Economia Política
Manual – Economia: Um texto introdutório – 5ªedição – Manuel Porto
A pergunta inicial que se coloca é o que é a economia?
Economia - etimologicamente: Oikos – casa, nomos – lei/costume (regras de
administração da casa), é a ciência da escolha, como se comporta e qual o seu objetivo.
Os economistas não concordam todos acerca da definição de economia
Economia positiva (perspetiva marginalista): aquilo que é, trata do que é, é marcada
pela imparcialidade e eficiência.
Economia normativa (perspetiva subjetiva): trata do que deve ser, é marcada, para
além da eficiência, pela equidade e justiça.
Nesta cadeira, irá estudar-se a economia positiva, visto que é uma perspetiva mais
clássica.
Lionel Robbins (1898 – 1984)
Em 1932, um autor que está inserido naquilo que é a economia mainstream (mais
comum, dominante nas universidades por todo o mundo) propôs uma definição baseada
num problema que é a escassez e na forma como se lida com a escassez. Se os produtos
não forem escassos, não se suscitam problemas à volta deles.
“A Economia é a ciência que estuda o comportamento humano como uma
relação entre fins e meios escassos com usos alternativos, em necessidades de
desigual importância”.
A escolha é motivada pela escassez de meios/recursos passíveis de satisfazer as
necessidades, que são ilimitadas.
Todos os problemas e necessidades que não podem ser hierarquizadas não são de
cariz económico, uma vez que os problemas económicos procuram processos de
otimização, raciocínio e lógica – hierarquização.
Economia política – administração dos assuntos da cidade.
Três questões essenciais a que todas as economias têm de responder:
1. Saber o que produzir,
2. Como produzir,
3. Como distribuir o que se produz.
A macro e a microeconomia diferenciam-se pela perspetiva que adotam sobre a
economia (distinção feita pelos economistas clássicos).
- Macroeconomia, por sua vez, olha para as coisas de uma forma mais ampla, preocupa-
se com os estados, as economias nacionais e as relações económicas internacionais – é
aqui que falamos de PIB ou de inflação – cujo maior interesse é a plena afetação de
recursos.
- Microeconomia estuda os detalhes, preocupa-se com o comportamento dos indivíduos,
as empresas e o processo produtivo, sendo o seu maior interesse a eficiência (maximizar
a situação do produtor ou do consumidor através da melhor afetação de recursos
possível).
O problema económico: temos bens/recursos que são escassos e de emprego
alternativo mas necessidades múltiplas e alternativas.
Emprego alternativo pode ser “alternativo” em relação à utilização (usamos o bem A ou
o bem B) ou entre sujeitos (o João usa o bem A ou o Manel usa o bem B).
Escassez: não significa que haja pouca quantidade de um bem/recurso, mas sim que não
existe em quantidade suficiente para satisfazer as necessidades múltiplas e ilimitadas
dos consumidores/sujeitos, desta forma, usa-se o critério da eficiência.
Critério da eficiência: a economia trata de dividir os bens consoantes as necessidades
existentes.
NOTA: todas as nossas decisões são económicas, o tempo é um recurso escasso.
- Para repartir os bens utiliza-se o sistema de preços, os bens que não tem preço, são
repartidos de outra forma, como o preço.
Classificação dos bens
Os bens dividem-se em bens físicos, como objetos, e não físicos, como o tempo. Este,
por sua vez, subdivide-se em bens diretos e em bens indiretos.
Bens diretos: satisfazem diretamente as nossas necessidades
Bens indiretos: auxiliam, diretamente, a produção de algo que me satisfaz uma
necessidade, ou seja, satisfazem indiretamente as nossas necessidades através de
outros bens
No processo de produção estes classificam-se em:
1. Matérias-primas: bens que existem, por exemplo, na natureza como a resina,
um tronco.
2. Semi - produtos ou produtos intermediários: ainda estão numa fase de
produção e são possíveis mais transformações como uma tábua.
3. Subprodutos: para produzir um bem produzo outro como as aparas.
4. Produtos finais: como uma mesa.
Existem, ainda, bens duradouros e bens consumíveis.
Bens duradouros: pode utiliza-se mais que uma vez, não desaparece após a utilização,
prestam um fluxo de serviços.
Bens consumíveis: desaparecem após o uso, como uma maçã.
