Aula de Análise Real: Derivadas e Integrais
Aula de Análise Real: Derivadas e Integrais
de
Analise real
13 de novembro de 2025
Sumário
1 Derivada 2
1.1 Noções Iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.2 Derivadas Laterais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.3 Diferenciabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
1.4 Propriedades de simetria e periodicidade da derivada . . . . . . . . . . . . 6
1.5 Derivada de uma função composta (Regra da cadeia) . . . . . . . . . . . . 6
1.6 Derivada da função inversa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.7 Derivada de uma Função Definida Implicitamente . . . . . . . . . . . . . . 8
1.8 Derivada de funções definidas parametricamente . . . . . . . . . . . . . . . 9
1.9 Teorema de Fermat: condição necessária de extremo local . . . . . . . . . . 10
1.10 Pontos críticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.11 Teorema de Rolle . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.12 Teorema de Lagrange . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
2 Integrais 13
2.1 Noções iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1
1 Derivada
1.1 Noções Iniciais
Nesta seção vamos definir os conceitos de derivada e estudar suas propriedades básicas e
consequências de alguns teoremas. Para isso, consideremos a seguinte definição:
Definição 1.1. Seja I ⊂ R um intervalo aberto, f : I → R uma função, a ∈ I ′ ∩ I.
Dizemos que f é derivável em a quando existir o limite
f (x) − f (a)
f ′ (a) = x→a
lim .
x−a
Fazendo a substituição h = x − a, temos
f (a + h) − f (a)
f ′ (a) = lim .
h→0 h
Considere os pontos do gráfico
f (a + h)
f (a)
x
a a+h
2
Definição 1.4 (Derivada à esquerda). Seja f : (c, a] → R. A derivada à esquerda de f
no ponto a é definida por:
f (a + h) − f (a)
f−′ (a) = lim− ,
h→0 h
desde que este limite exista.
Teorema 1.1. Uma função f é derivável em um ponto a se, e somente se, existem as
derivadas laterais f+′ (a) e f−′ (a) e são iguais.
f (a + h) − f (a)
f ′ (a) = lim .
h→0 h
Como o limite existe, os limi tes laterais devem existir e serem iguais:
f (a + h) − f (a) f (a + h) − f (a)
lim+ = lim− = f ′ (a).
h→0 h h→0 h
(⇐) Se existem as derivadas laterais e f+′ (a) = f−′ (a) = L, então para qualquer ϵ > 0,
existem δ1 > 0 e δ2 > 0 tais que:
f (a + h) − f (a)
0 < h < δ1 ⇒ − L < ϵ,
h
f (a + h) − f (a)
− δ2 < h < 0 ⇒ − L < ϵ.
h
f (a + h) − f (a)
0 < |h| < δ ⇒ − L < ϵ,
h
3
(a) Derivada da Soma:
(f + g)(a + h) − (f + g)(a)
(f + g)′ (a) = lim
h→0 h
f (a + h) + g(a + h) − f (a) − g(a)
= lim
h→0 h !
f (a + h) − f (a) g(a + h) − g(a)
= lim +
h→0 h h
f (a + h) − f (a) g(a + h) − g(a)
= lim + lim
h→0 h h→0 h
= f ′ (a) + g ′ (a)
(f · g)(a + h) − (f · g)(a)
(f · g)′ (a) = lim
h→0 h
f (a + h)g(a + h) − f (a)g(a)
= lim
h→0 h
f (a + h)g(a + h) − f (a)g(a + h) + f (a)g(a + h) − f (a)g(a)
= lim
h→0
" h #
f (a + h) − f (a) g(a + h) − g(a)
= lim g(a + h) · + f (a) ·
h→0 h h
! !
f (a + h) − f (a) g(a + h) − g(a)
= lim g(a + h) · lim + f (a) · lim
h→0 h→0 h h→0 h
′ ′
= g(a)f (a) + f (a)g (a)
4
Demonstração. Como f é derivável em x0 , temos que o limite
f (x) − f (x0 )
lim
x→x0 x − x0
existe e é finito.
