O Nascimento do Pecado em MAGVA
O Nascimento do Pecado em MAGVA
1 - O NASCIMENTO DO PECADO 2
2 - RAÍZES DA SOLIDÃO
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3 - A LUZ NO ABISMO
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4 - ENTRE A FOME E OS OLHOS
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5 - OLHOS QUE JULGAM, VOZES QUE CONTAM
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6 - O ELO INDESEJADO
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O mundo de MAGVA sempre foi regido pelo poder e pelo medo. Uma terra vasta
e indomável, onde a magia fluía como um rio invisível, moldando civilizações e
destruindo impérios com a mesma facilidade. Essa força mística permeava os
céus, o solo e as criaturas vivas, tecendo destinos e alimentando a eterna
disputa entre aqueles que a controlavam e aqueles que a temiam.
No centro desse mundo erguia-se o reino de DOW, uma nação humana forjada
pela guerra e sustentada pela crença de que era seu dever manter a ordem e a
pureza do mundo. Para os humanos, a supremacia não era apenas uma questão
de conquista, mas uma necessidade para garantir a sobrevivência contra as
ameaças que espreitavam nas sombras.
Os anões, por outro lado, não tiveram a mesma sorte. Desde tempos imemoriais,
a presença de um anão fora de suas cavernas era considerada mau presságio.
Diziam que onde um anão pisava, a desgraça logo o seguia. Assim, foram
relegados às profundezas da terra, onde construíram cidades subterrâneas e
moldaram o metal como nenhum outro povo. Poucos humanos ousavam se
aproximar de seus domínios, e aqueles que o faziam preferiam não falar sobre
isso.
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indignos de liberdade, e assim, eram tratados como servos, mão de obra barata
destinada a trabalhar nos campos e minas. Para os humanos, sua servidão não
era uma questão de crueldade, mas de ordem natural. Afinal, uma raça tão
próxima dos animais não poderia governar a si mesma.
Mas nenhuma raça despertava tanto medo e ódio quanto os demônios. Desde as
eras antigas, a humanidade os via como a verdadeira encarnação do mal,
nascidos das entranhas do próprio inferno. Diziam que os demônios corrompiam
tudo ao seu redor, espalhando destruição por onde passavam. Para os humanos,
exterminá-los não era um ato de crueldade, mas de justiça divina. Caçá-los e
erradicá-los era uma missão sagrada, uma forma de purificar o mundo de sua
influência maligna.
Por séculos, o reino de DOW se manteve fiel a essas crenças, moldando seu
império com ferro e fogo, certo de que estava fazendo o que era necessário para
proteger sua civilização. Para eles, a ordem que estabeleceram não era tirania—
era a única forma de garantir que o caos não tomasse MAGVA.
No extremo leste de DOW, longe das muralhas das grandes cidades e esquecida
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pelos reis, havia uma vila miserável. Um punhado de casas de madeira
apodrecida alinhava-se em ruas de terra seca, onde o vento cortante soprava
como lâminas afiadas, carregando consigo o cheiro de fumaça, couro
envelhecido e carne salgada. Os moradores dessa vila não eram nobres nem
guerreiros—eram sobreviventes. A fome os endurecera, o frio os castigara, e
suas almas tornaram-se tão áridas quanto o solo que pisavam. Mas havia algo
que eles ainda tinham: suas crenças.
O julgamento não tardou a se formar. No centro da vila, sob a luz vacilante das
tochas, os aldeões se reuniram. Homens de mãos calejadas, mulheres de olhares
frios, jovens ansiosos por justiça.
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— Ela nos condenou! O que será dessa criança? Um monstro? Um flagelo? —
vociferou outro.
O medo inflamava o ódio, e o ódio clamava por punição. Mas antes que
pudessem
voltar sua ira contra a mulher, uma ideia mais cruel surgiu.
Mas, acima de tudo, sabia que o homem que amava não veria o amanhecer.
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ao redor do cabo de sua faca.
Eles sabiam onde procurar. Aquele demônio vivia escondido nas sombras da
floresta, sempre distante, sempre à espreita. Um monstro esperando o momento
certo para corromper, para atacar, para espalhar sua maldição. E agora, havia
cruzado o limite.
O demônio não obedeceu, mas também não resistiu. Ele sabia que lutar era
inútil. Sabia que não havia escapatória.
— Nós estamos livrando o mundo de ti. Estamos cumprindo a vontade dos deuses!
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O demônio foi empurrado para frente. Alguém puxou a corda, prendendo-a ao
galho
robusto de uma árvore. Por um momento, apenas o som da respiração pesada
dos
aldeões e do crepitar das tochas preencheu o ar.
Na vila, uma mulher observava tudo pela fresta de sua janela. Suas mãos
tremiam
sobre o ventre inchado. Seu coração sangrava, mas ela não podia chorar.
A dor começou.
As contrações vieram como facas retorcidas rasgando seu ventre. A mulher caiu
ao
chão, os joelhos chocando-se contra a madeira áspera de sua casa. O suor
escorria
por sua testa, misturando-se às lágrimas que ardiam em seus olhos. Sua
respiração
era curta, entrecortada por gemidos de dor.
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Lá fora, a vila ainda vibrava com o fervor da execução. Mas o ódio dos aldeões
não se contentava com a morte do demônio. O pecado não estava apenas na
criatura, mas também na mulher que havia se deitado com ele.
As tochas voaram pelo ar, pousando sobre o telhado seco e nas paredes de
madeira da casa. O fogo encontrou alimento, espalhando-se rápido como uma
fera faminta. Primeiro, foram pequenas labaredas lambendo as vigas. Depois,
um rugido de chamas ascendendo aos céus.
As chamas a rodeavam, mas não a tocavam. O fogo, que devorava tudo sem
piedade, recuava diante daquela pequena criatura, como se temesse queimar
algo
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que lhe pertencia.
A mulher olhou para o filho uma última vez. Um sorriso cansado surgiu em seus
lábios, mesmo enquanto o calor queimava sua pele e a fumaça roubava seu ar.
Lá fora, os aldeões assistiam à casa desmoronar em chamas. Para eles, era o fim.
A purificação estava completa. O mal havia sido erradicado.
Mas o que eles não sabiam era que, dentro daquele inferno de chamas e
destruição, algo novo estava nascendo.
O bebê chegou ao mundo envolto pelo caos, sua primeira visão sendo o brilho
alaranjado do fogo, sua primeira respiração tomada pela fumaça densa que
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preenchia seus pulmões frágeis. Mas ele não chorou de dor. Não queimou como
qualquer outra criança teria queimado. As chamas o abraçavam, como se o
reconhecessem, como se o aceitassem.
Uma criança que nunca conheceria o toque de sua mãe. Uma criança que fora
marcada desde o nascimento por algo maior do que qualquer um poderia
entender.
Ele era a prova viva de um pecado que jamais poderia ser perdoado.
Mas, naquela noite, sem entender a grandeza de sua existência, ele permaneceu
ali, entre as cinzas e brasas de um lar que nunca conheceria, sob um céu que
jamais o acolheria.
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O Senhor e o Bebê
Ele conhecia bem o demônio que agora balançava morto na praça. Ele o criou
desde criança, encontrou-o perdido e sozinho, sem lar, sem proteção. Alimentou-
o, ensinou-lhe o que sabia, viu-o crescer sem jamais causar mal a ninguém. Mas
nada disso importou para os humanos. Tollza, o demônio, havia cometido o único
pecado imperdoável: amar uma mulher humana. E por isso, foi condenado.
