A FORGOTTEN TALE
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O que são histórias? Você pode vê-las? Senti-las? Dá para ser uma história? Dá para viver uma
história?
Se for possível viver uma história, dá para morrer uma história?
Vida e morte, falsa sucessão. Algumas histórias são eternas. Vivem indiferentes à passagem do
tempo; indiferentes a serem esquecidas ou rejeitadas. Tão memoráveis que terminam por se tornar
parte de um imaginário coletivo, que por sua vez passa a inspirar novos contos, e esses contos
passam a fortalecer a fundação da história que os inspirou. Um Ouroboros perfeito. Um ciclo
autoperpetuante de imaginação e criatividade.
Infelizmente, a história a seguir carrega um final diferente, ela morre. Foi esquecida e existe agora
para que possa dar lugar a outra.
Essa outra é a sua história.
Seria ela melhor ou mais digna de existir que sua predecessora?
Em certo sentido, sua história é também uma possibilidade, de um potencial ilimitado de finais,
e, com certeza, deve ser uma história improvável.
Mas, vendo que teve um fim, e que uma história se sucederá à outra, então não seria digno mostrar
o "como"?
Mesmo que nada mais possa ser feito sobre a tinta seca, a sua reprodução pode inspirar outras, para
que não só a original seja lembrada, mas viva novamente, assumindo nova forma.
Essa história não foi apenas uma tragédia de abandono e remorso.
Por trás da rejeição e das falhas, estiveram lições de aprendizado, de crescimento e de superação,
que ainda levaram a uma cruel sina e às escolhas que dela se sucederam. Mas felizmente também
levaram a você.
É uma história morta que retoma a vida ao ser lida.
Que ela possa inundar suas páginas também, num novo começo.
CAPITULO 1
KINDRED SPIRITS by QuillSparks
Sumário
Tudo foi dito e feito. O mundo havia sido salvo. Os monstros foram libertados. Mesmo assim,
restava ainda um ato de misericórdia para alguém que tinha sofrido tanto...
E ele foi salvo, com DETERMINAÇÃO e amor, Asriel obteve uma nova chance, esse era o seu
final feliz. Infelizmente, nem todas as coisas duram para sempre…
Há muito tempo atrás, duas raças reinavam sobre a Terra: HUMANOS e MONSTROS.
Um dia, guerra começou entre as duas raças.
Depois de uma longa batalha, humanos foram os vitoriosos.
Eles selaram os monstros embaixo da terra com um feitiço mágico.
Muitos anos depois.
8 crianças caíram na prisão dos monstros, MT. EBOTT
7 pereceram, mas com a última, um anjo veio.
Ele os libertou.
À custo de sua própria forma.
Mas a última criança se recusou a aceitar esse fim.
Antes que o Anjo caísse, ela o ofereceu AMOR.
Ligados com DETERMINAÇÃO e AMOR, o Anjo viveu.
HUMANOS e MONSTROS novamente viveram juntos sobre a Terra.
Parte 1 – Chega de Saudade
Porque sentirmos mais saudade dos momentos que estamos prestes a perder?
Como esse crepúsculo durante a noite, esse ano de 21XX marca o fim do nosso ciclo aqui.
No próximo ano, iremos nos mudar para a Capital de outro país.
São por razões diplomáticas. Nossa família como legitima representante da raça dos
monstros foi convocada para uma nova embaixada distante daqui, para esperançosamente, expandir
as relações dos monstros internacionalmente e talvez negociar um acordo universal de direitos
monstruosos.
Foi uma surpresa e tanto quando recebermos a noticia. Considerarmos bastante se valia
contar para o resto dos monstros de nossa iminente partida. Porém, embora chocante, a noticia não
foi inesperada.
Realmente era uma questão de tempo para que com a recentes mudanças politicas,
aparecesse uma oportunidade como essa de avançar na consolidação da cidadania de minha família.
Tão perto estamos de alcançar um marco realmente importante para todos nós…
E ainda sim não torna o processo menos difícil para nossa família. É como que tivéssemos
de dizer adeus a um amigo antigo.
O Papai já tentou nos consolar que seria uma missão temporária, mas Asriel e eu sabermos
melhor que ninguém que para chegar em acordos desse tipo levam anos em burocracia para se
finalizar.
Porém eu tenho tentado permanecer forte por ele. Eu sinto que se o Asriel não tiver como
contar comigo ele ficará sozinho nos seus próprios pensamentos. Como irmãos somos assim.
Ele tem sido meu companheiro nessa jornada. Depois dele, acho que ninguém mais neste
mundo consegue entender as coisas que passo — mas isso é mútuo entre nós; nem mesmo nossos
pais nos compreendem por completo.
Mamãe normalmente tenta agir como se tudo estivesse ótimo, mas eu sei que deixar seus
pequenos alunos para trás também a incomoda.
Contando tempo em cima de mais tempo, exilada nas Ruínas de um reino abandonado,
esperando ansiosamente por alguém que lhe fizesse companhia. Quem poderia culpá-la por se
apegar tanto a esse breve período de união que se seguiu ao rompimento da barreira? Já não era
mais apenas uma governante, tampouco a guardiã de humanos perdidos — havia voltado a ser mãe,
e pôde enfim dedicar-se ao ensino.
Como dizia ao Sans, diplomacia era só os “ossos do ofício”; o coração dela estava aqui,
nesta cidade, com as crianças … conosco.
Agora, sempre que voltamos da casa do Papai, o cheiro sutil de licor ainda paira no ar. Uma
pena que esse aroma não esteja mais reservado àqueles momentos calorosos de inverno.
E, bom, quanto ao Papai, ele só… nos afoga em confortáveis passatempos, abraços e
promessas sobre o futuro. Ele parece meio desapegado em comparação a mamãe, mas acredito que
seja pela sua esperança inabalável do futuro entre humanos e monstros. Talvez seja essa mesma
positividade que façam das flores dele tão vivas.
Algumas vezes na semana, ele nos leva até sua estufa. Para mim, é o lugar mais mágico de
toda a cidade — um paraíso secreto em meio aos sufocantes blocos sólidos de concreto típicos da
superfície.
