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O Nascimento do Pecado em MAGVA

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SUMÁRIO

1 - O NASCIMENTO DO PECADO 2
2 - RAÍZES DA SOLIDÃO

11
3 - A LUZ NO ABISMO

21
4 - ENTRE A FOME E OS OLHOS

29
5 - OLHOS QUE JULGAM, VOZES QUE CONTAM

38
6 - O ELO INDESEJADO

49
O mundo de MAGVA sempre foi regido pelo poder e pelo medo. Uma terra vasta
e indomável, onde a magia fluía como um rio invisível, moldando civilizações e
destruindo impérios com a mesma facilidade. Essa força mística permeava os
céus, o solo e as criaturas vivas, tecendo destinos e alimentando a eterna
disputa entre aqueles que a controlavam e aqueles que a temiam.

No centro desse mundo erguia-se o reino de DOW, uma nação humana forjada
pela guerra e sustentada pela crença de que era seu dever manter a ordem e a
pureza do mundo. Para os humanos, a supremacia não era apenas uma questão
de conquista, mas uma necessidade para garantir a sobrevivência contra as
ameaças que espreitavam nas sombras.

Os elfos foram os únicos a encontrar um equilíbrio com os humanos. Há séculos,


selaram um tratado de paz, um acordo frágil, mas duradouro. Em troca de sua
lealdade e auxílio em tempos de guerra, os elfos mantiveram suas florestas e
sua cultura intactas, vivendo em harmonia ao lado da humanidade. Eram vistos
como sábios e refinados, dignos de respeito, ainda que não fossem
completamente confiáveis aos olhos dos mais conservadores.

Os anões, por outro lado, não tiveram a mesma sorte. Desde tempos imemoriais,
a presença de um anão fora de suas cavernas era considerada mau presságio.
Diziam que onde um anão pisava, a desgraça logo o seguia. Assim, foram
relegados às profundezas da terra, onde construíram cidades subterrâneas e
moldaram o metal como nenhum outro povo. Poucos humanos ousavam se
aproximar de seus domínios, e aqueles que o faziam preferiam não falar sobre
isso.

Os orcs eram vistos como monstros primitivos, selvagens sem inteligência.


Gigantes de carne e fúria, eram caçados e domados para servirem como
montarias ou como feras de batalha nos exércitos humanos. Seu instinto
combativo os tornava armas vivas, mas nenhum humano acreditava que fossem
algo além disso—criaturas sem alma, sem propósito além da guerra.

Os bestiais, híbridos de humanos e feras, eram considerados inferiores desde o


nascimento. Sua aparência grotesca e seu comportamento instintivo os
tornavam

2
indignos de liberdade, e assim, eram tratados como servos, mão de obra barata
destinada a trabalhar nos campos e minas. Para os humanos, sua servidão não
era uma questão de crueldade, mas de ordem natural. Afinal, uma raça tão
próxima dos animais não poderia governar a si mesma.

Mas nenhuma raça despertava tanto medo e ódio quanto os demônios. Desde as
eras antigas, a humanidade os via como a verdadeira encarnação do mal,
nascidos das entranhas do próprio inferno. Diziam que os demônios corrompiam
tudo ao seu redor, espalhando destruição por onde passavam. Para os humanos,
exterminá-los não era um ato de crueldade, mas de justiça divina. Caçá-los e
erradicá-los era uma missão sagrada, uma forma de purificar o mundo de sua
influência maligna.

Por séculos, o reino de DOW se manteve fiel a essas crenças, moldando seu
império com ferro e fogo, certo de que estava fazendo o que era necessário para
proteger sua civilização. Para eles, a ordem que estabeleceram não era tirania—
era a única forma de garantir que o caos não tomasse MAGVA.

Mas em meio a essa estrutura implacável, algo inesperado estava prestes a


acontecer.

Nos recantos esquecidos das vilas miseráveis, em florestas ocultas e nas


sombras das grandes cidades, histórias proibidas eram sussurradas. Amores
impossíveis floresciam em segredo, desafiando as leis impostas pelos reis e pelos
deuses. Pequenos atos de rebeldia nasciam no coração dos que ousavam sonhar
com um mundo diferente.

E, entre todas as histórias silenciadas, havia uma que mudaria o destino de


MAGVA para sempre.

A história de um nascimento. De uma criança que carregava consigo o fogo da


mudança.

No extremo leste de DOW, longe das muralhas das grandes cidades e esquecida
3
pelos reis, havia uma vila miserável. Um punhado de casas de madeira
apodrecida alinhava-se em ruas de terra seca, onde o vento cortante soprava
como lâminas afiadas, carregando consigo o cheiro de fumaça, couro
envelhecido e carne salgada. Os moradores dessa vila não eram nobres nem
guerreiros—eram sobreviventes. A fome os endurecera, o frio os castigara, e
suas almas tornaram-se tão áridas quanto o solo que pisavam. Mas havia algo
que eles ainda tinham: suas crenças.

E entre essas crenças, uma verdade era absoluta.

Os demônios eram o mal encarnado.

A notícia chegou como um sussurro, rastejando pelos becos e tavernas,


crescendo
como uma tempestade que se forma no horizonte. Olhares desconfiado
s
tornaram-se murmúrios indignados. Os murmúrios viraram gritos.

Uma mulher da vila estava grávida de um demônio.

O escândalo era insuportável. Não importava se aquele demônio nunca atacara


ninguém. Não importava se ele não portava chifres retorcidos ou asas negras, se
não cuspia fogo nem espalhava pragas. Seu pecado era existir. Sua simples
presença corrompia, ameaçava a ordem natural das coisas.

Mas a mulher? Ela era ainda pior.

— Como pôde? — cochichavam as mulheres, com os rostos torcidos de repulsa.

— Como permitiu que uma criatura do inferno a tocasse? — bradavam os


homens, cerrando os punhos.

O julgamento não tardou a se formar. No centro da vila, sob a luz vacilante das
tochas, os aldeões se reuniram. Homens de mãos calejadas, mulheres de olhares
frios, jovens ansiosos por justiça.

— Ela traiu seu próprio povo! — gritou alguém.

4
— Ela nos condenou! O que será dessa criança? Um monstro? Um flagelo? —
vociferou outro.

O medo inflamava o ódio, e o ódio clamava por punição. Mas antes que
pudessem
voltar sua ira contra a mulher, uma ideia mais cruel surgiu.

— O demônio ainda está lá fora. Ele precisa morrer.

E naquela noite, partiram em busca da criatura.

Na penumbra de uma cabana solitária, afastada da praça fervilhante de fúria, a


mulher segurava o ventre com mãos trêmulas. Seus olhos marejavam, não
apenas
pelo medo, mas pela certeza inevitável do que estava por vir.

Sabia que nunca aceitariam seu filho.

Sabia que nunca a perdoariam.

Mas, acima de tudo, sabia que o homem que amava não veria o amanhecer.

A floresta ao redor da vila era densa, seus galhos retorcidos se entrelaçavam


como
garras esqueléticas tentando agarrar o céu. A lua, tímida atrás das nuvens,
lançava
uma luz pálida sobre o chão coberto de folhas mortas. O silêncio era quase
absoluto,
quebrado apenas pelo farfalhar do vento e pelo estalar de gravetos sob pés
determinados.

Os aldeões avançavam em meio à escuridão, empunhando tochas e lâminas


enferrujadas. Seus olhos brilhavam de fervor e medo, pois sabiam que estavam
caçando uma criatura do inferno.

— Ele não pode ter ido longe — murmurou um deles.


— O cheiro da podridão demoníaca está no ar — respondeu outro, apertando a
mão

5
ao redor do cabo de sua faca.

Eles sabiam onde procurar. Aquele demônio vivia escondido nas sombras da
floresta, sempre distante, sempre à espreita. Um monstro esperando o momento
certo para corromper, para atacar, para espalhar sua maldição. E agora, havia
cruzado o limite.

O grupo se espalhou entre as árvores, examinando cada tronco caído, cada


moita suspeita. E então, um deles o viu.

Encostado contra a base de um velho carvalho, o demônio os observava. Seus


olhos, de um vermelho profundo, brilhavam na penumbra. Não tentou fugir. Não
rosnou, não ergueu as garras.

Ele apenas esperou.

— Ajoelhe-se, criatura imunda! — gritou um dos aldeões, apontando uma lança


improvisada.

O demônio não obedeceu, mas também não resistiu. Ele sabia que lutar era
inútil. Sabia que não havia escapatória.

— Nós estamos livrando o mundo de ti. Estamos cumprindo a vontade dos deuses!

Palavras sagradas foram murmuradas. Cordas ásperas foram lançadas ao redor


de seus pulsos e pescoço, apertando-se contra sua pele quente. Ele foi arrastado
pela terra fria, os galhos rasgando suas vestes e deixando marcas em sua pele.
O grupo retornou para a vila, triunfante, enquanto o demônio caminhava entre
eles, como um cordeiro sendo levado ao altar do sacrifício.

Quando chegaram à clareira central da vila, a multidão já os aguardava.

O ódio fervilhava. O medo se misturava à fé.

Uma forca havia sido erguida.

6
O demônio foi empurrado para frente. Alguém puxou a corda, prendendo-a ao
galho
robusto de uma árvore. Por um momento, apenas o som da respiração pesada
dos
aldeões e do crepitar das tochas preencheu o ar.

Então, o laço foi apertado.

O corpo do demônio se ergueu, debatendo-se contra a gravidade. Suas garras


arranharam o ar, seu peito arfou, e por um instante, ele pareceu murmurar algo.

Talvez uma prece.

Talvez uma maldição.

Seu corpo finalmente parou de se mover.

Mas a multidão não estava satisfeita.

As pedras voaram, impactando carne e osso, fazendo o sangue escorrer pela


terra
seca. Os golpes continuaram até que não houvesse mais resistência, até que
tudo
estivesse silencioso.

Na vila, uma mulher observava tudo pela fresta de sua janela. Suas mãos
tremiam
sobre o ventre inchado. Seu coração sangrava, mas ela não podia chorar.

Não havia tempo para o luto.

A dor começou.

As contrações vieram como facas retorcidas rasgando seu ventre. A mulher caiu
ao
chão, os joelhos chocando-se contra a madeira áspera de sua casa. O suor
escorria
por sua testa, misturando-se às lágrimas que ardiam em seus olhos. Sua
respiração
era curta, entrecortada por gemidos de dor.

7
Lá fora, a vila ainda vibrava com o fervor da execução. Mas o ódio dos aldeões
não se contentava com a morte do demônio. O pecado não estava apenas na
criatura, mas também na mulher que havia se deitado com ele.

— Pecadora! Traidora da humanidade! — bradava um dos homens enquanto a


multidão se aproximava da casa.

Tochas tremulavam na noite escura. As chamas iluminavam os rostos retorcidos


de fervor e indignação. Para eles, aquilo não era apenas punição. Era justiça.

— Que o fogo purifique sua alma!

As tochas voaram pelo ar, pousando sobre o telhado seco e nas paredes de
madeira da casa. O fogo encontrou alimento, espalhando-se rápido como uma
fera faminta. Primeiro, foram pequenas labaredas lambendo as vigas. Depois,
um rugido de chamas ascendendo aos céus.

Lá dentro, a mulher arfava. Seu corpo se contorcia entre espasmos, a dor


sobrepondo-se ao medo. O calor começou a crescer ao seu redor, sufocante, a
fumaça enchendo seus pulmões. Seu olhar turvou, e um desespero primal tomou
conta dela.

Ela não queria morrer. Não assim.

Mas acima de tudo, não queria que seu filho morresse.

A casa estalava, suas fundações consumidas pelo fogo. Pedaços do tet


o
começavam a desabar, lançando faíscas ao redor. A mulher soltou um último
grito, e então, no auge da dor e do desespero, a criança veio ao mundo.

Seu primeiro choro rompeu o caos como um trovão na tempestade.

As chamas a rodeavam, mas não a tocavam. O fogo, que devorava tudo sem
piedade, recuava diante daquela pequena criatura, como se temesse queimar
algo

8
que lhe pertencia.

A mulher olhou para o filho uma última vez. Um sorriso cansado surgiu em seus
lábios, mesmo enquanto o calor queimava sua pele e a fumaça roubava seu ar.

Seus olhos se fecharam.

