1
23 de dezembro de 2025 — Diário 141
Hoje eu acordei com uma inquietação estranha: medo. Não medo dela. Medo do que
estou me tornando ao lado dela. Eu sempre fui fria, sempre fui separada, sempre
mantive uma parede entre mim e o mundo. Mas Ayame… ela atravessa sem pedir.
Ela toca sem mão. Ela invade sem violência.
E pior: eu deixo.
Quando cheguei ao armazém, ela estava afinando a guitarra. O som era baixo,
metálico. Ela levantou os olhos e sorriu como quem estava esperando exatamente
aquele segundo.
“Você veio.”
Sim. Eu fui.
E isso me assusta.
Conversamos sobre coisas bobas — clima, pessoas, luzes de natal. Mas no meio da
conversa, ela disse:
“Eu gosto de como você existe.”
Ninguém nunca gostou de como eu existo.
Ninguém nunca me viu assim.
E isso abre portas dentro de mim que eu deveria manter fechadas.
2
24 de dezembro de 2025 — Diário 142
Véspera de Natal. Nunca significou nada para mim. Mas com Ayame… significou
algo. Ela me encontrou na rua, perto de onde vendiam comidas típicas. Estava com
uma jaqueta preta e um lenço prateado que fazia seus cabelos brilharem ainda mais.
Ela segurava dois chocolates quentes.
“Você parece alguém que nunca ganhou nada assim,” ela disse, me estendendo um.
Eu deveria ter recusado.
Não recusei.
Caminhamos juntas por quase uma hora. Ela falava sobre tradições, sobre como
sempre amou luzes piscando, sobre como o mundo parecia mais gentil nessa época.
Eu estava ouvindo, mas também estava observando o jeito que ela movia as mãos
ao falar. A leveza. A intensidade. A sinceridade.
Quando paramos diante de uma vitrine iluminada, ela encostou levemente no meu
braço.
“Eu gosto do seu silêncio,” ela disse. “É confortável.”
Ninguém jamais disse isso.
E eu senti alguma coisa quebrar dentro de mim — não doendo, mas se libertando.
3
25 de dezembro de 2025 — Diário 143
Natal. Não falei com ninguém além dela. O dia inteiro.
Ayame me levou para o terraço novamente. Trouxe um cobertor grande e dividimos,
porque o vento estava cortante. Eu senti o calor dela perto de mim mais do que
deveria, mais do que é saudável, mais do que eu consigo admitir. Mas não me
afastei. Ela também não.
Conversamos sobre o futuro. Sobre medos. Sobre o que queremos.
E no meio disso, ela disse, quase sem voz:
“Eu não tenho medo de você, Jiyeon.”
Ninguém nunca disse isso.
As pessoas têm medo da minha postura, do meu olhar, da minha força.
Ayame não. Ayame me encara como se eu fosse… algo bonito.
Ela deitou a cabeça no meu ombro por alguns segundos.
E eu deixei.
Quando fomos embora, ela tocou minha mão.
Eu deveria ter retirado.
Não retirei.
4
26 de dezembro de 2025 — Diário 144
Hoje senti algo que não senti desde que era criança: nervosismo. Eu não fico
nervosa. Nunca. Mas quando vi Ayame me esperando na esquina, mexendo
distraidamente no pingente de lua invertida, meu estômago se contorceu.
Ela sorriu quando me viu — aquele sorriso que parece iluminar a escuridão toda ao
redor. “Eu senti sua falta hoje,” ela disse. Eu não soube responder. Amei ouvir, mas
não consegui dizer nada em troca.
Ela percebeu. Tocou meu antebraço devagar. “Tudo bem. Você sente de um jeito
diferente. Eu vejo.”
Às vezes acho que ela me entende mais do que eu mesma.
Passamos a tarde juntas. Ela me fez ouvir uma música nova. Era intensa, emocional,
quase desesperada. Quando terminou, perguntou:
“Essa música parece você.”
Eu não sabia se isso era bom ou ruim.
Mas senti que ela estava certa.
5
27 de dezembro de 2025 — Diário 145
Hoje aconteceu algo que eu não sei explicar. Algo que mudou alguma coisa no ar
entre nós. Ayame estava inquieta, andando de um lado para outro, mãos trêmulas,
respiração pesada. Perguntei o que tinha acontecido. Ela disse:
“É que… quando eu olho para você… eu sinto como se fosse explodir.”
Eu não sabia o que fazer com isso. Eu deveria ter me afastado. Mas dei um passo à
frente. Ela parou. Ficou completamente imóvel. Parecia que se eu encostasse nela,
ela desabaria — ou queimaria.
Eu levantei a mão e toquei sua bochecha.
Pela primeira vez com intenção.
Ayame fechou os olhos, como se estivesse sentindo um impacto interno. Ela
sussurrou:
“Jiyeon… você não sabe o que isso faz comigo.”