Assim como ela. Os próprios semelhantes da mulher a julgaram e a
sentenciaram à morte, incapazes de aceitá-la por ter entregue seu coração a um
ser diferente. O velho sabia que, no fundo, Tollza jamais teve uma chance real de
ser aceito. Nem ela. Nem o filho que geraram juntos.
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Agora, a única coisa que restava deles era o bebê.
Lá, entre a sujeira, o sangue da mãe e as cinzas, estava o bebê. A criança, tão
frágil e pequena, ainda se mantinha quente, como se tivesse sido protegida
pelas próprias chamas. Mas o que o fez vacilar foi o olhar do bebê — olhos
negros como a noite sem estrelas, com pupilas verticais vermelhas que
brilhavam com uma intensidade sobrenatural, refletindo algo antigo e sombrio,
algo que ele sabia não era do mundo dos homens. O velho sentiu um arrepio,
como se o olhar da criança penetrasse em sua alma. Mas ele não hesitou. Não
havia escolha.
Com o bebê nos braços, o velho caminhou pelas estradas desertas, longe das
ruínas, até encontrar uma caverna isolada nas colinas. O som do vento nas
rochas parecia acolhedor, como um sussurro em meio ao caos. Ali, no refúgio
das sombras, ele colocou o bebê com todo o cuidado que podia reunir, como se
cada movimento fosse uma promessa de proteção. As cinzas ainda cobriam o
corpo da criança, vestígios de sua origem e de sua dor. O velho começou a
limpar o bebê com as mãos calejadas, retirando as cinzas que o cobriam,
lavando o sangue da mãe que ainda se apegava à sua pele, suavizando as
marcas da tragédia que o mundo jamais poderia compreender.
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Ele deitou o bebê em um colchão murcho, um pedaço de tecido gasto que,
apesar de simples, oferecia algum conforto. Em seguida, acendeu uma pequena
fogueira, cujas chamas dançavam suavemente, iluminando as paredes da
caverna e lançando sombras tremeluzentes. O calor do fogo era suave, mas o
velho não sentia calor em seu coração. Ele deitou-se ao lado do bebê, e suas
mãos calejadas buscaram a fragilidade da criança, tentando protegê-la da
crueldade do mundo lá fora.
— "Você será chamado Tollza AZ. O nome de seu pai, o nome de sua mãe. Pois
você é o que restou deles, o que o mundo não quis ver, mas que agora vai viver.
Não vou deixar que o ódio destrua o que eles nunca puderam ter."
A caverna onde viviam era fria e úmida, um abrigo modesto para duas almas
que haviam sido rejeitadas pelo mundo. O senhor não era apenas um protetor
para Tollza — ele era o único laço que o menino tinha com qualquer tipo de
afeto. Mas ele também carregava um fardo pesado: a culpa. O demônio que os
aldeões enforcaram, Tollza, o pai da criança, não era um monstro cruel como os
humanos acreditavam. O senhor havia criado Tollza desde que era um pequeno
órfão, ensinando-lhe sobre o mundo e dando-lhe a chance de crescer sem se
tornar aquilo que os humanos temiam. Mas isso não foi suficiente. Mesmo sem
jamais ter feito mal a ninguém, ele foi condenado pelo simples fato de amar uma
humana, uma mulher que pagou o mesmo preço apenas por corresponder a
esse amor. O senhor os havia perdido, mas agora, em seus braços, segurava
aquilo que restara deles: o filho que carregava seus nomes.
Tollza, ao contrário das crianças humanas comuns, não chorava muito. Ele
observava tudo com seus olhos negros e pupilas vermelhas verticais,
absorvendo o mundo de forma silenciosa. Seu corpo era mais resistente do que o
de um humano, mas sua pele não era vermelha como a de outros demônios —
era branca, como a de sua mãe. Ele era a fusão de duas linhagens, um ser que
não pertencia completamente a nenhum dos dois mundos.
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As palavras vieram tarde. Com quase três anos, Tollza finalmente começou a
falar, mas sempre com economia. Não gostava de desperdiçar palavras, e o
senhor nunca o pressionou. Em vez disso, trouxe-lhe livros. O menino passava
horas folheando as páginas, absorvendo histórias, magia e conhecimento. Os
livros eram seu refúgio, sua conexão com um mundo que jamais o aceitaria, mas
que ele poderia compreender melhor do que qualquer um.
Tollza não sabia o que o futuro lhe reservava. Ele não conhecia o ódio que o
esperava além das colinas, nem a história trágica que havia moldado sua
existência. Tudo o que ele sabia era que, no silêncio da caverna, sob a tutela do
senhor, ele tinha algo que nenhuma outra criança no mundo poderia reivindicar:
liberdade.
Mas até quando essa liberdade duraria? Isso, nem mesmo o senhor poderia
responder.
Tollza tinha seis anos agora. Seis anos vivendo dentro da caverna, envolto pelas
sombras e pelo silêncio. O único som constante era o eco das gotas de água que
caíam das estalactites no teto da caverna, um ritmo melancólico que parecia
marcar o passar dos dias. Seu único companheiro era Seno, o homem que o
criava desde que ele era apenas um bebê, que o alimentava, o ensinava e o
protegia do mundo láfora.
Naquela noite, Seno se sentou diante dele com um peso nos ombros. Tollza
percebeu algo diferente no olhar do velho. Ele não era um homem fraco,
tampouco dado a sentimentalismos, mas algo no modo como suas mãos
tremiam levemente o denunciava. Havia um peso ali, algo que ele estava
prestes a dividir.
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— Tollza… — Seno respirou fundo antes de continuar. — Está na hora de
vocêsaber a verdade sobre de onde veio… sobre seus pais.
Tollza permaneceu em silêncio, mas seus olhos negros com pupilas vermelhas
se fixaram em Seno. Ele nunca perguntara sobre isso antes. Talvez porque, no
fundo, sempre soube que a resposta não seria algo bom. Ainda assim, não
desviou o olhar.
— Sua mãe… ela era humana. Uma mulher bondosa, forte… e corajosa o
suficiente para amar um demônio. Seu pai. Eles se apaixonaram apesar do
mundo estar contra eles. Lutaram para ficarem juntos, mas não havia lugar para
um amor como o deles. Os humanos odiavam seu pai por ser um demônio. Os
demônios desprezavam sua mãe por ser humana. Nenhum dos lados aceitou… e
por isso, os destruíram.
Tollza sentiu algo apertar dentro de si. Ele não sabia nomear o sentimento, mas
era uma mistura de vazio e dor. Como se estivesse prestes a cair em um buraco
sem fundo. Ainda assim, não disse nada. Apenas ouviu.
— Sua mãe estava grávida de você quando os humanos descobriram. Eles não
esperaram. Foram até a casa deles no meio da noite. Cercaram a vila.
Arrastaram seu pai para fora e o enforcaram diante de todos. — Seno fechou os
olhos, tentando controlar a própria voz. — Sua mãe viu tudo… pela janela da
casa em chamas, enquanto te dava à luz. Não puderam sequer tocar um no
outro em seus últimos momentos. Seu pai morreu sem saber que você nasceu…
e sua mãe morreu segurando você nos braços.
Tollza sentiu o peito pesar. Era como se tivesse perdido algo que nunca teve.
Como
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se o vazio dentro dele ficasse ainda maior.
— Com todo o coração. Seu pai e sua mãe te amariam mais do que tudo, Tollza.
Você era a prova do amor deles. Eles teriam dado a vida por você… e, de certa
forma, deram.
Seno sentou-se mais perto de Tollza, a ansiedade quase palpável em seu peito.
