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Abordagens no Serviço Social: Individual e Coletiva

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PROCESSO DE

TRABALHO
EM SERVIÇO
SOCIAL

Daniela Quadros da
Silva
Abordagens individuais
e coletivas no Serviço Social
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Descrever as abordagens individuais no Serviço Social e as teorias


de embasamento.
 Identificar as abordagens coletivas utilizadas pelo Serviço Social.
 Analisar a importância das diferentes abordagens do Serviço Social.

Introdução
O Serviço Social é uma profissão de caráter interventivo que se insere na
divisão social e técnica do trabalho e atua diretamente nas expressões da
Questão Social. Isto é, atua nos desdobramentos da relação conflituosa entre
capital e trabalho, que se materializam em desigualdades sociais e resistências.
Ao atuar nas expressões da Questão Social com o objetivo de garantir
e ampliar o acesso da população usuária aos seus direitos de cidadania,
o assistente social põe em prática diferentes abordagens, sejam elas de
caráter individual ou coletivo. Cada abordagem envolve instrumentos
técnico-operativos distintos.
Neste capítulo, você vai estudar as abordagens individuais e coletivas
do Serviço Social, identificando concepções e instrumentos técnico-
-operativos voltados a cada uma delas. Além disso, você vai verificar a
importância de ambas no processo de trabalho do Serviço Social.

O espaço da individualidade no Serviço Social


No Brasil, o Serviço Social é marcado por uma ruptura com as vertentes que
embasavam teórica e metodologicamente a profissão, classificando-a nos chamados
Serviço Social de Caso, de Grupo e de Comunidade. Essa clara divisão fragmentava
as ações profissionais e fazia permear um viés psicologizante junto aos usuários.
2 Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social

Foi na década de 1960, após um intenso debate em nível nacional, que teve início
o chamado movimento de reconceituação. Tal movimento caracterizou-se pela
recusa das práticas voltadas ao clientelismo e ao autoritarismo, sinalizando o
compromisso ético-político que a profissão estava assumindo com a classe tra-
balhadora. Além disso, o Serviço Social passou a embasar as suas ações por uma
perspectiva crítica de análise da sociedade, não mais centrando unicamente nos
sujeitos a responsabilidade pelas mazelas sociais vivenciadas.
Os intensos debates que questionavam o conservadorismo no interior da
profissão coincidiram com o período ditatorial no Brasil. Por isso, foram
sufocados pela repressão, fazendo com que muitos movimentos políticos
que emergiam nesse cenário fossem desmobilizados. Contudo, tais debates,
ainda que sob um contexto de cerceamento de liberdades, se efetivavam
gradativamente, provocando sucessivas aproximações com uma perspectiva
crítica de interpretação do real, o que vinha a embasar a atuação profissional.
As significativas mudanças que foram se consolidando no interior da
profissão permitiram avançar na compreensão do ser humano como ser social
e ser genérico. A seguir, veja a definição dessas noções (RAMOS, 2002).

 Ser social: caracterizado pela presença de uma singularidade marcada


pela unicidade e pela irrepetibilidade. Isto é, cada indivíduo é único,
embora interaja socialmente com outros indivíduos.
 Ser genérico: caracteriza-se por ser produto de suas relações sociais, é
voltado a uma dimensão de coletividade, mas não exclui a individualidade.

Nesse sentido, o Serviço Social brasileiro foi se consolidando com uma


base teórica marxista, fruto do movimento de reconceituação. Esse processo
teve como marco a intenção de ruptura impulsionada pela Escola de Serviço
Social de Minas Gerais, onde foi criado o chamado método Belo Horizonte,
mais conhecido como método BH. Tal movimento imprimiu, gradativamente,
uma natureza crítica ao fazer profissional, e o método BH introduziu um
significativo arcabouço teórico na profissão, o que definiu os rumos de análise
e intervenção na realidade a partir de uma perspectiva social crítica.
O reconhecimento da individualidade e da subjetividade evidencia a re-
lação entre as condições materiais de vida e o processo de individualização
dos sujeitos com os quais assistentes sociais trabalham nos mais diferentes
espaços sócio-ocupacionais. Assim, permanece fundamental que a intervenção
profissional reconheça as experiências sociais dos sujeitos, os aspectos culturais
Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social 3

e o respeito ao espaço do cotidiano como local de construção de vivências,


crenças e valores. A abordagem individual no Serviço Social, portanto, é
aquela em que as intervenções focam mais nas questões da individualidade
dos sujeitos e nas particularidades das expressões da Questão Social. Assim,
há o envolvimento de um único indivíduo na intervenção.
Diferentes instrumentos técnico-operativos constituem-se como uma das
mediações fundamentais para a materialidade do trabalho do assistente social.
Alguns desses instrumentos estão mais voltados às abordagens individuais,
como é o caso da entrevista e da visita domiciliar. Todos eles requerem conhe-
cimentos, habilidades e atitudes básicas para o desenvolvimento do trabalho,
como a escuta qualificada, a observação e a expressão oral.
É importante você ter clareza sobre alguns conceitos. Veja a seguir
(GUERRA, 2000).