Engraçado como até nisso eu e o Asriel temos preferências bem diferentes. Ele nunca se
interessou tanto por paisagismo, mas também não chega a odiar o jardim. Acho que, que o seu
passado, o traz uma relação complicada com aquelas flores. Talvez ele tema que um pouco dele
ainda esteja nelas.
Mesmo assim, há um canto que ele sempre observa.
A estufa possui dois anéis de flores em seu interior. O exterior é preenchido com flores
sorteadas de várias cores. Em meio a explosão de cores ele parece só ter olhos para as papoulas
vermelhas.
Já eu prefiro o, simples e menor, anel no centro, porque neles há os animadores dentes de
leão, que eu pego para soprar no rosto dele enquanto o bobo se distrai.
Sem sombra de dúvidas, com o entusiasmo da Undyne, o jardim do Papai com certeza estará
em boas mãos… se as coisas não acabarem pegando fogo.
Tentando pensar positivamente, mesmo com as várias horas de voo entre a embaixada e
aqui, aquele oásis continuará ali... sem nós. Mas eu tenho confiança de que a distância não será
capaz de nos impedir de rever essa beleza… uma vez... todo fim de ano.
Quem quero enganar? Por que as coisas têm que ser dessa forma?
Não precisou nem de alguns anos para os monstros já aprenderem a chamar aqui de lar. Foi
juntos que moldamos tantas memórias especiais para nós. Eles tornaram essa cidadezinha, que eu
dava tão pouco valor, em um lugar realmente mágico.
“Não é justo!”, eu penso para mim. Então, a própria luminosidade do crepúsculo, como se
me respondendo, incendeia meu lado da cama. Em vez de fechar a janela, abro bem os olhos,
virando meu corpo, fico de bruços para ela, e deixo-me tomar pela beleza hipnótica da lua.
Sou imundado de inspiração por pensamentos que passam a boar à superfície de mim.
Saber que, graças aos meus esforços, o dojô de Eye Kai do Loox continuará inspirando
camaradagem entre os desajustados sociais, mesmo com o passado nublado de seu mestre…
Saber que a Temmie terminará seu pós-doutorado…
Saber que ajudamos a Suzy a achar companhia com a Noel…
Saber que a Alphys não deixará de te atualizar dos novos merchandises da Mew Mew…
Lembrar que as tortas da mamãe continuarão as mesmas…
Saber que, como a lua, algumas coisas continuarão a te acompanhar, não importa onde vá…
Me. Enche. De.
Eu escuto barulhos vindos do lado dele.
Parte 2 – Pollyanna
— Nn... n-não... s’faste... n-quero... fz-iss… m'descul… me... m’do... me… — cochichos,
não muito maiores que o som do ambiente afora. Porém, eles me gritam de um pesadelo em ação.
Preciso checar ele.
Me levanto com cuidado para não fazer barulho que alarde nossos pais. Caminho entre os
nossos brinquedos jogados, os controles de videogame e tabuleiros diversos.
Direciono minha atenção para como ele está.
Virado para a parede, ele era como uma daquelas estrelas que brilhava com uma luz capaz
de aquecer os nossos dias mais escuros, mas também, como elas, carregava um peso estrelar que
ninguém via, porque tudo o que nos chegava era o seu brilho.
Mas eu via por trás da luz e sabia o tipo de fardo que ele carregava como ninguém mais.
Por isso fizemos a promessa. Por isso eu vou protegê-lo dessa dor.
Minha mão gentilmente toca seu ombro. Num instante, seu corpo pula da cama. Como se
ainda num transe, vejo-o ofegar. Ele olha com medo para mim, e eu vejo lágrimas em seu rosto.
Abraço-o com toda a força que posso dar.
— Huh?! Frisk, com um abraço desses poderia te confundir com o Papai… ha… ha.
Faço distância ainda segurando-lhe os ombros e, olhando em seus olhos, digo:
— Eu tive o sonho mais louco, Azzy.
Tento pensar no melhor bluff agora, qualquer distração para descontrair o clima.
— Hm?
Olho para o lado, tento esconder minha ansiedade agora enquanto penso em alguma coisa,
qualquer coisa.
— Ééé… eu sonhei que a gente ia para a detenção e tinha que escrever uma redação no
sábado, mas aí — eu suspiro — a gente altera digitalmente o status da nossa detenção, pega o carro
do papai e parte para outra cidade, onde eu canto num desfile que estava acontecendo, tudo isso
antes da Toriel voltar para casa e nos pegar pelas nossas travessuras.
Asriel parece ter se acalmado com a explicação sem sentido. Ele olha para baixo como se
procurando as palavras para me dizer algo, mas então, como se trocasse o script, ele entra no bluff.
— Frisk! Essa é a sinopse daquele de vários filmes.
Eu não tenho resposta. Ele sorri, depois olhando seriamente se prepara para dizer realmente
o que estava na sua cabeça:
— Me diga a verdade, Frisk, por que você me acordou? É mais um daqueles episódios de
insônia?
Breve silêncio, ele continua.
— São muitos pensamentos na cabeça, né? Todo mundo foi pego de surpresa por termos que
abandonar toda a vida que construímos aqui para recomeçar de novo. É frustrante pensar nas
pessoas que deixaremos... Eu queria dar alguma solução mágica que eu já tivesse decorado, mas
realmente é para a gente estar frustrado, é uma situação frustrante! — Ele fala com consideração,
me sinto hesitante.
— Asriel.
— … — Silêncio permeia o quadro. Nesse milissegundo, eu escuto o meu coração.
— Foi preocupação com você. Eu estava, sim, sem conseguir dormir pensando no futuro,
mas tinha conseguido fazer as pazes com isso, achar a resolução para descansar... mas eu ouvi.
Sorrio com preocupação nos olhos, o rosto marcado pela tristeza contida de quem se prepara
para ouvir uma má noticia, mas tenta permanecer aberto a elas.