Ele olhou para o garoto, cujos olhos estavam cheios de tristeza e confusão, e
então fez a pergunta que já o atormentava há muito tempo.
O garoto olhou para o chão, como se fosse difícil para ele entender a própria
pergunta. Ele parecia distante, absorto em um mundo que Seno não conseguia
alcançar. Depois de um momento, Tollza levantou os olhos e, com a voz fria e
distante, falou:
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— Já vi nos livros… — a voz dele era quebrada, mas ele continuou, a expressão
vazia. — Eu sei o que há lá fora. Eu sei o que as pessoas dizem sobre mim, sobre
o que eu sou. Não posso ser aceito pelos humanos, porque sou metade demônio.
Mas também não sou aceito pelos demônios, porque sou metade humano.
Então, pra que sair, senhor? O que há lá fora que valha a pena?
Seno sentiu a dor nas palavras do garoto, a resignação. Ele tentou encontrar um
fio de esperança no fundo do olhar de Tollza, mas não conseguiu. Ele se
aproximou mais, com o coração apertado.
— Eu sei que o mundo lá fora é cruel, Tollza — disse Seno, com a voz trêmula. —
Mas lá fora também há coisas boas. Não tudo é ódio, não tudo é rejeição. Eu sei
queé difícil, filho. Mas…
Tollza interrompeu, quase com raiva, como se a dor que ele sentia se tornasse
palavras:
— Eu sou um erro! — disse ele, a voz tremendo de raiva contida e dor. — Eu sou
metade humano, metade demônio. Eu não pertenço a nenhum dos dois mundos.
Eu sou um erro da natureza. Um ser que nunca deveria existir, e por isso sou
rejeitado. Não há nada lá fora pra mim. Nada além do que já sei.
As palavras de Tollza ficaram no ar, como uma sentença de morte para sua
esperança. Seno sentiu o coração apertar ainda mais, e ele olhou para o garoto
com a dor de quem sente o peso do mundo em suas costas.
— Tollza, você não é um erro. Não é. — A voz de Seno soou firme, mas com um
leve tremor, como se ele tivesse que convencer a si mesmo também. — Eu
entendo o que você está sentindo, mas você não é um erro. Você é o que você é,
e isso ésuficiente. Você é alguém digno de amor, digno de existir. Não importa o
que o mundo diga, ou o que você pense de si mesmo. Não é a natureza que
errou, filho, éo mundo que falhou com você.
Tollza olhou para o senhor, mas seus olhos estavam cheios de raiva e dor. Ele
queria acreditar nas palavras de Seno, mas sua dor estava tão profunda que ele
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conseguia. Em um suspiro dolorido, ele falou:
— Então, por que, senhor? Por que meus pais tiveram que morrer? Eles me
amavam, mas o mundo não permitiu. Eles lutaram, mas o mundo os matou. Eu
sou só um lembrete do ódio que existe… que é melhor eu não existir.
Seno olhou para ele, seu coração apertado, cheio de culpa e impotência. Ele
sentiu que havia feito o que podia, mas sabia que ainda havia algo mais que
precisava ser dito. Ele tocou a face de Tollza, suavemente, tentando acalmá-lo.
— Eu sei que você carrega um peso enorme, Tollza — disse Seno, com a voz
cheia de dor. — Eu sei o quanto a dor de seus pais e de quem você é te
machuca. Mas você tem que entender que a morte deles não foi culpa sua. Eles
te amaram de verdade, e mesmo que o mundo tenha os arrancado, o amor
deles por você éeterno. E você… você não é o erro que o mundo tenta te fazer
acreditar. Você évalioso, filho, mesmo que o mundo não consiga ver isso.
— E a raiva, Tollza? — Seno perguntou, a voz grave. — Você tem raiva do mundo
depois de tudo o que soube sobre seus pais? Não sente que deveria sair dessa
caverna, buscar vingança, fazer o mundo pagar pelo que fez com eles? Não
sente nenhuma vontade de lutar?
Tollza permaneceu em silêncio por um longo tempo, os olhos fixos no vazio. Ele
sentia a raiva queimando dentro dele, o desejo de fazer justiça. Mas, mesmo
assim, não conseguia ver sentido em ir além disso. Quando finalmente falou, sua
voz era baixa e desprovida de emoção:
— Não… — Ele balançou a cabeça, ainda olhando para o chão. — Não vale a
pena. Vingança… é inútil. Não muda nada. O mundo já é cruel demais. Não tem
sentido sair, nem mesmo para tentar mudar as coisas.
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Seno sentiu uma onda de tristeza ao ouvir aquelas palavras. Ele sabia que o
garoto estava certo, de certa forma, mas isso não fazia as palavras de Tollza
menos dolorosas. Ele queria ser a força que Tollza precisava, queria encontrar
algo para confortá-lo. Mas ele sabia que naquele momento, suas palavras eram
insuficientes. O que ele poderia dizer quando o próprio mundo parecia ter
abandonado o garoto?
Foi então que ele, quase sem pensar, abraçou Tollza. O garoto, que sempre se
manteve distante, parecia resistir por um momento, mas depois, sem mais
palavras, se entregou ao abraço. Seno o envolveu com força, tentando
transmitir, de alguma forma, a segurança que ele tanto precisava. Com um beijo
suave na testa do garoto, ele sussurrou, tentando alcançar o fundo do seu
coração:
— Se você é o maior erro da natureza, então a natureza nunca errou, meu filho.
Você é a minha razão, você é a minha vida. E eu… eu sempre estarei aqui para
você. Sempre.
Foi nesse momento, ao sentir o calor do abraço de Seno, que Tollza, pela
primeira vez, desabou. As lágrimas começaram a cair, silenciosas e pesadas,
como uma torrente que não podia mais ser contida. Ele se aconchegou no peito
de Seno, como se finalmente pudesse se entregar ao que sentia, ao medo, à dor,
à saudade de algo que nunca teve, ao amor que nunca soubera se permitir.
Seno o segurou com firmeza, o coração partido ao ver o garoto quebrado, mas
ao mesmo tempo, aliviado por finalmente ver Tollza expressando sua dor. O
senhor sabia que as palavras não poderiam curar todas as feridas de Tollza, mas
ele também sabia que o abraço, o carinho e o amor que ele podia oferecer eram
o que ele tinha de mais precioso naquele momento.
O senhor sabia que algo precisava ser feito. Ele não tinha muito, mas o que
possuía de valor sentimental, ele estava disposto a oferecer. Lembranças de sua
vida, coisas que ele jamais pensaria em vender, mas agora, diante da
necessidade de fazer Tollza sentir-se especial, o senhor decidiu que, por mais
doloroso que fosse, venderia esses itens para comprar algo que pudesse alegrar
o coração do garoto.
Com um suspiro profundo, ele se dirigiu até um baú escondido, onde guardava
suas memórias mais preciosas. Ali estavam objetos de um passado que ele
guardava com carinho — um relógio antigo que pertencera a seu pai, uma carta
de um amigo distante que já se fora, e um medalhão de ouro que sua mãe lhe
dera quando ele ainda era um garoto. Esses itens, que para ele eram os tesouros
mais valiosos, agora seriam trocados por algo mais tangível, algo que pudesse
tocar o coração de Tollza de uma maneira que palavras nunca seriam capazes.
