses dados nos diversos espaços de poder da instituição.
Algumas situações históricas, peculiares à questão racial no Ministério Público da Bahia, serão menciona-
das como forma de proporcionar, de maneira mais detalhada, uma compreensão qualitativa desses primeiros
dados
Antes de se abordar especificamente a estrutura racial do Ministério Público, far-se-á um rápido bosque-
jo histórico dessa ideia de vocação libertária denominada de Ministério Público.
A determinação histórica do surgimento do Ministério Público pode ser atribuída a uma origem remota,
vinculada à civilização egípcia e Antiguidade Clássica, com agentes públicos chamados, respectivamente, de
Magiaí (Egito), Temóstetas (Grécia Antiga) e Praetor Fiscalis (Roma Antiga), que exerciam funções públicas
relacionáveis a atividades que hoje são desenvolvidas pelo Ministério Público: formalização de acusações
penais e tutela de pessoas incapazes para o exercício de seus direitos.
Pode ser referida a uma origem próxima, quando o Ministério Público passa a ser organizado como
carreira de Estado no século XIII na França, reunindo em uma só instituição, o exercício daquelas funções
antes exercidas de forma pulverizada na Antiguidade, além de outras que foram acrescentadas conforme as
necessidades políticas do momento de sua densificação institucional.
Há, também, e de extrema relevância para a compreensão da feição moderna do Ministério Público, o
momento histórico em que esse modelo estruturado de Ministério Público, corporificado mais ainda com o
Code d´Instruction Criminelle de 1808, regido pela imposição política do autoproclamado imperador Napoleão
Bonaparte, passa a ser expandido para a Europa como decorrência das invasões napoleônicas.15
Em relação a essa breve noção histórica, a ideia de Ministério Público, que foi disseminada para o mun-
do — Europa e respectivas colônias recém-libertas —, ocorre após o marco político que redimensionou
a visão de Estado na Europa — a Revolução Francesa de 1789 —, que, com o tema liberdade, igualdade e
fraternidade, conseguiu que esse bloco de ideias liberais fosse utilizado num modelo de Estado de Direito,
que, nos próximos anos, seria amplamente implantado na Europa.
A ideia de Ministério Público que prevaleceu no mundo está atrelada a uma propulsão ideológica bur-
guesamente revolucionária e liberal, que se satisfez, enquanto garantia de estabilidade política de uma nova
dimensão da teleologia estatal (Estado de Direito), em assegurar formalmente liberdades públicas antes
ignoradas pelo Antigo Regime. A juridicização formal dos princípios da igualdade, liberdade e a lógica de
separação de poderes no trato da coisa pública encontraram respaldo e pretensão universalizante na Decla-
ração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Do século XVIII em diante, haverá a burocratização
administrativa do Estado para suportar, com o desenvolvimento de carreiras estatais e funções públicas, os
desejos liberais do Estado de Direito.
Contudo, essa linearidade histórica que aponta para uma transição gloriosa do Antigo Regime, denuncia-
do como atroz, para o luminoso Estado de Direito é contestada por estudiosos do direito público. Gustavo
Binenbojm considera essa linearidade histórica como uma ilusão garantística e mal compreendida do sur-
gimento do Estado de Direito. O referido autor registra que o aparecimento do Estado de Direito se dá
15
Sobre as discussões referentes à origem histórica do Ministério Público: MAZZILLI, Hugo Nigro. Introdução ao ministério público.
São Paulo: Saraiva, 2005. p. 35-38; GOULART, Marcelo Pedroso. Elementos para uma teoria geral do Ministério Público. Belo Horizonte:
Arraes Editores, 2013. p. 69-74; LIMA, Polastri Marcellus. Ministério Público e Persecução Penal. 5ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016. p.
26-35. ZANETI JR, Hermes. O Ministério Público e o novo processo civil. Salvador: JusPodivm, 2018, p. 15-38.
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de forma paradoxal, pois as categorias jurídicas nomeadas de legalidade, supremacia do interesse público,
prerrogativas da Administração e separação de poderes representam antes “uma forma de reprodução e
sobrevivência das práticas administrativas do Antigo Regime que sua superação”. 16
Gustavo Binenbojm sustenta essa conclusão na referência histórica de que o Direito Administrativo, na
França pós-revolucionária, ao contrário do que se costuma acreditar doutrinariamente, não surgiu da sub-
missão do Estado à vontade heterônoma do legislador, mas da própria autorregulação do Executivo francês,
marcada por uma postura de insubmissão ao Parlamento. Por essa razão, desenvolveu-se, com força, o mo-
delo de Contencioso Administrativo francês, em que a Administração julgaria a si própria, o que revela boa
dose de desconfiança do Executivo em relação aos tribunais judiciais, um dos três Poderes.17
As inconsistências do liberalismo político francês também foram verificadas quanto à extensão do pró-
prio conceito de liberdade. Domenico Losurdo relata que, no contexto do intelectualismo liberal francês,
encontra-se em Montesquieu, na sua clássica obra Espírito das Leis (1748), definições que apontam para
uma repulsa seletiva à escravidão, que deveria ser abolida na Europa, mas que poderia ser mantida, com uma
menor carga opressiva no entanto, nos povos colonizados do sul do mundo, cujo clima quente favoreceria
à permissão da escravidão, para que se explorasse um povo naturalmente debilitado por esse clima. Haveria,
então, liberdade, igualdade e fraternidade plenas para uns, nem tanto para outros.18
Outra significativa reflexão sobre os paradoxos da Revolução Francesa e a escravidão refere-se a Susan
Buck-Morss, que articula fundamentos históricos no sentido de que os ideais revolucionários franceses
eram retóricos e selecionados para uma determinada expressão de poder social, que, na prática, pouco se
preocupava com a continuidade da escravidão, inclusive em relação às próprias colônias francesas. A prova
real da inconsistência filosófica-prática da Revolução Francesa se verificou com a Revolução Haitiana de
1791, que se dá, na colônia francesa de Saint-Domingue, com meio milhão de escravos, organizados e
armados, que conquistaram a liberdade, transformando-se em movimento revolucionário que inspiraria
revoluções em outras colônias francesas, abrindo os olhos do mundo para uma liberdade real.19
Se é possível apontar uma gênese política do Ministério Público Brasileiro, também conhecido pela ex-
pressão francesa Parquet20, é no contexto político acima descrito que começam a ser idealizadas que o faz ter
atividades institucionais destinadas a garantir liberdade e igualdade para todos.
Como para todos, se são 132 anos de abolição inconclusa, com contínuo abafamento sangrento de vozes
negras?21
16
BINENBOJM, Gustavo. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e constitucionalização. 3ª ed. Rio de Janeiro:
Renovar, 2014, p. 11.
17
BINENBOJM, Gustavo. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e constitucionalização. Rio de Janeiro:
Renovar, 2014, p. 13-14.
18
LOSURDO, Domenico. Contra-história do liberalismo. Trad. Giovanni Semeraro. São Paulo: Ideias e Letras, 2020. p. 63 - 67.
19
BUCK-MORSS, Susan. Hegel e Haiti. Novos estudos. - CEBRAP, São Paulo n. 90, p. 131-171, jul. [Link]ível em
<[Link] 3002011000200010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 15 mai.
2020. [Link] Outra visão interessantíssima é a desenvolvida por Evandro Piza e
Marcos Queiroz, que, além de contrapor a Revolução Hatiana a essa historicidade linear que considera a revolução francesa como
ponto crucial das novas civilizações ocidentais, sugere novo olhar sobre o tradicional historicismo constitucional, a partir da cat-
egoria Atlântico Negro, desenvolvida no livro homônimo, do britânico Paul Gilroy. A proposta é conceber o Constitucionalismo e
a própria Modernidade sob as heterogeneidades de concepções e narrativas das diásporas africanas. Cf. DUARTE, Evandro Charles
Piza; QUEIROZ, Marcos Vinícius Lustosa. A Revolução Haitiana e o Atlântico Negro: o Constitucionalismo em face do Lado Oculto da Mod-
ernidade. Revista Direito, Estado e Sociedade, n.º 49, p. 10-42. jul/dez.2016.
20
De acordo com Fernando da Costa Tourinho Filho, “na França antiga os Procuradores e Advogados do Rei não se sentavam
sobre o mesmo estrado onde ficavam os Juízes, mas sobre o soalho (parquet) da sala das audiências, como as partes e seus repre-
sentantes. Hoje, não obstante os membros do Ministério Público fiquem no mesmo plano, a denominação “Parquet” é empregada
para se referir à Instituição do Ministério Público.” [Link] FILHO, Fernando da Costa. Manual de processo penal. São
Paulo: Saraiva, 2012.p.396.