— Eu ouvi os seus murmúrios. Aquilo era um daqueles pesadelos, Azzy?
Ele não me responde.
— …Eu sonhei com monstros morrendo — disse com a voz fraca.
Eu seguro as mãos de Asriel e o deixo contar o resto. As lágrimas que ficaram estáticas
voltaram a cair enquanto ele conjurava a força para dizer as próximas palavras.
— Eu senti que eu fosse outra pessoa, não, senti que eu era uma assombração. — Ele parece
se assusta recontando dos eventos.
— Tudo era confuso, mas eu via meu corpo. Ele era estranho, inconstante. Eu não sentia
meu rosto, mas eu conseguia ver garras, e elas eram enormes. Eu agarrava todo monstro que se
aproximasse. E então, encarando eles, elas viraram pó antes que eu pudesse falar alguma coisa...
Então nem pó eles eram mais. Eles desapareciam por inteiro. — Aquela face gentil foi substituída
por choque catatônico, então por uma coragem amargamente misturada com o horror de sua
próxima realização.
— Porém, com cada uma, eu passava a me sentir mais "completo". Foram Whinsuns,
migospes, froggits, cachorros e muitos mais! E se foram assim, num instante. — A cada espécie de
monstro que dizia, sua voz cheia de arrependimento falhava mais.
— De novo e de novo isso foi se repetindo. E eu sentia... medo? Ou era nojo de mim
mesmo? Parecia que a cada monstro que desaparecia, o sentimento se tornava mais claro na minha
mente. — Seus olhos pulsavam de agonia e culpa.
— Mas ai... Ai..... No fim eu havia me confundido totalmente de quem eu era. Eu sentia que
eu era um Whimsun, só que quando apareceu o Papai… — Naquele estado, percebo que já não
fazia sentido deixo-o continuar, porque relembrar daquele sonho causaria mais dor que o ajudaria.
Permito escapar minhas emoções com um sussuro carregado da força de uma grito.
— Asriel, esse não é você! Não importa quantas vezes você tenha esses pesadelos, nós
nunca mais feriremos nenhum monstro. Nossa promessa, não se lembra?
— Eu sei. Sei que isso são só sonhos. Mas me assusta. Por que eu ainda penso nisso? Não é
normal sonhar essas coisas… Imaginar, com tanta frequência, eu destruindo tudo que me é
importante! Será que ainda existe uma voz dentro de mim, ansiando por um pouco de caos? Eu
odeio pensar que exista uma parte de mim que queira ver o que poderia acontecer… Se não fosse
tudo... tão bom conosco? — Ele responde com indignação consigo próprio, porém respondo com
mais indignação ainda com essa ideia.
— Não, Asriel! Esse não é você. Você é muitas coisas, mas não isso!
— Para mim, você é um pessoa gentil, inteligente, com tanta compaixão pelos outros que as
vezes termina te ferindo, mas isso te faz alguém incrível e que merece ser feliz tanto quanto
qualquer um… — Ele parece se reassegurado com minhas palavras.
— E também, eu acho que é única pessoa que escolhe Our Fit Tutor no Super Smashing
Fighters.
A gente rir.
— Ah não, Frisk, hahaha… essa hora da noite, falando dos meus picks off-meta?
— Como ignorar seus picks? Você tem a ousadia de me vencer toda vez com o pior
personagem do jogo…
Balanço descontraidamente minha cabeça enquanto descontraia com ele. Eram essas breves,
mas tão breves interações de videogame o que eu queria alcançar para pacificar o clima.
Num único movimento contínuo, meus olhos, que naquele instante terminaram pairando na
janela com sua lua cheia, voltam para sua face. Eu me inspiro com determinação para dizer:
— Você é meu irmão, Asriel. Toda vez que se sentir mal, não se esqueça de que eu tô aqui
Para te ouvir, te consolar e te lembrar quem você realmente é.
Ele abre o sorriso de quem liberava os pés de um sapato apertado. Me pega pelo pescoço e,
talvez tentando dar um mata-leão, termina dando um cascudo falso em mim.
— Nossa! Com toda essa ladainha sua, você realmente me fez pegar no sono, sabia? Acho
que agora preciso dormir… — Ele diz isso com um maneirismo de cansaço dignamente teatral,
antes de piscar os olhos, bocejar enquanto estica bem os braços e se deitar na cama.
Eu sorrio para ele naquele estado, e ele — fingindo não estar vendo, com seus olhos
entreabertos — sorri também. Volto para a minha cama, deito de lado, voltado para a parede,
sentindo-me mais livre, e fecho os olhos.
Em meio ao silêncio que se gerou, escuto sua voz uma última vez antes de cochilar:
— Obrigado, Frisk — disse alegremente o menino-cabra.
Não o deixando no vácuo, faço réplica:
— Amanhã será nosso grande dia, Asriel!
Parte 3 – Ela Partiu
De braços estirados e boca aberta, com o mais simples movimento de cabeça já convido os
tão invasivos raios de sol da manhã, daquela mesma janela que decidi não fechar. Era tarde, mas
não tão tarde. Devia faltar uns 40 minutos para o evento da praia, mas nenhum atraso que seja
demais para os Dreemurrs.
Nessa singela manhã, acordei sozinho ao cheiro fresco de cereal caramelizado, um favorito
do Asriel. Arrasto-me, ainda desorientado de sono, e lanço minha voz pela casa em alto e bom tom
— Bom diaa!
O eco percorre a casa até a sala de jantar; de lá, Asriel responde com um sorriso que
transparece pela voz:
— Se não é a Bela Adormecida nessa manhã, bom dia, Frisk!
Chegando no banheiro, eu tomo um banho frio revigorante para acordar. Aproveito e uso o
meu melhor shampoo, digno do maior conselheiro amoroso não profissional desta cidade. Um
verdadeiro wingman precisa estar à altura de seu bro, então nada melhor que minha jaqueta
esportiva marrom de listras amarelas e punho branco felpudo. Meu orgulho de dias mais esportivos
do não tão longínquo verão passado.
