Celso Amorim
Essas regiões têm características próprias: vários países africa-
nos fazem parte de organizações de tipo variável, algumas com
uma dimensão militar; Portugal evidentemente faz parte de uma
grande organização militar de caráter defensivo; e o Brasil agora
faz parte também de um outro foro, de caráter não defensivo, mas
cooperativo, que cada vez mais cresce em importância dentro de
nosso relacionamento, que é o Conselho de Defesa Sul-Americano
da Unasul.
Então nós temos aqui o grande desafio de promover a
cooperação entre países de regiões tão distantes, de trazer para
essa cooperação as experiências que cada um adquire, de trazer
as vivências e os desafios – alguns comuns, outros particulares –
para a mesa de debates e, ao mesmo tempo, de sermos capazes de
entender que cada um tem a sua especificidade e a sua visão de
mundo, consideradas todas as afinidades que nos unem.
Portanto, eu diria que a nossa visão tem que ser baseada
sobretudo na ideia da cooperação. Eu digo isso porque creio que
não seria útil nós dispendermos energia em coisas que não teremos
condições de realizar, por um motivo ou por outro. Obviamente,
seria praticamente impossível falarmos em uma defesa comum
entre os países da CPLP, o que não nos impede de cooperar e de
chegarmos às conclusões de como cooperar para a defesa de cada
um dos países da CPLP.
Eu queria juntar-me também ao que já foi dito aqui sobre
as eleições de Guiné-Bissau. Guiné-Bissau, entre todos os nossos
irmãos, talvez seja o país mais necessitado. É difícil – já visitei
muitos países do mundo em várias situações – visitar um país que
tenha tanta necessidade de contribuição e de apoio internacional,
sobretudo de apoio desinteressado e verdadeiramente humano,
como o que pode ser dado pelos países da CPLP. Ao mesmo tempo,
é um país que luta internamente para criar as condições para
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Discursos
A cooperação lusófona em defesa
receber esse auxílio. Eu não estou falando em abstrato, porque eu
sei que um dos elementos fundamentais para o desenvolvimento
e a estabilidade da Guiné-Bissau é a reforma do setor de Defesa,
especificamente do setor militar.
Sei que todos os países aqui estão empenhados em contribuir
para isso. O Brasil inclui-se nesse quadro. Antes do último golpe de
Estado lá, já havíamos feito inclusive planos muito concretos para
ajudar não só na formação policial – coisa que chegamos a fazer
até certo ponto –, mas também na formação das próprias Forças
Armadas – e estamos totalmente dispostos a fazê-lo, assim que as
condições permitam. Eu acho que é muito importante que haja um
acompanhamento direto da Secretaria da CPLP sobre a evolução da
situação da Guiné-Bissau, até para nos dizer se as condições para
essa cooperação na reforma do setor de defesa – que é fundamental
– estão dadas.
Eu não vou alinhar aqui as grandes linhas do trabalho que nós
temos feito juntamente com outros países, com a compreensão de
que tudo isso é um esforço comum.
Mas não é possível deixar de destacar os exercícios Felino – o
último realizou-se no Brasil – e brevemente haverá um exercício
na carta – como dizem os militares – que será no Timor; esse
seminário de grande importância na área marítima; enfim, todas
essas ações da CPLP.
Pensando em seminários, e mesmo levando em conta as
diferenças de nível tecnológico entre os países – e essa é uma tarefa
que talvez o centro de estudos estratégicos possa levar adiante –,
seria talvez interessante discutirmos os desafios da guerra
cibernética, isso é algo para o que nossos países talvez não tenham
despertado suficientemente. Isso é um problema não só para a
superpotência, como estamos vendo nos jornais todos os dias, mas
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Celso Amorim
que tem a ver também com a defesa dos recursos naturais, e não só
naturais, mas também humanos e tecnológicos.
Isso talvez seja especialmente relevante para os países
africanos. A defesa dos recursos naturais depende muito de nossa
capacidade de defesa em relação a intrusões e ataques cibernéticos.
Talvez pudéssemos dedicar um pouco de atenção a isso no nível de
seminários e discussões, sem ter a pretensão de passarmos a uma
defesa comum nesse campo.
O Brasil tem participado muito intensamente – eu não vou
enumerar – de vários projetos de cooperação bilateral com todos
os países aqui presentes. Recentemente, tivemos inclusive uma
participação no auxílio à formação da polícia do Timor Leste.
Com todos os países aqui presentes sem exceção nós temos
uma cooperação intensa. Com Portugal, ela já é tradicional, mas
com os demais países pretendemos também aprofundá-la. Outras
iniciativas em que o Brasil está envolvido – em algumas das quais
ele esteve na origem – são também muito importantes e podem ter
um reflexo nos trabalhos da CPLP.
É o caso da Zopacas, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico
Sul, algo que consideramos muito importante. A esse respeito
eu quero muito especialmente agradecer a Portugal o fato de ter
sempre votado a favor da Resolução da Assembleia Geral da ONU
sobre o estabelecimento de um hemisfério sul livre de armas
nucleares. Isso revela a capacidade de Portugal de atuar de forma
independente e corajosa nos foros internacionais. Quero prestar
essa homenagem.
Menciono também que temos participado com grande
preocupação, por interesse, mas também com o objetivo de ajudar,
de exercícios próximos ao Golfo da Guiné – ou nele. É uma área
de grande importância para todos os países, e também para o
Brasil, porque grande parte do petróleo que importamos vem de lá.
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Discursos
A cooperação lusófona em defesa
Independentemente disso, temos grande interesse em contribuir
para a segurança dessa área. Muito recentemente, participamos de
uma operação de patrulhamento nessa região.
Volto a dizer: estamos prontos a cooperar, tanto no plano
multilateral da CPLP, quanto no bilateral dos países envolvidos.
E, mais uma vez, agradeço a proverbial hospitalidade portuguesa,
hoje ainda brindada por um tempo muito bonito e uma localização
muito agradável.
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A grande estratégia do Brasil
Palavras na abertura da 1ª Jornada Estratégica da Chefia de Assuntos
Estratégicos do EMCFA. Brasília, 14 de novembro de 2014
A política de defesa nos quatro primeiros anos do Governo
da Presidenta Dilma Rousseff orientou-se pelo conceito de grande
estratégia. Essa diretriz inspira-se na Estratégia Nacional de
Defesa, segundo a qual os objetivos de defesa brasileiros inserem-
-se no marco de uma “grande estratégia”.
Em seu contexto original, a expressão grande estratégia foi
mais utilizada para assinalar o fato de que, durante uma guerra,
a atividade bélica deve ser reforçada por uma série de políticas
suplementares, como o comércio e a mobilização industrial. Para o
Brasil de hoje, o conceito de grande estratégia deve referir-se a uma
coordenação de políticas com vistas à defesa do interesse nacional
e à contribuição para a paz mundial. Esses dois objetivos, interesse
nacional e paz mundial, se complementam e se reforçam. Eles são,
a meu ver, a essência da grande estratégia que devemos seguir.
Por um conjunto de razões, a ideia de que o Brasil deva assumir
um papel de relevo no plano internacional não é consensual na
sociedade brasileira, ou pelo menos entre os chamados formadores
de opinião. Por vezes, essas razões ligam-se a preocupações
legítimas, como, por exemplo, as desigualdades sociais e os
problemas econômicos que ainda temos que enfrentar. Em outros
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