ROUBANDO A
NAÇÃO
Por: Lucas Panini
09/11/2025
4ª Versão
PERSONAGENS
1 – Fundador. Homem mais velho. É seguro e sincero.
2 – Filho de 1. Jovem. Avarento e fragilizado fisicamente.
3 – Ex-Esposa. Foi casada com 1. Esbanjadora e colérica.
4 – Assessor Jurídico. Casado com 3. Aproveitador e apaixonado.
5 – Contadora. Inteligente e realista, mas egoísta.
6 – Investidor. Inseguro e omisso. Covarde.
Garçom – Trabalhador sem rosto. Aparece na última cena. Só serve
pratos.
Sobre um palco escuro se encontram caixas de madeira, escadas e
objetos industriais cobertos com lençóis e capas de proteção,
como no centro, que existe uma grande superfície retangular em
meio a cena. Esse é um armazém.
Nas cortinas, um vídeo é projetado. É uma propaganda otimista
destacando o ótimo serviço do Banco Nação.
“Imagine só um banco que nunca te deixa na mão. Um que esteja
sempre preparado para te atender. Um que te conhece de nome e
sobrenome. Um banco onde você não é só mais um. E uma nação da
qual você já faz parte. Banco Nação, somos todos parte da mesma.”
1 e 2 ENTRAM. O primeiro carrega o segundo, completamente
ensanguentado, e mal conseguindo se manter em pé.
2: Eu vou morrer. Eu tô morrendo.
1: Fica quieto.
2: Eu tô morrendo, eu juro. Eu vou.
1: Você se formou?
2: O quê?
1: Por acaso você se formou? Como eu mandei?
2: Não.
1: Pois é. Se tivesse me escutado você já ia ser médico. E aí sim, ia
poder dizer se tá morrendo ou não.
2: Pelo amor de Deus. Só me leva pro hospital. Acho que foi no meu
baço. Ou no meu estômago com certeza.
1: Você trancou no primeiro semestre, moleque. Não sabe nem onde
fica um baço.
1 repousa 2 sobre o chão, estirado, e passa a conter o
sangramento.
2: Você tem que chamar uma ambulância.
1: Não dá.
2: Vai me levar pro hospital, né? Não vai?
1: Espera todo mundo chegar. A gente precisa de todo mundo aqui.
2: Policial cuzão. Nem olhou pra mim, nem olhou na minha cara. E me
desceu a bala, eu não acredito. Eu não vou aguentar.
1: Fica quieto que você aguenta. Vai apertando. Vai aguentar.
2: A gente paga uma fortuna de plano de saúde. Pelo amor de Deus. É
só me levar, ninguém vai perguntar nada.
1: Cala boca, André. deixa eu pensar.
2: É 2, pai. E fala baixo pra ninguém ouvir. Eles podem ter seguido a
gente.
1: Ninguém seguiu não.
2: Eu não acredito que troquei tiro com policial. Anteontem eu tava
pegando um voo de Madri, e hoje tô levando tiro igual um favelado. Eu
não acredito nisso.
1: Você escolheu fazer parte disso.
2: Eu precisava.
1: Não precisava. Eu avisei. Eu ia resolver tudo.
2: Eu tinha que saber o plano. Não podia deixar você se ferrar.
1: Olha pra você agora, todo ferrado.
2: Ferrado, mas ainda tenho uma bala! (Puxa a arma do coldre para
se exibir) Eu fui bem?
1: Parecia cego no meio de um literal tiroteio. Você tá vivo é milagre.
2: É muita habilidade, isso sim. Furei o pneu de uma viatura, eu tenho
certeza. Mas aquele segurança estúpido, não era nem pra ele tá lá.
Pegou na arma e achou que era herói. Era só um guardinha de merda,
tomara que tenha morrido. Morrido no meio-fio igual pobre.
Um barulho estrondoso de portão se abre a distância.
1: Tá com a arma?
2: Tenho só uma bala.
1: Eu tenho duas. Dá essa aí que eu me viro.
Eles trocam de pistolas. Aos poucos, 5 entra em cena. Esbaforida,
e tira a máscara, para então vestir o par de óculos em seu bolso.
2: São eles? Eles chegaram?
1: Não, é ela.
5: O que aconteceu? Quem foi?
1: Não dá pra saber.
5: Óbvio que dá. Quem pegou a grana? Foi você que saiu correndo
primeiro. Eu vi.
1: Fui socorrer ele. (Sai da frente do corpo do 2, revelando sua
posição frágil enquanto estirado no chão)
5: Merda, ele morreu?
2: Eu tô vivo, porra.
5: Inferno. Ia ser melhor dividir em 5.
1: Cuidado com o que você fala. Tenho certeza que vai ter dinheiro pra
todo mundo.
5: Eu duvido. Tem meio milhão.
1: Só? E o resto?
5: Eu só vi uma maleta saindo do banco, depois do tiroteio. Era o 4 que
tava levando.
1: Fodeu... aquele panaca vai embora com o dinheiro.
5: Não vai não. A esposa dele tá no carro com o 6, eu vi eles fugindo.
Se ele quiser descobrir se ela tá viva vai ter que vir pro ponto de
encontro. Igual a gente combinou.
