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Minha Jornada na Leitura e Ensino

Memorial.

Enviado por

Luana Lopes
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Memorial

1. Primeiras Leituras

Uma pessoa com um propósito sincronicamente direcionado no contexto da


leitura e da escrita – esta é a minha história de formação individual, acadêmica
e profissional.

Os registros de leitura eivam minhas memórias afetivas desde a mais tenra


infância quando, intencionalmente, minha mãe lia histórias na hora de dormir,
disponibilizava livros durante a semana e cobrava leitura e releitura no sábado
como atividade lúdica, familiar e cotidiana. Para além das brincadeiras infantis,
essas práticas atravessaram todas as minhas fases de crescimento como na
pré-adolescência, quando ganhei uma mini estante de livros que, situada no
quarto, recebeu diversos exemplares de gêneros infanto-juvenis que me
encantavam, acompanhavam e conduziam aos lugares favoritos da
imaginação. Esse rito de passagem me escoltou à adolescência, lugar das
rebeldias, onde o “meu querido diário” testemunhou (por sete anos) inúmeros
segredos e confidências enquanto eu vivenciava e escrevia as impressões
sobre as dores e os prazeres de ser quem sou. No contexto de filha única em
uma família de mulheres professoras, eu as acompanhava em muitas aulas,
em turnos diferenciados, observando e auxiliando as minhas tias com a escrita
da atividade na lousa, tomando leitura e até corrigindo os exercícios, no final da
década de 80 e início dos anos 90 com boa aceitação entre os alunos de
alfabetização das escolas rurais onde trabalhavam.

Durante o ensino fundamental li os livros de Monteiro Lobato, da coleção


vagalume, de Àgatha Christie, Júlio Verne, Mauro de Vasconcelos, Pedro
Bandeira, Lygia Bojunga, Eleanor H. Porter, Jane Austen, Paulo Coelho, Neil
Gaiman, Ray Bradbury, Lewis Carroll, Antoine de Saint-Exupéry, George Orwell
e os clássicos da literatura brasileira como Machado de Assis, José de Alencar,
Aluísio Azevedo, Clarice Lispector, Graciliano Ramos entre outros. Não
obstante, nutria-me também com os poemas de Arnaldo Antunes, Alice Ruiz,
Luis Fernando Verissimo etc. e as Histórias em quadrinhos do Maurício de
Souza, com as assinaturas das revistas Capricho, Mundo Jovem e Ciências
Hoje para crianças.

Diante do exposto, é certo afirmar que tive o privilégio do acesso à cultura


literária e à influência de pessoas e autores que me auxiliaram no encontro
com o conhecimento científico, dando-me condições de desenvolver a
habilidade de compreensão, análise, argumentação e crítica que oportunizaram
o destaque em muitas atividades escolares e sociais, bem como, fomentaram o
meu gosto e atração pela comunicação, pela linguagem e pelo ensino. Dessa
forma, a leitura e a escrita me levaram ao segundo grau (magistério) e à
universidade para fazer a primeira graduação (Letras vernáculas) onde essa
paixão encontrou o seu ápice.

2. A FORMAÇÃO

[...] o processo de formação está pensado como uma


aventura, uma viagem, uma viagem não planejada e não
traçada antecipadamente. [...} Experiência formativa
seria, então, o que acontece numa viagem e que tem
suficiente força para que alguém se volte para si mesmo
para que a viagem seja uma viagem interior.
LARROSA, (2000, p.52-53)

