Caracol que Conta: Crianças e Natureza
Caracol que Conta: Crianças e Natureza
um caracol
que conta
era uma vez…
um caracol
que conta
FICHA TÉCNICA ÍNDICE
Título: era uma vez… um caracol que conta | out going – crianças, natureza e cultura em relação FICHA TÉCNICA4
Coordenação: Maria Assunção Folque era uma vez… um caracol que conta – prólogo 6-15
COMUNIDADE DE PRÁTICA
01 Corpo a corpo com elementos naturais 16-25
Ana Cristina Simões – Agrupamento de Escolas da Baixa da Banheira
Ana Luísa de Oliveira Pires – Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação; [Link]
5
Ana Rasteiro – Agrupamento de Escolas José Saramago, Jardim de Infância de Lagameças 02 Uma Sombra que me (per)segue 26-35
4 Andreia Gonçalves – Instituto de Ação Social das Forças Armadas – Centro de Apoio Social do Alfeite
Catarina Vaz Velho – Universidade de Évora – PRAXIS
Elizabete X. Gomes – Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação; CIEQV 03 Making Kin – crianças, árvores e pedras em aparentamento 36-51
Fátima Aresta – Centro de Atividade Infantil de Évora –CAIE
Isabel Martins – Associação Tempo de Mudar para o Desenvolvimento do Bairro dos Lóios 04 Com as formigas 52-57
Maria Assunção Folque – Universidade de Évora – CIEP-UE
Maria do Carmo Jardim Mendes – Redbridge International School
Maria Ilhéu – Universidade de Évora – MED – CHANGE-UE 05 Caracol-de-Conta 58-83
Mariana Valente – Universidade de Évora – Instituto de História Contemporânea – UE / IN2PAST
Marta Reis – Colégio Piloto Diese 06 Em (trans)formação com o Mundo 84-99
Rosa Cunha – Agrupamento de Escolas José Saramago, Jardim de Infância de Lagameças
Susana Sousa – Agrupamento de Escolas de Sampaio, Jardim de Infância de Sampaio
Tiago Almeida – Escola Superior de Educação de Lisboa – Instituto Politécnico de Lisboa – CI&DEI – Centre for 07 João e Komorebi 100-109
Studies in Education and Innovation
Vanessa Kene – Associação Tempo de Mudar para o Desenvolvimento do Bairro dos Lóios
08 Das árvores à mata 110-115
EDIÇÃO ISBN
© Centro de Investigação em Educação e Psicologia da Versão impressa: 978-972-778-469-1
09 Até à “Floresta”… 116-129
Universidade de Évora (CIEP | UE), 1.ª edição, Évora, Versão eletrónica: 978-972-778-470-7
2025 10 “Becoming With” o nosso bairro 130-139
[Link] DEPÓSITO LEGAL: 553627/25
Colégio Pedro da Fonseca
Rua da Barba Rala, n.º 1 11 Está uma abelha na cabeça da Francisca… 140-155
Parque Industrial e Tecnológico de Évora
7005-345 Évora 12 Uma viagem em espiral 156-173
É expressamente proibido reproduzir, na totalidade
DESIGN GRÁFICO ou em parte, sob qualquer forma ou meio, esta obra.
oficina grotesca e Comunidade de Prática Autorizações especiais podem ser requeridas para 13 Wondering 174-183
ciep@[Link]
FOTOGRAFIA DA CAPA epílogo184-191
Joana Reis
referências bibliográficas 192-197
IMPRESSÃO E ACABAMENTO Este trabalho é financiado por fundos nacionais através
VASP – DPS Digital Printing Services da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., em comunidade de prática 198-199
[Link] no âmbito do projeto UIDB/04312/2025
era uma vez… um caracol que conta
6 prólogo
8
prólogo afasta-as do corpo-terra, dos ritmos sazonais, ainda mais sentido – o mundo a que nos sub- tilhados os interesses, motivações e propósi-
das relações multiespécie, mas também das traíam tornou-se mais importante e o desejo de tos individuais e coletivos dos seus membros,
Num tempo em que a relação entre os seres heranças culturais e afasta-as da produção de aprofundar a nossa relação com ele habitava- estabelecendo-se objetivos comuns, compro-
humanos e o mundo que habitam parece cada histórias vividas que poderiam ajudar a esta- -nos. missos e práticas partilhadas.
vez mais mediada por dispositivos de distancia- belecer ligações afetivas com o mundo. Juntámos assim um grupo de pessoas que, Com os devidos consentimentos informa-
mento da natureza, dos outros, de nós próprios, O projeto OutGoing: crianças, natureza em conjunto, sentiu a urgência de uma ação dos dos Encarregados de Educação e a forma-
é como se, a pouco e pouco, fôssemos perden- e cultura em relação nasceu precisamente de religação ao mundo. Provocamos encon- lização de protocolos de colaboração com as
do a consciência da interdependência entre nós como resposta a esta inquietação: tros para pensar, para investigar novos modos instituições educativas envolvidas, as educa-
e o mundo e a capacidade de nos deixarmos Como podemos reaproximar as crianças — de experienciar o mundo. Vínhamos da educa- doras e grupos de crianças participaram pro-
afetar, com afeição, por outros elementos que e os adultos que com elas vivem e trabalham ção de infância, da ecologia, da psicologia, da gressivamente em experiências significativas
compõem o mundo natural e cultural. A desa- — do mundo natural e cultural, não apenas física, da educação artística, das ciências da com o mundo natural-cultural. Estas experiên-
fetação de que falamos não é um simples afas- como objetos de conhecimento, mas como educação; éramos professores/as do ensino cias foram orientadas por abordagens partici-
tamento físico ou geográfico: trata-se de uma companhias de vida? superior, doutorandas, educadoras de infân- pativas, estéticas, sensíveis e criativas, pro-
erosão sensível e ética, de um entorpecimento Que práticas, modos de escuta e convívio cia. Tomamos como locus de transformação a movendo a incorporação de novos modos de
progressivo da nossa atenção ao mundo. podem reabrir caminhos de ligação, atenção educação de infância em relação com o mudo. ser e estar com o mundo, especialmente em
Na educação de infância, este fenómeno e presença? Compreendendo a aprendizagem e o de- espaços além do espaço da sala de atividades.
manifesta-se com particular nitidez. As crian- Que papel pode a educação desempenhar senvolvimento profissional como processos A CoP OutGoing foi estruturada em torno
ças, frequentemente abertas ao encontro, pa- na reconstrução de uma sensibilidade parti- eminentemente sociais e colaborativos (Lave de três elementos fundamentais: o domínio
recem por vezes empurradas para formas de lhada? & Wenger, 1991), o grupo inicial lançou o de- (campo de interesse partilhado), a comuni-
estar que priorizam a normatividade, o desem- safio a educadoras/es de infância, que volun- dade (rede de relações e vínculos entre os
penho ou a funcionalidade, em detrimento da Corria o ano de 2021... tariamente aderiram à proposta, originando a participantes) e a prática (conjunto de expe-
escuta, da experiência sensível e partilhada, constituição da comunidade de prática (CoP) riências, saberes, instrumentos e repertó-
do tempo lento e do contacto com a matéria … ainda em modo de semi-confinamento, OutGoing. Após uma fase inicial de negocia- rios construídos e partilhados coletivamente)
e com outros seres terrestres. Esta tendência devido à pandemia do coronavírus, tudo fazia ção quanto à organização da CoP, foram par- (Wenger, McDermott & Snyder, 2002).