1: Quem você acha que foi?
5: Difícil dizer.
1: Não fode. Eu te pago pra pensar.
5: Eu sou contadora. Não detetive. Mas de uma visão financeira, eu
diria que o 6, ou o 4 e a 3 juntos, ou seu filho.
2: Eu? Tem uma bala no meu estômago!
5: Esse é o seu fígado.
2: Quanto mais a gente tem que ficar esperando?
1: Até todo mundo chegar. Ou pelo menos o dinheiro.
2: Foda-se o dinheiro. Meio milhão não dá pra nada, não cobre nem as
prestações do jatinho, pai.
1: A gente vai ter que abrir mão de muita coisa, eu já tinha te dito isso
quando te contei o plano.
5: Até do Beach Tênis, garoto. Se prepara. Agora vai ter que jogar futsal.
2: Vai se foder.
5: Se tudo der certo, o 6 bateu o carro ou foi pego. Vão rezando. Porque
aí são menos dois na jogada, e menos três se o garoto não sair vivo.
2: Eu tô vivo.
6: E nós também. (Entrando em cena)
6 Entra pelo portão aberto, ele ajuda 3 á entrar, ela tem o pé
enfaixado. Ela se solta dele e vai mancando até o 1 para ser
abraçada.
3: Foi ele! Me solta. (Fugindo dos braços do 6) Foi o 6, eu avisei. Eu
disse que ele não ia tá disposto a colaborar igual o resto. A gente não
devia ter dado confiança pra emergente!
1 e 5 tiram suas armas e apontam para 6.
6: Pelo amor de Deus, eu não fiz nada.
3: Mas a corna da esposa dele fez!
5: Que porra você tá falando?
1: Conta logo.
6: A minha esposa. Ela sabia do plano.
5: Não é possível. Você é idiota? Foi a primeira coisa que eu disse. Eu
falei que ninguém mais podia saber!
6: Eu juro que ela não ia contar pra ninguém. Mandei ela me esperar na
saída da cidade. Eu juro. Ela me ama, nunca faria nada de ruim pra
mim, nada mesmo.
3: Não até pegar você traindo!
5: Eu não acredito...
6: Ela me viu com outra mulher, hoje de manhã. Mas eu tinha que vir
pra cá depois do almoço, eu não ia ter tempo de avisar vocês.
1: Você botou tudo á perder por um rabo de saia? Seu porra, agora
meu filho morreu por sua causa!
2: Eu tô vivo.
6: Não é qualquer mulher eu juro. A Bárbara é a mulher da minha vida,
mas a Su também é. Você sabe 1, sabe que foi ela que pediu pra eu
investir no Banco Nação. Ia ser injusto eu não envolver ela nisso. É por
causa dela toda a fortuna que ganhei com o Banco Nação, tudo que eu
investi. Eu não quis ser ingrato.
3: O Banco Nação faliu, ela também tem culpa no cartório?
5: A gente não faliu, tá? Eu nunca ia deixar isso acontecer. Foi uma
série de erros, que todos nós cometemos. Mas falir? Não.
1: Daí o roubo. Pro Banco Nação acabar no auge.
3: Eu sei que eu não tenho culpa de nada! tava super comedida com a
minha parte do negócio. Mesmo. Ganhando meu faz-meu-rir enquanto
eu pegava um bronze em Bertioga.
1: É, mas foi você que colocou o burro do seu marido no negócio.
3: É uma empresa familiar, meu querido. Você me colocou por quê eu
era sua esposa, e eu o coloquei por que ele é meu esposo. O erro foi
seu! Ao colocar essa daí! (Aponta para 5) que de família não tem
nada.
5: Me colocaram nessa por que vocês fizeram merda. Foram vocês,
jumentos, que em vez de registrar a dívida financeira, passaram anos
registrando o balanço da dívida com o cliente, que não tinha juros. E
de pouco há pouco ganharam um rombo bilionário de brinde.
6: Perdão, o quê? A gente teve um rombo bilionário?
5: É óbvio, cacete. Ou você achou que a gente tava roubando nossa
própria empresa por hobby?
1: Minha empresa. (Corrigindo)
3: Jura? (Para 1) Você fala isso com orgulho?
6: Eu sabia que tava tudo errado! (Em pânico) Sabia que eu tinha feito
merda. Eu sempre fui tão bom, tão honesto. Mas por culpa de vocês
eu entrei nisso. Lavei dinheiro, roubei um banco, matei um policial, traí
minha esposa...
3: Dessa última a gente não tem culpa não.
1: Foi culpa nossa sim, tudo isso. E de verdade, eu realmente acho que
não valeu a pena. No papel fazia sentido, manter nossa fortuna antes
que fosse tudo á falência. Mas acabou. A gente tem 500 mil, e seis
cabeças pra dividir.
6: A gente tem 6 milhões.
1: Quê?
6: Tá no meu carro, todas as maletas.
5: Nem fodendo.
1: Valeu a pena. Valeu a pena pra caralho.
2 urra de dor no chão, semi desacordado.
1: Valeu um pouco a pena.
5: E o carro do 3?
3: Eu sou a 3.
5: Quis dizer do 6.
6: Sou eu.
5: Merda, isso é muito confuso.
