– Inquérito Policial
1. Conceito
• Investigação formal do Estado sobre quem praticou infração penal.
• Origem: Roma Antiga ("quarere" = inquirir, perguntar).
• No Brasil: surgiu no Império (1871 – Decreto 4.824).
Serve para apurar materialidade (existência do crime), autoria e circunstâncias.
2. Definições doutrinárias
• Tourinho Filho: conjunto de diligências da Polícia Judiciária para apurar infração penal e autoria.
• Renato Brasileiro: diligências para identificar fontes de prova e colher elementos de informação
(autoria + materialidade).
3. Natureza Jurídica
• Procedimento administrativo → peça informativa e preparatória da ação penal.
O inquérito penal não é um processo administrativo!
O inquérito penal é um procedimento administrativo preparatório para ação penal, cuja
finalidade é colher elementos de informação a respeito da materialidade, autoria e circunstância.
4. Finalidade
• Colher elementos de informação (não prova definitiva).
• Formar a opinio delicti (convicção do titular da ação penal para oferecer denúncia).
• Titulares:
o Ação penal pública → Ministério Público.
o Ação penal privada → vítima/ofendido.
5. Destinatário
• Ministério Público (pública) ou ofendido (privada).
6. Quem instaura e preside?
• Delegado de polícia (Polícia Federal ou Civil, conforme competência).
• MP não pode presidir inquérito policial, mas pode:
o Requisitar instauração.
o Investigar por meio do PIC – Procedimento de Investigação Criminal (STF, RE 593.727/MG,
2015).
MP pode presidir inquérito policial? → NÃO
MP pode investigar infração penal? → SIM, por meio do PIC
7. Quem pode investigar?
• Polícia Judiciária (Federal e Civil).
• Ministério Público (PIC).
• CPI (Comissões Parlamentares de Inquérito).
• Polícia Legislativa (Câmara e Senado – Súmula 397 STF).
Súmula 397, STF: O poder de Polícia da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em caso de
crime cometido nas suas dependências, compreende, consoante o regimento, a prisão em
flagrante do acusado e a realização do inquérito.
• Inquérito Policial Militar (crimes militares).
• Detetive particular (Lei 13.432/2017).
8. Competência territorial
• Polícia judiciária atua na sua circunscrição.
• Pode haver colaboração entre polícias.
• Irregularidade territorial não gera nulidade (porque inquérito = peça informativa).
9. Valor Probatório
• Relativo → inquérito produz elementos de informação, não provas.
• Não há contraditório nem ampla defesa. (por isso não se fala em prova)
• Regra (CPP, art. 155): juiz não pode fundamentar sentença apenas em elementos do inquérito.
• Exceções:
o Provas cautelares (ex.: interceptação telefônica).
o Provas não repetíveis (ex.: exame de corpo de delito).
o Provas antecipadas (ex.: testemunha idosa ou enferma ouvida antes da ação penal).
1. Diligências obrigatórias do Delegado (CPP, art. 6º)
Rol exemplificativo (ou seja, pode fazer outras diligências).
I – Dirigir-se ao local da infração
• Deve preservar o estado das coisas até chegada da perícia.
• Muito cobrado em prova!
II – Apreender objetos relacionados ao fato
• Somente após liberação dos peritos criminais.
• Alguns objetos vão para análise pericial.
• Não precisa de autorização judicial para apreender.
III – Colher provas
• Todas que possam esclarecer o fato e circunstâncias.
IV – Ouvir o ofendido
• Se possível (ex.: vítima pode estar morta).
V – Ouvir o indiciado
• Deve ser assistido por advogado.
• Obs.: Indiciado não pode ser conduzido coercitivamente apenas para interrogatório.
VI – Reconhecimento de pessoas e coisas + acareações
• Reconhecimento pessoal: suspeito colocado ao lado de outras pessoas.
• Acareação: confronto de depoimentos contraditórios.
• Indiciado não pode ser obrigado a participar de acareação.
• Pode ser conduzido coercitivamente para reconhecimento, pois apenas “fica parado”.