21
Ao lado do caráter específico da escravização brasileira, trucidante de corpos negros, a sociabilidade institucional brasileira, con-
forme mostra Daina Tello, se encontra imersa em cultura latino-americana que não tem por hábito reconhecer os próprios erros, seja
por medo de receber alguma censura pública ou perder a autoridade, o que impede o nascer de uma política estatal marcada pelo
273
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
Florestan Fernandes, ao analisar sociologicamente o início da “livre” participação do negro no mundo
dos brancos, registra que as ideias de economia de mercado, trabalho livre e modernização institucional não
foram, na prática, tão promissoras quanto pareciam ser. Negros, rotulados de pessoas de cor, continuaram,
no pós-abolição, submetidos a uma categorização sociorracial que autorizava a exploração desmedida de
sua força de trabalho pelo segmento branco da sociedade. A inserção do negro no mundo branco foi regida
por esse formato de relação racial assimétrica, continuando-se a lógica escravocrata22.
No mesmo sentido, com enfoque na relação colonizador/colonizado, Albert Memmi retrata que, assim
como a burguesia necessita da imagem caricatural do proletariado, o colonizador “demanda e impõe uma
imagem do colonizado”. Em síntese, são imagens de tempos históricos diferentes, que se confundem, no
entanto, na temática opressora. São imagens criadas pelos que se acham na condição de verticalizar a ação
do poder e atribuir imagens a outro, desde que estas justifiquem a atitude exploratória do colonizador/
burguês23.
Feito esse parêntesis, não por acaso, conforme ficou indicado no cenário político de sua gênese, o Minis-
tério Público brasileiro se constitui — não é uma contingência ou evento histórico acessório — do mesmo
paradoxo das revoluções liberais do século XVIII. Embora, normativamente, seja um garantidor primaz das
humanidades possíveis, sua cegueira deliberada em relação à força socialmente estruturante do fato histórico
escravidão acaba por enfraquecer, substancialmente, seu potencial constitucional. Continua a negar os gritos
de horror decorrentes das purulentas feridas sociais deixadas pela escravidão, duvidosamente cicatrizáveis.
Afrodescendentes, maior parte da população brasileira, tropeçam sobre si sem acesso ao mínimo existencial.
E o Ministério Público? O que fez, o que faz e o que fará?
A primeira mudança a se pensar é a reestruturação étnico-racial do Ministério Público brasileiro, impul-
sionada pelo despertar, multiplicar e agir de uma consciência negra sobre a negritude24 e uma consciência
da branquitude referente aos privilégios sociais que sempre desfrutaram até ingressarem na instituição, e que
se intensificam com o poder conferido e exercido na condição de promotor (a) de justiça. Sem isso, não é
possível conceber ações institucionais multiplicadoras de direitos e garantias fundamentais. A dignidade de
pessoa humana continua sendo, apenas, a de alguns, as dos sorteados pela ação institucional.
Discutir a branquitude é fomentar a aproximação de pessoas brancas que, conscientes de suas benesses
sociais decorrentes de sua condição racial, se colocam, desde já e sempre, à disposição de um processo an-
tirracista de transformação social. Aposta-se no conceito diferenciador proposto por Lourenço Cardoso,
que indica como branquitude crítica justamente esta a que se referiu linhas atrás e branquitude acrítica aquela
que ou se manifesta em movimentos de ultradireita radical, defensores da supremacia branca, ou silenciam,
para não perderem seus privilégios sociais, sobre práticas estatais e individuais que excluem o acesso da po-
pulação negra a melhores condições de (sobre)vida. 25
autocontrole. C.f. TELLO, Diana Carolina Valencia. As instituições e a via da dependência histórica. Rev. Bras. de Políticas Públicas,
Brasília, v. 1, n.º 1, p. 35-64, jan./jun. 2011
22
FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. Global Editora e Distribuidora Ltda, 2015, p. 63.
23
MEMMI, Albert. Retrato do colonizado: precedido do retrato do colonizador. Trad. Marcelo Jacques de Moraes. Rio de Janeiro: Civili-
zação Brasileira, 2007, p. 117.
24
Essa proposta de consciência negra sobre o negro pode ser encontrada em Achille Mbembe, quando, ao atribuir um segundo
significado para o termo razão negra, informa que esta seria a compreensão do negros sobre seu lugar no mundo, do caráter trans-
fronteiriço das relações raciais, da diáspora africana e um sentimento de solidariedade marcado pelas históricas lutas abolicionistas
e de contrariedade ao capitalismo. Cf. MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: N-1 edições,
2018. p.63.
25
CARDOSO, Lourenço. A branquitude acrítica revisitada e as críticas. In: MÜLLER, Tânia MP; CARDOSO, Lourenço. Branquitude:
estudos sobre a identidade branca no Brasil. Edição Kindle. Curitiba: Appris ,2017. p. 696-1127.
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MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
É com a Constituição de 1988 que acontece, na história do Ministério Público, a grande viragem jurídica
que o coloca como umas das instituições mais importantes do sistema de justiça. Instituição permanente e
essencial à função jurisdicional do Estado, com possibilidade de elaborar a própria proposta orçamentária,
terá à sua disposição um rol exemplificativo de funções institucionais, algumas anteriormente previstas em
legislação esparsa, que substancializarão a missão constitucional central de defender a ordem jurídica, bem
como direitos coletivos e difusos. Normativamente, é assim que se pode conhecer a instituição na leitura
do art. 127 e ss. da CF/88.
Consolida-se, para o Ministério Público, imenso poder de agenda, de demanda, com a legitimidade cons-
titucional para a propositura de ação penal e de ação civil pública para a realização de direitos transindivi-
duais. Tudo isso o faz ser identificado, no campo da esperança social, principalmente a dos mais vulneráveis,
como a voz da justiça social, do combate irrefreável em relação à impunidade, de tutor de uma sociedade
que, ao escapar de 20 anos de ditadura, não mais suportaria ser negada no seu mínimo existencial.
Direitos e garantias fundamentais teriam vida real e seriam protegidos por mãos fiscalizadoras de uma
instituição juridicamente revigorada. A dupla função do Ministério Público estava ali posta na Constituição
de 1988: propor ações processuais relevantes e fiscalizar a ordem jurídica (custos constituciones).
No entanto, a Ciência Política estava atenta a esse processo de transformação institucional. É, com as
pesquisas de Rogério Bastos Arantes,26 que se constata que essa transformação institucional do Ministério
Público foi capitaneada por uns poucos que compunham a elite social e institucional de 1988, que não
suportariam ver o Ministério Público novamente vinculado ao Poder Executivo, e que, com o discurso uni-
versalizante sobre direitos e garantias humanas, conseguiu, a custos de lobbies, fazer com que a calorosa
Constituinte de 1988 fosse generosa com o Ministério Público.
À semelhança da Revolução Francesa, nascia um novo Ministério Público de 1988, coordenado politica-
mente por uma elite burguesa desejosa de maior estabilização político-institucional e que, com a suavidade
do discurso de garantia de direitos fundamentais para todos na nova ordem democrática, conseguiu realizar
seu, e só seu, projeto de constitucionalização orgânica do Ministério Público.
Superadas as festividades institucionais do pós-88, o que até então significava expressão de poder se
transformou, no decorrer dos anos, em verdadeiro peso sobre os ombros do Ministério Público, que, com
uma carreira de estado vitalícia e independente, não conseguia concretizar, a contento, todas as funcionali-
dades constitucionais.
Apesar de ter realizado importantes ações no campo da improbidade administrativa, criminal e saúde
pública, a crítica, mais uma vez conduzida pela Ciência Política27, acompanhada agora por alguns juristas,
constatou que a instituição não desenvolvia, satisfatoriamente, todas as funções institucionais que lhes fo-
ram previstas. Os membros da instituição tinham à sua disposição, para que não sofressem interferências
políticas externas, garantias como a independência funcional, a inamovibilidade e a vitaliciedade. Constatou-
-se descompensação entre a potência das garantias institucionais e o desempenho de funções institucionais,
também potentes, que, por razões outras, estavam sendo subaproveitadas.
Com tão poucos anos de vivência institucional após 1988, passou-se a falar em uma crise paradigmática
do Ministério Público, questionando-se sua legitimidade social, que não decorria automaticamente de sua
normatividade constitucional. Esta, a normatividade, concedida pelo Poder Constituinte, aquela, a legitimi-
dade social, diariamente a ser construída com registros em um inventário próprio de acertos e erros institu-
26
ARANTES, Rogério Bastos. Direito e política: o Ministério Público e a defesa dos direitos coletivos. Revista brasileira de ciências sociais,
v. 14, n.º 39, 1999. p. 83-102.