Assim,
f (x) − f (x0 )
lim f (x) − f (x0 ) = lim (x − x0 ) · = 0 · f ′ (x0 ) = 0.
x→x0 x→x0 x − x0
Logo,
lim f (x) = f (x0 ),
x→x0
1.3 Diferenciabilidade
Definição 1.5. Seja f : X ⊆ R → R e x0 ∈ X ′ ∩ X. Dizemos que f é diferenciável em
x0 se existir uma constante A ∈ R e uma função C tal que, para todo h suficientemente
pequeno com x0 + h ∈ X,
com
lim C(h) = 0.
h→0
5
Então, por definição de derivada,
lim C(h) = 0,
h→0
e podemos escrever
6
Demonstração. Usamos a definição de diferenciabilidade. Como f é diferenciável em x0
e g é diferenciável em y0 , existem funções C(h) e D(k) com h = x − x0 e k = y − y0 , tais
que
f (x0 + h) − f (x0 ) = f ′ (x0 )h + C(h)h, lim C(h) = 0,
h→0
′
g(y0 + k) − g(y0 ) = g (y0 )k + D(k)k, lim D(k) = 0.
k→0
onde
E(h) := g ′ (f (x0 ))C(h) + D(k) f ′ (x0 ) + C(h) .
Como h → 0, temos k → 0 segue que
x = f −1 (y)
∆x = f −1 (y) − f −1 (y0 ) ̸= 0.
7
Usando a relação entre os incrementos:
f −1 (y) − f −1 (y0 ) ∆x x − x0 1
= = = .
y − y0 ∆y f (x) − f (x0 ) f (x)−f (x0 )
x−x0
−1
Portanto, f é diferenciável em y0 e a fórmula está comprovada.
F (x, y) = 0,
em que as soluções y em função de x podem não ser conhecidas de forma explícita. Quando
a resolução direta para y não é possível (ou não é conveniente), a seguinte proposição
fornece um método para determinar a derivada de y em função de x.
Teorema 1.7 (Derivação implícita). Seja F : R2 → R uma função tal que a equação
F (x, y) = 0
Fx (x0 , y0 )
f ′ (x0 ) = − .
Fy (x0 , y0 )
Pela diferenciabilidade de F em relação a cada variável, existem funções α(h) e β(h) tais
que
F (x0 + h, f (x0 + h)) − F (x0 + h, f (x0 )) = Fy (x0 , y0 ) + α(h) f (x0 + h) − f (x0 ) ,
F (x0 + h, f (x0 )) − F (x0 , f (x0 )) = Fx (x0 , y0 ) + β(h) h,
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com limh→0 α(h) = limh→0 β(h) = 0. Além disso, pela continuidade de Fy , tem-se
limh→0 (Fy (x0 + h, y0 ) − Fy (x0 , y0 )) = 0.
Substituindo as expressões anteriores na igualdade inicial, obtém-se:
0 = Fy (x0 , y0 ) + (Fy (x0 + h, y0 ) − Fy (x0 , y0 )) + α(h) f (x0 + h) − f (x0 )
+ Fx (x0 , y0 ) + β(h) h.
x = g(t), y = h(t),
2. g ′ (t0 ) ̸= 0;
dy h′ (t0 )
f ′ (x0 ) = = .
dx x=x0 g ′ (t0 )
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Demonstração. Como g é invertível, podemos escrever t = g −1 (x) próximo de x0 . Então
y = f (x) = h(g −1 (x)).
Pela regra da cadeia:
d
f ′ (x0 ) = h(g −1 (x)) = h′ (t0 ) · (g −1 )′ (x0 ).
dx x=x0
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1.11 Teorema de Rolle
Teorema 1.11 (Rolle). Seja f : [a, b] → R uma função tal que:
3. f (a) = f (b).
f ′ (c) = 0.
Demonstração. Como f é contínua em [a, b], pelo Teorema do Valor Extremo, f atinge
seus valores máximo e mínimo absolutos no intervalo. Se f é constante, então f ′ (x) = 0
para todo x ∈ (a, b), e o resultado segue imediatamente.
Suponha agora que f não seja constante. Nesse caso, o máximo e o mínimo absolutos
não coincidem, e ao menos um deles é atingido em um ponto interior c ∈ (a, b), pois
f (a) = f (b) impede que ambos ocorram apenas nos extremos do intervalo.
