ANÁLISE DE ASSINATURA ELÉTRICA (ESA - ELECTRICAL
SIGNATURE ANALYSIS)
1. INTRODUÇÃO
A Análise de Assinatura Elétrica (ESA - Electrical Signature Analysis) é uma técnica
de Ensaio Não Destrutivo (END) utilizada para monitoramento de condição e
diagnóstico de máquinas rotativas, permitindo detecção precoce de falhas através
da análise de sinais elétricos de corrente e tensão. A importância desta técnica no
contexto industrial atual é evidenciada pelos custos associados ao tempo de
inatividade não planejado, que custam às indústrias bilhões anualmente,
perturbando operações e afetando a rentabilidade (SAMOTICS, 2025).
Segundo a ABENDI (Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos e Inspeção), os
END são técnicas utilizadas na inspeção de materiais e equipamentos sem danificá-
los, sendo executadas nas etapas de fabricação, construção, montagem e
manutenção. Os END estão entre as principais ferramentas do controle de
qualidade, sendo amplamente utilizados nos setores de petróleo/petroquímico,
químico, aeroespacial, siderúrgico, naval, eletromecânico e papel e celulose,
contribuindo para a qualidade dos bens e serviços, redução de custos e preservação
da vida e do meio ambiente (ABENDI, 2024).
O desenvolvimento da ESA remonta a 1985, quando o Oak Ridge National
Laboratory desenvolveu a Motor Current Signature Analysis (MCSA) para monitorar
de forma não intrusiva válvulas operadas por motor em usinas nucleares,
transformando a detecção de falhas em operações críticas ao permitir a coleta de
dados do motor em tempo real. Ao longo dos anos 1990, a técnica evoluiu para
incluir monitoramento de tensão e potência, expandindo suas capacidades para
bombas, compressores e outros equipamentos rotativos (SAMOTICS, 2025).
Atualmente, a técnica é padronizada pela norma ISO 20958:2013, que estabelece
diretrizes para monitoramento e diagnóstico de motores de indução trifásicos.
Este trabalho apresenta uma análise técnica sobre a ESA, abordando seus princípios
físicos de funcionamento, limitações técnicas, exemplos práticos de aplicação
documentados na literatura científica e sua integração com metodologias de análise
de falhas em equipamentos industriais.
2. PRINCÍPIO FÍSICO DA ANÁLISE DE ASSINATURA ELÉTRICA
2.1 Fundamentos Teóricos e Conceito de Motor como Transdutor
A ESA baseia-se no princípio fundamental de que equipamentos elétricos,
especialmente motores de indução, atuam como transdutores naturais que refletem
em seus sinais elétricos as condições operacionais tanto do próprio motor quanto da
carga acionada. Este conceito foi estabelecido por Howard Haynes, considerado o
pai da ESA moderna, que em 1989 definiu a técnica como métodos inovadores de
condicionamento de sinal e análise de assinatura que exploram as habilidades
intrínsecas de motores e geradores elétricos convencionais de atuar como
transdutores (PENROSE, 2025).
O mecanismo físico funciona da seguinte forma: quando ocorrem falhas mecânicas
(como desgaste de rolamentos, desalinhamento de eixos, cavitação em bombas) ou
falhas elétricas (como barras de rotor quebradas, curtos no estator), estas causam
perturbações no campo magnético do motor. Como a corrente e tensão estão
intimamente relacionadas com o campo magnético através das leis de indução
eletromagnética, essas perturbações manifestam-se como alterações nos sinais
elétricos que podem ser detectadas e analisadas. AMS Corporation (2025) define a
ESA como um teste não invasivo e remoto que fornece informações sobre a saúde
de equipamentos rotativos, podendo identificar problemas em componentes
incluindo rolamentos, enrolamentos, barras de rotor, laminações, qualidade de
energia e caixas de engrenagens.