3: Eu avisei que a gente devia ter pego nome de fruta.
6: De cor ia ser legal... eu podia ser Mr. White.
5: Foi o 4. No carro dele. O único que eu vi saindo com uma maleta.
6: Deve ter pego mais uma. E roubado um carro pra fugir, por que eu tô
com o nosso furgão lá fora.
1: O que a gente tá esperando então?
3: Nem vem. A gente vai esperar meu marido bem aqui. Igual o
combinado.
1: Ele não chegou até agora. Seu marido morreu.
3: Seu filhinho bastardo também, e você não me viu comemorando.
1: Ele só tá “quase” morto, tá?
5: Foi o 4, né? (Chegando a uma conclusão) Ele que entregou a gente
pra polícia.
3: O quê? Que mentira.
5: Ele não vem mais. Inclusive já deve tá longe. O otário que propôs o
plano, aí entregou pra polícia, e vai ficar com o que sobrou.
6: Acha que ele fugiu com os 500 mil?
5: Não. Ele entregou a gente por bem mais. Alguma delação premiada.
Há essa hora já deve ter enviado o endereço do ponto de encontro pra
eles.
3: Ele nunca faria isso comigo. Você não sabe do que você tá falando.
5: Seu marido é um homem da lei. Um professor de direito que deve
saber de cabo á rabo umas mil maneiras de sair por cima dessa
situação. Era o assessor jurídico do Banco Nação. E deve ter planejado
isso há meses. Desgraçado... queria eu ter pensado nisso antes.
3: Nunca! Ele ia falir junto comigo se o Banco Nação sumisse. Ele
sabia que a operação ia valer a pena.
6: Minha esposa também me prometeu várias coisas.
3: Acontece que o meu marido é um homem culto e muito inteligente.
E a sua esposa é uma corna inconformada que fez eu levar um tiro no
pé!
O som pesado do portão toma conta do ambiente novamente. 4
entra pelo portão, bem ensanguentado, mas saudável. 3 corre para
abraçar o marido.
3: Amor, ai meu Deus. Eu não acredito. (Corre manca, até o 4)
4: Paixão, você tá viva. Graças a Deus. Se você soubesse o quanto eu
rezei. Eu vi de longe aquele policial covarde te dando um tiro no pé.
Não me aguentei, e passei com o carro encima dele, duas vezes.
Como ele tem coragem de atirar numa dama?
5: Ela tava de máscara. Como que ele ia saber?
3: Eu tenho uma silhueta bem feminina, tá? (Respondendo 5 e depois
se voltando para 4) Amor, você não sabe o que ela disse. O que todos
eles disseram! Disseram que você tinha me traído, que entregou a
gente pra polícia e fugiu.
4: Isso nem faz sentido!
3: Foi o que eu disse!
4: Não tem por quê eu entregar vocês. Tudo que eu tenho vem do
Banco Nação. Ser professor não paga nada.
3: Deixa eles sonharem!
6: E ser assessor jurídico paga tudo?
4: O quê?
6: Se tudo que você tem vem do Banco Nação, você deve ganhar muito
como assessor jurídico, não?
4: Tsc. Cala boca.
1: Ganha bosta nenhuma... (Chegando a uma conclusão) seu filha da
mãe, você tava me roubando! Foi você!
1 aponta sua arma para 4. E 4 aponta a dele de volta.
1: Como você conseguiu, seu merda? Foi você que deixou? Você
sabia? (Aponta pra número 5)
4: Eu paguei pra ela, tá? Dinheiro não era mais problema.
5: Pessoal, isso não importa, não mais.
1: Óbvio que não, agora que vocês faliram com a minha empresa, né?
Fuderam comigo e agora querem mudar de assunto. Foi daí que surgiu
essa merda de rombo milionário, né? E eu caí igual um patinho. Você
podia me mostrar uma equação de primeiro grau que eu ia acreditar
em qualquer merda que você falasse, sua trambiqueira.
6: E eu? Comprei metade desse banco pra salvar da falência, eu
investi tudo que eu tinha. Você prometeu que eu ia triplicar meus
ganhos. Agora tô aqui, ensanguentado por quê tive que sair na mão
com um policial.
1: E os milhares de clientes do Banco Nação, hein? Coitados. Eles
confiaram em mim. Em todos nós! Quantas famílias vocês não
destruíram?
3: Ai, essa foi demais! Desde quando você se importa com família,
Carlos Emanuel?
5: Ele é o 1!
3: Chega dessa porra, eu não aguento mais. Não entendo nada que
vocês falam com esses números, parece até meu primeiro AVC.
Ninguém aqui é santo, não. Todo mundo sabia o que tava fazendo. E
você explorou milhares de pessoas, até a última gota. Você é o gerente
de um banco, não o pai de cada cliente. Você só dita as regras, e eles
que decidem se confiam em você ou não.
6: É isso que faz você conseguir dormir á noite?
3: Não, é o Lorazepam.
4: E de qualquer jeito, já aconteceu. Não importa o que a gente fez até
aqui, tudo trouxe cada um de nós pra esse mesmo lugar, se
arrependendo ou não. Eu sei que eu não me arrependo. Por quê todos
nós vivemos o melhor da vida. A nação era o que importava pra cada
um de nós, era nosso sustento, mas já tava nas últimas. Decaindo
cada dia mais. E por isso eu até me orgulho do que a gente fez aqui
hoje. A gente sugou até a última gota, fizemos suco até do caroço.
