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Defesa e Cooperação na América Latina

Celso Amorim destaca a importância da Unasul e da CELAC na promoção da paz e segurança na América do Sul, enfatizando a necessidade de um Conselho de Defesa que respeite a soberania e os direitos humanos. Ele critica a militarização de questões de defesa civil e a associação das Forças Armadas ao combate ao narcotráfico, defendendo uma abordagem mais harmoniosa e respeitosa das diversidades regionais. Amorim também ressalta a necessidade de cooperação estruturante no Haiti e a importância de reconhecer as reivindicações da Argentina sobre as Ilhas Malvinas.

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Defesa e Cooperação na América Latina

Celso Amorim destaca a importância da Unasul e da CELAC na promoção da paz e segurança na América do Sul, enfatizando a necessidade de um Conselho de Defesa que respeite a soberania e os direitos humanos. Ele critica a militarização de questões de defesa civil e a associação das Forças Armadas ao combate ao narcotráfico, defendendo uma abordagem mais harmoniosa e respeitosa das diversidades regionais. Amorim também ressalta a necessidade de cooperação estruturante no Haiti e a importância de reconhecer as reivindicações da Argentina sobre as Ilhas Malvinas.

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Celso Amorim

isso, valorizamos e priorizamos mecanismos como os da União


Sul-Americana de Nações, a Unasul, e da Comunidade dos Estados
Latino-Americanos e Caribenhos, a CELAC. Em 2008, a Unasul
criou seu Conselho de Defesa. Ele conforma uma institucionalidade
de criação da confiança e prevenção de conflitos. Seus princípios
são a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias, o
respeito à soberania, a liderança civil democrática, a prevalência
dos direitos humanos e, sobretudo, o apego à paz. Tudo isso a
serviço do desenvolvimento dos nossos povos.
Em pouco tempo, o Conselho de Defesa Sul-Americano
desempenhou papel exemplar no equacionamento de diferendos
entre Estados-membros, e até mesmo dentro de Estados, com
sua aquiescência, naturalmente. Acompanhamos hoje, com
extraordinária satisfação, o processo de paz interno em outro
país irmão, a Colômbia. Felicitamos o governo da Colômbia e, em
particular, o Presidente Santos, pela coragem que o levou a abrir
um diálogo visando a paz e a conciliação.
O Conselho de Defesa Sul-Americano parte de base auspiciosa
e própria: a natureza de zona de paz, livre de armas nucleares. Na
verdade, esse espaço sul-americano projeta-se no espaço latino-
-americano e caribenho. Estamos pedindo às potências nucleares
que retirem suas reservas aos protocolos do Tratado de Tlatelolco,
de que somos membros todos os estados da América Latina e do
Caribe.
Seria muito importante que esta conferência reconhecesse
a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul e seu caráter livre
de armas nucleares – não apenas em cumprimento de resoluções
pertinentes da Assembleia Geral das Nações Unidas, mas também
como um gesto de criação de confiança entre os Estados das
Américas. É o mínimo que se pode esperar, além da progressiva
aplicação do artigo VI do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que

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Discursos
X Conferência dos Ministros de Defesa das Américas

determina negociações que em boa-fé visem ao desarmamento


nuclear de todos os países.
O que precede não exclui um vasto campo de cooperação
no âmbito das Américas. Pelo contrário, é o que tornará esta
cooperação profícua.
No âmbito do primeiro eixo temático, as ações de prevenção
e de socorro frente a desastres naturais integram, sem dúvida, a
pauta de possíveis programas de cooperação entre nossos países.
No entanto, isso requer a compreensão de que as Forças Armadas
têm, em muitos países (certamente no Brasil), um papel subsidiário
aos órgãos de defesa civil.
A despeito da importância das ações das Forças Armadas
nessas situações, seria um erro e até uma contradição, em termos,
tentar “militarizar a defesa civil”. Também devemos ter clareza
acerca de como um mecanismo interamericano sobre o tema seria
articulado com outros mecanismos nacionais e regionais, e, em
especial, com o Conselho de Defesa Sul-Americano, no nosso caso.
Dentro desses parâmetros, a proposta para o eixo temático 1 deverá
ser ainda melhorada e estar sujeita aos ajustes correspondentes.
É o que esperamos que seja capaz de fazer o grupo de trabalho
correspondente.
Quero também deixar claro que o Brasil não considera
adequada – repito, não considera adequada –, nesse contexto, a
menção à proteção do meio ambiente e da biodiversidade, como
sugere o título desse eixo temático. Não são temas essencialmente
militares, nem temas essencialmente de defesa.
No tocante ao eixo temático 2, creio que nossos países têm
uma história de êxito recente, da qual podem orgulhar-se, que
é o engajamento de muitos deles e da região como um todo em
favor do estado irmão do Haiti. Mas aqui também cabe frisar: o