27
O cientista político Fábio Kerche registra que “não é sem motivo que os diferentes lobbies de promotores e procuradores tenham
se organizado fortemente para convencer os parlamentares constituintes a garantir e a ampliar o papel da instituição, percebendo a
importância desse processo para a construção institucional do Ministério Público.” Cf. KERCHE, Fábio. Virtude e Limites: Autonomia
e Atribuições do Ministério Público no Brasil. São Paulo: Edusp, 2009, p. 45.
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cionais, que ninguém nunca conheceu.
No entanto, essas importantes constatações críticas realizadas pela Ciência Política, significativas para
a constante remodelação do Ministério Público, esqueceram, de algo muito importante, a reflexão sobre as
relações raciais que se movimentam dentro e fora da instituição. A crítica política padecia de ausência de
criticidade racial. A crise paradigmática ou imagética do Ministério Público (“não sou o que penso que sou
enquanto instituição”) não se resume a um debate sobre desigualdade de classes sociais. A raça constitui o
social no Brasil. Não poderia ser diferente com a sociologia institucional do Ministério Público.
A crise paradigmática do Ministério Público, que é uma crise de efetividade de sua função institucional
de proteger a ordem jurídica, deve ser analisada por uma perspectiva crítica racial, que remete à desconstru-
ção do onírico sentimento de democracia racial, que povoa o imaginário da instituição e não o liberta do
narcisismo institucional.
Tukufu Zuberi realiza importante reflexão quando, retratando o contexto norte-americano, diz que a ex-
tensão da teoria crítica racial para o Direito, cujas bases iniciais se dão na sociologia, permite perceber como a
raça é fator determinante para a construção de institutos jurídicos, a defesa de aplicação substancialmente igua-
litária das leis e a percepção sobre um modo de agir dos juristas, que, mesmo diante dessa relevância temática,
colocam a justiça racial como uma política de ressentimento de comunidades afrodescendentes. Tukufu Zuberi
denuncia a existência de um projeto acadêmico, político e jurídico, que, por meio de uma “cegueira racial”, o
que aqui pode ser lida como democracia racial, encontra-se associado a um “iluminismo racial”, que apregoa
direitos e garantias universais, mas que na prática não compreende a população afrodescendente.28
Diante disso, propõe-se, neste artigo, nova crítica institucional, marcadamente político-racial, a partir
da análise do quadro racial dos membros do Ministério Público da Bahia e da correspondente dissonância
prática que isso pode resultar na proposta constitucional de efetivação de direitos e garantias fundamentais,
que, no Brasil, por notoriedade e historicidade de uma abolição inconclusa e formalmente dada em 1888,
são direitos e garantias fundamentais de uma imensa população negra. É o que se verá a seguir.
Indicados os dilemas da origem moderna do Ministério Público, que se deu no século XVIII, e exposto
como o processo político de defesa de ideais liberais se atualiza na determinação constitucional do Minis-
tério Público brasileiro, que, normativamente, anuncia ser o novo canal de materialização da democracia,
abre-se espaço para a principal análise sobre o Ministério Público: a estrutura racial que nele se estabelece
e que interfere, substancialmente, nas vidas que esperam algo humanizante da instituição. Estrutura racial
estratificada que tende a se manter intacta por meio do discurso da democracia racial, que, por sua vez, se
fortalece com a discursividade da democracia liberal, de igualdade formal universalizante.
Adiante analisar-se-á a estrutura racial do Ministério Público da Bahia, instituição de um Estado que, por
metáforas poéticas e musicais, é conhecido como a África brasileira.
A análise se refere às instâncias de poder do Ministério Público: promotores de justiça, procuradores
de justiça e órgãos da Administração Superior, que podem ser ocupados por promotores ou procuradores
de justiça. Verificar-se-á, também, quanto ao gênero, quem ocupa esses cargos, realizando-se a necessária
intersecção entre gênero e raça para que se possa ter uma noção empírica sobre a mobilidade institucional
interna quanto à ocupação de espaços de poder institucional. Adota-se o seguinte raciocínio indagativo:
negros e negras conseguem ter acesso aos cargos de promotor de justiça? Se sim, são homens ou mulheres
28
ZUBERI, Tukufu. Teoria crítica da raça e da sociedade nos Estados Unidos. Cadernos do CEAS: Revista crítica de humanidades, n.º
238, p. 464-487, 2016.
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ou transgêneros? Qual a possibilidade, uma vez dentro da instituição, de ocuparem espaços decisórios como
a Administração Superior do Ministério Público?
A estrutura do Ministério Público é relativamente complexa, com distribuição de poder entre órgãos de
execução, que são os promotores de justiça, que atuam perante o 1º grau do Poder Judiciário, e procuradores
de justiça, que atuam perante o 2º grau. Esses membros, por definição da atividade finalística do Ministério
Público, exercem seu poder, como regra, para fora da instituição, a fim de atender as necessidades sociais,
salvo quando escolhidos para exercer temporariamente funções relativas à Administração Superior, quando
passam a se preocupar mais com a organicidade da instituição.
O Conselho Superior do Ministério Público e Colégio de Procuradores são órgãos colegiados perten-
centes à Administração Superior. A Corregedoria-Geral, órgão de fiscalização e orientação funcional, e a
Procuradoria-Geral — chefia institucional —, por sua vez, integram, respectivamente, a Administração
Superior. São nesses órgãos que circulam as principais decisões institucionais do Ministério Público, do
ingresso na carreira de promotor de justiça à aprovação da vitaliciedade do membro, da instauração de pro-
cedimento administrativo disciplinar à propositura de ação contra alguma autoridade com prerrogativa de
foro na Constituição Estadual, por exemplo.
Essa composição encontra-se na Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (lei n. 8.625/93), art.
5º ao 7º. É um estatuto legislativo que serve de parâmetro geral para as leis orgânicas específicas de cada
Ministério Público Estadual, a exemplo da Lei Complementar n.º 11/96, que rege a estrutura e funções do
Ministério Público baiano.
Outros órgãos como os Centros de Apoios Operacionais, Centros de Estudos e Aperfeiçoamento, Ouvi-
doria e Comissão de Concurso são órgãos auxiliares, e, apesar do designativo nominal auxiliar, são também
relevantes para o adequado funcionamento institucional. Não se fará, com exceção do Centro de Estudos
e Aperfeiçoamento Funcional (CEAF), a análise da composição racial desses órgãos, que possuem poder
de decisão nas temáticas que lhes correspondem, não a ponto de serem considerados pela lei como órgãos
da Administração Superior. O critério de análise é a composição racial de órgãos com capacidade decisória
significativa, segundo a classificação da Lei Orgânica.
De acordo com informações passadas por e-mail pela Secretaria-Geral do Ministério Público da Bahia, há
583 membros entre promotores e procuradores de justiça. Atualmente, o quantitativo de mulheres supera o
de homens, conforme tabela n.º 01. No quantitativo geral, surgem três universos, considerado o critério de
autodeclaração — o próprio membro alimentou o sistema de informação com o dado sobre sua autoconsi-
deração racial: a) 234 membros se autodeclararam pretos e pardos; b) 291 membros se declararam brancos;
c) 58 membros declararam pertencer a outra raça.
Como se vê, há preponderância da autodeclaração da raça branca. Embora o IBGE e o Estatuto da
Igualdade Racial (art. 1º, parágrafo único, IV, da Lei n.º 12.288/2010) considerem população negra o quan-
titativo dos que se declararam pretos e pardos, optou-se por indicar, também, o quantitativo dos que apenas
se declararam como pretos, para que se possa contrastá-lo com o universo geral de 583 membros (tabela 03).
Apesar de não se ter conseguido o quantitativo de promotoras e procuradoras brancas e pardas, obteve-se o
quantitativo de mulheres pretas que integram a carreira, conforme a tabela n.º 4.29
Tabela 01– relação gênero/cargo n=583
Gênero Promotor de Justiça Procurador de Justiça
Homens 258 (49%) 21(38%)
Mulheres 269 (51%) 35 (62%)
29
Essa ausência parcial de dados se deu por conta de dificuldades de tempo, pandemia e logística para obtenção de dados no
processo de elaboração deste artigo.
277
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Transgênero 0 0
Total 527 (100%) 56 (100%)
Fonte: Secretaria-Geral do Ministério Público da Bahia.
Tabela 02: relação raça/cargo n=583
Raça Promotor de Justiça Procurador de Justiça
Pretos e pardos 210 (40%) 24 (43%)
Brancos 272 (52%) 19 (34%)
Outra 45 (8%) 13 (23%)
Total 527 (100%) 56 (100%)
Fonte: Secretaria-Geral do Ministério Público da Bahia.