Olhando-me no espelho, encaro a realidade que talvez eu não saiba como dar fim a essas
olheiras de noites mal dormidas, mas não é como se a Dess fosse prestar atenção no meu rosto se eu
puser os dois para conversar sem parar. Rio argilosamente por dentro.
E com o visual resolvido, parto para o café da manhã.
Já na sala de jantar, confirmo o esperado: mamãe deve ter saído para resolver alguma
emergência. Então pergunto ao Azzy:
— Oh, Asriel, sabe quando a mamãe volta? — Vejo ele rechear minha panqueca com mel,
começo a sentir meu estomago roncar.
— Ainda não sei Frisk, estranhamente ela não deixou nenhum recado, mas, se for preciso,
podermos deixar a porta destrancada para ela. — Ele vira para mim para falar isso, então volta a dá
os toques finais naquele café dos sonhos.
Sento-me à mesa. Penso no quão estranho era tudo aqui: A janela continuava fechada, a
lousa suja de ontem permanecia suja e a TV nem tinha sido ligada. Era estranho e sinal de alguma
emergência. A mamãe não costuma perder o jornal da manhã. Se já saiu sem nos deixar o noticiário
mais de três vezes, já é muito.
Olho o estado das coisas ao meu redor. Por acordar primeiro ela sempre deixa a casa
arrumada. Acho que isso significa que algum de nós terá de lavar a louça dessa vez, mas vamos
esperar a comida antes de decidir primeiro.
Nesse breve momento de espera eu pego meu celular, vejo que esqueci de carregá-lo ontem
e resta menos de um terço da bateria, mas deve servir para ver quem já está no show.
Nenhuma postagem nova. Nem mesmo uma postagem da Alphys.
É como se os servidores do “Z” tivessem caído. Nenhuma atualização nas últimas duas
horas. Amigos, família, desconhecidos... ninguém postou nada…
— Asriel, tem algo estranho no “Z”. Você viu?
Breve silêncio. Asriel serve meu prato e se senta para comer o seu cereal.
— Não, Frisk. Deve ser mais uma daquelas manutenções do servidor. — Ele bota café com
leite para nós tomarmos.
— Mas por que ainda consigo acessar? — comento em voz confusa, essa é uma situação
anormal.
— Bugs. Não seria a primeira vez que isso acontece conosco, certo? É o que dá atualizar
uma rede social pequena dessas pra fornecer acesso ao mundo sem nem instalar a infraestrutura
necessária pra fazer ligações mágicas. — Ele fala com a confiança nerd de sempre e, com um breve
sinal de agradecimento pela comida, inicia o nosso pequeno buffet.
— É… — Respondo de maneira insatisfeita, mas sem muito que pudesse questionar daquela
lógica.
Deixo os assuntos triviais e devoro as minhas panquecas depressa e, num tom brincalhão,
provoco:
— Então, príncipe, não vá se atrasar com a Dess.
Asriel quase cospe o cereal dele. Engasga, recupera-se e resmunga:
— Fhuca fôra d-... dissu, Frfhks... — as palavras lutam para escapar entre o cereal em sua
boca.
— Calma, calma. Por que ficar irritado, Azzy? Ha ha. — As provocações são super efetivas.
— Vufê fika neffa pgovocassão toda cumo si a genti tivessi saindo, maph foi vufê que
montou iffo! — O Asriel fica muito besta quando provoco-o assim, ainda mais falando enquanto
come.
— Tá bom, Azzy, na próxima deixo você mesmo convidá-la, da sua maneira até. Que tal
Marotamente dou uma piscadela.
— Fffrishk... ghh... vuvocê... hic... não tem nadha... gulp... melhor pra... hic... fzzer não…
Com compaixão do coitado, entrego-lhe meu copo de leite; ele bebe tudo.
Faz-se um silêncio na mesa. Asriel me olha sério, como a Mamãe faria, e não quer retomar o
assunto.
Respondo com minha provocação mais forte:
— Ih, Asriel... Você não está preocupado com esse seu hálito depois de comer essas
besteiras? Melhor escovar essa boca... vai que ela não gosta, hein? — Eu seguro minha risada de
peste traquina e sorrio com a malicia de mil garotos levados.
Ele não consegue esconder a preocupação. Mas, ao perceber que demonstrá-la é o mesmo
que admitir culpa, envergonha-se ainda mais.
Com as duas mãos, tenta esconder o rubor nas bochechas. Ele não consegue, mas finjo não
perceber para poupar-lho de mais constrangimento.
Vou até a geladeira e preparo a mochila com alguns lanches, enquanto ele lava nossas louças
de hoje e de ontem.
Inventário
• Refrigerante
Por que o Asriel gosta dessa porcaria?
• Suco de laranja
“Ai, que suco delicioso, cara.”
• Celular
Modelo intermediário; roda uns jogos, mas serve mais para chamadas. Pouca bateria. Prefiro levar no bolso.
• Fones de ouvido
Ideais para abafar o mundo.
• Pedriel
Amuleto da sorte feito de uma pedra em que desenhei a cara engraçada do Asriel.
• Pacotes de batatinhas
Sódio com pitadas de gordura vegetal. Crocante!
• Pulseirinha de entrada
Como amigos do Mettaton, ganhamos ingressos para o camarote de “MTT vs Mew Mew Kissy Cutie: Beach Battle”.
• Torta Torta
Sobremesa improvisada com sobras de outras tortas da geladeira. Hummy!
Me sinto pronto. Aviso o Azy:
— Asriel, tudo pronto! Se corrermos, ainda dá tempo de ver o pré-show! — Eu fico na porta
esperando.
— Okay, Frisk, só preciso terminar de enxugar esses pratos restantes.
Dou uma última olhada na casa. Está um pouco bagunçada, verdade, mas nada que não
possamos arrumar depois. Do lado de fora, a rua está silenciosa, a grama recém-molhada e o carro
ainda na garagem…
— Cheguei, não demorei, né? — Disse o Asriel, visivelmente entusiasmado por show.
Sem trocar palavras, eu sorrio para ele e fecho a porta.
