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Diálogo Tenso entre Príncipe e General

O capítulo descreve a jornada do Príncipe Herbert e do General Hanshower em uma carruagem em direção a uma mansão, onde Herbert demonstra desprezo e indiferença em relação ao ambiente e às expectativas que recaem sobre ele. Ao encontrar a Condessa, ele tenta manipular a situação em seu favor, usando a inocência da filha dela como uma ferramenta para persuadi-la a aceitar a ajuda do Império de Rahsthermun. A Condessa, embora relutante, considera a proposta de Herbert, destacando a tensão entre poder, manipulação e as escolhas difíceis que os personagens enfrentam.
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Diálogo Tenso entre Príncipe e General

O capítulo descreve a jornada do Príncipe Herbert e do General Hanshower em uma carruagem em direção a uma mansão, onde Herbert demonstra desprezo e indiferença em relação ao ambiente e às expectativas que recaem sobre ele. Ao encontrar a Condessa, ele tenta manipular a situação em seu favor, usando a inocência da filha dela como uma ferramenta para persuadi-la a aceitar a ajuda do Império de Rahsthermun. A Condessa, embora relutante, considera a proposta de Herbert, destacando a tensão entre poder, manipulação e as escolhas difíceis que os personagens enfrentam.
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CAP 2 - Desejos

Corvos grasnavam, dispersos entre as árvores secas que ladeavam a estrada deserta. A
carruagem luxuosa avançava, cortando o ar gelado que trazia o primeiro sabor amargo do
inverno. O céu, cinzento e pesado, refletia a mesma melancolia rígida da paisagem ao
redor. As árvores, desprovidas de folhas, se alinhavam em fileiras intermináveis, galhos
retorcidos estendendo-se como dedos magros e ossudos, erguidos em silêncio contra o
horizonte.

Dentro da carruagem, o silêncio era quebrado apenas pelo rangido das rodas sobre o solo
irregular e o leve farfalhar das páginas. Um menino de olhar fixo lia um livro de histórias
assombradas, com uma expressão de desprezo sutil enquanto virava a página. O balanço
da viagem parecia não incomodá-lo; pelo contrário, o movimento dava um certo ritmo à
leitura. O estofado de veludo escuro contrastava com sua pele pálida e o brilho suave de
suas roupas refinadas, que refletiam um status que ele aparentava tratar com indiferença
absoluta. Em sua frente, um homem de postura rígida e feição cansada, trajado em
vestimentas militares, mantinha os olhos fechados em um silêncio “vigilante.”

Herbert fechou o livro abruptamente e lançou um olhar frio para o homem, como se fosse
indigno de estar ali.

— Tsc. Vir até esse fim de mundo — disse ele, o deboche escorrendo de sua voz. —
Sinceramente, General Hanshower, se eu quisesse sentir esse cheiro de decadência, teria
ficado em Rahsthermun e me misturado aos plebeus.

O General abriu um olho, observando o príncipe com uma calma prática, e depois fechou-o
novamente. Depois de um instante, murmurou, quase para si:

— E você? Já pensou naquela coisa? — perguntou, sem rodeios. — Aquela questão que
lhe apresentei dias atrás…

O garoto piscou lentamente, absorvendo as palavras do homem enquanto o som das rodas
da carruagem ecoava ao redor deles. Um leve sorriso se esboçou em seus lábios, quase
imperceptível.

— A carroça? — ele murmurou, como se falasse consigo mesmo. — Empurrar uma pedra
para evitar o destino de alguns e mudar o do outro? — Ele fitou a janela, o olhar perdido nas
árvores secas que passavam em sequência lá fora. — A vida é cheia dessas escolhas
"difíceis", mas… — ele deixou a frase no ar, como se o final fosse óbvio. Um brilho sutil de
frieza cintilou em seus olhos. — Se tivesse que escolher, eu não desperdiçaria minha
energia nisso.

O homem manteve o olhar fixo no garoto, esperando ver alguma resposta além da
indiferença, algum sinal de reflexão sobre o dilema que havia proposto. No entanto, diante
do semblante impassível do príncipe, ele sentiu um peso de frustração lhe tomar o rosto.
Seus olhos se desviaram lentamente para o chão da carruagem, e ele suspirou, um suspiro
que carregava uma decepção sutil, quase imperceptível.
— Talvez tenha sido tolice minha… — murmurou para si mesmo. — Pensar que certas
escolhas teriam algum significado para você.

Ele voltou-se para a janela, o olhar fixo nas árvores retorcidas que passavam lá fora, como
se procurasse uma resposta que a paisagem desolada pudesse lhe dar. O vento frio batia
contra a carruagem, e o ranger das rodas parecia ecoar o tom amargo de suas palavras.

— Haha! Que foi? Esperava algo diferente? Eu não sou um idiota sentimental, Hanshower.

Antes que Hanshower pudesse responder, o grito do guarda da carruagem cortou o ar:

— Alteza, General! — chamou o guarda, elevando a voz acima do som das rodas no chão
irregular. — Chegamos ao nosso destino!

A carruagem parou com um leve solavanco. Herbert desceu, o ar frio batendo em seu rosto
enquanto ele examinava o local com desdém.

A mansão à sua frente era grandiosa, mas Herbert apenas lançou um olhar de desprezo à
estrutura desgastada. “Esses humanos se contentam com qualquer coisa,” ele pensou, e
seguiu para os portões que se abriram com um rangido pesado.

Três figuras esperavam por ele, flanqueando uma mulher de porte austero. Com um sorriso
quase imperceptível e carregado de ironia, ela se curvou ligeiramente.

— Olá, Príncipe Herbert — saudou a mulher. — Vejo que sua fama de impaciência é
justificada.

Herbert lançou um olhar frio e uma risada irônica escapou.

— Fama? Eu diria que esse lugar não é digno nem da minha irritação. — Ele sorriu de
canto. — Suponho que você seja a Condessa, a quem o povo de Rahsthermun insiste em
me mandar para negociar.

A mulher ergueu o queixo, mantendo-se firme.

— Justamente, Alteza. Eu gosto de observar meus convidados antes de recebê-los.

— Tsc. Prefere perder tempo com isso? — disse ele, em tom impaciente. — Só vamos
entrar logo. Talvez um dia você entenda o que é ter coisas melhores a fazer do que
observações inúteis.

A Condessa soltou uma risada breve.

— Vamos, Alteza. — disse ela, indicando o caminho com um gesto de mão. — Antes que a
paciência real se desgaste ainda mais.

— Hm. A primeira ideia inteligente até agora. — murmurou Herbert, e passou à frente com
uma confiança absoluta.