Lá fora, os aldeões assistiam à casa desmoronar em chamas. Para eles, era o fim.
A purificação estava completa. O mal havia sido erradicado.

Eles não sabiam.

Naquele instante, algo nascia das cinzas.

Algo que mudaria o destino de MAGVA para sempre.

O incêndio rugia como uma fera devoradora, consumindo cada pedaço de


madeira, cada vestígio do que um dia fora um lar. A vila, agora envolta em um
silêncio sombrio, assistia de longe enquanto as chamas dançavam
violentamente sob o céu noturno. O cheiro de carne e madeira queimadas
impregnava o ar, misturando-se ao vento frio que soprava pelas ruas de terra
seca.

Os aldeões, satisfeitos com sua obra, afastaram-se lentamente, voltando para


suas casas como se tivessem acabado de realizar um ritual sagrado. Para eles,
aquela não era uma execução, mas uma purificação. O pecado fora queimado
junto com a casa, e o que quer que estivesse lá dentro jamais sairia dali. Eles
acreditavam que, ao amanhecer, tudo não passaria de cinzas.

Mas o que eles não sabiam era que, dentro daquele inferno de chamas e
destruição, algo novo estava nascendo.

O bebê chegou ao mundo envolto pelo caos, sua primeira visão sendo o brilho
alaranjado do fogo, sua primeira respiração tomada pela fumaça densa que

9
preenchia seus pulmões frágeis. Mas ele não chorou de dor. Não queimou como
qualquer outra criança teria queimado. As chamas o abraçavam, como se o
reconhecessem, como se o aceitassem.

Enquanto a mãe arquejava em seu último suspiro, os olhos semicerrados se


fixaram na pequena figura entre as labaredas. Ela não teve tempo de segurá-lo,
de sussurrar-lhe uma bênção ou pedir desculpas pelo destino cruel que o
aguardava. Seu corpo cedeu ao calor, e sua alma partiu antes que pudesse
entender o milagre que testemunhava.

O bebê, agora sozinho, moveu-se pela primeira vez, os punhos pequenos


cerrados, a pele suja de fuligem e cinzas. O fogo não o consumia; ele o acolhia.
As brasas caíam sobre sua pele sem feri-lo, como se fossem meros flocos de
neve negra. O calor que transformava tudo em pó não passava de um afago
para ele.

E, ainda assim, ele era apenas uma criança.

Uma criança que nunca conheceria o toque de sua mãe. Uma criança que fora
marcada desde o nascimento por algo maior do que qualquer um poderia
entender.

Ele era metade humano, metade demônio.

Ele era a união de dois mundos que se odiavam.

Ele era a prova viva de um pecado que jamais poderia ser perdoado.

Mas, naquela noite, sem entender a grandeza de sua existência, ele permaneceu
ali, entre as cinzas e brasas de um lar que nunca conheceria, sob um céu que
jamais o acolheria.

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O Senhor e o Bebê

A madrugada se arrastava lentamente pelo vilarejo, como um manto pesado e


sombrio que caía sobre as ruínas deixadas pelo incêndio. O eco das chamas que
haviam consumido a casa da mulher agora se apagava, substituído pelo silêncio
denso da noite. As cinzas se espalhavam no vento frio, como uma capa amarga
cobrindo os vestígios de uma crueldade consumada. O corpo do demônio, ainda
pendurado, balançava lentamente com o movimento do ar, uma macabra
lembrança do ódio irremediável que o mundo nutria por seres como ele.

Quando o último grito de vingança se calou e as sombras tomaram novamente


as ruas do vilarejo, os moradores se retiraram para suas casas, exaustos e
satisfeitos por cumprirem o que consideravam sua justiça. Eles acreditavam que
haviam derrotado o mal. Mal sabiam que o mal não tinha sido erradicado. Ao
contrário, uma nova vida se erguia das cinzas.

Entre as sombras da noite, ninguém notou a aproximação de uma figura


solitária, com passos silenciosos, quase como se ele próprio fosse uma sombra.
O senhor era um homem idoso, seus cabelos brancos e seu corpo cansado pela
idade, mas seus olhos carregavam uma sabedoria amarga. Ele não era um herói,
nem alguém em quem os outros confiassem, mas seus olhos, pesarosos e
profundos, viam além das aparências. Ele havia conhecido a dor e o
arrependimento de perto, e agora carregava o fardo de um peso que ninguém
poderia entender.

Ele conhecia bem o demônio que agora balançava morto na praça. Ele o criou
desde criança, encontrou-o perdido e sozinho, sem lar, sem proteção. Alimentou-
o, ensinou-lhe o que sabia, viu-o crescer sem jamais causar mal a ninguém. Mas
nada disso importou para os humanos. Tollza, o demônio, havia cometido o único
pecado imperdoável: amar uma mulher humana. E por isso, foi condenado.
Assim como ela. Os próprios semelhantes da mulher a julgaram e a
sentenciaram à morte, incapazes de aceitá-la por ter entregue seu coração a um
ser diferente. O velho sabia que, no fundo, Tollza jamais teve uma chance real de
ser aceito. Nem ela. Nem o filho que geraram juntos.

11
Agora, a única coisa que restava deles era o bebê.

O velho avançava com cautela entre os escombros, seus dedos trêmulos


afastando as tábuas queimadas e os detritos. Cada pedaço de madeira que ele
removia parecia pesar mais sobre seu coração. Ele temia encontrar apenas
restos humanos, ossos carbonizados e a marca de um sofrimento irreparável. No
entanto, seus dedos tocaram algo diferente, algo inesperado — algo ainda vivo.
Seus olhos, com a mesma dor e desespero que o haviam marcado por toda a
vida, brilharam com um vislumbre de esperança.

Lá, entre a sujeira, o sangue da mãe e as cinzas, estava o bebê. A criança, tão
frágil e pequena, ainda se mantinha quente, como se tivesse sido protegida
pelas próprias chamas. Mas o que o fez vacilar foi o olhar do bebê — olhos
negros como a noite sem estrelas, com pupilas verticais vermelhas que
brilhavam com uma intensidade sobrenatural, refletindo algo antigo e sombrio,
algo que ele sabia não era do mundo dos homens. O velho sentiu um arrepio,
como se o olhar da criança penetrasse em sua alma. Mas ele não hesitou. Não
havia escolha.

Com um suspiro pesado, o senhor cuidadosamente levantou o bebê em seus


braços. Ele sabia que a vida daquele pequeno ser seria marcada pela dor e pela
perda, assim como a sua própria. Ele não sabia o que o futuro reservaria, mas
sabia que oódio e o medo que o mundo alimentava não poderiam vencer essa
nova vida. O bebê, com seu corpo frágil e pele branca como a de um humano,
era agora o último vestígio de uma tragédia que jamais poderia ser apagada.

Com o bebê nos braços, o velho caminhou pelas estradas desertas, longe das
ruínas, até encontrar uma caverna isolada nas colinas. O som do vento nas
rochas parecia acolhedor, como um sussurro em meio ao caos. Ali, no refúgio
das sombras, ele colocou o bebê com todo o cuidado que podia reunir, como se
cada movimento fosse uma promessa de proteção. As cinzas ainda cobriam o
corpo da criança, vestígios de sua origem e de sua dor. O velho começou a
limpar o bebê com as mãos calejadas, retirando as cinzas que o cobriam,
lavando o sangue da mãe que ainda se apegava à sua pele, suavizando as
marcas da tragédia que o mundo jamais poderia compreender.

12
Ele deitou o bebê em um colchão murcho, um pedaço de tecido gasto que,
apesar de simples, oferecia algum conforto. Em seguida, acendeu uma pequena
fogueira, cujas chamas dançavam suavemente, iluminando as paredes da
caverna e lançando sombras tremeluzentes. O calor do fogo era suave, mas o
velho não sentia calor em seu coração. Ele deitou-se ao lado do bebê, e suas
mãos calejadas buscaram a fragilidade da criança, tentando protegê-la da
crueldade do mundo lá fora.

Naquela noite, enquanto o bebê respirava suavemente, o velho começou a


chorar. Suas lágrimas não eram de raiva, mas de uma dor profunda e silenciosa.
Ele sabia que aquele bebê, tão indefeso e frágil, carregava em si a dor e a perda
de tudo o que havia sido destruído. O demônio enforcado, Tollza, e a mulher que
morrera nas chamas eram vítimas do ódio cego, mas o mundo nunca os veria
como vítimas. O bebê era a prova viva disso, um reflexo de um ódio que, mesmo
na fragilidade da criança, jamais seria esquecido.

Com a respiração entrecortada, o velho olhou para o bebê e, com um suspiro de


resignação, murmurou:

— "Você será chamado Tollza AZ. O nome de seu pai, o nome de sua mãe. Pois
você é o que restou deles, o que o mundo não quis ver, mas que agora vai viver.
Não vou deixar que o ódio destrua o que eles nunca puderam ter."

Na escuridão da caverna, o velho fechou os olhos, e o peso da responsabilidade


o fez sentir-se mais velho do que nunca. Mas, mesmo com a alma esmagada, ele
sabia que não havia mais volta. O bebê, embora ainda tão pequeno e indefeso,
agora tinha uma chance — a chance que o mundo não lhe ofereceu. E, enquanto
o futuro de Tollza AZ se formava nas sombras, o destino do mundo começava a
mudar, mesmo que ninguém ainda soubesse disso.

O Crescimento de Tollza: O Sobrevivente da Escuridão

Os três anos que se passaram desde o nascimento de Tollza AZ foram marcados


13
por desafios e isolamento. Enquanto o mundo girava sem perceber sua
existência, ele crescia em meio à escuridão, sem luxos, sem glória, mas também
sem a pressão das expectativas alheias. Seu único companheiro era o senhor
que o havia encontrado entre as cinzas e decidido protegê-lo, um homem que já
conhecia a injustiça do mundo melhor do que ninguém.

A caverna onde viviam era fria e úmida, um abrigo modesto para duas almas
que haviam sido rejeitadas pelo mundo. O senhor não era apenas um protetor
para Tollza — ele era o único laço que o menino tinha com qualquer tipo de
afeto. Mas ele também carregava um fardo pesado: a culpa. O demônio que os
aldeões enforcaram, Tollza, o pai da criança, não era um monstro cruel como os
humanos acreditavam. O senhor havia criado Tollza desde que era um pequeno
órfão, ensinando-lhe sobre o mundo e dando-lhe a chance de crescer sem se
tornar aquilo que os humanos temiam. Mas isso não foi suficiente. Mesmo sem
jamais ter feito mal a ninguém, ele foi condenado pelo simples fato de amar uma
humana, uma mulher que pagou o mesmo preço apenas por corresponder a
esse amor. O senhor os havia perdido, mas agora, em seus braços, segurava
aquilo que restara deles: o filho que carregava seus nomes.

Tollza, ao contrário das crianças humanas comuns, não chorava muito. Ele
observava tudo com seus olhos negros e pupilas vermelhas verticais,
absorvendo o mundo de forma silenciosa. Seu corpo era mais resistente do que o
de um humano, mas sua pele não era vermelha como a de outros demônios —
era branca, como a de sua mãe. Ele era a fusão de duas linhagens, um ser que
não pertencia completamente a nenhum dos dois mundos.

Aprender a andar foi um desafio silencioso. Sem ninguém para incentivá-lo ou


segurar suas mãos, Tollza descobriu sozinho como se erguer. Uma noite, uma
pequena serpente deslizou pelo chão da caverna e se enrolou ao redor de seu
braço. Assustado, ele tentou se afastar, e, em um movimento brusco, seus pés
encontraram o chão firme. A cobra foi esmagada em sua força descontrolada, e
ali, pela primeira vez, ele ficou de pé. Sem aplausos, sem testemunhas — apenas
a caverna e o olhar silencioso do senhor, que viu naquilo um sinal de que o
menino estava pronto para crescer por si mesmo.

14
As palavras vieram tarde. Com quase três anos, Tollza finalmente começou a
falar, mas sempre com economia. Não gostava de desperdiçar palavras, e o
senhor nunca o pressionou. Em vez disso, trouxe-lhe livros. O menino passava
horas folheando as páginas, absorvendo histórias, magia e conhecimento. Os
livros eram seu refúgio, sua conexão com um mundo que jamais o aceitaria, mas
que ele poderia compreender melhor do que qualquer um.