A grande vantagem desta abordagem é que diferentemente de sistemas de
monitoramento de vibração que requerem sensores instalados diretamente no
equipamento, a ESA monitora remotamente através de sensores instalados no
quadro elétrico (MCC - Motor Control Center). EE Times (2022) descreve que a ESA é
remota, não intrusiva e invisível ao equipamento monitorado, com aquisição de
dados levando menos de dois minutos por motor, sendo possível o monitoramento
contínuo baseado em rede local (LAN).
2.2 Processo de Aquisição de Dados
O processo de aquisição de dados na ESA inicia-se com a instalação de sensores no
quadro de controle do motor, onde podem captar continuamente dados elétricos de
alta frequência da máquina. ALL-TEST Pro (2025) especifica que a ESA captura
dados das três fases de tensão e corrente simultaneamente, registrando 50
milissegundos de formas de onda para todas as três fases, armazenando e exibindo
essas informações como gráficos baseados em tempo.
A coleta utiliza transformadores de corrente tipo alicate instalados ao redor de um
cabo de alimentação do motor ou ao redor do lado secundário de um transformador
de corrente (CT), conforme especificado pela ISO 20958 (2013) e ilustrado na Figura
1. Para tensão, são utilizados divisores de tensão. Todos os sistemas ESA requerem
informações da placa de identificação do motor: tensão, velocidade de operação,
corrente de plena carga e potência, sendo que informações opcionais como
contagem de barras do rotor, ranhuras do estator e números de rolamentos podem
ser introduzidas para análise mais detalhada e precisa (ALL-TEST PRO PORTUGAL,
2024).
Figura 1 – Instalação de sensores ESA no motor de indução
Fonte: ISO 20958, 2013
2.3 Transformada Rápida de Fourier e Análise no Domínio da Frequência
O algoritmo fundamental na ESA é a Transformada Rápida de Fourier (FFT), que
converte dados do domínio do tempo para o domínio da frequência, revelando a
assinatura de frequência da máquina, um mapa detalhado de seu estado
operacional. A Transformada de Fourier é uma operação matemática que decompõe
um sinal temporal em suas componentes de frequência, permitindo identificar quais
frequências estão presentes no sinal e com que amplitude (SAMOTICS, 2025).
No contexto da ESA, esta transformação é essencial porque diferentes tipos de
falhas geram padrões característicos em frequências específicas. Por exemplo,
barras de rotor quebradas
causam modulação da corrente que aparece como bandas laterais ao redor da
frequência da rede elétrica, espaçadas pela frequência de escorregamento
multiplicada por dois. Defeitos em rolamentos geram componentes em frequências
calculadas pelas características geométricas do rolamento multiplicadas pela
velocidade de rotação: frequência de gaiola, frequência de passagem de esfera pela
pista interna (BPFI), frequência de passagem pela pista externa (BPFO) e frequência
de rotação de esfera (BSF).
ALL-TEST Pro Portugal (2024) explica que uma FFT é utilizada para criar a
visualização espectral, e algoritmos proprietários realizam análise espectral em
formas de onda de tensão e corrente para detectar falhas relacionadas à potência
de entrada, circuito de controle, motor propriamente dito ou carga acionada. O
software de análise ESA exibe os resultados da FFT para tensão e corrente lado a
lado, facilitando a comparação e identificação da origem do problema.
2.4 Diferencial entre ESA e MCSA
Uma distinção fundamental que aumenta significativamente a capacidade
diagnóstica é a diferença entre Motor Current Signature Analysis (MCSA) e ESA. A
MCSA, técnica precursora, analisa apenas a forma de onda de corrente, enquanto a
ESA utiliza dados de tensão e corrente simultaneamente. Esta abordagem de dupla
entrada permite à ESA determinar com mais precisão se uma falha se origina da
fonte de energia ou de dentro do sistema motor-carga (ALL-TEST PRO, 2025).