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Este projeto tem vindo a desenvolver-se tuiu-se como um espaço de partilha de conhe- vo, dá” (p.19), de nos deixarmos tocar pelo lugar num campo de co-formação. Nesse pro-
integrando pensamento com origens diversas, cimentos, histórias, preocupações, dilemas, re- que aparece (e não apenas decifrá-lo). cesso, não só olhávamos para as experiências
produzindo ideias e experimentando ações, cursos e projetos ancorados no quotidiano dos A par do empirismo delicado, escolhemos infantis, como éramos também interpeladas/
surpresa e maravilhamento que alicercem a jardins de infância (Wenger, 1998), contribuin- também caminhar com as cartografias, enten- os por elas — desafiadas/os a repensar os mo-
Educação para a Sustentabilidade na Educa- do para um conhecimento prático e situado. didas aqui como formas de investigação que dos como conhecemos, educamos, habitamos.
ção de Infância. O repertório coletivo cons- Este conhecimento em constante constru- acompanham movimentos, afetos, encontros Por isso dizemos que este projeto não se li-
truído inclui diversos registos escritos, grava- ção, foi sendo alimentado por metodologias e paisagens, mais do que categorias pré-de- mitou a observar ou a documentar. Foi, acima de
ções áudio e vídeo, fotografias, publicações que recusam a abstração mal colocada e o finidas. Cartografar não é mapear o que já se tudo, um exercício contínuo de aprender a es-
e memórias que documentam e sustentam a distanciamento do olhar investigativo tradi- sabe, mas desenhar percursos do que está a cutar o mundo terrestre com todos os sentidos.
aprendizagem vivida no seio da CoP. cional. Seguimos o que Goethe chamou de emergir: histórias, vozes, gestos, experiências. Acreditamos que esse exercício é também uma
A participação ativa na comunidade de empirismo delicado — uma aproximação sen- Assim, o projeto construiu-se como um terri- forma de resistência à des-afetação e uma con-
prática fomentou, de forma gradual, um sen- sível e comprometida com os fenómenos e os tório vivo de escuta, onde as narrativas das vocatória à reconstrução de uma vida comum.
timento de pertença e de compromisso entre seres, em que o conhecimento se gera no pró- crianças, das educadoras e das próprias in- Ao longo destes quatro anos, fomos fazen-
os seus membros, influenciando a construção prio ato de observar com rigor, de imaginar e vestigadoras iam sendo traçadas em comum, do caminhos juntos/as, pensando em conjunto,
das identidades pessoal, social e profissional de intuir, exercendo uma atenção dedicada e respeitando os tempos do encontro, da dúvi- contando histórias uns aos outros, da vida nos
(Lave & Wenger, 1991). Nota disso mesmo delicada. Um olhar que escuta, que se demo- da, da descoberta (Almeida & Costa, 2021). jardins de infância mas também das vidas de
são os textos que compõem este e-book. ra, que se transforma na presença do outro. A conjugação destas metodologias per- cada membro da CoP. Fizemo-lo e fazêmo-lo
Reconhecendo o valor deste conhecimen- O empirismo delicado valoriza e aprofunda mitiu-nos sustentar uma prática investigativa em sessões on-line, nos sábados coletivos de
to socialmente construído, a CoP integrou um a percepção do outro com o outro. Como di- ética e estética, onde o conhecimento cons- experiências imersivas, no Colóquio OutGoing
círculo de estudos, caraterizado pela produção zem Valente e Ilhéu (2023), trata-se de “um truído é transformador e alimenta a vontade que organizamos em novembro de 2022 e nas
democrática de conhecimento, afirmando-se método de aproximação ao mundo natural de cuidar. Nas sessões online, nos encontros diversas comunicações que fomos fazendo nas
como uma alternativa relevante aos modelos habitado por trocas equitativas, subvertendo imersivos e nas experiências quotidianas das nossas comunidades científicas e pedagógi-
tradicionais de desenvolvimento profissional. o ‘paradigma’ em que o sujeito [ativo] recolhe creches e jardins de infância, fomos cultivando cas, por vezes de forma mais privada, outras
Ao longo do caminho percorrido, a CoP consti- informação, recolhe dados, e o objeto, passi- uma atenção partilhada que transformava cada vezes em público.
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No quarto ano da CoP (2024-25), decidi- xa composta por diversos fios e dimensões contros da CoP on-line e, especialmente, dos professores de outros níveis etários de edu-
mos dar prioridade à publicação de uma par- interligadas que compõem um todo coerente. encontros presenciais nos sábados imersivos, cação.
te do trabalho desenvolvido pela comunida- Narrar é também o processo de nos entender- que constituíram uma experiência fortíssima Agradecemos às instituições académicas
de. Neste contexto, desafiamo-nos a tornar mos e darmos sentido ao que fazemos. de construção da cultura e identidade Out em que alguns de nós trabalham e que nos
público, num processo de externalização de Cada uma das treze histórias que com- Going. acolheram em diversas atividades ao longo
uma obra coletiva (Bruner, 2000) e a produzir põem este livro transporta muitas realidades A sequência pela qual as histórias surgem, do projeto, bem como aos Centros de Inves-
este livro de mini-histórias (Reggio Children, numa composição de vozes, experiências, lin- não é relevante. No entanto, optámos por co- tigação em que o trabalho académico se en-
2021), de narrativas OutGoing onde conta- guagens e conceitos que fomos integrando ao meçar pelas histórias que envolvem bebés e quadra.
mos as experiências vividas pelas crianças, longo da jornada da CoP OutGoing. Emergem crianças em creche, até aos três anos, apenas A todas as instituições de educação, priva-
pelas educadoras e pelos outros elementos sempre das experiências OutGoing (experiên- pela ideia de que nestas narrativas se encon- das, da rede solidária e da rede pública, que
da CoP OutGoing em relação com o mundo. cias de imersão outdoor) das crianças com as tra muito presente um modo de aterrar com acarinharam estes modos de aprender, agra-
educadoras nos seus lugares de eleição onde os pés na terra, num contacto físico e senso- decemos o apoio dado ao trabalho desenvol-
Esperamos que apreciem este livro... puderam abrir-se à “paixão de conhecer o rial rico: “Por meio dos sentidos suspeitamos vido e ao projeto OutGoing: crianças natureza
mundo” (Freire, 2007). Depois de documen- o mundo” (Campos de Queiroz, 2005, p.3). e cultura em relação. É no contexto que se
O título que lhe demos foi inspirado por tadas e identificadas, passaram por um pro- Aterrar, como iremos ver, nunca é apenas sen- dão as (im)possibilidades de fazer diferente e
uma das mini-histórias em que as crianças se cesso de escrita dialógica entre dois ou mais sorial. com mais qualidade.
questionam: E quando um bicho da conta e membros da CoP, num processo de reescrita e O capítulo final, em jeito de epílogo, vem Queremos agradecer também às famílias
um caracol se encontram podem transformar- inevitável transformação. Assim, surgiram nar- trazer as tonalidades conceptuais que foram das crianças por também terem acreditado no
-se num só? (sim) Caracol-de-conta. rativas muito diversas em extensão, estilo, lin- permeando as mini-histórias e as narrativas e projeto, apoiando as propostas e permitindo a
Sob a forma de narrativa imprimimos o era guagens (verbal, fotográfica, vídeo, áudio), em que se constituíram como transformadoras da sua documentação.