Se f atinge um máximo local em c, ou um mínimo local em c, então, pelo Teorema de
Fermat, f ′ (c) = 0. Assim, existe pelo menos um ponto c ∈ (a, b) tal que f ′ (c) = 0.
f (b) − f (a)
f ′ (c) = .
b−a
Demonstração. Definimos a função auxiliar
" #
f (b) − f (a)
h(x) = f (x) − f (a) + (x − a) ,
b−a
isto é, h(x) representa a diferença entre f (x) e a reta secante que passa pelos pontos
Pa = (a, f (a)) e Pb = (b, f (b)).
Como f é contínua em [a, b] e diferenciável em (a, b), o mesmo vale para h(x). Além
disso, h(a) = h(b) = 0.
Pelo Teorema de Rolle, existe c ∈ (a, b) tal que h′ (c) = 0. Calculando a derivada:
f (b) − f (a)
h′ (x) = f ′ (x) − .
b−a
Logo, em x = c,
f (b) − f (a)
f ′ (c) = .
b−a
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Corolário 1.1 (Critério de constância). Uma função f é constante em (a, b) se, e somente
se, f ′ (x) = 0 para todo x ∈ (a, b).
f (x2 ) − f (x1 )
f ′ (c) = .
x2 − x1
Como f ′ (c) = 0, segue que f (x2 ) = f (x1 ). Portanto, f é constante em (a, b).
Demonstração. Definindo h(x) = f (x)−g(x), temos h′ (x) = f ′ (x)−g ′ (x). Assim, f ′ (x) =
g ′ (x) implica h′ (x) = 0 em (a, b), e pelo corolário anterior, h(x) é constante, isto é,
f (x) − g(x) = c. O recíproco é imediato.
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Definamos a função auxiliar g : [a, x] → R por
f ′ (t) f ′′ (t) f (n) (t) (x − t)n+1
g(t) = f (x) − f (t) + (x − t) + (x − t)2 + · · · + (x − t)n + Rn (x) .
1! 2! n! (x − a)n+1
A função g é diferenciável em [a, x] e satisfaz g(a) = g(x) = 0. Logo, pelo Teorema de
Rolle, existe c ∈ (a, x) tal que g ′ (c) = 0. Derivando,
f (n+1) (t) (n + 1)(x − t)n
g ′ (t) = − (x − t)n + Rn (x) .
n! (x − a)n+1
Substituindo t = c e g ′ (c) = 0, obtemos
f (n+1) (c)
Rn (x) = (x − a)n+1 .
(n + 1)!
Substituindo na expressão de f (x), segue a fórmula do Teorema de Taylor.
Teorema 1.15 (Fórmula de Taylor com resto de Peano). Se f admite derivadas até a
ordem n em uma vizinhança de a, então
f ′ (a) f ′′ (a) f (n) (a)
f (x) = f (a) + (x − a) + (x − a)2 + · · · + (x − a)n + o (x − a)n ,
1! 2! n!
quando x → a. O termo o (x − a)n é chamado resto de Peano.
2 Integrais
2.1 Noções iniciais
Definição 2.1. Definimos a partição de [a, b] pelo conjunto
P = {t0 = a, t1 , . . . , tn−1 , tn = b}
onde
t0 < t1 < · · · < tn−1 < tn .
Observação 2.1. Quando temos n subintervalos de mesmo tamanho, dizemos que P é
uma partição regular.
Definição 2.2. Seja f : [a, b] → R uma função limitada e considere uma partição regular
de [a, b] dada por
P = {x0 = a, x1 , . . . , xn = b},
onde todos os subintervalos possuem o mesmo comprimento
b−a
∆x = .
n
Escolhendo em cada subintervalo [xi−1 , xi ] um ponto x∗i tal que
x∗i = a + i ∆x, i = 1, 2, . . . , n,
definimos a soma de Riemann de f associada à partição P por
X
n Z b
lim f (x∗i ) ∆x = f (x)dx.
n→∞ a
i=1
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Observação 2.2. Para a interpretação geométrica vamos a seguinte imagem
y
x
t0 = a t1 t2 t3 ··· tn−1 tn = b
Proposição 2.1. Seja f : [a, b] → R uma função. Se f é integrável em [a, b], então f é
limitada em [a, b].