Eles atravessaram o corredor, as tapeçarias e candelabros jogando sombras que dançavam


nas paredes.
Ao entrar no salão principal, Herbert observou o brilho dos candelabros dourados e as
mesas decoradas com cristais e arranjos florais. A sala estava repleta de nobres, todos
vestidos em trajes elaborados, cujos olhos curiosos e avaliadores pousaram sobre ele e seu
acompanhante. O murmúrio de conversas pausou por um instante, enquanto Herbert
avançava sob os olhares atentos e curiosos dos presentes.

Alguns dos nobres se levantaram para cumprimentá-lo, sorrindo com familiaridade.

— Ah, Herbert! — exclamou um senhor de idade, seus cabelos brancos contrastando com o
rico traje escuro. — Eu já te segurei quando você era um bebê, acredita? Como o tempo
passa… — Ele riu com nostalgia, dando-lhe um leve aceno respeitoso.

— Glória ao Império, jovem príncipe! — disse uma mulher de vestes impecáveis, com um
brilho nos olhos que denotava a expectativa de alguém que, como todos ali, aguardava os
próximos passos da Ascendência.

Herbert retribuía os cumprimentos com um aceno vago e um olhar quase vazio, mal se
dando ao trabalho de erguer os cantos dos lábios. Para ele, aquele desfile de rostos
ansiosos era uma perda de tempo, uma multidão de bajuladores obsoletos que pouco
importavam para o que ele realmente vinha buscar. O peso das expectativas que eles
depositavam em seu título e no império? Apenas um fardo incômodo, algo que ele tolerava
por obrigação, mas que nunca escolheria carregar.

A Condessa lançou um olhar a Hanshower, que estava ao lado de Herbert.

— General Hanshower, talvez você devesse se divertir um pouco. Não se preocupe, deixe o
príncipe comigo — disse ela, em um tom casual, quase debochado.

Herbert revirou os olhos, visivelmente irritado.

General Hanshower franziu a testa, lançando um breve olhar a Herbert. Este, por sua vez,
respondeu com um aceno irritado e relutante, indicando que ele poderia ir. O general
suspirou, mas não disse nada. Ele apenas fez uma leve reverência e se retirou, deixando
Herbert sozinho com a Condessa enquanto se juntava aos demais.

Assim que ele saiu, Herbert virou-se para a Condessa, o tom de desprezo voltando.

— Vamos lá, desembucha. Você realmente acha que preciso ouvir do seu bando de
parasitas?

A Condessa se aproximou de Herbert com um gesto discreto, indicando que ele a seguisse.
Ela o guiou para longe do salão de jantar, afastando-se do murmúrio dos nobres e
adentrando um corredor iluminado por candelabros luxuosos. Nas paredes, quadros antigos
exibiam gerações da família real de Vuur, figuras austeras que observavam os dois em
silêncio enquanto caminhavam pelo piso de mármore polido.

— Nosso reino tem resistido como pôde — ela começou em um tom baixo. — Mas sem
apoio externo, Vuur não será capaz de se sustentar diante das ameaças crescentes.
Herbert deu uma risada seca e olhou ao redor, como se o pedido dela fosse quase uma
piada.

— Vuur precisa de Rahsthermun? É isso que você está tentando me dizer? — Ele fez um
movimento desdenhoso com a mão. — Então já vou te adiantar: nossa ajuda exige
submissão completa. Sem “mas” nem desculpas.

A Condessa, lutando para manter a compostura, apertou os lábios. Porém, antes que
pudesse responder, o som de uma risada infantil ecoou pelo corredor. Uma menina, filha da
Condessa, entrou correndo, e Herbert apenas a olhou com uma sobrancelha erguida,
impaciente.

— Mamãe! — chamou a menina que carregava um ursinho de pelúcia, a voz doce e


inocente contrastando com o ambiente severo ao redor. Ela olhou para Herbert com um
sorriso curioso, sem entender a seriedade da conversa interrompida. Isso desconcertou
Herbert.

— Ah, que ótima distração. — murmurou ele, sarcástico. — Mais uma razão para
resolvermos logo essa conversa.

A Condessa suavizou a expressão por um instante, inclinando-se para a filha e acariciando


seus cabelos. — Vou com você daqui a pouco, meu amor — murmurou ela, antes de se
voltar para Herbert com um olhar endurecido. — Algumas coisas são valiosas demais para
se entregar sem pensar nas consequências, Alteza.

Herbert esboçou um sorriso enviesado, como se estivesse diante de uma oportunidade


tentadora. Seus olhos deslizaram até a filha da Condessa, que o observava com inocência.
Ele, então, assumiu uma expressão de empatia calculada, escondendo o sarcasmo sob
uma camada de gentileza convincente.

— Ah, tem certeza? — questionou ele, com uma doçura forçada na voz. — Não quer criar
um bom lugar para sua pequena preciosidade? — Ele fez uma breve pausa, lançando um
olhar compassivo para a criança antes de encarar a Condessa novamente. — Afinal, o
Império de Rahsthermun tem muito a oferecer. Ou prefere que ela cresça limitada? Às
vezes, os fins justificam os meios.

A Condessa estreitou os olhos, visivelmente desconfortável com a astúcia disfarçada de


preocupação. Herbert inclinou-se na direção da criança, abaixando-se o suficiente para falar
com ela num tom afável.

— E você, pequena — disse ele, agora com um ar brincalhão —, o que quer ser quando
crescer?

A menina hesitou antes de responder, os olhos brilhando com uma animação pura. —
Quero ser uma aventureira, como nas histórias!

Herbert sorriu, um brilho de genuíno entusiasmo surgindo por um breve segundo. — Que
magnífico! — exclamou, com uma energia que surpreendeu até a Condessa. — Uma
exploradora! Imagine os tesouros e mistérios que encontrará! Aposto que será a melhor
aventureira que Vuur já viu.
A Condessa, observando-o cativar a menina, manteve a expressão dura, embora a leve
doçura dele a tivesse desarmado momentaneamente. Herbert então se endireitou e, com
um sorriso confiante, voltou-se para a Condessa, mantendo o tom amigável.

— E a senhora — disse ele, um toque provocativo na voz —, não gostaria de vê-la realizar
grandes feitos? — Ele inclinou levemente a cabeça, simulando uma ponderação cuidadosa,
mas seu olhar era frio e calculista. — Um espírito aventureiro só pode prosperar em um
lugar seguro. O Império de Rahsthermun pode oferecer isso.

A Condessa franziu a testa, seu rosto rígido, traindo o conflito interno. As palavras dele, tão
meticulosamente articuladas, pesavam em seu coração. Ela sabia que ele era hábil em
manipular sentimentos, mas a promessa de um futuro seguro para sua filha soava
tentadora.