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senhor sabia que aquele homem era diferente dos outros. O olhar do vendedor
parecia carregar um segredo, e o tipo de troca que ele propunha estava além do
que o senhor imaginava. No entanto, ele não hesitou. Entregou o saco com suas
preciosidades em troca de dois itens que o vendedor revelou com um gesto
sombrio: uma veste negra de tecido que parecia absorver a luz ao redor e o
tecido se moldava a quem vestia mostrava que Tollza o poderia usar mesmo
quando crescesse e também uma espada, elegante e com detalhes dourados e
roxo escuro, de um formato que parecia feito sob medida para Tollza. A espada,
embora um pouco maior do que o necessário para o garoto, parecia transmitir
uma força silenciosa que o senhor sabia que o garoto possuía, mas que ainda
não tinha sido despertada. A veste, com seus bordados roxos, parecia carregar
uma mística, um poder que ele acreditava ser a chave para transformar a visão
de Tollza sobre si mesmo.
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medo, tudo se dissipou naquele abraço.
Tollza, então, vestiu a capa negra com cuidado, o capuz cobrindo parcialmente
seu rosto, e ajustou a espada à cintura. Ele se olhou no espelho improvisado, um
pedaço de metal que o senhor havia colocado ali, e por um momento, ele viu
algo além da sombra de si mesmo. Ele viu uma figura imponente, uma presença
que, embora jovem, carregava uma força que ainda não compreendia
completamente, mas que, de alguma forma, já estava ali.
Antes que o senhor pudesse dizer algo, Tollza se virou lentamente, como se algo
tivesse mudado dentro dele, e o abraçou novamente. Esse abraço foi diferente
do primeiro. Ele era mais forte, mais cheio de sentimento. E quando Tollza, com
a voz baixa e firme, disse:
Essas palavras atravessaram o coração do senhor como uma lâmina afiada, mas
também como um bálsamo curativo. Ele não esperava ouvir isso, nem de longe.
Tollza, o garoto que sempre parecia tão fechado e distante, agora expressava
algo puro e profundo. O senhor, com lágrimas nos olhos, apertou o garoto com
força,
sentindo o peso daquelas palavras e a profundidade do amor que as
acompanhavam.
A rotina, agora mais tranquila, seguia em um ritmo constante. Senhor Seno saía
todas as tardes, sempre em busca de algo para trazer de volta para a caverna.
Às vezes, era um pedaço de pão fresco, outras vezes, carne curada ou algum
vegetal, dependendo do que conseguisse encontrar na cidade próxima. A cada
viagem, ele se sentia mais tranquilo, como se, de alguma forma, estivesse
conseguindo prover algo melhor para Tollza, algo que fosse mais do que apenas
sustento, mas também um sinal de carinho.
Num desses dias, enquanto praticava em silêncio, Seno voltou mais cedo, o que
não era comum. Ao abrir a entrada da caverna, ele viu Tollza de costas,
concentrado, fazendo movimentos hesitantes com a espada. O senhor sorriu,
com o peito aquecido pela visão de seu protegido, agora tão envolvido em algo
que talvez fosse uma forma de se afirmar, de encontrar uma razão para levantar
todos os dias.
— Como está a prática? — perguntou Seno, com uma leveza na voz, não
querendo interromper o momento de Tollza.
Tollza se virou rapidamente, o olhar surpreso, mas, quando percebeu que era o
senhor, seu rosto se suavizou e ele respondeu com um sorriso tímido.
— Está… está indo bem. Só não sei se vou conseguir... é mais difícil do que
parece.
Senhor Seno se aproximou devagar, sentindo o cheiro da caverna e da terra,
mas o calor daquele momento o fazia sentir uma felicidade simples, um
aconchego que não
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experimentava há tempos. Ele se agachou ao lado de Tollza e tocou no cabo da
espada com delicadeza.
— Eu sei que é difícil, Tollza, mas o importante é que você está tentando. Às
vezes, não é sobre acertar logo de cara. É sobre continuar, passo a passo.
Tollza olhou para o senhor, absorvendo suas palavras. Ele, que antes parecia tão
fechado, tão distante de qualquer sensação de pertencimento, agora começava
a abrir mais o coração, mesmo que aos poucos. A espada, que antes era um
símbolo de um passado que o magoava, agora parecia representar uma chance,
uma nova maneira de se conectar com o que ainda tinha de bom no mundo.
— Eu acho que vou conseguir... um dia. Não sou tão bom quanto os outros,
mas... acho que não importa tanto assim, né? — disse Tollza, um pouco mais
confiante, mas ainda com um toque de dúvida em sua voz.
Seno sorriu, tocando a cabeça de Tollza com carinho, algo simples, mas
carregado de um amor silencioso e imenso. Ele estava tão orgulhoso de ver o
garoto começar a enxergar suas próprias forças.
— Não importa ser o melhor, Tollza. O que importa é que você está fazendo isso
por você. Isso é o que conta. E eu estarei aqui, sempre que precisar de mim,
como sempre estive.
Tollza sorriu mais uma vez, e, pela primeira vez em muito tempo, parecia estar
realmente se permitindo viver um pouco da alegria simples da vida. Ele não
sabia se algum dia poderia ser aceito no mundo lá fora, mas naquele momento,
ele tinha algo valioso: a confiança de Senhor Seno, que agora não estava mais só
como um guardião, mas como uma figura de apoio e carinho incondicional.
— Senhor Seno... como foi o seu dia hoje? — perguntou ele, a voz mais suave do
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que o normal, mas também com um tom de interesse genuíno.
Seno se virou para ele, surpreso pela pergunta, mas, ao mesmo tempo,
encantado. Tollza, que antes se escondia atrás do silêncio, agora estava
interessado no outro. Ele queria saber como o senhor estava, como o dia dele
havia sido. Isso significava muito mais do que palavras poderiam expressar.
— Foi um bom dia, Tollza. Consegui encontrar algumas coisas boas para trazer, e
também passei pela cidade, ouvi algumas histórias novas... mas o melhor do dia,
sem dúvida, foi voltar e te ver praticando com a espada.
Tollza sorriu mais uma vez, mais largamente, e dessa vez Seno pôde ver em
seus olhos a verdadeira transformação que estava acontecendo. O garoto estava
começando a ver a vida com outros olhos, com mais esperança, mais coragem.
— Eu quero ser bom, Senhor Seno. Quero ser alguém que você possa se orgulhar.
Tollza, que antes via o mundo com olhos de tristeza e desilusão, agora tinha algo
novo dentro de si — um brilho tímido, mas sincero. Ele não sabia o que o futuro
traria, mas, naquele momento, ele sabia que não estava mais sozinho. Ele tinha
o Senhor Seno, e isso era mais do que suficiente para seguir em frente.
No dia seguinte, Seno saiu para buscar mais comida, mas, antes de sair, ele
olhou para Tollza, que estava sentado perto da entrada da caverna, com os olhos
curiosos e atentos.
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— Tome cuidado com a espada, ok? — disse ele com um sorriso, antes de sair.
Tollza acenou com a cabeça, agora mais confiante, mais firme. Ele se levantou,
pegou a espada com mais determinação, e, com um último olhar para o senhor,
disse, com um sorriso genuíno:
— Pode deixar, Senhor Seno. Vou treinar mais hoje. E vou ser bom, você vai ver.
E, enquanto Seno partia para a cidade, o garoto, agora mais seguro de si, passou
a tarde treinando, cada movimento se tornando mais preciso, mais firme. O dia
parecia promissor, e, por mais que o mundo lá fora fosse cruel, ele sabia que, ali
dentro da caverna, ele não estava sozinho. Ele tinha alguém ao seu lado. E, por
agora, isso bastava.
Assim 10 anos se passaram Seno agora já tinha seus 78 anos e Tollza apenas 16
mas já era um excelente espadachim mesmo nunca tendo saído daquele
caverna escura.