uma vez… um caracol que conta. modos mais realista, mais poético ou imaginá- nossa forma de pensar e de agir na educação Finalmente, agradecer aqui a todas as
Contar histórias é o modo mais ancestral rio de comunicar e dar sentido às experiências. e na vida. Pensamos que elas podem apoiar a crianças que construíram e continuam a cons-
de nos tornarmos comuns. Quando contamos No encarte final, decidimos incluir um con- intencionalidade educativa de muitas educa- truir connosco o OutGoing, surjam ou não
uma história, partilhamos uma ideia comple- junto de fotografias que dão mostra dos en- doras e educadores de infância e também de neste livro. O que nos ensinaram e o que nos
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possibilitaram aprender, abertas ao mundo e
à vida. A imagem que se tornou icónica desde
muito cedo no projeto (que escolhemos para
a capa deste livro), de uma menina em pro-
cesso de ‘prestar atenção’ a uma rocha jun-
to às muralhas de Évora, evoca essa imensa
potência que as crianças têm para se dar ao
encontro com os outros, humanos e não-hu-
manos.
16 01
Corpo a corpo com elementos naturais
Mais pensamentos na minha cabeça. Os ris- Sentir a sua textura, as suas rugas. Senti-las
cos: será que a caruma as vai magoar? E se de forma intensa e com a alma, criando re-
pisam uma pedra? Quem educa é responsável lação com elas. São um carro. Apitam pii pii.
pelas crianças. Brincam, exploram com as mãos e os olhos e
vão descobrindo, ligando-se a elas, neste ver-
Olhei e vi como pode ser simples, senti a ale- dadeiro contacto do imaginário e do real das
gria e a descontração e coloquei os meus me- árvores perto de si.
dos para trás.
Deixei-as ir e estar ao sabor da sua vontade Tocam, sentem, cheiram, olham, re-olham e
de sentir o chão. provam.
Recordei-me. Também eu, desde criança,
sempre gostei de andar descalça, de sentir o Vejo-as a aproximarem-se e a experimenta-
prazer de estar ligada com o que me rodeia. rem o sabor das árvores, mastigam e sentem
Recordei a tranquilidade, o prazer que isso me com a boca o seu paladar.
dá…
Pé ante pé,
Pé ante pé,
fui andando,
Em frente caminho e não há nada que desvie a minha atenção…
e algo se movia à minha frente.
Afinal há algo que me (per)segue!
O que será isto?
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Novamente…
Tive uma ideia, Abro as mãos…
Vou fazer muitos gestos com as mãos! Fecho as mãos…
O que será que vai acontecer? Parece que estamos a dançar juntos!
Será que é agora que ela desaparece?
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Abro as mãos…
Fecho as mãos…
Continuamos a dançar juntos esta coreografia!
Maria Clara ensaia a subida a uma Olivei- A Margarida ainda não tinha um ano e
ra; tem 4 anos e junta o seu corpo ao corpo pousou em cima de uma pedra. Do cimo da
da árvore. Mede as suas forças e torna-se uma pedra parecia sentir-se grande, segura, con-
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com a árvore. O seu cabelo é agora de folhas. fiante. Era agarrada pela pedra e observava
42 Com a árvore avista uma formiga, um bicho- mais longe, deixava-se estar. Terá sido este o
-de-conta, avista o mundo. Dá-se conta que início de uma relação para a vida?
consegue estar ali em cima, sentada num tron- Agora, a Margarida já tem 18 meses e con-
co, subir e descer sozinha, pedir ajuda quando tinua a gostar de observar mais e mais. Aven-
precisa e chamar os outros para as partilhas. tura-se nas pedras que começou a conhecer
nas suas saídas às Muralhas e em passeios
Este momento foi registado em vídeo e com a sua família. A mãe comenta estas ima-
passado um ano a Fátinha e a Maria Clara vi- gens referindo-se carinhosa e orgulhosamen-
sionam-no agora juntas: te à Margarida como “a minha trepadeira”. E
As pedras ajudam a conhecer mais mundo
— Eu lembro-me, eu lembro-me! — disse de facto é! Para além de trepar, a Margarida
com muito entusiasmo, — Lembro-me do ven- suporta-se nas pedras como se fossem elas
to e de tudo. A Fátinha pergunta se se lembra a dar-lhe a oportunidade e a segurança para
da árvore: — Eu já não me lembrava de tudo… crescer, tal como uma trepadeira a conhecer
mas é mesmo assim! — A Fátinha tenta perce- mais mundo.
ber o que quer dizer com “é mesmo assim”.
— Assim!… Hum… as árvores são como nós, Afeções com árvores
as folhas são como o cabelo e, vês… os ramos
são como os nossos braços. — E abre os seus As relações de aparentamento com outros
braços como se fossem ramos. A educadora muito diferentes trazem sempre mais seres
diz ter saudades de ir passear às Muralhas e para a roda do habitar junto.
a Maria Clara fica a olhar para a imagem do O grupo de crianças foi desafiado a esco-
vídeo em pausa e pergunta: lher uma árvore com quem se aparentar.
—Tens mais? Quero ver… eu também tenho A Lika (5 anos) escolheu uma árvore grande
Com a oliveira, Maria Clara
saudades… e poderosa. Quando desenhou a “sua árvore”, descobre o mundo.
juntou-lhe outras árvores, embora não estives- precipitadamente; amadurece no olhar. Nas
sem efetivamente lá. Ao falarem dos diversos muralhas sobe a uma pedra para ficar próximo
desenhos, seus e dos colegas, a Lika disse: das folhas da sua árvore. Quando foi propos-
— Esta árvore é muito alta e as folhas são to ao Duarte que escolhesse uma árvore na
giras. Aqui no desenho, está ao pé de outras mata, ele hesitou. No dia em que foram à Mata
amigas porque eu não estava lá. desenhar as árvores, o Duarte desenhou uma
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Quando a Fátinha regressou ao seu dese- árvore que não estava na Mata, mas que esta-
44 nho para compreender melhor as palavras da va dentro de si. Ao descrever o seu desenho
Lika, ela ficou surpreendida e disse: fala sobre o seu processo de aparentamento:
— Outra vez? Já falámos, lembras-te? Nes- — A minha árvore não está na Mata, está
se desenho estou eu… quer dizer, está a minha nas Muralhas e eu já a tinha escolhido há mui-
árvore e as outras que são eu quando nós aba- to tempo. Eu não pensei que a tinha escolhido,
lamos para o colégio. mas já tinha. Há muito tempo que eu gosto dela.
