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Revue franco-brésilienne de géographie / Revista franco-brasilera de geografia
5 | 2009
Número 5
Mapas, saber e poder
In Peter GOULD e Antoine BAILLY, « Le pouvoir des cartes et la
cartographie », Paris, Antropos, 1995, p. 19-51. Traduzido
por Mônica Balestrin Nunes
Cartes, savoir et pouvoir
BRIAN HARLEY
[Link]
Notas da redacção
Ensaio publicado com o título, Maps, knowledge and Power In The iconography of landscape :
Essays on the symbolic representation, design and use of past environnements, sob a direção
de Denis Cosgrove e Stephen Daniels (New York : Cambridge University Press, 1988).
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Dê-me um mapa; depois mostre-me
Tudo
JOURNALS resta para conquistar o mundo ...
o que me
Aqui, eu comecei a andar em direção à Pérsia,
Ao longo da Armênia e do mar Cáspio,
Depois até a Bitínia onde eu fiz prisioneiros
Os Turcos e sua grande Imperatriz.
Depois eu andei até o Egito e a Arábia,
E aqui, não distante de Alexandria,
Onde o Mediterrâneo e o Mar Vermelho se encontram,
Distantes um do outro menos de cem léguas,
Eu pretendo abrir um canal entre os dois
Para que os homens possam navegar rapidamente em direção à Índia.
Depois, de lá, em direção à Núbia perto do lago Borno,
E ao longo do mar da Etiópia,
Cortando o trópico de Capricórnio,
Eu conquistei tudo até Zanzibar.
Christopher Marlowe,Tamburlaine, Segunda parte ([Link] 123-139)
1 Um livro sobre o conjunto de imagens geográficas que não incluísse o mapa
pareceria um Hamlet sem o Príncipe. Entretanto, ainda que os mapas estejam há
muito tempo no centro dos discursos sobre a geografia, raramente eles são lidos
como textos “ profundos “1ou como formas de saber socialmente construídas. “ A
interpretação dos mapas “implica habitualmente o estudo de suas “ características
geográficas ” sem indicar como, enquanto forma manipulada do saber, eles
contribuíram para moldar estas características. Certamente, na geografia política e
história do pensamento geográfico, vinculam-se cada vez mais os mapas e o poder,
sobretudo nos períodos de história colonial. Mas o papel particular dos mapas, como
imagens ligadas a contextos históricos precisos, quase não se sobressai do discurso
geográfico no qual eles estão inseridos. O que falta, é o sentimento do que Carl Sauer2
chamava de eloqüência dos mapas. O que podemos fazer para que os mapas “ falem ”
dos mundos sociais do passado?
Perspectivas teóricas
2 Inicio por explorar o discurso dos mapas no poder político, e minha linha de estudo
é preponderantemente iconológica. Os mapas serão considerados como parte
integrante da família mais abrangente das imagens carregadas de um juízo de valor,
deixando de ser percebidos essencialmente como levantamentos inertes de paisagens
morfológicas ou como reflexos passivos do mundo dos objetos. Eles são considerados
imagens que contribuem para o diálogo num mundo socialmente construído. Nós
distinguimos assim a leitura dos mapas dos cânones da crítica cartográfica
tradicional e de seu rosário de oposições binárias entre mapas “ verdadeiros e
falsos ”, “ exatos e inexatos ”, “ objetivos e subjetivos ”, “ literais e simbólicos ”,
baseados na “ integridade científica ” ou marcados por uma “ deformação
ideológica ”. Os mapas nunca são imagens isentas de juízo de valor e, salvo no sentido
euclidiano mais estrito, eles não são por eles mesmos nem verdadeiros nem falsos.
Pela seletividade de seu conteúdo e por seus símbolos e estilos de representação, os
mapas são um meio de imaginar, articular e estruturar o mundo dos homens.
Aceitando-se tais premissas, torna-se mais fácil compreender a que ponto eles se
prestam às manipulações por parte dos poderosos na sociedade.
3 Nesta paisagem conceitual, eu apontaria três pontos de vista que permitem
perceber certos contornos ideológicos mais específicos dos mapas. De início, eu
encaro os mapas como uma forma de linguagem (não é vital para a informação que
esta afirmação seja tomada pelo sentido metafórico ou literal)3. O conceito de uma
linguagem cartográfica é preferível àquele originado da semiótica e, embora tenha
atraído alguns cartógrafos, é uma ferramenta muito desgastada para conduzir uma
investigação histórica específica. O conceito de linguagem se traduz mais facilmente
em prática histórica. Ele não apenas nos ajuda a ver nos mapas imagens – espelhos
servindo para intermediar diferentes visões do mundo, mas também nos leva a
procurar dados empíricos sobre aspectos tais como os códigos e o contexto da
cartografia assim como sobre seu conteúdo tomado no sentido tradicional. Uma
linguagem , ou melhor uma “ literatura dos mapas ” nos incita também a formular
questões sobre a evolução dos usuários dos mapas, sobre o nível de familiarização
com eles, sobre sua paternidade, sobre os aspectos atinentes ao segredo e à censura, e
sobre a natureza das informações neles inscritas.
4 Além disso, a crítica literária pode nos ajudar a identificar a forma particular do
discurso cartográfico. O discurso foi definido referindo-se aos aspectos de um texto
que possuem uma carga apreciativa, avaliativa, persuasiva e retórica em oposição
àqueles que tratam somente da denominação, localização e narração. Ao se
demonstrar que o “ simples ” fato de se denominar ou situar um elemento sobre o
mapa possui freqüentemente uma carga política, pode-se todavia aceitar que uma
separação idêntica se aplique aos mapas. Estes últimos formam uma categoria de
imagens retóricas, limitadas pelas regras que regem seus códigos e seus modos
sociais de produção, de troca e de utilização, de tal modo a não importar outra forma
de discurso. Por sua vez, isto nos leva a melhor compreender os mecanismos pelos
quais os mapas, como os livros, tornaram-se uma força política na sociedade4
5 Um segundo ponto de vista teórico foi extraído da formulação que Panofsky nos dá
de iconologia5. Já se tentou estabelecer uma correspondência entre os níveis de
interpretação definidos por Panofsky para a pintura e aqueles que são identificáveis
nos mapas. Neste último caso, pode-se utilizar a iconologia não apenas para
identificar um nível de significação “ superficial ”ou literal, mas também um nível
“ mais profundo ”, geralmente associado à dimensão simbólica do ato que consiste
em emitir ou receber uma mensagem. Um mapa pode carregar em sua imagem um
simbolismo passível de ser associado à zona, à característica geográfica, à cidade ou
ao lugar particular que ele representa. É neste nível simbólico em geral que o poder
político dos mapas é mais eficazmente reproduzido, comunicado e percebido.
6 A terceira perspectiva é extraída da sociologia do conhecimento. Já foi colocada a
idéia de que o conhecimento cartográfico é um produto social, e para esclarecer esta
proposição foram introduzidos neste ensaio dois conjuntos de idéias para sustentar
os exemplos empíricos. O primeiro conjunto foi retirado de Michel Foucault que,
ainda que suas anotações sobre a geografia tenham sido breves6, fornece um modelo
interessante para a história do conhecimento cartográfico em sua crítica da
historiografia.
7 A cartografia pode ser também uma forma de conhecimento e uma forma de poder.
Assim como o historiador pinta a paisagem do passado com as cores do presente, o
geômetra, conscientemente ou não, não reproduz somente o entorno em sentido
abstrato, mas também os imperativos territoriais de um sistema político. Seja o mapa
produzido sob a bandeira da ciência cartográfica, como foram a maior parte dos
mapas oficiais, ou seja um exercício de propaganda declarada, é inevitável que esteja
envolvido no processo do poder. Da mesma forma, pode acontecer que algumas
implicações práticas dos mapas caiam também na categoria que Foucault qualifica
como atos de vigilância, sobretudo aqueles guerra, à propaganda política, à
delimitação de fronteiras ou à preservação da ordem pública.
