0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações10 páginas

Liberdade e Prisão: A Luta Interna

Kkkkkk
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
6 visualizações10 páginas

Liberdade e Prisão: A Luta Interna

Kkkkkk
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

“A liberdade é uma ilusão, e a negação seu guia.

O vento batia contra o rosto da garota causando deliciosos arrepios, cabelos negros
como a noite pairando ao seu lado e despenteando-se. Ela voava como se fugisse de
algo, vivia como se fosse morrer amanhã, respirava como se fosse a última vez que o
faria.

E talvez fosse.

Isso é liberdade, sussurrava para o céu os seus segredos, inspirada pela rebeldia que
vinha com a adolescência, e às vezes ela poderia jurar que ele respondia.

Inconsequente, a voz de seu pai sussurrava em sua cabeça conforme diminuía o ritmo
e se aproximava da cidade, o cheiro pútrido de carne e vegetais semi-estragados
preenchia o ar do mercado de Adarlan. Ela nunca havia sido boa em seguir regras.

Instintivamente ela tocou o amuleto em seu pescoço, presente do mesmo homem do


qual agora ela se ressentia. Ela não se importava com o que ele pensava, ela poderia
tomar as próprias decisões sozinha, ela lidaria com as consequências como a adulta
que era.

Ou a que imaginava ser.

Os humanos lá embaixo caminhavam, conversavam e sorriam como se indiferentes a


sua presença, displicentes ao turbilhão em que a serafim parecia estar. E então ela
desceu.

Tenha cuidado com os humanos, eles podem ser cruéis.

Bobagem, ela zombara.

A garota se arrependeu de não ouvi-lo.

—---------------------------------------------------------------------------------------------
Capítulo 1
"O homem é o mais cruel dos animais."
— Friedrich Nietzsche

O frio atravessou minha espinha, o repentino barulho de correntes me acordando, mais


um condenado, eu constatei respirando fundo, não deveria mais me sentir surpresa com
os gritos, os choros, o desespero das almas que ali se perdiam.

Eu não sabia a quanto tempo não via o céu, não sabia a quanto tempo não sentia o
vento ou as cotas de chuva tocarem minha pele. Eu já não me lembrava mais do meu
nome.

A constatação fez meu estômago vazio pesar como chumbo.

Olhei através das grades com a falsa esperança de algo ter mudado. Nada. Nada além
do corredor interminável com celas, adornado apenas pelos ossos daqueles que eu
imaginava terem estado ali antes de mim. Encontrei-me perguntando então se aquilo
era proposital, aprisionando assim as pessoas pelo medo, deixando-as sem coragem
para lutar, sem nenhuma certeza além da morte.

Me encostei contra as barras de ferro oxidadas devido à umidade, assim como os


grilhões que pesavam contra meus pulsos e tornozelos, assim como os ganchos
fincados em minhas asas em frangalhos. Não sabia se era os grilhões, a comida, não
importava, eu estava incapaz, meus poderes não respondiam.

Erilea, o continente dos fracos e temerosos, o lugar onde a magia não alcança. A
lembrança me tomou, minando minhas dúvidas e qualquer esperança que eu tivesse de
usá-los com ela.

Menina burra, eu ouvia, o fantasma do meu pai me assombrando junto àquele maldito
rei que parecia tudo menos humano, e agora eles se esgueiraram entre meus
pensamentos e se apoderaram dos poucos sentidos que me restavam.

- Cale a boca - eu gritei para as paredes de pedra do que quer fosse aquele lugar, uma
prisão inquebrável, não queimável.

E mais uma vez sem resposta, a não ser que eu considerasse os resmungos e
xingamentos das celas ao lado. Monstro, eles falaram, e no início eu me ressenti.

Mas com o tempo você percebe o quão patéticos são, o quão medrosos são. Homens
temem aquilo que não conhecem, condenam o desconhecido, abominam o novo.

Puxei meus pulsos, muito mais fraca do que da última vez. O sangue das feridas mal
cicatrizadas novamente pingou, colorindo o chão opaco ao lado das manchas já secas.
Minha cabeça rodava e rodava e o frio ameaçava me tomar, mas toda vida antes que
ele me levasse por completo homens apareciam, me sedavam, e então no dia seguinte
à única coisa que eu sentia era agonia.

