Discursos
A política de defesa de um país pacífico
muito relevante. As nossas Forças Armadas serão parceiras
inestimáveis na construção deste novo Brasil. Um Brasil
forte, profissionalizado, com capacidade de criar e construir
ciência, tecnologia e inovação exige forças armadas fortes,
capazes de construir este país.
Pesquisa do IPEA, divulgada em dezembro de 2011, revela que
70,3% dos brasileiros acreditam que os gastos com equipamentos
militares devem aumentar, enquanto 88,4% aprovam o fomento à
indústria de defesa, seja pelo incentivo às empresas exclusivamente
brasileiras, seja pelo incentivo às empresas compostas também por
capital estrangeiro, com ênfase nas primeiras.
Essa preocupação com a base industrial de Defesa brasi-
leira conjuga-se à aspiração nacional ao desenvolvimento.
O robustecimento da base industrial de defesa tem como
consequência direta a geração de emprego, a capacitação nacional
e o desenvolvimento de setores tecnológicos de ponta. Um
importante passo foi dado nas últimas semanas com a aprovação,
pelo Congresso Nacional, da Medida Provisória 544, que estabelece
regras especiais para a compra e contratação de produtos, serviços
e sistemas de defesa por parte do Estado brasileiro.
O mercado mundial de defesa movimenta U$1,5 trilhão por
ano. A participação do Brasil nesse enorme mercado reduz-se
atualmente a apenas U$ 1 bilhão. A MP 544, que em breve será
sancionada como lei, permitirá que a indústria de defesa nacional
tenha condições de competitividade internacional.
As parcerias com outros países e as compras de produtos e
serviços no exterior devem ser compatibilizadas com o objetivo
de assegurar amplo espectro de capacitações e tecnologias sob
domínio nacional. Não queremos ser meros compradores de bens
e serviços.
A recomposição da capacidade operativa das Forças Armadas
deve, assim, estar associada à busca de autonomia tecnológica e ao
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Celso Amorim
fortalecimento da indústria de defesa nacional. É esse o princípio
que norteia a preparação do Plano de Articulação e de Equipamento
da Defesa, o PAED. O PAED representa a consolidação dos
detalhados planos de articulação, equipamento e recuperação da
capacidade operacional da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.
O PAED permitirá que as três forças consolidem requisitos comuns
para a aquisição de meios, ampliando a eficiência e diminuindo
custos. Dará, também, ao restante do governo e à sociedade
transparência sobre como estão sendo empregados os recursos da
Defesa – o que é vital em um Estado democrático.
De acordo com mensuração do Instituto Internacional de
Pesquisas da Paz de Estocolmo, o SIPRI, o Brasil ocupa a décima
posição na classificação mundial dos gastos de defesa em 2011.
Do orçamento alocado para esse ano, de R$ 60,2 bilhões, cerca
de 75% foram destinados a pessoal e encargos sociais. O custeio
representou 13,2%, e o investimento, 10,6%.
É preciso esclarecer que, em um país de proporções conti-
nentais como o Brasil, é natural que o volume dos gastos em
pessoal seja considerável; na verdade, quando se considera (em
uma comparação dentre outras possíveis) que o efetivo total de
nossas três Forças Armadas equivale aproximadamente à metade
do efetivo de uma única força – o exército – da Turquia, percebe-
-se que esses números podem até mesmo ser modestos. A questão,
portanto, está menos na distribuição dos gastos do que no nível
de recursos destinados ao custeio e ao investimento nas Forças
Armadas. Como se sabe, essas são variáveis-chave em um ambiente
estratégico composto por equipamentos militares sujeitos a
desgaste e, especialmente, à inovação tecnológica.
Conhecemos as dificuldades do momento econômico
internacional e seus inevitáveis reflexos no Brasil. Tampouco
ignoramos a indispensável prioridade da área social. Mas,
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Discursos
A política de defesa de um país pacífico
para refletirmos sobre a escala adequada de participação dos
gastos de defesa em relação ao Produto Interno Bruto nacional,
cumpre comparar o Brasil ao que poderíamos chamar – com
toda a imprecisão e variação de condições geoestratégicas – seus
“semelhantes” no cenário internacional: os países-membros do
agrupamento BRICS. A média de gastos desses países é de 2,4% do
PIB. Esta razão no Brasil foi, em 2011, um pouco menos de 1,5%.
Tomando-se por base os indicadores econômicos atuais,
estima-se que o PAED, caso implementado, elevará a razão entre
gasto de defesa e PIB para cerca de 2%, ou seja, um aumento de
meio ponto percentual em relação ao nível corrente, ainda bem
abaixo da média BRICS de 2,4%. Observe-se que o PAED é um
plano indicativo, que não tem a força dos planos plurianuais e,
muito menos, da Lei Orçamentária Anual; mas será referência
importante para ações de prazo tão longo como essas empreendidas
para a Defesa.