2.1. O Magistério

A escolha do magistério foi óbvia, depois de alguns anos fora da escola,


como consequência dos dois anos cursando o segundo grau – científico, onde
as matérias de exatas se destacavam enquanto sugavam minha energia vital e
regravam minha fluidez nos estudos. Na época, o curso dos sonhos havia sido
extinto em alterações referentes a essa etapa de ensino e, somando o fato aos
caprichos da adolescência, afastei-me dos estudos, entretendo-me com a
formação de uma nova família. Contudo, foi exatamente quando a minha
segunda filha nasceu, que a compreensão tardia se deu e, sincronicamente, na
época, o governo federal implementou o Programa de Formação para
Professores Leigos (PROLEIGO) e eu que, entre tantas crianças, já havia
inclusive, alfabetizado minhas filhas em casa, tive a oportunidade de realizar o
sonho da formação profissional. Sendo assim, nos quatro anos que se
seguiram, redescobri a satisfação pessoal de aprender e ensinar em contato
com matérias como a história, a sociologia, a filosofia e a psicologia da
educação, estudei abordagens psico-sócio-linguísticas do processo de
alfabetização e aprendi sobre os teóricos de todas as tendências pedagógicas,
especialmente, das construtivistas onde conheci e aconselhei-me com Piaget,
compreendendo as transformadoras fases do desenvolvimento humano, as
peculiaridades do sóciointeracionismo de Vigotsky e a audácia original dos
métodos de ensino promulgados por Paulo Freire. Na ocasião, estudei também
conhecimentos didáticos pedagógicos em Ensino Fundamental, onde me
deparei com a língua portuguesa e acenei para ela. Daí em diante, foi uma
sucessão de acertos que me levaram a passar no primeiro vestibular que tentei
e fui cursar Letras Vernáculas na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
(UESB).

2.2. A Graduação

A escolha da Licenciatura em Letras está inteiramente imbricada à minha


história familiar e às experiências vividas nos três anos de observação e
estágio propostos pelo magistério, onde compreendi a relevância do trabalho
realizado pelo profissional docente da língua diante da necessidade de se
formar o cidadão reflexivo e participante das transformações sociais na
comunidade em que vive.

A faculdade foi um lugar de grandes descobertas pessoais e profissionais


que experienciei com intensidade. O campus de Jequié era um segundo lar
onde eu passava o dia inteiro todos os dias. Já no primeiro período, tive a
oportunidade de participar do 1º Encontro Nacional de Leitura e Literatura
infanto-juvenil e conhecer grandes nomes como Elias José, Gabriel Chalita,
Millôr Fernandes, Lya Luft, Ana Maria Machado e tantos outros. Foi assistindo
a uma mesa redonda com os organizadores do evento que conheci a
professora Drª Maria Afonsina Ferreira Matos, idealizadora e coordenadora do
Centro de estudos de Leitura e Literatura (CELL) e do Programa Estação da
Leitura (ESTALE) e, motivada por sua participação em uma mesa redonda, fui
procurá-la no final do evento para oferecer serviço voluntário em seus projetos.
Então, ela me desafiou a encontrar mais cinco alunos com a mesma disposição
para criarmos um grupo para estudar as obras de Monteiro Lobato. Assim,
nasceu o Grupo de Pesquisa e Extensão em Lobato (GPEL) – que me garantiu
bolsas de pesquisa por todo o tempo da graduação.

No GPEL, aprendi a pesquisar, escrever projetos e artigos, montar oficinas,


minicursos e organizar eventos como círculos de leitura, colóquios, seminários,
workshops etc. Foi assim, que concorremos ao edital da FAPESB (com o
projeto Emília vai à Escola) e ganhamos uma sala de reunião no campus,
material de apoio e material permanente. Concorremos também à editais
internos, conseguimos bolsas de estágios, monitorias e pesquisas. A partir daí,
o trabalho cresceu, desenvolvemos projetos em diversas escolas, junto à
comunidade, dentro do campus e apresentamos seus resultados em eventos
nacionais e internacionais como os Encontros Nacionais dos Estudantes de
Letras, o Encontro Nacional de Leitura e Literatura Infanto-juvenil e o VII
Seminário de Leitura e Literatura Luso-afro-brasileira etc. e até, fomos
convidados para apoiar a professora orientadora num curso de pós-graduação
lato sensu em Literatura infanto-juvenil com a disciplina – A Literatura infantil de
Monteiro Lobato.