O senhor o observava crescer com um misto de tristeza e esperança. Tollza não


era um monstro, mas o mundo jamais o enxergaria como algo diferente. Ele
sabia que um dia o menino precisaria sair da caverna e enfrentar aquilo que o
aguardava do lado de fora. Mas por enquanto, ele se contentava em ensinar
tudo o que podia, preparando-o para o inevitável.

Tollza não sabia o que o futuro lhe reservava. Ele não conhecia o ódio que o
esperava além das colinas, nem a história trágica que havia moldado sua
existência. Tudo o que ele sabia era que, no silêncio da caverna, sob a tutela do
senhor, ele tinha algo que nenhuma outra criança no mundo poderia reivindicar:
liberdade.

Mas até quando essa liberdade duraria? Isso, nem mesmo o senhor poderia
responder.

Tollza tinha seis anos agora. Seis anos vivendo dentro da caverna, envolto pelas
sombras e pelo silêncio. O único som constante era o eco das gotas de água que
caíam das estalactites no teto da caverna, um ritmo melancólico que parecia
marcar o passar dos dias. Seu único companheiro era Seno, o homem que o
criava desde que ele era apenas um bebê, que o alimentava, o ensinava e o
protegia do mundo láfora.

Naquela noite, Seno se sentou diante dele com um peso nos ombros. Tollza
percebeu algo diferente no olhar do velho. Ele não era um homem fraco,
tampouco dado a sentimentalismos, mas algo no modo como suas mãos
tremiam levemente o denunciava. Havia um peso ali, algo que ele estava
prestes a dividir.
15
— Tollza… — Seno respirou fundo antes de continuar. — Está na hora de
vocêsaber a verdade sobre de onde veio… sobre seus pais.

Tollza permaneceu em silêncio, mas seus olhos negros com pupilas vermelhas
se fixaram em Seno. Ele nunca perguntara sobre isso antes. Talvez porque, no
fundo, sempre soube que a resposta não seria algo bom. Ainda assim, não
desviou o olhar.

Seno suspirou e prosseguiu:

— Sua mãe… ela era humana. Uma mulher bondosa, forte… e corajosa o
suficiente para amar um demônio. Seu pai. Eles se apaixonaram apesar do
mundo estar contra eles. Lutaram para ficarem juntos, mas não havia lugar para
um amor como o deles. Os humanos odiavam seu pai por ser um demônio. Os
demônios desprezavam sua mãe por ser humana. Nenhum dos lados aceitou… e
por isso, os destruíram.

Tollza sentiu algo apertar dentro de si. Ele não sabia nomear o sentimento, mas
era uma mistura de vazio e dor. Como se estivesse prestes a cair em um buraco
sem fundo. Ainda assim, não disse nada. Apenas ouviu.

— Sua mãe estava grávida de você quando os humanos descobriram. Eles não
esperaram. Foram até a casa deles no meio da noite. Cercaram a vila.
Arrastaram seu pai para fora e o enforcaram diante de todos. — Seno fechou os
olhos, tentando controlar a própria voz. — Sua mãe viu tudo… pela janela da
casa em chamas, enquanto te dava à luz. Não puderam sequer tocar um no
outro em seus últimos momentos. Seu pai morreu sem saber que você nasceu…
e sua mãe morreu segurando você nos braços.

Houve um longo silêncio.

O fogo. As chamas consumindo tudo. O ar repleto de fumaça e desespero. A


mulher segurando o recém-nascido, sentindo a vida se esvair de seu corpo,
enquanto do lado de fora o corpo de seu amado balançava sem vida na forca.

Tollza sentiu o peito pesar. Era como se tivesse perdido algo que nunca teve.
Como
16
se o vazio dentro dele ficasse ainda maior.

Ele baixou os olhos, absorvendo aquelas palavras, deixando-as ecoarem dentro


de si. E então, com a voz baixa, perguntou:

— Meus pais… eles me amariam?

Seno piscou, surpreso. Ele esperava qualquer pergunta—qualquer uma—menos


essa. Um nó se formou em sua garganta, e ele respondeu sem hesitar:

— Com todo o coração. Seu pai e sua mãe te amariam mais do que tudo, Tollza.
Você era a prova do amor deles. Eles teriam dado a vida por você… e, de certa
forma, deram.

Tollza permaneceu em silêncio, seus olhos fixos no chão, como se tentasse


entender tudo o que ouvira. Ele então abraçou as pernas e se enrolou, como se
quisesse se proteger de tudo aquilo. O senhor observou, impotente, e sabia que
as palavras que ele falava eram verdade, mas não poderiam realmente curar a
dor de Tollza.

Seno sentou-se mais perto de Tollza, a ansiedade quase palpável em seu peito.
Ele olhou para o garoto, cujos olhos estavam cheios de tristeza e confusão, e
então fez a pergunta que já o atormentava há muito tempo.

— Tollza… — começou com a voz suave, mas cheia de dor. — Sempre me


perguntei por que você nunca me pediu para sair. Nunca quis ver o mundo lá
fora? Por que nunca quis saber o que há além da nossa caverna?

O garoto olhou para o chão, como se fosse difícil para ele entender a própria
pergunta. Ele parecia distante, absorto em um mundo que Seno não conseguia
alcançar. Depois de um momento, Tollza levantou os olhos e, com a voz fria e
distante, falou:

17
— Já vi nos livros… — a voz dele era quebrada, mas ele continuou, a expressão
vazia. — Eu sei o que há lá fora. Eu sei o que as pessoas dizem sobre mim, sobre
o que eu sou. Não posso ser aceito pelos humanos, porque sou metade demônio.
Mas também não sou aceito pelos demônios, porque sou metade humano.
Então, pra que sair, senhor? O que há lá fora que valha a pena?

Seno sentiu a dor nas palavras do garoto, a resignação. Ele tentou encontrar um
fio de esperança no fundo do olhar de Tollza, mas não conseguiu. Ele se
aproximou mais, com o coração apertado.

— Eu sei que o mundo lá fora é cruel, Tollza — disse Seno, com a voz trêmula. —
Mas lá fora também há coisas boas. Não tudo é ódio, não tudo é rejeição. Eu sei
queé difícil, filho. Mas…

Tollza interrompeu, quase com raiva, como se a dor que ele sentia se tornasse
palavras:

— Eu sou um erro! — disse ele, a voz tremendo de raiva contida e dor. — Eu sou
metade humano, metade demônio. Eu não pertenço a nenhum dos dois mundos.
Eu sou um erro da natureza. Um ser que nunca deveria existir, e por isso sou
rejeitado. Não há nada lá fora pra mim. Nada além do que já sei.

As palavras de Tollza ficaram no ar, como uma sentença de morte para sua
esperança. Seno sentiu o coração apertar ainda mais, e ele olhou para o garoto
com a dor de quem sente o peso do mundo em suas costas.

— Tollza, você não é um erro. Não é. — A voz de Seno soou firme, mas com um
leve tremor, como se ele tivesse que convencer a si mesmo também. — Eu
entendo o que você está sentindo, mas você não é um erro. Você é o que você é,
e isso ésuficiente. Você é alguém digno de amor, digno de existir. Não importa o
que o mundo diga, ou o que você pense de si mesmo. Não é a natureza que
errou, filho, éo mundo que falhou com você.

Tollza olhou para o senhor, mas seus olhos estavam cheios de raiva e dor. Ele
queria acreditar nas palavras de Seno, mas sua dor estava tão profunda que ele
não
18
conseguia. Em um suspiro dolorido, ele falou:

— Então, por que, senhor? Por que meus pais tiveram que morrer? Eles me
amavam, mas o mundo não permitiu. Eles lutaram, mas o mundo os matou. Eu
sou só um lembrete do ódio que existe… que é melhor eu não existir.

Seno olhou para ele, seu coração apertado, cheio de culpa e impotência. Ele
sentiu que havia feito o que podia, mas sabia que ainda havia algo mais que
precisava ser dito. Ele tocou a face de Tollza, suavemente, tentando acalmá-lo.

— Eu sei que você carrega um peso enorme, Tollza — disse Seno, com a voz
cheia de dor. — Eu sei o quanto a dor de seus pais e de quem você é te
machuca. Mas você tem que entender que a morte deles não foi culpa sua. Eles
te amaram de verdade, e mesmo que o mundo tenha os arrancado, o amor
deles por você éeterno. E você… você não é o erro que o mundo tenta te fazer
acreditar. Você évalioso, filho, mesmo que o mundo não consiga ver isso.

Tollza fechou os olhos, apertando os punhos, e um silêncio pesado se instalou.


Mas então, Seno, com um olhar profundo e cheio de preocupação, fez outra
pergunta, tentando encontrar algum vestígio de esperança no garoto.

— E a raiva, Tollza? — Seno perguntou, a voz grave. — Você tem raiva do mundo
depois de tudo o que soube sobre seus pais? Não sente que deveria sair dessa
caverna, buscar vingança, fazer o mundo pagar pelo que fez com eles? Não
sente nenhuma vontade de lutar?

Tollza permaneceu em silêncio por um longo tempo, os olhos fixos no vazio. Ele
sentia a raiva queimando dentro dele, o desejo de fazer justiça. Mas, mesmo
assim, não conseguia ver sentido em ir além disso. Quando finalmente falou, sua
voz era baixa e desprovida de emoção:

— Não… — Ele balançou a cabeça, ainda olhando para o chão. — Não vale a
pena. Vingança… é inútil. Não muda nada. O mundo já é cruel demais. Não tem
sentido sair, nem mesmo para tentar mudar as coisas.

19
Seno sentiu uma onda de tristeza ao ouvir aquelas palavras. Ele sabia que o
garoto estava certo, de certa forma, mas isso não fazia as palavras de Tollza
menos dolorosas. Ele queria ser a força que Tollza precisava, queria encontrar
algo para confortá-lo. Mas ele sabia que naquele momento, suas palavras eram
insuficientes. O que ele poderia dizer quando o próprio mundo parecia ter
abandonado o garoto?

Foi então que ele, quase sem pensar, abraçou Tollza. O garoto, que sempre se
manteve distante, parecia resistir por um momento, mas depois, sem mais
palavras, se entregou ao abraço. Seno o envolveu com força, tentando
transmitir, de alguma forma, a segurança que ele tanto precisava. Com um beijo
suave na testa do garoto, ele sussurrou, tentando alcançar o fundo do seu
coração:

— Se você é o maior erro da natureza, então a natureza nunca errou, meu filho.
Você é a minha razão, você é a minha vida. E eu… eu sempre estarei aqui para
você. Sempre.

Foi nesse momento, ao sentir o calor do abraço de Seno, que Tollza, pela
primeira vez, desabou. As lágrimas começaram a cair, silenciosas e pesadas,
como uma torrente que não podia mais ser contida. Ele se aconchegou no peito
de Seno, como se finalmente pudesse se entregar ao que sentia, ao medo, à dor,
à saudade de algo que nunca teve, ao amor que nunca soubera se permitir.

Seno o segurou com firmeza, o coração partido ao ver o garoto quebrado, mas
ao mesmo tempo, aliviado por finalmente ver Tollza expressando sua dor. O
senhor sabia que as palavras não poderiam curar todas as feridas de Tollza, mas
ele também sabia que o abraço, o carinho e o amor que ele podia oferecer eram
o que ele tinha de mais precioso naquele momento.

E, assim, em silêncio, Seno e Tollza permaneceram juntos, no conforto de um


momento que, embora marcado pela dor, também carregava a promessa de
que, enquanto estivessem juntos, nada poderia destruir o que tinham um para o
outro.
20
Após uma noite de sonhos inquietos, o senhor acordou cedo no dia seguinte,
sentindo o peso da agitação e as lembranças do tormento que o
acompanhavam. Seus olhos estavam cansados, mas sua mente, apesar de
turvada, estava determinada. Havia algo em seu coração que o empurrava para
a ação. O desejo de ver Tollza sorrir, de ver aquele brilho nos olhos do garoto
novamente, era o que o motivava. Ele sabia que a solidão e o desespero que
Tollza carregava dentro de si estavam se tornando insuportáveis. O garoto
estava, como uma árvore que crescia em um solo rochoso, se esforçando para
se manter de pé, mas cada vez mais se curvava sob o peso do mundo.