NOTA 2: durante uma crise económica, a procura por bens duradouros diminui e a de
bens consumíveis mantém-se
Distingue-se, também, bens perecíveis de bens duráveis.
Bens perecíveis: danifica-se com a passagem do tempo, estraga-se como as velas e o
carvão.
Bens duráveis: bens que não se estragam com o tempo.
Além disso, há bens substituíveis e complementares
Bens substituíveis: são bens alternativos (açúcar e adoçante)
Bens complementares: são bens que se usam conjuntamente (carro e pneu)
Por último, bens de produção conjunta e bens de produção associada: são bens
produzidos ao mesmo tempo, a produção pode ser necessária ou inevitável ou mais
eficiente.
Direito de Concorrência: visa prevenir e punir comportamentos que falseiam a
concorrência, por exemplo, o abuso de posição dominante – abuso de preços.
- Elasticidade Cruzada: quando o preço de um bem aumenta, a procura de outros
também aumenta.
Utilidade: aptidão real ou presumida de um bem para satisfazer um bem ou uma
necessidade.
Necessidade: é um estado psicológico referente a um objeto, o desejo de o possuir ou
usufruir, isto é, estado psicológico de insatisfação acompanhado pelo desejo de possuir
um bem que se julga capaz de satisfazer essa insatisfação.
A utilidade e a necessidade são subjetivas.
Surge o problema: a utilidade é subjetiva, a escala é sempre individual, logo há
impossibilidade de comparação interpessoal de utilidades.
Teoria da Utilidade Ordinal: consigo ordenar utilidades, da menos à mais útil.
Dessa forma, surgem 2 tipos de utilidades:
- Utilidade Total: soma da utilidade dos bens que se dispõem num determinado
momento, é crescente.
- Utilidade Marginal: é a utilidade do último (n+1), comporta-se de forma decrescente,
ou seja, a necessidade vai diminuindo sucessivamente.
Todas as leis da economia verificam-se no pressuposto ceteris paribus - se tudo o resto
permanece igual, todas as leis se verificam nesta condição
Lei da utilidade marginal/utilidade decrescente: à medida que um indivíduo consome
mais de um bem ou serviço, a satisfação adicional que cada unidade extra proporciona
diminui até ao ponto de saturação.
- A utilidade marginal levanta um paradoxo, este é, o paradoxo do valor: porque é que
os diamantes são mais caros que a água sendo que vivemos sem diamantes? Mas
precisamos dos bens, ou seja, o preço dos bens reflete ou é resultado da sua utilidade
marginal, portanto os diamantes são muito mais caros que a água porque são muito mais
escassos
- Restrição orçamental: quantidade de bens que posso comprar com o meu orçamento
em função do preço, tem condição ceteris paribus. Se o meu orçamento aumenta, a
minha restrição aumenta, se os preços diminuem a restrição aumenta e se os preços
aumentarem a restrição diminui. Se os preços aumentarem o poder de compra diminui.
Se o orçamento não chegar, tenho de cortar nos bens com a utilidade marginal mais
baixa, ou seja, são menos importantes para as necessidades primárias, por exemplo: ir
ao restaurante, ia 5 vezes, passo a ir 4 vezes – escolhas individuais e subjetivas.
- Quando falamos num agente/indivíduo supomos determinadas características –
homoeconómico – agente racional e maximizador de utilidades – tomar decisões
racionais.
- Quanto se troca de um bem para outro bem? Com essas respostas, traça-se a curva de
utilidade - tudo o que está mais próximo da origem representa níveis de satisfação
inferiores, dessa forma, afirma-se que quanto mais afastada da origem, melhores são os
pontos.
- Critério da eficiência ou Critério de Pareto: quando tenho uma situação de máxima
eficiência económica, quando não é possível passar de um ponto para o outro em que
aumente a quantidade de um deles sem diminuir a outra, por exemplo: X linha é melhor
que X, pois tem mais peixe e a mesma quantidade, cumprindo o critério de Pareto. Mais
de um, mas não tenho menos de outro, o critério é cumprido. É utilizado para situações
de equilíbrio geral, mas é algo raro conseguir esse equilíbrio.
Foi desenvolvido o critério de Pareto mais flexível ou critério Pareto Potencial: uma
situação é mais eficiente, melhor, se as vantagens/benefícios dos indivíduos que são
beneficiados forem suficientes para compensar os prejuízos dos que foram prejudicados
com aquela decisão.