Parte 3 – O Dia Em Que A Terra Parou
Fazem 10 minutos que eu não escuto nada. Nem vejo movimento algum..
Como uma noite de inverno, o silêncio pesa nas ruas.
Peço para Asriel remover os fones de ouvido.
Ele parece confuso, mas então apenas solicito que escute, por alguns minutos, o ambiente.
Apenas se ouvem os nossos passos e a batida de nossos corações.
Minutos e mais minutos sem nada… Nenhum carro na rua, nenhum pedestre andando.
Asriel nota que as janelas estão vazias. As lojas continuam fechadas.
Eu tento dizer que ainda é um lindo dia, apesar de tudo — mas não se veem flores
desabrochando, não se escutam pássaros cantando, nem crianças brincando. Não é natural.
— O Show movimentou a cidade toda assim? — Disse o Asriel. Eu confuso ainda aceno que
sim.
Os nossos passos continuam rápidos, já viramos tantas ruas que parecem a mesma que me
questiono se não nos perdermos. Se o GPS estiver certo, então estamos no caminho correto...
Essa repetição das mesmas formas é nauseante para mim. Acho que nunca gostei da
monotonia da cidade. É como se os prédios me olhassem com apatia.
Tento devolver a apatia de volta ignorando os prédios, mas as avenidas parecem ainda mais
estranhas. É como se tornassem todas iguais. Eles pareciam possuir menos detalhes que antes.
De alguma forma, tudo parecia... limpo demais. As calçadas estavam perfeitamente lisas e
retas, como recém-moldadas. Nenhum buraco ou rachadura. Nem vegetação, nem cachorros, ou
infraestrutura pública.
Os detalhes de cada lugar, uma vez discerníveis, se tornavam progressivamente homogêneos
à medida que avançávamos.
Eram coisas mesmo estranhas demais para mim.
Observo o celular: nenhuma atualização.
Ligo para a mamãe: sem resposta. Ligo para o papai: também nada. Experimento ligar para a
Alphys, Papyrus, Sans, Undyne… Ninguém responde.
Asriel e eu passamos, instintivamente, a nos preocupar. Corremos quase sem rumo.
O desespero começa a bater.
Zero barulho. Ninguém à vista.
Tentamos gritar, mas ouvimos apenas o eco. O som reverbera, mas não há ninguém.
Não há resposta alguma.
Vazio. Completamente vazio.
De repente, começa a chover.
Paramos na frente de um varejo do Knight Knight.
Ele parecia aberto quando entramos, mas… ninguém veio.
Pensamos em voltar para casa, mas que fim daria, se não soubéssemos onde a mamãe foi
parar?
Eu vejo o Asriel em choque. Tudo aquilo era estranho demais. Específico demais.
Pouso a mão em seu ombro, e ele começa a chorar.
— Está acontecendo! — Ele desaba de joelhos.
— Calma, Asriel, sem se precipitar. A gente não chegou à praia ainda, não sabemos o que
está acontecendo. — Eu o abraço forte.
— Isso não é óbvio? Alguém fez isso! Ele deve ter eliminado o resto, deve estar tentando
destruir tudo!
— Controle-se. Você acha que alguém tem esse poder? Nós sabemos muito bem que a
Undyne ou o papai poderiam detê-lo, pelo menos por tempo suficiente para sermos informados da
evacuação. Para termos tempo de reagir!
— Frisk, eu tenho uma terrível impressão de que, seja lá qual criatura tenha causado isso…
nem nós seremos capazes de impedir.
Eu não sei o que fazer. Mas preciso reassegurar que ainda há esperança, mesmo que isso
signifique quebrar nossa promessa.
— Asriel, se a gente precisar, ainda podemos recomeçar. Vamos investigar o que está
acontecendo e resolver tudo. — Mas eu não me convenço das minhas próprias palavras.
A realidade é que nem eu, nem ele, sabemos como as regras funcionam aqui, ou o quanto
um reset nos traria de volta. Nosso progresso, nossas experiências, elas não valeriam o sacrifício.
Não podemos mais brincar com as vidas dos outros… esse era o espírito da promessa, né?
Mas agora?
Temo que talvez não tenhamos outra opção.
— Nós temos que achar o Papai e a Mamãe. Eles devem saber o que está acontecendo —
digo, tentando assegurar algum controle sobre a situação.
— Frisk… eu sei que a cidade é grande, mas por que não vemos pó em lugar algum?
— Hã… como assim? — Não consigo entender o que ele está pensando agora.
— Se aconteceu o pior, não era pra haver evidências? Mas não há nada. Só ruas vazias.
Olho seriamente para Asriel. Algo no olhar dele transmite-me confiança, como se dissesse:
"Se não temos certeza do que está acontecendo, por que pular logo para o pior?"
Antes que pudéssemos continuar a conversa, escutamos algo.
Não era intenso, e estava distante, mas era um som!
Algo, em meio ao silêncio daquele pesadelo.
Parecia vagamente com um grito.
Poderia ser alguém vivo. Alguma testemunha da tragédia que ocorrera.
Com essa realização partilhada, palavras não precisaram ser ditas.
Algo primordial respondeu dentro de nós.
Contra qualquer senso de preservação ou bom senso, corremos em direção ao som.
O barulho parecia vir da praia… o lugar onde deveria começar o show.
Ela não estava longe.
Corremos o máximo que podíamos por aqueles corredores infinitos de asfalto sem fim.
À medida que nos aproximávamos da praia, as ruas se tornavam ainda mais simples.
Despersonalizadas e sem vida.
Os prédios viravam formas cada vez mais básicas, puros sólidos geométricos,
indiferenciáveis uns dos outros, exceto pelo formato. A cidade deixava totalmente de parecer uma
cidade.
Era agora uma maquete cinza e impessoal.
Então, quando finalmente chegamos ao nosso destino, vimos a Undyne.
Parte 4 – Mau presságio
O calçadão da praia já não tinha gravura nenhuma, nem nada se não um simples carrinho de
sorvete. O horizonte era azul, sem nuvens, mas anormalmente ainda chovia. Mesmo com o aparente
clima aberto, a praia estava nublada.
