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Contos de Fato: Aventura e Magia

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CONTOS

DE FATO

Por: Lucas Panini


09/11/2025
1ª Versão
PERSONAGENS
1. Narrador
2. Chapeuzinho Vermelho
3. Lenhador
4. João
5. Maria
5. Cinderela
6. Madrasta
2. Irmã Postiça 1
5. Irmã Postiça 2
3. Carpinteiro
4. Pinóquio
2. Bruxa
6. Rapunzel
6. Cachinhos Dourados
4. O Lobo
3. Urso Pai
2. Ursa Mãe
3. Príncipe
ATO I
Ao lado do palco se encontram quatro contadores de
história, esses são os Trovadores. Um deles é o
narrador, e em sua frente possui um tambor. O
segundo é o tradutor, que conta a mesma história
que o narrador, mas em Linguagem de Sinais. O
terceiro é o tecladista e o quarto o bardo, que segura
um instrumento de corda.
Narrador: Era uma vez de fato.
Uma história tecida em tempo.
Não o julgue pelo seu ato.
Mas compadeça de seu lamento.
Em uma vila vizinha, tão distante quanto o sol e tão
próxima quanto um pensamento.
Uma menina levada, leva apressada, e carrega consigo
vento.
CHAPÉUZINHO VERMELHO atravessa o palco
saltitante.
Chapeuzinho: Há muito tempo, mamãe já dizia.
Quem nunca casar vai ficar para titia!
Eu nunca quis saber de namorar.
Por isso sobrou pra mim da Vovó cuidar!
Narrador: Mas existia um problema do qual ela não estava
ciente! Em sua cestinha não levava mais do que sabonete e
pasta de dente!
Chapeuzinho: Nada disso, já pare com a narração. Eu sei
muito bem, que eu trouxe também, esse lindo pedaço de...
caraca, esqueci mesmo...
Narrador: Mas pra ela não é problema, ter que pra casa
voltar!
Chapeuzinho: É claro que é problema, a minha mãe vai
me matar!
Narrador: Vá para a cidade e compre um pedaço de bolo!
Quem sabe a sua mãe nem desconfie que você fez rolo!
Chapeuzinho: Obrigado, homem esquisito que narra tudo
o que eu faço! Mas meu conhecimento sobre sua origem é
deveras escasso. Não sei dizer ao certo se é uma
manifestação, ou se é apenas um fruto da minha
imaginação! (Chapeuzinho sai de cena)
Narrador: Bem perto ali do bosque. Se formava uma trama
sombria. Um pobre lenhador abria mão de sua família.
O LENHADOR anda pela floresta acompanhado de
seus filhos, JOÃO e MARIA
Maria: Papai! Estamos quase chegando?
Lenhador: Espere mais um pouco e já chegamos lá.
João: Papai! Ainda vai ter rango?
Lenhador: Não, meu filho, hoje não vais papar.
Maria: Papai! O senhor está cansando?
Lenhador: Nunca, minha filha, só preciso respirar.
João: Papai! E se comermos frango?
Lenhador: Chega, João, pare de questionar.
Narrador: Sob uma faltosa clareira. No meio da floresta.
Sem fogo ou centelha. Seu coração se desespera.
O que esse homem veio fazer aqui. Vai assombrar sua
mente até a hora de ir dormir.
Maria: Papai! É ali?
Lenhador: Não, é aqui.
João: Papai! Tem caqui?
Lenhador: Tem, bem atrás dali. (Aponta para o outro
lado, para onde as crianças se viram enquanto seu
pai puxa o machado de suas costas e prepara seu
golpe)
Narrador: Golpe fatal. Ferida mortal. Decisão final.
Tormento real. Promessa vital. E fracasso. Sem igual. (O
Lenhador volta atrás em sua decisão, e ele foge,
deixando as crianças sozinhas.)
Narrador: De um lado um homem foge. Atormentado pela
morte. Motivado pela fome. Ele adentra a mata e some.
Do outro lado existiu fartura. Na casa do homem, uma
importante figura. Que casou de novo, com uma mulher
imatura. Que por fim o matou, com um veneno sem cura.
Uma mulher tão cruel, que fez tudo pelo dinheiro. Mas que
herdou também tudo que era seu por direito. Convivia
agora com a filha do passarinheiro. Uma jovem que pagava
por algo que nunca havia feito.
A MADRASTA e suas DUAS FILHAS entram no palco.
CINDERELA limpa o chão.
Madrasta: Cinderela! Faça isso melhor.
Irmãs: Cin. Derela. Faça. Isso. Direito! Se. Re. clamar. Vai.
[Link]! Olha. O. Res. Peito!
Narrador: A garota não tinha vida, não tinha nome, não
tinha nada. Foi arrancada de seus pais e nunca batizada.
Cinderela é o mero nome de sua profissão. Não mais que
uma faxineira, governanta, cozinheira, serviçal e costureira,
essa era sua função!
Madrasta: Sirva. Me sirva. Não quero uma falha, nenhum
erro, nem uma palavra, nem um respiro, eu não quero
nada!
Cinderela: Então o que devo servir?
A sala fica em silêncio. A Madrasta se levanta, e
estapeia Cinderela, que cai no chão.