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Nome: Tollza
Idade: 16 anos
Raça: Metade Humano, Metade
demônio.
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Era o fim de um dia qualquer, ou pelo menos deveria ser. Tollza, com os olhos
fixos nos livros, não percebera que a ausência do senhor Seno se estendia por
um tempo preocupante. Mas, conforme as horas passaram e a escuridão
começou a se aproximar, ele não pôde mais ignorar o vazio em seu peito. Algo
estava errado. O senhor Seno não havia voltado, e o silêncio da caverna se
tornou um peso insuportável.
O pânico tomou conta de seu corpo, e ele não podia mais suportar a incerteza.
Ele não sabia o que fazer, mas sabia que não poderia mais ficar ali, esperando
que o senhor Seno aparecesse. Então, o que parecia impossível tornou-se
inevitável. Ele sairia da caverna.
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uma tapeçaria de cores quentes que se estendia à sua frente. As árvores que ele
nunca imaginara tão grandes pareciam se mover lentamente ao vento, e o canto
dos pássaros preenchia o espaço com sons que pareciam… estranhos, mas
também fascinantes. Ele hesitou por um momento. O que ele estava prestes a
fazer parecia um erro. Ele sentia uma mistura de fascínio e repulsa.
As folhas que tocavam suas mãos, o cheiro da grama fresca e da terra… tudo
parecia tão vivo, tão real, que ele mal conseguia compreender. Era tudo tão
diferente do que ele conhecera. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia nojo do
mundo. O que ele via, com suas cores vivas e formas exuberantes, parecia tão
distante de sua dor e da solidão que ele carregava. Cada árvore parecia uma
torre, cada folha parecia uma arma apontada para ele. O mundo estava vivo,
mas isso o assustava mais do que o conforto das sombras da caverna.
Tollza hesitou. Cada passo era mais difícil do que o anterior. O medo se agarrava
a ele como uma sombra, e ele parou, observando a vastidão do mundo à sua
frente. Era como se estivesse diante de algo imenso, algo impossível de ser
compreendido. Ele estava tão pequeno. Ele não sabia se deveria voltar. Cada
músculo de seu corpo pedia para que ele se retirasse, para que se escondesse
de novo, longe de tudo o que era desconhecido, mas algo em seu peito o puxava
para frente.
Com um suspiro pesado, Tollza respirou fundo. Ele estava ali, no limiar entre a
segurança da caverna e o vasto desconhecido, entre o mundo que ele conhecia
e o mundo que ele temia. Mas, mais do que o medo de ser rejeitado, mais do
que o receio de ser visto, havia algo que queimava em seu interior: o senhor
Seno. Ele precisava encontrar o senhor, precisava saber onde ele estava. Se o
senhor Seno estava em perigo, ele não poderia mais esperar.
Ele disse isso para si mesmo, suas palavras sendo quase um sussurro perdido no
vento. Cada passo foi mais difícil que o anterior. Ele se forçou a seguir em frente,
mesmo que o peso de suas inseguranças o puxasse para trás. Ele sabia que
estava fazendo algo arriscado, mas o amor que sentia pelo senhor Seno, a
necessidade de
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encontrá-lo, era maior do que qualquer medo.
Mas algo o incomodava, algo que ele não podia ignorar: o mundo ao seu redor
parecia tão vivo, tão colorido, mas ele ainda se sentia como uma sombra. Ele
não pertencia a esse mundo. Ele não era como os outros. Ele era um erro da
natureza.
Mas, no fundo, algo em seu peito dizia que talvez ele estivesse começando a
entender que, apesar de tudo, o senhor Seno estava certo. Talvez ele fosse mais
do que acreditava ser. Talvez o mundo lá fora fosse hostil, mas ele não estava
mais sozinho. O senhor Seno sempre lhe dizia que, mesmo em um mundo cruel,
ele merecia algo mais. E, talvez, pela primeira vez, Tollza começava a acreditar
nisso.
O primeiro passo tinha sido dado. E, com ele, uma nova jornada começava.
Tollza caminhava com passos silenciosos, a mata ao seu redor vibrando com
sons que ele nunca havia ouvido de perto. O vento soprava leve, e o pôr do sol
tingia as folhas com tons dourados. Cada detalhe do mundo externo era um
misto de beleza e desconforto para ele. O cheiro úmido da floresta, o chão
irregular, a vastidão do céu sem a proteção das paredes da caverna… tudo
parecia grande demais.
Foi então que ele notou um arbusto se mexendo de forma estranha. Algo
pequeno se agitava ali dentro, e Tollza parou, observando com paciência. Seus
olhos acompanharam cada movimento, atento, esperando para ver o que
surgiria. Ele não sentia medo, apenas curiosidade misturada com uma leve
desconfiança.
Então, um coelho saltou para fora. Pequeno, de pelo acinzentado e olhos escuros,
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movendo-se com rapidez e leveza. Tollza já havia visto imagens de coelhos em
livros, sabia sobre suas características, mas vê-lo ali, vivo e real, era diferente.
Ele notou a forma como o nariz do animal se movia rapidamente, farejando o
ambiente, e como seus músculos pareciam sempre prontos para correr. Era uma
criatura frágil, feita para fugir.
Ele se agachou levemente, estendendo uma mão com cautela. Não porque
queria tocá-lo, mas porque queria testá-lo. Como reagiria? Quanto tempo levaria
para percebê-lo? Mas antes que pudesse ver qualquer reação…
Tollza permaneceu onde estava, observando. Seus olhos seguiram a cena com
frieza, absorvendo os detalhes sem reação exagerada. Ele não se assustou. Não
se encolheu. Apenas confirmou o que já sabia: o mundo era um lugar cruel.
As palavras que lia nos livros não tinham exagerado. Fora da caverna, a vida e a
morte caminhavam juntas, e apenas aqueles que fossem fortes sobreviveriam.
Não havia espaço para fragilidade.
Com movimentos calculados, sem pressa, Tollza se afastou para trás de uma
árvore, escondendo-se apenas o suficiente para observar sem ser visto. Ele
queria ver quem estava por trás daquela flecha.
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o caçador a limpasse rapidamente e a guardasse de volta na aljava.
Sem perder tempo, Tollza pegou sua mochila, o arco e as flechas, colocando-os
em suas costas. A sobrevivência exigia prudência, e ele não deixaria nada útil
para trás. Então, seus olhos se voltaram para um pequeno lago ali perto. A água
era cristalina, refletindo o brilho do céu escuro que começava a surgir com o cair
da noite.
Ele segurou a garota pelos braços e a arrastou até o lago. Amarrou-a a uma
rocha firme, garantindo que ela não fugiria quando acordasse. Depois disso,
afastou-se um
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pouco e começou a preparar uma fogueira. As chamas logo iluminaram a área,
lançando sombras tremulantes na superfície da água e nas árvores ao redor.
Com um movimento ágil, Tollza pegou uma pequena faca que encontrou na
mochila da garota e começou a tirar a pele do coelho. Seus movimentos eram
rápidos e precisos, como se já tivesse feito aquilo muitas vezes antes. Após
remover a pele, ele lavou a carne no lago e a atravessou com um graveto
resistente. Depois, posicionou a carne sobre o fogo, deixando que o calor
começasse a assá-la lentamente.
Enquanto esperava, Tollza lançou um olhar para a garota amarrada. Quando ela
acordasse, ele teria perguntas. E esperava que ela tivesse respostas sobre o
paradeiro do Senhor Seno.