Tabela 03: relação raça isoladamente/cargo n=583
Raça Promotor de Justiça Procurador de Justiça
Pretos 34 (6%) 2 (4%)
Pardos 176 (34%) 22 (39%)
Brancos 272 (52%) 19 (34%)
Outra 45 (8%) 13 (23%)
Total 527 (100%) 56 (100%)
Fonte: Secretaria-Geral do Ministério Público da Bahia.
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MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
Tabela 04: mulheres pretas/ quadro geral de membros n=583
Raça Promotor de Justiça Procurador de Justiça
Pretas 15 (3%) 2 (4%)
Pardas - -
Brancas - -
Outra - -
Total 527 (100%) 56 (100%)
Fonte: Secretaria-Geral do Ministério Público da Bahia30.
Nessa primeira visão geral, desponta o domínio racial branco sobre o quantitativo de membros negros,
aqui considerados, conforme classificação usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os que
se autodeclararam como pertencentes à população negra e parda.
Outra informação a ser considerada é que, somente a partir do ano de 2014, por ato normativo exarado
pelo Procurador-Geral à época, iniciou-se, não sem polêmicas institucionais, a abertura de concursos pú-
blicos com a previsão de cotas para negros no acesso à carreira de promotor de justiça. O ato normativo
544/2014, que aqui se refere, pretendeu implementar no âmbito do Ministério Público baiano as diretrizes
da Lei estadual n.º 13.182/2014, que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial e do combate à Intolerância
Religiosa no Estado da Bahia. Essa lei considera população negra, conforme o critério classificatório usado
pelo IBGE, pessoas que se autodeclararem pretas e pardas.
No ano de 2014, impugnou-se o referido concurso por meio de representação dirigida ao Conselho
Nacional do Ministério Público, questionando-se a implementação de cotas raciais no âmbito do Ministério
Público baiano, já que a lei estadual usada se referia, apenas, à Administração Direta Estadual (procedimento
de controle administrativo n.º 1283/2014-11).
O Conselho Nacional do Ministério Público entendeu por não acolher a referida representação, ao
fundamento de que as cotas raciais têm respaldo constitucional direto, sem necessidade de lei intermediária
para implementá-la, tendo o Ministério Público baiano usado a lei estadual somente como parâmetro, o que
não significa que estaria submisso, dessa forma, às ingerências do Executivo estadual.
Tal impugnação administrativa sugere o pensamento de como o mito da democracia racial, fantasiado
muitas vezes com uma roupagem de discussões legalistas — se aplicável ou não determinada lei — continua
a obstaculizar a realização de políticas afirmativas direcionadas à vigília e combate ao racismo institucional.
Quando se pretende dar, ainda que tardiamente, um passo mais à frente, há sempre alguém a impugnar o
óbvio, porque se coloca em questão privilégios sociais e institucionais reservados à branquitude.
Em junho de 2017, o Conselho Nacional do Ministério Público editou resolução de n.º 170/2017, dispon-
do sobre a reserva aos negros do mínimo de 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públi-
cos para provimento de cargos do Conselho Nacional do Ministério Público e do Ministério Público brasileiro.
A política pública de ação afirmativa, no âmbito do Ministério Público baiano, conseguiu prosseguir no
tempo. Em 2018, novo concurso para promotor de justiça foi realizado com a previsão de reserva de 30%
de vagas para os que se autodeclarassem negros.
Ainda assim, as cotas não têm sido suficientes para afastar o racismo estrutural que formata o desenho
institucional do Ministério Público da Bahia. Conforme informações fornecidas pelo Centro de Estudos e
Aperfeiçoamento do Ministério Público baiano (CEAF), no concurso de 2014, foram aprovadas 48 pessoas,
das quais apenas 07 conseguiram ter acesso pelas cotas raciais, dentre estes não havia mulheres, conforme
elucida tabela n.º 05. Em 2018, houve 75 aprovados, dentre os quais apenas 03 tiveram acesso por meio das
30
Não foi possível obter informações sobre o quantitativo de promotoras e procuradoras de justiça brancas e pardas e outras.
Ainda assim, entendeu-se pertinente expor o quantitativo de promotoras e procuradoras que se autodeclararam pretas, para que se
possa avaliar a representatividade de gênero/raça na instituição, considerado o quadro geral de 583 membros,
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cotas, dentre estes havia, apenas, uma mulher negra, conforme tabela n.º 06.
Tabela n.º 05 – concurso para promotor de justiça/2014
Sexo Ampla concorrência Pessoas com Negros Total
deficiência
Masculino 30 1 7 38
Feminino 10 0 0 10
Total 40 1 7 48
Masculino 26 1 7 34
Feminino 9 0 0 9
Total 35 1 7 43
Masculino 43 1 2 46
Feminino 28 0 1 29
Total 71 1 3 75
Masculino 12 1 2 15
Feminino 9 0 1 10
Total 21 1 3 25
31
Minuto 3.03 a 4.12 do discurso de posse de promotores de justiça em 2020, disponível em [Link]
280
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Sem qualquer intenção de desprestigiar o belo momento que é a posse em um cargo público, a reflexão
que se faz, com esses primeiros dados coletados, é de que, diversamente do que foi enunciado no discurso,
a posse de uma única mulher negra, e somente ela, cujo acesso se deu por cotas, não comprova a suposta
pluralidade inerente ao Estado da Bahia, mas sim de como o Ministério Público da Bahia, mesmo com
implementação de cotas raciais, continua a repetir a opressão transhistórica que o constitui: racismo institu-
cional e domínio de poder pela branquitude patriarcal.
Cotas raciais são importantíssimas e necessárias ao processo de reparação e reconhecimento da popula-
ção negra. Não são pontos de chegada da negritude. São possíveis pontos de partida. Não podem ser vistas
como o exaurimento de uma política pública afirmativa de uma instituição, principalmente o Ministério
Público, de vocação abertamente democrática. Pessoas negras, em cargos concebidos socialmente como
relevantes, as ditas carreiras de Estado, não podem ser vistas como peças de embelezamento negro de um
tabuleiro branco de xadrez. Devem, naturalmente, ocupar cargos e desempenhar funções de alta decidibili-
dade institucional, capaz de definir os novos rumos da instituição. Devem ser estruturas pensantes e de ação
de uma nova concepção institucional, focada em destruir o racismo de dentro para dentro na instituição e,
como é de se esperar, fora da instituição também.
Não é o que se vê no Ministério Público da Bahia, que do ano de 1935 ao início de 2020, teve 32 Procu-
radores-Gerais, tendo sido 30 do gênero masculino e dois do gênero feminino, de qualquer sorte todos não
negros. Isso indica que a chefia da instituição, o principal cargo do Ministério Público, esteve, e continua,
sob o comando de pessoas não-negras e, nesse universo, sob a batuta ideológica de uma eterna branquitude
que se pereniza no poder institucional.32 Poder que se mostra masculino, mesmo tendo-se atualmente um
quantitativo maior de mulheres na instituição.
Teriam essas pessoas o olhar adequado para determinar ações institucionais que abordem a centralidade
da questão racial que divide a sociedade brasileira, em especial a baiana, em todos os pontos de seu fluxo
histórico, do privado ao público?33
O Centro de Estudos e Aperfeiçoamento do Ministério Público da Bahia (CEAF), quando consultado,
por e-mail, sobre quem foram (gênero e raça) seus dirigentes desde o período de sua fundação, informou re-
lação que indica que, do ano de 1996 a 2020, houve 13 dirigentes, dos quais, apenas, duas mulheres brancas
e um homem negro.
A sugestão que aparece é que, se promotores e promotoras entram na instituição desavisados sobre a
problemática racial, tendem a permanecer nesse estado de letargia, pois os eventos institucionais promovi-
dos pelo CEAF, destinados a abordar a questão racial, se concentram na semana do dia 20 de novembro,
repetindo certa caricatura comemorativa que acontece em outras instituições do país por conta daquele data,
denominada de dia da consciência negra. O negro e negra sabem, no fundo da alma, que dia de consciência
negra é todo dia, vigília constante sobre a sua condição negra, embora se permita comemorar aquela data.
Acompanhando-se as informações prestadas pela Secretaria-Geral, soube-se que, na formação atual do
Conselho Superior do Ministério Público, há 9 procuradores de justiça eleitos pela classe, dos quais 5 são
34
C.f SILVA, Jonata Wiliam Sousa da Silva. Sistema de Justiça Criminal e a questão racial: caminhos para a ocupação de pessoas negras nos
espaços de poder. In: Enegrecendo o Direito. Questões raciais no Brasil. Coord. Julio Rocha. p. 121-132. Salvador: Mente Aberta, 2020.