VII – Exame de corpo de delito e perícias
• Obrigatório se possível → comprovar materialidade do crime.
• Ex.: lesão corporal → exame no corpo da vítima.
VIII – Identificação do indiciado
• Processo datiloscópico (impressões digitais).
• Hoje limitado pela CF/88 e Lei 12.037/2009.
IX – Vida pregressa do indiciado
• Aspectos sociais, familiares, econômicos, comportamento antes e depois do crime.
X – Informações sobre filhos
• Idade, deficiência, contato do responsável pelos cuidados.
2. Reprodução simulada dos fatos (CPP, art. 7º)
• Pode ser feita para verificar se o crime ocorreu de certo modo.
• Limite: não pode ofender moralidade ou ordem pública.
• Indiciado: não é obrigado a participar.
• Testemunhas: são obrigadas (não têm direito à não autoincriminação).
• Ex.: não se reproduz crime sexual → evita revitimização.
3. Natureza do inquérito
• Procedimento administrativo, inquisitorial e discricionário.
• Não é cronológico (não há fases fixas e obrigatórias).
• Não há contraditório nem ampla defesa.
• Indiciado tem direito a advogado e a não se autoincriminar.
4. Competência e destino dos autos
• Regra: autos enviados ao juiz competente (CPP, art. 19).
• Exceção: nos crimes de ação penal privada, pode permanecer na delegacia até manifestação da
vítima.
5. Questões de prova destacadas
1. CESPE costuma cobrar “dirigir-se ao local e preservar até a perícia” (art. 6º, I).
2. Diferenciar: acareação (não obrigado) vs reconhecimento (pode ser coagido a ficar parado).
3. Inquérito não tem contraditório, mas indiciado tem garantias constitucionais (advogado e
silêncio).
4. Reprodução simulada: não obrigatória + limites (moralidade e ordem pública).
5. MP pode investigar (PIC) conforme STF (poderes implícitos).
→ CARACTERÍSTICAS do Inquérito Policial
Mnemônico: É IDOSO DIET
Para lembrar as características do Inquérito Policial.
1) Escrito
• CPP, art. 9º → todas as peças do inquérito devem ser reduzidas a escrito ou datilografadas.
• Pode usar recursos tecnológicos: gravações, vídeos, estenotipia etc.
• Obs.: tudo precisa ser documentado para análise posterior pelo MP.
• Diferença de termos:
o Investigado = pessoa sob investigação.
o Indiciado = investigado formalmente apontado no inquérito.
o Acusado/Réu = já na ação penal.
2) Dispensável
• Não é condição de procedibilidade para a ação penal.
• MP pode oferecer denúncia sem inquérito, desde que tenha elementos suficientes.
• Exemplo: crimes de ação privada (injúria, difamação etc.) → vítima já leva provas.
• Art. 12 CPP: se a denúncia se basear no Inquérito Policial, este deve acompanhá-la.
• Art. 3º-C, §3º CPP (juiz das garantias) foi declarado inconstitucional pelo STF → continua válido
o art. 12.
3) Sigiloso
• CPP, art. 20 → autoridade assegura sigilo necessário à elucidação do fato ou interesse da
sociedade.
• Finalidade: preservar eficácia da investigação.
• Súmula Vinculante 14 (STF): defensor tem direito de acesso aos elementos já documentados.
• Lei 13.869/2019 (Abuso de Autoridade): negar acesso ao advogado é crime (art. 32), salvo:
o Diligências em andamento;
o Atos que indiquem futuras diligências sigilosas.
• Exceção: inquéritos em segredo de justiça ou que envolvam dados sigilosos (ex.: bancário, fiscal).
• O delegado pode juntar depoimentos posteriormente para preservar o sigilo (princípio da
proporcionalidade).
Questões CESPE/CEBRASPE – Pontos-chave
1. Indispensável? → Inquérito é dispensável.
2. Natureza? → Procedimento administrativo, não judicial.
3. Publicidade x Sigilo:
o Ação penal = pública (qualquer cidadão pode acessar).
o Inquérito policial = sigiloso.