— Sim… — disse ela, relutante, mas visivelmente abalada. — Talvez seja o melhor para
ela...

Herbert sorriu com satisfação, um brilho triunfante no olhar. Ele via seu argumento
ganhando força e decidiu apertar o cerco.

— Veja, Condessa. Um futuro onde sua filha possa brilhar, e juntos, podemos torná-lo
realidade. — Ele então inclinou a cabeça, uma expressão de falsa benevolência dominando
seu rosto. — Temos um acordo?

A Condessa o encarou, seus olhos dançando entre a razão e o sentimento. A possibilidade


de um futuro seguro para a filha parecia irresistível, e ela sabia que a escolha lhe seria
cobrada.

— Talvez... — murmurou ela, após uma pausa tensa, sua voz baixa e cuidadosa. — Talvez
a segurança dela seja realmente o mais importante. Mas, Alteza... — Ela endireitou-se,
recuperando parte de sua compostura. — Não sou do tipo que toma decisões sem tempo
para refletir.

Herbert permaneceu em silêncio por um breve instante, os olhos cravados nela, a


expectativa evidente.

A Condessa inclinou a cabeça ligeiramente, com uma firmeza renovada. — Terei uma
resposta para você amanhã, Alteza. Mas até lá, vocês serão nossos hóspedes. Considere
isso como um gesto de cortesia.

Herbert ergueu as sobrancelhas, mas acenou com um sorriso cortante, disfarçando a


decepção com um traço de satisfação. — Claro, Condessa. Temos todo o tempo do mundo.

Com isso, ele lançou um último olhar para a filha da Condessa, o sorriso ligeiramente astuto
retornando aos lábios.

Aproveitando a deixa, Herbert decidiu tocar em um assunto que lhe era querido.

— E o que você acha da Ascendência, Condessa? — perguntou Herbert, com uma leve
inclinação de cabeça, a curiosidade mesclada a um tom sutil de provocação.
A Condessa não hesitou em responder, e suas palavras, ao contrário de uma aceitação
reverente, soaram como um golpe deliberado. Ela descreveu o que a Ascendência
proporciona — prosperidade, poder, uma vantagem inegável para os que possuíam a marca
— mas a forma com que falava deixava claro que sua visão era muito diferente da que
Herbert desejava ver propagada.

Ele não escondeu o desagrado, ainda que sutil. — Acredita em divindades, velha? —
questionou, o sorriso afiando-se como uma lâmina. — Pois comece a acreditar. Graças à
força que nos guia, sou o que sou. Essas histórias e símbolos? Não passam de reflexo de
algo maior. Possibilidades infinitas estão reservadas para aqueles que têm a graça do
poder. Somos superiores. Já passou da hora da Ascendência exercer um papel além do
trivial.

A Condessa arqueou uma sobrancelha, e o ceticismo em seus olhos foi palpável. — Ainda
nessa sua baboseira mística? Pensei que Vlad tivesse ensinado você a discernir entre
realidade e sonho, seu pirralho.

O herdeiro de Rahsthermun manteve a expressão calma, mas um brilho frio dançou em seu
olhar. — Você não vê que isso tudo é uma benção, um dom para os dignos? Olhe para sua
filha. — Ele indicou a menina com um leve gesto, a inocência dela reforçando o que ele
tentava transmitir.

A Condessa esboçou um sorriso sarcástico. — Uma benção? De quem, exatamente? —


Sua voz carregava um sarcasmo afiado, deixando claro que ela não considerava a
Ascendência tão reverente quanto ele.

Herbert deu um passo adiante, sua presença como uma sombra ao redor dela, o olhar fixo
nos dela, intenso e desafiador. — Dos que transcendem — murmurou ele, cada palavra
deliberada. — Ah, se ao menos pudesse ser tão grosseiramente incandescente quanto
eles… — Ele deixou a frase suspensa, uma promessa envolta em mistério e sedução. A
atmosfera ao redor parecia se comprimir, e a luz suave do corredor moldava seus rostos em
sombras e contornos duros, ampliando a tensão entre eles.

Enquanto a conversa se intensificava, a filha da Condessa puxou delicadamente o vestido


da mãe, os olhos brilhando com curiosidade e inocência.

— Mamãe, posso comer um doce? — pediu a menina, com um sorriso encantador que
iluminava seu rosto pequeno.

A Condessa hesitou por um momento, seu olhar mudando rapidamente entre Herbert e a
filha. A tensão no ar tornou-se mais leve por um instante, enquanto a preocupação de ser
uma boa mãe se mostrava predominante naquele momento.

— Claro, querida — respondeu a Condessa, tentando manter a voz suave. — Vou buscar
um doce para você, mas espere um pouco.

Com um último olhar rápido para o príncipe, a Condessa se inclinou, dando um beijo suave
na cabeça da filha antes de olhar para Herbert.
— Mostrarei o lugar onde você e Axl permanecerão esta noite. — disse a Condessa, a voz
ganhando uma firmeza controlada enquanto se levantava, lançando a Herbert um olhar que
mesclava cordialidade com uma cautela latente.

— Agradeço pela cortesia, Condessa — respondeu o mesmo, com um sorriso que parecia
carregar tanto gratidão quanto algo mais velado. Ele lançou um último olhar à filha dela, que
observava a cena com inocência e curiosidade, e então seguiu a Condessa, o eco dos
passos deles reverberando pelo corredor.

Conforme andavam, ela manteve-se em silêncio, mas o peso da conversa anterior pairava
entre eles. Herbert, com as mãos cruzadas atrás das costas, aproveitava cada segundo da
tensão cuidadosamente velada que a Condessa tentava manter. Quando pararam diante de
uma porta ornamentada, ela finalmente voltou-se a ele.

— Esta será a sua estadia. Amanhã lhe darei minha resposta sobre o acordo — disse ela,
sem ceder nada no tom. — Até lá, espero que aproveite o descanso.

Herbert fez uma leve reverência, os olhos brilhando com aquele misto de calculismo e
expectativa. — Será uma honra, Condessa. Que esta noite seja apenas o prelúdio de um
entendimento mútuo — respondeu ele, a voz cheia de um respeito quase teatral.

A Condessa apenas assentiu, sem responder à última insinuação dele, e virou-se para ir
embora, mantendo-se impassível.

O príncipe observou a figura da velha se afastar. O corredor agora estava imerso em um


silêncio que parecia ecoar os pensamentos que giravam em sua mente. Ele não pôde evitar
um riso baixo, sentindo uma satisfação peculiar ao perceber a oportunidade que se
apresentava diante dele.

