Vida
Já chega. Já chega, Anabela. É
muito tempo. É muito tempo a viver
com isto, já não sei quanto. Dez, doze
anos, é muito tempo. Agora eu sei. Eu
sei que o que se passou nessa noite
mudou toda a minha vida. Agora eu
vejo, claramente, como um instante, um
momento apenas, pode mudar tudo. E
nessa altura não liguei. Achei que não
era importante, que se nessa noite não
tinha acontecido, noutra noite a seguir
ia acontecer. Mas essa noite não veio.
Porque não calhou, às vezes metiam-se
outras coisas ou pessoas pelo meio,
depois cada um foi para seu lado e não
te vi mais, Anabela. Sei de ti por
amigos, às vezes calha em conversa.
Fala-se de ti e sempre se lembra
a tua beleza, quase lendária. Sempre
fascinou toda a gente a tua beleza, o teu
rosto fino e luminoso, o teu corpo
felino, lindo, de mulher. Como um
sonho, de tão doce que eras, quando tu
sorrias e deixava de haver outras coisas
no mundo que não fossem o teu sorriso.
Quando falavas, e de tão doce que eras,
as tuas palavras soavam como carícias
de crianças.
Nessa noite falámos durante
horas. Por vezes sabe bem falar, e
contigo falei como se a noite nunca
fosse acabar e fosse possível ficar
interminavelmente ali, na tua sala, a
olhar pela varanda para as luzes da
cidade. E bebemos, e fumámos, fomos
bebendo devagarinho o vinho que
tinhas comprado para o jantar que
querias dar no fim-de-semana. E fomos
respirando a noite, e a noite foi
entrando dentro de nós e subindo por
dentro de nós. Talvez afinal tenha sido
isso, tudo era perfeito de mais. Tu eras
perfeita, e a noite e o vinho e o fumo
também.
Quando te beijei, era a primeira
vez , senti que nunca antes tinha beijado
ninguém assim. Arrepio-me só de
pensar nisso, meu Deus, foi depois
desse beijo, porque é que depois a noite
se tornou confusa, porque é que o vinho
e o fumo turvaram tudo de repente e
nos fizeram trôpegos, e nos tiraram o
sentido? Despimo-nos não sei como, já
qualquer gesto era difícil, e deitámo-nos
os dois na tua cama. Devemos ter
adormecido imediatamente.
Acordei com o sol a bater na
minha cara. Percebi que estava sozinho
na tua cama, na tua casa e que estava
com uma ressaca de antologia. Ouvi
barulho na cozinha e fui espreitar à
porta. Tu estavas de pé, com um roupão
de banho a falar com a tua empregada.
As tuas filhas também tinham acordado
e deviam estar pertubadas por estar uma
pessoa estranha na cama da mãe. Só me
pude vestir, apressadamente, e quando
voltaste era óbvio que o melhor era eu
sair de fininho. Assim fiz, sem muitas
ondas. Não sem te dar um beijo na face
e compreender que a tua dor de cabeça
devia ser do mesmo tamanho da minha.
Era outra coisa que partilhávamos
agora, depois de ter partilhado o vinho
e a cama, que nessa noite ficou casta e
sem mancha.
A dor de cabeça passou. Muito
mais tarde nesse dia, no seguinte ou no
outro, não sei. E à medida que a dor
passava ia aparecendo dentro de mim
uma sensação de vazio e de perda que
fiz por esquecer. Fui seguindo os
caminhos doutras casas e doutras
camas. Tentei ligar-te mas não estavas,
uma vez procuraste por mim, eu tinha
ido para fora, disseram-me mais tarde.
E o tempo passou, dez anos,
mais, não pensei muito no assunto. Mas
por dentro não foi assim. No fundo de
mim, agora eu sei que não foi assim.
Que agora percebo porque sempre me
senti inquieto, porque nunca tive paz.
Porque fiz da minha vida uma
confusão, porque procurei tanta gente
com tanta ânsia e, mesmo assim, ainda
me sinto incompleto,
irremediavelmente. Ao olhar para um
novo rosto na minha cama, eu esperava
era encontrar o teu rosto. E os teus
ombros, e o teu peito. E, acima de tudo,
a tua pele, a tua coisa, de que nunca
senti o calor de dentro, em que nunca
entrei, ficando estupidamente à porta.
Estupidamente, estúpido, palerma,
burro! Dos nomes que me chamo estes
são os mais simpáticos, os outros são
todos piores.
Ao fim destes anos, agora que
tudo está claro por fim, pensei em
procurar-te. Mas não o fiz. Não porque
me falte coragem, já não preciso de
coragem, que o desespero faz as vezes
dela, mas não te procurei porque sei que
tu já não és a mesma. Como eu não sou
o mesmo. Como tudo muda, como é
impossível voltar para trás. E quando te
visse, se te visse, e quando falasse para
ti, haveria dez anos da vida de cada um
a afastar-nos daquela noite. E se me
forçasse, se nos forçássemos a reviver
tudo aquilo, ia sentir bem de mais que
era mesmo isso, que era tudo falso e
forçado.
Por isso eu berro. Berro, grito e
bato com a cabeça nas paredes como
um louco. Haaahh! Dói por dentro esta
impotencia, dói por dentro este muro,
esta impossibilidade de voltar atrás e
refazer um momento. Só um momento,
só um gesto, era tudo que era preciso.
Hhaaaahh! Estúpido, paneleiro, cabrão!
Não vês que não terás mais paz, por
mais noites que tenhas? Que se não
consegues viver com isto é melhor
acabares com tudo? Hhaaaaaahhh!
Todos os teus falhanços, tudo aquilo de
que te arrependes, já não o podes
mudar, está feito, está feito! Querias
olhar para trás e poder dizer contente:
foi bom. E que o que foi mesmo bom
fizesse esquecer o que ficou a faltar, o
que ficou por fazer. Mas não é assim. A
realidade bate forte e é dura e é fria
como as quinas dos passeios. E não a
podes mudar, nada do que aconteceu,
nada, nada, nada. Hhhhaaaaaaahhh! É
muito, é muito. É muita coisa. Passou
muita coisa, passou muito tempo. E
agora vês como tudo mudou a partir de
um momento, um só momento.
Hhhaaaahh!
Anabela, a ti, onde quer que
estejas, perceba-se ou não como eras
bonita por detrás da tua cara de hoje,
desejo que sejas muito feliz. E que
nunca te tenhas arrependido de nada
que te faça os teus dias impossíveis
como os meus. E a tua solidão
insuportável. Que eu não aguento mais.
Já chega. Já chega, vê como para mim
já chega, Anabela! Hhhhaaaahh!
Hhhhaaaaaaaahhh!
Hhhhhhhaaaaaaaaaaaahhhhhhhh!