8 Foucault não é o único a estabelecer uma ligação entre poder e saber. Ao formular
teorias sobre a maneira pela qual os sistemas sociais foram integrados no tempo e no
espaço (sem entretanto mencionar explicitamente os mapas) Anthony Giddens7 se
refere aos “ recursos de autoridade ” (em oposição aos recursos materiais) que o
Estado controla : “ o estoque de recursos de autoridade implica sobretudo a retenção
e o controle da informação e do saber (conhecimento) . Sem dúvida, o evento
decisivo aqui é a invenção da escrita e dos números ”. Os mapas foram uma invenção
similar no controle do espaço ; eles facilitaram a expressão geográfica dos sistemas
sociais e são um meio de consolidar o poder do Estado. Como instrumentos de
vigilância, eles se prestam ao mesmo tempo à coleta de informações pertinentes para
o controle dos cidadãos pelo Estado e à vigilância direta de sua conduta. Nos tempos
modernos, quanto mais a administração do Estado é complexa, mais suas ambições
territoriais e sociais são ampliadas, e maior será sua demanda por mapas.
9 Estas idéias nos ajudam a considerar as imagens cartográficas sob o ângulo de sua
influência política na sociedade. O simples fato que, durante séculos, os mapas
tenham sido classificados como imagens científicas, e que eles sejam ainda colocados
nesta categoria pelos filósofos e semioticistas, torna a tarefa mais difícil. As relações
dialéticas entre imagem e poder não podem ser dissociadas dos procedimentos
destinados a avaliar o conhecimento topográfico bruto dos mapas e não há teste para
verificar suas tendências ideológicas. Compreendidos como saber assimilado a um
poder, os mapas são explorados sob três ângulos : a universalidade dos contextos
políticos na história da cartografia; a maneira pela qual o exercício do poder estrutura
o conteúdo dos mapas, e a maneira pela qual a comunicação cartográfica, num nível
simbólico, pode reforçar este poder por intermédio do conhecimento cartográfico.
Os contextos políticos dos mapas
O Czar
E tu meu filho, o que fazes? O que é isto?
Fyodor
É o mapa da Moscóvia, nosso império
de ponta a ponta. Vês :
ali, Moscou,
Ali Novgorod, aqui Astrakhan.
Eis aqui o mar,
Eis aqui as espessas florestas de Perm,
e lá está a Sibéria
O Czar
E o que é aquilo, o que serpenteia
Como um desenho bordado ?
Fyodor
É o Volga.
O Czar
Muito bem! Eis aí os doces frutos do estudo !
Como do alto das nuvens, podes de uma só vez abraçar
Todo o império : fronteiras, cidades
e rios !
Alexandre Pushkin e Boris Godounov
10 Em todo estudo iconológico, é somente graças ao contexto que se pode discernir
corretamente a significação e suas influências. O contexto pode ser definido como as
circunstâncias nas quais os mapas foram elaborados e utilizados. Numa analogia com
a “ situação de fala ” num estudo lingüístico, isto implica reconstruir os quadros
físicos e sociais que determinaram a produção e o consumo dos mapas, os
acontecimentos que conduziram a essas ações, a identidade dos produtores e dos
usuários dos mapas, e a maneira como eles percebiam o ato de produzir e utilizar os
mapas num mundo socialmente construído. Estes detalhes podem nos revelar não
apenas os motivos que sustentam os eventos cartográficos, mas também os efeitos
que os mapas tiveram e a carga de informação que eles veiculam em termos
humanos.
11 Mesmo uma inspeção rápida na história da cartografia revela a influência do poder
político, religioso e social. Um estudo detalhado da cartografia na Europa pré-
histórica, antiga e medieval e no Mediterrâneo demonstrou isso claramente. Ao longo
deste período, a confecção de mapas foi uma das armas de inteligência especializadas
para adquirir um poder, administrá-lo, codificá-lo e legitimá-lo. Além disso, este
conhecimento estava concentrado nas mãos de relativamente poucas pessoas : os
mapas eram assim associados à elite religiosa do Egito dinástico e da Europa cristã
medieval, à elite intelectual na Grécia e em Roma, e à elite mercantil das cidades
Estado no fim da Idade Média.
12 O mundo da Europa antiga e medieval não era exceção neste aspecto. A cartografia,
quaisquer que sejam os outros significados culturais que lhe possam ter sido
vinculados, sempre foi uma “ ciência dos príncipes ”. No mundo islâmico, sabe-se que
são os califas, durante o período da geografia árabe clássica, os sultões, durante o
Império otomano e os imperadores mongóis na Índia, que patrocinaram a confecção
dos mapas e os utilizaram para fins militares, políticos, religiosos e de propaganda.
Na China antiga, os mapas terrestres detalhados eram elaborados em conformidade
com as prescrições dos dirigentes das sucessivas dinastias e serviam como
instrumentos burocráticos e militares e emblemas espaciais do Império. Nos
primeiros tempos da Europa moderna, da Itália aos Países-Baixos e da Escandinávia
a Portugal, os monarcas absolutistas e os dirigentes tinham consciência do valor dos
mapas para a defesa e para a guerra, para a administração interna ligada à expansão
do governo central, e como instrumento de propaganda territorial com o objetivo de
legitimar as identidades nacionais. Escritores como Castiglione, Elyot e Machiavel
defendiam o uso dos mapas pelos generais e homens de Estado. Com os
levantamentos topográficos nacionais que tiveram início no século XVIII na Europa,
o papel da cartografia no exercício das relações de poder favoreceu geralmente as
elites sociais.
13 As funções específicas dos mapas no exercício do poder confirmam também a
onipresença desses contextos políticos por meio das escalas geográficas. Essas
funções vão da construção de um Império mundial à manutenção do Estado-nação e
à afirmação local dos direitos de propriedade individuais. Em cada um desses
contextos, as dimensões do regime político e do território são compiladas em
imagens que, assim como o ordenamento jurídico, fazem parte do arsenal intelectual
do poder.
Mapas e Império
14 Da mesma forma que os canhões e os navios de guerra, os mapas foram as armas
do imperialismo. Na medida em que os mapas serviram para promover a política
colonial e onde os territórios forma reivindicados no papel antes de ser efetivamente
ocupados, os mapas anteciparam o império. Os geômetras marchavam ao lado dos
soldados, elaborando primeiro os mapas para as missões de reconhecimento, depois
com informações gerais, antes de fazê-los instrumento de pacificação, civilização e de
exploração dessas colônias. Mas isto vai muito além da demarcação de fronteiras
para submeter política e militarmente as populações. Os mapas prestam-se a
legitimar a realidade da conquista e do império. Eles contribuem para criar mitos que
ajudam a manter o status quo territorial . Como instrumentos de comunicação de
uma mensagem imperial, eles fornecem um complemento à retórica dos discursos,
dos jornais e dos textos escritos, ou aos contos e canções populares que exaltam as
virtudes do império.
15 Nestes contextos imperiais, os mapas apoiaram sistematicamente o exercício direto
do poder territorial. As malhas desenhadas pelos agrimensores romanos, tornadas
funcionais pela criação das centúrias, exprimiam um poder que avançava em todas as
direções, homogeneizando tudo em sua passagem. Nos estados Unidos o traçado do
levantamento topográfico retangular criou igualmente “ a ordem sobre a terra ”, em
muito mais acepções que uma simples reprodução de um desenho clássico. A
redescoberta do sistema de coordenadas geográficas de Ptolomeu no século XV foi
também um evento cartográfico crucial, que privilegiou uma “ sintaxe euclidiana ”
como estruturadora do controle territorial europeu. De fato, a natureza gráfica dos
mapas permitia a seus usuários imperiais um poder arbitrário, facilmente dissociado
responsabilidades sociais e suas conseqüências. O espaço podia ser dividido sobre o
papel. Assim, o Papa Alexandre VI delimitou as possessões portuguesas e espanholas
no Novo Mundo. Dividindo a América do Norte, no contexto de um imperialismo
mundial europeu, as “ linhas do mapa revelavam este poder e o processo imperialista
porque foram impostas no continente sem referências às populações indígenas e até
mesmo, freqüentemente, sem referências ao próprio território. Os invasores dividiam
entre eles o continente segundo os esquemas que refletiam suas próprias rivalidades
complexas e seu poder relativo ” 8
16 No século XIX, quando os mapas foram institucionalizados e relacionados à
expansão da geografia como disciplina, seus efeitos de poder se manifestam
novamente no crescimento permanente do imperialismo europeu. A corrida à África,
que permite às potências européias fragmentar a organização territorial indígena,
tornou-se um exemplo clássico desses efeitos. E, no século XX, com a divisão da
Índia, efetuada pela Grã-Bretanha em 1947, pôde-se ver como um traço de lápis sobre
um mapa podia determinar a vida e a morte de milhões de indivíduos. Existem
inúmeros contextos nos quais os mapas tornaram-se a moeda de “ negociações ”
políticas, de divisões, vendas e tratados feitos sobre o território coloniais, e nos quais,
uma vez tornados permanentes pela imagem, estes mapas adquiriam freqüentemente
força de lei.