CAPÍTULO III – A PROCURA
1. Definição da Lei da Procura + Gráfico
A lei da procura: De acordo com a lei da procura, quando o preço aumenta a procura (a
quantidade procurada) diminui. O contrário também se verifica, ou seja, quando o preço
diminui as quantidades procuradas vão aumentar.
O aumento da procura é a deslocação da curva da procura para a direita e para cima.
No entanto, não devemos confundir o aumento da procura com o aumento das
quantidades procuradas. A procura é a quantidade de um bem ou serviço que os
consumidores estão dispostos e capazes de comprar a um determinado preço, enquanto
que a quantidade procurada é a quantidade real de um bem ou serviço que os
consumidores compram a um determinado preço.
Condição ceteri paribus – todas as outras variáveis permanecem iguais. Reta de
inclinação negativa.
2. Fundamentação da Lei da Procura
2.1 Efeitos
Efeito de substituição: se o preço de um bem aumenta, as quantidades diminuem, pois,
os consumidores substituem um certo bem por outro, como bens
sucedâneos/substituíveis. Isto é, tendo como pressuposto a invariância das demais
circunstâncias da economia - se um preço de um bem aumenta, as quantidades
procuradas diminuem porque os consumidores substituem o consumo desse bem por
outro. Assim, acontece com um bem sucedâneo, sendo a substituição mais fácil quanto
maior for a sucedaneidade dos bens em alternativa.
Ex.: se aumenta o preço do café em seu lugar passa a comprar-se mais chácom um
efeito de substituição que explica a diminuição da procura de café quando sobe o seu
preço.
Efeito de rendimento: se o preço de um bem aumenta e, na condição ceteris paribus,
os rendimentos nominais são iguais, os consumidores perdem poder de compra, ou seja,
os consumidores têm de consumir menos – o poder de compra diminui, assim os seus
rendimentos reais diminuem, aquilo que consigo comorar com uma determinada moeda,
assim, se os preços sobem, com o mesmo rendimento tenho de comprar menos bens –
relacionado à inflação, isto é, se o preço de um bem aumenta e os rendimentos do
consumidor são iguais então, os consumidores perdem poder de compra. Se um preço
de um bem aumenta, os consumidores vão consumir menos esse bem e outros, porque
diminui o seu poder de compra.
Moeda com valor nominal: valor inscrito na moeda
Ex: uma nota de 10 euros tem o valor nominal de 10 euros)
Moeda com valor real: aquilo que consigo comprar com essa moeda, depende dos
preços dos bens, pois se os preços aumentam, com o mesmo valor real de moeda não
chega para comprar os mesmos bens
Poder de compra: aquilo que consigo comprar com uma determinada quantidade de
moeda.
2.1.2. Casos excecionais
Há exceções alem da procura: há bens cuja procura varia de forma diferente, existindo
casos em que um aumento de preço corresponde a um aumento da procura e em que
uma descida de preço corresponde a uma descida da procura.
Procura - ostentação – bens cuja procura varia no mesmo sentido dos preços, se
aumenta o preço, as quantidades dos bens também aumentam como os bens de luxo –
aumentando o preço de um bem de luxo, as pessoas vão querer comprar esse bem, logo
a quantidade aumenta também, isto é, tal pode acontecer com bens de luxo, que as
pessoas poderão procurar, não por corresponderem a uma necessidade básica, mas mais
pelo “efeito de demonstração” de riqueza que é assim evidenciado. Trata-se de uma
procura - ostentação, verificada por exemplo com joias, vestuário ou automóveis de alta
gama. Uma subida do preço poderá levar consequentemente a um aumento da procura,
tal como uma vulgarização do preço poderá levar a que passem a ser menos
consumidos, porque já não se consegue então o efeito de ostentação pretendido.