A Fátinha percebeu então que a Lika ima- Gosto de estar na pedra que está com ela. A mi-
ginava outras árvores junto à sua, talvez como nha árvore é pequena e quando subo à pedra as
A árvore da Lika (fotografia e desenho)
uma forma de se manter ligada à “sua árvore” folhas ficam muito baixas, pertinho de mim.
e de lhe fazer companhia, quando não está na O Duarte e a Fátinha já não estão sempre
Mata, considerando estas árvores imaginárias juntos no CAIE. A Fátinha agora é educadora
como uma extensão de si própria. do irmão mais novo do Duarte. Um dia pergun-
Perplexa com o discurso da Lika, a Fátinha tou-lhe se ele queria desenhar a árvore dele
perguntou genuinamente como acontecia essa para colocar no placar das famílias da sala
relação com as árvores, ao que a ela respondeu: do irmão e o Duarte disse que preferia levar
— Então… sabes que eu canto e os bichi- uma fotografia da sua árvore. Então, a Fátinha
nhos-de-conta vêm ter comigo… eu também e o Duarte tentaram escolher uma fotografia.
percebo de árvores e falei com elas! Apesar de verem muitas fotografias, o Duarte
Depois desta justificação a Lika, certa de não conseguiu escolher.
que a Fátinha tinha ficado esclarecida, levan- A conversa sobre o que iam observando foi
tou-se e disse que ia brincar com os colegas. fluindo e a Fátinha percebeu que o Duarte, ao ver
as imagens, reacendeu uma série de memórias
O Duarte (5 anos) é um menino muito ob- sobre os dias passados nas Muralhas, sobretudo
servador. Gosta de conhecer e não avança memórias das relações com outros seres.
Ao terminar a conversa, o Duarte disse-lhe: Há uma árvore que é partilhada por três A árvore da Laura
— Eu não quero escolher nenhuma fotogra- meninos e cada um vive a sua relação de for- (fotografia e desenho)
48 passeia as suas mãos pela superfície das pe- gámos, achei-o um pouco renitente, deu-me a com muitos. Na Mata e nas Muralhas tudo se
dras como se as cumprimentasse e as reco- sensação que sentiu falta de alguma coisa, que toca, tudo se aparenta.
nhecesse através do toque. Esse toque quase o sentimento não era o mesmo de quando ia
contemplativo das pedras, de leitura das suas convosco. Sentiu a vossa falta. A Mata não era
texturas, é quiçá um modo de interagir, de se in- a mesma coisa…
ter-relacionar com um mundo ao qual a grande
Nos cepos das árvores cortadas maioria das pessoas não acede. Acompanhar o
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Onde tudo
se toca
52 04
Com as formigas
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Nos espaços exteriores da nossa instituição, há que gostar, mas não podes fazer mal às formi- tranheza face àquilo que estas conseguiam Entre as crianças, algumas já tinham comple-
vários formigueiros. A movimentação das for- gas, tens que as respeitar”. transportar, e admiradas por também gosta- tado 3 anos e outras ainda tinham 2 anos.
migas despertou a atenção das crianças, que se rem de pão. Crianças e formigas partilham um
puseram a observá-las com grande interesse. A Lara virou-me as costas e foi observar com gosto comum: pão.
Este vai-e-vem das formigas levou algumas mais atenção o formigueiro e a movimentação
delas a pararem para observar os seus movi- das formigas. Após alguns segundos , veio ter A curiosidade e a atenção que tiveram para
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mentos e ações. O que seria que elas estavam comigo e disse: com as formigas levou-as a quererem cuidar
56 a fazer? Lara: “Tem pão.” – disse sorrindo enquanto delas, alimentando-as. Levavam pão que so-
apontava para uma formiga que estava a car- brava do lanche, partindo-o em pedaços que
Estando atenta a esta curiosidade revelada regar uma migalha de pão. colocavam no chão, “para que as formigas
pelas crianças, expliquei que as formigas es- Andreia: “Sim, está a levar a migalha de pão pudessem levar para a sua casa”, ficando a
tavam à procura de comida para levar para a para poder comer mais tarde.” olhá-las e continuando a observar aquele vai-
sua casa. As crianças sorriram e continuaram Lara: “A Lala gosta pão.” -e-vem.
a observar a atividade das formigas. Andreia: “Vês! A formiga também gosta de pão
como tu.”
A Lara aproximou-se, mas ao vê-las demons-
trou medo e dizia: “É má”. Tentei ir desmisti- Este processo de respeito e compaixão pelas
ficando: “Não, não é má. Está na vida dela à formigas foi lento. Numa fase inicial, as crian-
procura de comida”, disse. Mas a Lara conti- ças atraídas pela curiosidade queriam pegar
nuava: “É má. Tem medo…”. Eu insistia: “Não nelas, mexer, acabando por as matar.
precisas de ter medo, ela não te faz mal. Só
quer encontrar comida para guardar”. Para evitar que tal continuasse a ocorrer, tive
que estar muito atenta e conversar com as
Numa fase inicial, a Lara não estava conven- crianças sobre a importância de termos res-
cida, mas com a continuidade da observação peito e cuidado também com os outros seres,
e ao ver que o Matheus deixou uma formiga explicando que ao apanharem as formigas
passear na sua mão, olhou para mim e disse, poderiam magoá-las, uma vez que estas são
apontando para a formiga: “É amiga.” Res- pequenas e frágeis.
pondi: “Sim, as formigas, tal como todos os Com o tempo, as crianças passaram a respei-
seres, são nossos amigos”. Ela sorriu e disse: tar e a cuidar das formigas. Aproximavam-se,
“Lala não gosta.” E eu disse-lhe: “Não tens observavam com espanto e até alguma es-
58 05
Caracol-de-Conta
60
63
62
É um ponto de encontro!
Falas das crianças a partir da observação de fotografias das saídas pelo bairro
1 2
Entre pontos e linhas, curvas e contracurvas…
A 3
B D
Dormem de manhã
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Dormem e brincam de noite…
66 na luz da noite…
Agora vemos
muitos caracóis
Procuram Escondem-se porque vão
o seu alimento… nas flores… buscar comida*
69
68 4 5
6 7
8 9
11
Vanessa: Temos falado muito sobre caracóis…
O que achas que é um caracol?
12 13
Cuidado!!! F G
14
73
72
Os caracóis andam 17
15
75
21
apanhou-o…
19
foi mostrar
à Diana.
77
25
76
24
29
27
28
81
80
30 H
A cada passo que damos Um mundo que nos faz sonhar, evoluir e desafiar os nossos próprios limites…
Um novo mundo revela-se para nós, Onde cada experiência nos transforma e nos demonstra algo valioso
Repleto de possibilidades e de novas descobertas. para a nossa vivência diária: as relações!
Relações que se descobrem no caminho…
Relações que se
fortalecem
Relações que contam histórias… lado a lado…
Relações que se transformam em toques subtis…
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Olhares atentos e curiosos
Fazem surgir novas descobertas Cada detalhe, mínimo e perfeito,
Que vislumbramos e nos maravilham Traz consigo uma história revelada:
Pela simplicidade e encanto. A abelha que paira delicadamente sobre a flor.
O caracol que se aninha entre as pétalas.
O bicho de conta que se move lentamente pelas pedras.
As formigas que marcham em fila procurando alimento.
Juntos,
Ultrapassamos as barreiras do desconhecido,
Capturando, através das lentes,
Cada reflexo da beleza do mundo.
Pequenos detalhes
Vão despertando a nossa atenção
e a nossa curiosidade…
Convidando todos os sentidos a envolverem-se
nesta relação com o mundo natural…
nesta tão esperada relação com o mundo natural!
Um novo mundo está a desabrochar!
Nota: As saídas ao exterior foram realizadas em pequenos grupos com crianças de 1 aos 6 anos.
100 07
João e Komorebi
Palavra japonesa para o efeito que os raios da luz do sol produzem quando interagem
com as folhas das árvores. Captura a interação entre a luz e a natureza, muitas vezes
evocando uma sensação de serenidade e beleza. O termo é valorizado na cultura
japonesa pelo seu significado poético e a sua conexão com a natureza.