Figura 1. Mapa do Império Britânico
Mapa do mundo ilustrando a extensão do Império Britânico em 1886 foi publicado pela primeira vez sob a
forma de um suplemento no jornal Graphic. Uma projeção de Mercator, uma pintura cor-de-rosa para o
território do Império, e emblemas decorativos mostrando a Grã-Bretanha sentada sobre o globo servem
para articular a mensagem do “ Novo imperialismo ”. Reproduzido com a autorização da Coleção Mansell.
Os mapas e o Estado-nação
17 A história dos mapas está intimamente ligada á ascensão do Estado - nação no
mundo moderno. Muitos mapas impressos na Europa ressaltavam as nações, os
cursos d´água e as fronteiras políticas que constituíam as dimensões político-
econômicas da geografia européia.
18 Os primeiros teóricos da política relacionavam os mapas aos homens de Estado,
que foram os primeiros a colecioná-los sistematicamente. O Estado tornou-se e
permaneceu um dos principais mandatários da atividade cartográfica em vários
países.
19 Como o Estado estava pronto para financiar a confecção dos mapas, seja
diretamente pelo Tesouro, seja indiretamente pela outorga de privilégios comerciais,
este conhecimento foi considerado um privilégio. Na Europa ocidental, remonta-se à
história do segredo cartográfico, ainda que ineficaz, na política conduzida pela
Espanha e Portugal no século XVI. A prática era monopolizar o conhecimento e
utilizar os documentos geográficos como um recurso econômico.
20 Um bom exemplo de interação entre mapas e regime político encontra-se na
história da tecnologia militar. Para o exército, os mapas foram sempre considerados
como uma forma importante de conhecimento, e as medidas para conservar o
segredo e a censura são comuns tanto hoje em dia nas especificações escondidas dos
organismos cartográficos públicos militares quanto nos Estados –maiores de campo
do passado. Num plano prático, os mapas militares são uma engrenagem, pequena
mas vital na infra-estrutura técnica do exército sobre o terreno. Quando as técnicas
de guerra passaram da práticas das sedes às estratégias móveis, sobretudo a partir do
século XVIII, os mapas que as acompanhavam se transformaram também. De
qualquer forma, mesmo nestes contextos ativos, os processos históricos estavam
sutilmente em prática. O conhecimento cartográfico permite a condução da guerra
por um controle à distância, além do que é mais fácil visualizar as destruições. Não
apenas os mapas militares facilitam a condução técnica da guerra mas também eles
atenuam o sentimento de culpa que esta condução produz : as linhas silenciosas da
paisagem de papel favorecem a idéia de um espaço socialmente vazio.
21 Os mapas militares não são todos silenciosos. Muitos proclamam em alto e bom
som a vitória militar. Assim como havia desfiles, cantos e poemas militares houve, na
Europa, a partir do século XV, planos de batalha visando comemorar os lugares
sagrados da glória nacional.
Mapas e direitos de propriedade
22 Os mapas cadastrais e fundiários, indicando as propriedades, revelam o papel
desempenhado pelos mapas na história das relações das classes rurais. O mapa
constitui para o Estado ou proprietários privados um meio de controlar eficazmente
os arrendatários e camponeses. Na sociedade romana, os agrimensores são
considerados não somente como métodos técnicos de divisão de terras, mas também
como instrumento social para regulamentar legalmente as propriedades e coletar
[Link] mapas, moldados em bronze ou gravados na pedra eram desenhados
para tornar mais permanente uma ordem social separando homens livres e escravos
por um estatuto fundado na divisão do território. Nos primórdios da Europa
moderna, ainda que o contexto sociológico e a confecção dos mapas sejam
diferentes,algumas forças idênticas são atuantes. A cartografia das zonas rurais,
locais, servia ao processo de regulamentação de litígios num contexto sócio-jurídico e
era um meio para regular de forma eficaz os conflitos entre senhores e camponeses
sobre os direitos de propriedade privados. Os mapas se ajustavam tão facilmente à
cultura da sociedade fundiária que eles se adequaram à estratégias diplomáticas e às
manobras militares dos Estados-nações da Europa durante a Renascença.
23 Pode-se igualmente considerar que os mapas são parte integrante de algumas
mudanças estruturais de longo prazo que marcaram a passagem do feudalismo ao
capitalismo. A economia mundial e sua nova divisão geográfica do trabalho foram
produzidas com a ajuda de documentos geográficos, incluídos os mapas. Planos
precisos, em grande escala, foram um meio de explorar a terra mais eficazmente, de
aumentar os rendimentos, de fazer respeitar as obrigações legais e de modificar os
regimes de exploração. Completando os traçados mais antigos, o mapa serve como
inventário geográfico, de codificação da informação sobre a propriedade, as meações,
os valores de locação, as práticas de cultura e os potenciais agrícolas, inventário que
permite aos proprietários capitalistas ver o conjunto de suas posses e melhor
controlá-las. Ver, era acreditar nas hierarquias territoriais expressas nos mapas, seja
na história geral da agricultura, na instalação de barragens, na drenagem de
banhados e pântanos , na recuperação de colinas e prados. O geômetra anda
freqüentemente ao lado do proprietário para difundir uma concepção capitalista da
agricultura.
24 Os mapas invadem de maneira invisível a vida cotidiana. Assim como o relógio,
símbolo gráfico da autoridade política central, introduziu a “ disciplina do tempo ”
nos ritmos dos trabalhadores da indústria, as linhas dos mapas, ditando a nova
topografia rural introduziram uma “ disciplina do espaço ”. Nas sociedades rurais da
Europa, as antigas comunidades estavam a partir de então divididas e loteadas com
ajuda dos mapas , e nas extensões selvagens das antigas terras indígenas da América
do Norte, os limites traçados no mapa eram um meio de se apropriar das terras às
custas daqueles que não estavam familiarizados com os métodos de levantamentos
geométricos e que não podiam contestá-los. Os mapas entravam no direito,
adquiriram a aura da ciência e contribuíam para engendrar uma ética e uma virtude
ligadas à definição cada vez mais precisa. Os traçados feitos sobre os mapas, excluíam
ao mesmo tempo em que limitavam. Eles determinavam hierarquias territoriais
segundo a loteria do nascimento, os acasos das descobertas e cada vez mais, o
mecanismo do mercado mundial.
O conteúdo dos mapas no exercício do
poder
“ É o mesmo mapa? ”Perguntou Jincey. Ela
mostrou o grande mapa do mundo que pendia,
enrolado para o verão, acima do quadro
negro,atrás de Miss Dove. “ A China ainda é
laranja? ” “ É um novo mapa ” , disse Miss
Dove. “ A China é púrpura ” . “ Eu gostava do
antigo mapa ”, disse Jincey “ Eu amo o
mundo antigo ” . “ A cartografia é uma arte
fluida ” , respondeu Miss Dove.