Paradoxo de Giffen – comportamento dos consumidores de classes baixas, face ao
aumento dos preços de 1ºclasse. Ex: em Inglaterra, as classes baixas procuravam pão, as
quantidades aumentavam. Ou seja, explica-se com o mesmo raciocínio do efeito de
rendimento
Classes baixas com rendimento baixo – a alimentação era composta por pão, e pouco
comiam do resto. Quando o preço do bem aumenta, faz diminuir o rendimento real das
famílias, diminui o poder de compra das famílias e aquelas que já tinham pouco e
ficavam com ainda menos, baixam ainda mais a sua procura de carne, pois se antes
comiam pouca, agora não comem e comem apenas pão. As pessoas não conseguem
continuar a comer 1 pão e 200g de carne então comem 2 pães e diminui o consumo de
carne.
Ex: suponhamos que alguém dispõe de uma quantia x para comprar batatas e carne,
sendo que um quilo de batatas tem um menor preço do que 200 gramas de carne.
Subindo o preço das batatas para o dobro, este consumidor de uma menor classe social
constata que não pode deixar de ter a base da sua alimentação, que são as batatas. Este
consumidor vai continuar a comprar as batatas, mesmo com esta subida de preço, no
entanto resto ainda menos dinheiro para a compra da carne, que com o que sobra depois
da compra das batatas, em vez de conseguir comprar 200 gramas de carne consegue
apenas comprar 20 gramas de carne.
Assim, o consumidor vai prescindir da carne, uma vez que com a quantia que agora
consegue comprar, o nível da satisfação que este produto lhe proporcionaria seria quase
insignificante, desta forma gasta tudo em batatas.
2.2. Teoria da Utilidade Cardinal
Teoria em que conseguimos quantificar os valores associados a cada bem que
consumimos, como, por exemplo, a sua utilidade – não há nenhum instrumento que nos
permita atribuir um quantitativo de utilidade às doses sucessivas que são mobilizadas
para satisfazer a necessidade, mas admitimos que essa utilidade vai descendo e, num
contexto de exercícios práticos, quantificamo-la.
As necessidades, em princípio, são saciáveis, o que significa que a utilidade que
retiramos de cada dose sucessiva que é afeta à satisfação de tal necessidade vai
diminuindo.
Exemplo prático 1 (parte 1): Vamos, então, partir do princípio que satisfação de cada
dose sucessiva de um bem diminui de forma linear, ou seja, de unidade a unidade. A
unida diferença é que a utilidade inicial de x é um pouco maior do que a utilidade inicial
de y, mas perdem utilidade na mesma proporção.
Bem Y Bem X Suponhamos que temos a possibilidade de ter um
cabaz com três unidades destes dois bens. Qual é a
utilidade total que conseguimos dos quatro cabazes
possíveis?
1º cabaz: 3y = 9 2º cabaz: 3x = 12
1ªunidade 4 5
2ªunidade 3 4
3ªunidade 2 3
4ªunidade 1 2
5ªunidade 0 1
Como é que escolhemos os bens, uma vez que queremos que tenha o máximo de
utilidade total? Feitas as contas, sabemos qual o melhor cabaz – o 4º cabaz, que tem
como utilidade total 13. No entanto, a forma mais fácil de resolver este problema não é
comparando as utilidades totais, mas sim encontrando as utilidades marginais, uma vez
que a melhor situação possível é aquela em que há igualdade das utilidades marginais
dos bens (associada à melhor utilidade total).
No caso do melhor cabaz, ou seja, o 4º, a última (e única) unidade de y vale 4 e a
última unidade de x vale 4 também.
Princípio da equimarginalidade – obtemos a maior satisfação quando a utilidade
marginal dos bens que utilizamos, a satisfação que por eles nos é proporcionada, é igual.
Quando trocamos um bem por outro, assume-se que o novo bem será melhor ou mesmo
equivalente ao bem trocado. Estamos sempre à procura do ponto de equilíbrio em que
maximizamos a nossa satisfação. Isto significa que, no dia a dia, aquando das decisões
da variação dos nossos recursos, estamos a ponderar qual é a relação entre a satisfação e
o custo que cada bem nos dá – temos de ter, também, em conta o custo dos bens.
Exemplo prático 1 (parte 2): Com o bem Z adicionado, caso nos dessem a hipótese de
um cabaz de cinco unidades, escolheríamos apenas o novo bem, uma vez que a utilidade
da 5ª unidade de Z é maior do que as primeiras dos outros dois bens
Bem Y Bem X Bem Z
1ªunidade 4 5 10 (5)
2ªunidade 3 4 9 (4,5)
3ªunidade 2 3 8 (4)
4ªunidade 1 2 7 (3,5)
5ªunidade 0 1 6 (3)
No entanto, o bem X custa 1, o bem Y custa 1 e o bem Z custa 2. Assim, não podemos
apenas atentar às utilidades de cada bem, temos de ter em conta o seu custo. Como se
resolve o problema? Divide-se a utilidade marginal pelo preço – utilidade marginal
ponderada.