4. Advogado pode acessar? Sim, mas apenas o que já está documentado.
o Não acessa interceptação em andamento.
o Pode ver autos de busca/apreensão já realizados.
4) Discricionário
• Autoridade policial (delegado) escolhe quais diligências realizar e quando (CPP, arts. 6º e 7º).
• Ofendido e indiciado podem pedir diligências (CPP, art. 14), mas o delegado decide se atende ou
não.
o Não há recurso contra recusa → na prática, usam HC ou MS, mas não é previsto no CPP.
• Exceção: exame de corpo de delito (obrigatório, confissão não supre – art. 184 CPP).
5) Inquisitorial / Inquisitivo
• Não há contraditório nem ampla defesa no inquérito.
• O que existe é o contraditório diferido → defesa só poderá impugnar elementos na fase judicial.
• Por não ser processo, o inquérito não gera sanção.
6) Indisponível
• Delegado não pode arquivar (art. 17 CPP).
• Apenas o MP pode pedir arquivamento (art. 28 CPP).
• Delegado → só envia relatório sugerindo arquivamento ao MP.
7) Oficial
• O inquérito é atribuição do Estado, por meio da Polícia Judiciária (PF e PC).
• Apenas autoridade estatal pode instaurar (delegado).
8) Oficioso
• Delegado pode instaurar inquérito de ofício, mas só em crimes de ação penal pública
incondicionada (ex.: roubo, estupro).
• Se for ação pública condicionada → depende da representação da vítima. (ex.: estelionato)
• Se for ação penal privada → depende de requerimento da vítima. (ex.: calúnia)
Formas de instauração do inquérito (art. 5º CPP)
Nos crimes de ação penal pública incondicionada:
1. De ofício (delegado). (→ por meio de portaria)
2. Requisição do juiz.
3. Requisição do MP.
4. Requerimento da vítima.
Obs. Importante:
• Requisição = ordem obrigatória (delegado não pode negar, salvo ilegalidade).
• Requerimento = pedido (delegado pode indeferir se o fato não for crime → ex.: mero desacordo
civil).
• Da recusa → cabe recurso administrativo ao chefe de polícia (recurso inominado).
• Apesar do CPP prever requisição judicial, doutrina majoritária + art. 3º-A CPP (sistema
acusatório) entendem que o juiz não pode mais requisitar → apenas comunicar o fato ao
delegado.
§1º art. 5º – Requisitos do requerimento da vítima:
• Narração do fato (circunstâncias).
• Identificação ou características do autor.
• Nome de testemunhas, profissão e endereço.
2. Crimes de ação penal pública condicionada
• Depende de condição:
o Representação da vítima (art. 5º, §4º CPP).
o Requisição do Ministro da Justiça (art. 24 CPP).
3. Crimes de ação penal privada
• Só pode ser instaurado mediante requerimento da vítima ou de seu representante legal (art. 5º,
§5º CPP).
Outras formas de comunicação da infração
• Delatio criminis (art. 5º, §3º CPP): qualquer pessoa pode comunicar crime ao delegado (ex.:
denúncia anônima, Disque-Denúncia).
• Delegado verifica procedência → pode instaurar inquérito.
Atenção! Somente ações públicas! A banca pode dizer publicas e privadas para confundir.
Abuso de autoridade (Lei 13.869/2019, art. 27)
• É crime instaurar inquérito sem indícios mínimos de crime → pena: detenção de 6 meses a 2
anos + multa.
• Exceção: sindicância ou investigação preliminar sumária devidamente justificada.
INQUÉRITO POLICIAL
NOTITIA CRIMINIS: É a forma como a autoridade policial toma conhecimento de um crime.
Modalidades:
Tipo Característica Palavra-chave Exemplo
Delegado descobre o crime
1. Cognição imediata Atividades Vê na TV ou presencia o
por conta própria, sem
(direta ou espontânea) rotineiras crime.
provocação.