Parando em frente à porta, observando a maçaneta dourada que brilhava sob a luz suave
do corredor. Com um movimento impaciente, ele estendeu a mão e girou a maçaneta com
confiança. No entanto, ao sentir uma resistência inesperada, sua expressão se tornou uma
mistura de surpresa e irritação.

— Mas o que… esse lugar tá mais caído que aquela velha vagabunda — resmungou ele,
pressionando a maçaneta com mais força e empurrando-a com o ombro. A porta finalmente
cedeu, rangendo sob o seu impulso. Herbert atravessou a entrada.

Seus olhos percorreram o espaço. Duas camas simples ocupavam o ambiente, e uma
escrivaninha, posicionada em frente a uma janela, dividia os leitos ,dando uma visão acima
das árvores secas. Ele se aproximou da escrivaninha, passando os dedos pela superfície
de madeira, seus dedos ficando empoeirados no processo.

“É incrível que não estou surpreso, esse lugar me dá nojo…”, ponderava em sua mente. O
garoto virou, observando as camas, um suspiro se curvando em seus lábios. “Pelo menos
eu tenho um tempo de descanso depois da viagem.

Não demorou muito para alguém bater na porta — Ou! Sr. Princeso! Abre a porta — era a
voz do general.
Uau… — O garoto abriu a porta lentamente, o som da madeira rangendo ecoando no
ambiente. Seu olhar expressava frustração e incredulidade. — É sério isso? Cara, você é
impressionante, nunca sei o que esperar de você…

— Obrigado — Axl respondeu, sem um pingo de arrependimento por sua exibição. Um olhar
orgulhoso estava estampado em seu rosto, como se tivesse conquistado algo realmente
difícil. Havia uma chama de satisfação em seus olhos, e ele parecia se deliciar com a
reação de Herbert.

Os dois trocaram olhares em silêncio, a atmosfera carregada de um tipo de tensão que só


amigos íntimos podiam compartilhar. Era uma mistura de irritação e diversão, um
reconhecimento mútuo de suas personalidades divergentes, mas complementares.

— Presumo que você tem algo a me dizer, o notório General não pararia de embebedar por
nada. Desembucha — disse o Príncipe, a perplexidade em seu olhar, como se tentasse
desvendar o que se passava na mente de Hanshower. A impaciência misturava-se à
curiosidade, enquanto Herbert se perguntava quais das excentricidades de Axl viriam a
seguir.

O General deu um passo à frente, a postura rígida e firme, como se estivesse prestes a
compartilhar uma informação importante. Havia uma seriedade em seu semblante que era
inusitada para ele, e isso capturou a atenção do herdeiro.

— Eu havia esquecido, porém o Rei, antes de te enviar, me pediu pra te entregar isso — Axl
disse, retirando de um bolso em seu uniforme um envelope preto, adornado com um
marcador vermelho vibrante.

Herbert franziu a testa, o nervosismo se acumulando em seu peito. Ele estendeu a mão,
ansioso para pegar o envelope, sua mente girando com a possibilidade do que poderia
estar escrito. Axl hesitou por um momento, mantendo o envelope entre eles como se fosse
um troféu precioso.

— O que é isso? — ele perguntou, sua voz revelando um tremor que não conseguiu
controlar. A menção ao Rei sempre o deixava em estado de alerta.

Axl respirou fundo, observando a tensão crescer no rosto de Herbert. — É um anel —


respondeu, finalmente liberando o envelope. — O Rei disse que era importante.

Herbert franziu a testa, sua confusão aumentando. Ele retirou o anel do envelope e o
segurou entre os dedos, admirando seu brilho. Era um anel delicado, com um design
intrincado e uma pedra central que refletia a luz de maneira hipnotizante. Ele reconheceu
imediatamente o objeto. Era o anel de sua mãe.

— O anel da minha mãe… — sussurrou, a emoção invadindo suas palavras. Ele não sabia
exatamente o que pensar. O anel tinha estado guardado por tanto tempo, um símbolo de
um passado que ele preferia não revisitar. — Por que o Rei… por que ele me mandaria
isso?

Herbert olhou para o anel, suas emoções conflitantes refletidas em seu rosto. Ele hesitou
por um momento, mas a curiosidade e a necessidade de um vínculo com sua mãe o
levaram a agir. Com um gesto decidido, ele colocou o anel no dedo, e para sua surpresa,
ele se encaixou perfeitamente.

— Eu… — murmurou, observando a peça brilhante em sua mão. Era como se o anel
estivesse esperando por ele, um elo tangível com seu passado. A sensação era estranha,
uma mistura de conforto e dor.

Axl observou, um sorriso sutil se formando em seu rosto. — Agora você realmente parece
um príncipe — comentou, tentando quebrar a tensão que pairava no ar.

Herbert forçou um sorriso, mas sua mente estava longe, mergulhada em memórias de sua
mãe e sua mente se enchia de possíveis consequências que aquele anel poderia trazer
para sua vida e seu futuro. Ele sabia que aquele gesto poderia ter mais significados do que
parecia, e um peso se abatia sobre seus ombros. O que o Rei realmente queria dele? E o
que aquele anel representava em meio a tudo isso?

Ele cerrou os dentes, tentando deixar essas preocupações de lado e recuperar a


compostura que sempre o caracterizara. Afinal, ele não podia se permitir fraquejar.
Lembrou-se da força que sempre buscou e do que significava ser um príncipe — um líder.

— Está bem, já chega de devaneios — disse ele, voltando-se para Axl com uma expressão
decidida. — O que importa é que agora tenho um novo artefato para provar meu valor.

Herbert levantou a mão, olhando para o anel, que encaixava perfeitamente em seu dedo.
Uma obra-prima, como sua mãe, e uma lembrança constante da sua linhagem. Ele não
poderia se deixar abater.

— Apenas mais um símbolo do meu tormento, não é? — acrescentou, tentando soar


desdenhoso, mas uma faísca de incerteza ainda dançava em seu olhar.

Herbert olhava de forma curiosa em sua volta, estranhamente um pouco desanimado e


desorientado.

Ao perceber o sol se dissipando, Herbert recuperou rapidamente a compostura e se virou


para o General. — General, arruma essa merda de lugar. Vou caminhar um pouco. Faça
preparativos para o próximo nascer do sol.

Hanshower apenas assentiu silenciosamente.

Ele saiu da estadia, seus passos apressados reverberando nos corredores vazios. Ele
ignorou o eco dos seus pensamentos e o peso que trazia consigo. Quando virou uma
esquina, quase colidiu com a Condessa. A mulher abriu a boca para falar, mas ele a
interrompeu.

— Não tenho tempo pra isso — disparou, seguindo em frente antes que ela pudesse
responder.

