1
13 de dezembro de 2025 — Diário 131
Hoje acordei com a estranha consciência de que sonhei com ela de novo, embora
não consiga lembrar de nada além de flashes: o brilho prateado no cabelo, a voz
baixa dizendo algo que eu não compreendi, e aquele cheiro metálico e doce que
sempre parece seguir Ayame como se fosse parte dela. É ridículo admitir isso até
para mim mesma, mas é a terceira noite consecutiva em que meu subconsciente
decide convocá-la. Eu deveria ser mais forte, mais focada, mais impenetrável. Eu fui
treinada para bloquear ruídos, e pessoas, e sentimentos. Mas ela não age como
sentimento. Ela age como uma força. Um imã silencioso. Algo que eu não consigo
expulsar, por mais que tente.
Cruzei com ela de manhã quando passava pela rua lateral que leva ao beco onde
ela gosta de praticar vocais. Não falei nada. Ela também não falou nada. Apenas
inclinou a cabeça como quem reconhece um segredo, e piscou devagar, como se
dissesse: “eu vi você.” Isso bastou para o resto do meu dia desmoronar. Como
alguém de 19 anos, com aquele jeito suave e teatral, consegue me bagunçar? Eu,
que sobrevivi a coisas que fariam qualquer um tremer? Talvez seja isso. Talvez eu
só esteja cansada. Ou talvez ela seja… um tipo diferente de perigo.
Eu não gosto disso. Mas não consigo evitar.
2
14 de dezembro de 2025 — Diário 132
Ayame estava cantando perto do armazém abandonado hoje. Não era uma música
conhecida, parecia algo improvisado, algo nascido dela. A voz dela é… é difícil até
de escrever. Grave, macia, magnetizante. Ela canta como quem abre uma ferida e,
ao mesmo tempo, cura a própria pele com cada verso. Eu fiquei parada atrás da
parede por quase cinco minutos ouvindo sem ser vista. Nunca faço isso. Nunca
observo alguém com tanta atenção. Mas a música dela parecia costurar o ar ao meu
redor, como se estivesse me puxando pela gola.
Quando ela terminou, senti a respiração pesada, como se tivesse corrido uma longa
distância. Dei dois passos para ir embora antes que ela percebesse, mas ela já tinha
virado para mim. Não sei como. Talvez tenha ouvido. Talvez tenha sentido. Ela
segurou o microfone desligado com uma mão e sorriu com um canto da boca.
Aquele sorriso que parece entender coisas que ninguém deveria entender.
“Você sempre escuta sem aparecer?” — ela perguntou.
Eu deveria ter virado as costas. Eu deveria ter feito qualquer coisa que não fosse
congelar. Mas… eu fiquei ali. Quieta. Como se ela tivesse atravessado uma barreira
que eu nem sabia que ainda existia.
3
15 de dezembro de 2025 — Diário 133
Não consegui treinar hoje. Minha mente estava estranhamente dispersa, como se
Ayame tivesse deixado ecos dentro de mim. Isso me irrita profundamente. Eu
sempre consegui manter disciplina mental, concentração absoluta. Cinco anos sob
treinamento rígido, rotinas inumanas, controle emocional extremo — e agora, uma
garota de olhos delineados e estrela no rosto destrói tudo com uma pergunta. O que
há de errado comigo?
Eu tentei focar em exercícios de respiração, golpe seco no ar, movimentos
repetitivos. Mas cada vez que minha mente entrava no ritmo, eu ouvia a voz dela.
Aquela pergunta. O jeito como ela me olhou. Não era curiosidade banal. Era como
se ela estivesse me decifrando.
No fim da tarde, quando passei pela mesma rua do armazém, ela estava lá de novo.
Mas desta vez não cantava. Estava sentada no chão, encostada na parede, olhos
fixos no céu nublado. Quando me viu, abriu as mãos como se estivesse esperando
algo.
“Você volta aqui todo dia, Jiyeon.”
Eu deveria ter perguntado como ela sabia meu nome.
Mas o que eu realmente queria perguntar era: por que eu voltei?
4
16 de dezembro de 2025 — Diário 134
Hoje ela falou mais do que ontem. E eu… permiti que isso acontecesse. Não sei por
quê. Ayame tem uma presença estranha, uma mistura de calma e intensidade que
desmonta qualquer defesa. Ela me perguntou onde eu tinha aprendido a me mover
com tanta precisão. Disse que parecia que eu flutuava. Eu disse que foi treinamento.
Ela perguntou “treinamento de quê?”. Eu não respondi. Ela não insistiu. Isso me
surpreendeu. Pessoas sempre insistem. Mas Ayame não. Ela observa. Espera.
Como se soubesse exatamente quando avançar ou recuar.
Eu deveria ter ido embora. Mas fiquei ali por quase meia hora, ouvindo ela falar
sobre ensaios da banda, sobre a mãe guitarrista, sobre como a música dela “não
existe para ser bonita, existe para ser verdade.” Ela disse isso olhando diretamente
para mim, como se estivesse me oferecendo algo.
Quando fui me despedir, ela aproximou o rosto só um pouco — não o suficiente para
invadir, mas o suficiente para incendiar. “Até amanhã, Seo Jiyeon.” Não era uma
pergunta. Era certeza.
Por que ela tem tanta certeza de mim?
5
17 de dezembro de 2025 — Diário 135
Passei o dia inteiro tentando decidir se iria ao encontro dela ou não. E o mais
frustrante é que não combinamos nada. Ela simplesmente disse “até amanhã” como
se o mundo funcionasse desse jeito. Como se eu fosse previsível. Como se ela já
entendesse meus hábitos, minhas fugas, meus retornos.