10/2 = 5 7/2 = 3,5 9/2 = 4,5 6/2 = 3 8/2 = 4
Não esquecendo que a melhor situação possível é aquela em que há igualdade das
utilidades marginais dos bens:
Util . Marg . de X
Preço de X
= UtilPreço
. Marg . de Y
de Y
= Util . Marg . de Z
Preço de Z
Esta fórmula implica que o consumidor maximizará a sua satisfação (ou
utilidade total) assegurando que há uma igualdade da utilidade marginal do
dinheiro, ou seja, a última unidade de cada bem comprado deverá dar a mesma
utilidade marginal por unidade monetária – otimização do comportamento do
consumidor.
2.3. Teoria da Utilidade Ordinal. Curvas de Indiferença
Teoria da Utilidade Ordinal: teoria em que dispensamos a quantificação e nos
reconduzimos a um de dois juízos: ou um bem é melhor do que o outro, ou os dois bens
são iguais, ou seja, a utilidade não é mesurável, mas é comparável.
Como é que determinamos o ponto máximo de satisfação do consumidor e como é que
isto se explica? Através de curvas de indiferença do consumo.
Curvas de indiferença – une pontos que nos dão a mesma satisfação, num gráfico
cujas variáveis são, nos dois eixos, as quantidades de dois bens distintos. Têm três
característica chave:
- Inclinação negativa (relação inversa entre as variáveis)
- Convexidade em relação à origem (taxa marginal de substituição decrescente)
- Nunca se tocam nem se cruzam (são paralelas)
Suponhamos que só temos o bem X e o bem Y e temos uma restrição orçamental, como
é que o consumidor faz para maximizar a sua satisfação? Um cabaz com ambos os bem
será melhor do que um cabaz só com X ou só com Y, graças à utilidade marginal. A taxa
marginal de substituição entre os bens não se mantém sempre a mesma – devemos
sempre procurar a curva de indiferença mais alta que conseguimos atingir com a nossa
restrição orçamental (a que lhe é tangente).
Quando temos muito de um bem e pouco do
outro, estamos dispostos a dar relativamente
mais do bem que temos mais e receber uma
certa quantidade até menor do bem que temos
mais. Mas à medida que vamos tendo menos do
bem que tínhamos mais e vamos tendo mais do
bem que tínhamos menos, vamos alterando o
nosso preço relativo, já não vamos fazer os
mesmos negócios que faríamos no início – a
disponibilidade para trocar um bem pelo outro
alterou-se, levando-nos a prezar cada vez mais
o bem que temos menos e cada vez menos o
bem que temos mais.
Nesta teoria, o consumidor é apresentado com apenas duas opções aquando da altura de
escolher qual o cabaz que prefere: ou lhe é indiferente, ou tem preferência por um. Caso
tenha preferência por um cabaz, esse encontrar-se-á numa curva de indiferença mais
acima no gráfico do que os outros cabazes. No entanto, se lhe for indiferente, todos os
cabazes se encontrarão na mesma curva.
À medida que se desce numa curva de indiferença, a taxa marginal de substituição
diminui. Por exemplo, começamos por ter uma razão de troca de 2:1 = 2, depois 1:1 = 1
e, por fim, 2:1 = 0,5.
No caso dos bens complementares absolutos, a nossa
satisfação permanece imutável caso se varie apenas
uma variável. Por exemplo, nos sapatos – se tivermos
ganho apenas o sapato do pé esquerdo, sem ganhar
do pé direito, a nossa satisfação vai-se manter igual
(tem utilidade marginal de 0), uma vez que não o
poderemos utilizar sem o seu par. Há uma relação de
complementaridade absoluta. Se quisermos passar de
uma curva de indiferença para outra, temos de fazer
variar ambos os bens.