2. Cognição mediata Precisa que alguém informe Intervenção de MP requisita inquérito;
(indireta ou provocada) o fato (terceiro). terceiros vítima faz representação.
Ocorre em flagrante delito,
Prisão em Pessoa é conduzida à
3. Cognição coercitiva quando o autor é levado
flagrante delegacia após flagrante.
forçadamente ao delegado.
Denúncia anônima. Pode Verificação de Vizinho denuncia tráfico;
4. Inqualificada
gerar inquérito após procedência delegado verifica antes de
(apócrifa ou anônima)
verificação prévia. (VPI) instaurar.
Resumo da Notitia Inqualificada (Etapas)
1 - Recebimento da denúncia anônima.
2 - Verificação da procedência das informações (VPI) – art. 5º §3º CPP.
3 - Instauração do inquérito policial.
4 - Só depois disso, representação por medidas cautelares (ex.: busca e apreensão).
Atenção CESPE: É permitida a instauração com base em denúncia anônima após verificação
prévia da veracidade.
DELATIO CRIMINIS: É uma espécie de notitia criminis, ou seja, comunicação feita por qualquer
pessoa do povo informando crime.
Art. 5º §3º CPP: Qualquer pessoa pode comunicar verbalmente ou por escrito, e a autoridade deve
verificar antes de instaurar o inquérito.
Tipos:
• Simples: comunicação feita por qualquer pessoa (não vítima).
→ Exemplo: cidadão informa crime à polícia.
• Postulatória: feita pela vítima, que representa formalmente e pede providências.
→ Exemplo: vítima de ameaça representa ao delegado.
Diferença:
Tipo Quem comunica Natureza
Simples Qualquer pessoa Ação penal pública
Postulatória Vítima Ação pública condicionada à representação
WHISTLEBLOWER (Informante)
Pessoa não envolvida no crime que fornece informações relevantes às autoridades.
Lei 13.608/2018:
• Protege o informante (sigilo, escolta, programas de proteção).
• Pode haver recompensa financeira (art. 4º).
• Exemplo: cidadão que informa sobre tráfico em sua rua.
Diferença para colaboração premiada:
Whistleblower não participa do crime. O colaborador participou.
JURISPRUDÊNCIA (STJ – RHC 98.056/CE, 2019)
Reportagem jornalística pode servir como notitia criminis imediata.
→ A autoridade policial deve agir de ofício se o crime for de ação pública incondicionada.
INDICIAMENTO
Conceito: Ato formal e fundamentado, exclusivo do delegado de polícia, que atribui a prática de
crime a alguém.
Base Legal: Lei 12.830/2013, art. 2º, §6º.
Requisitos:
• Autoria → quem praticou.
• Materialidade → prova de que o crime ocorreu.
• Circunstâncias → como ocorreu.
Momento:
• Pode ocorrer:
o Na instauração do inquérito (portaria).
o Durante a investigação.
o No relatório final.
Proibido:
Após o recebimento da denúncia, pois o processo já começou.
STJ: Indiciamento após denúncia = constrangimento ilegal.
DESINDICIAMENTO
Ocorre quando o delegado perde a convicção sobre a culpa do investigado.
• Pode ser feito pelo delegado.
• Juiz pode determinar via habeas corpus, se houver ilegalidade (ex.: falta de fundamentação).
INDICIAMENTO INDIRETO
Quando o suspeito não é localizado (foragido), mas há provas suficientes.
Ele não é ouvido, pois está ausente, mas é formalmente indiciado nos autos.
EFEITOS DO INDICIAMENTO
Não gera punição.
→ É apenas um ato administrativo.
Consequências:
• Nome pode aparecer nos sistemas internos da SSP, mas não em antecedentes criminais.
• Não gera sanção penal ou processual.
• Pode afetar a imagem pública.
Exceção (Lei 9.613/1998 – Lavagem de Dinheiro):
• Art. 17-D: Servidor público indiciado seria afastado até decisão judicial.
• STF (ADI 4911/2020): declarou inconstitucional o afastamento automático.