Que coisinha peculiar, eu podia escutar a voz do rei, e mesmo que ele não tivesse me
tocado eu podia sentir, sentir suas garras, suas mãos nojentas tomando meu corpo, sua
boca podre encostando na minha pele. E nada me assustava mais que isso.

As vezes eu sonhava com o dia que eles me deixariam morrer.

—---------------------------------------------------------------------------------------------

Capítulo 2
"As pessoas tendem a buscar segurança no
sofrimento conhecido, em vez da incerteza da
liberdade.” — Sigmund Freud
A dependência é o fim daqueles que se perdem

É como estar preso a um fio invisível, tão fino que quase não se vê, mas tão forte que
impede qualquer passo adiante. É como caminhar com os pés enterrados em areia
movediça: a cada tentativa de escapar, mais fundo se afunda. O mundo continua
girando, mas quem está preso a ela sente como se estivesse parado no tempo, os
ponteiros do próprio relógio congelados em um mesmo instante de necessidade.

Ela se disfarça de abrigo durante a tempestade, mas logo se revela como a tempestade
em si — sedutora, enganosa, constante. É uma gaiola feita de promessas, onde as
grades têm a forma daquilo que se deseja, e a chave, por mais próxima que pareça,
está sempre fora de alcance. A dependência rouba a luz e oferece sombra em troca, e
quem a carrega sente-se como um pássaro de asas cortadas, lembrando o céu, mas
condenado a rastejar.

Ela veste a voz da necessidade e caminha com o passo da promessa. Sussurra: "você
precisa de mim". E, sem perceber, você começa a acreditar que talvez precise mesmo.
—----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Não era a primeira vez que eu tentava, mas seria a última. Quando se é criança poder
criar cópias de si parece uma benção, nunca sozinha, sempre tem com quem brincar ou
quem ajudá-la. É então, derrepente você se torna dependente daquele apoio, e não
consegue andar sob as próprias pernas.
Se torna uma maldição também por ser visto como ameaçador, e qualquer animal
quando se sente acuado morde mais forte.

Eu não deveria ter conseguido ser capturada, eu não deveria estar presa, e tudo isso
porque eu era inútil, não sabia fazer nada sozinha e ainda assim acreditava que teria
capacidade para alguma coisa.

Eu seria meu próprio fim.

—----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Capítulo 3
"A morte é a libertação final. A última liberdade humana."
— Simone de Beauvoir
O cheiro de mofo e excremento preenche meus pulmões a cada respiração. É espesso.
Viscoso.

As pedras estão cobertas por limo, e ouço o som contínuo de goteiras em algum lugar
acima de mim. Conto as gotas quando a dor se torna insuportável, como se cada uma
fosse um lembrete de que o tempo ainda está passando, mesmo aqui dentro.

Às vezes, penso que estou apodrecendo por dentro, que a cela está me absorvendo,
transformando-me em mais uma parede silenciosa, esquecida.

Ouço passos. O som do couro das botas ecoa pelo corredor de pedra. Eles vêm.

As trancas se abrem com estalos frios. Dois guardas entram, mas dessa vez choros ou
clemências não os acompanham. Arrepios percorrem minha espinha como aviso,
presságio. Eles nunca pisam aqui sem propósito, e a incerteza me assusta mais do que
o som dos ossos quebrando.

Eu gostaria de estar errada, gostaria de poder comemorar silenciosamente que ao


menos dessa vez seria deixada em paz.

Tão ingênua, a apreensão se instala em meus ossos e corrói a esperança que me resta
no momento em que eles param em frente à minha sela.

Eu fecho meus olhos quando o cadeado vai ao chão. Juntamente aos ganchos e grilhões
que me prendiam.

Minhas asas caíram ao meu lado como pesos mortos, eu já não as sentia mais.
Não grito quando um deles me puxa com força o suficiente para quebrar meu braço, e
quando o estalo soa no ar eu também não reajo.

E eu não os abro conforme eles entram e me carregam pelo chão áspero do corredor
como se arrastassem um animal, como se fosse um esforço me tocar sem colocarem
suas entranhas para fora.

Não abro os olhos quando começamos a subir o que parece um lance de escadas, e
para a minha sorte eles também não dizem uma única palavra. Ignoro o fato de
parecerem exalar desgosto a cada respiração.

Mas a curiosidade mórbida fala mais alto.