Penrose (2025) esclarece que a ISO 20958:2013 define Current Signature Analysis
como "análise espectral realizada na corrente de linha para o motor para determinar
se há correntes em frequências específicas que podem indicar defeitos de
componentes", enquanto a ESA combina dados de tensão e corrente, fornecendo
análise espectral detalhada de ambos além de outros cálculos como torque de
entreferro e potência. O critério de diagnóstico diferencial é direto: se o pico
espectral for dominante nos espectros de tensão, a fonte do problema está
chegando ao motor pela alimentação elétrica; se o pico for dominante nos espectros
de corrente, a fonte está relacionada ao motor ou à carga acionada.
3. LIMITAÇÕES DA TÉCNICA
Apesar de suas vantagens significativas, a ESA apresenta limitações técnicas que
devem ser consideradas em sua aplicação prática. A compreensão dessas limitações
é fundamental para a interpretação correta dos resultados e para definição
adequada de estratégias de monitoramento.
3.1 Necessidade de Linha de Base e Monitoramento de Tendências
Uma das principais limitações da ESA relaciona-se à necessidade de estabelecer
linhas de base de referência para comparação. EE Times (2022) observa que a ESA
é ainda mais útil para rastreamento de tendências de operação do motor porque,
em alguns casos, a assinatura de linha de base do motor pode não ser conhecida,
tornando um teste único raramente capaz de fornecer os dados ideais que um
engenheiro de manutenção preditiva necessita. O rastreamento de tendências
fornece indicação de quão rapidamente uma condição do motor está mudando.
A norma enfatiza que testes ao longo de várias semanas ou meses confirmarão se o
rotor está estável e não está mudando. Um aspecto importante é que o número de
partidas e paradas que um motor experimenta é muito relevante em relação a
mudanças no rotor: um motor com ciclo de trabalho liga-desliga alto tem muito mais
probabilidade de mostrar degradação rápida do rotor do que um motor que funciona
constantemente (EE TIMES, 2022). Portanto, a frequência de monitoramento deve
ser ajustada ao perfil operacional do equipamento.
3.2 Complexidade em Equipamentos Específicos
Uma limitação específica ocorre em máquinas síncronas de dois polos, onde o
diagnóstico de falhas torna-se mais complexo. IEEE (2017) documenta que no caso
específico de máquinas síncronas de dois polos, a frequência de rotação é igual à
frequência da linha, fazendo com que os padrões de falha da ESA coincidam com os
harmônicos da rede, sendo necessário distinguir o efeito dos harmônicos da rede
das falhas internas da máquina para obter diagnóstico confiável. Esta sobreposição
de frequências requer análise mais sofisticada e experiência do analista.
3.3 Interferências e Artefatos Espectrais
A presença de múltiplos acionamentos de frequência variável (VFDs) e outras fontes
de harmônicos na rede elétrica pode gerar artefatos espectrais que dificultam
significativamente a análise. Penrose (2025) relata em estudo de caso que quando a
fonte de energia possui número considerável de harmônicos presentes de
inversores próximos, o resultado são artefatos espectrais no espectro de frequência,
com picos que não correspondem a falhas reais mas sim a interferências elétricas.
ALL-TEST Pro Portugal (2023) adiciona que ondulação excessiva na forma de onda
de tensão indica capacitores em falha em acionamentos de motor modulados por
largura de pulso (PWM), exemplificando como problemas de qualidade de energia
podem tanto afetar as medições quanto danificar o motor. Em um caso
documentado, o motor alimentado por VFD estava sendo destruído devido à
ondulação de alta frequência sobreposta à frequência de linha, com o espectro
mostrando pico em 52 Hz (frequência de saída do inversor) e grande número de
picos próximos a 2975 Hz (frequência de chaveamento do VFD) (EE TIMES, 2022).
Figura 2 – Artefatos espectrais causados por VFD
Fonte: [Link]
A Figura 2 mostra o espectro de corrente de um VFD, evidenciando os picos relacionados à
frequência fundamental e à frequência de chaveamento. Observa-se inicialmente o pico em 52 Hz,
correspondente à frequência de saída do inversor. Em seguida, nota-se o grande número de picos
próximos de 2975 Hz, decorrentes da frequência de chaveamento do VFD. Nesse caso, o motor
alimentado por esse inversor encontrava-se em processo de degradação devido ao elevado ripple
de alta frequência superposto à frequência fundamental.