Duas curvas de indiferença do mesmo agente
económico nunca se podem tocar (tangentes) nem
cruzar (secantes), uma vez que se tivessem algum
ponto em comum, teriam a mesma satisfação,
portanto seriam iguais. Tirando o ponto que teriam
em comum, todos os outros pontos que ficam na
mesma vertical, ou na mesma horizontal, associam
quantidades diferentes de bens, então não podem
permitir a mesma satisfação, por definição.
Mapa de curvas de indiferença – conjunto das curvas de indiferença que
podemos representar dentro de uma certa lógica que é específica de um
consumidor.
Estamos a transpor para um processo de analise racional, rigoroso, aquilo que
são as escolhas que fazemos no nosso dia a dia. O prossuposto da economia
neoclássica – economia racional – é que nos comportamos diariamente como
agentes maximizadores. Aquilo que procuramos fazer em todas as escolhas da
nossa vida é maximizar, obter o máximo de satisfação possível e, portanto, os
economistas da escola neoclássica vêm-nos como mais do que agentes
económicos, vêm-nos como homoeconomicus.
3. A elasticidade do preço da Procura
3.1. O modo de medir a elasticidade
A lei da procura apenas nos indica se a procura aumenta ou diminui, não especificando
o quanto, é exatamente isso que o conceito de elasticidade do preço nos dá- a dimensão
da reação. A fórmula da elasticidade preço da procura é:
e= variação percentual da quantidade procurada / variação percentual do preço
Para se apurar a elasticidade não basta saber qual é variação da quantidade procurada ou
a variação do preço, é necessário também saber quais eram as quantidades procuradas e
o preço anteriores.
Por exemplo.: um aumento de 100 na quantidade procurada é grande se a procura
anterior for de 100, ou seja, é uma procura para o dobro (aumento de 100%). No
entanto, é um aumento bem menor se a procura anterior for de 1000 (aumento de c.
10%). Da mesma forma, uma descida do preço de 10 é muito grande se o preço anterior
for 20 (desceu para metade do preço, 50%), mas passa a ser uma descida pequena se o
preço anterior for de 1000 ou 10000.
3.2. A importância do cálculo das elasticidades
A importância do cálculo das elasticidades deriva na medida em que depende de elas
ganhar-se ou perder-se com alguma alteração de preço.
A um vendedor valerá a pena descer o preço se a elasticidade da procura for
maior
do que 1 (procura elástica), dado que há um aumento da quantidade procurada
percentualmente superior à descida do preço. No entanto, não valerá pelo contrário a
pena subir o preço, porque a quantidade procurada diminuirá em maior percentagem.
Se estivermos perante uma situação de procura rígida (em que a elasticidade da
procura é inferior a 1), já valerá a pena ao vendedor aumentar o preço, pois a
diminuição da quantidade procurada vai-se verificar numa percentagem menor. Neste
caso, pelo contrário, de nada adianta descer o preço porque a quantidade procurada não
aumentará na mesma proporção.
Por fim, será indiferente aumentar ou descer o preço quando a procura é de
elasticidade unitária, dado que neste caso a quantidade procurada vai variar (aumentar
ou diminuir) na mesma proporção do preço, ficando na mesma a receita obtida pelos
vendedores.
3.3. As situações diferentes de elasticidade-preço da procura
Procura elástica: acontece quando a uma variação de 1% (aumento ou diminuição no
preço) no preço corresponde a uma variação superior a 1% na quantidade procurada. A
procura reage mais que proporcionalmente à variação do preço.
A elasticidade é superior a 1 (em valor absoluto).
Procura inelástica ou rígida: acontece quando a uma variação de 1% no preço
corresponde uma variação na procura inferior a essa percentagem. A procura reage
menos do que proporcionalmente à variação do preço.
A elasticidade é inferior a 1 (em valor absoluto).
Procura com elasticidade unitária: acontece quando a percentagem de variação da
quantidade é exatamente igual à percentagem de variação do preço. A procura reage
proporcionalmente à variação do preço.
A elasticidade é igual a 1 (em valor absoluto).
4. A elasticidade-cruzada. Bens sucedâneos e bens complementares
Elasticidade – cruzada: mede a dimensão da reação das quantidades procuradas de um
bem face a variação do preço de outro bem – bens substituíveis ou complementares –
variam em sentido inverso
Bens complementares (açúcar e café) – inclinação negativa – se aumenta o preço do
café, a quantidade procurada de café diminui, logo procuro menos açúcar.