Madrasta: É burra? É sonsa? É surda? Não consegue me


ouvir? (Sai de cena bufando)
Irmãs: Cin. Derela. Bur-ra. No-jenta. Fe-ia. Ho-rrorosa.
Inutiliza... vel.
(Saem de cena)
Narrador: Mas era quando as megeras saiam de cena. Que
Cinderela finalmente se sentia livre e plena.
Cinderela (Cantando liricamente):
Passarinhos, que inveja.
Cantam soltos, na janela.
Eu me lembro.
Do inverno.
De meu pai.
Do seu terno.
De um dia.
Bem perfeito.
Da alegria.
Em meu peito.
Narrador: Ao lado de fora. Na casa vizinha. Ouvia a
cantoria por horas. Uma doce velhinha. Mas ela já se foi.
Sem nunca seu sonho realizar. E hoje seu marido se põe.
Ainda a rezar.
Carpinteiro: Senhor. Eu desejo. Desejo sim. Um filho. Um
filho só pra mim. Que nunca. Que nunca cause encrenca.
Que eu não. Que eu não me arrependa. (Se ouvem
batidas na porta, o Carpinteiro corre para atender)
Carpinteiro: Pois. Pois. Pois não?
Madrasta: Boa tarde, senhor. Por favor. Trabalho no
orfanato local. É você que requiriu uma criança, ou um
espécime igual?
Carpinteiro: Isso. Isso. Isso sim!
Madrasta: O menino é frágil. E muito delicado. Pode
devolver se eu tiver escolhido o errado. (A Madrasta dá
espaço para que Pinóquio entre)
Carpinteiro: Sim. Sim. Sim, ele é perfeito. Não, não, não
enxergo nenhum defeito!
Madrasta: No meu orfanato, as regras vêm em primeiro
lugar. Ele nunca vai mentir, ele nunca vai sentir, ele nunca
vai brincar, ele nunca vai aprontar! É um bonequinho que
ninguém pode quebrar. Como eu ensinei? (Voltada para
Pinóquio)
Carpinteiro: Muito obrigado, senhor. Agradeço pela
chance, pelo lar e pelo amor. Eu nunca, nunca, nunca, vou
decepcionar o senhor! (O Carpinteiro abraça seu filho)
A Madrasta sai satisfeita e fecha a porta, que logo
recebe novas batidas.
O Carpinteiro então se põe a abri-la novamente.
Carpinteiro: Quem. Quem. Quem. Quem é?
Chapeuzinho: Eu. Eu. Eu. Eu sou uma mocinha que veio da
capital! Pra cuidar da vovó que passava muito mal. Mas
infelizmente esqueci a minha mala. E o almoço de vovó
acabou indo pra vala. Me perdoe pelo rolo. Mas não teria
um pouco de bolo?
Carpinteiro: Quer. Quer. Quer. Quer um pouco de rolo?
Chapeuzinho: De bolo?
Carpinteiro: Bolo de Rolo.
Chapeuzinho: Pra já. A velha vai gostar!
Carpinteiro: Só. Só. Só esperar.
O Carpinteiro sai para ir até a cozinha.
Chapeuzinho: E você, menininho? É neto do velhinho?
Pinóquio: Meu Deus! Não! Não sou o neto não. Eu sou um
menino que foi adotado, de fato, que foi bem cuidado e
então levado para o mencionado e por aqui fui deixado.
Chapeuzinho: Calma! Respira, não pira! Foi só uma
indagação, e não uma acusação...
Pinóquio: Ah tá! Foi mal...
O Carpinteiro retorna com um pedaço de bolo
coberto de pano.
Carpinteiro: Aqui. Aqui. Aqui. Aqui. Aqui. Aqui-
Chapeuzinho: Dá isso aqui! (Pegando o bolo da mão do
senhor)
O narrador toca uma trombeta de anunciação.
Carpinteiro: O que. O que. O que está havendo?
O Carpinteiro, seu filho, e Chapeuzinho saem da casa