“Ko” significa árvore ou árvores.
110 08
Das árvores à mata
Andreia Gonçalves
113
112
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Certa manhã, na chegada à mata, após Uma manhã que se esperava igual a
as crianças terem escutado na véspera a tantas outras, não foi! Apesar daquela árvore
história “Catarina, o Urso e o Pedro” onde, ter estado sempre ali, foi através de uma
a dada altura, as personagens sobem o história que o interesse das crianças por ela
tronco inclinado de uma árvore, as crianças cresceu, passando a olhar para ela como
descobriram que um dos pinheiros, tal parceira de brincadeiras e descobertas.
como a árvore da história, também estava
inclinado. As crianças estavam tão encantadas com
Não resistindo à tentação, a Maria as vivências ocorridas lá fora, na mata e,
Carolina aproximou-se e começou a subir nomeadamente, com a relação que foram
dizendo: “Vou subir muito alto, ouviram?”. criando com as árvores, que estas passaram
E subiu até onde conseguiu. Quando desceu, a ser mais um amigo nas suas brincadeiras
olhou para mim e disse: “Foi mesmo como a de faz-de-conta.
Catarina, o urso e o Pedro.” Assim, no momento do conto, as suas
O sorriso espelhado no seu rosto era histórias de eleição e que despertavam
enorme, não só por ter conseguido encontrar logo o seu interesse, eram as que faziam
uma árvore como a da história, mas também referência a árvores
por a ter conseguido subir à semelhança das
personagens da história. Também, depois, quando íamos à mata,
Outras crianças observaram e, tal elas procuravam árvores e com elas, agora
como a Maria Carolina, também quiseram muito concretas, queriam viver as aventuras
experimentar e subir o mais alto que das histórias que tinham ouvido.
conseguiam. E... mais histórias se puderam contar.
116 09
Até à Floresta
As educadoras continuam a alimentar a Mas eu quero saber mais coisas sobre esta
123
curiosidade que se instalou sobre quem planta muito diferente, com ouriços.
122 será esta planta e ativam a atenção das
crianças sobre todas as plantas que com Uma coisa é certa, elas já sabem que este
ela convivem, incentivando-as a descrevê- ouriço nada tem a ver com o ouriço das
As educadoras já sabem que as crianças se Não! Já sabemos que as plantas gostam de las. Tão diferentes umas das outras, num castanhas, afinal é o fruto de uma planta da
fascinam sempre com a água... ficar onde estão. pequeno pedacinho de terra. família das herbáceas, como disse uma das
e sabem que a vão querer sentir nos pés educadoras, tal como o são todas as outras
(ainda que calçados), nas mãos, no corpo... Eu sei que não devo arrancar as coisas! Olha, umas são fininhas, outras não. que estão com ela. Em sala irão continuar a
deixam-nas explorar em liberdade. Elas querem ficar na natureza. Há tantas diferentes! falar dela e das outras.
Mas posso olhar e cheirar…
Boa, isto é mesmo divertido, mas agora E se eu apalpar? Será que me pica?
temos de continuar! Vamos por ali!…
O que iremos hoje encontrar? Não, se tocares com cuidado.
Vamos fotografar e levar para a sala,
O caminho agora está mais seco. As crianças para sabermos o que é!
deixam-se encantar por tantas plantas
diferentes. As educadoras estimulam a sua As educadoras têm vindo a desenvolver com
atenção. E eis que descobrem algo que atrai as crianças esta sensibilidade para com seres
a sua curiosidade. que habitam a Terra connosco!
A caminhada continua e... já pararam outra Algumas crianças tocam e a magia acontece, Uma pedra preciosa, porque nunca
vez. As educadoras apressam-se a ver o que os vidrinhos desfazem-se. desaparece e as gotinhas e os vidrinhos
as fez parar. assim que tocamos desfazem-se e
Ahhh! Desfez-se. Afinal não são pedras desaparecem.
Olha Susana o que está ali a brilhar? preciosas, mas são tão lindas! Como desaparecem se elas vão para a
Parecem vidrinhos! O que será? É um Olhem… venham cá… estão ali também terra? Vão fazer o quê para a terra?
tesouro! gotinhas, as mais redondas, não vêem? Então tu não sabes, elas vão regar as
Serão pedras preciosas como as da Elsa Não são só pedras... plantas!
do filme da Frozen? E se lhes tocássemos? Porque brilham tanto? Parece magia!
Será que conseguimos fazer magia, como no Quando o sol está forte elas brilham mais. As educadoras, perante esta afirmação,
filme?? relembram a questão lançada anteriormente,
inquietando o grupo e desafiando a procurar
gotas de água brilhantes, as mais brilhantes.
127
As educadoras reforçaram junto das crianças Que tipo de pássaro teria vivido ali? Temos que olhar com mais atenção! Não… não são todos iguais… há grandes…
a importância da água no nosso planeta. É Perguntava uma das educadoras. Os passarinhos devem estar assustados com eu já vi, há as águias, as cegonhas…
uma preciosidade maior que a das pedras o nosso barulho… vamos fazer silêncio e essas são grandes!
preciosas. Numa coisa todos estavam de acordo… era esperar um bocadinho… Os pardais são pequenos…
um pássaro pequeno, não tinha deixado Eles vão aparecer! E há outros com muitas cores!
O caminho continua… A “floresta” já se ovos e se calhar já se tinha ido embora.
prepara para esta visita. Será que anda pela floresta? Vamos Uma das educadoras que acompanhava este Se calhar não vão encontrar agora o dono
procurar? grupo interveio começando a questionar do ninho… mas podem mais tarde procurar
Mas... agora foram chamados por um se os passarinhos são todos iguais, ou será saber que pássaros existem ali e se algum
ninho numa árvore. Ainda não chegaram à Durante algum tempo as crianças estiveram que tal como há pouco viram plantas tão deles poderia caber naquele ninho.
“floresta”. As perguntas brotaram. Todos a olhar atentamente à sua volta à procura do diferentes também por ali viverão aves muito
queriam mexer e quiseram saber se havia passarinho. diferentes? Finalmente a floresta… e tantas aventuras já
moradores. Mas ele não aparece… vividas.
Mas o ninho estava vazio e escuro.
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UAU! Árvores gigantes à nossa espera! E olhem Com tempo e liberdade, as crianças Com muito cuidado, dentro do seu chapéu,
só o tamanho da minha sombra. exploraram, sentiram e usufruíram do espaço, a criança mais pequena trouxe consigo uma
Assim consigo ser do tamanho da árvore. onde estabeleceram diferentes relações, família de carochas, que agora coabitam com
demonstrando um sentimento de pertença. todos no jardim.
Enquanto algumas crianças brincavam com a luz Todos os dias as crianças procuram as
e a sombra, outras procuravam os habitantes da De regresso ao jardim de infância as crianças carochas, no recreio do jardim de infância,
floresta...E eram tantos... continuavam curiosas e encantadas. Na memória tentando perceber como é que elas aí vivem,
As crianças sentiram-se acolhidas por tantos e no coração ficaram as experiências vividas e mas é um “jogo de esconde, esconde”,
insetos diferentes que pareciam tão tranquilos sentidas por cada uma delas. pois sempre que as crianças entram nessa
na exploração das mãos das crianças. As Mas… houve alguém que surpreendeu a todos missão, as carochas parecem querer
educadoras apelam à observação, à descrição e à pois trouxe mais do que memórias… esconder-se…
delicadeza nestas interações. Afinal as carochas também parecem gostar
de brincar… ou não estivessem elas no jardim
de infância!