Debaixo do calçadão, estavam cadeiras, um palco, caixas de som, tudo do show, menos as
pessoas que deveriam estar ali.
Só tinha ela.
O alívio que sentimos ao encontrá-la do outro lado daquele calçadão só não foi maior que o
grito que ela deu:
— Pirralhos! Vocês não deveriam estar aqui! Evacuem imediatamente! — Por trás do
desespero, um alivio foi sentido em sua voz.
Ainda sim, engolimos seco, pensando que nossas ansiedades haviam se provado verdadeiras.
Asriel tenta conversar para extrair alguma informação.
— Undyne, o que está acontecendo?! Viemos para o show, mas está completamente deserto!
A cidade inteira está! — Asriel fala, sem conter seu estresse diante da situação.
Ela olha para baixo. O olhar que brevemente nos nega já me diz o suficiente.
Sem perder mais tempo, tento me concentrar em um momento anterior. Nesse ponto,
qualquer momento anterior serve.
Sinto o Asriel borbulhar por dentro.
— Um monstro que eu nunca vi antes enlouqueceu. De alguma forma, ele realizou uma
chacina aqui. O Asgore não me responde desde ontem... eu devia ter percebido que havia algo
estranho — Asriel se enfurece escutando os fatos.
Eu fecho meus olhos e viajo para uma sala escura.
Não existe mais barreira à minha frente: o construto que prendeu a raça dos monstros por
todos aqueles anos já não está mais ali.
Eu sei muito bem o que viria depois.
Nossos amigos e nossa família estariam esperando na outra sala.
E eu faria a minha parte: salvaria ele.
Começaríamos de novo.
Contudo, dentro de mim, sinto o receio dele.
— Mas… cadê ele? — pergunta Asriel, furiosamente. Sua esperança ainda se prende à ideia
de justiça... ou talvez à de reparação, contra o monstro que causou essa calamidade.
Eu sinto o acesso àquele ponto está bloqueado. Por alguma razão, não consigo reunir toda a
minha vontade para retornar.
Isso só pode significar que Asriel continua conflituoso.
Mas... mesmo assim, por que minha visão também parece tão nublada?
É como se não houvesse informações suficientes para acessar. Nunca foi assim.
Será que o nosso poder de retornar também foi afetado por esse monstro?
— Eu não sei. Fui atrás dele, mas... de alguma forma, o perdi de vista. Foi como se ele
simplesmente desaparecesse em plena vista. Mas eu continuei insistindo na minha procura,
gritando, buscando alguém, qualquer um. Porém todos já haviam sumido antes que eu me desse
conta.
De repente, sinto como se recuperasse o controle.
Tento acessar aquele ponto... é impossível.
Não consigo visualizar o passado com clareza, há furos demais.
Tento ir mais longe no passado... também impossível.
Foco em algum momento depois...
— Meninos, por favor. Preciso que vocês se escondam até que eu resolva essa situação.
Vocês são fortes, mas... eu não poderei olhar para o Asgore novamente se algo acontecer com vocês.
— Mas ele já não... — Asriel não quis terminar a frase. Doía demais reconhecer a
possibilidade.
— ...está disponível, né? — censura-se, forçando-se a não concluir o pensamento.
Naquele instante, Asriel provavelmente pensava: “Que estúpido... com quem a gente se
refugiaria? Não sabíamos de nada. Nem se nossos pais estavam vivos...”
Tento com todas as minhas forças voltar.
Mas não há mais passado a que retornar.
É como se o próprio tempo estivesse se desfazendo.
Estou sem opções.
Mesmo sem dizer nada, Asriel deve ter sentido, pela nossa conexão, o que tentei fazer.
E eu sei: mesmo que ele ainda resista à ideia, não era ele quem me impedia.
Então... o que está faltando para que tudo volte?
— Ei, seu bebê chorão! Você já está crescido demais pra isso! — Undyne tenta animar
Asriel, que range os dentes, segurando as lágrimas, pois não consegue conter sua indignação. —
Você realmente acha que seu pai cairia sem lutar?!
— Ele é duro na queda! — ela insiste. — Acha mesmo que eu vou acreditar que ele teria sido
derrotado por uma criatura covarde dessas, que nem aparece pra me enfrentar?!
Ela dá um breve suspiro.
O bravado dela não é indestrutível, por mais que tente fingir que seja.
— Eu… o que ele iria querer de mim agora é que eu proteja vocês. Então, por favor…
voltem pra casa! — Ela fala de maneira vulnerável; finalmente, estava se rendendo àquela dor que
tentava enterrar.
Se pudéssemos conversar, ao menos algum conforto poderíamos tirar desse momento.
— Undyne… — Desta vez, sou eu quem tenta falar, mas minha voz também estremece. Ver
a Undyne tentando ser forte para si mesma afetou nós dois.
— Eu sinto muito, mas não temos pra onde voltar. — Ela é a única pessoa que iremos ficar agora.
Nós nos aproximamos e nos olhamos.
Essa era a única verdade nessa situação.
Seja qual for a causa do problema, não há como voltar.
Nossa última opção é permanecermos juntos, mesmo contra a tempestade.
Meu peito aperta por um instante, e minha respiração se torna pesada.
Sinto que não consigo puxar oxigênio o bastante, não importa a quantidade de ar.
Isso já tudo já era além do desespero.
Nunca tivemos que lidar com uma situação igual.
Em que estivéssemos tão miseráveis.
Nós sempre estivemos no topo. Nós decidíamos as regras.
Mas agora, como uma vingança cármica, perdemos essa habilidade e teremos que lidar com
qualquer que seja a causa desse tumulto. Mesmo tentando reunir esperança, meu coração
permanecia aflito.
Asriel já teve o suficiente vendo tudo aquilo e acaba chutando, em frustração, o carrinho de
bongelado.
Eu e Undyne olharmos sem reação.
Ele ri maniacamente enquanto chuta mais o carrinho. O carrinho vira. Ele continua
chutando.