Questão Cespe, delegado:
Errado! Pois implica que o nome e outros dados sejam lançados no sistema interno da SSP, mas não
pode constar em antecedentes criminais.
CONCLUSÃO DO INQUÉRITO POLICIAL
O inquérito é formado por diligências investigatórias até a identificação do autor ou partícipe do
crime.
Destinatário final:
• Ação Penal Pública → Ministério Público
• Ação Penal Privada → Vítima (para propor queixa-crime)
Relatório Final do Delegado
• Último ato do inquérito.
• Deve conter:
o Todas as diligências realizadas.
o Conclusão sobre materialidade, autoria e circunstâncias.
o Pode incluir indiciamento.
• Depois, é enviado ao Ministério Público (mesmo que o CPP ainda mencione o juiz).
Resumo rápido:
O relatório é uma síntese técnica das investigações. Sua ausência não anula a ação penal, pois o
inquérito é mera peça informativa.
PRAZOS DO INQUÉRITO POLICIAL (CPP – Art. 10)
Prazo
Situação do indiciado Possível prorrogação Observações
inicial
Preso em flagrante ou Prazo próprio (tem consequência
10 dias +15 dias (com autorização)
preventivo se descumprido).
Solto Sucessivas prorrogações, se Prazo impróprio (não tem
30 dias
(com ou sem fiança) fato for complexo punição se ultrapassado).
§1º – O delegado faz relatório e envia ao juiz competente.
§2º – Pode indicar testemunhas não ouvidas.
§3º – Pode pedir devolução dos autos ao juiz para novas diligências.
Na prática atual:
Muitos estados enviam diretamente ao MP, sem passar pelo juiz (tramitação direta).
PRAZO PRÓPRIO × PRAZO IMPRÓPRIO
Tipo de prazo Quando ocorre Consequência
Próprio Indiciado preso Se não respeitado → prisão pode ser relaxada.
Impróprio Indiciado solto O inquérito pode continuar sem nulidade.
Dica de prova:
Inquérito com preso → prazo próprio (importa).
Inquérito com solto → prazo impróprio (flexível).
EXEMPLOS PRÁTICOS (COBRADOS PELA CEBRASPE)
1- Indiciado solto:
Prazo de 30 dias a partir do dia útil seguinte à instauração.
→ Se cair no feriado, prorroga para o próximo dia útil.
2 - Preso em flagrante → solto na audiência de custódia:
Passa a valer o prazo de 30 dias (solto).
3 - Preso em flagrante → prisão preventiva mantida:
Prazo de 10 dias (preso) a partir da prisão.
4 - Solto → depois preso preventivamente:
Novo prazo de 10 dias, contado da data da prisão.
PRORROGAÇÃO DO PRAZO (Lei 13.964/2019 – Pacote Anticrime)
Art. 3º-B, §2º, CPP:
Se o investigado estiver preso, o juiz das garantias pode, mediante representação do delegado e
ouvido o MP, prorrogar uma única vez por até 15 dias.
Porém, o STF entendeu diferente:
• A prorrogação pode ser feita mais de uma vez, se for justificada pela complexidade da
investigação.
• O descumprimento do prazo não libera automaticamente o preso.
Resumo prático:
Juiz pode prorrogar o prazo várias vezes, desde que fundamente.
O atraso não anula o inquérito nem solta o preso automaticamente.
RELATÓRIO FINAL – FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO
• A falta do relatório não vicia a ação penal.
• Inquérito é apenas informativo, não processual.
• Eventuais vícios (falta de relatório, de assinatura, etc.) não anulam o processo penal.
QUADRO RESUMO DE PRAZOS ESPECIAIS
Situação Preso Solto
CPP (art. 10) 10 dias 30 dias
Polícia Federal (Lei 5.010/66) 15 + 15 30
Lei de Drogas (11.343/06) 30 + 30 90 + 90
Prisão temporária (crimes hediondos) 30 + 30 –
ARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO POLICIAL
Conceito: Ocorre quando não há mais motivo para continuar a investigação, seja por:
• Falta de autoria, materialidade ou circunstâncias do fato;
• Fato atípico (não é crime);
• Excludente de ilicitude, culpabilidade ou punibilidade.