Frances Patton, Good Moring, Miss Dove (New York : Dodd Mead, 1954)
Figura 2. Mapa fundiário em grande escala
Mapas fundiários em grande escala e cadastros escritos tornaram-se a partir do século XVI um
instrumento na ascensão do capitalismo rural na Inglaterra. Neste fragmento de mapa fundiário de
Garnetts, em Essex (1622), atribuído a Samuel Walker, os detalhes das propriedades (DN= domínio de
Edward Naylor, DL = domínio de Richard Lavender, etc.) , sua delimitação fixa e sua medida precisa ( em
acres, quarts d´arpent, perches) (9) transformam os direitos de propriedade em uma imagem tangível e
legalmente constrangedora. Reproduzido com a autorização da Biblioteca Britânica.
25 Os cartógrafos e os historiadores dos mapas têm consciência há bastante tempo,
que o conteúdo dos mapas tem uma tendência a criar o que eles chamam de desvios,
distorções, variações ou de abusos em relação à realidade. Mas os escritos relativos à
cartografia dedicam pouco espaço às implicações políticas destes desvios e ao que
eles representam, e menos ainda às suas conseqüências sociais. Estes desvios ou
distorções são geralmente medidos em relação à uma norma de objetividade, ela
mesma tirada de procedimentos cartográficos. As conseqüências somente são
evidenciadas pelos mapas que apresentam distorções intencionais, por exemplo, com
finalidade de publicidade ou propaganda. A cartografia profissional do Serviço
cartográfico britânico, do serviço geológico dos Estados Unidos, de Bartholomew, de
Rand McNally10 ou de seus predecessores, seria considerada como largamente isenta
deste conjunto de imagens deformado. A idéia de que os mapas podem produzir uma
imagem “ cientificamente ” exata do mundo, em que as informações fáticas são
representadas sem pré julgamentos está bem fundada na nossa mitologia cultural.
26 Reconhecer que toda cartografia é uma ficção complexa, controlada, não nos
impede de conservar uma distinção entre as apresentações do conteúdo dos mapas
que são deliberadamente induzidos por um artifício cartográfico e aqueles em que o
conteúdo estruturante da imagem não é examinado.
Distorções intencionais do conteúdo dos mapas
27 Ao longo da história, pode-se encontrar distorções intencionais do conteúdo dos
mapas com fins políticos ; o cartógrafo nunca foi um artista, um artesão ou um
técnico independente. Por trás do criador dos mapas se esconde um conjunto de
relações de poder, que cria suas próprias especificações. Sejam impostas por um
particular, pela burocracia do Estado, ou pelo mercado, estas regras podem, às vezes,
ser reconstruídas a partir de um conteúdo dos mapas e do modo de representação
cartográfica. Adaptando as projeções individuais, manipulando as escalas,
aumentando excessivamente ou deslocando os sinais ou a topografia, utilizando cores
com forte poder emotivo, os elaboradores de mapas de propaganda foram defensores
de uma visão geopolítica de único sentido . Seus mapas fizeram parte do arsenal da
guerra psicológica que era a moeda corrente muito antes da sua utilização pelos
geopolíticos nazistas. As guerras de religião na Europa do século XVII e a Guerra Fria
do século XX foram conduzidas mais pelo conteúdo dos mapas de propaganda que
por outros meios
Figura 3. Mesmo simples mapas temáticos podem veicular sutis mensagens de
propaganda.
Este mapa de um atlas escolar, retirado de Geschichtsatlas ... Deutsch (1933), representa as populações
germânicas na Europa e além-mar (no detalhe), mas omite a legenda para os três tamanhos de símbolos.
Se a divisão é globalmente realista, as minorias alemãs nos países europeus eram sempre muito menos
aparentes (menos de 4% da população total) do que o é sugerido por meio da utilização de símbolos
excessivos. Reproduzido com a autorização da Biblioteca Britânica
28 Os mapas aparentemente objetivos se caracterizam também por manipulações
freqüentes de seu conteúdo. A censura cartográfica implica uma representação
intencionalmente errônea que visa a enganar os usuários potenciais, geralmente
aqueles considerados como oponentes do status quo territorial. Não se deve
confundir com as supressões ou acréscimos relativos a um erro técnico, à
incompetência, ou aos imperativos de tamanho ou de função. A censura cartográfica
suprime dos mapas os elementos que, em geral, se deveria encontrar. Naturalmente,
é mais difícil de notar que uma distorção patente. Justificadas por motivos de
segurança nacional, de concorrência política ou de necessidade comercial, estas
censuras são ainda largamente praticadas. A imagem censurada marca os limites do
discurso autorizado e as omissões intencionais impedindo a representação de certos
elementos; daí as ausências, origem de mal- estares por aqueles que são
intencionalmente esquecidos.
29 A justificativa mais freqüente da censura cartográfica sempre foi de natureza
militar. Na sua forma mais ampla, ela implicou a proibição da publicação dos
levantamentos. Além disso, os detalhes de povoamento nos mapas do século XVIII
foram mantidos não revisados por Frederico o Grande, assim como se supões que em
certos mapas russos, as cidades foram intencionalmente localizadas em lugares
errados durante os anos sessenta a fim de evitar que medidas estratégicas fossem
tomadas por potências inimigas. E desde o século XIX, uma prática quase universal
consistiu em “ suprimir“ sistematicamente das séries de mapas topográficos oficiais,
os dados relativos às instalações militares importantes11. Esta prática se estende hoje
a outros aspectos os quais sua inclusão seria embaraçosa para o governo. Por
exemplo, os locais de deposição de dejetos nucelares são omitidos dos mapas do
Serviço geológico dos Estados Unidos.
30 Uma falsificação intencional dos mapas decorre de considerações políticas, além
das puramente militares. Nos mapas, as fronteiras foram objeto de distorções
geográficas, as quais provêm de tentativas de afirmar pretensões históricas em um
território nacional, ou seja, de utilizar os mapas por antecipação para projetar e
legitimar futuras ambições territoriais. Por exemplo, fronteiras contestadas12 que
aparecem nos mapas oficiais, nos atlas ou em imagens mais efêmeras como os selos
de correio, foram incluídas ou suprimidas segundo a preferência política do
momento. Estas práticas não se limitam também ao traçado das fronteiras políticas.
Há muitas informações que mostram que as geografias da língua, da “ raça ” e da
religião foram representadas em conformidade com as crenças dominantes. Existem
numerosos casos em que os nomes dos lugares indígenas de grupos minoritários são
substituídos nos mapas topográficos por topônimos padrão do grupo que detém o
poder.
Distorções “ inconscientes ” do conteúdo dos
mapas
31 O processo sutil pelo qual os valores da sociedade que produz os mapas influem
sobre seu conteúdo é também interessante para aquele que estuda a iconologia
cartográfica. Toda a história social dos mapas deve se interessar por essas regras
ocultas do conjunto de imagens cartográficas e por suas conseqüências. Três aspectos
destas estruturas ocultas serão aqui apresentados : a geometria dos mapas, os
silêncios nos conteúdos dos mapas, as tendências à hierarquização na representação
cartográfica.
Geometria subliminar
32 A estrutura geométrica dos mapas, vale dizer, a concepção gráfica que determina o
lugar central ou a projeção, fixando o modo de transformação em relação ao globo
terrestre, é um elemento que pode amplificar o impacto político de uma imagem,
mesmo quando alguma distorção não é buscada conscientemente. Um traço universal
dos primeiros mapas do mundo, por exemplo, reside na maneira pela qual eles foram
regularmente centrados no “ umbigo do mundo ”, tal como foi percebido pelas
diferentes sociedades. Esta síndrome do omphalo , que faz com que um povo se creia
designado por Deus para ser o centro do Universo, aparece nos mapas distantes no
tempo e no espaço, tais como os da antiga Mesopotâmia centrados em babilônia, os
do universo chinês na China, os mapas gregos em Delfos, os mapas islâmicos em
Meca, e aqueles do mundo cristão, em que Jerusalém aparece como “ verdadeiro ”
centro do mundo. É difícil apreciar o efeito desta geometria, que reforça certos
lugares, sobre a consciência social do espaço, e seria errôneo sugerir que esses modos
de representação fizessem eclodir visões de mundo idênticas. Portanto, os mapas
tendem a focalizar a atenção do observador sobre o centro e a promover assim o
desenvolvimento de visões de mundo exclusivas, voltadas para o interior com um
centro cultural povoado unicamente de verdadeiros crentes ...