3.4 Requisitos de Interpretação Especializada
A análise dos espectros de frequência e identificação de padrões específicos de falha
requerem conhecimento técnico especializado. ISO 20958 (2013) estabelece que a
separação de correntes que fluem através do estator para acionar o rotor das
correntes que o rotor induz de volta no estator quando há problema é realizada
medindo componentes de corrente em frequências diferentes da frequência de
alimentação, usando análise de espectro de alta resolução, o que requer expertise
significativa. A ABENDI (2024) reforça que para obtenção de resultados satisfatórios
e válidos em END, devem ser considerados elementos fundamentais: pessoal
treinado, qualificado e certificado; equipamentos calibrados; e procedimentos de
execução de ensaios qualificados com base em normas e critérios de aceitação
previamente definidos.
4. EXEMPLOS DE APLICAÇÃO PRÁTICA
4.1 Caso 1: Detecção de Barras de Rotor Quebradas em Bombas Municipais
ALL-TEST Pro (2022) documenta caso exemplar que demonstra a superioridade da
ESA sobre análise de vibração em certas aplicações. O Departamento de Serviços de
Utilidades da Cidade de Henderson, Nevada, EUA, identificou modulação de corrente
em dois motores de bomba de turbina vertical (Bomba 1 e Bomba 5) através de
testes de rotor extensivos usando o equipamento ALL-TEST IV PRO, realizando
leituras a cada 5 graus de rotação do eixo. Embora os testes indicassem
possibilidade de problema no rotor, os resultados não mostravam o problema
definitivamente.
A equipe de manutenção solicitou análise de vibração de terceiros para
confirmação. Contudo, quando a análise de vibração não indicou quaisquer falhas
elétricas (bandas laterais de frequência de passagem de polo) nas assinaturas FFT
de vibração associadas, a decisão foi trazer suporte técnico da ALL-TEST Pro para
realizar testes adicionais com ESA. Esta limitação da vibração é comum em bombas
verticais devido à configuração mecânica do equipamento.
William Kruger, Gerente Técnico e de Treinamento da ALL-TEST Pro, realizou Análise
de Assinatura Elétrica usando o equipamento ALL-TEST PRO On-Line II (ATPOL II). A
ESA revelou resultados contundentes: a Bomba 1 apresentou classificação de
severidade 6 de 7, e a Bomba 5 severidade máxima de 7 de 7. Os dados ESA
indicaram claramente que várias barras do rotor estavam quebradas, com picos
espectrais característicos em frequências de passagem de polo ao redor da
frequência de linha de 59,97 Hz. O sistema ATPOL II também mostrou que a Bomba
1 operava com demanda de potência de 738,98 HP (507,95 kW) com carga de
100,7%, e a Bomba 5 com 726,96 HP (495 kW) e carga de 99,1%.
A Figura 3 apresenta os espectros de corrente obtidos pela ESA, onde é possível
observar claramente as bandas laterais características de barras de rotor
quebradas. No espectro superior, nota-se a forma de onda de corrente com
modulação evidente. No espectro inferior, os picos marcados em vermelho indicam
as frequências de passagem de polo amplificadas ao redor da frequência
fundamental de 59,97 Hz, confirmando a presença de múltiplas barras quebradas.
Figura 3 – Espectros ESA mostrando barras do rotor quebradas
Fonte: ALL-TEST Pro (2022), Figure 3 - Case Study disponível em
[Link]
pump-motors-in-municipal-application
Quando o Motor 5 foi removido para inspeção física, a análise ESA foi completamente
confirmada: 30% das barras do rotor estavam de fato quebradas. O relatório técnico
explica o mecanismo de falha: ao longo do tempo, a barra de rotor de alumínio se
quebra sob tensão, então ocorre arco elétrico no local da quebra. As correntes são
então forçadas através das barras restantes, colocando mais carga sobre elas e
causando mais barras quebradas, enfraquecendo progressivamente a resistência de
todo o rotor (ALL-TEST Pro, 2022).