Quem pode arquivar?
➡️ Somente o Ministério Público.
O delegado não pode arquivar o inquérito.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ARQUIVAMENTO
Após o Pacote Anticrime (Lei
Situação Antes de 2020
13.964/2019)
Quem MP determina diretamente o
MP pedia o arquivamento ao juiz
decidia arquivamento
Juiz Homologava ou discordava Apenas é comunicado (não homologa)
Enviava-se ao Procurador-Geral se o juiz Vai para instância de revisão ministerial
Revisão
discordasse interna do MP
Sistema Misto Acusatório (fortalecido)
STF (ADIs 6298, 6299, 6300 e 6305/2023): Confirmou a constitucionalidade da nova regra →
O MP arquiva.
O juiz é apenas comunicado, mas pode discordar em caso de flagrante ilegalidade ou
teratologia (situação absurda).
PASSOS DO ARQUIVAMENTO (art. 28, CPP)
1 - MP determina o arquivamento do IP.
2 - Deve comunicar a:
• Vítima
• Investigado
• Delegado de polícia
• Juiz (por determinação do STF)
3 - Envia o IP à instância de revisão ministerial (órgão interno do MP) → verifica se o arquivamento foi
correto.
Se o MP estadual não tiver essa instância → vai para o Procurador-Geral de Justiça.
QUEM PODE DISCORDAR DO ARQUIVAMENTO
Pode discordar? O que pode fazer
Tem 30 dias para pedir revisão na
Vítima Sim
instância ministerial
Sim (somente em caso de ilegalidade
Juiz Pode enviar à instância de revisão do MP
ou teratologia)
Delegado Não Apenas cumpre a decisão
Investigado Não Não tem interesse em recorrer
Prazo para vítima: 30 dias a contar do recebimento da comunicação do MP.
ARQUIVAMENTO IMPLÍCITO
Quando o MP deixa de se manifestar sobre parte do inquérito, sem arquivar formalmente.
Tipos:
Tipo Situação Exemplo
Subjetivo Em relação a uma pessoa Denuncia João, mas fica em silêncio sobre José
Denuncia por estelionato, mas ignora o crime de
Objetivo Em relação a um fato
receptação
Não é admitido pela doutrina nem pela jurisprudência.
→ MP deve arquivar expressamente o que não denunciar.
ARQUIVAMENTO INDIRETO
Ocorre quando o MP entende que o juiz é incompetente e pede o envio para outro juízo.
Se o juiz discorda (acha-se competente), há impasse.
➡️ Solução: aplica-se por analogia o art. 28 do CPP, e o Procurador-Geral decide.
TRANCAMENTO DO INQUÉRITO
É o “arquivamento” feito pelo juiz, geralmente via habeas corpus trancativo ou profilático.
Ocorre quando:
• Fato é atípico;
• Há excludente de ilicitude evidente;
• Há extinção da punibilidade (ex.: prescrição, morte do agente);
• Falta indício mínimo de autoria ou materialidade;
• Excesso de prazo (investigação demorada de forma irrazoável).
STJ (HC 653.299/SC – 2022): É possível trancar o inquérito por excesso de prazo quando a demora
for irrazoável.
DESARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO
Pode ocorrer se surgirem novas provas.
Art. 18, CPP: “Depois de ordenado o arquivamento por falta de base para denúncia, a autoridade
policial poderá proceder a novas pesquisas se de outras provas tiver notícia.”
Interpretação atual:
• O arquivamento é feito pelo MP, mas o delegado pode reabrir se surgirem novas provas,
comunicando o MP.
• O artigo continua válido, mesmo que cite “autoridade judiciária”.
Súmula 524/STF: “Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz a requerimento do promotor,
não pode ser iniciada ação penal sem novas provas.”
Tradução prática:
Se o MP arquivou e nada mudou, não pode denunciar depois com base no mesmo material.