para ouvir ao anúncio.
A Madrasta e a Ursa Mãe também aparecem,
curiosas para o pronunciamento.
Narrador (Puxando o R): Senhoras, Senhores e Senhoril.
Anunciação Oficial da Casa Real de Ornamento e Bagaça.
Digo. De Orleans e Bragança. Convidamos todos para o
décimo primeiro aniversário do sumiço da princesa Orleans
e Bragança. Para homenagear sua perda e relembrar sua
memória. Não perca! Um lixoso baile massacrado. Digo. Um
luxuoso baile mascarado. Todos convidados para bailar e
aproveitar no fundo do traseiro do Rei. Digo. No fundo
caseiro. Errei.
Todos se veem entusiasmados com a notícia.
Narrador (Puxando o R): Leia-se também. Proposta de
Oferta de João Ninguém. Nada verborrágico. Troco vaca
leiteira por Feijões Mágicos!
A multidão se afasta. O Narrador fecha o
pronunciamento e o joga fora.
Chapeuzinho (Ao Carpinteiro): Desculpe a ousadia, mas
teria uma vasilha? (Se referindo ao bolo)
Todos saem de cena
Narrador: A notícia era mágica! Se não fosse tão trágica.
Mas uma garota em especial. Era a que mais se encantava
com o baile real.
Cinderela traz uma caixa até o centro, e o revira.
Narrador: Um passarinho lhe contou. Sobre o prometido
baile de máscaras. Então ela procurou. Em uma caixa
largado as traças. A roupa que um dia serviu como
lembrança. Do dia em que sua mãe, também viveu uma
grande festança.
Cinderela encontra um vestido velho. Comemora e o
guarda consigo e sai com a caixa.
João e Maria voltam ao centro, eles andam pela
floresta.
Maria: Você acha que papai nos deixou? Ele não pode ter
ido!
João: Deve ter nos esquecido. Igual feijão na geladeira.
Maria: Que besteira. Nos traz aqui e logo some?
João: Só sei que tenho fome... Olha! O farelo de pão que eu
vim comendo! (Corre para o abocanhar)
Maria (O segurando): Só um momento... Nós passamos
por aqui!
João: Pelo pé de caqui?
Maria: Não! Antes disso.
João: Pela vitrine de chouriço?
Maria: Tem mais um pra cá!
João: Já posso pegar?
Maria: Não! Me escuta. Tem mais pão pra lá, e se a gente
seguir, em casa vamos chegar!
João: Será que o pai já fez jantar?
João e Maria seguem os farelos de pão.
A Madrasta chega em casa. E retira seus sapatos.
Então Cinderela sai pela cozinha, trajada no vestido
de sua mãe.
Cinderela: O que acha?
Madrasta: De que isso se trata?
Cinderela: Meu vestido! Agora só falta a máscara.
Madrasta: Para o baile? E planeja levar as traças?
Cinderela: Não é de seu agrado?
Madrasta: Não agrada o meu faro. Deve estar cheio de
ácaro. E é feio, de fato. Mas acima disso tudo, me fale. O
que te faz pensar que você vai ao baile?
Cinderela: Todos foram convidadas. Até as afilhadas.
Madrasta: Você não é minha afilhada. De mim? Você não é
nada.
Cinderela: Mas fui adotada.
Madrasta: Foi apenas dada.
Cinderela: Mas fui, de fato, convidada. Assim como toda e
qualquer camponesa.
Madrasta: Você é um objeto. Que vai logo ao lado da
mesa. Não é uma cidadã. Não tem nenhum direito. Não
escreve nem seu nome, e esse é meu receio. Imagine só, o