 Instrumentalidade: tem a ver com uma propriedade constitutiva da


profissão (e não com o conjunto de instrumentos técnicos); é condição
para o reconhecimento social da profissão.
 Instrumentos: constituem o arsenal técnico-operativo que viabiliza ope-
racionalizar as ações profissionais. Os instrumentos técnico-operativos
voltados a qualquer uma das abordagens (individual ou coletiva) não são
específicos da profissão de Serviço Social, e sim compartilhados por
outras tantas profissões. O que difere é a finalidade de cada uma delas.
 Mediações: podem ser compreendidas como categorias que expressam o
conjunto de instrumentos, técnicas e saberes que permitem materializar
o trabalho profissional.
 Processo de trabalho: é o conjunto de atividades desempenhadas
visando ao alcance de determinadas finalidades, as quais dependem de
meios e condições objetivas e subjetivas. Os processos de trabalho são
constituídos pelos seguintes elementos: o objeto ou a matéria-prima, as
atividades/trabalho em si, os meios, a finalidade e o produto.

Mas será que, ao optar por uma concepção crítica da sociedade capitalista,
o Serviço Social passou a supervalorizar uma dimensão coletiva e a atribuir
menor atenção à abordagem individual? Quais são as abordagens coletivas
possíveis no Serviço Social e que instrumentos técnico-operativos estão
voltados a elas? Para responder a essas perguntas, confira a próxima seção.
4 Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social

Abordagens coletivas no Serviço Social


A compreensão das determinações societárias e suas implicações no cotidiano
de vida dos indivíduos, bem como das instituições e do próprio Estado, repre-
senta uma grande conquista histórica na trajetória do Serviço Social brasileiro.
Isso trouxe repercussões na maneira como a profissão passou a compreender a
realidade social e nela intervir, especialmente após o final da década de 1970.
Nesse cenário, o indivíduo social passa a ser visto tanto como produto
quanto como construtor do seu tempo histórico e de suas condições materiais de
vida. Então, prevalece nos fundamentos do projeto ético-político profissional o
entendimento do indivíduo como ser genérico e singular, não havendo espaços
para dicotomia e/ou antinomia entre sociedade e indivíduo.
Mas você deve se questionar: como ocorreu o trânsito de uma dimensão
individual para a construção de um projeto coletivo? O que leva os indivíduos
a saírem de suas projeções singulares para construções coletivas? Você pode
considerar três elementos para compreender como se atinge uma dimensão
coletiva (RAMOS, 2002). Veja a seguir.

 Necessidade: está estritamente vinculada à produção da riqueza mate-


rial, que carrega consigo o aumento constante das demandas.
 Consciência: é capaz de levar os indivíduos a lutarem por uma nova
sociabilidade e só pode ser efetivada coletivamente junto àqueles que, or-
ganizados politicamente, compartilhem dessa mesma projeção societária.
 Vontade: grande propulsora do processo de construção coletiva, é o
elemento que permite dar início à materialização dessa construção.

Dessa forma, os elementos constitutivos do processo de construção dos


projetos coletivos são a necessidade que move uma ação coletiva, a consciência
que orienta e a vontade que mobiliza (RAMOS, 2002). O trânsito entre uma
projeção individual e uma construção coletiva encontra desafios na contem-
poraneidade devido aos diferentes interesses sociais em disputa, mas a sua
realização não deve ser considerada impossível.
Tendo em vista essas considerações, é possível afirmar que as abordagens
coletivas nos processos de trabalho em Serviço Social são aquelas voltadas
a um conjunto de sujeitos, com intervenções que enfoquem na compreensão
deles como seres genéricos, inseridos na dinâmica das relações sociais. Assim,
como você viu anteriormente na abordagem individual, as abordagens coletivas
também se materializam por meio de instrumentos técnico-operativos, entre
Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social 5