Ele desceu as escadas de forma apressada, a urgência em seus passos tornando-se mais
intensa. Ao abrir a porta que dava para o Jardim da Mansão, a escuridão da noite se
espalhou como um manto. O sol havia desaparecido completamente, e o vento frio do
inverno que se aproximava golpeou seu rosto, trazendo um arrepio que percorria sua
espinha.

Sem hesitar, Herbert se jogou na grama do jardim, deixando-se afundar na umidade da


terra. A escuridão o envolvia, e ele fechou os olhos, buscando um breve momento de
silêncio. O mundo parecia distante, e as preocupações do dia eram meras sombras
enquanto a noite se aprofundava ao seu redor.

Seus olhos fechados viam apenas fragmentos, uma colagem confusa de imagens e sons
que não se alinhavam. O murmúrio distante de vozes entrelaçava-se com o farfalhar das
folhas, e Herbert não conseguia distinguir a realidade dos ecos de sua própria mente. O frio
da grama penetrava sua pele, mas era um desconforto que mal registrava; sua atenção
estava voltada para o labirinto de pensamentos que giravam em sua cabeça.

Um som agudo cortou o ar, preenchendo sua mente com uma insistência penetrante, como
um grito distante que não podia ser ignorado. Junto a isso, uma ventania violenta ergueu-se
ao seu redor, fazendo as folhas dançarem e criando um tumulto que parecia refletir o caos
dentro de sua cabeça. A escuridão começou a se contorcer, e Herbert teve a sensação de
que o mundo ao seu redor estava se desvanecendo.

Ele suspirou, espremendo o que restava de determinação. Não era a primeira vez que sua
mente o traía com fantasmas noturnos. O tempo estranhamente parecia ter passado horas
em apenas alguns segundos. Assim, decidiu que já era hora de dormir, em vez de ser
atormentado pela cacofonia em sua cabeça.

Ao adentrar a mansão, encontrou tudo em silêncio, a escuridão envolvia os cômodos como


um manto. Seguiu em direção ao seu quarto, cada passo ecoando em um vazio que parecia
corresponder ao seu estado de espírito.

Ao abrir a porta, viu Axl jogado e completamente torto na cama menos macia, imerso no
mundo dos sonhos. Herbert balançou a cabeça, um sorriso irônico se formando em seus
lábios. O contraste entre a despreocupação de seu amigo e o turbilhão em sua mente era
gritante.

Ele se sentou na cadeira da escrivaninha, os dedos deslizavam pela madeira fria enquanto
abria a gaveta. Retirou um papel, um aparo e um pouco de tinta, preparando-se para dar
vida aos pensamentos que apenas sua mente conhecia. As palavras fluíam como um rio
revolto, enquanto tentava colocar em ordem os fragmentos de sua realidade.

Horas se passaram enquanto ele escrevia, imerso em suas reflexões. Mas, quando a
chama da vela que acendera começou a vacilar e finalmente se apagou, uma onda de sono
o atingiu com força. A caneta escorregou de seus dedos, caindo no chão, e a noite o
envolveu mais uma vez, levando-o para o desconhecido

Fechando os olhos, o príncipe foi subitamente mergulhado em um vislumbre de sua mente.

Seus sonhos diziam que a noite não era um abrigo, mas algo a se temer. Ele se via em um
campo escuro, a lua pairando como um olho vigilante acima, observando cada movimento.

— Não fraquejarei, me tornarei um com o nosso Ideal.


Uma voz ecoava, e um brilho aumentava de forma gradual até que, abruptamente:

Herbert desperta.

A primeira coisa que ele nota é que agora a janela estava aberta, com uma ventania fria
invadindo o ambiente. Suas roupas, amontoadas no chão, e o General, jogado de maneira
desleixada na cama ao lado, roncando de forma alta, formavam um cenário de desordem. O
príncipe balança a cabeça, tentando afastar os ecos de seus pesadelos enquanto o brilho
prateado da lua ilumina o quarto, transformando os contornos em sombras etéreas.

Ele se levanta e se aproxima da janela, sentindo uma vontade quase primitiva de agarrar os
ventos que pareciam densos. Estendendo o braço em direção à lua, Herbert nota um brilho
peculiar no reflexo do anel. A luz refletida revela o observatório da mansão, logo à sua
direita, erguendo-se majestoso contra o céu noturno, com suas cúpulas e telescópios
voltados para as estrelas. A estrutura parece pulsar com uma energia distante, como se
estivesse chamando por ele.

A curiosidade o consome, e a ideia de ir até o observatório toma forma em sua mente. Ele
deduz que um corredor o levaria até lá. Com determinação, Herbert se veste novamente,
ajustando suas vestimentas formais, e sai do quarto. Ele avança com passos apressados
pelos corredores, cada passo ecoando em seu próprio ritmo enquanto as tábuas do piso
rangiam, enquanto a escuridão da mansão o envolve.

Chegando ao fim do corredor, onde uma porta de madeira escura se ergue diante dele,
adornada com detalhes intrincados. Ele hesita por um momento;

Ele empurra a porta com um movimento brusco, o som do estrondo ecoando como um sinal
de convocação. O espaço à sua frente se abre, suas paredes cobertas com paineis de
madeira polida que absorvem a luz da lua que entra pelas janelas. Logo no centro, uma
escada em espiral se eleva em direção ao observatório.

Concentrando-se na escada que o levará mais perto de seu destino. Ele avança, cada
passo o levando a um misto de ansiedade e expectativa. Os degraus de madeira rangem
sob seu peso, mas ele não se importa. A única coisa que importa agora é o observatório.

Ao alcançar o topo da escada, Herbert se depara com uma porta de vidro que dá para o
observatório.

Dentro, suas expectativas foram superadas. As paredes eram cobertas por estantes
repletas de livros, alguns com capas desgastadas e títulos que pareciam sussurrar a ele. No
fundo da sala, uma sacada se estendia, abrigando um telescópio imponente que apontava
para os céus. Herbert ficou parado por um momento, admirando o ambiente repleto de
conhecimento e possibilidades. O cheiro de papel envelhecido e tinta fresca permeava o ar.

De repente, a porta se abriu com um rangido e o General Axl Hanshower entrou. O barulho
surpreendeu Herbert, que deu um salto, seu coração disparando. Ele se virou rapidamente,
irritado, mas ao ver quem era, a expressão de Herbert se suavizou, embora um vestígio de
frustração ainda permanecesse em seu tom.
— AI PORRA!, Axl! Não chega em mim assim não! — gritou, tentando recuperar a
compostura. — O que que você tá fazendo acordado? Eu te vi parecendo estar em coma na
cama…?

Axl arqueou uma sobrancelha, enquanto lentamente esboçava um sorriso.. — Desculpe,


Alteza. Não sabia que estava tão concentrado, você devia saber que você não é
exatamente muito sorrateiro.