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Celso Amorim

mandato conferido pelo Conselho de Segurança da ONU é o que dá


legitimidade às nossas ações.
Seja por meio da Minustah, seja por meio da OEA, cujo
Secretário-Geral quero cumprimentar, e de seu mecanismo de
apoio eleitoral, seja por meio da oferta de cooperação técnica ou
de doações, os países das Américas deram grande contribuição ao
objetivo de resgatar a paz e a segurança do Haiti e salvá-lo de um
desastre de enormes proporções, como foi o terremoto de dois
anos atrás.
A própria Unasul não esteve ausente desse processo, e quero
cumprimentar a liderança exercida pelo Presidente Correa, do
Equador, nesse particular. Fomos particularmente atuantes nos
socorros prestados por ocasião do terremoto de 2010. Certamente,
teremos lições a aprender dessa tragédia, que serão úteis aos debates
previstos acerca de desastres naturais. Aí verificamos cooperações
variadas – bilaterais, trilaterais, multilaterais – envolvendo, até
mesmo, em certos casos, países que têm relações difíceis entre si.
Uma dimensão decisiva dessa contribuição é oferecer
cooperação estruturadora do desenvolvimento haitiano – e não
apenas cooperação ocasional – que se realiza e, logo que passam os
sintomas da tragédia, ausentam-se. Ela deve lançar sementes de
um progresso autossustentável do Haiti, lembrando sempre que,
por melhor que sejam os trabalhos das ONGs, o Haiti é um Estado
nacional, e não uma coleção de organizações não governamentais.
Sob essa lógica, o Brasil tem expectativas elevadas quanto à
construção da hidrelétrica de Artibonite 4C, cujo projeto executivo
completo foi preparado pelo Exército brasileiro, a pedido do
governo haitiano, em 2010, e para o qual já contribuímos com
US$ 40 milhões, provavelmente uma das maiores contribuições
que o Brasil já deu para qualquer outro país em desenvolvimento.

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Discursos
X Conferência dos Ministros de Defesa das Américas

Gostaríamos de contar com o apoio dos demais países das


Américas – especialmente aqueles que detêm mais recursos, como
o Canadá e os Estados Unidos, e também do BID – para reunir os
recursos ou contribuições materiais para levar adiante este projeto
estruturante, concreto. Este é um teste real para a solidariedade
latino-americana, e americana em geral.
No tocante ao terceiro eixo temático, relativo às questões de
segurança e de defesa, há anos esta conferência debate, sem êxito,
se o narcotráfico é – ou não é – ameaça; se requer – ou não – o
emprego intensivo das Forças Armadas. O Brasil não pode associar-
-se a propostas de fazer com que a destinação primária das Forças
Armadas volte-se para o combate ao narcotráfico. Não concordamos
com isso, embora respeitemos as circunstâncias daqueles países,
ou grupos de países, que realizam escolhas distintas. De nossa
parte, continuamos a ter sérias dúvidas sobre a pertinência dessa
atribuição de funções não típicas do estamento militar.
O Conselho de Defesa da Unasul soube resolver a controvérsia
em torno do tratamento dos temas de segurança pública e de
defesa. Em Cartagena de Índias, no início do ano, aprovamos
proposta colombiana de criar o “Conselho de Segurança Cidadã”.
O novo órgão nos oferece as condições para assegurar o tratamento
da questão dos ilícitos transnacionais e do narcotráfico de forma
harmônica, respeitadas as competências próprias do Conselho de
Defesa e, também, do Conselho sobre o Problema Mundial das
Drogas, este mais voltado para aspectos educativos e preventivos.
O ponto de partida para nossa cooperação, repito, é reconhecer
a heterogeneidade das Américas, que não lhes permite conformar
um complexo regional de segurança único e uniforme. Complexos
de segurança pressupõem a convergência na definição de ameaças.
Nessa matéria, as várias regiões das Américas têm seguido
trajetórias distintas nos anos recentes. Estou convencido de que,