130 10
“Becoming With” o nosso bairro
Saímos da escola rumo ao bairro suscitadas” (Hirao & Chaparim, 2019, p.555). com curiosidade, enquanto as máquinas de feijão!”, diz ele, sorrindo. As crianças
envolvente, em Campo de Ourique, A caminhada decorreu num tempo outro, fotográficas passam de mão em mão. aproximam-se, riem, esticam-se para sentir
sem um roteiro pré-definido. Crianças e mais lento, demorado, tranquilo. Era o tempo De repente, um “Bom dia!” interrompe a o cheiro. Algumas ainda não conhecem
educadoras deixaram-se conduzir apenas das crianças. De olhos bem abertos, seguiam marcha. Uma mão estende-se, oferecendo aquela planta, mas ficam intrigadas. O gesto,
pelas solicitações do lugar, escutando as à escuta do que as chamava – sons, cheiros, um pequeno ramo de hortelã. Era o Sr. José, simples e inesperado, cria um momento
atmosferas que as envolviam (Zumthor, gestos, detalhes. A cada passo, construía- figura habitual nas manhãs do bairro, que de suspensão coletiva – um encontro. As
2006). A orientação não vinha de fora, se uma atenção partilhada, mas não reconhecemos das suas idas ao mercado crianças esticam-se na ponta dos pés e
mas de dentro – do ritmo do grupo, das homogénea. Cada um (e cada uma) seguia para abastecer o restaurante da rua. Entre riem entre si. Os narizes apontam-se para o
curiosidades que emergiam, dos sentidos o que mais o encantava e afetava, atento ao vários sentidos ativados, destaca-se o cheirar ramo, enquanto cheiram aquela planta que
despertos. que mais aguçava a sua curiosidade. daquele ramo, seguido de instruções e os cativa mas cujo «nome de família» ainda
“Sem nenhum roteiro prévio, orientados Um momento em particular parece ideias culinárias para o que poderá este ser desconhecem.
apenas pelas solicitações das atmosferas condensar este espírito: ao passar em utilizado. Enquanto parte do grupo se envolve nesta
(Zumthor,2006) do local, andaram pelas ruas frente a um cabeleireiro, o grupo abranda. “Cheira bem, queres cheirar? É hortelã! troca, outras crianças continuam a explorar.
com a atenção voltada para as sensações Algumas crianças espreitam o interior É para pôr na salada, no cozido, na sopa Umas desenham, outras filmam. Uma em
particular afasta-se e, com a sua câmara, De regresso à escola, a experiência experiência, pondo em destaque como os neste cruzamento de interesses e diferentes
foca-se na roda de um carro estacionado. prolonga-se. Fotografias, vídeos e desenhos nossos olhares podem ser cativados para tão atenções que notamos como múltiplas
Essa justaposição de experiências são revisitados, reconfigurados. Imprimem- diferentes estímulos e, quase em simultâneo, experiências diferenciadas podem ser vividas
revela algo essencial: num mesmo se imagens, sobrepõem-se traços, partilham- tanto pode nos cativar. Descobrimos então num mesmo segundo, com interpretações,
instante, multiplicam-se os olhares, os se memórias. Em pares, as crianças que, enquanto eu e um pequeno grupo de desejos e vontades tão diferenciadas.
encantamentos, os sentidos despertos. desenham o que viram e sentiram. Registos crianças nos encantámos e criámos um Neste encontro de registos fica clara a
Como descrevem Hirao e Chaparim (2019, feitos no caminho completam-se com outros diálogo com o Sr. José (o senhor que nos dá o afetação em camadas que se sobrepõem.
p. 555) “no decorrer da deriva ocorreram feitos à chegada. Os materiais recolhidos – ramo de hortelã a cheirar) o Gaston afasta-se Os registos fotográficos são impressos e os
diversas sinergias com os moradores e imagens, palavras, plantas, objetos – unem- e a sua atenção é atraída por algo diferente. desenhos feitos pelo caminho, completam-
citadinos encontrados ao acaso – por vezes se num exercício de reconstrução afetiva. Enquanto caminha, direciona a lente da sua se com outros à chegada. Em pares,
tiveram rápidos diálogos, outrora conversas Entre fotos e vídeos há um que chama a câmara para a roda de um carro, filmando desenhamos o que vimos e sentimos,
mais prolongadas, o que permitiu uma minha atenção. Há um vídeo, em particular, durante alguns segundos o seu aspeto. É claro inscrevendo experiências que se adicionam
imersão no cotidiano da pequena cidade.” que torna ainda mais evidente a teia de que o momento é o mesmo, pois ao fundo e partilham, juntando materiais diversos
olhares e atenção que vivemos com esta escuta-se o diálogo em redor da hortelã. É recolhidos em experiências diversas e
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com as abelhas.
E quando achámos que nada Nomes e idades das Crianças
mais havia a explorar… eis que, Diana (5) Isaac (4)
de repente… Francisca (5) Samuel (3)
Haaaa… Está um bichinho na Laura (4) Ariana (4)
cabeça do Samuel! Mas… que Tomás G. (5) Amber (5)
Tomás P. (5) Clara (4)
bichinho é? Como se chama,
Tomás R. (4) Leonor (5) 153
o que come? De onde vem?...
Benedita (5) Duarte (5)
152 Hummm
Inspirações em Nicole (5) Margarida (5)
Matthew Willey Vamos pesquisar!
Teté, bichinho!
Outras linguagens…
154
Reflexão das Educadoras Não se trata apenas das abelhas. Tudo (p. 151). Mas para que as crianças se sintam to guide him, it is not half so important to
à nossa volta requer um olhar mais atento, mais despertas e o noticing ocorra com maior know as to feel. If facts are the seeds that la-
No início do ano letivo, as crianças fugiam curioso e sensível. Aqui, surge o conceito de frequência, não se pode dissociar o encan- ter produce knowledge and wisdom, then the
quando viam uma abelha (ou vespa, pois não noticing, tal como nos diz Anna Tsing (2019) tamento e o maravilhamento pelo que as ro- emotions and impressions of the senses are
as sabiam distinguir). Houve tempos ainda, quando refere “da próxima vez que você ca- deia. Sabemos que as crianças são atraídas the fertile soil in which the seeds must grow.
em que as crianças tentavam afastar ou mes- minhar por uma floresta, olhe para baixo. Uma pela novidade, pelo mistério, pela beleza, pela The years of early childhood are the time to
mo matar as abelhas/vespas do nosso recreio. cidade está sob seus pés” (p. 191). E, para a magia e pela fantasia. A natureza proporciona prepare the soil”. (p. 44)
Mas há um momento em que tudo muda. conhecer, é essencial que as crianças passem todos estes atributos, o que, quando lhes é O educador é muitas vezes apelidado de
Quando as abelhas e as crianças coabitam no algum tempo em contextos naturais. Elas têm dada a oportunidade de explorar, leva ao en- jardineiro. É ele que prepara o solo para que a
mesmo espaço, quando as crianças conhe- a oportunidade de testemunhar mudanças tusiasmo e ao encantamento. semente brote em todo o seu esplendor, com
cem as abelhas e os seus mundos se cruzam. na natureza, juntamente com a construção Carson (1998) resume esta ideia dizendo a força necessária para abraçar o mundo a
A pouco e pouco, e mediante o conhecimen- de persistência, confiança e resiliência num que “if a child is to keep alive his inborn sense que pertence e com a consciência que todos
to da vida destes seres, tornamo-nos uma só ambiente ao ar livre. As crianças mostraram- of wonder without any such gift from the fai- somos parte do mundo natural.