35
Desde julho de 2016, tem acontecido, no Ministério Público da Bahia, o seminário “Biopolíticas e Mulheres Negras”, com
abordagem interseccional e valorização do feminismo negro no Brasil e na América Latina, uma iniciativa do Grupo de Atuação
Especial em Defesa da Mulher e da População LGBT (Gedem). Esse seminário já está na 5ª edição (2020) e é aberto ao público.
36
Informações disponíveis em [Link] Acesso em: 22. mai. 2020.
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por servidores, colaboradores e estagiários que atuam no MP, com o objetivo de promover o debate e
a conscientização sobre o racismo nas suas mais diversas formas, em especial o racismo institucional37.
Essas ações institucionais positivas, no entanto, são silenciosamente minadas por uma dimensão institu-
cional antinegra. Verifica-se ausência de mobilidade institucional dos negros e negras que, na qualidade de
promotores e promotoras, não conseguem, mesmo após o transcurso de décadas, ocupar posicionalidades
de liderança institucional. As possibilidades se tornam impossíveis quando há intersecção entre raça negra
e gênero feminino.
Percebe-se que, mesmo com uma presença feminina numericamente maior que a masculina, é pratica-
mente inexistente a presença de promotoras e procuradoras negras em funções de alto poder decisório den-
tro Ministério Público. O Ministério Público da Bahia nunca teve uma Procuradora-geral de justiça negra,
nem mesmo um Procurador-Geral de Justiça negro. Em sua história de chefia institucional, só contou com
três mulheres na função de Procuradora-Geral, todas não negras38.
Nesse ponto, a advertência de Angela Davis39 é muito importante quando enfatiza a necessidade de que
seja feita uma pesquisa séria, do ponto de vista histórico, sobre a experiência das mulheres negras escravi-
zadas para que se compreenda, adequadamente, que a luta atual das mulheres negras e de todas as mulheres
se dá em busca de emancipação, e que as mulheres negras nunca foram submissas e voluntariosas com a
escravidão. É compreender, com Carla Akotirene40, como o cisheteropatriarcado, capitalismo e racismo
coexistem como modeladores das subjetividades atuais. Entender que a interseccionalidade do feminismo
negro aponta para uma riqueza epistêmica na compreensão do mundo. Buscar em Bell Hooks41 o poder de
uma educação como prática libertária, que recuse essencialismos e não endosse hierarquias opressivas con-
vencionais. É a difícil tarefa de educar politicamente a instituição Ministério Público nesse sentido de pensar.
Ainda sobre a necessidade de um feminismo negro dentro da própria instituição, é importante recordar o
que foi dito por Patricia Hill Collins, em busca de um conceito de outsider within para encontrar a significação
sociológica do feminismo negro:
nas biografias dos brancos ricos, é frequente o relato de seu amor por suas “mães” negras, enquanto os
relatos das trabalhadoras domésticas negras ressaltam a percepção de autoafirmação vivenciada pelas
trabalhadoras ao verem o poder branco sendo desmistificado — saberem que não era o intelecto, o
talento ou a humanidade de seus empregadores que justificava o seu status superior, mas o racismo.
No entanto, por outro lado, essas mesmas mulheres negras sabiam que elas jamais pertenceriam a suas
“famílias” brancas. Apesar de seu envolvimento, permaneciam como outsiders.42
37
Informações disponíveis em [Link] Acesso em 05. out. 2020. No Conselho Nacional do
Ministério Público, há a Comissão de Defesa dos Direitos Fundamentais, na qual funciona o Grupo de Trabalho Enfrentamento ao
Racismo e Respeito à Diversidade Étnica e Cultural.
38
Ao analisar outros ambientes institucionais, como os Poderes Legislativo e Executivo, com destaque para o período eleitoral
de 2014 e 2016, Rafael Moreira e Marli da Costa discorrem sobre os impedimentos sociais, restrições e desafios que envolvem a
participação política da mulher na sociedade brasileira, dividida em classes e determinada pelo capitalismo. C.f MOREIRA, Rafael
Bueno da Rosa; COSTA, Marli Marlene Morais. As mulheres no contexto da sociedade de classes e sua participação política no processo legislativo
e executivo do Brasil: das restrições e desafios. Revista Brasileira de Políticas Públicas, v. 9, n. 1, p. 34-54, 2019. Quanto à situação específica
das mulheres negras no cenário brasileiro, Jurema Werneck lembra que “sabemos que tem sido a partir de condições profundamente
desvantajosas em diferentes esferas que as mulheres negras desenvolveram e desenvolvem suas estratégias cotidianas de disputa com
os diferentes segmentos sociais em torno de possibilidades de (auto)definição. Ou seja, de representação a partir de nossos próprios
termos, a partir do que se projetam novos horizontes. Estratégias que deviam e devem ser capazes de recolocar e valorizar nosso
papel de agentes importantes na constituição
do tecido social e de projetos de transformação.” C.f WERNECK, Jurema. Nossos passos vêm de longe! Movimentos de mulheres negras e
estratégias políticas contra o sexismo e o racismo. in: Mulheres negras: um olhar sobre as lutas sociais e as políticas públicas no Brasil. Org.
Jurema Werneck. Rio de Janeiro: Criola, 2010. p. 76-86.
39
DAVIS, Angela Y. Mulheres, raça e classe. Trad. Heci Regina Candiani. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2016. p. 17.
40
AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Polén, 2019. p. 51.
41
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. 2ª ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2017. p. 105.
42
COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Sociedade e Estado, v.
283
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
Por isso, é muito importante quando Livia Sant`anna Vaz, em respeito à força do feminismo negro e ao
destacar uma correta leitura sobre uma justiça étnico-racial interseccional, reafirma que “ eu, mulher negra,
não sou sujeito universal!” e lembra, com vigor, que “no Brasil, talvez o Direito seja uma das áreas do
conhecimento mais coloniais e epistemicidas” e que esse epistemicídio jurídico se dá pela permanência de
uma lógica moderna/colonial de produção do conhecimento, que invisibiliza os conhecimentos produzidos
pelas populações afrodiaspóricas e indígenas também.43
A propósito, ao enfatizar as (dis) funções da linguagem na proteção à dignidade de gênero, Ana Gabriela
Souza Ferreira indica que, mesmo diante da constante luta histórica de movimentos feministas, “a própria
definição de direitos humanos hodierna continua a absorver conceitos discrepantes da associação de lingua-
gem que divide “mundo masculino” e “mundo feminino”. Ou seja, a linguagem universalizante do discurso
de direitos humanos é insuficiente para tratar da temática gênero44.
Registre-se, ainda, que não há promotores de justiças e promotoras de justiça transgêneros.
Haveria futuro para uma perspectiva afrocentrada e interseccional (raça e gênero) no poder institucional
do Ministério Público?
Multirracialidade institucional, com agregação significativa de pessoas negras que, uma vez no poder,
possam exercer novos poderes estruturantes e reconfiguradores da sociedade — para a branquitude são
poderes antigos —, apresenta-se como um caminho de difícil execução na atual vivência institucional do
Ministério Público da Bahia.
Tem prevalecido o domínio racial da branquitude, com a vivência — e não a convivência, que supõe a
ideia de comunidade institucional—, deslocada, desconfortável, e existencialmente desgastante de uns pou-
cos promotores negros e negras que, sem mesmo saberem quantos negros e negras compõem a instituição,
exercem suas funções institucionais num arquipélago de promotores e promotoras de justiça não negros,
que admiram algo folclórico da cultura negra, samba, quitutes e corpos que balançam. Param por aí.
Esse é um pensamento possível de se ler com os dados até então obtidos e expostos neste artigo.
Os dados até então apresentados indicam como promotores e promotoras negras estão cercados por ou-
tros promotores e promotoras não negros, marcadamente brancos e brancas, a despontar, nessa diferença de
quantitativos raciais, a imagem que sugere o título do presente artigo: ilhas negras que mancham um arquipélago
não negro. Imagem que se constrói com base na preponderância racial branca, que solicita a ausência negra ou
depende da pequeniníssima existência desta para autorizar o teatro democrático do agir institucional branco.
A presença de certa negritude, que não ocupa, e está destinada quase que fatalmente a não ocupar
posicionalidades de liderança institucional, segundo indica a própria historicidade institucional, permite
dizer que, mesmo ao ostentar boa condição financeira e social obtida pelos vencimentos estimados em R$
25.000,00, esse negro e essa negra estão submetidos a uma sociologia institucional que os interpreta como
coisa, como arremate pigmentado, e, por isso mesmo, desprezível, de um quadro institucional que seguiria
naturalmente seu percurso sem preocupações inclusivas sobre a negritude.