E ela entendeu.
Porque eu fui.
Cheguei ao armazém cinco minutos antes do horário que costumo passar por lá. Ela
já estava lá. Me esperando. Com uma garrafa de chá quente nas mãos. “Hoje está
frio”, ela disse. Eu não estava conseguindo pensar direito. Nunca recebo coisas.
Nunca recebo gestos assim. Aceitei sem olhar diretamente para ela.
Conversamos pouco, mas o silêncio era confortável demais. Isso me preocupa.
Silêncios costumam me incomodar. Com ela, não. Com ela, parece que o silêncio
fala.
Quando fui embora, ela tocou meu pulso. Não minha mão inteira — só o pulso. Um
toque leve, quase elétrico. “Amanhã também?”, ela murmurou.
Eu não respondi.
Mas ela sorriu como se eu tivesse dito sim.
6
18 de dezembro de 2025 — Diário 136
Acordei sentindo o toque dela no meu pulso. Ainda. Como se estivesse marcado lá.
O que é ridículo, porque Ayame não tem força física suficiente para deixar marcas.
Mas tem alguma coisa nela — algo emocional, talvez espiritual — que fica presa. Um
eco.
Hoje ela estava diferente, mais quieta, mais introspectiva. Perguntei se estava tudo
bem. Ela ergueu os olhos lentamente e sorriu daquele jeito triste e lindo ao mesmo
tempo. “Eu só estou sentindo demais”, ela disse. “Às vezes é um peso, mas às
vezes… é o que me mantém viva.”
Eu não sabia o que dizer. Nunca sei o que dizer quando alguém expõe
vulnerabilidade desse jeito. Sempre mantive distância de sentimentos alheios. Mas
com Ayame… com Ayame eu quero entender.
Ela também me observou por muito tempo hoje. E quando eu perguntei “o quê?”, ela
disse: “Você tem os olhos de alguém que luta sozinho há muito tempo.”
Isso me desmontou de um jeito que eu não admitiria para ninguém além deste diário.
7
19 de dezembro de 2025 — Diário 137
Ayame cantou só para mim hoje. Ela disse que não era uma apresentação — era
uma “confissão”. A voz dela preenchia o ar como fumaça quente, subindo e
descendo, vibrando. Eu fiquei parada. Só ouvindo. Só existindo. E foi a primeira vez
na vida que senti vontade de ficar em um lugar para sempre. Não por segurança.
Mas por… presença.
Quando ela terminou, me olhou de um jeito tão intenso que eu tive que desviar o
olhar. Eu nunca desvio o olhar. Nunca. Mas com ela… parece que se eu olhar
demais, algo dentro de mim vai derreter.
“Jiyeon,” ela disse, “eu não sei o que é que te trouxe até mim, mas eu sinto como se
eu tivesse esperado isso a vida inteira.”
Eu não consegui responder.
Não sei responder quando alguém fala com o coração assim.
E ao mesmo tempo, eu senti uma coisa que eu não deveria sentir: reconhecimento.
8
20 de dezembro de 2025 — Diário 138
Hoje foi diferente. Hoje eu toquei nela primeiro.
Eu nem percebi que fiz isso. Estávamos conversando, e uma mecha do cabelo dela
caiu sobre o rosto. Sem pensar, minha mão se levantou e afastou. Só isso. Um
movimento pequeno, quase insignificante. Mas o efeito… Ayame ficou imóvel, os
olhos abertos demais, respiração presa. Era como se eu tivesse atingido algo
profundo nela.
“Não faz isso sem aviso,” ela murmurou, a voz quase quebrando. “Eu sinto demais.”
Eu deveria ter pedido desculpas. Eu deveria ter recuado. Mas minha mão ficou ali
por um segundo a mais do que o necessário. Era como tocar fogo. Fogo controlado,
mas intenso.
Ela parecia tremer.
Eu também.
9
21 de dezembro de 2025 — Diário 139
Ayame me levou a um lugar secreto hoje — um terraço alto, com vista para a cidade
inteira. Disse que era onde ela escrevia letras quando precisava “falar com a lua”.
Ficamos ali, sentadas lado a lado, observando os prédios, o vento passando por
entre eles como se estivesse tocando os dois.
Ela falou das músicas que não mostrou a ninguém. Falou dos medos. Falou do peso
de sentir demais. Falou que tem a impressão de que a vida dela sempre esteve
caminhando para encontrar alguma coisa — ou alguém.
Eu não queria perguntar. Mas perguntei:
“E você encontrou?”
Ela virou o rosto na minha direção devagar, como se tivesse medo de se mover
rápido demais. Como se eu fosse quebrar.
“Encontrei.”
Eu não sabia respirar depois disso.
10
22 de dezembro de 2025 — Diário 140
Hoje foi o dia mais estranho e mais… perigoso. Perigoso emocionalmente. Eu
estava treinando cedo quando ouvi passos atrás de mim. Quando virei, era ela. Ela
nunca aparece nos meus horários. Nunca. Mas desta vez parecia que algo a trouxe
até ali.
“Queria ver você,” ela disse simplesmente.
Eu não sabia o que fazer com essa frase. Ayame me observou treinar por quase
quinze minutos, completamente hipnotizada. Em certo momento, quando parei para
respirar, ela falou bem baixo:
“Você é linda quando luta.”
Ninguém nunca disse isso para mim. Ninguém nunca achou beleza em algo que,
para mim, sempre foi sobrevivência, dor, necessidade.
Eu senti algo no peito. Algo que eu neguei imediatamente.
Mas Ayame viu.
Ela sempre vê.
Quando ela se despediu, tocou meu ombro de leve.
Eu senti mais do que deveria.