O senhor sabia que algo precisava ser feito. Ele não tinha muito, mas o que
possuía de valor sentimental, ele estava disposto a oferecer. Lembranças de sua
vida, coisas que ele jamais pensaria em vender, mas agora, diante da
necessidade de fazer Tollza sentir-se especial, o senhor decidiu que, por mais
doloroso que fosse, venderia esses itens para comprar algo que pudesse alegrar
o coração do garoto.

Com um suspiro profundo, ele se dirigiu até um baú escondido, onde guardava
suas memórias mais preciosas. Ali estavam objetos de um passado que ele
guardava com carinho — um relógio antigo que pertencera a seu pai, uma carta
de um amigo distante que já se fora, e um medalhão de ouro que sua mãe lhe
dera quando ele ainda era um garoto. Esses itens, que para ele eram os tesouros
mais valiosos, agora seriam trocados por algo mais tangível, algo que pudesse
tocar o coração de Tollza de uma maneira que palavras nunca seriam capazes.

Ele os colocou cuidadosamente em um saco e partiu em direção à estrada. A


viagem até a cidade próxima era longa, mas o senhor sentia que o que estava
fazendo era certo. Ao longo do caminho, o peso do saco em suas mãos se fazia
mais presente, mas a ideia de que tudo isso seria por Tollza o mantinha firme.
Ele sabia que o garoto merecia um presente que fosse digno da sua alma, que
estivesse além do sofrimento e da dor que marcavam sua vida.

Ao chegar ao mercado da cidade, o senhor encontrou um vendedor peculiar. A


carroça do homem estava coberta por uma lona escura, e ele se encontrava em
silêncio, como se a sua presença fosse mais uma sombra do que um ser
humano. O

21
senhor sabia que aquele homem era diferente dos outros. O olhar do vendedor
parecia carregar um segredo, e o tipo de troca que ele propunha estava além do
que o senhor imaginava. No entanto, ele não hesitou. Entregou o saco com suas
preciosidades em troca de dois itens que o vendedor revelou com um gesto
sombrio: uma veste negra de tecido que parecia absorver a luz ao redor e o
tecido se moldava a quem vestia mostrava que Tollza o poderia usar mesmo
quando crescesse e também uma espada, elegante e com detalhes dourados e
roxo escuro, de um formato que parecia feito sob medida para Tollza. A espada,
embora um pouco maior do que o necessário para o garoto, parecia transmitir
uma força silenciosa que o senhor sabia que o garoto possuía, mas que ainda
não tinha sido despertada. A veste, com seus bordados roxos, parecia carregar
uma mística, um poder que ele acreditava ser a chave para transformar a visão
de Tollza sobre si mesmo.

Quando o senhor retornou à caverna, o coração pulsava mais forte do que


nunca. O ar da caverna, geralmente frio e sombrio, parecia ainda mais pesado,
como se estivesse esperando a reação do garoto. Mas quando ele entrou e viu
Tollza ali, ainda com os olhos sombrios e tristes, algo dentro dele se aqueceu. Ele
sabia que o garoto precisava disso, não como uma simples distração, mas como
uma afirmação de que ele era digno de algo bom.

Silenciosamente, o senhor tirou os presentes do saco e os colocou diante de


Tollza. Primeiro, a veste negra. O tecido parecia respirar, como se fosse uma
extensão do próprio ser do garoto. Em seguida, ele retirou a espada, sua lâmina
refletindo a pouca luz da caverna. Tollza olhou para os itens com curiosidade,
mas algo mais se passou em seus olhos. Havia um brilho, um lampejo de algo
que o senhor não via hámuito tempo. Ele sentiu que, por um breve momento, o
peso do mundo não estava sobre os ombros do garoto.

Sem uma palavra, Tollza se aproximou, com as mãos tremendo ligeiramente, e o


abraçou, um abraço silencioso, mas profundo, cheio de uma gratidão silenciosa
que o senhor podia sentir em seu próprio peito. Não havia necessidade de mais
palavras, pois aquele simples gesto dizia tudo o que precisava ser dito. O senhor
sentiu seu coração se aquecer, uma emoção intensa que o tomou por completo.
Ele apertou o garoto contra seu peito e, por um instante, o mundo lá fora deixou
de existir. A dor, o

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medo, tudo se dissipou naquele abraço.

Tollza, então, vestiu a capa negra com cuidado, o capuz cobrindo parcialmente
seu rosto, e ajustou a espada à cintura. Ele se olhou no espelho improvisado, um
pedaço de metal que o senhor havia colocado ali, e por um momento, ele viu
algo além da sombra de si mesmo. Ele viu uma figura imponente, uma presença
que, embora jovem, carregava uma força que ainda não compreendia
completamente, mas que, de alguma forma, já estava ali.

O senhor observava tudo em silêncio, seus olhos cheios de orgulho e um amor


indescritível por aquele garoto. Era como se, pela primeira vez, ele visse Tollza
não apenas como uma criança marcada por tragédias, mas como alguém com
um potencial imenso, alguém que, apesar de tudo, tinha algo de grandioso
dentro de si.

Antes que o senhor pudesse dizer algo, Tollza se virou lentamente, como se algo
tivesse mudado dentro dele, e o abraçou novamente. Esse abraço foi diferente
do primeiro. Ele era mais forte, mais cheio de sentimento. E quando Tollza, com
a voz baixa e firme, disse:

— Muito obrigado por sempre cuidar de mim. Eu te amo.

Essas palavras atravessaram o coração do senhor como uma lâmina afiada, mas
também como um bálsamo curativo. Ele não esperava ouvir isso, nem de longe.
Tollza, o garoto que sempre parecia tão fechado e distante, agora expressava
algo puro e profundo. O senhor, com lágrimas nos olhos, apertou o garoto com
força,
sentindo o peso daquelas palavras e a profundidade do amor que as
acompanhavam.

— Eu também te amo muito, Tollza. E estou tão orgulhoso de você.

Enquanto eles se abraçavam, o senhor sentiu um alívio, uma sensação de que,


talvez, por mais difícil que fosse a jornada, havia algo bom em sua vida, algo que
ele sabia que sempre teria — o amor de Tollza. E naquele abraço, ele sentiu, pela
primeira vez em muito tempo, que talvez o futuro não fosse tão sombrio assim.
O senhor sabia que Tollza havia encontrado algo novo em si mesmo, uma razão
para
23
continuar lutando. E, naquele momento, ele sentiu que, enquanto estivessem
juntos, nada, nem o passado, nem o ódio do mundo, poderia separá-los.

A rotina, agora mais tranquila, seguia em um ritmo constante. Senhor Seno saía
todas as tardes, sempre em busca de algo para trazer de volta para a caverna.
Às vezes, era um pedaço de pão fresco, outras vezes, carne curada ou algum
vegetal, dependendo do que conseguisse encontrar na cidade próxima. A cada
viagem, ele se sentia mais tranquilo, como se, de alguma forma, estivesse
conseguindo prover algo melhor para Tollza, algo que fosse mais do que apenas
sustento, mas também um sinal de carinho.

Enquanto isso, Tollza passava os dias sozinho na caverna. Ele havia se


acostumadoà solidão, mas de uma maneira diferente agora. Passava horas
imerso em livros, absorvendo o conhecimento que sempre teve à disposição,
embora sem nunca ter sido capaz de usá-lo antes. Mas, além disso, começou a
tentar algo novo. A espada que Senhor Seno lhe dera não estava mais apenas
pendurada em um canto da caverna. Tollza se dedicava a treinar, tentando
aprender os movimentos, mesmo que a espada fosse um pouco grande demais
para ele.

Num desses dias, enquanto praticava em silêncio, Seno voltou mais cedo, o que
não era comum. Ao abrir a entrada da caverna, ele viu Tollza de costas,
concentrado, fazendo movimentos hesitantes com a espada. O senhor sorriu,
com o peito aquecido pela visão de seu protegido, agora tão envolvido em algo
que talvez fosse uma forma de se afirmar, de encontrar uma razão para levantar
todos os dias.

— Como está a prática? — perguntou Seno, com uma leveza na voz, não
querendo interromper o momento de Tollza.

Tollza se virou rapidamente, o olhar surpreso, mas, quando percebeu que era o
senhor, seu rosto se suavizou e ele respondeu com um sorriso tímido.

— Está… está indo bem. Só não sei se vou conseguir... é mais difícil do que
parece.
Senhor Seno se aproximou devagar, sentindo o cheiro da caverna e da terra,
mas o calor daquele momento o fazia sentir uma felicidade simples, um
aconchego que não
24
experimentava há tempos. Ele se agachou ao lado de Tollza e tocou no cabo da
espada com delicadeza.

— Eu sei que é difícil, Tollza, mas o importante é que você está tentando. Às
vezes, não é sobre acertar logo de cara. É sobre continuar, passo a passo.

Tollza olhou para o senhor, absorvendo suas palavras. Ele, que antes parecia tão
fechado, tão distante de qualquer sensação de pertencimento, agora começava
a abrir mais o coração, mesmo que aos poucos. A espada, que antes era um
símbolo de um passado que o magoava, agora parecia representar uma chance,
uma nova maneira de se conectar com o que ainda tinha de bom no mundo.

— Eu acho que vou conseguir... um dia. Não sou tão bom quanto os outros,
mas... acho que não importa tanto assim, né? — disse Tollza, um pouco mais
confiante, mas ainda com um toque de dúvida em sua voz.

Seno sorriu, tocando a cabeça de Tollza com carinho, algo simples, mas
carregado de um amor silencioso e imenso. Ele estava tão orgulhoso de ver o
garoto começar a enxergar suas próprias forças.

— Não importa ser o melhor, Tollza. O que importa é que você está fazendo isso
por você. Isso é o que conta. E eu estarei aqui, sempre que precisar de mim,
como sempre estive.

Tollza sorriu mais uma vez, e, pela primeira vez em muito tempo, parecia estar
realmente se permitindo viver um pouco da alegria simples da vida. Ele não
sabia se algum dia poderia ser aceito no mundo lá fora, mas naquele momento,
ele tinha algo valioso: a confiança de Senhor Seno, que agora não estava mais só
como um guardião, mas como uma figura de apoio e carinho incondicional.

À noite, enquanto Seno preparava o jantar com os ingredientes que trouxera,


Tollza se aproximou dele, mais uma vez com aquele sorriso tímido, mas agora
com algo a mais nos olhos — uma curiosidade e uma vontade de se conectar.

— Senhor Seno... como foi o seu dia hoje? — perguntou ele, a voz mais suave do
25
que o normal, mas também com um tom de interesse genuíno.

Seno se virou para ele, surpreso pela pergunta, mas, ao mesmo tempo,
encantado. Tollza, que antes se escondia atrás do silêncio, agora estava
interessado no outro. Ele queria saber como o senhor estava, como o dia dele
havia sido. Isso significava muito mais do que palavras poderiam expressar.

— Foi um bom dia, Tollza. Consegui encontrar algumas coisas boas para trazer, e
também passei pela cidade, ouvi algumas histórias novas... mas o melhor do dia,
sem dúvida, foi voltar e te ver praticando com a espada.

Tollza sorriu mais uma vez, mais largamente, e dessa vez Seno pôde ver em
seus olhos a verdadeira transformação que estava acontecendo. O garoto estava
começando a ver a vida com outros olhos, com mais esperança, mais coragem.

— Eu quero ser bom, Senhor Seno. Quero ser alguém que você possa se orgulhar.

Seno, emocionado, colocou uma mão no ombro de Tollza, apertando levemente,


com todo o carinho que poderia oferecer.

— Você já é alguém de quem me orgulho, Tollza. Mais do que imagina.

A noite seguiu com uma calma reconfortante. Eles compartilharam o jantar,


conversaram sobre coisas simples, e, pela primeira vez, o silêncio entre eles não
era desconfortável, mas cheio de uma cumplicidade silenciosa, algo que se
construía aos poucos, mas que se tornava mais forte a cada dia.

Tollza, que antes via o mundo com olhos de tristeza e desilusão, agora tinha algo
novo dentro de si — um brilho tímido, mas sincero. Ele não sabia o que o futuro
traria, mas, naquele momento, ele sabia que não estava mais sozinho. Ele tinha
o Senhor Seno, e isso era mais do que suficiente para seguir em frente.

No dia seguinte, Seno saiu para buscar mais comida, mas, antes de sair, ele
olhou para Tollza, que estava sentado perto da entrada da caverna, com os olhos
curiosos e atentos.