Agora é hora de abandonar a nação, e começar de novo, em outro
lugar. Criar uma nova oportunidade! Somos empresários, é o que a
gente faz!
1: Sei que eu nunca mais quero ver vocês na minha vida. (1 abaixa a
arma, e 4 segue o mesmo movimento)
3: Não precisa pedir duas vezes.
6: Eu acho que vocês tão certos, sim. No fim do dia, valeu a pena. Nós
fizemos escolhas erradas, mas tá todo mundo aqui, vivo.
2 tem leves espasmos no chão.
6: A maioria...
1: Vamos se apressar, por favor, pegar a maleta que falta e levar pro
furgão. Ver se tá tudo limpo. Não aguento mais ver meu filho se
contorcendo no chão.
5: Ele tá seguro. Vai mais umas 5 horas aí se ele apertar a ferida e rezar
bastante.
3: Vamos, pelo amor de Deus. Eu preciso colocar esse pé num balde
de gelo.
5: Vai ter que amputar isso aí.
3: Se mata.
4: Você fica, paixão. Tá dodóizinha.
6: E eu fico pra proteger os dois, vocês três podem sair pra averiguar.
5: Justo.
1: Fica com a minha arma, Lúcia. Caso alguém entre. (1 entrega sua
arma a ex-esposa, a 3.)
1,4 e 5 saem do galpão. 2, 3 e 6 se espalham pelo lugar, e ficam um
momento em silêncio. Até que 6 acende um cigarro.
3: Eu também quero.
Ela vai cambaleando e cai no chão, por falta de apoio nos pés. 6 se
aproxima para ajudá-la a se levantar.
6: Bye bye Sandália de dedo, né? (Ironizando)
3: O quê? Oque que você disse?
6: Por causa do dedo né. Você... perdeu o mindinho. Nunca mais vai
usar sandália de dedo.
3: É. (Ela pega o cigarro com raiva e se afasta um pouco.)
Silêncio
3: Mas sabe o que eu acho engraçado?
6: Hm.
3: Eu perdi o pé, por culpa da piranha da sua mulher que perdeu a
cabeça.
6: Muito cuidado com o que você fala, tá?
3: Ou será que foi por causa da sua amante, novinha, que perdeu foi o
cabaço?
6: Você não sabe o que tá falando. Cala a boca, pelo amor de Deus.
3: Eu sempre avisei pro Carlos Emanuel: “cuidado com quem você põe
dentro desta empresa”. Tem muita gente que quer ver quem tá por
cima, ficar por baixo.
6: Eu não sou assim.
3: Claro que não. Não... Eu saberia. Eu te investiguei meu filho! Fui
atrás de tudo que você fez ou deixou de fazer. Se formou em
administração, tomou conta da construtora dos pais, pegou sua
graninha e foi fazendo seus investimentos. Funcionou?
6: Graças a Deus!
3: Duvido! Graças ao sogro, isso sim! Morreu e deixou uma bolada pra
sua esposa. E a tonta da corna mansa deixou o marido mandar e
desmandar no dinheiro. Pobre é uma desgraça mesmo. Ela podia viver
uma vida de madame, mas largou mão de tudo no primeiro chifre. Por
isso que eu falo: Quem nasce pobre nunca deixa de ser. Tá no espírito.
É encardido.
6: Nós investimos juntos, nosso casamento é uma ação coletiva. Não
é igual seu esposo te carregando de lá pra cá igual um cachorrinho. E
não adianta você tentar me diminuir. Eu nunca vou cair no seu papo.
Não vindo de você! Por que o 1 também me avisou de você...
3: Avisou é?
6: Há muito tempo!
3: E falou o quê?
6: Que você é uma aproveitadora. Que ele se arrepende de ter casado
com você mais do que tudo na vida. Que tinha medo de você torrar
tudo em coquetel de remédio pra cachorro!
3: Eu não acredito que você colocou o Billy nisso.
3 saca a arma que recebeu do ex-marido e aponta pra 6, agora
desarmado.
6: Não faz isso, pensa. Eu te tirei de lá, te botei no carro. Você ia tá em
cana se não fosse eu.
3: Erro seu, meu querido! Era o mínimo que você podia ter feito depois
de colocar tudo a perder. Afinal, a polícia só apareceu por sua culpa. A
gente podia ter levado o dobro do dinheiro, quem sabe até o triplo, e
eu não ia estar sentindo essa aflição desgraçada no meu pé que só me
faz ter ainda mais vontade de estourar tua cabeça.
6: Vão achar que você ficou maluca, vão te abandonar aqui!
3: Eles vão é me agradecer! Por quê é graças a mim que a gente agora
pode dividir o dinheiro em 5!
2 levanta seu tronco do chão e atira com sua arma em direção á 3.
A matando.
6: Meu Deus! Puta que pariu. Você me salvou. Cacete. Muito Obrig-
6 é baleado por 4. Que volta junto com o resto dos seus colegas.
4: Que porra foi essa?
5: Ufa. Agora a gente pode dividir em 4!