Bens substituíveis/sucedâneos (bananas e maçã) - inclinação positiva – se aumenta o
preço do bem A, aumenta as quantidades procuradas do bem B. Se, o preço das bananas
aumenta, então aumenta a procura da maçã.
5. Da procura individual à procura agregada
6. A elasticidade – rendimento da procura
Elasticidade - rendimento da procura: medida da sensibilidade da procura de um bem
à variação do rendimento dos consumidores
⇔
variação relativa da quantidade procurada △ %Q
e= variação relativa do rendimento do consumidor e = △ %R
Assim, com o aumento do rendimento, a procura de bens de qualidade inferior diminui.
As pessoas com menos rendimentos usam bens duradouros, já a procura dos bens
essenciais consumáveis é muito mais estável.
As variações da procura podem ser função direta do rendimento:
Bens normais: elasticidade positiva (e>0)
Bens necessários: elasticidade positiva, mas em menor proporção (0<e<1)
Bens superiores: elasticidade positiva, mas de forma muito acentuada (Ex: bens de
luxo, entretenimento, viagens) Ou função indireta - Bens inferiores: elasticidade
negativa (e<0) (ex: margarina em relação à manteiga, óleos alimentares em relação ao
azeite, autocarro em relação ao carro) Estas classificações dos bens dependem
estritamente dos comportamentos aquisitivos decorrentes do rendimento (um bem pode
ter diferentes classificações para diferentes pessoas.
Resumindo: A elasticidade é uma medida da sensibilidade da variação de uma variável à
variação da outra. Pode relacionar procura com o Preço do próprio bem (elasticidade da
procura: Δ%Q / Δ%P), procura com o Preço de outro bem (elasticidade cruzada da
procura: Δ%Qb / Δ%Pa), procura com Rendimento (elasticidade rendimento da procura:
Δ%Q / Δ%R), ou oferta com o Preço do próprio bem (elasticidade da oferta: Δ%Q / Δ
%P). Das divisões das fórmulas podem resultar valores superiores à unidade
(elasticidade elástica: quando a quantidade varia mais do que o preço), iguais à unidade
(elasticidade unitária: quando a quantidade varia o mesmo que o preço) e inferiores à
unidade (elasticidade rígida: quando a quantidade varia menos do que o preço).
7. A procura função de outros fatores
A procura pode variar através de outros fatores, para além do preço e do rendimento,
nomeadamente: com os gostos dos consumidores e com o progresso tecnológico.
Em alguns casos tratar-se-á apenas de alterações de gostos, deixando por exemplo de se
apreciar um certo padrão de fatos, a favor de um outro padrão, ou um certo tipo de
destino turístico a favor de um outro. Em outros casos tratar-se-á de alterações da
procura resultantes de inovações tecnológicas, levando a uma alteração das preferências.
No caso dos bens de consumo esta mudança estará ligada a mudanças de gosto,
preferindo-se naturalmente televisões a cores quando se dá uma inovação tecnológica.
No caso dos processos produtivos não se trata já de uma questão de gosto, o empresário
passará a usar uma tecnologia mais eficiente ou um combustível com maior
rentabilidade como consequência da necessidade de tornar mais eficiente o processo de
produção.
CAPÍTULO IV – A OFERTA
1. A lei da oferta. Enunciado e representação gráfica.
Lei da oferta: nos termos da qual a quantidade oferecida é função do preço,
aumentando quando o preço aumenta e diminuindo quando o preço baixa. Temos todos
também a noção de que assim acontece, agindo 'de acordo com a lei', acorrendo mais
ofertantes ao mercado e oferecendo em maior medida os que já ofereciam quando o
preço sobe, ou assistindo-se ao comportamento inverso quando o preço baixa. Assim, o
preço no eixo vertical e a quantidade no eixo horizontal, a curva da oferta é uma curva
de inclinação crescente.
2. Fundamentação para a lei da oferta. Da lei dos rendimentos decrescentes à
curva do custo marginal
A explicação para a oferta dos produtores, seja qual for o setor de produção, está já mais
ligada a circunstâncias tecnológicas do que a circunstâncias de satisfação pessoal.
Para cada ofertante ganhar vantagem dependerá por um lado do preço a que consegue
vender e por outro do custo com que consegue produzir ou disponibilizar os bens no
mercado (tratando-se de um comerciante).