comunidade que vive no Jardim de Infância. -nos que podem aprender competências e ries, he needs the companionship of at least Não menos importante é o próprio educa-
Abelhas e humanos são agora parceiros. disposições necessárias para serem capazes one adult who can share it, rediscovering with dor estar sensível, desperto e consciente des-
Só é possível cuidar depois de conhecer e de se relacionar com a magnificência do que a him the joy, excitement, and mystery of the ta realidade, nunca se esquecendo de ouvir as
de nos sentirmos parte da natureza ou, como natureza proporciona. Podem praticar e aper- world we live in.” (p. 49) crianças, respeitando o seu papel ativo na sua
refere Donna Haraway (2008, p. 3) no seu con- feiçoar as suas capacidades de observação, É por isso que o papel do educador de in- visão do mundo e no seu desenvolvimento.
ceito de ‘becoming-with’ (tornar-se com) como pois cada dia é um novo dia num ambiente fância é tão importante, apoiando, acompa-
uma prática de ‘becoming worldly’ (tornar-se mais amável, apresentando novas oportu- nhando, provocando e dando espaço e tempo
mundano), aqui usado numa forma de repen- nidades e desafios. Speldewinde, Kilderry e para estar com.
sar a humanidade e experimentar a (bee-ness) Campbell (2021) referem que “…through their Revemo-nos assim numa outra ideia de
“qualidade de abelha” (Weldemariam, 2020). noticing, preschool children make a transition Carson (1998) quando diz “I sincerely believe
from being nature novices to nature experts” that for the child, and for the parents seeking
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Uma viagem em espiral
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Estar em casa no mundo... “Estar em casa no mundo”, ou habitar o mun- de encantamento para com o mundo natu- caruma, da areia e nas nuvens desenterradas,
ou o coração ao ritmo da terra do, no tempo e horizonte histórico que vivemos, ral, cultural e social. Cada uma delas desvela como diria Mia Couto.
com os desafios da digitalização, do afastamen- pequenos/grandes momentos de encontro,
As mini-histórias e narrativas partilhadas to do corpo e o distanciamento entre os huma- conexão, descoberta, cruzamento, transfor- Conspirar
neste livro revelam-nos experiências de re- nos e os outros seres no mundo (Borges-Duarte, mação, exploração e de imaginação. Estas
conhecimento, proximidade, empatia, cria- 2024) é um desafio para todos. Como manter e experiências de conexão com o mundo na- A ave e o galho onde ela pousa são um só.
ção de laços e interdependências múltiplas potenciar a abertura à Terra e aos Outros? Como tural e cultural permitem colocar o coração Richard Powers (2023, p. 196).
– entre crianças, educadoras, professoras e pertencer, enraizar-se e sentir-se em casa, como ao ritmo da terra como nos diz Ailton Krenak
outros humanos e não humanos – relatos de sentirmo-nos juntos uns com os outros? (2022, p.118), expandindo a compreensão de Ave de galho, caracol de conta, abelha de
uma comunidade que se foi fazendo através As mini-histórias e as narrativas, que emer- que fazemos parte de um todo, num coletivo flores, galho de ave, flores de abelha, criança
das suas práticas, num esforço coletivo de se gem da experiência de existir, envolvem pro- integrado que é a natureza: “Estamos vivendo de tronco, conta de caracol, tronco de crian-
encontrar e criar sentidos. fundamente o ser criança, revelando alianças num mundo onde somos obrigados a mergu- ça, árvore de luz, luz de árvore e tantas outras
Entre os vários eixos que constituem o refe- afetivas com a terra, a caruma, as árvores e a lhar profundamente na terra para sermos ca- simbioses presentes nestas histórias teste-
rencial comum desta comunidade, reforça-se floresta, as abelhas, as formigas, os caracóis, pazes de recriar mundos possíveis.” (p.37). munham uma realidade de inter-relação que
a perspetiva existencial e educativa de que as a luz e as sombras, as pedras e as muralhas, Por outro lado, a exploração de múltiplas é intensificadora de cada singularidade, nas
crianças, como seres, existem “no” e “com” o e ainda com o bairro. Estas alianças afetivas, linguagens de escuta e de partilha – o dese- suas capacidades “de sentir, de pensar, e agir
mundo, natural, cultural e social, defendendo- que significam a criação de afetos entre mun- nho, a fotografia, a colagem, a cartografia, a em intimidade com uma imensidão de seres”
-se a ideia de “educação centrada no mundo” dos não iguais, produzem novas constelações prosa e a poesia, entre outras – relembram- (Drum, 2023, p. 233). O “ser um só” da frase
(Biesta, 2022). Para Gert Biesta, redirecionar a com outros seres – integrando humanos e -nos o compromisso de Loris Malaguzzi para em epígrafe e das histórias aqui presentes sig-
atenção das crianças para o mundo permitir- não humanos – abrindo possibilidades para com as crianças, que têm cem mundos para nifica aprender a ver muitos outros modos de
-lhes-á a tomada de consciência e a descober- outros mundos (Krenak, 2022). inventar, cem mundos para sonhar. Através poder ser, nessas intimidades que vamos vi-
ta das suas potencialidades e dos seus limites, Talvez demorar-se, familiarizar-se com as da imaginação e dos sonhos, as crianças ensi- vendo com tantos outros seres. E aprendemos
do que lhes é oferecido e do que se lhes exige, coisas e as gentes, possibilite manter o afeto nam-nos a ver e a sentir o mundo porque têm isso com as histórias que vamos lendo e que
num exercício conjunto de democracia e de e o pensar e viver com a terra e as árvores e as acesso direto ao espaço dos sonhos onde o alimentam a imaginação das crianças e dos
ecologia. Assim, um dos grandes desafios da aves e os sonhos e as histórias... saber se encontra, expandindo um modo de adultos nas imersões do mundo que vão fazen-
educação, hoje, encontra-se no criar condições Estas narrativas coletivas que traduzem dizer de Davi Kopenawa sobre a cultura Yano- do. Estas imersões dão origem a muitas outras
para que as crianças possam “estar em casa diferentes possibilidades de estar no e com mami (Kopenawa & Albert, 2010). E sonham histórias onde as sensações, as observações
no mundo” (Arendt citada por Biesta, 2022). o mundo, estão repletas de sensibilidade e as raízes das árvores e o que está debaixo da e a imaginação se frutificam, em espiral, te-
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cendo mundos sensíveis de socialização com O espanto ou de tanto imaginar… São encontros que se fazem com muitos; que se abre ao mundo e ao que aí se encontra,
outros seres, onde os afetos se vão instalando. o conhecimento um caracol, uma abelha, uma pedra, um cepo notando, narrando, dando a ver aos adultos
As histórias aqui presentes relatam mo- de árvore, uma sombra… Nestes encontros, que tantas vezes pensam já ter visto e perce-
mentos de imersão no mundo, orientados Há, dentro deste livro, histórias com crian- as dúvidas das educadoras vão cedendo lugar bido o mundo que habitam e os lugares por
por uma cultura educacional que retira ao ser ças que se encontram com o outono através à ousadia de deixar acontecer a descoberta, à que passam.