Seria fastidioso referir-me a todos os projetos em cursos nas
três Forças, sob a coordenação do Ministério da Defesa. Quero
fazer uma menção especial a três deles, não necessariamente os
maiores, mas de grande significado para a tecnologia nacional:
a Corveta Barroso, o Blindado Guarani e os foguetes lançadores de
sondas (futuramente lançadores de microssatélites). O que todos
têm em comum é que não só sua construção, mas os respectivos
projetos são brasileiros.
Outro princípio de nossas ações é o aumento da intero-
perabilidade das três Forças singulares, para que a cadeia de
comando e controle da Defesa possua máxima eficiência. Quero
registrar que o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas vem
trabalhado no aprimoramento do sistema militar de comando
e controle (SISMC)², de que é exemplo o teste realizado entre o
sistema de planejamento operacional militar (SIPLOM) do MD e
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Celso Amorim
o sistema C² (Comunicação e Controle) em combate do Exército,
ocorrido durante a Operação Conjunta Atlântico II. Na mesma
linha, as recentes operações de garantia da lei e da ordem e as opera-
ções Ágata são exemplos bem-sucedidos da interoperabilidade.
***
Meus comentários sobre a recuperação das Forças Armadas
Brasileiras limitaram-se, até aqui, a aspectos materiais. O sucesso
de nossa estratégia dissuasória, e também de nossas iniciativas de
cooperação, depende de termos marinheiros, soldados e aviadores
perfeitamente capacitados para o desempenho de suas missões.
Na mesma linha, a sociedade brasileira possui clara percepção
da importância do papel desempenhado pelas Forças Armadas não
só para a tarefa fundamental da defesa da pátria, mas, nos termos
constitucionais, para atuação supletiva (mas frequentemente
decisiva) na garantia da lei e da ordem, como está ocorrendo aqui
no Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão.
Na democracia, o respeito que os militares devem ao poder civil
é axiomático. Ao mesmo tempo, cabe às autoridades civis respeitar
e valorizar o trabalho desenvolvido pelos militares, sobretudo
o seu agudo senso de profissionalismo. O profissionalismo
militar foi bem definido pelo cientista político norte-americano
Samuel Huntington como a conjugação de perícia, senso de
responsabilidade e espírito de corpo – que não se confunde com o
corporativismo, mas encerra a ideia de fazer parte de um conjunto
que age de forma orgânica.
A sociedade e o Estado devem expressar o respeito e a
valorização do profissionalismo dos militares por meio de ações
que assegurem condições adequadas de trabalho e de vida. O
atendimento a essa dupla necessidade está no cerne de qualquer
política de defesa bem-sucedida.
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Discursos
A política de defesa de um país pacífico
O governo da Presidenta Dilma Rousseff, do qual me orgulho
de participar, está plenamente consciente da importância de
garantir uma vida digna à família militar, ao mesmo tempo em que
trata de recuperar a capacidade operativa das Forças Armadas. Até
porque, somente dessa forma, poderemos continuar a trabalhar
pelo desenvolvimento de uma sociedade próspera, justa e solidária,
ao abrigo de ameaças externas.
Muito obrigado.
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Conclusão da Operação Arcanjo
Palavras por ocasião da Cerimônia de Passagem de Comando da
Força de Pacificação do Exército Brasileiro para as forças de segurança
pública do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 9 de julho de 2012
Gostaria, inicialmente, de referir-me de maneira específica
aos generais que comandaram, em nome do Exército, a Força de
Pacificação: General-de-Brigada Sarmento, General-de-Brigada
Leme, General-de-Brigada Sardenberg, General-de-Brigada Tomás
e General-de-Brigada Rego Barros. Todos eles desempenharam de
maneira competente, brilhante e dedicada as funções para as quais
foram chamados.
Senhor Governador,
Esta não é a primeira passagem de comando que assisto aqui,
mas ela é singular, porque esta passagem do Exército para a Polícia
Militar vem acompanhada do sentimento de dever cumprido,
sobretudo do próprio Exército.
Como Ministro da Defesa, eu vivencio um pouco desse
agradável sentimento que nos une no dia de hoje. Por uma dessas
coincidências da vida, eu estava com o Presidente Lula na Guiana,
em uma viagem de carro entre o aeroporto e o local onde teríamos
uma reunião da Unasul, quando o Ministro Nelson Jobim, em
contato sempre com Vossa Excelência, ligou para solicitar esse
apoio.
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Celso Amorim
Foi um momento especial, que, se me permitem dizer, revelou,
da parte sobretudo do Governador Sérgio Cabral, grande coragem
política. Digo isso porque uma das coisas difíceis da vida é pedir
ajuda. Pedir ajuda na hora certa e à autoridade certa. E o Presidente
Lula e o meu antecessor, Ministro Jobim, corresponderam, como
mais tarde viria a corresponder também a Presidenta Dilma
Rousseff, quando foi necessário prorrogar a permanência do
Exército aqui.
Gostaria também de cumprimentar a Marinha, cujos Fuzi-
leiros participaram do início dessa operação. Naturalmente, foi o
Exército que aqui ficou por mais tempo. Seu trabalho nos enche
de satisfação e de alegria – a nós, que somos responsáveis, no
Governo, pelo assunto; mas, tenho certeza, também a toda a
população brasileira, que pôde assistir a esse exemplo de dedicação
e devoção à causa pública.