2: Ela ia matar ele. Culpou ele pelos policiais. Ele só se protegeu.
1 se aproxima do corpo da ex-esposa para pegar sua arma de volta.
4 se aproxima do corpo de 6 pra verificar, e repara que não tem
arma alguma perto dele.
4: É mentira. Ele nem tem arma. Seu moleque burro.
2: É verdade! Você podia ter perguntado se não tivesse aberto o peito
dele com um tiro. Ele era uma vítima!
4: Esse porra entregou a gente pra polícia. É por culpa dele que você tá
estirado no chão botando os bofes pra fora, seu burro. Eu não acredito
que você matou ela. (4 aponta sua arma para 2, ainda no chão, que
aponta sua arma de volta)
1: Abaixa essa arma. (1 aponta sua arma para 4, afim de proteger
seu filho)
4: Ele a matou.
1: Ela ia matar ele também. Era questão de tempo.
4: Que mentira.
1: Ela só queria diminuir o número de divisores. Essa doida só pensava
no lucro.
5 saca sua arma e aponta pra 1.
1: Endoidou? O que você tá fazendo?
5: Pensando no lucro.
2 vira sua arma pra 5.
2: Eu mato ela, pai.
5: Não antes de eu matar seu pai.
Um silêncio profundo se instala no armazém.
1: Vamo todo mundo baixar as armas.
4: Eu mato esse merdinha!
5: Agora não dá pra voltar atrás.
1: ...Foda-se.
Todos se atiram. 4 é atingido por 1 e cai morto. 1 é atingido por 5 e
cai no chão. 2 não tinha mais balas pra atirar em 5, que é a única de
pé.
5: ...Foi ótimo fazer negócio com vocês.
5 vai até o corpo de 6, pega a chave do furgão e segue até a saída do
lugar. 1 se arrasta até seu filho, se apoia sobre a parede, e coloca o
torso de 2 sobre suas pernas.
O barulho das viaturas se forma ao fundo. Bem como as cores da
sirene policial atravessando os vidros do armazém e tomando
conta da cena.
1: Acabou, meu filho. Já acabou. Eles chegaram.
2: Devem ter ouvido o barulho dos tiros.
1: Devem ter pego aquela golpista antes dela botar o pé pra fora. Mas
agora já deu. Acabou tudo. E a gente vai morrer aqui. Mas nós vamos
continuar juntos.
2: Não... eu não vou.
1: Vai, meu filho.
2: Eu não vou. Não vou morrer.
1: O quê?
2: Eu não vou morrer, pai. Eu tô com eles.
1: André. O que você disse?
2: Eu tô com os policiais. Eu entreguei a operação.
1: Entregou é?
2: Sim. Faz semanas.
1: Hm
Os dois estão bem esbaforidos e a beira da morte. 1 então pega de
novo seu revólver, agora com uma última bala. E a repousa sobre a
cabeça de seu filho.
2: Pai?
Ouve-se o som de um tiro. E então BLACKOUT
As luzes se acendem novamente. O lugar ainda é um armazém,
mas não está mais repleto de corpos.
5 entra novamente em cena. Seu terno continua impecável, e sem
manchas. Ela anda pelo lugar, observando, senta sobre uma caixa
e acende um cigarro.
4 então entra pela porta, saudável e sem ferimentos.
4: Vai ser aqui, então?
5: Não gostou?
4: Tenho uma área de lazer nas redondezas. Era só ter avisado.
5: Não podia ser um imóvel no nosso nome né? Gênio.
4: Ninguém sabe do roubo mesmo. Não vai ter policial pra seguir.
5: Prefiro prevenir do que remediar. Onde tá a Lúcia?
4: Lá fora, falando com o ex-marido dela.
5: Ciúmes?
4: De jeito nenhum. Ela só é grata ao velho por ele ter envolvido ela
nisso. E a mim também. O Banco Nação foi realmente importante pra
nós. Você sabe melhor do que ninguém.
5: Sei? Pelo o que eu me lembre o meu cheque ainda não caiu.
4: Tô liso. Investi tudo em coisa fora do Brasil. Espera só eu receber
minha mesada ainda hoje, dentro de uma maleta.
5: Bom mesmo. Quer levar as coisas pro furgão? Já tá tudo aí.
4: Claro!
4 e 5 saem do Armazém. Pouco tempo depois, 3 vem olhar o lugar,
e é seguida por 1.
3: Já sabe o que vai fazer com o dinheiro, Carlinho?
1: Nem ideia. Acho que nem sei como gastar tanta grana.
3: Isso é culpa da sua falta de imaginação. Eu consigo imaginar umas
50 formas diferentes de fazer isso.
1: E qual você escolheu?
3: Promete que não vai me copiar?
1: Perante a Deus.
3: Nós vamos pra Gibraltar. Paraíso fiscal. Viver uma vida simples ás
margens da praia de La Caleta. Eu sou uma mulher que se contenta
com as coisas simples da vida.
1: Sei muito bem o que você quer dizer com isso.
3: Só promete pra mim que não vai deixar tudo que você conquistou
pros netinhos. Quer dizer, há não ser que você me ponha na lista da
herança... aí serei a maior apoiadora dessa ideia.