Esta condição teria eventualmente causado curto no enrolamento do estator devido
ao aumento de temperatura operacional ou arco de metal do rotor, resultando na
necessidade de rebobinamento ou possível sucateamento do motor inteiro, além do
reparo ou substituição do rotor. Os motores foram reconstruídos com barras de rotor
de cobre, permitindo à equipe de manutenção evitar falha catastrófica dos
motores de bomba de turbina vertical. Após reconstrução e instalação do Motor
5 em maio de 2015, outra rodada de testes ESA foi realizada imediatamente para
garantir operação adequada, com as assinaturas elétricas relatando excelente
condição do rotor.
4.2 Caso 2: Verificação de Qualidade de Instalação em Gerador Eólico
Penrose (2024) documenta caso envolvendo um gerador de indução duplamente
alimentado (DFIG) de 690 Volts, 1,6 megawatt (MW), 6 polos operando a 1200 RPM
em turbina eólica, demonstrando a aplicação de ESA para verificação de qualidade
de instalação de componentes e monitoramento em locais de difícil acesso. O
rolamento de extremidade de acionamento (drive end - DE) original, modelo 6330M
com pista externa revestida com cerâmica para proteção contra correntes de eixo,
foi substituído devido a falha.
Após instalação do novo rolamento DE pela empresa de serviço, dados ESA foram
coletados usando o sistema EMPATH para verificar a qualidade da instalação. A
análise revelou defeito no rolamento recém-instalado, além de identificar condições
adicionais no sistema que não haviam sido detectadas anteriormente. Os dados
mostraram assinaturas de defeito de rolamento em frequências características
calculadas para aquele modelo específico: frequência de esfera a 107,8 Hz,
frequência de pista externa a 132,4 Hz, e frequência de pista interna a 169,2 Hz. O
autor explica que na ESA e MCSA, defeitos de rolamento aparecem como 1X as
assinaturas de defeito de rolamento, diferente da vibração onde pode haver
harmônicos, sendo normal procurar apenas o componente de rolamento vezes
velocidade de rotação, buscando-se 3-5 dB acima do piso de ruído para detecção
precoce (PENROSE, 2024).
A Figura 4 mostra os espectros ESA de alta frequência obtidos antes (painel
superior) e depois (painel inferior) da substituição do rolamento. No painel superior,
as setas indicam os picos nas frequências características de defeito: 107,8 Hz
(frequência de esfera), 132,4 Hz (frequência de pista externa) e 169,2 Hz
(frequência de pista interna), confirmando o defeito no rolamento recém-instalado.
Figura 4 – Assinaturas de defeito de rolamento em gerador eólico
Fonte: Penrose (2024), Figure 10 - Reliam Magazine, disponível em
[Link]
Adicionalmente, a ESA identificou defeitos em engrenagens planetárias da caixa de
redução entre planeta e anel, atribuídos ao carregamento desequilibrado das
engrenagens planetárias e desalinhamento entre o portador e eixo principal,
condições que eventualmente causariam falha das engrenagens associadas. Um
aspecto importante é que os dados foram coletados na base da torre eólica, sem
necessidade de subida vertical de aproximadamente 90 metros (300 pés) para
teste, demonstrando a praticidade do monitoramento remoto da ESA em aplicações
de difícil acesso.
O rolamento defeituoso foi substituído e dados finais de ESA foram coletados e
comparados aos dados originais, com testes antes e depois realizados na mesma
velocidade e carga para comparação válida. A detecção do defeito durante
momento conveniente para o proprietário do local e bem antes de falha catastrófica
permitiu à empresa de serviço realizar correção menos custosa e não contenciosa,
beneficiando-se da garantia do fabricante do rolamento. O fabricante concordou em
liberar o rolamento para estudo, beneficiando a empresa de rolamentos, empresa
de serviço e proprietário do local (PENROSE, 2024).