Eu me junto. Alguma coisa naquela loucura me contagiou.
Nós chutamos e chutamos o carrinho.
A Undyne fica em descrença com o que estávamos fazendo. Subitamente ela nota algo e
grita:
— SEUS PUNKS, PAREM LOGO DE CHUTAR O CARRINHO E FUJAM!
O carrinho se contorce e vibra. A gente rapidamente se afasta.
Parte 5 - Omega
Algo sai do carrinho… Não, do carrinho se forma algo. Nesse momentâneo silêncio que
toma conta do ar, percebo que não consigo compreender a verdadeira forma da criatura formada. Há
como se fosse uma neblina ao redor dela, uma distorção que borra o meu entendimento e visão, só
consigo dizer que possui traços familiares...
— VOCÊ! — Grita valentemente Undyne, rapidamente assumindo posição para uma luta.
Sem pestanejar, Undyne salta em direção à besta! Com uma das mãos, ela a agarra pelo
torso; com a outra, levantada, invoca uma legião de lanças radiantes. Ao abaixar o braço, todas
cravam violentamente no peito da criatura, justamente na parte que parecia lembrar do corpo do
Monster Kid. Sem hesitar, Undyne puxa uma das lanças e a empunha como uma espada, tentando
decapitar o inimigo em um único golpe.
A criatura recua aos saltos; sua forma se desestabiliza sob o impacto, como se seu corpo
líquido estivesse prestes a se dissolver. Ela emite um grito distorcido enquanto tudo nela treme e se
agita em padrões impossíveis.
— Seria… um Amálgama? — murmura Asriel, surpreso, como se lutasse para acreditar no
que via.
Estávamos imóveis, paralisados pela uma cena que se desdobrava diante de nós como um
espetáculo de horror.
Undyne não dá trégua. Ela continua a perseguição, mas a criatura se mostra absurdamente
ágil. Numa breve troca de ataques, o monstro se intimida. Ganhando distância, encolhe-se num salto
em posição fetal, expondo a cabeça coberta por escamas semelhantes às da doutora Alphys.
Subitamente, essas escamas se multiplicam, espalhando-se por toda a extensão de suas
costas. Então, num movimento brusco, a criatura se ergue e dispara todas elas contra Undyne. O
impacto é direto. A dor mostrava ser excruciante, e por um momento ela vacila, paralisada.
As lanças cessam; desmaterializam-se no ar. De joelhos, diante da criatura, Undyne encara o
monstro com um ódio renovado ao ver a semelhança com Alphys usada como arma pela criatura.
Seu rosto endurece; ela se levanta com uma raiva escaldante e começa a reunir energia para um
ataque especial.
Primeiro ela invoca uma única lança. O golpe que precisava era para ser preciso e eficiente.
Sem hesitar, a lança desaparece de vista, e Undyne corre na direção da criatura.
A criatura, sentido a ameaça que espreitava, se sente intimidada e dispara em fuga numa
corrida quadrúpede frenética. Ela tentara abrir o máximo de distância de sua adversária, mas não
percebeu que sua trajetória retilínea previsível era justamente o que ela estava contando!
A lança havia sido lançada muito antes, contornando o comprimento da Praia pelo lado
oposto. A armadilha estava armada.
O plano de Undyne envolvia uma forma incomum de magia. Era um tipo de ataque em que a
energia cinética acumulada pelo ataque se convertia diretamente em força mágica. Ineficiente na
maioria das batalhas regradas, era perfeita contra um inimigo desregrado que não merecia sua
honra.
A criatura só percebeu o perigo quando já era tarde demais. Sua própria inércia a impedia de
desviar. Ela levantou o rosto, tentando evitar que a lança a perfurasse, mas não podia mover o resto
do corpo a tempo.
Undyne serviria sua justiça.
O golpe foi certeiro. Com a força acumulada durante o disparo, a lança cresceu em tamanho
e potência, abrindo um enorme vão no peito da criatura. Ela perdeu o equilíbrio; sua metade
superior desabou.
Nesse instante, Undyne se posiciona diante da lança que retornava, intercepta-a com
precisão, e, empunhando-a como um taco de beisebol, golpeia ambas as metades desconexas da
criatura com força total, arremessando-as como uma bola em altíssima velocidade.
Enquanto a besta despencava no ar, Undyne se ergue com firmeza e, de olhos fixos no céu,
levanta o braço direito com o indicador estendido para cima. Seu braço não apontava só para as
alturas de seu próximo ataque, mas para o juízo inevitável que viria com ele. Emanando
determinação, de rosto contorcido em ira justa; ela invocava, com aquele gesto solene, o
JULGAMENTO.
Um círculo de lanças se fecha ao redor do ponto onde a criatura estava prestes a cair. O
impacto se aproxima. De longe, Undyne a vê se espatifando no chão e a encara com um sorriso de
canto de boca e, no exato segundo seguinte, baixa lentamente a mão, agora com o indicador voltado
para o chão. Emanando justiça, com o rosto agora endurecido e outro gesto solene, ela cumpria a
EXECUÇÃO.
Uma tempestade de lanças irrompe dos céus, tomando lugar da chuva que cairá. Todos os
focos concentrados no mesmo ponto. A jaula da besta foi irradiada por uma fúria de lanças.
A criatura solta gritos disformes, distorcidos como múltiplas vozes engasgadas, e parece não
conseguir mais se recompor por completo. Sua massa inteira agora tremia; a estrutura que antes já
era grotesca se tornava ainda mais caótica. Enquanto o ataque durasse, não havia para onde fugir,
todas as vias foram cobertas por um fluxo interrupto de lanças que perfuravam sua essência.
Era assustador pensar que aquela nem era sua forma mais poderosa.
Parte 6 - Enquanto o Mundo Desmorona
Ao final do ataque, contrariando qualquer lógica, sua forma não se instabilizou, mas tornou-
se ainda mais definida. As fusões anteriores se tornaram nítidas; a visão que eu tinha da criatura
agora era mais clara, como se ela não quisesse mais se esconder de nós.