33 É possível que uma visão etnocêntrica da mesma ordem tenha inspirado algumas
das projeções cartográficas oficiais da Europa durante a Renascença. Igualmente,
neste caso, um mapa estrutura a geografia que ele representa segundo um conjunto
de crenças sobre o que deveria ser o mundo, a verdade. Tomando-se um exemplo
bem conhecido como a projeção de Mercator, é de se duvidar que o próprio Mercator,
que concebeu os mapas com os navegadores, tenha tido consciência da influência de
seu mapa sobre a visão hegemônica mundial dos Europeus. Entretanto, o simples
fato de que a Europa esteja situada no centro do mundo nesta projeção, e que a
superfície das massas terrestres esteja tão deformada que dois terços da superfície do
globo pareçam se situar em latitudes elevadas, somente pôde favorecer um
sentimento de superioridade dos Europeus. O fato de que os “ Estados colonialistas
brancos ” apareçam relativamente maiores sobre o mapa do que aqueles que eram à
época apenas “ as colônias ” habitadas por povos de cor representadas “ muito
pequenas ”, nos convida a ver no mapa uma profecia geopolítica.
Os silêncios dos mapas
34 Os “ silêncios ” dos mapas são um conceito central em toda argumentação
concernente à influência de suas mensagens políticas ocultas. Afirma-se aqui que,
assim como certos exemplos de escritas ou de falas, os mapas exercem uma
influência social, tanto por suas omissões quanto pelos elementos que elas
representam e valorizam.
35 Os subentendidos políticos desses silêncios são tão poderosos que, às vezes, é
difícil de os explicar apenas recorrendo a fatores históricos ou técnicos. Na Irlanda do
século XVII, por exemplo, o fato de os geômetras que trabalhavam para os
proprietários ingleses excluírem as cabanas dos autóctones irlandeses de seus mapas
“ precisos ”, não é uma simples questão ligada à escala deste tipo de casa, mas
também resultado de tensões religiosas e relações de classe no campo irlandês. Pode-
se dizer o mesmo das omissões nos levantamentos dos condados da Inglaterra do
século XVIII :
36 a exclusão de pequenas fazendas rurais pode tanto estar ligada às representações
ideais dos proprietários clientes dos cartógrafos, quanto aos imperativos da escala
cartográfica. Em numerosos planos de cidades antigas, um cartógrafo pode muito
bem ter negligenciado inconscientemente as vielas e corredores dos pobres em
proveito das grandes ruas, dos edifícios públicos e das residências dos mercadores na
sua promoção consciente do orgulho cívico ou na celebração do sucesso comercial.
Este tipo de filtragem ideológica é um processo universal. Nos mapas coloniais, como
no século XVIII na América do Norte, os silêncios das cartas podem também ser
considerados como discriminatórios contra os povos indígenas. Um mapa como o da
Virgínia, elaborado por Fry e Jefferson (1751), dá a entender que os Europeus sempre
viveram lá. Quando as “ nações indígenas ” neles aparecem, é antes para indicar uma
expansão colonial futura que reconhecimento de sua integridade étnica. Dessa forma,
ao longo de toda a época das explorações, os mapas europeus forneceram uma
imagem de sentido único dos confrontos étnicos e sustentaram o direito divino da
Europa de se apropriar dos territórios. Construindo uma maior massa de
conhecimentos geográficos, os atlas europeus favoreceram, assim, uma visão
eurocêntrica, imperialista, introduzindo um desvio sistemático em favor do espaço
interior da Europa que reforçava a percepção da superioridade dos Europeus no
sistema mundial. Os silêncios dos mapas, que freqüentemente faziam parte de
estereótipos culturais, vieram expressar as profecias sobre a geografia do poder.
Figura 4. Os silêncios dos mapas
Parte do “ plano das cidades de Londres e de Westminster ... ” de John Rocque (1755), mostra a zona
construída a oeste da cidade de Londres e as novas organizações de espaços verdes de Bloomsbury.
Quando os distritos situados ao norte de Covent Garden e no entorno de Boad Street e de St. Giles
tornaram-se cortiços, o cartógrafo produziu uma vista idelaizada que acentua a ruralidade elegante dos
principais lugares mas omite a miséria sórdida da cidade. Reproduzido com a autorização da Biblioteca
Britânica
A representação de hierarquias
37 O papel dos mapas, enquanto forma de proclamação social, foi reforçado pelos
sistemas de classificação e modos de representação – os chamados sinais
“ convencionais ” ou cartográficos – que foram adotados para descrever os diversos
aspectos da paisagem. Durante muito tempo, uma das regras do cartógrafo foi
assinalar as pequenas cidades e vilarejos por ícones ou símbolos abstratos, de modo
proporcional à sua importância. A hierarquia visual dos primeiros mapas modernos
é, dessa forma, freqüentemente uma réplica das estratificações jurídicas, feudais e
eclesiásticas. De fato, a concepção de uma sociedade hierárquica não era
desconhecida dos cartógrafos contemporâneos. Por exemplo, em seu atlas de 1595,
Mercator pretendia apresentar a relação e a denominação exata das capitais dos
príncipes e dos nobres. Como outros cartógrafos que o precederam, imaginou um
conjunto de sinais para representar a povoação, destinados a hierarquizar as
implantações humanas que apareciam nos mapas. Nestes mapas, a cidades
ocupavam um espaço bem maior que seu tamanho no terreno, mesmo considerando
as convenções gráficas. Os símbolos dos castelos, representativos da importância
feudal e da potência militar, são às vezes maiores que os símbolos dos vilarejos, ainda
que eles ocupem menos espaço no solo. Os brasões, símbolos de possessão territorial,
servem para localizar a sede do senhor, enquanto os burgos dos meeiros que dele
dependem na ordem feudal são designados por sinais inferiores, independente de sua
população ou de sua superfície. Este tipo de representação é particularmente
freqüente nos mapas do território alemão pertencente ao Santo Império Romano
Germânico. Os mapas dedicam igualmente uma atenção considerável à geografia do
poder eclesiástico. A principal mensagem era freqüentemente a da onipresença da
Igreja. Fosse no território “ infiel ” dominado pelos Turcos, nas terras pertencentes ao
Papado, nas regiões geralmente dominadas pelos protestantes ou por seitas
particulares como os Hussitas, os mapas situavam a extensão das possessões
temporais das Igrejas. Os mapas passavam também uma mensagem secundária : não
somente eles reforçavam a percepção do poderio da Igreja enquanto instituição no
seio do conjunto da sociedade, mas eles registravam as hierarquias espaciais e as
dominações conflituosas no seio da própria Igreja. Sobre este primeiro ponto, note-
se, por exemplo, na legenda do mapa da Islândia de Boazio (1599) um símbolo
pictórico exagerado da “ cidade do Bispo ”; nos mapas regionais da Inglaterra à
época da Reforma, os símbolos das torres e campanários da igreja são maiores do que
exige o conceito de escala vertical. No que concerne à hierarquia, os símbolos
individualizados para os arcebispados e os bispados, sob a forma de cruzes simples
ou duplas, cajados, mitras e outros paramentos eclesiásticos, testemunham a
organização social da religião13. Aí também as amplificações seletivas dos sinais
cartográficos estavam estreitamente ligadas à fidelidade em relação às religiões,
sendo a expressão, nos primeiros tempos da Europa moderna, das guerras religiosas.
38 Mas se os sinais dos mapas refletiam por vezes as mudanças da situação religiosa,
também favoreciam o status quo, legitimando as hierarquias estabelecidas dos mapas
anteriores. Na França, por exemplo, os cartógrafos, a serviço da coroa utilizavam
imagens que consistiam numa forma de propaganda de Estado, insistindo nas
engrenagens administrativas de sua burocracia centralizada e representando diversos
aspectos do código jurídico do Antigo Regime14 Em 1721, Bouchotte utilizava sete
categorias administrativas (grão ducado, principado, ducado, marquesado, condado,
viscondado, baronado) e cinco níveis eclesiásticos (arcebispado, bispado, abade,
priorado, paróquia)15 para codificar os mapas regionais (mapas particulares)
Figura 5. Confirmação das hierarquias sociais pelos sinais cartográficos
Prancha 14 de Bouchotte, Les règles du dessin et du lavis (Paris, 1721). Reproduzido com a autorização
da Biblioteca Britânica.