A inclinação crescente da curva resulta de uma lei antiga e famosa, a lei dos
rendimentos decrescentes, nos termos da qual sendo dados os demais elementos de
produção e sendo constante a técnica, o rendimento adicional proporcionado por um
fator variável vai sendo sucessivamente menor (é decrescente).
Por exemplo: sendo menor o acréscimo do 12. ° trabalhador (de 8 unidades, passando a
produção total de 210 para 218) do que o acréscimo do 11. ° (de 10 unidades, passando
o total de 200 para 210): estando-se por isso na fase do rendimento marginal
decrescente. Como é óbvio, há-de chegar-se a uma fase em que o rendimento marginal é
zero, quando por exemplo o 15. ° trabalhador já nada pode acrescentar à produção do
14. ° (podendo acontecer mesmo que haja um rendimento marginal negativo, quando
por exemplo um excesso de trabalhadores num escritório exíguo leve a que haja uma
diminuição da eficiência do conjunto.
3. A elasticidade – preço da oferta
variação relativa da quantidade oferecida
e= variação relativa do preço
A elasticidade-preço é maior do que 1 - sendo a oferta elástica - se as quantidades
oferecidas aumentarem ou diminuírem em maior proporção do que o preço (com esta
'lei', no mesmo sentido).
No entanto, menor do que 1 - oferta inelástica – se variarem em menor proporção.
Por fim, teremos por fim elasticidade igual a 1 se a quantidade oferecida aumentar ou
diminuir na proporção da subida e da descida do preço, respetivamente. Com os casos
extremos, de oferta infinitamente elástica (em a) e de oferta totalmente inelástica, ou
rígida (em c), e de permeio (emb) o caso de a oferta ser de elasticidade igual a 1.
4. As funções de produção e as combinações produtivas mais vantajosas
As funções de produção são como formas diferentes de organizar a produção. A mesma
quantidade (isoquanta) pode resultar de um processo produtivo mais capital - intensivo
ou de um processo produtivo mais trabalho-intensivo. Quando passamos para uma
produção maior, para uma nova isoquanta, tal poderá resultar também de acréscimos
alternativos de capital e de trabalho (ainda por exemplo de melhorias tecnológicas ou de
gestão); podendo mesmo acontecer que o aumento da utilização de um dos fatores seja
numa medida tal que se consiga uma redução na utilização do outro fator.
Portanto a curva da oferta, como curva dos custos marginais, a curva que exprime na
produção de cada quantidade a combinação mais favorável dos fatores primários (e de
quaisquer outros elementos de produção, como são os casos das matérias-primas e dos
bens intermediários).
5. Outros custos de produção
O custo fixo (ou 'irreversível'): é o custo que tem de ser sempre suportado, mesmo que
não haja produção - por exemplo as rendas das fábricas ou dos escritórios, os
pagamentos de equipamentos, os juros de empréstimos ou os pagamentos de pessoal
permanente.
O custo variável: é o que se altera com o nível da produção, incluindo- -se as matérias-
primas e o pessoal não permanente.
O custo total: é naturalmente o somatório destes dois.
O custo marginal: é o custo da última unidade, o custo da unidade n + 1, e que o custo
médio é o quociente da divisão do custo total pelo número de unidades produzidas.
O custo total médio: podendo apurar-se naturalmente também o custo fixo médio e o
custo variável médio, em cada um dos casos caso dividindo o custo em análise pelo
número de unidades produzidas.
6. As economias de escala e a curva do custo médio
A evolução do custo médio (Cm) resulta das economias que são conseguidas com o
aumento da produção. São várias as razões que podem levar a que se trate de um custo
que se reduz quando são mais as quantidades produzidas: razões de fabrico, comerciais,
financeiras ou ainda por exemplo políticas. No caso do fabrico pode acontecer que haja
equipamentos que não sejam reprodutíveis em modelos de pequena dimensão, com a
correspondente diminuição do seu custo unitário. Por exemplo, o forno de uma fábrica
de celulose, capaz de produzir vários milhões de toneladas, não é decomponível em
pequenos fornos, com a correspondente redução de custos, para a produção de pequenas
quantidades. Num outro exemplo, não é possível decompor uma linha de montagem de
automóveis, também aqui com a correspondente redução de custos.