Atrás dele, um leve gemido chamou sua atenção. A garota ruiva começou a
despertar. Seus olhos se abriram lentamente e, ao perceber que estava
amarrada, seu corpo entrou em alerta. Ela tentou se soltar, forçando as cordas,
mas Tollza, sem se virar, disse em um tom calmo:
— Isso é inútil.
A garota estacou e olhou ao redor, tentando entender a situação. Seu olhar caiu
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sobre Tollza, mas ele continuava de costas para ela, ocupado cortando a carne
com
a pequena faca que pegara em sua mochila. Mesmo sem ver seu rosto, a
presença
dele a inquietava. Seu jeito frio fazia com que ela sentisse um misto de cautela e
curiosidade.
A garota observou melhor a fogueira e o coelho assado. O aroma era tão bom
que
sua boca salivou automaticamente. Ela não comia há dias. O modo como Tollza
preparou a comida, com tanta eficiência, a impressionou. Quem era esse garoto
estranho e habilidoso?
— Sim! Eu não como faz dias! — disse ela imediatamente, sem hesitação.
A garota hesitou. Não gostava de negociações assim, mas a fome falava mais
alto.
Engoliu seco e assentiu.
— Certo... Pergunte.
— Você viu um senhor mais idoso? Cabelos longos e brancos, barba longa
branca,
pele enrugada?
Tollza virou levemente a cabeça para o lado, mas sem permitir que ela visse seu
rosto.
— Feche os olhos.
Tollza pegou a faca e cortou as cordas que a amarravam à rocha. Ele colocou a
metade da carne diante dela e se afastou, voltando a sentar-se na fogueira, sem
nunca expor seus olhos.
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— Pode abrir.
A garota abriu os olhos devagar, checando se estava livre. Então, sua atenção foi
tomada pela carne quente diante dela. Sem pensar duas vezes, pegou a comida
e começou a devorar. O sabor era maravilhoso.
— Isso... Isso é a melhor coisa que já comi! — exclamou entre mordidas, sem
nem se importar em parecer educada.
Enquanto mastigava, seus olhos voltaram para Tollza, que comia calmamente.
Quem era esse garoto? Ele parecia misterioso, cuidadoso e... perigoso. Mas, ao
mesmo tempo, ele a ajudou, cozinhou para ela e sequer tentou machucá-la. Ele
poderia ter a deixado para morrer, mas não o fez. Isso a deixava intrigada.
A garota sentiu um arrepio. Aquilo não respondia nada, mas, ao mesmo tempo,
dizia muito. E por algum motivo... ela sentia que essa noite era apenas o começo
de algo muito maior.
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A carne do coelho já estava quase toda consumida, e a fogueira queimava
suavemente à frente de Tollza. A garota, que ele até então chamara apenas de
"garota", se levantou com esforço e se aproximou da luz da fogueira. Ela estava
visivelmente hesitante, os ombros encolhidos contra o frio da noite.
"Não se aproxime", Tollza ordenou com a voz firme, seus olhos fixos nas chamas.
Ela parou, mas a expressão em seu rosto não era de medo. Era um olhar
confuso. "Tá tão frio", ela resmungou, tentando disfarçar o tremor na voz. "Eu só
queria me aquecer."
A garota deu uma risada nervosa, cruzando os braços. "Eu não tenho casa."
Tollza não disse nada. O silêncio entre eles se estendeu, quebrado apenas pelo
estalar da fogueira. Ela, no entanto, não desistia.
"Você está o tempo todo de costas pra mim... quando você se virou, me mandou
fechar os olhos. É por causa da sua aparência, não é?" A pergunta dela era
direta, mas havia uma curiosidade genuína por trás da fala.
Tollza manteve o silêncio, suas mãos ao redor da faca, ainda com a lâmina
reluzente. "Isso não importa."
Ela insistiu, agora com um tom mais brincalhão. "Será que é por causa de
alguma cicatriz ou, quem sabe, você é feio e não quer que eu veja? Não se
preocupe, eu não me importo com isso." Ela deu um sorriso travesso, tentando
aliviar a tensão.
O ar se tornou denso. Tollza sentiu uma pontada de raiva em seu peito. "Se
vocênão parar de falar sobre isso, vou te matar", ele disse, sem mudar de
postura.
A garota deu um pequeno pulo de susto, mas logo se recompor. "Se fosse pra
me matar, você já teria feito isso, certo? Afinal, você me salvou e me deu
comida." Ela parecia, de alguma forma, segura de sua conclusão.
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Tollza, em um suspiro exasperado, respondeu: "Eu só fiz isso para perguntar
sobre o
senhor Seno."
"Eu sou Luna", disse a garota de repente, rompendo o silêncio. "Meu nome é
Luna."
Tollza apenas ignorou a apresentação, o olhar fixo no fogo que crepitava. Ele não
queria mais saber. O que ele queria, e precisava, era encontrar o senhor Seno.
Mas Luna não parava de falar. Ela continuava a tagarelar sobre tudo e nada, sua
voz
insistente se erguendo como uma tentativa de preencher o vazio entre eles.
Tollza
estava começando a ficar impaciente, mas ele não se virou, nem mesmo olhou
para
ela.
Então, com um movimento brusco, ele se levantou. Luna deu um pequeno grito
e
deu um passo atrás, seus olhos agora fixos nele, mas Tollza não deu atenção.
Luna engoliu em seco, sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Ela se
arrepiou ao ver a tensão em sua postura. O ar parecia mais pesado agora.
"Depois que eu me virar, você vai entender", ele completou, já começando a se
virar
lentamente.
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Quando finalmente se virou por completo, o brilho de seus olhos era tudo, nada
mais importando. Seus olhos eram como dois buracos negros, com pupilas
verticais vermelhas brilhando de forma sobrenatural. O contraste com a
escuridão da noite fazia com que a luz da fogueira se refletisse de maneira quase
cruel.
Tollza sentiu uma dor no peito, como se uma lâmina tivesse sido fincada nele.
Ele sentiu aquela decepção se infiltrar lentamente, um veneno no fundo de sua
alma. Era isso que o mundo tinha a oferecer? Olhares de medo, repulsa, e nojo?
Ele não pertencia aqui.
"Eu sou só uma aberração", pensou ele, enquanto sentava novamente perto da
fogueira. A tristeza e o peso da solidão o consumiam novamente. Ele havia
esperado algo mais, talvez alguma resposta, mas agora sabia que era isso o que
tinha para ele lá fora.
Tollza fechou os olhos, respirando fundo. Ele sabia que isso aconteceria. O medo,
o nojo, a fuga. Era o único destino que ele tinha.
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O vento assobiava entre as árvores, carregando o cheiro de madeira queimada e
carne assada. As brasas da fogueira brilhavam como olhos adormecidos,
enquanto Tollza permanecia imóvel, mergulhado em seus próprios
pensamentos.
Era isso que ele era, no final das contas. Algo que despertava medo. Algo que
não deveria existir.
Ele sempre soube que o mundo era um lugar cruel, mas talvez nunca tivesse
entendido o quanto.
Até agora.
Houve um tempo em que ele sonhou… ainda pequeno, ainda ingênuo. Ele
olhava para o senhor Seno e se perguntava se um dia poderia existir outro
alguém que o olhasse do mesmo jeito. Sem temor. Sem nojo.
Ele sabia. Sempre soube. Mas lá no fundo, onde nem ele mesmo queria admitir,
uma parte dele esperava… esperava que talvez, só talvez, houvesse alguém que
não reagisse assim.
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Ele não pertencia a esse mundo. Nunca pertenceria.