1: Meus filhos merecem herdar coisas boas. Como eu também herdei
do meu pai.
3: Quem? O André? Ele não merece nem o chão que pisa.
1: Nunca vou me acostumar com você falando essas coisas dele.
3: É questão de tempo, vai por mim. As vezes a fruta cai bem longe do
pé, sim. Você pode ter dado orgulho pro seu velho até o último
segundo. Mas o André não faz esse tipo. Se a gente veio de berço de
ouro, ele deve ter vindo de um feito de diamante. E quem não tem
medo de perder tudo, não entende quase nada da vida.
1: Você nunca teve medo de perder nada. Aproveitava cada momento
como o último dia. E você não o conhece como eu conheço.
3: Aproveitei justamente por que tive medo de perder! Não pra
falência, é claro, já que não conseguiríamos nem se tentássemos! Mas
de perder tudo pra justiça.
1: Terrestre ou divina?
3: Ando em débito com as duas... e eu conheço André tão bem quanto
conheço qualquer aproveitador!
1: Por quê um reconhece ao outro?
3: Mas é claro! Todos que toparam esse plano são pessoas que eu
nunca confiaria minha vida. Por que fariam de tudo pra sair por cima!
Menos aquele investidor lá. É só um emergente. Facilmente alguém
que nos entregaria na primeira oportunidade.
1: Não confia no seu marido?
3: Eu só não desconfio dele por quê sei que ele confia em mim.
1: Justo.
3: Carlos.
1: Sim?
3: Por quê acha que não demos certo? Digo, eu realmente estava
disposta a fazer acontecer.
1: “A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer
honesta” E você não se encaixa em nenhuma das duas.
3: E você se identifica como Júlio César? Pela queda da República
Romana ou por ter sido traído pelo próprio filho? Sério, e ainda dá a
entender que o erro foi meu...
1: Não disse isso. Acho que o erro foi mútuo. Nós dois afloramos o pior
um no outro. E por isso estamos aqui hoje.
3: De fato. (Ela se aproxima do ex-marido, e o confere um último
beijo)
2, 4, 5 e 6 entram no Armazém. Todos estão presentes.
1: Já chegaram todos?
5: Espero que sim. Ainda não me conformei de ter que dividir o
dinheiro em 6.
3: Como estou? (Vestindo sua máscara e mostrando a 4)
4: Estupidamente feminina.
2: Acha que acabamos antes das 18:00?
6: Às 18:00 já tô fora da cidade. Gastando tudo em sidra e charuto!
1: André, trouxe as pistolas?
5: Eu queria falar sobre isso. Não vai rolar usar nomes próprios,
3: Eu pensei a mesmismíssima coisa. Por isso decidi que nós dois
vamos ser Bonnie e Clyde! (Enquanto aponta para si mesma e para
4)
2: Eu espero que sim. Por quê eles morrem no final.
6: Posso ser o Mr. White? Igual na série!
5: Não. Vai ser uniformizado. Um mesmo tema pra todo mundo.
6: E se for cores? Eu ainda posso ser Mr. White.
3: Que tal frutas!? Aí eu sou a acerola e ele a laranja.
5: Pelo amor de Deus. Vão ser números! Pra facilitar a comunicação.
1: Sou 1. Por quê fundei a empresa.
3: Sou do-
2: Eu sou o dois. Por quê sou o segundo em comando.
6: Ou só o filho do chefe.
3: Sou a 3 então.
4: Eu o quarto.
5: Fico com o 5.
6: Sou o 6. Por quê o melhor fica no final!
5: Um só furgão. Peguem as armas no baú. Mas deem preferência pras
pistolas. 6 vigia a porta. Então 1 e 4-
2: Vai repassar tudo mesmo? Passei os últimos meses ouvindo isso. Já
tive até sonho com o plano.
5: Tudo bem. É isso, então.
6: Vai ter saudação em grupo?
5: Não. Não importa o que acontecer, vejo vocês bem aqui, daqui uma
hora.
Todos concordam e saem um a um da sala. Até que 2 fique por
último. Na frente de seu pai.
1: Ei.
2: O que foi?
1: Boa sorte.
2: Você não me deu boa sorte nem no meu teste de direção.
1: Isso daqui é vida ou morte.
2: É. Obrigado, pai.
1: André, você não me trairia, não é?
2: O quê?
1: Você me abandonaria? Me deixaria pra trás?
2: Você viu alguma coisa?
1: O quê? Não?
2: Tudo bem. Não deixa pesar essa culpa de ter fudido um monte de
gente por causa de um banco. Não agora. Ainda vai ter muito pra
pensar sobre.
1: Não vai me responder?
2: Sobre o quê?
1: Se me trairia.
2: Ah... não.
Ele dá um último abraço no filho, que permanece de costas. 2 sai
do armazém e 1 dá uma última olhada no lugar. Para então sair e
fechar o portão uma última vez.
As luzes se apagam. E um novo foco de luz se limita ao objeto
retangular no centro da mesa, ele é descoberto, revelando uma
mesa com seis cadeiras.
Aos poucos os 6 personagens retornam á cena, se sentando em
seus respectivos lugares.