humano a excecionalidade mundana, que lhe das sombras, do cheiro da terra molhada, do abertura para a entrega dos corpos, ao prazer De muitas formas, no projeto OutGoing,
tem sido atribuída ao longo dos séculos, e que castanho do barro das poças de água, das go- das conexões. E é assim que se pode encon- educamos o olhar. Educar o olhar exige estar
cultiva a atenção ao mundo que é humano e tas de orvalho. Aprendem o mundo com o ca- trar algo, como uma sombra, que nos encontra presente no presente, “requer uma prática de
não humano, ou seja, ao mundo mais que hu- minho que fazem para a “sua Floresta”, para também e descobrir o espanto e as inter-rela- pesquisa crítica que realize uma mudança em
mano. a “sua Mata”, com uma miríade de seres que ções. As descobertas e as aventuras das crian- nós mesmos e no presente em que vivemos,
Os protagonistas conspiram, unem-se no encontram e cujas mãos de todos os humanos ças trazem também mais mundo ao mundo e não uma fuga dele (em direção a um futuro
gesto da respiração e unem-se em muitos ou- do mundo não chegam para contar. O encon- dos adultos e lhes lembram a importância de melhor)” (Masschelein, 2008, p. 36). É olhar
tros gestos, como as histórias vão exibindo. tro com a vida desses seres é um encontro de imaginar; para conhecer, temos que imaginar e voltar a olhar, repetidamente, demorando o
A escrita destas histórias consolidou e am- interesses, de curiosidades, de importâncias e (Molder, 2007). olhar, vendo mais longe, mais fundo, mas per-
pliou a sensibilidade de quem as escreveu, aju- de afinidades que se vão co-construindo. Esta to. É estar aí, plenamente, aprimorando o en-
dando, talvez, a fazer-se outra no seu próprio afetação e afeição pelas coisas do mundo é Go noticing – encontros com (a) atenção contro, repetido ou inesperado, e escutar, com
corpo de educadora e a preparar-se para con- para nós uma resposta hábil (Haraway, 2016) os outros seres vivos, não vivos e imaginários.
duzir ou deixar-se conduzir por outros, nomea- à crise de sensibilidade que compromete a Um dos textos que lemos na comunidade Se, em educação, nos dizem que a inten-
damente crianças, em novas aventuras de (re) nossa relação com os outros viventes, com o OutGoing tem um título raro: Arts of Inclusion cionalidade caracteriza a intervenção profis-
existir em comunidades multi-espécie. As ima- solo, a água, as rochas, os ecossistemas. “A or How to love a mushroom. Escrito por Anna sional: dá sentido à ação, projeta-a para um
gens, os desenhos, as palavras contidas nas crise de sensibilidade ao mundo é em grande Tsing (2010), conta histórias de observação, futuro que somos capazes de antecipar, dese-
histórias não pretendem ser representações medida o resultado da extinção de experiên- atenção, emoção, afetação e conhecimento nhar e desejar; e se, em investigação, é neces-
do mundo, mas aspiram a ser “condensações cias com aquilo a que chamamos natureza” dos cogumelos, seres de construção de rela- sário perspetivar o futuro em forma de objeti-
poéticas de outras palavras, de outras imagens (Morizot, 2022, p. 6). Nas histórias deste livro ção e de concretização da ecologia do mundo. vos mensuráveis, operativos e exequíveis… no
de outros desenhos, de outras histórias, como contam-se acontecimentos que resistem à ex- Go noticing… foi inspiração. Nos passeios, nas OutGoing praticamos a lentificação do tempo,
se se tratasse, sobretudo, de puxar fios e de ir tinção da experiência com os outros, humanos visitas e revisitas aos lugares da vida quotidia- a repetição de atividades, exercitamos o em-
tecendo, de muitas formas e continuadamente, e não humanos, mostrando a importância des- na das crianças que participam no OutGoing, a pirismo delicado (Goethe citado por Valente &
a textura do mundo” (Caeymaex, 2019, p.43). ses encontros inesperados. sua atenção parece apurar-se. Apura-se por- Ilhéu, 2021). Buscamos a atenção sem inten-
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ção (Ingold, 2020; Biesta, 2022) – to pay at- sentificam aquele caminhar da descoberta fortável […]. A pedagogia pobre oferece
tention is not a matter of intention, of focusing da sombra; meios que podem nos tornar atentos, que
our attention on something we already know, Fotografias que permitem ver uma e outra eliminam ou suspendem a vontade de nos
but it is about opening up and allowing our- criança (con)centrada no mundo, sabendo submetermos a um regime de verdade (Fa-
selves to be affected (Biesta, 2022, p. 96). que é o olhar educado das educadoras que bian, 2001) ou de nos submetermos a uma
Estas histórias são elementos que fazem as dá a ver e as permite acontecer; vantagem ou lucro. A pedagogia pobre não
parte de um movimento de tomada de cons- Encontros imprevistos com os outros sobre promete lucros. Não há nada a ganhar (não
ciência das vivências e das práticas de crianças os quais lemos na narrativa Em (trans)for- há recompensa), não há lições a serem
e educadoras em múltiplos Jardins-de-Infân- mação com o mundo. aprendidas. No entanto, essa pedagogia
cia e Creches, dentro e fora de portas. Práticas Em comum têm um modo de noticing, de é generosa, ela oferece tempo e lugar, o
inventivas e interessadas de aproximação a ir ao encontro de, ou de abertura ao que vem tempo e o lugar da experiência
outros seres e ao mundo, conscientes que so- ao nosso encontro. Um tempo de Estar e Ser (Masschelein, 2008, p. 43)
mos e estamos no mundo com muitos. Mas são suspenso e ancorado no tempo lento, de re-
também tempos de pausa, pontos de reencon- flexão, de escrita, aprofundado nas conversas Um dia, a Mariana falou-nos de Lévy-Le-
tro com o quotidiano, desvelando, desfiando e nas atividades em comum e no estar com. No blond, um físico contemporâneo que afirma a
tecendo conversas, espantos e inter-relações. estarmos juntos no mundo natural e cultural. existência do livro de contos da natureza, para
Pontos de vista partilhados fazem emergir Encontros entre próximos ou entre os que além do seu livro de contas (Gomes et al., no
acontecimentos que assim surgem na espuma que se vão familiarizando ou aparentando. En- prelo). Divergindo da tendência que tem ocul-
dos dias e oferecem possibilidades de estar e contros com palavras e que celebram a alegria tado os processos de educação em função do
educar: de nos sentirmos em casa no mundo e juntos. seu livro de contas, aqui contaram-se histórias
“Tocam, sentem, cheiram, olham, re-olham Movimentos em direção a possibilidades efeti- que alimentam o livro de contos da educação.
e provam” lê-se em Corpo a corpo, numa va e afetivamente criadas.
narrativa da sensorialidade da relação com a Perante a abundância do mundo, busca-
natureza; mos, de modo errante e incessante, praticar e
A densificação do instante da busca lúdica, inspirar uma pedagogia pobre que
concentrada, persistente, da própria som- nos convida a sair para o mundo, a nos
bra, de uma criança de 2 anos, tornando expormos; em outras palavras, a nos co-
clara a atenção das educadoras que pre- locarmos numa “posição” fraca, descon-
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