Herbert respirou fundo, segurando a irritação e se voltando novamente para o telescópio,


sua curiosidade reavivada.

— Alguém por acaso já te ensinou a bater na porta? Meu deus…. — Disse Herbert
enquanto se preparava para usar o telescópio.

Herbert começou a suar frio ao ter o vislumbre, era quase impossível traduzir em palavras a
essência da imagem que Herbert observava. Uma força? Um brilho? Talvez uma esperança,
um desejo? Cada uma dessas intuições dançava ao redor do pequeno buraco oblíquo,
atraindo-o com uma intensidade que parecia ultrapassar os limites do imaginável. E quanto
mais Herbert olhava, mais sentia que a coisa o encarava de volta, devolvendo sua própria
curiosidade com uma profundidade incompreensível.

— Axl… você acredita em divindades?

A resposta do General começou com seu usual sarcasmo, um sorriso ligeiramente torto
surgindo em seu rosto. — Difícil é não acreditar. Quer dizer… olha só par—

— Não, seu imbecil. — Herbert o interrompeu, um lampejo de irritação e urgência na voz. —


Estou falando de algo além disso. Além de nós, além do vazio… além do próprio Nihil.

Axl ficou em silêncio, seu olhar pousando sobre Herbert com uma gravidade incomum,
enquanto a expressão jovem e feroz do príncipe queimava com uma intensidade rara. —
Achar, todo mundo acha, garoto. — respondeu Axl, seu tom mais baixo, quase um
murmúrio. — Mas ninguém nunca comprovou porcaria nenhuma.

Herbert riu, um riso seco, enquanto seus olhos voltavam ao objeto à sua frente. — Se nem
aquela velha estúpida acredita de onde viemos… — Ele parou por um instante, os olhos
arregalados com uma súbita compreensão. — Mas ela vai descobrir agora.

O ressentimento em sua voz era inconfundível, mas Axl captou algo mais, um vislumbre do
que Herbert enxergava ali. E, mesmo com sua experiência, não conseguia entender como
aquilo fora parar nas mãos do Império de Vuur… nem, tampouco, para quê.

— Ele fala! — sussurrou Herbert, com uma empolgação febril. — A coisa fala! Porta com
pepita de Jasmine!

Herbert rapidamente saiu do observatório, desceu as escadas e correu pelos corredores


com uma agilidade quase sobrenatural, cada passo um borrão, enquanto Axl o seguia a
uma distância moderada, mas sem pressa. Herbert avançava com um fervor inquieto, como
se estivesse em uma caça, derrubando candelabros, esbarrando em quadros, subindo e
descendo escadas, até que finalmente encontrou o que procurava.
— A porta de Jade! — ele exclamou, ofegante. — É aqui!

Para sua surpresa, a porta estava destrancada. Herbert empurrou-a com cuidado e entrou
no cômodo, que se revelou uma verdadeira bagunça. Era uma grande sala, organizada e
repleta de tapeçarias empilhadas e esculturas.

— O que você tá fazendo aqui? — uma voz soou atrás dele. Era a filha da Condessa, com
um olhar acusador.

— Hum? Ah, você... — Herbert revirou os olhos. — Estou ocupado, criança…

— Ei! — ela resmungou, cruzando os braços. — Mamãe não deixou você mexer nas coisas
dela!

— Relaxa, criança… Só estou tentand—

— Calma aí, minha gente! — Axl interrompeu, aparecendo no fundo da sala, respirando
pesado. Ele mantinha a compostura, mas o cansaço era visível. — Cacete, moleque... Eu
não aguento mais subir e descer tanta escada! Não sou mais jovem pra essas coisas.

— Ei, tio! — a garota apontou para Herbert. — Esse cara não pode ficar aqui!

Herbert lançou um olhar exasperado para Axl, como se dissesse “dá um jeito nessa coisa!”,
claramente incomodado com a presença dela.

O general deu uma risada contida, desviando o olhar para a garota. — Deixa esse bundão
pra lá… Ele só tem umas lombrigas nas canelas. Que tal a gente brincar de
esconde-esconde e deixar esse mané sozinho? — O General sorriu de maneira genuína.

A menina riu, soltando um “tá bom!” antes de sair correndo com seu Ursinho em mãos, e
Axl a seguiu, lançando ao garoto um sorriso maroto antes de desaparecer pelo corredor.
Herbert, agora sozinho, voltou imediatamente para a sala e seu conteúdo, sua visão
analisando o ambiente.

Decidiu entrar no local, observando atentamente cada detalhe ao seu redor. As paredes
estavam adornadas com tapeçarias ricamente coloridas, cada uma representando cenas de
batalhas e mitos. No centro da sala, uma série de esculturas esculpidas em mármore
reluzente estava disposta de forma a criar um caminho que levava a um altar rústico.

Aparentemente não encontrando o que desejava, sua frustração crescia mais e mais…

— Agh! Por que eu não tô achando?? Que inferno! — exclamou, frustrado, chutando as
esculturas e rasgando algumas tapeçarias. O barulho ecoava pela sala, enquanto ele
liberava sua irritação em cada golpe.

Foi então que, ao empurrar uma das esculturas, algo chamou sua atenção: uma das tábuas
do piso, oculta sob o peso da poeira e dos objetos, parecia ligeiramente solta.

Herbert olhou ao redor, procurando algo que pudesse usar para levantar a tábua solta. Seus
olhos se fixaram em um velho cinzel jogado entre as ferramentas abandonadas no canto do
armazém. Pegando-o com firmeza, ele se ajoelhou ao lado da tábua e, com algumas
alavancadas cuidadosas, começou a arrancá-la. A madeira rangeu, resistindo por um
momento, até que cedeu. A tábua saiu com um estalo seco, revelando uma pequena caixa
de madeira azulada escondida no espaço abaixo do piso. Ela era delicadamente trabalhada,
com entalhes dourados que formavam padrões ao longo das bordas, quase como se
desenhassem uma mensagem. No centro, um cadeado antigo mantinha a caixa firmemente
fechada, seu metal escurecido pelo tempo.

Herbert passou os dedos pela superfície da caixa, sentindo a textura áspera e o frio do
cadeado. Ele se pegou imaginando o que poderia estar guardado ali, oculto por tanto
tempo, mas a ideia de não conseguir abrir o cadeado apenas intensificou sua curiosidade.

— O que você está escondendo, hein? — murmurou para a caixa, sua frustração crescendo
à medida que examinava o cadeado em busca de uma forma de abri-lo. Ele retirou uma
pistola de dentro de sua vestimenta, um gesto impetuoso.

