Título qualquer
Ana Carvalho
(Continuação de Casa Tomada de Julio Cortázar)
Já se fazia um mês desde que eu e Irene fugimos da nossa própria casa. Foi muito difícil ter
que sair ás pressas deixando tudo o que ama para trás. Quando fugimos, não tivemos tempo de
levar conosco nada mais do que a roupa do corpo. Foi preciso mendigar abrigo pela vizinhança.
Ficaríamos apenas uma noite, só para esperar o dia seguinte, que era quando os bancos abririam.
Foi Clotilde, nossa vizinha da frente, que nos abrigou. Quando nos viu em sua porta, arregalou
os olhos e perguntou o que estava havendo. Eu lhe expliquei a situação, ainda meio confusa, nos
convidou a entrar. Quando nos sentamos nas poltronas da sala, ela pediu que explicássemos um
pouco melhor.
Irene tomou a palavra:
- Há mais ou menos um mês, meu irmão ouvira pancadas e murmúrios na parte além da porta de
mogno da casa – Disse irene com tensão enquanto recebia uma xícara de chá oferecida por
Clotilde – Isso nos fez pensar que talvez a casa tivesse sido tomada a partir dali. Apenas aqueles
cômodos.
Completei seu relato dizendo:
- Fechei a porta com muito cuidado e fui contar para Irene o que ouvira. Irene ficou muito
assustada.
- Para termos certeza de que estávamos certos, foi preciso esperar. Mas não esperamos por
muito tempo. – Parei um pouco para bebericar o chá que me fora servido – Quando já
estávamos na cozinha, (que ficava mais próximo a parte tomada da casa) mais vozes foram
ouvidas.
- Exatamente. – Disse Irene – Foi assustador, mas continuamos vivendo daquele modo por
quase um mês. Mas hoje ouvimos pancadas e vozes depois da porta de mogno. As pancadas
ficavam mais fortes e as vozes cada vez mais próximas. Sem saber o que fazer, fugimos ás
pressas de lá.
- Não trouxeram nada consigo? – Perguntou Sra. Clotilde.
- Não conseguimos pegar nada. Tudo ficou lá – Eu disse com verdadeira tristeza.
- E ás chaves? Onde está? Meu marido pode ir olhar com seus amigos se vocês quiserem. –
Disse a Sra. Clotilde recolhendo as xicaras.
Irene olhou para mim com enorme esperança nos olhos, imaginando que ás chaves estivessem
comigo. Isso me fez sentir uma imensa vergonha em dizer onde elas estavam.
- Na verdade joguei no ralo da calçada...
- Por que você fez isso?! – Irene esbravejou de uma forma que eu nunca havia visto antes. A
Sra. Clotilde nos olhou com um misto de surpresa e pena – Eu não acredito...
- Tudo bem, não tem problema, meu marido tem uma amigo que é chaveiro e ele pode nos
ajudar.
Depois de mais alguns minutos de diálogo, a Sra. Clotilde nos levou aos quartos de hóspedes e
nos disse que poderíamos ficar quando tempo precisássemos. O desconforto foi imenso, passar
uma noite na casa de alguém de favor foi humilhante. Não consegui pregar os olhos, e Irene
também.
Já no dia seguinte, fomos ao banco e eu retirei dinheiro suficiente para alugar um desses novos
apartamentos que estão construindo, onde mal dá para mexer-se, e para fazer a compra do mês.
Não era difícil de se encontrar apartamentos para se alugar, já que eles eram novidade e estavam
em seu auge. É impressionante como as pessoas caem em qualquer ladainha de vendedor; eles
dizem que é o modelo do futuro e que é mais prático, mas você paga tão caro quanto um aluguel
de uma casa.
Quando encontramos o apartamento maior entre todos os cubículos disponíveis, arrumamos as
compras na cozinha. A mobília era tenebrosa, quase descartável. Nunca eu e minha irmã
tínhamos visto material tão vagabundo tão de perto.
Porém, com o tempo acabamos por nos acostumar com o ambiente. A Sra. Clotilde sempre
que nos via perguntava se estávamos bem e como estava a casa. Também perguntava se não
queríamos a ajuda de seu marido. Mas sempre íamos adiando a tal ajuda. O mais engraçado é
que ela dizia que nunca viu nem um movimento na casa. Isso nos instigava a vasculhar o lugar.
Mas chegou um tempo que não podíamos mais adiar, os primos já perguntavam com interesse
- outros vizinhos haviam feito mexerico – e a curiosidade nos assolava o peito. Também fora
deixada toda a nossa vida lá, precisávamos da nossa casa de volta.
Decidimos falar com a Sra. Clotilde para chamar seu amigo chaveiro. Depois de muito insistir
que seu marido ajudasse a examinar a casa, eu e Irene acabamos por aceitar. Ele poderia nos
ajudar a expulsar quem quer que esteja em nossa casa.
Quando entramos na casa, ela estava escura como piche, a poeira era palpável. Assim como a
escuridão, o silêncio era extremo. Era um silêncio ensurdecedor. Fui tomado por uma angustia
que não sei explicar de onde veio, mas veio intensa. Quando vi, já me sentia tão sufocado que
precisei sair dali. Aquele lugar que antes me era tão amado, mas agora me sufocava.
Irene veio ver se eu estava com algum problema, expliquei a ela como eu estava e ela disse
que sentiu o mesmo, mas com menos intensidade. Achei isso muito estranho, mas imaginei que
tivesse sido o estresse e a ansiedade do momento.
Depois que conseguimos olhar toda a casa, foi constatado que não havia ninguém. Agora.