Você quer saber onde vai ser morta, menina, a voz soa mais alto do que o normal, mas
eu não me incomodo em prestar atenção conforme carregam-me pelos corredores do
Castelo que parecia ser feito de vidro. Antes eu teria considerando-o bonito, se não
soubesse que as decorações serviam para esconder o sangue que manchava cada
canto daquele lugar.

Tudo fede a luxo e decadência. Ouro sobre podridão.

Vozes - dessa vez vozes de verdade, humanas - ficam cada vez mais altas conforme
nos aproximamos dos portões ao qual me levavam. O desespero envolve meus
pensamentos e me tira do transe em que eu estava.

Os covardes morrem muitas vezes antes de sua morte; os valentes provam a morte
apenas uma vez.

Eu achava que era valente até conhecer o desespero, achava que era valente até
conhecer aqueles que me prenderam e me quebraram, dobraram a garota que eu havia
sido, e agora ela não passava de cinzas. Queimada pelo fogo em que ela havia se
jogado de braços abertos.

Menina ridícula.

E então os portões se abrem.

Até os guardas ao meu lado ficam tensos, seus músculos se contorcendo sob aquele
metal brilhante.

E com isso um descuido.

Eu não penso, não me permito pensar, e antes que eles a me joguem naquela sala cheia
de leões prontos para devorarem-me viva, eu faço a única coisa que me vem à mente.

Eu corri.
------------------------------------------------------------------------------------------------

Capítulo 4
"Morrer é assustador. Mais assustador ainda é viver uma
vida sem propósito."
— Charles Bukowski
A serafim mancava entre os corredores, os pés descalços deixando marcas vermelhas
por onde passavam. Os cortes nas pernas ardiam, e o sangue escorria como um rastro
involuntário, ela não sabia onde estava indo. Mas ela não parava. Não podia.

Minutos antes, os guardas a haviam retirado da cela. Não disseram para onde a
levavam, mas seus olhos falaram por eles. Era o fim. Aquela porta à frente era sua
sentença. Ali, ela deixaria de ser algo vivo. Viraria objeto. Peça. Tecido. Carne. Ou algo
pior que isso, um circo.

Ela sentiu quando o pânico tomou seu corpo como uma chama. Não pensou — apenas
reagiu. Um tropeço do guarda, um instante de desatenção, e ela correu. Cambaleante,
sim. Quase desmaiando, sim. Mas correu como se o próprio inferno estivesse atrás dela.

O castelo de vidro era traiçoeiro. Parecia belo — corredores que brilhavam com a luz do
sol, colunas transparentes que sustentavam o céu, chão que refletia o rosto dela em
todas as direções. Mas sob a beleza havia o veneno: não havia sombras, não havia
onde se esconder. Tudo ali era feito para exibir, para humilhar, para transformar a dor
em espetáculo.

As paredes de vidro pareciam infinitas, como se o castelo nunca terminasse. A cada


esquina, o som dos gritos se aproximava. Estavam vindo. E ela estava fraca demais.

Seu peito ardia. A visão oscilava. Cada passo doía mais que o anterior. Ela
sabia.

Sabia que não ia conseguir sair.

Sabia que mesmo se escapasse dos guardas, não havia para onde correr. Fora dali, o
mundo não queria criaturas como ela. Lá fora, ela ainda seria uma aberração —
rejeitada, perseguida, caçada. Lá fora, seria só uma versão mais lenta da mesma morte.

Ela parou.
Ofegante. Sozinha, por ora, em um dos terraços superiores do castelo. O vento batia
forte ali. E à frente dela, um parapeito de vidro e, além dele, nada.

Por um instante, ela pensou em se esconder. Em voltar. Mas então se lembrou do que
a esperava: a porta. A cela. O fim que eles haviam planejado.

Ser mantida viva, mas nunca livre.


Preservada como um animal raro.
Um monstro bonito demais para morrer.

Ela tocou o vidro diante de si com a ponta dos dedos. Frio. Liso. Falso.

O coração batia como se estivesse tentando escapar por si só. Ela fechou os olhos,
respirou fundo, e pela primeira vez não sentiu medo.

Ela não era um erro.


Era uma escolha.
E escolheu morrer livre.

Deu dois passos para trás. Ouvia vozes atrás das portas. Estavam chegando.