O General Adriano, com o apoio do Ministério da Defesa e
de seus oficiais aqui presentes, levou a bom termo esta operação,
ao mesmo tempo em que realizou um trabalho esplêndido na
segurança da Conferência Rio+20.
Tudo transcorreu extraordinariamente bem, graças a essa
capacidade do Exército – que eu já havia testemunhado no Haiti
– de combinar a firmeza na defesa da ordem com a compreensão
das necessidades locais e com a capacidade de dialogar com a
comunidade e com os meios de comunicação de massa.
É importante frisar que essa operação aqui foge ao padrão
normal de atividade das Forças Armadas, que é a defesa da pátria
em face de ameaças externas. Mas, uma vez solicitada, a operação
foi cumprida com total competência e com grande profissionalismo.
As estatísticas são impressionantes: as patrulhas a pé e com
veículo e os contatos feitos com a população chegam a números
muito elevados. E recebi de tudo isso testemunhos pessoais.
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Discursos
Conclusão da Operação Arcanjo
A Polícia terá um trabalho fundamental na pacificação, junto
com todas as outras secretarias de governo. Não vou, de maneira
nenhuma, dar lições ao Governador, que sabe disso muito melhor
do que eu.
É muito importante que órgãos federais e também empresas
privadas, através de órgãos como o Senai, o Sesc, o Sesi, possam
dar apoio permanente, porque a pergunta que a população faz é
– e depois? Depois, é preciso que haja uma atividade econômica
permanente, que permita a essas pessoas vencerem a situação
de pobreza e de marginalização que se tornou responsável – em
grande medida, mas não exclusivamente – pela criminalidade.
Gostaria, então, não só de agradecer ao Exército, na pessoa do
General Enzo, e ao General De Nardi, que todos os dias me dava o
assessoramento, e naturalmente a todos que participaram, direta
ou indiretamente, dessa operação.
Gostaria de dar parabéns ao Governador do estado do Rio e
dizer que, para nós, é um grande orgulho que a cidade do Rio acaba
de ser declarada patrimônio paisagístico da humanidade.
Então, vejam pelo que temos que zelar: pela paz, pelos
cidadãos, pela segurança, pelo seu bem-estar e pelos seus direitos
humanos, mas também por esse patrimônio único que nos foi dado
e que nos cabe guardar.
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O panorama global de segurança
e as linhas de defesa dos
interesses brasileiros
Palestra por ocasião da abertura do Curso de Inverno do Centro
de Direito Internacional. Belo Horizonte, 27 de julho de 2012
O crescente interesse da sociedade brasileira pelos assuntos
internacionais é um fato bastante auspicioso. Ele expressa a
projeção do Brasil na política internacional e, também, o próprio
reconhecimento pela sociedade do papel do país nos destinos do
mundo.
Esse interesse tem contribuído, nos últimos anos, para
um entendimento de que a projeção do Brasil exige clareza
quanto às formas de defesa de seus próprios interesses, a seu
condicionamento estratégico e aos passos necessários para que
o país tenha adequadas capacidades – tanto diplomáticas quanto
militares. Parece-me apropriado falar dessas questões para um
auditório de estudantes de Direito Internacional, que devem
compreendê-las com rigor.
Nosso país tem na diplomacia e no Direito a racionalidade
básica de sua inserção internacional. O momento é especialmente
oportuno para a discussão dos temas de defesa.
Na semana passada, o Governo da Presidenta Dilma Rousseff
enviou para a apreciação do Congresso Nacional três documentos
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Celso Amorim
de grande importância: a Política Nacional de Defesa, a nova
Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional.
Em todos eles, transparece a relação íntima que a Defesa mantém
com a democracia brasileira. Os documentos deixam patentes as
conexões entre Defesa e política externa, esteios da soberania.
Esclarecem os Objetivos Nacionais de Defesa e os meios
para sua consecução, além de facilitarem o acompanhamento e a
reflexão da sociedade sobre as capacidades e os desafios da defesa
nacional. A Política de Defesa, a Estratégia de Defesa e o Livro Branco
são um convite à participação da população no debate público de
assuntos fundamentais para a proteção de seus interesses. Pensar
nossa política de Defesa exige refletir sobre o panorama global de
segurança em que se insere o Brasil.
Gostaria, assim, de iniciar essa exposição com algumas
considerações sobre a dinâmica recente nesse panorama e discutir
algumas de suas premissas.
***
A segurança internacional – ou insegurança internacional –
tem hoje o Oriente Médio como epicentro. Um de seus elementos-
-chave, o conflito árabe-israelense, segue sem solução no horizonte
visível. Está mais distante de algum tipo de acordo do que em
outros momentos do passado recente.
Se compararmos a situação atual com a que vigorava, por
exemplo, quando os Estados Unidos convocaram a Conferência
de Annapolis, há cerca de cinco anos, veremos que a perspectiva
de uma solução negociada que permita a existência plenamente
reconhecida de um Estado palestino coeso e economicamente
viável, vivendo lado a lado com o Estado de Israel, é hoje muito
menos promissora.
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