Apesar de integrarem formalmente a instituição, negros e negras estão substancialmente alijados das
grandes funções decisórias do Ministério Público, situação que se torna exponencialmente drástica, quando
a historicidade do Ministério Público da Bahia sinaliza uma trajetória que tem se mostrado impossível para
a mulher negra: ocupar o cargo de Procuradora-Geral de Justiça, por exemplo.
Dentro da instituição, além de ser uma não referência humana para ocupar posicionamentos de alta
decidibilidade institucional, o que caracteriza a antinegritude institucional, esse negro promotor de justiça e
essa negra promotora de justiça têm, como regra, sua expectativa de vida institucional reduzida a um único
momento: o acesso ao cargo público. Logo, é uma não expectativa, porque se refere ao passado.
Ao pensar em um temporalidade presente que lhe parece existir na instituição, e ao pensar em futuro
institucional desde logo abortado em seu psiquismo fraturado, esse negro e essa negra vivem da feliz recor-
dação que, alguma dia, o fez representativo para os seus: o acesso ao cargo público. Pode até sonhar com
um mundo institucional maior, algo de notoriedade na carreira — ser procurador de justiça ou Procurador-
-Geral de Justiça. Não consegue verbalizá-lo ou lutar efetivamente por esse sonho, porque o sonho surge
imediatamente reduzido ao nada, ao impossível de seu ser. É que a força institucional antinegra congela sua
mobilidade institucional e destroça seu as entranhas de seu psiquismo.
Forçadamente acostumado à coisificação social, só lhe resta voltar, no campo da imaginação, ao passado,
àquele momento lacrimoso: o acesso ao cargo público. Seguirá, efetivamente, sem condições de liderar a
instituição, afogado pela não-negritude, já acostumada a liderar sendo costumeiramente branca.
Nesse momento, devem ser recordadas as palavras de Vinicius de Souza Assumpção, que elabora o ir-
refutável pensamento:
do corpo à psique, a opressão se apresenta com peculiaridades. O legado racista diuturnamente
atualizado reverbera no âmbito psicológico e representa substrato suficiente para a construção de
obstáculos impostos, autoimpostos e aceitos no nível inconsciente de todas pessoas (negras e brancas).46
A negritude que toma posse no cargo de promotor/a de justiça tende a passar pela condição do negro/a
antilhano que se apresenta na universidade parisiense, como foi bem retratado por Franz Fanon. Acha-se
45
VARGAS, João Costa. Por uma mudança de paradigma: antinegritude e antagonismo estrutural. Revista de Ciências Sociais. Fortaleza,
v.48, n. 2, jul./dez., 2017 p.83-105.
46
DE SOUZA ASSUMPÇÃO, Vinícius. A gestão do corpo negro no Brasil: da democracia racial ao genocídio. Revista de Criminologias e
Políticas Criminais, v. 3, n.º 1, p. 20-41, 2017.
285
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
europeu e assimilado pacificamente pelo mundo branco. Na primeira inconveniência de alguma aparição
social — seminários, professorado, casamento com brancos/as — lhe será recordado, de forma jocosa ou
não, seu estado de coisa, sua matriz colônia e selvagem, ainda que esteja ali intelectualmente superior ao não
negro.
As palavras de Fanon emocionam:47
como assim? No momento em que eu esquecia, perdoava e desejava apenas amar, devolviam-me, como
uma bofetada em pleno rosto, minha mensagem! O mundo branco, o único honesto, rejeitava minha
participação. De um homem exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem negro –
ou pelo menos uma conduta de preto. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo.
Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse.
Isolados quantitativamente no arquipélago não negro, o que mostra o primeiro isolamento institucional
da negritude, surge um segundo insulamento dessa negritude, que decorre do típico exercício das funções
de promotores/as de justiça, que se deslocam sozinhos para atuar em comarcas interiorizadas, distantes
da sede do Ministério Público. Passam anos nessa condição e sem contato presencial entre si, reservados
episodicamente a comemorações institucionais natalinas e de boas-novas sobre o ano institucional que virá.
Esse promotor/a negro (a) somente tem ao seu dispor contatos com os colegas por meio de aplicativo de
conversas virtuais e redes sociais.
Agrava-se a situação quando esse promotor (a), nesse ambiente, tende a não ter contato com seus cole-
gas negros, e , com isso, está longe da possibilidade de aquilombar-se institucionalmente. Como a instituição
não divulga o perfil racial de seus membros e, infimamente, debate as questões raciais que lhe são evidentes,
porque as considera superadas, tem-se isolamento institucional antinegro em sua versão crônica. Crível a
hipótese de que promotor (as) negros (as) não saibam quantos são os seus pares negros e negras que perten-
cem à instituição e quem efetivamente o são. Não se constitui dentro da instituição um coletivo que estimule
uma consciência negra sobre a vivência institucional.
Nessa dinâmica de vida institucional, negros e negras pouco se cumprimentam. Pouco sabem sobre a
própria condição de não pessoa institucional. Por outro lado, os promotores não negros, insistentemente
brancos, seguem com seus privilégios institucionais, decorrentes desse antagonismo estrutural que movi-
menta a instituição. Ausente de si, por ter sua subjetividade negada pelo desprezo social e institucional
exercido pelo não negro, dá-se a segunda ausência — a impossibilidade de se espalhar na instituição nos
grandes espaços decisórios.
A estrutura institucional invisibiliza vidas negras que estudaram para ser tornar provedores (as) de justi-
ça, e são, contraditoriamente, vistas como símbolos reais de poder pelos que estão de fora e apostam estar
bem representados quando visualizam esses negros. Só que esses negros e negras que aí estão, em regra,
apenas integram, esteticamente, a instituição, sem saber que compartilham, com seu silêncio e ausência da
vida institucional, de uma natural estratégia antinegra de impedir a existência de grandes lideranças negras,
e só absorvê-los como pontos negros que cintilam a mentira da democracia racial.
Dá-se a diáspora negra dentro da própria instituição, pretos e pretas perdidos nos marfins da instituição.
Casualmente, se o tempo do acaso lhes permitir, segredam-se dores pelos olhos, como se ali o não dito do-
loroso encontrasse na fuga do instante o cheiro de mar negreiro.
Outra estratégia antinegra é alocar, de maneira caricatural, negros e negras em funções tipicamente vol-
tadas para o combate à discriminação, sem, contudo, reconhecê-los (as) em outras funções de relevância que
não versem necessariamente sobre a questão racial. Nessa estratégia particular, dá-se o folclore institucional.
Segundo a estética asfixiante imposta pela branquitude, assim como pessoas negras são as ideais para
representar o saci-pererê ou cantigas de ninar do boi-boi da cara preta, também são os rostos necessários
47
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, EDUFBA, 2008. p.107.
286
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
para ocupar a celebrações institucionais na semana de 20 de novembro.
Toques, retoques de tambores, coros e cantigas que evocam uma África baiana, na efusão de entreolhares
que ludibriam os que estão de fora da instituição e os fazem pensar que, ali no Ministério Público baiano,
não existe racismo. Nessa semana da consciência negra, parece que todos querem confessar alguma coisa
sobre o racismo, porém o silêncio narcísico da branquitude consegue ressoar mais forte do que os estriden-
tes timbales, abafando-os.
A antinegritude é perversamente sagaz. Tira da negritude a confiança sobre seu passado, oferecendo-lhe,
ao incorporá-la a um poder instituído, a sensação de vitória sobre si mesmo, de sacrifício heroico, de expur-
go emocional, para adiante imobilizá-la, não referenciá-la, dizer-lhe — à negritude institucionalizada com
um certo poder — que só poder ir até determinado limite, o necessário para colorir a democracia interna
institucional. Instituições como o Ministério Público ainda seguem com a lógica interpessoal segregacionista
e absorvida no autoengano do discurso de mestiçagem,48 que conquistou a sociedade brasileira, ainda inca-
paz de se despir da encardida camisa que contém a expressão democracia racial em destaque.
As noções históricas, anteriormente lançadas, indicam as ideias e ideais que influenciaram a formatação
do Ministério Público brasileiro, que tem na Bahia seu Ministério Público mais antigo, porque na Bahia se
implementou o Tribunal da Relação do Estado do Brasil em 07 de março de 1609, para o qual foi prevista a
figura do promotor de justiça, responsável ainda pela proteção de interesses da Coroa e do Fisco, a exemplo
do que estava estabelecido nas Ordenações Manuelinas (1521) e Ordenações Filipinas (1603), normativas
de Portugal que, durante muito tempo, até a cisão da dependência político-jurídica do Brasil em relação a
Portugal, regeram as relações sociais que ocorriam na colônia brasileira. 49
Analisar o perfil racial dos membros do Ministério Público baiano, sediado que está na localidade em
que aconteceu um dos principais movimentos insurgentes do país, a revolta dos malês de 1835 é fundamen-
tal para se saber o potencial de efetiva participação negra no ambiente institucional. Se na Bahia, conhecida
por uma densidade populacional negra, não há participação significativa de negros e negras em cargos
institucionais de liderança, em qual Estado haverá então? Sobre a importância da Revolta dos Malês, para
uma cultura de opressão colonial, desenvolveu-se forte cultura de resistência escrava, que deve ser contada
à negritude contemporânea, como estímulo histórico ao rompimento do ciclo de silêncio opressor exercido
pelas elites, a um só tempo neoliberal e neocolonial, que mortifica o processo de subjetivação negra nos
espaços institucionais e no cotidiano da vida social.