26
— Tome cuidado com a espada, ok? — disse ele com um sorriso, antes de sair.

Tollza acenou com a cabeça, agora mais confiante, mais firme. Ele se levantou,
pegou a espada com mais determinação, e, com um último olhar para o senhor,
disse, com um sorriso genuíno:

— Pode deixar, Senhor Seno. Vou treinar mais hoje. E vou ser bom, você vai ver.

E, enquanto Seno partia para a cidade, o garoto, agora mais seguro de si, passou
a tarde treinando, cada movimento se tornando mais preciso, mais firme. O dia
parecia promissor, e, por mais que o mundo lá fora fosse cruel, ele sabia que, ali
dentro da caverna, ele não estava sozinho. Ele tinha alguém ao seu lado. E, por
agora, isso bastava.

Assim 10 anos se passaram Seno agora já tinha seus 78 anos e Tollza apenas 16
mas já era um excelente espadachim mesmo nunca tendo saído daquele
caverna escura.

27
Nome: Tollza
Idade: 16 anos
Raça: Metade Humano, Metade
demônio.

28
Era o fim de um dia qualquer, ou pelo menos deveria ser. Tollza, com os olhos
fixos nos livros, não percebera que a ausência do senhor Seno se estendia por
um tempo preocupante. Mas, conforme as horas passaram e a escuridão
começou a se aproximar, ele não pôde mais ignorar o vazio em seu peito. Algo
estava errado. O senhor Seno não havia voltado, e o silêncio da caverna se
tornou um peso insuportável.

Os minutos se arrastaram, e Tollza, embora tentasse se concentrar nos livros,


mal conseguia ler uma linha sem sentir a angústia crescente. O silêncio que
antes o confortava agora o sufocava. Ele ouvia cada estalo das rochas, cada
farfalhar de folhas na entrada da caverna. Mas nada mais, além do vazio.

Nos três dias que se seguiram, a preocupação se transformou em um pânico


silencioso, algo que se arrastava como uma sombra atrás dele. O senhor Seno
sempre voltava, sempre trazia algo para ele, sempre sabia o que dizer. Mas
agora, a ausência dele era uma ferida aberta. Onde está o senhor Seno? A
pergunta se repetia na mente de Tollza, sem resposta. Cada vez que ele olhava
para a porta, um fio de esperança se desfiava lentamente, até que ele soube,
sem dúvida alguma: algo havia acontecido.

O pânico tomou conta de seu corpo, e ele não podia mais suportar a incerteza.
Ele não sabia o que fazer, mas sabia que não poderia mais ficar ali, esperando
que o senhor Seno aparecesse. Então, o que parecia impossível tornou-se
inevitável. Ele sairia da caverna.

A ideia de ir para o mundo lá fora, para o desconhecido, era aterradora. A ideia


de ser visto por qualquer outra pessoa o fazia querer encolher até desaparecer.
Ele sempre se sentira uma aberração, uma mistura de humano e demônio, e a
ideia de sair da segurança da caverna, exposto e vulnerável, o fazia tremer. Mas
a preocupação com o senhor Seno, o medo de perdê-lo, foi mais forte do que o
pavor que ele sentia do mundo lá fora.

Quando finalmente se aproximou da entrada da caverna, o ar fresco da tarde lhe


atingiu a pele com uma força inesperada. O céu estava tingido de laranja e
dourado,

29
uma tapeçaria de cores quentes que se estendia à sua frente. As árvores que ele
nunca imaginara tão grandes pareciam se mover lentamente ao vento, e o canto
dos pássaros preenchia o espaço com sons que pareciam… estranhos, mas
também fascinantes. Ele hesitou por um momento. O que ele estava prestes a
fazer parecia um erro. Ele sentia uma mistura de fascínio e repulsa.

As folhas que tocavam suas mãos, o cheiro da grama fresca e da terra… tudo
parecia tão vivo, tão real, que ele mal conseguia compreender. Era tudo tão
diferente do que ele conhecera. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia nojo do
mundo. O que ele via, com suas cores vivas e formas exuberantes, parecia tão
distante de sua dor e da solidão que ele carregava. Cada árvore parecia uma
torre, cada folha parecia uma arma apontada para ele. O mundo estava vivo,
mas isso o assustava mais do que o conforto das sombras da caverna.

Tollza hesitou. Cada passo era mais difícil do que o anterior. O medo se agarrava
a ele como uma sombra, e ele parou, observando a vastidão do mundo à sua
frente. Era como se estivesse diante de algo imenso, algo impossível de ser
compreendido. Ele estava tão pequeno. Ele não sabia se deveria voltar. Cada
músculo de seu corpo pedia para que ele se retirasse, para que se escondesse
de novo, longe de tudo o que era desconhecido, mas algo em seu peito o puxava
para frente.

Com um suspiro pesado, Tollza respirou fundo. Ele estava ali, no limiar entre a
segurança da caverna e o vasto desconhecido, entre o mundo que ele conhecia
e o mundo que ele temia. Mas, mais do que o medo de ser rejeitado, mais do
que o receio de ser visto, havia algo que queimava em seu interior: o senhor
Seno. Ele precisava encontrar o senhor, precisava saber onde ele estava. Se o
senhor Seno estava em perigo, ele não poderia mais esperar.

“Concentra, Tollza. Não é hora de hesitar. Você não tem tempo.”

Ele disse isso para si mesmo, suas palavras sendo quase um sussurro perdido no
vento. Cada passo foi mais difícil que o anterior. Ele se forçou a seguir em frente,
mesmo que o peso de suas inseguranças o puxasse para trás. Ele sabia que
estava fazendo algo arriscado, mas o amor que sentia pelo senhor Seno, a
necessidade de

30
encontrá-lo, era maior do que qualquer medo.

À medida que avançava, o mundo ao seu redor parecia se expandir, se abrir de


maneira deslumbrante e ameaçadora. O céu, tingido de laranja e dourado,
parecia um fogo distante, algo que ele nunca imaginara ser real. Ele tocou as
folhas frescas ao seu redor, uma sensação quase mágica. As árvores que se
erguiam diante dele eram imensas, com cascas que pareciam antigas, antigas
como o mundo em si. Tollza respirou fundo e olhou para o horizonte. Era o
começo de algo.

Mas algo o incomodava, algo que ele não podia ignorar: o mundo ao seu redor
parecia tão vivo, tão colorido, mas ele ainda se sentia como uma sombra. Ele
não pertencia a esse mundo. Ele não era como os outros. Ele era um erro da
natureza.

Mas, no fundo, algo em seu peito dizia que talvez ele estivesse começando a
entender que, apesar de tudo, o senhor Seno estava certo. Talvez ele fosse mais
do que acreditava ser. Talvez o mundo lá fora fosse hostil, mas ele não estava
mais sozinho. O senhor Seno sempre lhe dizia que, mesmo em um mundo cruel,
ele merecia algo mais. E, talvez, pela primeira vez, Tollza começava a acreditar
nisso.

O primeiro passo tinha sido dado. E, com ele, uma nova jornada começava.

Tollza caminhava com passos silenciosos, a mata ao seu redor vibrando com
sons que ele nunca havia ouvido de perto. O vento soprava leve, e o pôr do sol
tingia as folhas com tons dourados. Cada detalhe do mundo externo era um
misto de beleza e desconforto para ele. O cheiro úmido da floresta, o chão
irregular, a vastidão do céu sem a proteção das paredes da caverna… tudo
parecia grande demais.

Foi então que ele notou um arbusto se mexendo de forma estranha. Algo
pequeno se agitava ali dentro, e Tollza parou, observando com paciência. Seus
olhos acompanharam cada movimento, atento, esperando para ver o que
surgiria. Ele não sentia medo, apenas curiosidade misturada com uma leve
desconfiança.
Então, um coelho saltou para fora. Pequeno, de pelo acinzentado e olhos escuros,
31
movendo-se com rapidez e leveza. Tollza já havia visto imagens de coelhos em
livros, sabia sobre suas características, mas vê-lo ali, vivo e real, era diferente.
Ele notou a forma como o nariz do animal se movia rapidamente, farejando o
ambiente, e como seus músculos pareciam sempre prontos para correr. Era uma
criatura frágil, feita para fugir.

Ele se agachou levemente, estendendo uma mão com cautela. Não porque
queria tocá-lo, mas porque queria testá-lo. Como reagiria? Quanto tempo levaria
para percebê-lo? Mas antes que pudesse ver qualquer reação…

Uma flecha cortou o ar.

Foi rápido. Um silvo fino, quase imperceptível, e o impacto.

A ponta de ferro atravessou a cabeça do coelho, e o corpo pequeno tombou no


chão sem vida.

Tollza permaneceu onde estava, observando. Seus olhos seguiram a cena com
frieza, absorvendo os detalhes sem reação exagerada. Ele não se assustou. Não
se encolheu. Apenas confirmou o que já sabia: o mundo era um lugar cruel.

As palavras que lia nos livros não tinham exagerado. Fora da caverna, a vida e a
morte caminhavam juntas, e apenas aqueles que fossem fortes sobreviveriam.
Não havia espaço para fragilidade.

Ele ouviu passos se aproximando.

Com movimentos calculados, sem pressa, Tollza se afastou para trás de uma
árvore, escondendo-se apenas o suficiente para observar sem ser visto. Ele
queria ver quem estava por trás daquela flecha.

Uma figura encapuzada emergiu da floresta, movendo-se com eficiência. As


roupas eram simples, feitas para mobilidade, sem ornamentos desnecessários. A
pessoa se abaixou junto ao coelho e, com um gesto firme, arrancou a flecha da
cabeça do animal. Tollza observou como o sangue fresco manchava a ponta de
ferro antes que

32
o caçador a limpasse rapidamente e a guardasse de volta na aljava.

O corpo do coelho foi pendurado na cintura da figura sem hesitação, como um


simples recurso. Algo para ser aproveitado e consumido. Não havia cerimônia.

Tollza manteve-se imóvel, analisando a cena. A precisão da flecha, a ausência de


hesitação, a eficiência dos movimentos. Tudo indicava que essa pessoa não era
apenas um caçador ocasional, mas alguém acostumado a viver daquela forma.

Tollza continuou observando a figura encapuzada, analisando cada detalhe com


atenção. A postura da pessoa indicava exaustão. Ela parecia jovem, talvez por
volta de 15 anos, um anos mais nova que ele. O suor escorria pelo seu rosto e a
respiração ofegante denunciava cansaço extremo.

Quando a garota começou a andar, seus passos eram inseguros, quase


trôpegos. Ela deu mais alguns passos e então, sem aviso, desabou no chão.
Tollza permaneceu parado por um longo momento, apenas observando. Seu
instinto dizia para se manter afastado, mas a necessidade de informações sobre
o Senhor Seno o fez hesitar. Por fim, ele se aproximou com cautela, os olhos
sempre atentos a qualquer sinal de perigo.

Agachando-se ao lado do corpo desacordado, Tollza retirou o capuz da figura


misteriosa e viu que se tratava de uma garota humana de cabelos vermelhos.
Seu rosto estava sujo de poeira e pequenos arranhões cobriam seus braços. Ela
parecia ter passado muito tempo na floresta, talvez até estivesse fugindo de
algo.

Sem perder tempo, Tollza pegou sua mochila, o arco e as flechas, colocando-os
em suas costas. A sobrevivência exigia prudência, e ele não deixaria nada útil
para trás. Então, seus olhos se voltaram para um pequeno lago ali perto. A água
era cristalina, refletindo o brilho do céu escuro que começava a surgir com o cair
da noite.

Ele segurou a garota pelos braços e a arrastou até o lago. Amarrou-a a uma
rocha firme, garantindo que ela não fugiria quando acordasse. Depois disso,
afastou-se um
33
pouco e começou a preparar uma fogueira. As chamas logo iluminaram a área,
lançando sombras tremulantes na superfície da água e nas árvores ao redor.

Tollza sentou-se próximo ao fogo, os olhos voltados para as estrelas que


começavam a surgir no céu. A lua estava cheia, derramando seu brilho prateado
sobre a floresta. Por um instante, ele se perdeu na beleza daquela cena. Aquele
era o mundo que ele tanto temia e desprezava, mas não podia negar que havia
algo fascinante na imensidão do céu noturno.