— Que merda, ainda bem que prestei atenção no soldadinho — disse ele, com uma
expressão de irritação enquanto recarregava a arma e a apontava com determinação para o
cadeado.

O peso da pistola parecia aumentar sua impaciência. Aquele objeto poderia ser apenas
mais um monte de dinheiro inútil ou, quem sabe, o que ele tanto desejava.

— Vamos logo, quebra de uma vez… — Ele respirou fundo, quase sem paciência, e
pressionou o gatilho. O disparo ecoou pelo armazém, reverberando nas paredes de
madeira. O cadeado se despedaçou, caindo em fragmentos pelo chão, enquanto Herbert
sentia a adrenalina pulsar em suas veias, misturada à irritação.

Com o cadeado agora destruído, ele levantou a tampa da caixa com um movimento brusco,
suas mãos trêmulas agarravam o conteúdo que lá estava, o seu desejo.

“É…É isso, eu finalmente consegui encontrar” pensava em sua mente, transbordando


possibilidades inimagináveis.

Herbert sorriu de maneira maníaca, seu rosto iluminado por uma alegria descontrolada que
parecia brotar de um lugar profundo e obscuro dentro dele. Os lábios curvavam-se em um
arco largo, revelando dentes brancos e perfeitos, enquanto seus olhos brilhavam com um
fervor quase frenético. As sobrancelhas estavam arqueadas, dando a seu olhar uma
intensidade que parecia penetrar o ar ao seu redor.

Ele soltou uma risada alta, quase histérica, que ecoava pelas paredes do salão, como se
estivesse se deliciando em sua própria loucura. O riso era descompassado, uma mistura de
alívio e excitação, e sua expressão transmitia uma mistura inquietante de triunfo e
desespero. As linhas de tensão ao redor de sua boca e os sulcos em sua testa
desapareceram, dando lugar a uma serenidade distorcida que contradizia a situação.

Enquanto olhava para o que estava em suas mãos, seus dedos tremiam, mal contendo a
energia que pulsava dentro dele. Herbert parecia estar à beira de um colapso, sua
respiração acelerada e irregular, como se o ato de abrir a caixa tivesse desencadeado algo
incontrolável dentro dele. O riso se misturava a suspiros, criando uma atmosfera elétrica ao
seu redor, enquanto ele se perdia em seus próprios pensamentos, ciente de que havia
cruzado uma linha que talvez não pudesse voltar atrás.

O som de corvos grasnando se espalhava novamente, agora em quantidade maior, como se


um presságio pairasse no ar. Uma batida forte ressoou na porta do quarto de Herbert, e, em
seguida, a porta se abriu com um rangido baixo, revelando a luz da manhã que entrava
como um intruso.

— BOOOOM DIAAAAA, FLOR DO DIA!!!!

Herbert já estava acordado e vestido, apenas com um sorriso observando o General.

— Bom dia, General. Já fez os preparativos? E, aliás, a Condessa deve estar me


procurando, não? Por que mais você estaria vindo me acordar?

O General, com um semblante sério, cruzou os braços, ignorando a brincadeira de Herbert.

— A Condessa está esperando por você no salão. Vamos, e os preparativos estão prontos;
apenas aguardamos seu comando.

O príncipe então partiu de sua estadia com as mãos cruzadas atrás de suas costas,
exalando confiança. Ele passou pelo General e caminhou em direção ao salão onde a
Condessa se encontrava.

Assim que entrou, Herbert avistou a Condessa diante de uma mesa, um documento em
mãos. Ao seu redor, os Nobres observavam com expressões de expectativa.

— Príncipe Herbert, você realmente acha que este acordo é o que precisamos? —
perguntou a Condessa, sua voz tensa e sua expressão carregada de incerteza.

— A Condessa sabe que a Ascensão pode transformar nosso destino — respondeu


Herbert, mantendo um sorriso, embora sua voz carregasse um tom mais sério. — Ignorar
essa oportunidade seria um grande erro de sua parte.

Ela franziu a testa, hesitando. — E se isso não passar de promessas vazias?

Herbert respirou fundo, percebendo o peso da preocupação dela. — Eu entendo suas


preocupações, mas pense na sua filha. Essa é uma chance de assegurar um futuro não
apenas para ela, mas para todo o nosso povo. Se você não agir agora, os riscos que
enfrentaremos no futuro podem ser ainda maiores.

Os Nobres trocaram olhares, e a tensão na sala parecia aumentar. A Condessa desviou o


olhar para o documento, suas mãos trêmulas sobre a mesa.

— Se algo acontecer, serei eu quem terá que viver com isso — disse ela, sua voz quase um
sussurro.
Herbert deu um passo à frente, sua expressão mais séria. — E se você não assinar? O que
garantirá a segurança dela e de todos nós? Este acordo é a única forma de proteger seu
legado. Se não agirmos, a incerteza será nossa maior inimiga.

A Condessa mordeu o lábio, a luta interna evidente em seu olhar. — E se você estiver
errado?

— Eu não estou pedindo que você confie em mim — respondeu Herbert, seu tom grave. —
Estou pedindo que confie no futuro. Sua filha merece um mundo melhor, e essa é a sua
chance de fazê-lo acontecer.

Com uma caneta de penas, a Condessa hesitou, mas finalmente fez a declaração,
assinando o acordo com um movimento resoluto, embora a incerteza ainda estivesse
estampada em seu rosto. Herbert pegou o papel com um gesto respeitoso e entregou-o ao
General.

— Aqui está, Hanshower. Agora podemos avançar.

Os dois se despediram dos nobres e da Condessa. No momento em que estavam prestes a


sair, a filha da Condessa apareceu correndo, abraçando o General com força.

— Voltem logo, tá? — pediu a menina, com seu rosto iluminado por um sorriso.

O General apenas riu com a inocência da criança, seu olhar suave.

— Prometemos voltar, pequena. Não se preocupe.

Assim que saíram da mansão, Herbert ainda exibia um sorriso radiante, mas ao cruzar a
porta, o semblante de Hanshower se desfez instantaneamente, e seus olhos se voltaram
para o chão, como se uma sombra de preocupação o envolvesse.

— Espero o melhor de você, General — disse o príncipe, enquanto bocejava e lançava um


olhar de lado para Axl.

— A minha lealdade é apenas ao Império, meu senhor. Fiz como o senhor pediu e consegui
montarias; os preparativos estão feitos — respondeu Hanshower, seu tom grave.

Herbert subiu em seu cavalo com um olhar sinistro, o príncipe esboçou um sorriso ainda
maior, quase maníaco.