Foi também na graduação que fiz cursos de contação de histórias com


Patrícia Lane e Bia Bedran, conheci os diversos gêneros literários, aprendi a
desenvolver sequências didáticas e projetos de leitura para Ensino
Fundamental e Médio e pude refletir teoricamente sobre a língua/linguagem,
tornando-me apta a atuar criticamente nos múltiplos contextos educacionais
auxiliando outras pessoas em seus processos de aprendizagem. Sem dúvida
alguma, uma preparação primíssima e adequada para o desenvolvimento do
trabalho que me propus a fazer vida afora e que, somada à experiência de 16
anos em sala de aula forma a profissional que sou.

2.3. A profissional que sou.

A primeira aprovação que garantiu minha efetiva participação no ensino


veio no último período da faculdade. Sendo assim, mudei-me para a cidade de
Pinheiros – ES e comecei a lecionar na EMEF Governador Carlos Lindenberg,
onde, graças ao magistério, lecionei por sete anos para as séries iniciais do
Ensino Fundamental. Concomitante e, pelo mesmo período, trabalhei na
Cooperativa Educacional de Pinheiros com turminhas de Educação Infantil.
Nesse contexto, a alfabetização volta a ser tema de interesse profissional e,
pensando em aprimorar meus conhecimentos, fiz a minha segunda graduação
em Pedagogia e especializei-me em psicopedagogia clinica e institucional.
Contudo, o desejo de trabalhar com a língua portuguesa ainda resistia e nutria-
se nas licenças que eu assumia à noite na Educação de Jovens e Adultos
(EJA) ou na escola estadual.

Foi em 2013, quando minha mãe faleceu, que resolvi mudar de cidade e, ao
permutar para São Mateus, assinei um contrato de vinte e cinco horas nas
séries finais, assumindo de vez essa identidade profissional: a professora de
português.

Desde então, trabalhei em São Mateus (pelo município, estado, escolas


particulares e cursinhos preparatórios) por cinco anos até que, no início de
2019, aprovada em concurso público, assumi uma cadeira de língua
portuguesa na EMEF Maria Carelli Lomonte, escola da zona rural no distrito da
Cobraice em Conceição da Barra onde leciono ainda hoje.

No trato com o ensino da língua, abraço a proposta lúdica de usar os jogos,


as brincadeiras, as músicas, as contações de histórias, as redes sociais etc.
para instigar o interesse dos meus alunos. Assim, junto com eles, tenho
promovido releituras de livros, círculos de leitura, interpretação e debates sobre
inúmeros temas e com o apoio dos diversos gêneros textuais, elaboramos e
realizamos eventos como chás literários, feira de livros, recitais de poemas,
tardes de autógrafos, batalhas de raps, aulas de campo, blogs educativos e
perfil no instagram para promover a leitura e a escrita. Contudo, percebo que
ainda faltam muitos quilômetros nesse trajeto que vai ao encontro de
transformações sociais significativas.

Por isso, mesmo ciente da existência de muitos obstáculos culturais, sociais


e políticos educacionais, sigo em busca de qualificação e aprimoramento
profissional, na certeza de que as soluções para os problemas que a sociedade
enfrenta, está na educação em geral e também no processo de ensino
aprendizagem da língua materna. Sendo assim, diante dos desafios que
atravessam a minha prática – como alunos que não decodificam ou não
entendem o que leem – e, considerando o ato de ensinar como um processo
de construção de saberes constante, optei por fazer um mestrado profissional e
aqui estou no Mestrado Profissional em Letras (Profletras).

3. Conclusão

Frente ao relato aqui apresentado, nota-se que acredito na contribuição do


ensino da Língua Portuguesa para formação integral do ser e que, ciente das
dificuldades que se apresentam, chego ao Profletras com a expectativa de
adquirir saberes que possibilitem a mim, enquanto professora de português, e
aos meus colegas, desenvolver uma prática mais digna, renovadora e exitosa
que contribua para a construção de uma sociedade mais igualitária.

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