Com um movimento ágil, Tollza pegou uma pequena faca que encontrou na
mochila da garota e começou a tirar a pele do coelho. Seus movimentos eram
rápidos e precisos, como se já tivesse feito aquilo muitas vezes antes. Após
remover a pele, ele lavou a carne no lago e a atravessou com um graveto
resistente. Depois, posicionou a carne sobre o fogo, deixando que o calor
começasse a assá-la lentamente.

Enquanto esperava, Tollza lançou um olhar para a garota amarrada. Quando ela
acordasse, ele teria perguntas. E esperava que ela tivesse respostas sobre o
paradeiro do Senhor Seno.

O cheiro delicioso da carne pairava no ar, fazendo o estômago de Tollza roncar


baixinho. Ele retirou a carne da fogueira com precisão e pegou uma grande folha
deárvore, colocando a carne em cima dela. O aroma quente e suculento
preenchia o ambiente.

Atrás dele, um leve gemido chamou sua atenção. A garota ruiva começou a
despertar. Seus olhos se abriram lentamente e, ao perceber que estava
amarrada, seu corpo entrou em alerta. Ela tentou se soltar, forçando as cordas,
mas Tollza, sem se virar, disse em um tom calmo:

— Isso é inútil.

A garota estacou e olhou ao redor, tentando entender a situação. Seu olhar caiu
34
sobre Tollza, mas ele continuava de costas para ela, ocupado cortando a carne
com
a pequena faca que pegara em sua mochila. Mesmo sem ver seu rosto, a
presença
dele a inquietava. Seu jeito frio fazia com que ela sentisse um misto de cautela e
curiosidade.

— Quem é você?! Por que me amarrou?! — perguntou ela, tentando manter um


tom
firme, mas havia nervosismo em sua voz.

Tollza manteve o foco na carne, cortando-a em pedaços menores.

— Você desmaiou. Eu ajudei — respondeu, simples.

A garota observou melhor a fogueira e o coelho assado. O aroma era tão bom
que
sua boca salivou automaticamente. Ela não comia há dias. O modo como Tollza
preparou a comida, com tanta eficiência, a impressionou. Quem era esse garoto
estranho e habilidoso?

— Quer metade? — perguntou Tollza sem emoção na voz.

— Sim! Eu não como faz dias! — disse ela imediatamente, sem hesitação.

— Vou dividir. Mas antes, quero que responda algumas perguntas.

A garota hesitou. Não gostava de negociações assim, mas a fome falava mais
alto.
Engoliu seco e assentiu.

— Certo... Pergunte.

Tollza não perdeu tempo.

— Você viu um senhor mais idoso? Cabelos longos e brancos, barba longa
branca,
pele enrugada?

A garota franziu a testa, tentando lembrar. Sacudiu a cabeça negativamente.


35
— Não me recordo de ninguém assim.

Tollza apertou o punho contra a faca, contendo a frustração.

— E o nome Seno? Você já ouviu?

A garota novamente negou.

— Nunca ouvi esse nome antes.

O coração de Tollza se apertou. Ele precisava encontrar o senhor Seno. Ele


precisava saber se estava bem. A incerteza o deixava inquieto.

A garota pigarreou, chamando a atenção dele.

— Então... Agora posso comer? — perguntou, com esperança.

Tollza virou levemente a cabeça para o lado, mas sem permitir que ela visse seu
rosto.

— Feche os olhos.

— O quê? Por quê?!

— Se eu me virar e seus olhos estiverem abertos, eu vou te deixar morrer de fome.

A garota arregalou os olhos, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Havia


uma
firmeza perigosa na voz de Tollza. Ele realmente faria isso? Suspirando, ela
engoliu
o orgulho e fechou os olhos.

— Tá bom, tá bom. Estão fechados! — disse, nervosa.

Tollza pegou a faca e cortou as cordas que a amarravam à rocha. Ele colocou a
metade da carne diante dela e se afastou, voltando a sentar-se na fogueira, sem
nunca expor seus olhos.

36
— Pode abrir.

A garota abriu os olhos devagar, checando se estava livre. Então, sua atenção foi
tomada pela carne quente diante dela. Sem pensar duas vezes, pegou a comida
e começou a devorar. O sabor era maravilhoso.

— Isso... Isso é a melhor coisa que já comi! — exclamou entre mordidas, sem
nem se importar em parecer educada.

Enquanto mastigava, seus olhos voltaram para Tollza, que comia calmamente.
Quem era esse garoto? Ele parecia misterioso, cuidadoso e... perigoso. Mas, ao
mesmo tempo, ele a ajudou, cozinhou para ela e sequer tentou machucá-la. Ele
poderia ter a deixado para morrer, mas não o fez. Isso a deixava intrigada.

Ela engoliu mais um pedaço e, sem conseguir se conter, perguntou:

— Quem é você, afinal?

Tollza continuou comendo em silêncio por um momento. A chama da fogueira


dançava entre eles, lançando sombras enigmáticas no rosto do garoto.

— Alguém que precisa de respostas. — foi tudo o que ele disse.

A garota sentiu um arrepio. Aquilo não respondia nada, mas, ao mesmo tempo,
dizia muito. E por algum motivo... ela sentia que essa noite era apenas o começo
de algo muito maior.

37
A carne do coelho já estava quase toda consumida, e a fogueira queimava
suavemente à frente de Tollza. A garota, que ele até então chamara apenas de
"garota", se levantou com esforço e se aproximou da luz da fogueira. Ela estava
visivelmente hesitante, os ombros encolhidos contra o frio da noite.

"Não se aproxime", Tollza ordenou com a voz firme, seus olhos fixos nas chamas.

Ela parou, mas a expressão em seu rosto não era de medo. Era um olhar
confuso. "Tá tão frio", ela resmungou, tentando disfarçar o tremor na voz. "Eu só
queria me aquecer."

"Vai pra casa", Tollza respondeu sem olhar para ela.

A garota deu uma risada nervosa, cruzando os braços. "Eu não tenho casa."

Tollza não disse nada. O silêncio entre eles se estendeu, quebrado apenas pelo
estalar da fogueira. Ela, no entanto, não desistia.

"Você está o tempo todo de costas pra mim... quando você se virou, me mandou
fechar os olhos. É por causa da sua aparência, não é?" A pergunta dela era
direta, mas havia uma curiosidade genuína por trás da fala.

Tollza manteve o silêncio, suas mãos ao redor da faca, ainda com a lâmina
reluzente. "Isso não importa."

Ela insistiu, agora com um tom mais brincalhão. "Será que é por causa de
alguma cicatriz ou, quem sabe, você é feio e não quer que eu veja? Não se
preocupe, eu não me importo com isso." Ela deu um sorriso travesso, tentando
aliviar a tensão.

O ar se tornou denso. Tollza sentiu uma pontada de raiva em seu peito. "Se
vocênão parar de falar sobre isso, vou te matar", ele disse, sem mudar de
postura.

A garota deu um pequeno pulo de susto, mas logo se recompor. "Se fosse pra
me matar, você já teria feito isso, certo? Afinal, você me salvou e me deu
comida." Ela parecia, de alguma forma, segura de sua conclusão.

38
Tollza, em um suspiro exasperado, respondeu: "Eu só fiz isso para perguntar
sobre o
senhor Seno."

"Esse senhor é importante pra você?" A curiosidade voltou à tona na voz da


garota.

"Não importa", Tollza respondeu secamente.

A garota ficou emburrada, tentando entender a razão de tanta frieza. "Tô


tentando
ser legal, mas você é um chato", ela resmungou, cruzando os braços.

Tollza se manteve em silêncio, não se importando com as palavras dela. Ela


parecia
querer algum tipo de resposta, mas ele não estava disposto a oferecê-la.

"Eu sou Luna", disse a garota de repente, rompendo o silêncio. "Meu nome é
Luna."

Tollza apenas ignorou a apresentação, o olhar fixo no fogo que crepitava. Ele não
queria mais saber. O que ele queria, e precisava, era encontrar o senhor Seno.

Mas Luna não parava de falar. Ela continuava a tagarelar sobre tudo e nada, sua
voz
insistente se erguendo como uma tentativa de preencher o vazio entre eles.
Tollza
estava começando a ficar impaciente, mas ele não se virou, nem mesmo olhou
para
ela.

Então, com um movimento brusco, ele se levantou. Luna deu um pequeno grito
e
deu um passo atrás, seus olhos agora fixos nele, mas Tollza não deu atenção.

"Vou me virar agora", ele disse, sua voz sem emoção.

Luna engoliu em seco, sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Ela se
arrepiou ao ver a tensão em sua postura. O ar parecia mais pesado agora.
"Depois que eu me virar, você vai entender", ele completou, já começando a se
virar
lentamente.

39
Quando finalmente se virou por completo, o brilho de seus olhos era tudo, nada
mais importando. Seus olhos eram como dois buracos negros, com pupilas
verticais vermelhas brilhando de forma sobrenatural. O contraste com a
escuridão da noite fazia com que a luz da fogueira se refletisse de maneira quase
cruel.

Luna congelou. Seus olhos se arregalaram de pavor e, sem conseguir se


controlar, ela caiu sentada no chão. O medo a envolveu por completo, seu corpo
se tremendo enquanto ela olhava fixamente para ele, sem conseguir desviar o
olhar.

Tollza sentiu uma dor no peito, como se uma lâmina tivesse sido fincada nele.
Ele sentiu aquela decepção se infiltrar lentamente, um veneno no fundo de sua
alma. Era isso que o mundo tinha a oferecer? Olhares de medo, repulsa, e nojo?
Ele não pertencia aqui.

"Eu sou só uma aberração", pensou ele, enquanto sentava novamente perto da
fogueira. A tristeza e o peso da solidão o consumiam novamente. Ele havia
esperado algo mais, talvez alguma resposta, mas agora sabia que era isso o que
tinha para ele lá fora.

Luna, ainda tremendo, se levantou rapidamente e deu um passo atrás, seus


olhos não mais fixos em Tollza, mas na floresta à sua frente. Ela não disse nada,
mas sua respiração acelerada era tudo o que Tollza precisava ouvir para
entender o que estava acontecendo. Ela não conseguia lidar com o que via.

Num ímpeto, ela virou-se e correu para as árvores, desaparecendo na escuridão


da floresta.

Tollza fechou os olhos, respirando fundo. Ele sabia que isso aconteceria. O medo,
o nojo, a fuga. Era o único destino que ele tinha.

"Só um erro", ele murmurou para si mesmo, antes de se perder novamente no


silêncio da noite, com apenas o som da fogueira para lhe fazer companhia.

40
O vento assobiava entre as árvores, carregando o cheiro de madeira queimada e
carne assada. As brasas da fogueira brilhavam como olhos adormecidos,
enquanto Tollza permanecia imóvel, mergulhado em seus próprios
pensamentos.

O rosto da garota continuava surgindo na sua mente. Os olhos arregalados, a


respiração entrecortada, o terror estampado em cada detalhe de sua expressão.
Ele já esperava por isso… mas ainda assim, sentiu algo se partir dentro dele ao
ver aquela reação.

Era isso que ele era, no final das contas. Algo que despertava medo. Algo que
não deveria existir.

Ele inspirou profundamente e soltou o ar devagar.

Ele sempre soube que o mundo era um lugar cruel, mas talvez nunca tivesse
entendido o quanto.

Até agora.

Houve um tempo em que ele sonhou… ainda pequeno, ainda ingênuo. Ele
olhava para o senhor Seno e se perguntava se um dia poderia existir outro
alguém que o olhasse do mesmo jeito. Sem temor. Sem nojo.

Mas era um pensamento estúpido.

Tollza cerrou os punhos.

Ele sabia. Sempre soube. Mas lá no fundo, onde nem ele mesmo queria admitir,
uma parte dele esperava… esperava que talvez, só talvez, houvesse alguém que
não reagisse assim.

Mas agora ele via a verdade.

Todos reagiriam assim. Sempre.

41
Ele não pertencia a esse mundo. Nunca pertenceria.

E mesmo que ele o atravessasse por necessidade, procurando o senhor Seno,


isso
não mudaria nada. Ele era um intruso, uma aberração que não deveria sequer
estar
viva.

Seu coração batia forte no peito, não por medo, mas por raiva. Raiva de si
mesmo
por ainda se importar.