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Celso Amorim

nos dias de hoje, a definição das ameaças não pode ser feita, ou, pelo
menos, feita de maneira predominante, no nível interamericano.
Para um grupo de países, a prioridade das questões de defesa
recai sobre o terrorismo internacional, as chamadas novas ameaças,
a proliferação de armas nucleares, o narcotráfico e, em certa medida,
até mesmo a imigração ilegal. Para outro grupo, a prioridade é
a proteção dos recursos naturais, de suas fontes de energia, de
suas reservas de água doce, de sua biodiversidade, inclusive na
Amazônia e no Atlântico Sul, e a preservação das condições de seu
uso em favor de nosso desenvolvimento econômico e social.
Na questão nuclear, os acordos entre Brasil e Argentina deram
ao mundo um exemplo de como é possível substituir a lógica da
rivalidade pela lógica da construção de confiança. A ABACC, órgão
responsável por essa supervisão, em conjunto com a Agência
Internacional de Energia Atômica, é hoje uma referência mundial,
aceita em documentos globais de salvaguardas.
O Brasil tampouco pode aceitar que se qualifiquem como
ameaças de segurança questões relacionadas ao meio ambiente e
à biodiversidade, com envolvimento de atores militares, sobretudo
atores externos à própria Amazônia, em sua proteção, como
sugere o título do eixo temático 1 desta conferência. Detentores
das enormes riquezas da nossa Amazônia – e agora da Amazônia
Azul –, não julgamos que haja um papel para a cooperação militar
interamericana em área tão afeta à soberania nacional.
No marco do exame de questões de defesa e segurança, o
Brasil considera inescapável que esta conferência registre as justas
reivindicações da Argentina com respeito às Ilhas Malvinas, Geórgia
do Sul e Sandwich do Sul, como aliás já ocorreu no Mercosul,
na Unasul e na CELAC. Preocupa-nos a realização de exercícios
que envolvem o disparo de mísseis, como os que estão em curso

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Discursos
X Conferência dos Ministros de Defesa das Américas

nessas ilhas, que contribuem para recrudescer a militarização do


diferendo.
Seria de esperar que esta Conferência faça apelo a que se
iniciem negociações entre as partes, nos termos anualmente
reiterados pela Assembleia Geral da ONU. Ainda sob o terceiro
eixo temático, em relação ao tema das funções dos componentes
do chamado “Sistema Interamericano de Defesa”, o Brasil concebe
como desnecessária a proposta de criação de uma secretaria para
esta CMDA neste momento.
Buscamos consolidar e fortalecer o Conselho de Defesa Sul-
-Americano, e é aí que queremos concentrar nossas energias, sem
prejuízo, volto a dizer, dos programas de cooperação que possamos
desenvolver com os demais países das Américas – bilateralmente,
trilateralmente ou em conjunto. Nossos programas e projetos de
cooperação nessa matéria não justificam, ou, pelo menos, não
justificam ainda, uma estrutura permanente dedicada a eles.
O que importa é assegurar que possam articular-se com
as instituições regionais com harmonia, complementaridade
e respeito mútuo, o que pode ser obtido pelo diálogo entre as
respectivas autoridades já constituídas. Por outro lado, devemos
continuar a apoiar a Junta Interamericana de Defesa, a JID,
pela valiosa contribuição que tem dado – e deve continuar a dar
– à promoção dos programas de cooperação entre os países das
Américas e ao fomento do diálogo franco – sempre bem-vindo –
sobre temas tão sensíveis e importantes.
A trajetória histórica dos nossos esforços de cooperação
interamericana em defesa é marcada por idas e vindas, erros
e acertos, êxitos e retrocessos. Para diminuirmos os erros e
aumentarmos os acertos, temos que atentar às mudanças que
ocorreram no mundo e em nossa região. É hoje um anacronismo,

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Celso Amorim

se quisermos ter um sistema verdadeiramente interamericano,


mantermos o isolamento de Cuba.
No mundo multipolar que conforma no século XXI, não há
lugar para pensamento único ou fórmulas uniformes. Devemos
ter clareza sobre isso, de forma a articular, com sabedoria política,
programas de cooperação de defesa que sejam compatíveis com
a atualidade e com a realidade de nossas Américas em toda sua
diversidade.
Reitero a contínua disposição do Brasil a contribuir para esse
projeto.
Muito obrigado.

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