O simbolismo cartográfico do poder
A terra é um lugar onde se encontra a Inglaterra,
Vós a encontrareis qualquer que seja o sentido no qual vós girardes o globo,
Pois suas possessões são vermelhas e o resto inteiramente cinza.
Tal é o sentido do Dia do Império.
G.K. Chesterton, “ Songs for Education : 11 Geography ”,
The collected poems of G. K. Chesterton
39 Na imposição do poder, o nível simbólico revela uma importância cartográfica
maior. É neste nível que os mapas são mais imagéticos e persuasivos. Pode-se tomar,
por exemplo, os mapas simbólicos que se encontram nas pinturas; pode-se também
apreciar o papel que desempenham os emblemas artísticos ( que não têm
necessariamente uma natureza cartográfica) enquanto signos nos mapas decorativos
onde eles estão integrados ao discurso do mapa. Após estudar as ligações entre o
significado destes emblemas e o território representado, se verá como os mapas não
decorativos também podem simbolizar valores culturais e políticos.
Os mapas na pintura
40 Desde a idade clássica, os artistas utilizavam os globos e os mapas como emblemas
de seu próprio simbolismo. Como signos políticos, o globo ou a esfera
freqüentemente simbolizaram a soberania sobre o mundo. Desde a época romana,
nas moedas e nos manuscritos, um globo ou uma esfera eram colocados nas mãos de
um imperador ou de um rei. Na era cristã, a esfera, a partir de então encimada com
uma cruz, tornou-se uma das insígnias dos Imperadores do Santo Império Romano
Germânico, e na pintura religiosa, ela estava sempre colocada nas mãos do Cristo
Salvator Mundi, ou de Deus Pai, Creator Mundi. Estas significações encontram-se na
arte da Renascença. No século XVI, os globos, que assim como os mapas apareciam
com mais freqüência graças à imprensa, começam a fazer parte das insígnias de
autoridade nos retratos de reis, embaixadores, homens de estado e nobres. Mas elas
visavam sobretudo a veicular a extensão dos poderes, ambições e empreendimentos
daqueles que as portavam. Estas pinturas proclamavam o direito divino do controle
político, e o emblema do globo indicava que era possível exercê-lo ou se desejava
exercê-lo em escala mundial.
41 Na pintura, os mapas serviram como símbolos territoriais. Por exemplo, pode-se
interpretar os ciclos de mapas murais da Renascença italiana como uma Summa
visual do saber, do poder e do prestígio religioso, em geral secular. Nos retratos dos
imperadores, monarcas, homens de Estado, generais e papas, os mapas são um
recurso gráfico que exprimem o poder social e territorial. Não é por acaso que
Elizabeth I aparecia num mapa da Inglaterra do século XVI, que o retrato de Luís XIV
foi representado com um mapa de seu reino por Cassini, que o Papa Pio IV
supervisiona o levantamento e a drenagem dos pântanos, e que Napoleão é
freqüentemente representado com os mapas na sua possessão, seja a cavalo, em
campanha, ou sentado, discutindo as conquistas realizadas ou futuras. Mesmo
quando o suporte passa da pintura à fotografia ou ao filme, o simbolismo poderoso
dos mapas persiste, como bem captaram os autores de filmes sobre Napoleão ou
Hitler. Nos jornais, nas telas de televisão e nos inúmeros desenhos de sátira política,
os chefes militares são sempre representados em frente aos mapas, para confirmar ou
reafirmar àqueles que os olham o direito imprescritível ao poder sobre o território.
Os motivos cartográficos continuam a ser aceitos como signos políticos na sociedade
contemporânea.
Figura 6. O mapa como símbolo territorial
Neste retrato de Thomas, décimo quarto duque de Arundel, e de sua mulher Alethea (Van Dyke, circa
1639), o duque aponta a empresa colonial que ele incentivou na ilha de Madagascar. Reproduzido com a
autorização do Duque de Norfolk.
A ideologia da decoração cartográfica
42 Desde a Renascença, os mapas raramente são puras representações geográficas,
uma vez que são acompanhados de toda uma série de emblemas decorativos. Desde
Jonathan Swift, estes elementos considerados como acessórios em relação aos
objetivos da comunicação cartográfico foram negligenciados.
Figura 7. Página inicial de um atlas como afirmação geopolítica
Nesta edição de 1573 do Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius, a Europa, personificada como a
mestra do mundo, está sentada num trono sobre os outros três continentes. Reproduzido com a
autorização da Coleção da Sociedade Geográfica Americana, Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
43 Títulos, letras, molduras, vinhetas, dedicatórias, rosas dos ventos, bordados
decorativos, que poderiam incorporar motivos tirados do vocabulário mais amplo da
expressão artística contribuíram, entretanto, para reforçar a significação política dos
mapas.
44 Nesta perspectiva, a idéia segundo a qual a decoração cartográfica seria um
exercício estético marginal não é mais aceitável.
Figura 8. Um conflito territorial e religioso
O conflito está resumido na moldura que acompanha o mapa do Danúbio em Mayor o Geographia
Blaviana, Vol.3 : Alemania (Amsterdam, 1662). O Santo Imperador Romano-Germânico (à esquerda),
revestido de emblemas do poder e da fé cristã, enfrenta o Sultão infiel, inimigo da Cristandade e
profanador da cruz. Reproduzido com a autorização da Coleção da Sociedade Geográfica Americana,
Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
45 O papel simbólico da decoração é encontrado em boa parte da história da
cartografia européia. Por exemplo, os frontispícios e títulos de numerosos atlas
definiram explicitamente, com ajuda de emblemas reconhecíveis por todos, a
importância ideológica e a carga prática dos mapas. Os arcos monumentais são a
expressão de um poder. O globo e a esfera armilada são associados às dedicatórias
reais. A imagem integra os retratos dos reis e rainhas assim como as representações
dos brasões reais. Os emblemas reais, tais como a flor de lis ou a águia imperial,
suscitam igualmente pensamentos políticos e geográficos mais concretos no espaço
cartografado. Os personagens mais freqüentemente representados são os nobres, os
bispos, os ricos mercadores e os proprietários de terra. Nos mapas cadastrais
ingleses, os símbolos que representam a riqueza fundiária são os brasões, os castelos,
a atividade de caça dos proprietários. Possuir o mapa, era possuir a terra.
46 Nos atlas e nos mapas murais, a decoração serve também para simbolizar a
conquista ultra-mar. Os navegadores europeus, representados com os símbolos
cartográficos correntes como a bússola ou o compasso, se inclinam gravemente sobre
as terrae incognitae como se eles as houvessem conquistado antes mesmo de dar
início aos seus atos de descoberta, de conquista de exploração. Em verdade, é nos
mapas destes impérios ultramarinos que se encontram alguns dos exemplos mais
chocantes do reforço ideológico pela decoração. Olhando os mapas da América do Sul
no século XIV estabelecidos pelos exploradores franceses ou os mapas britânicos dos
territórios africanos no século XIX, a decoração contribui para agregar uma série de
estereótipos e preconceitos raciais às regiões representadas. Isto é evidente para a
África. Alguns motivos utilizados sugerem que era difícil para os Europeus aceitar a
idéia que a humanidade africana era diferente. Assim, nos bordados de vários mapas,
os rostos africanos exibem traços europeus. Emprestava-se aos homens africanos um
físico “ ideal ” e poses que se encontram na iconografia de personagens da Grécia
clássica e Roma. E em conformidade com a hipótese segundo a qual os sistema
políticos europeus eram universais, os chefes africanos eram geralmente
representados como “ reis ”.