Ele ergueu a cabeça, encarando o fogo. As chamas dançavam, consumindo tudo


em
seu caminho.

Era assim que o mundo era.

Consumindo e destruindo tudo que não se encaixava.

•••

Luna se encolhia atrás das árvores, o tronco áspero pressionado contra suas
costas
enquanto seus olhos permaneciam cravados no garoto perto da fogueira.

O coração dela ainda estava acelerado. As mãos, trêmulas.

Ela viu.

Ela viu aqueles olhos e soube, no mesmo instante, que ele não era normal.

Era humano… mas não era.

Seus olhos… não eram de gente.

Mas então… o que ele era?

Luna apertou os próprios braços. Uma parte dela dizia para correr e nunca mais
olhar para trás. Mas outra parte, mais baixa, mais incômoda, sussurrava algo
42
diferente.

Algo que a deixava ainda mais assustada.

O que ela tinha visto não fazia sentido.

Demônios eram monstros. Criaturas perversas, assassinas. Demônios não faziam


fogueiras. Não alimentavam pessoas famintas. Não evitavam contato visual para
não
assustar os outros.

Mas ele fez tudo isso.

E mais do que isso…

Ela pensou em quando estavam conversando. Quando ele ameaçou matá-la,


mas
não soou como uma ameaça de verdade. Quando ele a salvou sem ter motivo
algum
para isso.

E então, um pensamento terrível atravessou sua mente.

Ela gostou da companhia dele.

Por um momento, só por um momento, ela não sentiu medo.

Ela sentiu…

Segurança.

O calor da fogueira, a comida em suas mãos, o jeito calado dele.

Foi a primeira vez em muito tempo que ela sentiu que estava segura perto de
alguém.

E agora, tudo estava confuso.

43
Ela queria acreditar que ele era um monstro. Queria acreditar nisso porque seria
mais fácil.

Seria mais fácil pensar que ele era um perigo e que ela precisava fugir.

Mas se fosse verdade… então por que ele parecia tão humano?

E se não fosse verdade…

Então por que aqueles olhos a aterrorizavam tanto?

Luna apertou os olhos com força, tentando afastar os pensamentos. Mas eles
estavam grudados nela, como um pesadelo que se recusava a sumir.

Ela mordeu o lábio.

Ela precisava decidir.

Fugir e esquecer que isso aconteceu.

Ou encarar a verdade que a aterrorizava.

Luna hesitante saiu da floresta, seus passos lentos e cautelosos. Cada fibra do
seu
ser gritava para que voltasse, mas algo maior a impulsionava para frente. Tollza,
sem olhar para ela, apenas murmurou com frieza:

— Vai embora logo. Se quiser me matar pra expulsar demônios desse mundo,
desiste. Eu que vou te matar antes.

Mas Luna continuou, o olhar fixo na fogueira. Suas pernas pareciam pesadas,
como
se carregassem o peso de tudo o que sempre acreditou. Por fim, ela se sentou ao
lado dele. Tollza sentiu o corpo enrijecer. Isso era um truque. Ele sabia. Humanos
eram previsíveis. Primeiro fingiam aceitação, depois atacavam na primeir
a
44
oportunidade. Já estava preparado para cortar a cabeça dela no instante em que
percebesse qualquer ameaça.

O silêncio entre eles pesou, carregado de tensão. Então Luna o quebrou:

— Eu tô morrendo de medo de você.

— Eu sei — Tollza respondeu sem emoção, os olhos fixos nas chamas. — O que
você tá fazendo aqui, então?

Luna demorou para responder. Suas mãos estavam fechadas em punhos sobre
as
pernas, como se tentasse controlar a própria respiração.

— Eu também não sei. Mas... você me ajudou. Demônios não fazem isso.

Tollza se virou para ela, os olhos de predador estreitados em desdém.

— Eu sou um demônio e fiz isso. Então?

Luna o encarou. Aquele olhar a fazia sentir como se estivesse sendo devorada
sem
que ele precisasse mover um músculo. Mesmo assim, continuou.

— Você é diferente dos outros demônios.

— Eu não sou diferente! — Tollza rosnou, a raiva explodindo como fogo. — Os


demônios são como eu! Eles não são as merdas que vocês humanos idealizam!
Essa ideia de que somos monstros e vocês são as vítimas... isso é uma ilusão
estúpida.

Luna recuou ligeiramente, surpresa pela intensidade dele. Mas, ao invés de


responder, ficou em silêncio. Os olhos voltaram-se para as chamas. Algo estava
se
quebrando dentro dela.

Por toda sua vida, ouviu que demônios eram cruéis. Mas... e os humanos? Ela se
lembrou de corpos sendo queimados vivos enquanto os soldados riam. Lembrou-
se
45
de uma mãe segurando seu bebê morto porque os nobres decidiram que a
aldeia dela não merecia comida. Lembrou-se de homens em armaduras dizendo
que aquilo era a vontade dos deuses, que estavam purificando a terra dos
pecadores.

Demônios fariam aquilo? Se fariam, eram exatamente como humanos.

Ela não queria pensar nisso. Não queria admitir que, talvez, tudo o que
acreditava estava errado.

— Vai embora logo — Tollza disse, sua voz cortante. — Antes que eu te devore,
jáque sou um demônio.

Luna sabia que era ironia, mas sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O olhar
de Tollza era afiado como lâminas. Ele queria que ela fugisse. Queria que ela
provasse que ele estava certo.

Mas ela permaneceu onde estava. Os olhos fixos no fogo, os pensamentos um


caos.

Tollza a observava pelo canto dos olhos. Estava convencido. Isso era uma
armadilha. Ela devia estar esperando um momento de vulnerabilidade. Talvez
tivesse aliados escondidos na floresta. Ele devia matá-la logo. Evitar o inevitável.

Mas então, por que ainda não fez isso?

O silêncio se estendeu entre eles, apenas o crepitar da fogueira preenchendo o


espaço. A tensão ainda era palpável, densa como a névoa da noite. Luna, ainda
olhando para o fogo, respirou fundo e quebrou o silêncio.

"Obrigada... por ter me salvado."

Tollza ergueu ligeiramente as sobrancelhas, surpreso, mas logo franziu a testa.


"Eu ia matar você", respondeu friamente, seu tom vazio de emoção.

46
Luna não se abalou. Em vez disso, apertou os joelhos contra o peito e murmurou:
"Talvez. Mas não matou."

Tollza permaneceu em silêncio. Sua mente trabalhava rapidamente, tentando


decifrar o que ela realmente queria com aquelas palavras. Mas então, sem aviso,
Luna começou a falar, sua voz carregada de memórias antigas e feridas abertas.

"Eu nasci em uma vila pequena. Não era rica, mas era confortável. Tínhamos
comida, um lar quente... Eu vivia lá com minha mãe e meu pai. Era uma vida
simples, mas feliz. Até que... tudo mudou."

Ela parou por um instante, apertando os lábios. O fogo da fogueira refletia em


seus olhos, tornando-os vívidos, intensos.

"Eu tinha 9 anos quando aconteceu. Monstros atacaram a vila. Criaturas bestiais,
enormes, famintas por carne humana. Eu me lembro dos gritos, do cheiro de
sangue queimado. Me lembro do meu pai..." Sua voz vacilou. "Ele lutou para nos
proteger. Pegou sua velha espada e enfrentou aquelas coisas. Eu o vi ser
rasgado diante dos meus olhos. Minha mãe me abraçou forte, tentando impedir
que eu olhasse, mas eu vi... Eu vi tudo."

Tollza permaneceu calado, observando cada movimento dela, cada nuance de


sua expressão. Não parecia mentira. Não parecia uma armadilha. Mas então... o
que era aquilo?

"Quando eu achei que fosse nosso fim, os soldados do reino chegaram


.
Exterminaram os monstros. Acabaram com todos eles. O alívio tomou conta dos
sobreviventes. Pensamos que estávamos seguros. Pensamos que os heróis
tinham nos salvado." Luna riu, uma risada amarga, repleta de rancor. "Mas
heróis... não existem."

Seus olhos brilharam com uma fúria contida. Ela respirou fundo antes de continuar.

"Os soldados disseram que queriam pagamento pela 'ajuda'. Mas éramos uma
vila pobre. O que tínhamos não valia nada para eles. Então... decidiram pegar o
que
47
queriam à força." Sua voz se tornou um sussurro quebrado. "Eles mataram todos
os homens restantes. E as mulheres... levaram para se divertirem."

Tollza viu os punhos dela se apertarem, os nós dos dedos brancos pela força com
que cerrava as mãos. Sua voz tremeu ao continuar.

"Minha mãe correu comigo nos braços. Correu sem parar. Mas eles nos
seguiram. Com seus cavalos, seus cães... Nos caçaram como se fôssemos presas
em uma caça esportiva. Quando chegamos ao fim do caminho, havia apenas um
penhasco diante de nós. Ela sabia que não havia saída. Então, antes que
pudessem alcançá-la... Ela me jogou no rio abaixo."

O fogo crepitou mais alto quando uma brisa cortante soprou pela clareira. Luna
abraçou a si mesma, tremendo. "Enquanto a correnteza me levava, eu olhei para
trás. Vi os cães avançarem sobre ela. Vi aqueles malditos soldados rindo
enquanto... enquanto os animais a despedaçavam. Ela gritou até o último
segundo." Suas palavras desmoronaram, e um soluço escapou de sua garganta.

Lágrimas escorriam silenciosas pelo seu rosto sujo. Ela não fez esforço para
enxugá-las.

Tollza a observava. Ele não entendia. Qual era o propósito disso? O que ela
queria dele? Não parecia que ela estivesse inventando, não parecia que
estivesse tentando enganá-lo. A dor em seus olhos era real. O peso de suas
palavras era real.

Mas por quê? Por que estava contando aquilo para ele?

Ele permaneceu em silêncio, esperando, analisando. Mas uma coisa era certa:
aquele mundo era cruel. E ele, de todas as pessoas, já deveria saber disso
melhor do que ninguém.

48
O silêncio entre os dois se estendia, cortado apenas pelo crepitar da fogueira. A
brasa consumia a madeira, espalhando um brilho alaranjado pela clareira, e o
olhar de Tollza permanecia fixo nas chamas, como se a resposta para sua dúvida
estivesse ali. Luna, por outro lado, mantinha-se sentada, abraçando os próprios
joelhos, como se esperasse que ele dissesse algo. Mas ele não dizia. Ele
sóobservava. E pensava.

Aquilo não fazia sentido.

Cada parte da história dela parecia verdadeira. O tom de voz, os olhos


marejados, a forma como suas mãos tremiam ao descrever os horrores que
testemunhou. Se ela estivesse mentindo, era uma mentirosa incrivelmente
talentosa. Mas Tollza não queria acreditar. Não podia. Porque se acreditasse,
teria que admitir que uma humana—uma humana de verdade—não o via
apenas como um monstro.

E isso era impossível.

"Por que você voltou?" Tollza finalmente quebrou o silêncio, sem desviar o olhar
da fogueira.

Luna ergueu a cabeça, piscando como se a pergunta tivesse puxado ela para
fora dos próprios pensamentos. "Já falei, você me ajudou. E eu queria..." Ela
parou, mordendo o lábio inferior. "Eu queria agradecer."

Tollza riu. Não de felicidade. Não de surpresa. Foi uma risada curta, fria e cética.
"Você não faz sentido. Nenhum humano faz isso."

"E o que exatamente humanos deveriam fazer?" Luna cruzou os braços, o tom
levemente irritado. "Gritar? Fugir? Pegar uma tocha e tentar me queimar viva?"

"Sim." Tollza se virou para encará-la de lado, seus olhos demoníacos brilhando na
penumbra. "Porque é isso que sempre fazem."

Luna engoliu seco, mas manteve o olhar. "Bom, eu não fiz."

49
E essa era a parte que o incomodava mais.

Tollza estreitou os olhos, analisando cada detalhe dela. A forma como os ombros
estavam tensos, como os dedos estavam crispados contra os braços, como sua
respiração ainda parecia instável. Ela estava com medo. Muito medo. Mas
mesmo
assim, continuava ali. Não fugia. Não atacava. Não tentava enganá-lo.

Ou talvez estivesse fingindo melhor do que qualquer um que ele já conheceu.

"Você já viu um demônio antes?" Ele perguntou de repente.