QUANDO É POSSÍVEL DESARQUIVAR
Motivo do arquivamento Pode desarquivar? Observação
Insuficiência de provas Sim Surgindo novas provas
Ausência de justa causa Sim
Atipicidade do fato Não Conduta não é crime
Causa extintiva da punibilidade Não Ex.: morte, prescrição
Certidão de óbito falsa Sim Exceção
Excludente de ilicitude STJ: Não / STF: Sim STF prevalece
Entendimento atual:
Quase todos os arquivamentos podem ser revertidos, exceto:
• Morte do investigado;
• Fato atípico;
• Crime prescrito.
INQUÉRITO POLICIAL: FORO POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO
• Regra geral: Não há previsão legal de tratamento distinto para investigados com foro por
prerrogativa.
• Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF):
o Para investigar pessoas com foro, é necessária autorização do Tribunal competente
(relator).
o O Tribunal supervisiona todo o trâmite do inquérito.
• Exemplo:
o Cidadão comum → inquérito no juízo da comarca.
o Deputado federal → inquérito no STF.
• Indiciamento: Se o delegado quiser indiciar autoridade com foro, precisa de autorização do
tribunal.
Jurisprudência importante (ADI 7447/2023):
“Investigações contra autoridades com prerrogativa de foro submetem-se ao prévio controle judicial,
com autorização para instauração de investigações penais originárias.”
VÍCIOS DO INQUÉRITO POLICIAL
• Regra: Vícios no IP não contaminam a ação penal.
• Exceção: Provas ilícitas colhidas no IP não podem ser utilizadas no processo penal.
Jurisprudência:
• STF: Inquérito = peça meramente informativa → vícios não contaminam ação penal.
• STJ: Irregularidades na fase inquisitorial não maculam todo o processo criminal.
DISPOSITIVOS RELEVANTES DO CPP
➤ Art. 11 CPP
• Instrumentos do crime e objetos que interessarem à prova devem acompanhar o IP.
• Devem ser guardados enquanto perdurar o inquérito.
➤ Art. 13 CPP – Incumbências da autoridade policial
I. Fornecer informações às autoridades judiciárias.
II. Realizar diligências requisitadas pelo juiz ou MP.
III. Cumprir mandados de prisão.
IV. Representar pela prisão preventiva.
Outras atribuições podem existir fora do CPP.
REQUISIÇÃO DE DADOS – INVESTIGAÇÃO
➤ Art. 13-A CPP
• Nos crimes de:
o Art. 148 CP: Sequestro/cárcere privado
o Art. 149 CP: Redução à condição análoga à de escravo
o Art. 149-A CP: Tráfico de pessoas
o Art. 158 §3º CP: Extorsão com restrição de liberdade
o Art. 159 CP: Extorsão mediante sequestro
o Art. 239 ECA: Tráfico de crianças/adolescentes
Delegado ou MP podem requisitar diretamente dados cadastrais de vítima ou suspeitos (SEM
ordem judicial). Empresa tem 24h para fornecer.
Requisição deve conter:
• Nome da autoridade requisitante
• Nº do IP
• Identificação da unidade policial
➤ Art. 13-B CPP
• Se necessário à repressão de tráfico de pessoas, delegado ou MP podem requisitar localização
da vítima/suspeito, mas COM autorização judicial.
• Informações: sinal da estação, setorização, intensidade da frequência (raio de localização).
Regras específicas:
• Não há acesso ao conteúdo das comunicações (interceptação exige autorização específica — Lei
nº 9.296/1996).
• Prazo: 30 dias + 30 (renovação única).
• IP deve ser instaurado em até 72h.
• Se não houver decisão em 12h → delegado pode requisitar diretamente, com comunicação ao
juiz.
➤ Art. 14-A do CPP – Investigação de Uso da Força Letal (Pacote Anticrime)
• Aplicação: servidores dos órgãos do art. 144 da CF (polícias civis, militares, federais, penais etc.)
investigados por uso da força letal no exercício profissional.
• Inclui situações com exclusão da ilicitude (ex.: legítima defesa do policial).