47 Em outros casos, os símbolos de “ alteridade ” tomavam a forma de um racismo
bizarro. Os indígenas são representados cavalgando um avestruz ou um crocodilo, se
dedicando ao canibalismo, os são qualificados de “ selvagens ” nas molduras ou,
como num mapa francês do século, XVIII como formando uma raça de homens e de
mulheres com caudas ”. Nas representações das mulheres africanas e nas alegorias
sobre a América e outros continentes, a sexualidade feminina é explicitamente
presente para melhor marcar uma dominação masculina. Os símbolos do poder
europeu não são nunca muito distanciados do espaço africano. Navios, castelos,
fortes, imagens de soldados em uniforme europeu são espalhados nas regiões
costeiras ; os “ reis ” africanos são submetidos à autoridade européia; anjos
alegóricos, a Bíblia ou a cruz trazem aos “ bárbaros ” africanos os benefícios da
Cristandade, no quadro da edificação colonial. Às vezes, as molduras e as vinhetas
simbolizam a autoridade colonial das diferentes nações : num mapa francês de 1708,
os negros africanos são representados com um leão sob as armas da França.
O “ fato ” cartográfico como símbolo
48 Passar destes exemplos de expressão artística para o aspecto simbólico dos mapas
é fácil. Após ver os mapas nos contextos metafóricos, é fácil verificar até que ponto
um mapa desprovido de elementos decorativos, ou mesmo de legenda e explicação,
pode ser por si mesmo um símbolo de autoridade política. Estes mapas se
caracterizam por um realismo simbólico, assim como o que parece à primeira vista
um fato cartográfico, pode também ser um símbolo cartográfico. Esta dualidade do
mapa impregna vários discursos cartográficos e explica porque os mapas são sempre
um ato ou uma declaração políticas.
49 Uma vez admitida a onipresença do simbolismo, a ruptura tradicional na
elaboração dos mapas, entre uma fase “ decorativa ” e uma fase “ científica ”, aceita
por muitos historiadores da cartografia, torna-se um mito.
50 Longe de ser incompatível com um poder simbólico, a maior precisão da medida se
intensifica. A precisão se torna um novo talismã da autoridade.
51 Por exemplo, um mapa representando de maneira precisa os contornos de uma
nação, tal como Cassini deu a Luís XIV, constituía uma alegoria patriótica ; também,
os mapas “ despojados ” da terra Santa colocados nas Bíblias protestantes do século
XVI, em parte com o objetivo de validar a verdade do texto, eram mais um ensaio de
simbolismo sagrado que representações ilustradas da região.
52 Este exemplo do papel desempenhado no passado pelos mapas para fabricar um
mito não têm nada de excepcional. Os mapas cadastrais, ainda que construídos a
partir de um levantamento topográfico instrumental, simbolizavam uma estrutura
social fundada sobre a propriedade fundiária. Os mapas dos condados e das regiões,
mesmo elaborados graças à triangulação, articulavam os valores e os direitos locais.
Os mapas dos Estados-nações, mesmo construídos ao longo dos arcos dos
meridianos, veiculavam um simbolismo de um conjunto de idéias nacionalistas. Os
mapas mundiais, ainda que cada vez mais desenhados a partir de projeções
estabelecidas com ajuda matemática, não representavam menos as distorções
extraordinárias na representação das colônias de ultra-mar. Mesmo os mapas
celestes, observados com os telescópios cada vez mais potentes, comportavam
imagens de constelações que evocavam as guerras de religião e dinastias políticas do
mundo terrestre. Se é prematuro afirmar que quase todos os mapas contêm um
símbolo político, os argumentos não faltam, à primeira vista, para fazer tal
generalização.
Conclusão : discurso cartográfico e
ideologia
53 A história dos mapas, como a de outros símbolos culturais, pode ser interpretada
como uma forma de discurso : deve-ser encarar os mapas como sistemas de signos
incomparáveis, nos quais os códigos podem ser ao mesmo tempo imagéticos,
lingüísticos, numéricos e temporais, e como uma forma de saber espacial. Não é
difícil proceder generalizações sobre o papel mediados dos mapas no pensamento ou
na ação política e de reter seus efeitos em termos de poder. Tanto por meio de seu
conteúdo como de seus modos de representação, a confecção e utilização dos mapas
foi invadida pela ideologia. Mas estes mecanismos só podem ser compreendidos em,
situações históricas particulares. As conclusões gerais que seguem devem ser
tomadas como idéias preliminares antes de uma pesquisa mais ampla.
54 O modo como os mapas vieram a fazer parte de um sistema de signos políticos foi
guiado pela sua criação pelas elites ou grupos de indivíduos poderosos, favorecendo
um discurso desigual. As flechas ideológicas foram atiradas num só sentido, no seio
da sociedade, os poderosos em direção aos fracos. Diferentemente da literatura, da
arte ou da música, a história social dos mapas não parece comportar os modos de
expressão populares, alternativos ou subversivos.
55 Os mapas são essencialmente uma linguagem de poder e não de contestação. Ainda
que os mapas nos tenham feito entrar na era das comunicações de massa, os meios de
produção cartográfica, comerciais ou públicos, continuam largamente controlados
pelos grupos dominantes, A tecnologia informática reforçou esta concentração do
poder das mídias, A cartografia permanece um discurso teleológico, confirmando o
poder, reforçando o status quo, restringindo as interações sociais no interior de
limites bem traçados.
56 Os processos cartográficos praticados pelo poder consistem em atos deliberados,
em práticas de vigilância e adaptações cognitivas conforme os valores e crenças
dominantes. As ações práticas empreendidas com ajuda dos mapas, guerras, traçado
de fronteiras,propaganda, preservação da ordem pública, são ilustradas ao longo da
história do mapas. Os processos tácitos de dominação pelos mapas, são ainda mais
sutis e fugidios. Eles fornecem regras ocultas de um discurso cartográfico que tem
sua origem nas geometrias subliminares, nos silêncios e nas hierarquias
representadas nos mapas. O mapa exerce sua influência tanto pela sua força de
representação simbólica quanto pelo que ele representa abertamente. A iconologia do
mapa, no tratamento simbólico do poder, é um aspecto negligenciado da história
cartográfica
Figura 9. Os mapas tornaram-se imagens que substituem o próprio Estado-nação.
Nesta gravura tirada de The Polish captivity (Vol. 1, Londres, 1863), a divisão da Polônia está
representada pelo rompimento do mapa. Os espectadores contemplam este ato com desespero,
enquanto um anjo, representando a Igreja católica, dá as costas com horror e soa o alarme com um
trompete. Reproduzido com a autorização da Coleção da Sociedade Geográfica Americana, Universidade
de Wisconsin-Milwauke
Figura 10 Página inicial de Zambesia, England´s El Dorado in África (Londres, 1891).
A cena está representada sobre um mapa mudo da África meridional. A Grã-Bretanha, que mostra um
mapa da Zambésia, incentiva os colonos a tirar partido da riqueza econômica do país enquanto a
população indígena africana está excluída da cena. Reproduzido com a autorização da Coleção da
Sociedade Geográfica Americana, Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
57 Restringindo sua importância, nós nos distanciamos de uma história dos mapas
que descreve a intenção do cartógrafo e seus atos técnicos em proveito de uma
história que situa a imagem cartográfica num contexto social.
58 Enquanto tipo de conhecimento impessoal, os mapas tendem a “ dessocializar ” o
território que eles representam, Eles favorecem a noção do espaço socialmente vazio.
A qualidade abstrata do mapa, tanto incorporada nas linhas de uma projeção
ptolomaica do século XV quanto nas imagens contemporâneas da cartografia
informatizada, atenua a tomada de consciência de que os seres humanos vivem na
paisagem. As decisões relativas ao exercício do poder estão desconectadas do
domínio dos contatos interpessoais.
59 Resta explorar estas idéias nos contextos históricos específicos. Assim como os
historiadores, o cartógrafo sempre desempenhou um papel retórico definindo as
configurações do poder no seio da sociedade e registrando suas manifestações sobre a
paisagem visível. Toda história cartográfica que ignora esta carga política da
representação fica condenada a ser apenas uma história “ histórica ”.