Demonstração. Por absurdo, suponha que f não seja limitada em [a, b]. Então, para todo
n ∈ N, existe xn ∈ [a, b] tal que
f (xn ) > n.
Mas, por hipótese, f é integrável em [a, b]. Logo, para cada partição P = {t0 , t1 , . . . , tn }
e pontos de amostragem x∗i ∈ [ti−1 , ti ], temos a soma de Riemann
X
n
S(f, P ) = f (x∗i ) ∆ti .
i=1
Como f é não limitada, o lado direito de (1) pode ser arbitrariamente grande. Logo,
as somas de Riemann de f não são limitadas, e portanto não podem convergir para um
número real o que contradiz a suposição de que f é integrável.
Concluímos, portanto, que f deve ser limitada em [a, b].
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Observação 2.3. A recíproca da Proposição 2.1 é falsa.
De fato, considere a função de Dirichlet f : [0, 1] → R definida por
se x ∈ Q,
1,
f (x) =
0, se x ∈
/ Q.
A função f é claramente limitada, pois 0 ≤ f (x) ≤ 1 para todo x ∈ [0, 1]. Seja uma
partição regular de [0, 1] dada por
1
P = {x0 = 0, x1 , . . . , xn = 1}, ∆x = .
n
Escolhendo os pontos de amostragem x∗i = 0 + i∆x = ni , temos x∗i ∈ Q, logo
e portanto
X
n
lim f (x∗i ) ∆x = 1.
n→∞
i=1
Por outro lado, se escolhermos pontos irracionais x∗i em cada subintervalo, então f (x∗i ) = 0
e n X
lim f (x∗i ) ∆x = 0.
n→∞
i=1
Como o limite depende da escolha dos pontos, f não é integrável no sentido de Rie-
mann, portanto, f é limitada mas não integrável, o que prova que a recíproca da
Proposição 2.1 é falsa.
P = {x0 = a, x1 , . . . , xn = b},
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e a integral inferior é o supremo das somas inferiores:
Z b
f (x) dx = sup s(f, P ).
a P
b−a
P = {x0 = a, x1 , . . . , xn = b}, com ∆x = ,
n
e pontos de amostragem x∗i = a + i ∆x, tem-se
X
n
lim f (x∗i ) ∆x = I.
n→∞
i=1
Note que as somas de Darboux correspondem a casos particulares das somas de Rie-
mann, obtidas quando os pontos de amostragem x∗i são escolhidos de modo que
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onde mi = inf x∈[xi−1 ,xi ] f (x) e Mi = supx∈[xi−1 ,xi ] f (x). Portanto,
Z b Z b
f= f = I,
a a
mi ≤ f (ξi ) ≤ Mi ,
Lema 2.1 (Monotonicidade das somas de Darboux). Seja f : [a, b] → R uma função
limitada. Se P ′ é um refinamento de uma partição P , então
Lema 2.3 (Aproximação por Darboux para funções contínuas). Seja f : [a, b] → R uma
função contínua. Para qualquer partição regular
b−a
P = {x0 = a, x1 , . . . , xn = b}, ∆x = ,
n
e quaisquer pontos de amostragem ξi ∈ [xi−1 , xi ], vale a desigualdade:
X
n
s(P, f ) ≤ f (ξi ) ∆x ≤ S(P, f ).
i=1
Teorema 2.2 (Existência da integral para funções contínuas). Seja f : [a, b] → R contínua
em [a, b]. Então f é integrável (no sentido de Riemann/Darboux) em [a, b].
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Demonstração. Como [a, b] é compacto e f é contínua em [a, b], segue que f é uniforme-
mente contínua e limitada em [a, b].
Seja ε > 0. Pela continuidade uniforme existe δ > 0 tal que, para quaisquer x, y ∈
[a, b],
ε
|x − y| < δ =⇒ |f (x) − f (y)| < .
b−a
Escolha então uma partição qualquer
Portanto existe uma partição P (com todos os ∆xi < δ) tal que a diferença entre a
soma superior e a soma inferior é menor que ε:
Como isso é válido para todo ε > 0, segue que o ínfimo das somas superiores e o supremo
das somas inferiores coincidem:
Pela definição de Darboux, isto significa que f é integrável em [a, b]. (Pelo teorema de
equivalência, f também é integrável no sentido das somas de Riemann.)
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