A criatura tinha um corpo assimétrico, formado por uma colagem grotesca de diversos
monstros numa única figura desarmônica. O lado direito era visivelmente maior, o que lhe conferia
uma postura corcunda e instável, como se estivesse sempre à beira de cair. Seu rosto era coberto por
uma máscara invertida, que parecia ao mesmo tempo um acessório e algo vivo. No lugar de olhos
normais, a máscara exibia dois olhos de Astigmatismo. O restante da cabeça era coberto por
escamas da Alphys, com uma coroa deformada no topo.
Seu pescoço era envolvido por um cachecol vermelho, idêntico ao de Papyrus. O tórax tinha
as cores do Monster Kid; nas costas, pequenas asas de Whimsun; e as “calças” lembravam a cabeça
invertida de um Froggit. A perna esquerda era flácida como pelúcia, vestindo uma meia-calça preta
e uma bota rosa desgastada; a direita, metálica, semelhante à perna de Mettaton NEO.
Os braços pareciam costurados com materiais distintos: um era feito de cabelos de vários
monstros entrelaçados em forma de mão; o outro, com dedos serpenteantes que lembravam a cabeça
de um Parsnik.
Undyne, vendo que não foi o bastante, continua a ofensiva. Ela segura duas lanças e avança
contra a criatura, que reforma garras para se defender. Asriel se lembra das garras em seu sonho. Ele
se sente pessoalmente abalado com a visão.
Bloqueando os seus ataques, Undyne consegue abrir os braços da criatura, deixando-a
totalmente exposta. Aproxima-se e grita em sua frente antes de agarrá-la pela perna metálica de
Mettaton, lançando-a no ar. No ar, a perfura de todos os lados com uma rajada multidirecional de
lanças.
O avanço foi feroz... mas ineficaz novamente.
De repente, Undyne parece se sentir fraca e confusa, cambaleia um pouco. Ela parece
perdida, olhando desorientada ao redor. Alguma coisa havia afetado sua percepção.
A criatura espontaneamente reage há algum estimulo estranho, como se tivesse visto algo
que não deveria e segurando a cabeça com as mãos, se contorce para então balançar suas garras
aleatoriamente na direção dela.
Eu bloqueio o ataque.
Não podia deixá-la sozinha. Uso minha bolsa como escudo. Ela se rasga, mas consigo dar a
torta para a Undyne tentar se recuperar, e então pego uma pedra para atirar no monstro. Acerto em
cheio sua cabeça.
Ele se contorce inteiro e solta um grito distorcido.
Undyne pisca inerte. Eu grito por ela e ela parece voltar a si. Diz se sentir melhor, que se
lembrou do motivo de estar ali... mas então, ela desaba no chão.
Estamos por conta própria.
A criatura, agora mais confiante, inicia uma nova barragem de ataques.
Na defensiva, nos mantemos desviando, Asriel conjura feitiços fracos contra ela, mas é
inefetivo.
Em meio as barragens incessantes, eu tropeço e fico exposto.
A criatura prepara o golpe final, mas Asriel se joga na minha frente para me proteger.
Por sorte, uma lança giratória surge e separa a criatura em dois.
O ser rapidamente se reforma, mas…
Quando percebemos, Undyne havia se transformado!
Ela estava usando toda a sua determinação.
Naquele instante, sentimos esperança; aquela doce sensação de que poderíamos vencer, de
que o dano aqui podia ser revertido.
Num ataque combinado, Undyne avança enquanto nós dois preparamos um feitiço que
nunca havíamos usado na prática antes.
Asriel inicia a conjuração de sua magia de fogo; eu concentro minha determinação nela.
Com as nossas forças somadas no STARFIRE, poderíamos acabar com ele, não sobraria nada
depois que o incinerássemos por inteiro!
Várias lanças girando tão rápido que pareciam motosserras acompanham Undyne, quatro de
cada lado. Duas cortam diagonalmente a criatura, que perde o equilíbrio. STARFIRE está 50%
pronto.
Mais três lanças atravessam sua forma, agora irreconhecível.
Três lanças giratórias ainda restam... e possivelmente mais viriam dela. Mas, quem podia
dizer quanto tempo aguentaria ainda?
Undyne tenta se afastar percebendo que estava dentro do raio do ataque.
Mas então, um jato de alta pressão atravessa seu peito.
Outro, seu olho. Depois, o pescoço. A perna. As mãos.
Ela está em estado crítico.
Não temos tempo para reagir. Se liberássemos a magia agora, ela seria atingida.
Asriel é forçado a cancelar a conjuração. Mas, estamos fracos mesmo sem usar o ataque.
A criatura começa a se recuperar…
E Undyne não vai aguentar muito mais. Parece que tudo está perdido. ha.. ha..
— Frisk! Olhe só — exclama Asriel.
E então vejo.
Sou eu, mais jovem?
Todo em tons de cinza, com olhos negros e vazios.
Esse eu mais jovem tenta me estender a mão em meio ao caos que se prosseguia.
— Eu não posso explicar agora, mas preciso que confiem em mim. Aquela porta... é a única
saída daqui.
Ficamos sem reação. Era demais, rápido demais. E a Undyne?
Não poderíamos deixá-la!
Olho para Asriel. Ele já esperava minha resposta.
No meio da corrida para resgatá-la, ouvimos Undyne, usando o resto de sua força para deter
a criatura:
— VIVAM! NÃO SE PREOCUPEM COM O QUE ACONTECE AQUI! EU CAIREI
LUTANDO!
Numa só voz tentarmos responder:
— Undyne, você- — Porém fomos interrompidos pelo som de pura resolução.
— VÃO LOGO! NÃO DESPERDICEM O TEMPO QUE ESTOU GANHANDO PRA
VOCÊS
Corremos em lágrimas.
Ao atravessar a porta, ouvimos um som de finalização.
O pó de Undyne parecia estar sendo absorvido.
Ao virar, vimos uma figura encapuzada acariciando a criatura.
Aquela foi a última coisa que vimos do nosso antigo universo.