Notas
1 O termo “ profundo ” remete à expressão “ descrição profunda ” utilizada pelo antropólogo
americano Clifford Geertz para exprimir a idéia segundo a qual as descrições cuidadosas e
muito detalhadas são indispensáveis para explicar cultura diferentes das suas.
2 Carl Sauer é um geógrafo cultural americano pertencente à Escola de Berkeley, na Califórnia.
3 Harley faz alusão a Jacques Bertin e a sua importante obra Sémiologie graphique. Les
diagrammes, les réseaux, les cartes (Paris, Gauthier-Villars, 1967).
4 O pensamento de Harley sofreu a influência de Lucien Febvre e Henri-Jean Martin, L
´apparition du livre (Paris, Ed. A. Michel, 1958).
5 Erwin Panofsky, um dos grandes historiadores de arte do século XX, pioneiro em novos
estudos interpretativos na obra Studies in iconology: humanistic themes in the art of the
Renaissance (Oxford : Oxford University Press, 1939).
6 Aqui, e em vários outros escritos, Michel Foucault exerceu uma importante influência sobre
Harley. Como referências específicas, citamos Les mots et les choses : une archéologie des
sciences humaines (Paris, Gallimard, 1966) ; Surveiller et punir : naissance de la prison (Paris :
Gallimard, 1975) ; e questões a Michel Foucault sobre a geografia, em Herodote, I, 1976.
7 Sociólogo inglês da Universidade de Cambridge que procura resolver a questão sempre
difícil das estruturas da sociedade na qual se encontra o indivíduo, e do modo como essas
estruturas se mantêm ou se modificam. A citação é tirada de “ A contemporary critique of
historical materialism : Power, property and the State “(Londres, Macmillan, 1981).
8 Referência a Donald Meinig, eminente especialista americano em geografia histórica, e à sua
obra em três volumes The Shaping of America (New Haven, Yale University Press, 1986), p.
232.
9 N. T : antigas medidas de superfície : perche = vara, arpent, equivalente a cem perches, de
20 a 50 ares.
10 ,Bartholomew e Rand McNally são importantes editores de mapas, respectivamente inglês e
americano, que produzem a cada ano milhões de mapas.
11 Na Grã-Bretanha, o semanário New Statesman (27 de maio de 1983 p. 6) escreveu: “ os
agentes secretos do Serviço cartográfico nos transmitiram um manual secreto extremamente
interessante que cataloga e define na Grã-Bretanha lugares que não têm existência oficial e que
não podem portanto figurar nos mapas”.
12 Tomemos o exemplo da fronteira entre o Haiti e São Domingos que segundo o caso, aparece
ou não nos manuais de ensino do país.
13 Referência à François de Dainville, Le langage des géographes : termes, signes, couleurs
des cartes anciennes. (Paris, A e J. Picard, 1964).
14 François de Dainville, « Le signe de “ justice” dans les cartes anciennes », Revista Histórica
do Direito Francês e Estrangeiro, 34, 1956, PP.111-114.
15 M. Buchotte, Les règles du dessin et du lavis (Paris, Jombert, 1721, 1743).
Índice das ilustrações
Título Figura 1. Mapa do Império Britânico
Mapa do mundo ilustrando a extensão do Império Britânico em 1886
foi publicado pela primeira vez sob a forma de um suplemento no
jornal Graphic. Uma projeção de Mercator, uma pintura cor-de-rosa
Legenda para o território do Império, e emblemas decorativos mostrando a
Grã-Bretanha sentada sobre o globo servem para articular a
mensagem do “ Novo imperialismo ”. Reproduzido com a autorização
da Coleção Mansell.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 420k
Título Figura 2. Mapa fundiário em grande escala
Mapas fundiários em grande escala e cadastros escritos tornaram-se
a partir do século XVI um instrumento na ascensão do capitalismo
rural na Inglaterra. Neste fragmento de mapa fundiário de Garnetts,
em Essex (1622), atribuído a Samuel Walker, os detalhes das
Legenda propriedades (DN= domínio de Edward Naylor, DL = domínio de
Richard Lavender, etc.) , sua delimitação fixa e sua medida precisa (
em acres, quarts d´arpent, perches) (9) transformam os direitos de
propriedade em uma imagem tangível e legalmente constrangedora.
Reproduzido com a autorização da Biblioteca Britânica.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 540k
Título Figura 3. Mesmo simples mapas temáticos podem veicular sutis
mensagens de propaganda.
Este mapa de um atlas escolar, retirado de Geschichtsatlas ...
Deutsch (1933), representa as populações germânicas na Europa e
além-mar (no detalhe), mas omite a legenda para os três tamanhos
de símbolos. Se a divisão é globalmente realista, as minorias alemãs
Legenda
nos países europeus eram sempre muito menos aparentes (menos
de 4% da população total) do que o é sugerido por meio da utilização
de símbolos excessivos. Reproduzido com a autorização da
Biblioteca Britânica
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 428k
Título Figura 4. Os silêncios dos mapas
Parte do “ plano das cidades de Londres e de Westminster ... ” de
John Rocque (1755), mostra a zona construída a oeste da cidade de
Londres e as novas organizações de espaços verdes de Bloomsbury.
Quando os distritos situados ao norte de Covent Garden e no entorno
Legenda
de Boad Street e de St. Giles tornaram-se cortiços, o cartógrafo
produziu uma vista idelaizada que acentua a ruralidade elegante dos
principais lugares mas omite a miséria sórdida da cidade.
Reproduzido com a autorização da Biblioteca Britânica
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 440k
Título Figura 5. Confirmação das hierarquias sociais pelos sinais
cartográficos
Prancha 14 de Bouchotte, Les règles du dessin et du lavis (Paris,
Legenda
1721). Reproduzido com a autorização da Biblioteca Britânica.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 368k
Título Figura 6. O mapa como símbolo territorial
Neste retrato de Thomas, décimo quarto duque de Arundel, e de sua
Legenda mulher Alethea (Van Dyke, circa 1639), o duque aponta a empresa
colonial que ele incentivou na ilha de Madagascar. Reproduzido com
a autorização do Duque de Norfolk.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 376k
Título Figura 7. Página inicial de um atlas como afirmação geopolítica
Nesta edição de 1573 do Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham
Ortelius, a Europa, personificada como a mestra do mundo, está
Legenda sentada num trono sobre os outros três continentes. Reproduzido
com a autorização da Coleção da Sociedade Geográfica Americana,
Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 480k
Título Figura 8. Um conflito territorial e religioso
O conflito está resumido na moldura que acompanha o mapa do
Danúbio em Mayor o Geographia Blaviana, Vol.3 : Alemania
(Amsterdam, 1662). O Santo Imperador Romano-Germânico (à
Legenda esquerda), revestido de emblemas do poder e da fé cristã, enfrenta o
Sultão infiel, inimigo da Cristandade e profanador da cruz.
Reproduzido com a autorização da Coleção da Sociedade
Geográfica Americana, Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 480k
Título Figura 9. Os mapas tornaram-se imagens que substituem o próprio
Estado-nação.
Nesta gravura tirada de The Polish captivity (Vol. 1, Londres, 1863), a
divisão da Polônia está representada pelo rompimento do mapa. Os
espectadores contemplam este ato com desespero, enquanto um
Legenda anjo, representando a Igreja católica, dá as costas com horror e soa
o alarme com um trompete. Reproduzido com a autorização da
Coleção da Sociedade Geográfica Americana, Universidade de
Wisconsin-Milwauke
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 312k
Título Figura 10 Página inicial de Zambesia, England´s El Dorado in África
(Londres, 1891).
A cena está representada sobre um mapa mudo da África meridional.
A Grã-Bretanha, que mostra um mapa da Zambésia, incentiva os
colonos a tirar partido da riqueza econômica do país enquanto a
Legenda
população indígena africana está excluída da cena. Reproduzido
com a autorização da Coleção da Sociedade Geográfica Americana,
Universidade de Wisconsin-Milwaukee.
[Link]
URL
[Link]
Ficheiro image/jpeg, 374k
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Brian Harley, «Mapas, saber e poder», Confins [Online], 5 | 2009, posto online no dia 24 abril
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Autor
Brian Harley
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