que iriam pensar? como uma mulher tão poderosa...
Cinderela: Pode ser tão má? (É estapeada pela
Madrasta e cai no chão)
Madrasta (Completando sua frase): ...Possui uma serva
de se envergonhar. (Sai de cena)
Narrador: Cinderela põe-se a chorar. Não podia nem mais
considerar. Ao baile visi-
Cinderela: Não! Ela que se cale. (Se levanta) Por que eu
vou ao baile. (Sai de cena)
Pinóquio se senta no chão, e brinca com um ioiô.
Narrador: Enquanto a noite caía, Pinóquio não dormia.
Saiu de seu quarto e sentou em plena sala. Isso por quê sua
cama não lhe agradava. Era pequena demais. Feita para um
garoto diminuto há muito tempo atrás. Talvez por alguém
que esperava que outro menino viesse. Um que com
Pinóquio nada se parece.
Carpinteiro (Entrando com uma lamparina): Querido?
Por. Por. Por que não está dormindo?
Narrador: A verdade era que na cama não cabia. Mas
comparada com a do orfanato, era muito mais macia.
Pinóquio: É que... Estou cheio demais! Sua comida é tão
boa, como não comi jamais! (Seu nariz cresce um
tiquinho)
Carpinteiro: Ah sim! Seu. Seu. Seu quarto te contenta,
meu filho?
Narrador: A verdade era que o quarto era tão luminoso,
que isso lhe irritava. Sem cortinas, e com lamparinas, nem
pra dormir dava. Mas isso é muito melhor que o breu do
orfanato! Pra lá ele nunca quer voltar, de fato.
Pinóquio: É perfeito! Como nunca imaginei. Com todo
respeito, mas de lá jamais sairei! (Seu nariz cresce mais
um pouco)
Carpinteiro: Fico feliz! Promete que vai me avisar caso
algo ocorra?
Pinóquio: Prometo, coroa. (Seu nariz cresce mais)
Carpinteiro: Então boa. Boa. Boa. Boa noite. Meu querido.
Narrador: Ele nunca o acordaria. E se o seu pai se
irritasse? E se lhe retornasse? para a caixa de boneca de
onde havia saído. Aquele espaço maldito! Onde tudo tinha
seu lugar e onde ninguém podia brincar.
Pinóquio prometeu nunca reclamar, não teria esse direito.
Afinal, apesar de tudo, o Carpinteiro desejou um filho
perfeito.
FIM DO ATO I
Chapeuzinho Vermelho saltita pela densa floresta.
Narrador: A noite cai. E agora observamos a densa
floresta. A névoa se esvai. E a garota faz a festa. Mesmo
sendo dotada de uma grande autonomia. Ela teme não
estar sozinha.
A Floresta se torna mais escura. E a trilha de tensão
escalona para uma eventual aparição.
Do meio do bosque, surge João, dando um grito
assustador.
Chapeuzinho (Dá um grito): Que susto! É assim que se
trata uma dama?
João: Desculpe, achei que era uma ratazana.
Chapeuzinho: Como é?
João: Estamos caçando! Ratazana é um dos itens da lista,
quem sabe assim podemos cozinhar um cuscuz paulista!
Maria encontra seu irmão.
Maria: Eu sinto muito. Ele está brincando.
João: Ela mente muito. Eu estou caçando.
Maria: Na verdade, mesmo, nós estamos perdidos. Se
puder apontar um destino ficaríamos agradecidos!
João: Ou se tiver alguma guloseima! Isso na sua bolsa é
bolo de amêndoas?

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