eles os grupos, as reuniões, as ações de mobilização e articulação comunitária


e as rodas de conversa, por exemplo.
As abordagens coletivas podem ocorrer em espaços informais, que extrapolam
as instituições. Contudo, os espaços coletivos também constituem cenários de
disputas de poder e de interesses. Eles podem tanto tensionar rupturas com a
ordem estabelecida como também ser grandes mantenedores de uma ordem
societária excludente e subalternizante. Daí o caráter político do trabalho do
assistente social, que é, por vezes, requisitado a intervir no campo político-
-ideológico e tem a possibilidade de redirecionar suas ações para rumos distintos
daqueles que eram pretendidos por seus empregadores. A ideia é ir ao encontro
dos reais interesses e necessidades da classe trabalhadora (IAMAMOTO, 2011).
Porém, atenção: o caráter político do trabalho do assistente social em
nada tem a ver com a política partidária. Ele se relaciona com o expresso no
projeto ético-político profissional, que tem na liberdade um princípio central
e na democracia e na justiça social, grandes valores.

Para aprofundar a discussão sobre os desafios da conscientização política dos sujeitos,


leia o livro Pobreza Política — a pobreza mais intensa da pobreza brasileira, de Pedro Demo.

Abordagens individual e coletiva: a importância


de ambas no Serviço Social
Agora você vai analisar a importância das abordagens individuais e coletivas no
trabalho em Serviço Social. Vai conhecer as diferentes abordagens, suas caracterís-
ticas, seus limites e possibilidades, bem como identificar alguns dos instrumentos
técnico-operativos a que elas estão vinculadas. Isso permite que você qualifique
o seu trabalho profissional a fim de garantir e ampliar direitos daqueles que não
os acessam ou os têm violados em seu contexto de vida. Afinal, o Serviço Social
trabalha com sujeitos que experienciam as mais distintas expressões da Questão
Social, como o desemprego, a pobreza, a violência, entre tantas outras.
Você já viu que os instrumentos técnico-operativos se voltam às diferentes
abordagens do Serviço Social e permitem desenvolver as ações profissionais
diretamente com os sujeitos. Tais ações ou atividades constituem os processos
de trabalho em Serviço Social, assim como o objeto ou matéria-prima (Questão
6 Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social

Social), a finalidade (transformar a realidade), os meios (instrumentos técnico-


-operativos aliados às dimensões ético-política e teórico-metodológica da
profissão) e o produto (aspecto da realidade transformado).
A escolha das abordagens está vinculada, principalmente, aos objetivos
propostos para a ação. Após essa escolha, o profissional ainda precisa definir
os recursos necessários para a implementação da abordagem escolhida. Se
optar por um grupo, precisará mobilizar os participantes, pensar em um tema
central e, eventualmente, em dinâmicas para o desenvolvimento do grupo. A
seguir, veja o percurso que o assistente social deve percorrer para efetivar a
sua intervenção, segundo Mioto e Nogueira (2006).

1. Como fazer?
■ Definir o suporte teórico da ação.
■ Escolher a abordagem.
■ Escolher os instrumentos técnico-operativos e demais recursos.
2. Que ação?
■ Definir a ação/objetivos.
3. Onde?
■ Natureza do espaço sócio-ocupacional.
4. Para quem?
■ Sujeitos em situação.
5. Para quê?
■ Marco referencial teórico-analítico.

Muitos são os desafios que se colocam no cotidiano profissional. Um deles


é compreender as articulações entre as dimensões constitutivas do Serviço
Social: a dimensão técnico-operativa, (instrumental e procedimentos técnicos
para desenvolver as ações), a dimensão teórico-metodológica (preceitos teóricos
e métodos que balizam análises e intervenções no real) e a dimensão ético-
-política (defesa de um projeto societário comprometido com uma sociedade
justa e igualitária). Ao desenvolver um trabalho com essas três dimensões
articuladas, o profissional qualifica suas intervenções e demonstra que não
há distanciamentos entre teoria e prática.
Considerar que as condições materiais e objetivas da sociedade sob o
modo de produção capitalista determinam a consciência dos indivíduos não
significa desvalorizar o indivíduo e as suas singularidades. Assim, não se
pode desvincular ou contrapor coletividade e individualidade. As abordagens
individuais e coletivas são complementares, jamais devem ser contrapostas.
Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social 7

Reconhecer a individualidade de cada sujeito e trabalhar com instrumentos


técnico-operativos de cunho individual com os usuários não deve significar
individualizar suas necessidades, que são complexas e produtos históricos da
sociedade capitalista. O grande desafio é considerar a individualidade de cada
sujeito demandatário da intervenção do assistente social e redimensionar as
demandas sociais que apresenta para um nível coletivo, no intuito de dar a
elas visibilidade e torná-las pauta de agendas públicas.
Você ainda deve refletir sobre algumas habilidades e atitudes básicas para
o exercício profissional que são transversais às duas abordagens estudadas.
Veja a seguir.