Luna hesitou. "Não."

"Então como sabe que não estou apenas esperando a hora certa pra matar você?"

"Porque já teve essa chance." Luna respondeu rápido, como se já tivesse


pensado
nisso antes. "Várias vezes. Mas não fez nada. E sabe o que acho? Acho que está
mais assustado do que eu."

O sangue de Tollza ferveu. Ele apertou os punhos. "O quê?"

"Você está me analisando o tempo todo, esperando um motivo pra me matar.


Mas
eu não te dei um." Luna inclinou a cabeça, os olhos azuis brilhando com uma
curiosidade desafiadora. "Então me diz... Se eu fosse realmente uma ameaça, já
não
deveria estar morta?"

Ele não respondeu. Porque não tinha resposta.

Tollza queria continuar acreditando que aquilo era uma armadilha. Que ela
estava ali
esperando um momento de distração para enfiar uma faca em sua garganta.
Que
cada palavra dita era cuidadosamente calculada para fazê-lo abaixar a guarda.

Mas quanto mais ela falava, mais difícil era manter essa crença. E isso o deixava
irritado.
50
Ele desviou o olhar, encarando a floresta ao redor. "Vá dormir. Amanhã, você vai
embora."

Luna suspirou, mas não discutiu. Apenas deitou-se perto da fogueira, mantendo
certa distância dele. Tollza a observou pelo canto dos olhos enquanto ela
fechava os próprios, mas ele sabia que, assim como ele, ela não dormiria tão
cedo.

Afinal, nenhum dos dois confiava um no outro.

E talvez nunca confiassem.

A noite mergulhava a floresta em um breu profundo, quebrado apenas pelo


brilho
instável da fogueira. As chamas lançavam sombras trêmulas nas árvores
,
distorcendo seus troncos em formas grotescas. O som dos grilos e o farfalhar das
folhas ao vento criavam uma melodia inquietante, um lembrete constante de
que estavam cercados por algo maior, algo invisível na escuridão.

Luna olhava para o fogo, os olhos refletindo as chamas como se buscassem um


refúgio naquele brilho passageiro. Seu corpo ainda estava tenso, como se cada
músculo estivesse pronto para reagir ao menor movimento inesperado de Tollza.
Jáele, imóvel como uma estátua, mantinha os olhos semicerrados, fingindo uma
calma que não sentia. Para ele, a noite não era um descanso, e sim um período
de alerta constante.

— Você não dorme? — Luna perguntou, a voz baixa, como se temesse quebrar a
frágil paz ao redor.

Tollza não respondeu de imediato. Ele poderia mentir, poderia dizer que nunca
dormia, que não precisava disso, mas preferiu o silêncio por um instante antes
de soltar, seco:

— Não confio em dormir perto de humanos.

51
Luna desviou o olhar. O frio da noite apertava, e ela se encolheu, abraçando os
próprios joelhos. Não tinha um cobertor, apenas a roupa surrada que usava há
dias, e o cansaço fazia seus olhos pesarem. Mas ela se recusava a se entregar ao
sono completamente.

— O fogo vai apagar antes do amanhecer — comentou, tentando puxar algum


tipo de conversa. — Você tem lenha suficiente?

Tollza não respondeu. Ele sabia que o fogo era útil, mas não essencial para ele.
JáLuna parecia precisar daquele pequeno pedaço de calor e luz no meio da
escuridão da floresta. Ainda assim, ele não se moveu. Se ela quisesse mais
lenha, que buscasse.

O silêncio se prolongou, denso como a própria noite. Tollza observava a maneira


como Luna lutava contra o sono, os olhos abrindo e fechando devagar, a
respiração ficando mais ritmada. Uma parte dele queria mandá-la embora de
novo, lembrá-la de que ali não era seguro para ela. Mas outra parte apenas
observava, intrigado. Por que ela ainda estava ali? Por que não fugia de uma
vez?

Os minutos se estendiam, e Luna, por fim, não conseguiu mais lutar contra o
próprio corpo. Com um último suspiro trêmulo, ela se entregou ao sono, os
braços apertados ao redor das pernas. A chama da fogueira crepitava baixo,
lançando uma luz alaranjada em seu rosto sereno.

Tollza continuou acordado, olhos fixos nela. O sono era um luxo que ele não
podia se permitir. Não naquela noite. Não ao lado de alguém que ainda podia ser
uma ameaça.

A manhã chegou sem aviso, rompendo a escuridão com tons dourados que
filtravam pelas copas das árvores. A fogueira, agora um amontoado de brasas
moribundas, soltava fios de fumaça que se dissipavam no ar fresco da floresta.
Tollza já estava acordado há algum tempo, sentado em silêncio, observando o
horizonte como se esperasse que algo surgisse dele. Luna, encolhida contra um
tronco próximo, abriu
52
os olhos lentamente.

Ela piscou algumas vezes, se acostumando com a claridade, e então olhou para
Tollza. Ele sequer lançou um olhar em sua direção, como se sua presença não
tivesse importância alguma. Ainda assim, ela se mexeu, abraçando os próprios
joelhos, sem saber se deveria falar ou apenas permanecer quieta.

Depois de alguns minutos, ela tentou.

— Bom dia... — Sua voz era hesitante, como se não soubesse se ele a deixaria
terminar a frase.

Tollza não respondeu. Apenas manteve os olhos fixos em algum ponto distante,
como se ela fosse o vento sussurrando entre as folhas.

Luna suspirou e desviou o olhar para a fogueira quase extinta. Seu estômago
roncou, lembrando-a de que ainda estava faminta. Sem querer demonstrar
fraqueza, ela tentou ignorar, mas Tollza ouviu.

— Se quer comida, vá caçar. — Sua voz cortou o ar como uma lâmina afiada.

Luna sentiu vontade de retrucar, mas sabia que ele não ligava. Ele era frio,
impenetrável, e qualquer tentativa de criar uma conexão parecia inútil. Ainda
assim, algo nela não queria desistir.

— Eu nunca cacei antes — admitiu, observando a expressão dele em busca de


qualquer reação.

Ele finalmente olhou para ela, mas seus olhos não demonstravam nada além de
indiferença.

— Então morra de fome — respondeu simplesmente, voltando a olhar para


frente.

O silêncio caiu entre os dois. Luna sentiu um nó apertar sua garganta. Não era só
a fome ou o cansaço. Era a solidão que sempre a acompanhava. Estava
acostumada

53
com isso, mas, por algum motivo, dessa vez doía mais. Talvez porque, por um
breve momento, ela sentiu que havia alguém ali, mesmo que esse alguém fosse
alguém como Tollza.

Ela pegou um galho no chão e começou a desenhar círculos na terra úmida,


tentando distrair sua mente. Tollza percebeu, mas não comentou nada. Ele
apenas observou de relance, sentindo um leve incômodo sem entender o
motivo. Ela não deveria estar ali. Não deveria estar tentando puxar conversa.
Mas, mesmo assim, ela estava.

A luz fraca da manhã começava a romper entre as árvores, tingindo a floresta


com tons dourados. A fogueira onde Tollza e Luna passaram a noite já havia se
apagado, restando apenas brasas frias e cinzas espalhadas pelo chão.

Tollza se levantou, ajeitando a aljava nas costas e lançando um olhar frio para
Luna.

"Vai embora."

Luna hesitou, abraçando os próprios joelhos. "Eu... Eu não tenho para onde ir."

Tollza cruzou os braços, impassível. "Isso não é problema meu."

Ela baixou a cabeça. O silêncio entre os dois ficou pesado, apenas o som distante
do vento balançando as folhas quebrava a tensão.

Luna permaneceu sentada, sem responder. Seu olhar estava perdido, mas havia
uma firmeza silenciosa em sua decisão. Ela não ia embora.

O sol nascente tingia a floresta com tons dourados, dissipando as sombras da


noite. A fogueira de Tollza já havia se apagado, deixando apenas vestígios de
brasas mornas espalhadas entre as cinzas. Luna, sentada a poucos metros dele,
olhava para o chão, hesitante. Então, respirou fundo e se levantou.

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"Me devolve meu arco," pediu, com firmeza.

Tollza, ainda sentado, ergueu os olhos para ela, impassível. "Não."

Luna cruzou os braços. "Eu vou caçar. Preciso comer."

Ele permaneceu em silêncio por um momento, observando-a. "E no momento


em que você apontar esse arco para mim, eu mato você."

Ela bufou, irritada. "Já disse que não quero te matar. Você é surdo ou só burro
mesmo?"

Tollza arqueou uma sobrancelha. "E eu já disse que não acredito em você."

Luna revirou os olhos, pegou uma lança improvisada de um galho caído e se


afastou. "Quer saber? Fica com o arco. Não preciso dele para caçar. Só espera e
vê."

Tollza acompanhou sua movimentação, sem desviar o olhar. Ele esperava que
ela falhasse. Que ela voltasse derrotada e faminta, provando que era tão fraca e
inútil quanto ele pensava. Mas conforme os minutos passavam, ele percebeu
que havia cometido um erro de julgamento.

Luna se movia com destreza pela floresta, seus passos leves e precisos. Ela
escutava atentamente os ruídos da natureza, os estalos sutis entre as árvores, a
respiração das criaturas escondidas. Tollza a viu parar, fixando o olhar em algo
àfrente. Com um movimento rápido e fluido, ela ergueu a lança improvisada e a
lançou com precisão cirúrgica.

Um som abafado de impacto ecoou. Poucos segundos depois, Luna voltava,


trazendo um coelho em mãos, o olhar vitorioso e desafiador.

Ela jogou o coelho na frente dele e sorriu de lado. "Acho que isso prova que não
sou tão inútil assim, não é?"

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Tollza olhou para o animal caído e soltou um riso seco. "Só um coelho? Você
jámatou um ontem. É só isso que sabe fazer?"

O olhar vitorioso de Luna se contraiu por um instante, mas logo se firmou de


novo. "Talvez. Mas pelo menos eu sei fazer alguma coisa. E você? Além de
reclamar e bancar o durão, o que mais sabe fazer?"

Tollza não respondeu. Apenas continuou observando-a, sem demonstrar nada,


enquanto Luna pegava o coelho de volta e começava a prepará-lo para cozinhar.

Luna começava a preparar o coelho de maneira bem espalhafatosa, tirando a


pele de forma errada, cortando com gestos desajeitados que arrancavam mais
carne do que deveriam. Tollza observava a cena com um olhar entediado antes
de soltar um comentário seco:

— Você é horrível.

Luna parou por um momento, estreitando os olhos para ele antes de resmungar:

— Cala a boca.

Tollza cruzou os braços e inclinou levemente a cabeça.

— Já esqueceu que fui eu que cozinhei o coelho de ontem? — Sua voz carregava
desdém.

Luna suspirou derrotada. Ela realmente não podia negar. O coelho que Tollza
preparou foi uma das melhores coisas que já comeu. Engolindo o orgulho, ela
parou de cortar e pegou o coelho, caminhando até Tollza. Sem hesitar, jogou o
animal nos pés dele.

— Então cozinha você — exigiu, cruzando os braços.

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Tollza olhou para o coelho e depois para Luna, sem mudar sua expressão apática.

— Não.

— Por quê?!

— Não tô com fome.

— Por favor! — insistiu Luna, impaciente.

— Para de me incomodar. — Tollza bufou e lançou um olhar frio para ela. — E


some
logo. Eu nunca vou te ajudar em nada.

Luna ficou emburrada, cerrando os punhos.

— Você é um idiota.

Tollza ignorou o comentário, se levantou e começou a andar para fora da


floresta.
Luna franziu a testa e perguntou, ainda com o coelho nas mãos:

— Onde você tá indo?

— Não interessa pra você.

Luna rolou os olhos e largou o coelho no chão.

— Espera eu me limpar!

— Você não vai comigo — retrucou Tollza, ríspido, sem nem olhar para trás.

Luna apressou-se até o lago, limpando as mãos na água o mais rápido que pôde.
Com um sorriso determinado, ela se levantou e correu para alcançar Tollza.

— Eu conheço a região! Posso te ajudar a encontrar esse tal senhor! Duas


pessoas
são mais rápidas que uma, né?!

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Tollza não respondeu, apenas continuou andando. Luna tomou o silêncio dele
como um sim e, satisfeita, acelerou o passo para acompanhá-lo.

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