48
Kabengele Munanga nota que “a mestiçagem, como articulada no pensamento brasileiro entre o fim do século XIX e meados
do século XX, seja na sua forma biológica (miscigenação), seja na sua forma cultural (sincretismo cultural), desembocaria numa
sociedade uniracial e unicultural. Uma tal sociedade seria construída segundo o modelo hegemônico racial e cultural branco ao qual
deveriam ser assimiladas todas as outras raças e suas respectivas produções culturais. O que subentende o genocídio e o etnocídio de
todas as diferenças para criar uma raça e uma nova civilização, ou melhor, uma verdadeira raça e uma verdadeira civilização brasilei-
ras, resultantes da mescla e da síntese das contribuições dos stocks raciais originais. Em nenhum momento se discutiu a possibilidade
de consolidação de uma sociedade plural em termos de futuro, já que o Brasil nasceu historicamente plural.” Cf. MUNANGA,
Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. [Link]. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. p. 91. De
acordo com Iraneide Soares, a partir da década de 50, no Brasil, intelectuais negros, no cenário acadêmico, começaram a criticar
veementemente essa ideia pacífica de uma mestiçagem brasileira, passando a usar metodologias de pesquisa, bem como produzir
textos, relacionadas ao seu modo de estar no mundo, que considerasse a superação de uma desigualdade racial, com acesso de negro
ao poder. Desenvolvia-se, então, uma afro-filosofia. C.f DA SILVA, Iraneide Soares. A Trajetória dos Estudos sobre Relações Raciais no
Brasil. Padê: Estudos em filosofia, raça, gênero e direitos humanos, v. 1, n.º 1, 2007.
49
Informação disponível em [Link] Acesso em: 25 mai. 2020.
287
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
Por isso, honrando-se essa tradição insurgente, é do Ministério Público da Bahia que deve surgir o exem-
plo de um Ministério Público brasileiro diferenciado, que propague um agir de contrariedade à antinegritude
institucional. Deve-se pensar em um modelo dinâmico de Ministério Público, que prospere, com sabedoria
e equanimidade, uma justiça racial/gênero internamente e fora da instituição.
A justiça racial interna na instituição com acessibilidade fluida de negros e negras promotores de justiça
a cargos e funções de decidibilidade institucional — Procuradoria-Geral de Justiça, Corregedoria-Geral
de Justiça e Conselho Superior do Ministério Público —, permitirá, de forma mais eficaz e inclusiva, a
realização de uma justiça racial que, fora dos portões da torre ministerial, compreenda as necessidades de
reparação histórica à maioria negra socialmente invisibilizada.
São ocupações de espaços de poder que recriem decisões estruturantes em relação ao coletivo, ao tran-
sinsdividual, à intergeracionalidade social e institucional, fundadas e direcionadas, a partir de uma cons-
ciência negra sobre a sua posicionalidade no poder, depois de estabelecida sua relação de encontro com o
mundo, pois o/a negro /a tem sido identificado, frequentemente, pelo esgarçamento existencial.
Foi pela negação de humanidade ao negro que o Ocidente se tornou, fragmentariamente, monumental.
Parece que se estar por cair, que se está por irromper nova ordem mundial. Nada disso. São atualizações
exploratórias que contam com o despedaçamento do corpo negro, dardejado pela libido estonteante do
capitalismo de vigilância.
Almejam-se ocupações de espaços de poder que não representem apenas uma figuração estética da ne-
gritude (cabelos, vestimenta, religiosidade etc.). E que também não sirvam como falsa reparação histórica
da própria institucionalidade, que tem, como viés histórico-racial, o hábito de assimilar o negro como uma
espécie de suvenir da diáspora africana: o negro como objeto de decoração na prateleira branca.
Essa irrupção contra a antinegritude, e consequente destruição do pacto narcisístico da branquitude,
não pode contar com uma hermenêutica constitucional universalizante, própria de um certo conserva-
dorismo eurocêntrico, e até norte-americano, que sempre se valeu da igualdade formal. Hermenêutica
constitucional que consta na programação de estudos e editais de acesso à carreira de promotor de justiça.
Para se tornar um promotor/a de justiça, deve-se submeter a energia mental e criativa a um poder-saber
massificante, que nega a própria historicidade brasileira, por meio da obrigatoriedade de o candidato/a ao
cargo ter de aprender, excessivamente, conceitos abstratos.
Assim, como há 10 anos, sociologia e filosofia não integravam os editais de concurso público de car-
reiras estatais (promotor, juiz e defensor público), e passaram a integrá-los50, já é tempo de se exigir, nos
editais de concurso para promotor de justiça, matérias como decolonialidade, epistemologias do sul e ame-
fricanidade, que permitam uma nova reflexão prática da atividade do Ministério Público para a realidade
social brasileira, recente e incompletamente liberta da escravidão, e que, ainda, continua a tratar, na prática
social e acadêmica, o negro como cobaia sociológica.51 Cento e trinta e dois anos de alforria formal é um
pequeno tempo quando comparado com a “atemporalidade da opressão no mundo”.
Há na recusa à incorporação dessas matérias algo que diz muito sobre o narcisismo da branquitude.
Consoante Maria Aparecida, a pacto narcisístico da branquitude — perspectiva que também pode ser
adotada para compreender as relações dentro da instituição do Ministério Público — se refere a esse estado
de manutenção histórica de privilégios sociais da branquitude, que, deliberadamente e com códigos de silên-
cios entre si, se recusa a discutir o legado da escravidão para o branco, o lugar do branco na apropriação de
quatro séculos de trabalho do grupo negro, que lhes renderam benefícios econômicos, sociais e simbólicos,
a ponto de reduzir a problemática racial como uma questão unicamente pertencente ao negro. Esse acordo
50
Neste sentido, os últimos editais de concurso público para ingresso na carreira de defensor público da Bahia e para promotor
de justiça de Minas Gerais.
51
MOURA, Clóvis. Sociologia do negro brasileiro. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2019. p. 139.
288
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
tácito na branquitude permite que brancos, da elite ou não, deixem de prestar contas sobre a continuidade
exploratória sobre o negro.52
É o que Alberto Guerreiro Ramos, na década de 1950, ao documentar sua sociologia militante, já havia
denunciado como a “patologia social do branco brasileiro”, em que o branco estava preocupadíssimo em
ressaltar suas características de brancura e, por assim dizer, de sua superioridade racial e social, significativa
de diversos privilégios. Só que, como o referido sociólogo advertiu à época, essa ideologia da brancura “em-
baraça o processo de maturidade psicológica do brasileiro” para que se realize um contexto social e racial
mais sincero.53
Nesse cenário, deve-se, com a noção de amefricanidade de Lélia Gonzalez, amefricanizar a percepção
sobre o Ministério Público brasileiro, para fazer dele uma instituição responsável pela concretização demo-
crática de um país formado, significativamente, por descendentes de africanos e ameríndios, situação que
se dá, também, em outros países da América Latina (Bolívia, Peru, Cuba).54 Amefricanizar no sentido de
fazê-lo entender que sua luta política e de poder estatal é contra qualquer forma de intenção e ação neoco-
lonialista que se desenvolva na sociedade brasileira, de fazer abolir o racismo à brasileira. Amefricanizar-se,
enquanto categoria político-cultural, também significa não se submeter ao espoliante neoliberalismo que se
apossou do mundo.