 Escuta: transcende o simples ato de ouvir, pois requer compreender o que


o interlocutor expressa e o significado da mensagem que está transmitindo.
 Observação: técnica que permite coletar dados a partir do uso dos
sentidos, examinando determinados fatos que se deseja conhecer. Deve
levar em conta a identificação dos sujeitos, a descrição dos cenários e
dos comportamentos, além do registro e da análise dos fatos.
 Documentação: é uma forma imprescindível de dar visibilidade ao pro-
cesso de trabalho. Todas as ações desenvolvidas devem ser registradas
desde o seu planejamento até a execução e os resultados alcançados,
seja nos documentos da instituição empregadora (fichas, prontuários),
seja em documentos específicos do próprio profissional (diários de
campo, etc.). Há ainda os documentos que o profissional constrói sobre
determinadas situações que envolvem a vida da população usuária,
entre eles os laudos, pareceres, estudos sociais e relatórios.

Como você já viu, essas habilidades e atitudes são transversais às aborda-


gens individuais e coletivas, devendo ser mobilizadas em quaisquer espaços
sócio-ocupacionais e com quaisquer instrumentos técnico-operativos que
o profissional esteja atuando. Aliam-se a elas a postura ética e reflexiva, a
investigação e o conhecimento tanto sobre o Serviço Social como também
sobre as políticas sociais e os recursos da comunidade.
A operacionalização das ações implica a articulação entre o universal
e o particular, devendo estabelecer relações intrínsecas entre indivíduos e
sociedade. São as demandas postas pelos sujeitos, sejam elas as de caráter
coletivo ou as de caráter singular, que direcionam o trabalho do assistente
social para as abordagens mais adequadas. A ideia é encontrar alternativas
que atendam melhor aos objetivos definidos e aos limites e possibilidades dos
espaços sócio-ocupacionais em que os envolvidos se encontram.
8 Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social

Assim, é prudente adotar uma perspectiva dialética de análise da conjuntura


histórica da profissão. Isso é capaz de efetivar a superação das dicotomias que
colocam em contraposição dimensões individuais e coletivas, já que ambas
são necessárias às intervenções profissionais e complementares entre si.

A dialética é um método que pressupõe a contraposição de ideias. Trata-se de uma


forma de considerar as contradições presentes na realidade social e compreendê-la
como processo em constante transformação.

GUERRA, Y. A Instrumentalidade do processo de trabalho e serviço social. Revista Serviço


Social e Sociedade, n. 62, 2000.
IAMAMOTO, M. V. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profis-
sional. São Paulo: Cortez, 2011.
MIOTO, R. C. T.; NOGUEIRA, V. M. R. Sistematização, planejamento e avaliação das ações
dos assistentes sociais no campo da saúde. In: MOTA, A. E. et al. (Org.). Serviço social e
saúde: formação e trabalho profissional. São Paulo: OPAS, 2006.
RAMOS, S. R. A Construção de projetos coletivos: refletindo aspectos do projeto pro-
fissional do Serviço Social. Temporalis, v. 3, n. 5, 2002.

Leituras recomendadas
CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL. Serviço social e reflexões críticas sobre práticas
terapêuticas. 2008. Disponível em: <[Link]
Terapias_e_SS_2010.pdf>. Acesso em: 31 nov. 2018.
COUTO, B. R. Formulação de projeto de trabalho profissional. In: CONSELHO FEDERAL
DE SERVIÇO SOCIAL. Serviço social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília:
CFESS/Abepss, 2009.
DEMO, P. Pobreza política: a pobreza mais intensa da pobreza brasileira. Campinas:
Armazém do Ipê, 2006.
Abordagens individuais e coletivas no Serviço Social 9

IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. de. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital
financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2007.
KONDER, L. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 2008.
MARTINELLI, M. L. Notas sobre mediações: alguns elementos para sistematização da
reflexão sobre o tema. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 43, 1993.
MIOTO, R. C. T.; LIMA, T. C. S. A dimensão técnico-operativa do serviço social em foco:
sistematização de um processo investigativo. Revista Textos & Contextos, v. 8, n. 1, jan./
jun. 2009. Disponível em: <[Link]
article/view/5673>. Acesso em: 28 nov. 2018.
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