4: Aqui, paixão. (Puxa uma cadeira para que sua esposa se sente)
3: Obrigada. (Analisa todos na mesa para se certificar de que viram
o gesto de cavalheirismo do marido)
4: O Porsche na entrada é seu? (Se virando á 6)
6: É sim! Peguei essa semana!
4: Sabia. É bem sua cara mesmo.
Um garçom, nas sombras, coloca pratos sobre a mesa para todos
ali presentes. E deixa uma bandeja com aperitivos.
2: Eu amo um antipasti.
6: Como assim? (Dando continuidade ao comentário de 4)
4: É popular. O tipo de carro que alguém que ganha na loteria logo vai
atrás... (se voltando à mesa) eu sempre achei que o carro faz o
homem. Meu Phantom faz eu me sentir o Al Capone.
3: Sempre te vi como Tony Montana! Eu ainda não me acostumei com
a onda do carro elétrico! Parece coisa de pobre que quer economizar
com combustível. Pra mim, não tem nada mais prazeroso do que ver o
tanque cheio.
5: Isso daí é tudo por sustentabilidade. Eu não aguento mais. Agora
tudo é feito de papelão escroto e biodegradável.
4: Antigamente as coisas eram bonitas. Tinham acabamento.
3: Lembro dos perfumes da minha mãe. Eu era apaixonada. Hoje
parece até garrafa torta de cachaça.
O garçom oferece os drinques á cada um. Enchendo até
transbordar cada um dos copos, mas ninguém serve ainda.
2: Odeio essa coisa de todo mundo ficar citando “sustentabilidade“
toda hora. Ou quando ficam dando lição de reciclagem em palestra!
Eu tenho cara de catador de latinha pra estar me preocupando com
lixo?
6: Quanto mais enchem o saco mais eu compro plástico! Tõ nem aí. Tô
sempre repondo copo descartável lá na empresa.
4: Falando em catador de latinha, vocês não sabem...
3: Ah não, amor, você não vai falar daquilo! (Rindo)
4: Ah, mas eu vou. Eu fiquei indignado. Acreditam que essa semana
uma mendiga grudou na nossa janela? Uma bem feia mesmo,
desdentada, de dar nojo!
5: Que merda.
3: Do meu lado da janela ainda! Eu dei um grito!
4: Fiquei tão bravo. Achei que a Lúcia ia passar mal.
3: Pois eu não deixei barato! Abri o vidro e xinguei um monte ela. Falei
se ela não tinha vergonha de aparecer assim na frente dos outros. Tem
que ter noção, gente, imagina se tivesse criança no carro?
4: Imagina se aparece na minha frente no meio da noite? Eu atropelo,
achando que é assombração.
O garçom coloca sobre a mesa a entrada do jantar. Uma variação
de bolinhos e saladas.
6: Pedinte é a coisa que mais me dá nojo nessa cidade. Uns homens
fortes, bom pra trabalhar. E tão aí na rua, pedindo esmola. Agora
pergunta se algum tem interesse em capinar um lote? Ou lavar
banheiro?
5: Mas isso, meu filho, é do brasileiro, ninguém gosta de trabalhar não!
Tudo que eles podem conseguir às custas dos outros eles vão atrás!
4: Isso que eu ia falar. Parece que tá encardido na alma do brasileiro.
Vaquinha, rifa, aposta, fiado... sempre procurando um jeito de sair por
cima.
3: Uma vez meu primeiro marido. Que Deus o tenha. Era um
americano, e me levou pra Malibu, pra gente passar um fim de semana
com uns funcionários lá de uma das repartições. O erro dele foi falar
que eu era brasileira!
4: Ah eu não falo que sou brasileiro fora do país nem a pau! Prefiro até
dizer que sou argentino, que fica menos feio.
3: Calma que piora! A gente foi jantar num restaurante chiquérrimo de
frutos do mar e depois passamos numa praça. Lá uma mocinha
cercou a gente. Umas olheiras fundas. Falou que era brasileira,
formada em pedagogia, foi pros EUA pra trabalhar de babá e conseguir
juntar um dinheiro, mas descobriu um lipedema grave. Aí passou a
vender bala baiana pra conseguir uma ajuda.
6: Meu Deus, exportaram até esse doce ruim do cão? Antes vendesse
brigadeiro!
3: Pois é. Mas aí já viu. Eles falaram que eu também era brasileira!
Acredita? Como se eu fosse parecida com aquela pedinte
descabelada. E ela até tentou falar português comigo! A minha cara foi
no chão. Tive que dizer que eram meus pais que eram do Brasil, e que
eu mal sabia formular uma frase na língua deles.
6: Português também é uma língua do cão, hein? Eu sempre ficava de
recuperação.
2: É que tem muito frufru pra formar uma frase besta. Também
bombava nas minhas redações por causa disso. Bom mesmo é no
inglês, não tem como errar verbo to be. Eu até desligo meu cérebro
quando tô falando, por que é tão natural...
O garçom coloca sobre a mesa os pratos principais. São grandes e
opulentos. Mas aqui percebe-se, ninguém nunca toca na comida.
5: É o único motivo de eu não conseguir ouvir música brasileira. Acho
tão estranho. É uma falta de liricidade, tudo é tão fonético e marcado.
Nunca que um tupiniquim conseguiria montar uma ópera. Nem um
fado.