Seu coração batia forte no peito, não por medo, mas por raiva. Raiva de si
mesmo
por ainda se importar.
•••
Luna se encolhia atrás das árvores, o tronco áspero pressionado contra suas
costas
enquanto seus olhos permaneciam cravados no garoto perto da fogueira.
Ela viu.
Ela viu aqueles olhos e soube, no mesmo instante, que ele não era normal.
Luna apertou os próprios braços. Uma parte dela dizia para correr e nunca mais
olhar para trás. Mas outra parte, mais baixa, mais incômoda, sussurrava algo
42
diferente.
Ela sentiu…
Segurança.
Foi a primeira vez em muito tempo que ela sentiu que estava segura perto de
alguém.
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Ela queria acreditar que ele era um monstro. Queria acreditar nisso porque seria
mais fácil.
Seria mais fácil pensar que ele era um perigo e que ela precisava fugir.
Mas se fosse verdade… então por que ele parecia tão humano?
Luna apertou os olhos com força, tentando afastar os pensamentos. Mas eles
estavam grudados nela, como um pesadelo que se recusava a sumir.
Luna hesitante saiu da floresta, seus passos lentos e cautelosos. Cada fibra do
seu
ser gritava para que voltasse, mas algo maior a impulsionava para frente. Tollza,
sem olhar para ela, apenas murmurou com frieza:
— Vai embora logo. Se quiser me matar pra expulsar demônios desse mundo,
desiste. Eu que vou te matar antes.
Mas Luna continuou, o olhar fixo na fogueira. Suas pernas pareciam pesadas,
como
se carregassem o peso de tudo o que sempre acreditou. Por fim, ela se sentou ao
lado dele. Tollza sentiu o corpo enrijecer. Isso era um truque. Ele sabia. Humanos
eram previsíveis. Primeiro fingiam aceitação, depois atacavam na primeir
a
44
oportunidade. Já estava preparado para cortar a cabeça dela no instante em que
percebesse qualquer ameaça.
— Eu sei — Tollza respondeu sem emoção, os olhos fixos nas chamas. — O que
você tá fazendo aqui, então?
Luna demorou para responder. Suas mãos estavam fechadas em punhos sobre
as
pernas, como se tentasse controlar a própria respiração.
— Eu também não sei. Mas... você me ajudou. Demônios não fazem isso.
Luna o encarou. Aquele olhar a fazia sentir como se estivesse sendo devorada
sem
que ele precisasse mover um músculo. Mesmo assim, continuou.
Por toda sua vida, ouviu que demônios eram cruéis. Mas... e os humanos? Ela se
lembrou de corpos sendo queimados vivos enquanto os soldados riam. Lembrou-
se
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de uma mãe segurando seu bebê morto porque os nobres decidiram que a
aldeia dela não merecia comida. Lembrou-se de homens em armaduras dizendo
que aquilo era a vontade dos deuses, que estavam purificando a terra dos
pecadores.
Ela não queria pensar nisso. Não queria admitir que, talvez, tudo o que
acreditava estava errado.
— Vai embora logo — Tollza disse, sua voz cortante. — Antes que eu te devore,
jáque sou um demônio.
Luna sabia que era ironia, mas sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O olhar
de Tollza era afiado como lâminas. Ele queria que ela fugisse. Queria que ela
provasse que ele estava certo.
Tollza a observava pelo canto dos olhos. Estava convencido. Isso era uma
armadilha. Ela devia estar esperando um momento de vulnerabilidade. Talvez
tivesse aliados escondidos na floresta. Ele devia matá-la logo. Evitar o inevitável.
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Luna não se abalou. Em vez disso, apertou os joelhos contra o peito e murmurou:
"Talvez. Mas não matou."
"Eu nasci em uma vila pequena. Não era rica, mas era confortável. Tínhamos
comida, um lar quente... Eu vivia lá com minha mãe e meu pai. Era uma vida
simples, mas feliz. Até que... tudo mudou."
"Eu tinha 9 anos quando aconteceu. Monstros atacaram a vila. Criaturas bestiais,
enormes, famintas por carne humana. Eu me lembro dos gritos, do cheiro de
sangue queimado. Me lembro do meu pai..." Sua voz vacilou. "Ele lutou para nos
proteger. Pegou sua velha espada e enfrentou aquelas coisas. Eu o vi ser
rasgado diante dos meus olhos. Minha mãe me abraçou forte, tentando impedir
que eu olhasse, mas eu vi... Eu vi tudo."
Seus olhos brilharam com uma fúria contida. Ela respirou fundo antes de continuar.
"Os soldados disseram que queriam pagamento pela 'ajuda'. Mas éramos uma
vila pobre. O que tínhamos não valia nada para eles. Então... decidiram pegar o
que
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queriam à força." Sua voz se tornou um sussurro quebrado. "Eles mataram todos
os homens restantes. E as mulheres... levaram para se divertirem."
Tollza viu os punhos dela se apertarem, os nós dos dedos brancos pela força com
que cerrava as mãos. Sua voz tremeu ao continuar.
"Minha mãe correu comigo nos braços. Correu sem parar. Mas eles nos
seguiram. Com seus cavalos, seus cães... Nos caçaram como se fôssemos presas
em uma caça esportiva. Quando chegamos ao fim do caminho, havia apenas um
penhasco diante de nós. Ela sabia que não havia saída. Então, antes que
pudessem alcançá-la... Ela me jogou no rio abaixo."
O fogo crepitou mais alto quando uma brisa cortante soprou pela clareira. Luna
abraçou a si mesma, tremendo. "Enquanto a correnteza me levava, eu olhei para
trás. Vi os cães avançarem sobre ela. Vi aqueles malditos soldados rindo
enquanto... enquanto os animais a despedaçavam. Ela gritou até o último
segundo." Suas palavras desmoronaram, e um soluço escapou de sua garganta.
Lágrimas escorriam silenciosas pelo seu rosto sujo. Ela não fez esforço para
enxugá-las.
Tollza a observava. Ele não entendia. Qual era o propósito disso? O que ela
queria dele? Não parecia que ela estivesse inventando, não parecia que
estivesse tentando enganá-lo. A dor em seus olhos era real. O peso de suas
palavras era real.
Mas por quê? Por que estava contando aquilo para ele?
Ele permaneceu em silêncio, esperando, analisando. Mas uma coisa era certa:
aquele mundo era cruel. E ele, de todas as pessoas, já deveria saber disso
melhor do que ninguém.
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O silêncio entre os dois se estendia, cortado apenas pelo crepitar da fogueira. A
brasa consumia a madeira, espalhando um brilho alaranjado pela clareira, e o
olhar de Tollza permanecia fixo nas chamas, como se a resposta para sua dúvida
estivesse ali. Luna, por outro lado, mantinha-se sentada, abraçando os próprios
joelhos, como se esperasse que ele dissesse algo. Mas ele não dizia. Ele
sóobservava. E pensava.
"Por que você voltou?" Tollza finalmente quebrou o silêncio, sem desviar o olhar
da fogueira.
Luna ergueu a cabeça, piscando como se a pergunta tivesse puxado ela para
fora dos próprios pensamentos. "Já falei, você me ajudou. E eu queria..." Ela
parou, mordendo o lábio inferior. "Eu queria agradecer."
Tollza riu. Não de felicidade. Não de surpresa. Foi uma risada curta, fria e cética.
"Você não faz sentido. Nenhum humano faz isso."
"E o que exatamente humanos deveriam fazer?" Luna cruzou os braços, o tom
levemente irritado. "Gritar? Fugir? Pegar uma tocha e tentar me queimar viva?"