5. RELAÇÃO COM ANÁLISE DE FALHAS
5.1 ESA na Manutenção Preditiva e Detecção Precoce
A ESA constitui ferramenta fundamental para análise de falhas, integrando-se às
metodologias modernas de manutenção preditiva e engenharia de confiabilidade.
Artesis (2025) posiciona a ESA como técnica que desempenha papel vital em
manutenção preditiva ao oferecer abordagem proativa para gestão de
equipamentos. Ao monitorar continuamente sinais elétricos, a ESA pode detectar
falhas precocemente, reduzir tempo de inatividade e melhorar confiabilidade do
equipamento. A mudança de manutenção reativa para proativa, possibilitada por
técnicas como ESA, pode aumentar grandemente eficiência e gestão de recursos,
focando na condição real do equipamento ao invés de confiar em cronogramas
arbitrários.
Uma das principais vantagens da ESA no contexto de análise de falhas é sua
capacidade de detectar problemas em estágio inicial. Artesis (2025) enfatiza que
problemas como desalinhamento, desgaste de rolamentos e desequilíbrios elétricos
frequentemente começam sutilmente, com métodos tradicionais de manutenção
podendo perder esses sinais precoces, levando a quebras súbitas. Samotics (2025)
quantifica esta vantagem observando que a ESA é particularmente eficaz na
detecção de falhas elétricas, que representam cerca de 30% das falhas de motores
em aplicações industriais, com problemas elétricos tendo impacto direto no campo
magnético da máquina.
5.2 Taxonomia de Falhas Detectáveis
A técnica permite identificação sistemática de três categorias principais de problemas:
Falhas Elétricas: AMS Corporation (2025) lista problemas elétricos detectáveis incluindo
rolamentos, enrolamentos, barras de rotor, laminações do rotor e estator, qualidade
de energia, caixas de engrenagens e anéis wye. Especificamente, Samotics (2025)
detalha que barras de rotor quebradas causam desequilíbrios no campo magnético
do motor, detectados pela ESA através de irregularidades na assinatura elétrica
manifestando-se como bandas laterais de frequência de passagem de polo ao redor
da frequência de linha. Falhas no estator, incluindo problemas de isolamento de
enrolamento ou curtos-circuitos, podem ser detectadas antes de escalarem,
identificando curtos através de análise de componentes de frequência específicas.
Correntes parasitas em rolamentos, que em certos cenários podem levar a
superaquecimento e desgaste prematuro, são detectadas precocemente pela ESA.
Falhas Mecânicas: Embora problemas mecânicos sejam tradicionalmente domínio da
análise de vibração, a ESA demonstra capacidade significativa nesta área. Samotics
(2025) explica que problemas mecânicos como desgaste de rolamentos,
acoplamentos desalinhados ou cavitação de bombas causam mudanças sutis na
operação do motor, afetando o campo magnético e, consequentemente, a
assinatura elétrica da máquina. Para defeitos em rolamentos, a ESA detecta
aumento de energia em quatro frequências associadas às características físicas:
frequência fundamental de gaiola (cage frequency), frequência de passagem de
esfera na pista interna (BPFI), frequência de passagem na pista externa (BPFO) e
frequência de rotação de esfera (BSF). Além de rolamentos, a técnica detecta
desalinhamento, desbalanceamento e problemas em engrenagens.
Qualidade de Energia: EE Times (2022) destaca que a fonte de alimentação, variador de
frequência ou energia vinda do barramento são componentes importantes do
sistema de acionamento de carga. Em alguns casos, a fonte de alimentação
contribui para problemas experimentados pelo motor, com ESA diagnosticando
problemas na fonte de alimentação e fornecendo insight sobre causa raiz de
problemas de motor não obtíveis por outras técnicas de análise. Isto inclui
desequilíbrio de tensão, distorção harmônica e problemas em inversores de
frequência que podem estar danificando o motor.