— Esplêndido! — exclamou Herbert, a animação ressurgindo em sua voz. Nesse momento,


os portões se abriram, revelando um grande grupo de soldados em vestes vermelhas com
detalhes dourados, todos montados, com um cavalo de puro-sangue branco à frente.
Herbert subiu em seu cavalo com um olhar sinistro, esboçando um sorriso ainda maior,
quase maníaco.

Ele se virou para o General e disse, em um tom grave: — Ateie.

O General, com um semblante impassível, engoliu em seco enquanto seus olhos se fixavam
na mansão. Um suor escorreu por seu rosto, mas ele não hesitou. Levantando a mão,
ordenou que os soldados atirassem. Flechas cobertas de fogo voaram em direção à
estrutura de madeira, suas pontas incandescentes iluminando o céu ao entardecer.

Inúmeras flechas se cravaram na mansão, e em poucos segundos, o incêndio se alastrou,


consumindo tudo em seu caminho. O calor intenso e o som do fogo crepitando se
misturavam aos gritos, que inicialmente foram de surpresa, mas logo se transformaram em
clamores de desespero. "AJUDA! SOCORRO!" ecoavam as vozes aterrorizadas dos que se
encontravam presos nas chamas, aos poucos os gritos abafados pararam.

Herbert, montado em seu cavalo, observava a cena com um sorriso de satisfação. As


chamas refletiam em seus olhos, dançando como se estivessem respondendo à sua
euforia.

— Ah! Essa é a sinfonia perfeita! — exclamou ele, deixando escapar uma risada que
ressoava entre os soldados. O calor do incêndio iluminava seu rosto, revelando um deleite
sombrio enquanto ele se deixava levar pela intensidade do momento. — A verdadeira
Ascensão começa aqui, General!

Os soldados, inflamados pelo fervor da cena, ergueram suas armas em um grito de guerra,
a excitação permeando o ar. A fumaça subia em espiral para o céu, misturando-se às
nuvens escuras, como se o próprio céu estivesse se curvando diante da ira de Herbert. O
som dos gritos humanos se tornava uma trilha sonora agonizante, entrelaçando-se com os
estalos da madeira se quebrando, cada barulho ressoando como um aviso de que a vida
estava sendo consumida pela chama. Ao fundo, a mansão se desmanchava, ruindo sob o
peso do incêndio, suas paredes se desintegrando como se fossem apenas papel diante da
fúria do fogo.

Herbert então se voltou para o General, seu sorriso revelando um brilho malicioso. O
homem parecia inquieto, com os olhos fixos no chão, como se a cena de destruição diante
deles pesasse sobre seus ombros.

— Devo dizer, estou orgulhoso de você, General. Você ganhou o meu respeito. — Ele
colocou as mãos no ombro do homem, o olhar intenso e penetrante. — O Império tem sorte
de o ter como aliado.

O General manteve a expressão impassível, mas Herbert notou uma leve hesitação em sua
postura.

— Irei te pedir apenas mais uma coisa. — Herbert parou, permitindo que o silêncio se
instalasse por um breve momento. — Avise ao Rei, tenho assuntos pendentes a resolver, e
não voltarei até os cumprir.

O General assentiu, o olhar ainda voltado para o chão.

— Como desejar, meu senhor. O Rei será informado. — A voz dele era firme.

Herbert pressionou o ombro do General uma última vez, sua expressão se intensificando,
quase predatória.
— Lembre-se, Hanshower, a verdadeira lealdade é recompensada. — Ele sussurrou, antes
de se afastar, voltando seu olhar para as chamas que se alçavam, a mansão agora em um
estado de colapso dramático, peças de madeira caindo e se perdendo nas labaredas. — E
a Ascensão que buscamos não é apenas sobre o poder... É sobre a transformação.

O General assistiu Herbert se afastar. A imagem de Herbert, dominando a cena em meio à


destruição, deixava uma marca discreta, mas profunda, na mente do General, uma sutil
lembrança do Império.

O General observou Herbert galopando para longe da mansão em chamas, a figura do


príncipe se destacando contra o brilho intenso das chamas que se alçavam ao céu, as
labaredas lançando sombras dançantes no chão. O ambiente ao redor estava imerso em
um manto de fumaça e calor, o cheiro de madeira queimada impregnando o ar, enquanto os
soldados se organizavam em meio ao caos. Os gritos de terror e desespero ainda ecoavam
ao fundo, mas agora eram ofuscados pela euforia crescente do exército.

A paisagem ao redor começava a se desvanecer sob a fumaça, as árvores à distância


balançando como se curvassem diante do espetáculo, suas folhas tingidas de cinza. O sol,
lutando para atravessar o denso manto de fumaça, lançava raios de luz que refletiam nas
armaduras dos soldados, criando um efeito quase etéreo.

— Homens! Em retirada! — gritou o General, sua voz cortando o ar carregado com uma
autoridade que ressoou entre os homens.

A resposta foi imediata, uma onda de vozes se elevando em uníssono, um grito de guerra
que reverberou entre as árvores e a fumaça.

— Uhuu! Para o Império!

— Glória ao General!

— Ele é o homem ideal!

Alguns soldados, já entusiasmados pela adrenalina e pela cena de destruição, começaram


a se entreolhar, rindo e fazendo apostas entre si.

— Ei! Vamos apostar corrida! Se eu ganhar, você vai ter que me pagar uma cervejinha! —
gritou um soldado com um sorriso travesso, gesticulando animadamente.

— Ah, você não tem chance! Eu sou o mais rápido aqui! — respondeu outro, com uma
risada desafiante.

O General assistia a cena, uma expressão de incredulidade e descontentamento passando


por seu rosto. A alegria deles parecia uma contradição ao horror que ainda se desenrolava
ao fundo.

Enquanto os soldados se afastavam do local, Axl permaneceu parado, imerso em seus


pensamentos, os olhos fixos nas chamas que lentamente se extinguiam. A chuva começou
a cair, fina e constante, apagando os últimos vestígios do incêndio e criando poças de barro
ao redor. A atmosfera estava carregada, não apenas pela umidade, mas pela intensidade
do que acabara de ocorrer.

Após algumas horas, a chuva se intensificou, tornando-se um verdadeiro dilúvio que lavava
a cena de destruição. Hanshower, por fim, tomou coragem e abriu os portões da mansão, o
rangido da madeira se misturando ao som da chuva. Ele desmontou de seu cavalo e
começou a caminhar em direção às ruínas, as botas pesadas afundando no barro, cada
passo ressoando com a gravidade do momento.

Ao se aproximar do que restava da mansão, seus olhos foram atraídos por um pequeno
objeto parcialmente coberto de fuligem e lama. Curioso, ele se agachou e, à medida que se
aproximava, seu coração disparou. Fez com que Axl caísse de joelhos no barro, sem
palavras e de costas ao seu cavalo.

Um ursinho.

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