"Sim." Tollza se virou para encará-la de lado, seus olhos demoníacos brilhando na
penumbra. "Porque é isso que sempre fazem."
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E essa era a parte que o incomodava mais.
Tollza estreitou os olhos, analisando cada detalhe dela. A forma como os ombros
estavam tensos, como os dedos estavam crispados contra os braços, como sua
respiração ainda parecia instável. Ela estava com medo. Muito medo. Mas
mesmo
assim, continuava ali. Não fugia. Não atacava. Não tentava enganá-lo.
"Então como sabe que não estou apenas esperando a hora certa pra matar você?"
Tollza queria continuar acreditando que aquilo era uma armadilha. Que ela
estava ali
esperando um momento de distração para enfiar uma faca em sua garganta.
Que
cada palavra dita era cuidadosamente calculada para fazê-lo abaixar a guarda.
Mas quanto mais ela falava, mais difícil era manter essa crença. E isso o deixava
irritado.
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Ele desviou o olhar, encarando a floresta ao redor. "Vá dormir. Amanhã, você vai
embora."
Luna suspirou, mas não discutiu. Apenas deitou-se perto da fogueira, mantendo
certa distância dele. Tollza a observou pelo canto dos olhos enquanto ela
fechava os próprios, mas ele sabia que, assim como ele, ela não dormiria tão
cedo.
— Você não dorme? — Luna perguntou, a voz baixa, como se temesse quebrar a
frágil paz ao redor.
Tollza não respondeu de imediato. Ele poderia mentir, poderia dizer que nunca
dormia, que não precisava disso, mas preferiu o silêncio por um instante antes
de soltar, seco:
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Luna desviou o olhar. O frio da noite apertava, e ela se encolheu, abraçando os
próprios joelhos. Não tinha um cobertor, apenas a roupa surrada que usava há
dias, e o cansaço fazia seus olhos pesarem. Mas ela se recusava a se entregar ao
sono completamente.
Tollza não respondeu. Ele sabia que o fogo era útil, mas não essencial para ele.
JáLuna parecia precisar daquele pequeno pedaço de calor e luz no meio da
escuridão da floresta. Ainda assim, ele não se moveu. Se ela quisesse mais
lenha, que buscasse.
Os minutos se estendiam, e Luna, por fim, não conseguiu mais lutar contra o
próprio corpo. Com um último suspiro trêmulo, ela se entregou ao sono, os
braços apertados ao redor das pernas. A chama da fogueira crepitava baixo,
lançando uma luz alaranjada em seu rosto sereno.
Tollza continuou acordado, olhos fixos nela. O sono era um luxo que ele não
podia se permitir. Não naquela noite. Não ao lado de alguém que ainda podia ser
uma ameaça.
A manhã chegou sem aviso, rompendo a escuridão com tons dourados que
filtravam pelas copas das árvores. A fogueira, agora um amontoado de brasas
moribundas, soltava fios de fumaça que se dissipavam no ar fresco da floresta.
Tollza já estava acordado há algum tempo, sentado em silêncio, observando o
horizonte como se esperasse que algo surgisse dele. Luna, encolhida contra um
tronco próximo, abriu
52
os olhos lentamente.
Ela piscou algumas vezes, se acostumando com a claridade, e então olhou para
Tollza. Ele sequer lançou um olhar em sua direção, como se sua presença não
tivesse importância alguma. Ainda assim, ela se mexeu, abraçando os próprios
joelhos, sem saber se deveria falar ou apenas permanecer quieta.
— Bom dia... — Sua voz era hesitante, como se não soubesse se ele a deixaria
terminar a frase.
Tollza não respondeu. Apenas manteve os olhos fixos em algum ponto distante,
como se ela fosse o vento sussurrando entre as folhas.
Luna suspirou e desviou o olhar para a fogueira quase extinta. Seu estômago
roncou, lembrando-a de que ainda estava faminta. Sem querer demonstrar
fraqueza, ela tentou ignorar, mas Tollza ouviu.
— Se quer comida, vá caçar. — Sua voz cortou o ar como uma lâmina afiada.
Luna sentiu vontade de retrucar, mas sabia que ele não ligava. Ele era frio,
impenetrável, e qualquer tentativa de criar uma conexão parecia inútil. Ainda
assim, algo nela não queria desistir.
Ele finalmente olhou para ela, mas seus olhos não demonstravam nada além de
indiferença.
O silêncio caiu entre os dois. Luna sentiu um nó apertar sua garganta. Não era só
a fome ou o cansaço. Era a solidão que sempre a acompanhava. Estava
acostumada
53
com isso, mas, por algum motivo, dessa vez doía mais. Talvez porque, por um
breve momento, ela sentiu que havia alguém ali, mesmo que esse alguém fosse
alguém como Tollza.
Tollza se levantou, ajeitando a aljava nas costas e lançando um olhar frio para
Luna.
"Vai embora."
Luna hesitou, abraçando os próprios joelhos. "Eu... Eu não tenho para onde ir."
Ela baixou a cabeça. O silêncio entre os dois ficou pesado, apenas o som distante
do vento balançando as folhas quebrava a tensão.
Luna permaneceu sentada, sem responder. Seu olhar estava perdido, mas havia
uma firmeza silenciosa em sua decisão. Ela não ia embora.
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"Me devolve meu arco," pediu, com firmeza.
Ela bufou, irritada. "Já disse que não quero te matar. Você é surdo ou só burro
mesmo?"
Tollza arqueou uma sobrancelha. "E eu já disse que não acredito em você."
Tollza acompanhou sua movimentação, sem desviar o olhar. Ele esperava que
ela falhasse. Que ela voltasse derrotada e faminta, provando que era tão fraca e
inútil quanto ele pensava. Mas conforme os minutos passavam, ele percebeu
que havia cometido um erro de julgamento.
Luna se movia com destreza pela floresta, seus passos leves e precisos. Ela
escutava atentamente os ruídos da natureza, os estalos sutis entre as árvores, a
respiração das criaturas escondidas. Tollza a viu parar, fixando o olhar em algo
àfrente. Com um movimento rápido e fluido, ela ergueu a lança improvisada e a
lançou com precisão cirúrgica.
Ela jogou o coelho na frente dele e sorriu de lado. "Acho que isso prova que não
sou tão inútil assim, não é?"
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Tollza olhou para o animal caído e soltou um riso seco. "Só um coelho? Você
jámatou um ontem. É só isso que sabe fazer?"
— Você é horrível.
Luna parou por um momento, estreitando os olhos para ele antes de resmungar:
— Cala a boca.
— Já esqueceu que fui eu que cozinhei o coelho de ontem? — Sua voz carregava
desdém.
Luna suspirou derrotada. Ela realmente não podia negar. O coelho que Tollza
preparou foi uma das melhores coisas que já comeu. Engolindo o orgulho, ela
parou de cortar e pegou o coelho, caminhando até Tollza. Sem hesitar, jogou o
animal nos pés dele.
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Tollza olhou para o coelho e depois para Luna, sem mudar sua expressão apática.
— Não.
— Por quê?!
— Você é um idiota.
— Espera eu me limpar!
— Você não vai comigo — retrucou Tollza, ríspido, sem nem olhar para trás.
Luna apressou-se até o lago, limpando as mãos na água o mais rápido que pôde.
Com um sorriso determinado, ela se levantou e correu para alcançar Tollza.
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Tollza não respondeu, apenas continuou andando. Luna tomou o silêncio dele
como um sim e, satisfeita, acelerou o passo para acompanhá-lo.
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