Eu também não sei o que isso faz comigo.
Mas sei que não consegui tirar a mão até ela se acalmar.
6
28 de dezembro de 2025 — Diário 146
Hoje ela me levou para uma pequena sala onde guarda instrumentos antigos.
Guitarras, teclados, caixas de som velhas. O lugar parecia um templo íntimo, um
pedaço de quem ela é. Ela queria me mostrar uma música que estava escrevendo
“para alguém importante”.
Ela tocou. E eu entendi imediatamente.
Era para mim.
A letra falava sobre uma força fria que encontra calor sem querer. Sobre duas
pessoas que nascem em escuridões diferentes mas se reconhecem. Sobre uma
atração inevitável. Sobre destino.
Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia como receber algo tão… cru. Tão direto. Tão
íntimo. Ayame observava cada respiração minha. Cada movimento. Como se
estivesse esperando minha reação como quem espera um julgamento.
No final, ela disse:
“Se for demais, eu paro.”
Eu não disse que era demais.
Porque… não era.
7
29 de dezembro de 2025 — Diário 147
Hoje treinamos juntas pela primeira vez. Não sério, não como treino real. Mas ela
queria aprender alguns movimentos de defesa. Ayame não tem força física
comparada à minha, mas ela tem foco. Muita concentração. Quando eu mostrava o
movimento, ela observava com aquela intensidade quase devocional que ela sempre
tem quando olha para mim.
Em certo momento, eu segurei suas mãos para corrigir a postura. Ela ficou rígida,
não de medo, mas de… sentimento. Como se cada toque meu fosse demais para
ela processar. Eu senti a respiração dela mudar. E percebi que a minha também
mudou.
Quando terminamos, ela disse:
“Com você eu sinto coisas que não têm nome.”
Eu entendo isso mais do que poderia admitir.
8
30 de dezembro de 2025 — Diário 148
Hoje ela estava mais silenciosa. Mais suave. Como se estivesse com medo de algo
dentro de si. Perguntei se havia acontecido alguma coisa. Ela balançou a cabeça e
disse:
“Eu só percebi que você pode desaparecer da minha vida a qualquer momento. E
isso me assusta mais do que deveria.”
Eu não esperava ouvir isso.
Ninguém teme minha ausência. As pessoas temem minha presença.
Sentei ao lado dela e disse a única coisa que consegui formular:
“Eu não pretendo desaparecer.”
Ela levantou o rosto imediatamente. Os olhos brilhavam — não de choro, mas de
sentimento puro, de alívio. Ela respirou fundo e colocou a mão sobre a minha. Esse
gesto… foi pequeno. Mas eu senti como se o mundo tivesse parado por um instante.
“Obrigada,” ela sussurrou.
Eu nunca ouvi alguém me agradecer por ficar.
9
31 de dezembro de 2025 — Diário 149
Último dia do ano. Ayame me chamou para o terraço de novo, dizendo que queria
“começar o próximo ano olhando para a pessoa certa”. Subimos antes da meia-noite.
O céu estava nublado, mas dava para ver algumas estrelas disfarçadas.
Ela trouxe duas bebidas e um rádio pequeno. Colocou uma música lenta, íntima,
cheia de emoção crua. Ficamos ali, ouvindo. Sem falar. Eu sentia a proximidade dela
como se fosse calor físico. Como se ela emanasse algo que atravessava a pele.
Quando faltavam dois minutos para a virada, ela se virou para mim e segurou meu
rosto com as duas mãos — devagar, como se tivesse medo de quebrar algo.
“Jiyeon… se eu pudesse pedir algo para o próximo ano… seria você.”
Eu não sabia como respirar.
Como responder.
Como existir.
Quando o relógio marcou meia-noite, os fogos começaram.
E Ayame encostou a testa na minha.
Não pediu nada.
Não forçou nada.
Só ficou ali.
Eu deixei.
10
1 de janeiro de 2026 — Diário 150
Primeiro dia do ano. E tudo parece diferente. Não porque algo enorme aconteceu,
mas porque… eu acordei pensando nela. Pensando no momento em que ela
encostou a testa na minha, no jeito que ela sussurrou meu nome como se estivesse
jurando algo, no calor das mãos dela no meu rosto.
Passei o dia com uma estranha sensação de antecipação. De desejo. De medo. De
vontade.
Ayame me encontrou na praça perto do centro. Ela correu até mim com um sorriso
leve, diferente, quase tímido. “Feliz ano novo,” ela disse. E me abraçou. Não um
abraço rápido. Um abraço inteiro. Como se estivesse entregando algo.
Eu não sabia o que fazer.
Mas meus braços subiram sozinhos.
E eu a abracei de volta.
Nenhum ano da minha vida começou assim.
Com sentimento.
Com alguém me vendo.
Com alguém me querendo.
Com alguém… me tocando de verdade.
Ayame.