Regras importantes:
• Investigado pode constituir defensor (advogado) no IP, mesmo sem contraditório.
• Prazo de 48h para constituir defensor a partir da “citação” (termo tecnicamente inadequado — é
uma notificação).
§ 2º — Falta de advogado
• Se o investigado não indicar advogado em 48h → a instituição a que ele pertence (ex.: PMMG)
deve ser intimada para indicar defensor em mais 48h.
• Isso é uma prerrogativa do policial investigado.
§ 3º — Defensoria Pública
• A defesa deve ser feita preferencialmente pela Defensoria Pública.
• Se não houver Defensoria, a União ou o Estado custearão advogado.
§ 5º — Custos da defesa
• Caso não haja atuação da Defensoria Pública, os custos serão pagos pela instituição a que o
investigado pertencia na época dos fatos (ex.: PMMG).
§ 6º — Forças Armadas
• Aplicação estendida aos militares das Forças Armadas (art. 142 CF) quando os fatos
envolverem missões de GLO (Garantia da Lei e da Ordem).
Demais dispositivos do CPP
➤ Art. 16 CPP – Devolução do IP ao delegado
• MP só pode devolver o inquérito para novas diligências imprescindíveis à formação da
convicção para denúncia.
➤ Art. 19 CPP – Ação penal privada
• IP é encaminhado ao juiz ou entregue à vítima (requerente).
• MP não oferece denúncia nesse caso (atua apenas como fiscal da lei).
➤ Art. 20 CPP – Sigilo
• Autoridade assegura sigilo necessário.
• Atestado de antecedentes criminais não pode mencionar IP nem ações penais em curso
(presunção de inocência).
➤ Art. 21 CPP – Incomunicabilidade
• Exigia despacho judicial fundamentado (máx. 3 dias).
• Não foi recepcionado pela CF/88.
➤ Art. 22 CPP – Diligências em outras circunscrições
• Delegado pode diligenciar em outra circunscrição dentro da mesma comarca sem precatória.
• Se for em outra comarca → deve comunicar autoridade local.
Ex.: Delegado de São Sebastião (DF) precisa fazer uma diligência em Brazlândia (DF), ou seja, mesma
comarca, então não há necessidade de comunicar. Porém, se o delegado de São Sebastião precisar
fazer diligência em Formosa (GO), então deve comunicar.
• Falta de comunicação = irregularidade, não contamina ação penal.
Ex.: Delegado de São Sebastião (DF) precisar fazer diligência em Formosa (GO), então deve comunicar.
Porém, pela urgência da situação acabou não fazendo a comunicação. Portanto, houve irregularidade
na diligencia, porém não contamina a ação penal. De modo que, se houve uma prisão, esta não se
torna ilegal.
➤ Art. 23 CPP – Comunicação ao Instituto de Identificação
• Ao remeter IP ao juiz, autoridade comunica dados ao Instituto de Identificação.
Súmulas importantes
• 🏛 Súmula 234 – Superior Tribunal de Justiça (STJ)
“Participação do MP na investigação não gera impedimento ou suspeição.”
• 🏛 Súmula 444 – STJ
“É vedado usar IP ou ações em curso para agravar a pena-base.”
Pode ser usado para fundamentar prisão preventiva (garantia da ordem pública).
• 🏛 Súmula 397 – Supremo Tribunal Federal (STF)
TCO — Termo Circunstanciado de Ocorrência
• Aplicado a infrações de menor potencial ofensivo (pena máx. ≤ 2 anos).
• Substitui o IP → procedimento mais simples e rápido.
• Exceção: Lei Maria da Penha → exige IP mesmo para crimes leves.
Art. 69 da Lei nº 9.099/1995:
• Autoridade policial lavra TCO e encaminha ao juizado.
• Autor do fato é liberado se assumir compromisso de comparecimento → sem flagrante nem
fiança.
Decisão do STF – ADI 3807 (2020)
• TCO é mero boletim detalhado, não é ato investigatório.
• Pode ser lavrado por PMs ou bombeiros, conforme legislação estadual.