6: Arte eu nem gosto de falar. Por quê é sempre um bando de viado e
puta fazendo bobagem às nossas custas. Acho até mais honrado ser
palhaço de circo, que pelo menos eles tem noção que tão passando
vergonha.
3: Eu nunca conheci uma atriz que não fosse puta! Juro pela minha
vida. Tinha que ver na época da faculdade. Elas davam pra geral! Sei
nem como, tão mal cuidadas.
2: Faculdade é um inferno. Tive que sair por que não aguentava aquele
tanto de maconheiro e comunista por metro quadrado.
6: Mas isso é lei meu amigo! Entrou em universidade pública você vira
ou esquerdista, ou drogado ou afetado. E no pior dos casos vira o três.
5: Fale por você. Eu nunca andei com nenhum desses grupinhos e saí
bem limpa... mas é verdade que foi na faculdade que me
apresentaram a um truque da vida que eu uso até hoje. (Passa o dedo
sob o nariz) E não é plantinha não!
4: Mas isso é tudo culpa do governo, né? Vamos falar a verdade. Só
tem um motivo pra eles continuarem corrompendo a juventude...
5: É que essa galera não quer nunca sair do poder. Esse é o real
problema! Eles não aceitem que a maioria quer eles fora, e ficam
arrumando desculpa. Ficam lá, mamando nas tetas do dinheiro
público, lavando grana até não caber mais.
2: E dando cargo pro papai, pra titia, pra vovó, pro papagaio...
4: É uma roubalheira sem fim.
3: No Brasil, todo imposto vira joalheria de primeira-dama, um bando
de acompanhante de luxo tirada do bordel.
6: E até se você for honesto ao extremo, você acaba se vendendo!
O garçom serve as sobremesas. A mesa agora está repleta,
completamente cheia e apertada. Mas ninguém come nada.
3: Carlos, você tá bem? Ainda não disse nada. (Vai bebericar seu
vinho pela primeira vez)
1: Nós falimos. (3 cospe o vinho em susto)
4: Eu te limpo, paixão, deve ser uma brincadeira sem-graça desse seu
ex-marido. (Vem limpando a sujeira causada por 3)
1: Não tem piada. Nós temos um rombo milionário na conta.
5: Bilionário.
3: Você sabia?
5: Há um tempo. Mas ele queria fazer questão de contar.
6: Eu não acredito.
2: Mas não tem como negociar com o banco?
1: Nós somos o banco.
5: E não foi uma falência de fato. Mas a conta não fecha.
Provavelmente vai dar pra segurar as pontas por no máximo cinco
meses.
3: Com certeza tem um jeito.
1: Acha que não procuramos? Não é só a gente que vai se fuder não. A
chance é grande da maioria dos clientes perderem tudo.
4: Eu não quero falar que eu avisei. Mas não é de hoje que eu percebo
que a Nação vem decaindo.
1: Cala boca ou eu quebro essa garrafa de vinho na sua cabeça.
6: Eu não tô passando bem. Tô falando sério.
3: Eu tenho um marcapasso. Eu juro que se isso for uma brincadeira-
6: E botei todas as minhas economias nisso!
5: Mas você sabe que só oferecemos metade da empresa por quê as
coisas já não estavam indo bem, né?
6: Mas você me prometeu! Eu fiz tudo do jeitinho que vocês pediram,
por que todos vocês prometeram que valeria a pena.
4: Todo mundo aqui vai perder tudo se isso acontecer, não vai ser só
com você.
6: Eu duvido! Vocês nunca passaram por nada do que eu passei! Há 1
ano atrás eu tava trabalhando em um lava-jato.
3: Na verdade, fiquei até mais feliz de não ter passado por isso.
2: Pai. Você disse que ia ser tudo meu. Prometeu que ia ser a minha
chance de ter meu próprio império. Do jeito que o vô fez por você.
Você acha isso justo comigo?
1: Sim, acho bem justo. Com todos nós. A gente já ludibriou muita
gente pra fazer essa empresa continuar funcionando, uma hora ou
outra íamos ter que pagar.
3: Que inferno, eu tava tão feliz, eu tinha tantos planos pra me
aposentar antes dos 40.
5: Eu acho que a gente pode continuar tentando fazer a coisa
funcionar. Achar outro investidor talvez, ou vender tudo. Mas a gente
vai precisar de tempo. E quanto mais tempo a gente ficar sem uma
saída, maior vai ser o buraco, e mais difícil ainda vai ser pra sair dele.
1: Eu sinto muito. De verdade, por todos vocês. Eu queria consertar
tudo, mas não tem como. Não mais. (Se virando ao filho) Não vai
jantar?
2: Perdi o apetite. (Se levanta da mesa)
4: Espera! Ainda tem um jeito... a gente vai acabar de afundar a
empresa, mas em troca, a gente pega uma grande parte do que é
nosso por direito. E ainda achamos um bode expiatório pra culpar pelo
fim. De um jeito fácil. E eu me atrevo a dizer... infalível.
1: Sendo sincero? Eu já não consigo pensar em algo que eu não estaria
disposto a fazer.
4: E se nós mesmos. Por conta própria. Roubarmos o Banco Nação?
Blackout.
FIM