5.3 Metodologia Sistemática e Integração com Outras Técnicas
A aplicação de ESA em análise de falhas segue metodologia estruturada. O primeiro
passo é estabelecimento de assinatura de linha de base do equipamento em
condição operacional saudável, servindo como referência para comparações futuras.
O acompanhamento periódico permite identificar taxas de degradação: se indicação
de degradação de rotor aparece, pode não estar claro em um teste quão
rapidamente o circuito do rotor está se degradando, mas testes ao longo de várias
semanas ou meses confirmarão se o rotor está estável ou mudando (EE TIMES,
2022).
A análise simultânea de tensão e corrente permite diagnóstico diferencial da origem
da falha. ALL-TEST Pro (2025) explica que comparando espectros FFT de tensão e
corrente, é possível determinar a origem: se o pico for dominante nos espectros de
tensão, a fonte está chegando ao motor pela alimentação; se o pico for dominante
nos espectros de corrente, a fonte está relacionada ao motor ou carga. Esta
capacidade de localização da origem da falha é um diferencial importante da ESA
sobre MCSA.
A máxima eficácia em análise de falhas é alcançada através da integração de
múltiplas técnicas de END. A ABENDI (2024) lista principais técnicas incluindo ensaio
visual, líquidos penetrantes, partículas magnéticas, ensaio radiográfico, ultrassom e
teste de estanqueidade. No contexto de máquinas rotativas, THE RAM REVIEW
(2021) demonstra que a combinação de ESA com amplificação de movimento
(extensão de análise de vibração) fornece confirmação cruzada de diagnósticos.
Enquanto vibração mede diretamente fenômenos mecânicos, ESA detecta reflexos
elétricos desses fenômenos, com a convergência de ambas técnicas aumentando
confiança no diagnóstico. Sensemore (2024) observa que alguns tipos de falhas são
melhor detectados por vibração, outros por ESA, citando que ESA é usada na
detecção de falha de barra quebrada (a falha de rotor mais comum) e pode ser
alternativa à análise de vibração para falhas de desalinhamento.
A ESA contribui significativamente para análises de causa raiz de falhas ao fornecer:
(a) dados históricos - registros de tendências que permitem reconstruir progressão
da falha; (b) identificação de modos de falha - padrões espectrais característicos
que identificam modo específico de falha; (c) correlação de eventos - capacidade de
correlacionar início de anomalias elétricas com eventos operacionais como
mudanças de carga, partidas frequentes ou problemas de qualidade de energia; e
(d) quantificação de severidade - métricas objetivas como classificações de
severidade de 1-7 documentadas nos casos práticos que permitem priorização de
intervenções.
6. CONCLUSÃO
A Análise de Assinatura Elétrica consolida-se como técnica fundamental de Ensaio Não
Destrutivo para monitoramento de condição e análise de falhas em máquinas
rotativas. Os princípios físicos da técnica, baseados na utilização do motor como
transdutor natural que reflete condições operacionais em seus sinais elétricos,
combinados com processamento via Transformada Rápida de Fourier, permitem
detecção remota e não invasiva de ampla gama de falhas elétricas e mecânicas.
As limitações identificadas - necessidade de estabelecimento de linhas de base,
complexidades em máquinas específicas, interferências harmônicas e requisitos de
interpretação especializada
- não diminuem o valor da técnica mas destacam a importância de aplicação criteriosa
e integração com outras metodologias de END. A padronização estabelecida pela
ISO 20958:2013 fornece framework robusto para aplicação consistente e confiável.
Os casos práticos apresentados demonstram inequivocamente a eficácia da ESA em
prevenir falhas catastróficas, permitindo intervenções planejadas que resultam em
economia significativa. A capacidade de detectar 30% de barras de rotor quebradas
em bombas municipais onde análise de vibração falhou, e verificar qualidade de
instalação em geradores eólicos de difícil acesso, exemplificam versatilidade e valor
prático da técnica.