Então correu — ou tentou. Um último impulso. Um salto.

Por um segundo ela sentiu que estava voando novamente. Mas suas asas não
aguentariam, seu poder não a ajudaria. Ela tocou o medalhão. E depois, silêncio.

O castelo seguiu brilhando como se nada tivesse acontecido. Mas no vento que
atravessava as torres de vidro, havia algo novo.
Um sussurro.
Um nome nunca dito.
Uma garota que preferiu o fim à prisão.

—---------------------------------------------------------------------------------------------

Capítulo 5 - Azriel
Um, dois, três. Ele respirou fundo passando as mãos pelo rosto, o suor escorrendo pela
sua nuca.

Três dias que ele não dormia por conta daqueles sonhos, ou pesadelos, ele não sabia
dizer.
As vezes acordava confundindo o próprio nome, se sentindo um impostor na própria
pele, tendo vivido a vida de outrem. Ele temia que chegasse um dia e não conseguisse
distinguir o que era real, porque tudo parecia tão tangível, tão lúcido. Uma garota,
liberdade, crueldade, incerteza, morte e sonhos. Um lugar, uma vida.

Um, dois, três. Ele forçou os olhos a se fixarem no teto, como se ali estivessem as
respostas. Mas só havia sombras – suas sombras – dançando conforme a luz da
madrugada atravessava a cortina entreaberta, se enroscando em seus pulsos e
tornozelos. As imagens voltavam com violência: a cela, o castelo de vidro, a menina que
mais parecia um anjo correndo descalça, os olhos dela suplicando por algo que ele não
sabia dar. Era como se a alma dela estivesse presa em seus ossos, como se uma parte
dele carregasse aquele desespero como herança.

Naquele mundo dos sonhos, ele não era ele. Era outro. Ou talvez fosse mais ele ali do
que aqui.

As noites vinham com mais sede agora. Sede de respostas, sede de fim. Mas também
de reencontro. Porque por mais cruel que fosse aquele mundo onírico ele ansiava por
ela. Pela garota. A que gritava sem som, a que olhava o céu como se ele tivesse janelas.

Um, dois, três.

Ele se levantou da cama como quem emerge de um afogamento. Os lençóis grudavam


no corpo encharcado de suor, como se o mundo onírico ainda o agarrasse, implorando
que voltasse. Os pés tocaram o chão frio, e por um segundo ele se perguntou se aquele
quarto era mesmo seu. Tudo parecia ligeiramente... desalinhado. As cores, a textura das
paredes, até o som do vento de Velaris carregava um tom de estranheza.

— Ela está morrendo de novo. — sussurrou, sem entender por que aquelas palavras
escaparam de sua boca como uma lembrança antiga.
A garota. Sempre ela.

Nos sonhos — ou nas vidas que visitava durante a noite — ela era prisioneira de um
castelo onde a liberdade era promessa e punição ao mesmo tempo. Ela gritava. Lutava.
E morria. Sempre morria. E ele. Ele a via morrer como se fosse responsável, como se
algo dentro dele fosse a chave ou a lâmina.

No espelho do banheiro sua imagem tremia como uma miragem. Os olhos estavam
fundos sim, mas havia algo mais. Como se outro rosto tentasse se formar por baixo da
pele.

Ele piscou. Uma. Duas vezes.

Então viu.

Por uma fração de segundo, os olhos refletidos não eram os seus, eram olhos de vidro,
opacos como céu nublado. E atrás desses olhos, ela. A garota. Observando.
Esperando.
Ele cambaleou para trás, o coração galopando no peito.

Ela o chamava por um nome que ele não conhecia, e ainda assim, respondia.

Se havia loucura, ela vinha com perfume de vento e gosto de liberdade.

—-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Epílogo
Ela não sabia onde estava, esgueirando-se por um lugar que não conhecia. “Assim era
o lugar para onde vamos quando morremos?”, ela perguntou-se, mas não houve
resposta. O silêncio era tanto que ela conseguia escutar a respiração dele.

Cabelos pretos, asas, tatuagens, feérico.

Ela precisava sair dali.

E o encantador de Sombras? Estava tão envolto em seus pensamentos que não notou
a figura que cruzou o quarto envolta em névoa, e nem o pequeno objeto que a garota
deixou cair no trajeto.

Um medalhão.

Você também pode gostar