Para amefricanizar o Ministério Público, não se precisará de uma nova constituinte, de uma nova Cons-
tituição, e sim de uma cultura e hermenêutica constitucional que reconheçam a necessidade de interpretar
normas jurídicas fundamentais, a partir do que a sociedade brasileira efetivamente é: antinegra e narcisisti-
camente branca. Thula Pires oferece essa nova possibilidade hermenêutica, quando também se valendo da
categoria político-cultural da amefricaniade, alerta para a necessidade de desenvolvimento de um constitu-
cionalismo ladino-amefricano, que considere a práxis afrocentrada e o giro decolonial, estimulados pelo pro-
tagonismo negro de resistência que, apesar de silenciado constitucionalmente, oferece uma relação de saber
não hierarquizada, respeitando-se cosmovisões amefricanas e ameríndias radicadas na América Latina.55
Avançando-se numa proposta de concepção de hermenêutica constitucional, que denomina de Her-
menêutica Negra, Adilson José Moreira convida a uma perspectiva antissubordinatória, como forma de
interpretação do princípio da igualdade. Não é natural que um Princípio de Justiça, teoricamente forte e de
previsão constitucional, continue a ser praticado socialmente, de maneira que grupos sociais e raciais mar-
ginalizados continuem ininterruptamente nessa condição degradante. Por essa visão insubmissa quanto
à intepretação constitucional do Princípio da Igualdade, este funcionaria como forma de articulação entre
diferença e igualdade, com a tônica de se pensar em ações estatais que realizem, de forma inclusiva, direi-
tos fundamentais básicos de uma comunidade negra, sistematicamente deteriorada no seu existir por uma
opressão exercida, como regra, por pessoas não negras.56
O processo de Amefricanização do Ministério Público não se dará como decurso natural da história
do Ministério Público, que continua a seguir, conforme sublinhado em tópicos anteriores, a socialmente
excludente tradição de ideias liberais no campo das ações institucionais. Não será uma decorrência natural e
52
BENTO, Maria Aparecida Silva. Branqueamento e Branquitude no Brasil. In: BENTO, Maria Aparecida Silva. CARONE, Iray
(Orgs). Psicologia Social do Racismo. Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Edição Kindle. Rio de Janeiro: Vozes, 2016.p.
338-972. Nesse mesmo sentido: DE OLIVEIRA PIRES, Thula Rafaela. Criminologia crítica e pacto narcísico: por uma crítica criminológica
apreensível em pretuguês. Revista brasileira de ciências criminais, n.º 135, p. 541-562, 2017; FAUSTINO, Deivson Mendes. Franz Fanon, a
branquitude e a racialização: aportes introdutórios a uma agenda de pesquisas. In: MÜLLER, Tânia MP; CARDOSO, Lourenço. Branquitude:
estudos sobre a identidade branca no Brasil. Edição Kindle. Curitiba: Appris, 2017. p. 2.146-2416.
53
RAMOS, Alberto Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995. p. 231.
54
GONZALEZ, Lélia. A categoria política-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. N. 92/93 (jan./jun). Rio de Janeiro: 1988.
p. 69-82.
55
PIRES, Thula. Por um constitucionalismo ladio-amefricano. In: BERNARDINO-COSTA, Joaze; MALDONADO-TORRES, Nelson;
GROSFOGUEL, Ramón (Orgs). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Edição Kindle. Belo Horizonte, Autêntica, 2018. p. 5.948-
6229.
56
MOREIRA, Adilson. Pensar como um negro. Ensaio de Hermenêutica Jurídica. São Paulo: Editora Contracorrente, 2019. p. 266-268.
289
MATTOS, Saulo Murilo de Oliveira. Ministério Público e domínio racial: poucas ilhas negras em um arquipélago não-negro. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.266-294, 2020
exclusiva do acesso ao cargo por pessoas negras. Mesmo com a implementação das cotas, o quantitativo de
negros e negras no Ministério Público continua, em termos de poder decisivo, pequeniníssimo.
Ocorrerá, como primeiro passo, com a publicização do perfil racial de cada Ministério Público brasileiro,
seguido de uma ampla e séria discussão sobre o acesso ao poder institucional, a partir da intersecção entre
gênero e raça, já que as mulheres, e, principalmente, mulheres negras, continuam sendo as principais excluí-
das do campo de poder. Essa discussão deverá ser conduzida também no Conselho Nacional do Ministério
Público. Devem ser criados grupos temáticos sobre a questão racial, envolvendo promotores e promotoras
negros/as, fortalecendo o despertar e cultivar de uma consciência negra. Devem ser promovidos diálogos
com promotores não negros para que entendam sobre seu lugar de herdeiros de privilégios sociais e institu-
cionais, a fim de que possam se aliar a essa luta contra a antinegritude estrutural.
Novas promotorias de combate à discriminação racial devem ser criadas e espalhadas por todo o Estado
da Bahia e nos outros Ministério Públicos brasileiros, como forma de implementar o Estatuto da Igualdade
Racial (Lei n.º 12.288/10). A partir dessas linhas, o despertar e perenizar de uma consciência negra se torna-
rão objeto concreto de um sério planejamento estratégico do Ministério Público, preocupado em superar a
domínio racial estrutural exercido por não negros, em regra brancos, sobre a diminuta e silenciosa negritude
que compõe a instituição.
Os negros e negras institucionalizados no Ministério Público devem buscar conhecer o conceito de quilom-
bismo, desenvolvido por Abdias Nascimento, para que entendam a importância de se reconhecerem enquanto
grupo minoritário na instituição e ainda sujeito a exclusões e discursos discriminatórios no trato cotidiano com
seus pares. Fazê-los entender que é necessária uma aglutinação afetiva, inteligente e estratégica sobre a questão
racial. Reconhecer-se como dentro de uma negritude maior, que transborde o aspecto institucional, para que não
caiam na confortável sonolência mental da estabilidade pública. A luta é coletiva, dentro e fora da instituição.57
A luta é psicológica, dentro do ser e para ser negro, como forma de estabilizar sua saúde mental, a
partir da internalização do conhecimento profundo do que é a negritude e seus movimentos dinâmicos de
conquistas e retrocessos. Aquilombar-se para acreditar na idoneidade mental do negro, para se reinventar
nos traços de sua própria história, contadas pelos seus historiadores e sociólogos que, com muita militância,
conseguiram furar cinturões acadêmicos de proteção da inteligência supremacista branca.
Aquilombar-se para resistir à dominação racial, que, mesmo numa instituição de semblante democrático
como o Ministério Público, obstaculiza a subjetivação maior, a conquista de poder, da intelectualidade ne-
gra. Aquilombar-se para produzir comunhões de vida em torno de um ideal: destrinchar a antinegritude e
não condescender com poucas migalhas institucionais e financeiras distribuídas pelos dominantes raciais. As
estratégias de amefricanização são, também, estilos de aquilombamento. Amefricanizar-se e aquilombar-se
formam um só movimento para a posse coletiva de uma nova consciência negra, que a contemporaneidade
exige, sem subalternizar-se e esconder-se nas roupas sujas e antigas do vetusto pensamento eurocêntrico.
Aliás, “a Europa é indefensável”, isso foi dito inesquecivelmente por Aimé Césaire.58
E antes que se pense que se amefricanizar e aquilombar-se sejam apenas verbos poéticos, inúteis à prática
institucional do Ministério Público, deve-se observar que a outra opção que lhe restaria, isto é, negar tais
perspectivas de giro decolonial, seria compactuar com o estado atual de segregação racial disfarçada pelo
discurso de democracia racial, que conquistou a sociedade brasileira. Ter-se-ia, na prática social, um Minis-
tério Público cúmplice com práticas racistas, assim como foi o Ministério Público da África do Sul com o
regime de apartheid nas décadas de 1948 a 1978, perseguindo — a mando do Executivo do qual fazia parte
— negros e negras acusados (as) de crimes políticos.59
57
NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. 3ª ed. Rio de Janeiro, Ipeafro, 2019. p. 296 a 301.
58
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2017. p. 15.
59
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fico ESMPU, Brasília, a. 17 – n. 51, p. 351-368 – jan./jun. 2018.
290
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7 Considerações finais
Há um longo caminho a ser percorrido pelo Ministério Público, se, de fato pretende, enquanto institui-
ção constitucional, desviar-se da saga histórica que o sempre fez composto por elites, intelectualizadas ou
não, que não trouxeram o debate racial para dentro da instituição. O ponto de partida do Ministério Público
precisa ser repensado: ainda crê que há democracia racial no país.
Ao abrir o discurso racial dentro da instituição, com apostas em perguntas sólidas e constrangedoras
sobre a perpetuação do poder branco na liderança institucional, é possível começar a falar sobre a tal voca-
ção socialmente transformadora do Ministério Público. Sem isso, é uma instituição, como nos diz a refinada
sabedoria popular, que representa o mais do mesmo, a perene segregação racial à brasileira, que é disfarçada
enquanto estratégia antinegra, mas extremamente real e sentida pelos corpos negros que, quando não en-
carcerados, agonizam seu estado de liberdade, reféns do impacto desnudante dos olhares sociais que os
representam como potenciais criminosos.
Acordar. Abrir o discurso. Enegrecer-se. Transformar-se. Aquilombar-se. Amefricanizar-se. Imperativos
do tempo presente para um Ministério Público brasileiro, que esteja realmente preocupado com a renovação
institucional e social.
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