A relação da ESA com análise de falhas transcende simples detecção, proporcionando
capacidade de diagnóstico diferencial através da análise simultânea de tensão e
corrente, monitoramento de tendências para prognóstico, e análise de causa raiz
através de correlação com eventos operacionais. A integração com outras técnicas
de END, particularmente análise de vibração e termografia, maximiza eficácia
diagnóstica e confiabilidade do diagnóstico.
No contexto brasileiro, a ABENDI desempenha papel crucial na difusão e padronização
de técnicas de END, incluindo ESA. A crescente adoção de manutenção preditiva
baseada em condição, impulsionada por conceitos de Indústria 4.0 e integração com
Internet Industrial das Coisas (IIoT) e inteligência artificial, posiciona a ESA como
ferramenta estratégica para competitividade industrial. A ESA representa evolução
significativa em END para máquinas rotativas, oferecendo combinação única de
características - monitoramento remoto, detecção precoce, aplicabilidade em
ambientes perigosos, capacidade de diagnóstico diferencial - que a posicionam
como ferramenta indispensável em programas modernos de manutenção preditiva e
análise de falhas.
REFERÊNCIAS
ABENDI - Associação Brasileira de Ensaios Não Destrutivos e Inspeção. Ensaios não
destrutivos e inspeção. Disponível
em: [Link]
mn=709&c;=17&s;=. Acesso em: 20 nov. 2024.
ALL-TEST PRO. Electrical Signature Analysis Equipment. Disponível em:
[Link] Acesso em: 29 maio 2025.
ALL-TEST PRO. Electrical Signature Analysis Performed on Vertical Turbine Pump Motors in
Municipal Application. Disponível em: [Link]
electric al-signature-analysis-performed-on-vertical-turbine-pump-motors-in-
municipal-application/.
Acesso em: 18 ago. 2022.
ALL-TEST PRO PORTUGAL. Equipamento de Análise de Assinaturas Eléctricas.
Disponível em: [Link] Acesso em: 8
mar. 2024.
ALL-TEST PRO PORTUGAL. Teste online de motores com análise de assinaturas
eléctricas. Disponível
em: [Link]
de-motores-com-analise-de-assinaturas-electricas/.
Acesso em: 16 ago. 2023.
AMS CORPORATION. Electrical Signature Analysis (ESA) For Motor and Generator
Diagnostics. Disponível em: [Link] Acesso em: 23 jun.
2025.
ARTESIS. Importance of Electrical Signature Analysis in Predictive Maintenance.
Disponível em: [Link] Acesso em: 7 ago.
2025.
EE TIMES. Electrical Signature Analysis (ESA). Disponível em:
[Link] Acesso em: 27 out. 2022.
IEEE. A study of electrical signature analysis for two-pole synchronous generators. IEEE
Conference Publication, 2017. Disponível em:
[Link] Acesso em: 20 nov. 2024.
ISO - INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 20958:2013
-
Condition monitoring and diagnostics of machine systems — Electrical signature
analysis of three-phase induction motors. Geneva: ISO, 2013.
PENROSE, Howard W. ESA vs MCSA: How Do They Compare in Electric Motor
Diagnostics? Reliam Magazine, 2 fev. 2025. Disponível em:
[Link] Acesso em: 20 nov. 2024.
PENROSE, Howard W. Electrical Signature Analysis Case Studies: From Detection to
Resolution. Reliam Magazine, 30 dez. 2024. Disponível em:
[Link] Acesso em:
20 nov. 2024.
SAMOTICS. Electrical Signature Analysis Explained (The Right Way). Disponível em:
[Link] Acesso em: 31 mar. 2025.
SENSEMORE. Predictive Maintenance with Electrical Signature Analysis (ESA).
Disponível em: [Link]
signature-analysis/. Acesso em: 6 jun. 2024.
THE RAM REVIEW. Multi-Technology Testing Case Study 1: Electrical Signature Analysis
And Motion Amplification. Disponível em: [Link]
testing-c ase-study-1-electrical-signature-analysis-motion-amplification/. Acesso em:
20 nov. 2021.